Lc 12,1-3
1Enquanto isso, os homens se tinham reunido aos milhares em torno de Jesus, de modo que se atropelavam uns aos outros. Jesus começou a dizer a seus discípulos: “Guardai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. 2Porque não há nada oculto que não venha a descobrir-se, e nada há escondido que não venha a ser conhecido. 3Pois o que dissestes às escuras será dito à luz; e o que falastes ao ouvido, nos quartos, será publicado de cima dos telhados. (= Mt 10,19s.26-33; 12,31s = Mc 3,28ss)
Teofilacto(séc. XI). Os fariseus procuravam surpreender Jesus na palavra, para afastar dele os povos; mas isso se volta ao contrário: pois os povos vinham ainda mais, reunidos aos milhares, tão desejosos de aderir a Cristo que se comprimiam uns aos outros: tão forte é a verdade, e o engano é fraco em toda parte; por isso se diz: ajuntando-se, porém, muitas turbas, de modo que se atropelavam umas às outras, começou a dizer aos seus discípulos: acautelai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia.
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Lc 12,4-7
4Digo-vos a vós, meus amigos: não tenhais medo daqueles que matam o corpo e depois disso nada mais podem fazer. 5Eu vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem poder de lançar no inferno; sim, eu vo-lo digo: temei a esse. 6Não se vendem cinco pardais por dois asses? E, entretanto, nem um só deles passa despercebido diante de Deus. 7Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois, mais valor tendes vós do que numerosos pardais.
São Cirilo de Alexandria(séc. V). Pois esta palavra não parece convir simplesmente a quaisquer pessoas, mas àqueles que amam a Deus de toda a mente: aos quais convém dizer: quem nos separará da caridade de Cristo? Mas os que não são tais são instáveis, e prontos para desertar. Ora, o Senhor diz: ninguém tem maior amor do que este: dar alguém a sua vida por seus amigos. Como, pois, não seria totalmente inconveniente não retribuir a Cristo o que dele recebemos?
Santo Ambrósio(séc. IV). Pois a morte é fim da natureza, não da pena; e por isso conclui que a morte é a cessação do suplício corporal, mas a pena da alma é perpétua, e que só a Deus se deve temer, a cujo poder a natureza não prescreve, mas antes lhe está sujeita: assim vos digo: a este temei.
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Lc 12,8-12
8Digo-vos: todo o que me reconhecer diante dos homens também o Filho do Homem o reconhecerá diante dos anjos de Deus; 9mas quem me negar diante dos homens será negado diante dos anjos de Deus. 10Todo aquele que tiver falado contra o Filho do Homem obterá perdão, mas aquele que tiver blasfemado contra o Espírito Santo não alcançará perdão. 11Quando, porém, vos levarem às sinagogas, perante os magistrados e as autoridades, não vos preocupeis com o que haveis de falar em vossa defesa, 12porque o Espírito Santo vos inspirará naquela hora o que deveis dizer”.
Eusébio de Cesareia(séc. IV). Que coisa, pois, será mais gloriosa do que o próprio Verbo unigênito de Deus testemunhar por nós no juízo divino, e pelo próprio efeito manifestar o sinal da recompensa do testemunho na alma daquele a quem se dá o testemunho? Pois não dará testemunho permanecendo fora daquele a quem se presta o testemunho, mas habitando nele e enchendo-o com sua luz. Ora, depois de os ter fortalecido com boa esperança por tão grandes promessas, de novo os induz com ameaças mais terríveis, dizendo: mas quem me negar diante dos homens será negado diante dos Anjos de Deus.
São João Crisóstomo(séc. IV). Há ainda outros modos de negação, que Paulo descreve dizendo: confessam conhecer a Deus, mas o negam com as obras; e ainda: se alguém não tem cuidado dos seus, e especialmente dos de sua casa, negou a fé, e é pior que um infiel; também: fugi da avareza, que é idolatria. Havendo, pois, tantos modos de negação, é claro que há outros tantos de confissão; e todo aquele que os observar ouvirá aquela bem-aventurada voz, com a qual Cristo louvará todos os que o confessaram. Mas atenta à cautela das palavras. No grego, com efeito, diz quem quer que me confessar, mostrando que não por próprias forças, mas ajudado pela graça de cima, alguém confessará a Cristo. Do que nega, porém, não disse em mim, mas a mim; pois, destituído da graça, nega; contudo é acusado, porque a destituição ocorre por causa daquele que a abandona.
Santo Agostinho, de Verb. Dom(séc. IV–V). Ou, de outro modo. Se aqui se dissesse: quem blasfemar qualquer blasfêmia contra o Espírito Santo, deveríamos entender toda blasfêmia; mas, porque se disse quem blasfemar contra o Espírito Santo, entenda-se aquele que blasfemar não de todo modo, mas de tal modo que jamais lhe possa ser perdoado: assim, com efeito, se disse: Deus a ninguém tenta, isto é, não de todo modo, mas de certo modo de tentação. Digamos, pois, qual seja este modo de blasfemar contra o Espírito Santo. O primeiro benefício dos crentes no Espírito Santo é a remissão dos pecados: contra este dom gratuito fala o coração impenitente; a própria impenitência, pois, é a blasfêmia do Espírito, a qual não se perdoa nem neste século, nem no futuro: porque a penitência alcança neste século a remissão que há de valer no futuro.
São Beda, o Venerável(séc. VII–VIII). Pois, quando somos levados aos juízes por causa de Cristo, devemos oferecer nossa vontade por Cristo; quanto ao resto, na resposta será ministrada a graça do Espírito Santo; por isso se acrescenta: pois o Espírito Santo vos ensinará, naquela mesma hora, o que convém que digais.
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Lc 12,13-15
13Disse-lhe então alguém do meio do povo: “Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança.” 14Jesus respondeu-lhe: “Meu amigo, quem me constituiu juiz ou árbitro entre vós?” 15E disse então ao povo: “Guardai-vos escrupulosamente de toda a avareza, porque a vida de um homem, ainda que ele esteja na abundância, não depende de suas riquezas”.
Santo Ambrósio. Bem, pois, evita as coisas terrenas aquele que descera por causa das divinas, nem se digna a ser juiz de litígios e árbitro de bens, ele que tem o julgamento dos vivos e dos mortos e o arbítrio dos méritos. Deve-se, pois, considerar não o que se pede, mas a quem se pede; nem se deve pensar que, com a alma atenta às coisas maiores, se deva dar ouvidos às menores: por isso, não sem razão, é repreendido este irmão, que pretendia ocupar com coisas corruptíveis o dispensador das coisas celestiais, quando, entre irmãos, não um juiz mediador, mas a piedade deve dividir o patrimônio em litígio: ainda que o patrimônio que os homens devem esperar seja o da imortalidade, não o do dinheiro.
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Lc 12,16-21
16E propôs-lhe esta parábola: “Havia um homem rico cujos campos produziam muito. 17E ele refletia consigo: Que farei? Porque não tenho onde recolher a minha colheita. 18Disse então ele: Farei o seguinte: derrubarei os meus celeiros e construirei maiores; neles recolherei toda a minha colheita e os meus bens. 19E direi à minha alma: ó minha alma, tens muitos bens em depósito para muitíssimos anos; descansa, come, bebe e regala-te. 20Deus, porém, lhe disse: Insensato! Nesta noite ainda exigirão de ti a tua alma. E as coisas que ajuntaste de quem serão? 21Assim acontece ao homem que entesoura para si mesmo e não é rico para Deus”. (= Mt 6,19ss.25-34)
São Basílio Magno(séc. IV). Ora bem, se confessas que essas coisas te vieram por dádiva divina, acaso Deus é injusto por distribuir-nos as coisas desigualmente? Por que tu abundas e aquele mendiga, senão para que tu alcances os méritos de uma boa administração, e aquele seja adornado com os prêmios da paciência? Mas tu, não és um espoliador, ao considerares como próprias as coisas que recebeste para administrar? É do faminto o pão que tu guardas, do nu a túnica que conservas no teu quarto, do descalço o calçado que apodrece em teu poder, do necessitado a prata que possuis enterrada; por isso, causas tantas injustiças quantas poderias dar.
São João Crisóstomo. Pois aqui as deixarás, não só sem obter delas nenhum proveito, mas ainda carregando sobre os próprios ombros o fardo dos pecados. E as coisas que foram por ti acumuladas, muitas vezes cairão nas mãos dos inimigos; mas de ti será exigida conta sobre elas. Por isso segue-se assim é aquele que ajunta tesouros para si e não é rico diante de Deus.
Santo Ambrósio. Em vão, com efeito, ajunta riquezas quem não sabe se delas há de usar: pois não são nossas as coisas que não podemos levar conosco; só a virtude é companheira dos mortos, só a misericórdia nos segue, a qual adquire aos mortos tabernáculos eternos.
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Lc 12,35-40
35“Estejam cingidos os vossos rins e acesas as vossas lâmpadas. 36Sede semelhantes a homens que esperam o seu senhor, ao voltar de uma festa, para que, quando vier e bater à porta, logo lha abram. 37Bem-aventurados os servos a quem o senhor achar vigiando, quando vier! Em verdade vos digo: ele há de cingir-se, dar-lhes à mesa e os servirá. 38Se vier na segunda ou se vier na terceira vigília e os achar vigilantes, felizes daqueles servos! 39Sabei, porém, isto: se o senhor soubesse a que hora viria o ladrão, vigiaria sem dúvida e não deixaria forçar a sua casa. 40Estai, pois, preparados, porque, à hora em que não pensais, virá o Filho do Homem.”
São Gregório de Nissa(séc. IV). Ou de outro modo. Consumadas as núpcias, desposada consigo a Igreja e admitida ela na câmara dos segredos, os anjos aguardavam o retorno do Rei à bem-aventurança natural; e convém que a nossa vida se torne semelhante à deles; para que, assim como eles, vivendo sem malícia, estiveram prontos para receber o regresso do Senhor, assim também nós, vigiando, nos tornemos prontos para a obediência quando ele chegar batendo; pois segue-se: para que, quando ele chegar e bater, imediatamente lhe abram.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos(séc. VI). Ele vem, com efeito, quando se apressa para o juízo; mas bate quando já, pelo incômodo da enfermidade, indica que a morte está próxima. A este abrimos imediatamente, se o recebemos com amor. Pois não quer abrir ao juiz que bate aquele que treme em sair do corpo, e teme ver como juiz aquele de quem se lembra tê-lo desprezado; mas quem está seguro de sua esperança e de suas obras, abre imediatamente ao que bate: porque, ao reconhecer que o tempo da morte próxima chegou, se alegra com a glória da recompensa; por isso se acrescenta: bem-aventurados aqueles servos que, quando o Senhor vier, encontrar vigilantes. Vigia aquele que mantém os olhos da mente abertos para a visão da luz verdadeira; que guarda pela ação o que crê; que afasta de si as trevas do torpor e da negligência.
São Gregório de Nissa. Por causa, pois, desta vigilância a ser observada, o Senhor advertiu acima que estejam os rins cingidos e as lâmpadas acesas: pois a luz posta diante dos olhos afasta a sonolência dos olhos, e os rins apertados pelo cinto tornam o corpo insuscetível ao sono; pois quem está cingido pela castidade, e iluminado por uma consciência pura, permanece sem dormir.
Teofilacto. Ou se cingirá no sentido de que não concede toda a abundância dos bens, mas a contém segundo uma medida certa. Pois quem pode compreender a Deus, quão grande é? Por isso se diz que os Serafins se velam, por causa da excelência do esplendor divino. Segue-se: e os fará sentar-se à mesa, isto é, repousar inteiramente: pois, assim como quem se reclina à mesa faz repousar todo o corpo, assim, na vinda futura, os santos repousarão totalmente. Pois aqui não tiveram repouso do corpo; lá, porém, juntamente com as almas, os corpos espirituais, tendo recebido a incorruptibilidade, gozarão de pleno repouso.
Dionísio Areopagita, ad Titum(séc. V–VI). Entendemos, com efeito, por reclinar-se à mesa o descanso de muitos trabalhos, e a vida sem dano, e a convivência divina na luz e na região dos que vivem; a dádiva copiosa de todos os dons, cumprida com todo santo afeto, segundo a qual se cumprem as alegrias; isto é, pois, o que Jesus fará: reclinálos, dando-lhes perpétuo descanso, e distribuindo-lhes a multidão dos bens; por isso segue-se e, passando, os servirá.
São Gregório Magno. A primeira vigília, pois, é o tempo primeiro da nossa vida, isto é, a infância; a segunda, a adolescência ou a juventude; a terceira, porém, entende-se como a velhice. Quem, pois, não quis vigiar na primeira vigília, guarde a segunda; e quem não quis na segunda, não perca os remédios da terceira vigília: para que quem descuidou de converter-se na infância, ao menos no tempo da juventude ou na velhice volte a si.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Ou de outro modo. Sem que o pai de família saiba, o ladrão perfura a casa: porque, enquanto o espírito dorme quanto à sua própria guarda, a morte, vindo de improviso, invade a habitação de nossa carne; mas resistiria ao ladrão se vigiasse: porque, precavendo-se contra a vinda do juiz, que ocultamente toma a alma, iria ao seu encontro fazendo penitência, para não perecer impenitente. Ora, o Senhor quis que a última hora nos fosse desconhecida por isto: para que, não podendo prevê-la, nos preparemos para ela sem interrupção.
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Lc 12,41-46
41Disse-lhe Pedro: “Senhor, propões esta parábola só a nós ou também a todos?”. 42O Senhor replicou: “Qual é o administrador sábio e fiel que o senhor estabelecerá sobre os seus operários para lhes dar a seu tempo a sua medida de trigo? 43Feliz daquele servo que o senhor achar procedendo assim, quando vier! 44Em verdade vos digo: lhe confiará todos os seus bens. 45Mas, se o tal administrador imaginar consigo: Meu senhor tardará a vir, e começar a espancar os servos e as servas, a comer, a beber e a embriagar-se, 46o senhor daquele servo virá no dia em que não o esperar e na hora em que ele não pensar, e o despedirá e o mandará ao destino dos infiéis.
Teofilacto. Como se dissesse: a parábola acima referida atinge em comum todos os fiéis; mas ouvi o que convém a vós, apóstolos e doutores. Pergunto, pois, quem seja encontrado administrador que tenha em si fidelidade e prudência: pois assim como nas administrações dos bens, seja alguém incauto, sendo fiel ao senhor, seja também prudente e infiel, perecem os bens do senhor; assim também nas coisas divinas é necessária fidelidade e prudência: conheço, com efeito, muitos que cultuam a Deus e são fiéis; mas, porque não podiam tratar prudentemente os negócios eclesiásticos, destruíam não só os bens, mas também as almas, usando contra os pecadores de um rigor indiscreto, com mandamentos imoderados de penitência, ou de uma mansidão inoportuna.
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Lc 12,47-48
47O servo que, apesar de conhecer a vontade de seu senhor, nada preparou e lhe desobedeceu será açoitado com numerosos golpes. 48Mas aquele que, ignorando a vontade de seu senhor, fizer coisas repreensíveis, será açoitado com poucos golpes. Porque, a quem muito se deu, muito se exigirá. Quanto mais se confiar a alguém, dele mais se há de exigir”. (= Mt 10,34ss; 16,2s; 5,25s)
São Beda, o Venerável. Ou de outro modo. Muito é dado, com frequência, também a alguns particulares, aos quais se concede o conhecimento da vontade do Senhor e a capacidade de executar o que conhecem; mas muito mais se confia àquele a quem, junto com a sua própria salvação, se comete também o cuidado de apascentar o rebanho do Senhor. Àqueles, pois, que foram dotados de maior graça, se delinquirem, seguir-se-á maior castigo; mas a mais branda de todas as penas será a daqueles que, além do pecado que contraíram originalmente, nada mais acrescentaram; e, entre os demais que acrescentaram, tanto mais tolerável será ali a condenação de cada um, quanto menor foi aqui a sua iniquidade.
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Lc 12,49-53
49“Eu vim lançar fogo à terra, e que tenho eu a desejar se ele já está aceso? 50Mas devo ser batizado num batismo; e quanto anseio até que ele se cumpra! 51Julgais que vim trazer paz à terra? Não, digo-vos, mas separação. 52Pois de ora em diante haverá numa mesma casa cinco pessoas divididas, três contra duas, e duas contra três; 53estarão divididos: o pai contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora, e a nora contra a sogra.”
São Cirilo de Alexandria. É costume, porém, da sagrada Escritura chamar por vezes fogo aos sermões sagrados e divinos; pois assim como os que sabem purificar o ouro e a prata consomem pelo fogo a sua impureza, assim o Salvador, por meio dos ensinamentos evangélicos, na virtude do Espírito, purifica o entendimento daqueles que creem nele. Este é, pois, o fogo salutar e útil, pelo qual os habitantes da terra, de certo modo frios e apagados por causa do pecado, se aquecem para a vida da piedade.
São Gregório Magno, super Ezech. Ou de outro modo. O fogo é lançado na terra quando a mente terrena, tocada pelo ardor do Espírito Santo, é queimada quanto aos seus desejos carnais; e, inflamada pelo amor espiritual, chora o mal que fez, e assim a terra arde quando, acusando-se a consciência, o coração do pecador se queima na dor da penitência.
São João Crisóstomo. Por meio disto, porém, anunciou um acontecimento futuro. Pois sucedia que, na mesma casa, alguém era fiel, e seu pai queria arrastá-lo para a infidelidade; mas de tal modo prevaleceu a força da doutrina de Cristo, que os filhos abandonavam os pais, e as filhas as mães, e os pais os filhos. Pois aprouve aos fiéis de Cristo não só desprezar as coisas próprias, mas ainda sofrer tudo ao mesmo tempo, contanto que não carecessem do culto da fé. Ora, se ele fosse um homem simples, de onde lhe viria poder cogitar isto: que seria amado pelos pais mais do que os filhos, e pelos filhos mais do que os pais, e pelos maridos mais do que as esposas; e isto não numa só casa, ou em cem, mas em toda a terra: e não só predisse isto, mas também o consumou pela obra.
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Lc 12,54-57
54Dizia ainda ao povo: “Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: Aí vem chuva. E assim sucede. 55Quando vedes soprar o vento do Sul, dizeis: Haverá calor. E assim acontece. 56Hipócritas! Sabeis distinguir os aspectos do céu e da terra; como, pois, não sabeis reconhecer o tempo presente? 57Por que também não julgais por vós mesmos o que é justo?
São Cirilo de Alexandria. Os profetas, com efeito, anunciaram de muitos modos o mistério de Cristo. Convinha, pois, se fossem prudentes, dirigir o olhar para as coisas futuras; nem poderiam ignorar as tempestades futuras depois da vida presente: pois haverá vento e chuva, e um futuro suplício pelo fogo; e isto se significa quando se diz vem a nuvem. Convinha também não ignorar o tempo da salvação, isto é, a vinda do Salvador, pelo qual a piedade perfeita entrou no mundo; e isto se significa quando se diz dizeis que haverá calor. Por isso, em sua repreensão, se acrescenta: hipócritas, sabeis discernir o aspecto do céu e da terra; como, porém, não discernis este tempo?
São Beda, o Venerável. Mas, para que alguns da multidão não alegassem, por ignorarem a leitura profética, não poder discernir o curso dos tempos, acrescenta atentamente: e por que também vós mesmos não julgais o que é justo? Mostrando que eles, ainda que não conheçam as letras, podem contudo, por engenho natural, reconhecer que aquele que fez obras que ninguém mais faria está acima do homem e é Deus: donde, depois das injustiças deste século, há de vir o justo juízo do Criador.
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Lc 12,58-59
58Ora, quando fores com o teu adversário ao magistrado, faze o possível para entrar em acordo com ele pelo caminho, a fim de que ele te não arraste ao juiz, e o juiz te entregue ao executor, e o executor te ponha na prisão. 59Digo-te: não sairás dali, até pagares o último centavo”.
Teofilacto. Depois que o Senhor mostrou a discórdia louvável, ensina a partir daqui a paz louvável, quando diz: quando, porém, fores com o teu adversário ao magistrado, procura, no caminho, livrar-te dele; como se dissesse: quando o adversário te leva ao juízo, procura, isto é, esforça-te por todos os modos, para te livrares dele. Ou procura, isto é, ainda que nada tenhas, toma emprestado, para te livrares dele, para que não te leve diante do juiz; por isso segue-se: para que não aconteça que te leve ao juiz, e o juiz te entregue ao executor, e o executor te lance no cárcere.
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