Lc 21,1-4
1Levantando os olhos, viu Jesus os ricos que deitavam as suas ofertas no cofre do templo. 2Viu também uma viúva pobrezinha deitar duas pequeninas moedas, 3e disse: “Em verdade vos digo: esta pobre viúva pôs mais do que os outros. 4Pois todos aqueles lançaram nas ofertas de Deus o que lhes sobra; esta, porém, deu, da sua indigência, tudo o que lhe restava para o sustento”. (= Mt 24,1-36 = Mc 13,1-37)
Glosa(séc. XII). Depois que o Senhor repreendeu a avareza dos escribas, que devoravam as casas das viúvas, recomenda a esmola da viúva; por isso se diz: Olhando, porém, viu os ricos que lançavam as suas ofertas no gazofilácio.
São Beda, o Venerável(séc. VII–VIII). Como em língua grega phylattin significa guardar, e em língua persa gaza se chamam as riquezas, costuma-se chamar gazofilácio o lugar onde se guardam as riquezas. Era, pois, uma arca com uma abertura em cima, posta junto ao altar, à direita dos que entravam na casa do Senhor, na qual os sacerdotes que guardavam as vítimas lançavam todo o dinheiro que era trazido ao templo do Senhor. Ora, o Senhor, assim como examina os que trabalham em sua casa, assim também olha os que trazem dons; e louva aquele que vê digno, condena o que vê reprovado; por isso segue-se: Viu também uma pobre viúva que lançava duas moedinhas.
São Cirilo de Alexandria(séc. V). Oferecia dois óbolos, que tinha adquirido com suores para o sustento do dia; ou então, ela que cada dia pede o auxílio alheio, dá a Deus, mostrando-lhe a sua pobreza fecunda. Vence, pois, os outros e é coroada por Deus com justa sentença; por isso segue-se: E disse-lhes: Em verdade vos digo que esta pobre viúva lançou mais do que todos.
São Beda, o Venerável. Com efeito, é agradável a Deus tudo o que lhe oferecermos de bom ânimo, ele que pesa o coração, e não a posse, e não considera quanto há no seu sacrifício, mas de quanto se tira; por isso segue-se: Pois todos estes lançaram nas ofertas de Deus do que lhes sobrava; ela, porém, do que lhe faltava, lançou todo o sustento que tinha.
São João Crisóstomo(séc. IV). Deus não olhou para a pouquidade do que foi oferecido, mas para a abundância do afeto. Não é esmola dar pouco de muito; mas é esmola aquela da viúva, que esvaziou toda a sua substância. Se não podes oferecer tanto quanto a viúva, oferece ao menos todo o supérfluo.
São Beda, o Venerável. Em sentido místico, os ricos que lançavam ofertas no gazofilácio significam os judeus orgulhosos da justiça da Lei; a pobre viúva, a simplicidade da Igreja; a qual é chamada pobrezinha, porque lançou fora o espírito de soberba ou os pecados como riquezas do mundo; e viúva, porque seu marido sofreu a morte por ela. Ela lança no gazofilácio duas moedinhas, porque na presença de Deus, junto ao qual se conservam as oblações da nossa obra, apresenta suas ofertas, seja o amor de Deus e do próximo, seja o da fé e da oração: as quais superam todas as obras dos judeus soberbos; pois os judeus, que presumem da sua justiça, lançam nas ofertas de Deus do que lhes sobra; a Igreja, porém, lança todo o seu sustento, porque entende que tudo o que vive é dom de Deus.
Teofilacto(séc. XI). Ou pode-se entender como viúva qualquer alma, privada como que do primeiro marido, a lei antiga, e indigna da união com o Verbo de Deus; a qual, em lugar de penhor, oferece a Deus a fé e a boa consciência; e por isso parece oferecer mais, em palavra, do que os ricos e do que as virtudes morais abundantes dos gentios.
Lc 21,5-8
5Como lhe chamassem a atenção para a construção do templo feito de belas pedras e recamado de ricos donativos, Jesus disse: 6“Dias virão em que destas coisas que vedes não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído”. 7Então, o interrogaram: “Mestre, quando acontecerá isso? E que sinal haverá para saber-se que isso se vai cumprir?”. 8Jesus respondeu: “Vede que não sejais enganados. Muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu; e ainda: O tempo está próximo. Não sigais após eles.
Eusébio de Cesareia(séc. IV). Que as coisas pertencentes à estrutura do templo mereciam ser contempladas, as histórias o manifestam; e até hoje se conservam algumas relíquias, pelas quais se percebem os vestígios do que outrora eram as construções. Mas o Senhor, aos que admiravam as construções do templo, declarou que nele não ficaria pedra sobre pedra; com efeito, diz-se: E, dizendo alguns do templo que estava adornado de boas pedras e de dons, disse: Estas coisas que vedes, virão dias em que não será deixada pedra sobre pedra que não seja destruída. Convinha, com efeito, que aquele lugar, por causa da audácia dos seus cultores, sofresse uma desolação total.
São Beda, o Venerável. A dispensação divina providenciou também que a própria cidade e o templo fossem destruídos, para que alguém, porventura ainda pequenino na fé, vendo aquelas coisas de pé, não fosse arrebatado pela vista, enquanto, atônito, se maravilhava com o rito dos sacrifícios.
Santo Ambrósio(séc. IV). Disse-se, pois, com verdade, do templo feito por mãos humanas, que havia de ser destruído: nada há, com efeito, feito por mãos humanas que a velhice não consuma, ou a força não derrube, ou o fogo não queime. Há, porém, também outro templo, a saber, a sinagoga, cuja estrutura antiga se dissolve com o surgir da Igreja. Há também um templo em cada um, que desaba quando falta a fé, e sobretudo se alguém falsamente alega o nome de Cristo para combater o afeto interior.
São Cirilo de Alexandria. Os discípulos, porém, de modo algum tinham advertido a força das palavras; julgavam, antes, que se tinha falado da consumação do século; e por isso perguntavam em que tempo isso deveria acontecer; por isso segue-se: Interrogaram-no, porém, dizendo: Mestre, quando serão estas coisas, e qual o sinal de quando começarão a acontecer?
Santo Ambrósio. Mateus acrescentou uma terceira pergunta, de modo que os discípulos indagassem tanto os tempos da destruição do templo como o sinal do seu advento e da consumação do século. O Senhor, interrogado sobre quando seria a destruição do templo e qual o sinal do seu advento, ensina sobre os sinais, mas não cuida de dar a conhecer o tempo; segue-se, com efeito, o que ele disse: Vede que não sejais seduzidos.
Santo Atanásio(séc. IV). Visto que nos foram dados por Deus carismas e dogmas que estão acima do homem, a saber, a forma da conduta celeste, a virtude contra os demônios, a adoção, o conhecimento do Pai e o dom do Verbo e do Espírito Santo, o nosso adversário, o Diabo, anda em volta, procurando furtar-nos as sementes da palavra nele semeadas; o Senhor, porém, encerrando em nós os seus ensinamentos como seus preciosos dons, adverte-nos que não sejamos seduzidos. E o Verbo de Deus nos concedeu um grande dom, a fim de que não só não sejamos enganados pelas aparências, mas também discirnamos, pela graça do Espírito, as coisas que porventura estejam ocultas. Com efeito, sendo o Diabo odioso, inventor da malícia, esconde o que ele é, mas finge com astúcia o nome desejado por todos: como se alguém, querendo sujeitar a si filhos alheios, estando ausentes os pais, fingisse o rosto deles e seduzisse os filhos que os desejam. Assim, em cada uma das heresias o Diabo, disfarçado, diz: Eu sou Cristo, e a verdade está comigo; por isso segue-se: Muitos, com efeito, virão em meu nome, dizendo: Eu sou; e o tempo se aproximará.
São Cirilo de Alexandria. Antes da sua descida do céu, surgirão alguns a quem não convém dar assentimento: o Verbo unigênito de Deus quis, quando veio para salvar o mundo, permanecer oculto, para suportar a cruz por nós; mas a sua segunda vinda não será às ocultas, como a primeira, mas terrível e manifesta: descerá, com efeito, na glória de Deus Pai, servindo-o os Anjos, para julgar o mundo na justiça; por isso conclui: Não vades, pois, atrás deles.
Tito de Bostra(séc. IV). Ou talvez não fale de falsos cristos que viriam antes da consumação, mas daqueles que existiram no tempo dos apóstolos.
São Beda, o Venerável. Muitos, com efeito, ao aproximar-se a destruição de Jerusalém, apareceram como chefes que diziam ser cristos e que o tempo da liberdade se aproximava. Também na Igreja muitos heresiarcas anunciaram que o dia do Senhor estava iminente; o Apóstolo os condena na carta aos Tessalonicenses. Muitos vieram também em nome de Cristo como Anticristos; o primeiro deles é Simão, o mago, de quem diziam: Este é a virtude de Deus, que se chama Grande.
Lc 21,9-11
9Quando ouvirdes falar de guerras e de tumultos, não vos assusteis; porque é necessário que isso aconteça primeiro, mas não virá logo o fim”. 10Disse-lhes também: “Irão levantar-se nação contra nação e reino contra reino. 11Haverá grandes terremotos por várias partes, fomes e pestes, e aparecerão fenômenos espantosos no céu.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos(séc. VI). O Senhor anuncia os males que precedem o fim do mundo que há de perecer, para que perturbem tanto menos quando vierem, quanto mais tiverem sido sabidos de antemão: com efeito, os dardos que se preveem ferem menos; por isso diz: Quando ouvirdes falar de guerras e sedições, não vos aterrorizeis. As guerras dizem respeito aos inimigos, as sedições aos concidadãos. Para indicar, pois, que somos perturbados por fora e por dentro, declara que sofremos uma coisa dos inimigos e outra dos irmãos.
Santo Ambrósio. Das palavras celestes ninguém mais do que nós é testemunha, a quem o fim do mundo encontra. Quantas guerras e quantos rumores de guerras recebemos?
São Gregório Magno. Mas, como a esses males que precedem não se segue logo o fim, acrescenta-se: Convém que isto aconteça primeiro; mas não logo o fim. Com efeito, a última tribulação é precedida de muitas tribulações: porque muitos males devem preceder, para que possam anunciar o mal sem fim; por isso segue-se: Então lhes dizia: Levantar-se-á nação contra nação, e reino contra reino: porque é necessário que soframos umas coisas do céu, outras da terra, outras dos elementos, outras dos homens. Aqui, pois, se assinala a perturbação dos homens; segue-se, com efeito: E haverá grandes terremotos por lugares: eis o olhar da ira lá do alto.
São João Crisóstomo. O terremoto, com efeito, às vezes é sinal de ira, pois também quando o Senhor foi crucificado a terra tremeu; às vezes, porém, é indício de providência, como, estando os apóstolos a orar, tremeu o lugar em que estavam reunidos. Segue-se: E pestes.
São Gregório Magno. Eis a desigualdade dos corpos; e fomes: eis a esterilidade da terra; e haverá terrores do céu e grandes sinais: eis a desigualdade do ar: o que se deve referir àquelas tempestades que de modo algum guardam a ordem das estações: pois as que vêm ordenadamente não são sinal. Com efeito, tudo o que recebemos para o uso da vida, convertemos em uso da culpa; mas tudo o que desviamos para o uso da perversidade se volta para nós em instrumento de castigo.
Santo Ambrósio. Antes do ocaso do século precederão, pois, certas doenças do mundo, a saber, a fome, a peste e a perseguição.
Teofilacto. Alguns, porém, quiseram que estas coisas se cumprissem não só na consumação futura, mas também no tempo da tomada de Jerusalém. Morto, com efeito, o autor da paz, com razão houve entre eles lugar para sedições e guerras. Das guerras seguem-se a peste e a fome: aquela, por estar o ar infectado de cadáveres; esta, por permanecerem incultos os campos. Também Josefo relata que sobrevieram sofrimentos intoleráveis por causa da fome; e no tempo do imperador Cláudio a fome se agravou, como se lê nos Atos; e aconteceram muitíssimos fatos terríveis que indicavam a tomada de Jerusalém, como narra Josefo.
São João Crisóstomo. Diz, porém, que o fim da cidade não virá logo, isto é, que Jerusalém não será tomada logo, mas depois de muitas guerras.
São Beda, o Venerável. Os apóstolos são também advertidos de que não se aterrorizem com esses sinais precedentes, a fim de não abandonarem Jerusalém e a Judeia. Pode-se entender também, nos hereges, reino contra reino, a peste daqueles cuja palavra se alastra como câncer, a fome de ouvir a palavra de Deus, o abalo de toda a terra e a separação da verdadeira fé; eles, combatendo uns aos outros, preparam a vitória da Igreja.
Santo Ambrósio. Há também outras guerras, que o homem cristão suporta: os combates das diversas concupiscências e os conflitos das paixões. Muito mais graves são também os inimigos domésticos do que os estrangeiros.
Lc 21,12-19
12Mas, antes de tudo isso, vos lançarão as mãos e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e aos cárceres, levando-vos à presença dos reis e dos governadores, por causa de mim. 13Isso vos acontecerá para que vos sirva de testemunho. 14Gravai bem no vosso espírito: não prepareis vossa defesa, 15porque eu vos darei uma palavra cheia de sabedoria, à qual não poderão resistir nem contradizer os vossos adversários. 16Sereis entregues até por vossos pais, vossos irmãos, vossos parentes e vossos amigos, e matarão muitos de vós. 17Sereis odiados por todos por causa do meu nome. 18Entretanto, não se perderá um só cabelo de vossa cabeça. 19É pela vossa constância que alcançareis a vossa salvação.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Porque tudo o que foi predito não procede da injustiça de quem fere, mas do mérito do mundo que sofre, anunciam-se as obras dos homens perversos quando se diz: Mas antes de tudo isso, lançarão mão de vós e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e às prisões, levando-vos diante de reis e governadores por causa do meu nome; como se dissesse: primeiro serão perturbados os corações dos homens, depois os elementos, para que, quando a ordem das coisas se confunde, se mostre de que tribulação ela provém. Pois, embora o fim do mundo dependa de sua própria ordem, ele se dá a conhecer ao encontrar os mais perversos, para que sejam dignamente oprimidos por sua ruína.
São Cirilo de Alexandria. Ou diz isto porque, antes que Jerusalém fosse tomada pelos romanos, os discípulos, tendo sofrido perseguições da parte dos judeus, foram encarcerados e apresentados às autoridades. Paulo foi enviado a Roma, ao César, e compareceu diante de Festo e de Agripa. Segue-se: Isso vos servirá de testemunho.
Um autor grego(). Para o martírio, isto é, para a glória do martírio.
São Gregório Magno. Ou para testemunho deles, a saber: porque, perseguindo-vos, infligem a morte, ou, vendo-vos, não vos imitam; de modo que os perversos pereçam sem desculpa por onde os eleitos tomam exemplo para viver. Mas, ouvidos tantos terrores, os corações dos ouvintes podiam perturbar-se; por isso, para consolá-los, acrescenta: Ponde, pois, em vossos corações não premeditar como haveis de responder.
Teofilacto. Porque eram simples e ignorantes, o Senhor lhes diz isto, para que não se perturbassem ao terem de prestar contas aos sábios; e acrescenta a causa: Pois eu vos darei uma boca e uma sabedoria à qual todos os vossos adversários não poderão resistir nem contradizer; como se dissesse: de mim recebereis logo a eloquência e a sabedoria, de modo que nem todos os vossos adversários, ainda que se reúnam, possam resistir-vos, nem na sabedoria, isto é, na força das especulações, nem na eloquência e na graça do discurso. Com efeito, muitos têm sabedoria na mente, mas, sendo facilmente levados à perturbação, confundem tudo quando chega o momento de expor. Não foram assim os apóstolos, mas foram agraciados em ambos os aspectos.
São Gregório Magno. Como se o Senhor dissesse aos seus: não vos assusteis; vós ides ao combate, eu é que luto; vós proferis as palavras, mas sou eu quem fala.
Santo Ambrósio. Em outro lugar, porém, Cristo fala nos discípulos, em outro o Pai, em outro o Espírito do Pai. Isto não se contradiz, mas concorda: o que um fala, os três falam, porque a voz da Trindade é uma só.
Teofilacto. Dito isto, e afastado o temor da inexperiência, acrescenta ainda outra coisa necessária, que podia abalar-lhes o ânimo, para que, caindo de repente, não os perturbasse; segue-se, com efeito: Sereis entregues pelos pais, irmãos e parentes, e farão morrer alguns de vós.
São Gregório Magno. Mais cruelmente nos atormentam os sofrimentos que padecemos daqueles de cujos costumes tínhamos boa opinião, porque, com o dano do corpo, nos torturam os males da caridade perdida.
São Gregório de Nissa(séc. IV). Consideremos, porém, a situação que havia então. Estando todos sob suspeita, as parentelas dividiam-se umas contra as outras, separadas pelos cultos; o filho pagão tornava-se delator dos pais fiéis; e contra o filho que havia crido, o pai obstinado na infidelidade tornava-se acusador. Toda idade estava exposta aos que perseguiam a fé, e nem às mulheres socorria a fragilidade natural do sexo.
Teofilacto. Dito isto, acrescenta também o ódio que sofrerão da parte de todos; segue-se, com efeito: E sereis odiados por todos os homens por causa do meu nome.
São Gregório Magno. Mas, como são duras as coisas preditas sobre a aflição da morte, logo se acrescenta a consolação da alegria da ressurreição, quando se diz: E um cabelo da vossa cabeça não perecerá; como se dissesse a seus mártires: por que temeis que pereça o que, cortado, dói, quando em vós não pode perecer nem aquilo que, cortado, não dói?
São Beda, o Venerável. Ou de outro modo: o cabelo da cabeça dos discípulos do Senhor não perecerá, porque não só os feitos e ditos fortes dos santos, mas também o mais tênue pensamento será recompensado com digna mercê.
São Gregório Magno(séc. VI). Quem mantém a paciência nas adversidades torna-se por isso forte contra todas as adversidades; e assim domina a si mesmo, vencendo-se a si próprio; por isso segue-se: Na vossa paciência possuireis as vossas almas. Pois que é possuir as almas senão viver perfeitamente em tudo e dominar todos os movimentos da mente como do alto da cidadela da virtude?
São Gregório Magno. Pela paciência, portanto, possuímos as nossas almas; pois, ao aprendermos a dominar a nós mesmos, começamos a possuir isso mesmo que somos. Por isso a posse da alma é colocada na virtude da paciência, porque a paciência é raiz e guarda de todas as virtudes. A paciência, com efeito, é suportar com equanimidade os males alheios e não se deixar morder por nenhuma dor contra aquele mesmo que inflige os males.
Lc 21,20-24
20Quando virdes que Jerusalém foi sitiada por exércitos, então sabereis que está próxima a sua ruína. 21Os que então se acharem na Judeia fujam para os montes; os que estiverem dentro da cidade retirem-se; os que estiverem nos campos não entrem na cidade. 22Porque estes serão dias de castigo, para que se cumpra tudo o que está escrito. 23Ai das mulheres que, naqueles dias, estiverem grávidas ou amamentando, pois haverá grande angústia na terra e grande ira contra o povo. 24Cairão a fio de espada e serão levados cativos para todas as nações, e Jerusalém será pisada pelos pagãos, até se completarem os tempos das nações pagãs”. (= Mt 24,29-44 = Mc 13,24-37)
São Beda, o Venerável. Até aqui foi dito o que haveria de acontecer durante quarenta anos, sem que chegasse ainda o fim; aqui o próprio fim da desolação que foi causada pelo exército romano é exposto nas palavras do Senhor, quando se diz: Quando virdes Jerusalém cercada por um exército, sabei então que a sua desolação está próxima.
Eusébio de Cesareia. Chama desolação de Jerusalém o fato de ela não ser mais estabelecida pelos seus, nem segundo o rito da Lei, de modo que ninguém espere que, depois do futuro cerco, se faça outra restauração, como aconteceu no tempo do rei dos persas, e do ilustre Antíoco, e de novo no tempo de Pompeu.
Santo Agostinho, ad Hesychium(séc. IV–V). Lucas recordou estas palavras do Senhor neste lugar para mostrar que a abominação da desolação, predita por Daniel e de que falaram Mateus e Marcos, se realizou então, quando Jerusalém foi tomada de assalto.
Santo Ambrósio. Os judeus, com efeito, pensaram que a abominação da desolação se realizou então, porque os romanos, zombando do rito da observância judaica, lançaram no templo a cabeça de um porco.
Eusébio de Cesareia. O Senhor, prevendo a fome que haveria na cidade, advertia os discípulos de que, no futuro cerco, não se refugiassem na cidade como em lugar seguro e protegido por Deus, mas antes se afastassem dali e fugissem para os montes; por isso segue-se: Então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes.
São Beda, o Venerável. A história eclesiástica narra que todos os cristãos que estavam na Judeia, iminente a ruína de Jerusalém, advertidos pelo Senhor, deixaram o lugar e habitaram além do Jordão, numa cidade chamada Pela, até que se consumasse a desolação da Judeia.
Santo Agostinho, ad Hesychium. Em lugar disto, Mateus e Marcos disseram: E quem estiver sobre o terraço não desça à casa; acrescenta ainda: nem entre para tirar algo de casa; em lugar disso, Lucas acrescenta: E os que estiverem no meio dela retirem-se.
São Beda, o Venerável. Mas como se retirarão os que estão no meio da cidade, estando ela já cercada pelo exército? A não ser que o então que ele prometeu não se refira ao próprio tempo do cerco, mas ao tempo imediatamente anterior ao cerco, quando o soldado romano começou a espalhar-se pelas fronteiras da Galileia e da Samaria.
Santo Agostinho, ad Hesychium. Em lugar do que Mateus e Marcos puseram: E quem estiver no campo não volte atrás para pegar a sua veste, este acrescenta mais claramente: E os que estiverem nas regiões não entrem nela; porque estes são os dias da vingança, para que se cumpra tudo o que está escrito.
São Beda, o Venerável. Os dias da vingança são estes, isto é, dias que reclamam a vingança do sangue do Senhor.
Santo Agostinho. Em seguida, Lucas prossegue de modo semelhante aos outros dois: Ai das grávidas e das que amamentam naqueles dias. E assim Lucas deixou claro o que podia ser incerto, a saber, que o que foi dito sobre a abominação da desolação não diz respeito ao fim do mundo, mas à tomada de Jerusalém.
São Beda, o Venerável. Diz, pois, ai das grávidas, estando presente o cativeiro, e das que amamentam ou das que dão o seio, como alguns interpretam, cujo ventre ou cujas mãos, sobrecarregados com o peso dos filhos, dificultam grandemente a necessidade da fuga.
Teofilacto. Alguns, porém, dizem que o Senhor significa com isto o ato de comer os filhos, que também Josefo narra.
São João Crisóstomo. Em seguida, indica a causa do que foi predito, dizendo: Haverá, com efeito, grande aperto sobre a terra e ira contra este povo. Tais males, com efeito, os acometeram, que nenhuma aflição posterior pode igualar-se às suas calamidades, como Josefo narrou.
Eusébio de Cesareia. Isto é, como, chegando os romanos e tomando a cidade, muitas multidões do povo judeu pereceram ao fio da espada; por isso segue-se: E cairão ao fio da espada. Mas muitos mais foram mortos pela fome. Estas coisas aconteceram primeiro sob Tito e Vespasiano, e depois deles, no tempo de Adriano, príncipe dos romanos, quando o solo natal se tornou inacessível aos judeus; por isso segue-se: E serão levados cativos para todas as nações. Os judeus, com efeito, encheram o mundo inteiro e chegaram até os confins da terra; e, embora a sua terra seja habitada por estrangeiros, só a eles foi tornada inacessível; por isso segue-se: E Jerusalém será pisada pelas nações, até que se cumpram os tempos das nações.
São Beda, o Venerável. É o que o Apóstolo recorda, dizendo: A cegueira atingiu em parte Israel (...) e assim todo Israel será salvo; e, tendo alcançado a salvação prometida, não é sem fundamento que se espera que voltará ao solo da pátria.
Santo Ambrósio. Misticamente, porém, a abominação da desolação é a vinda do Anticristo, porque ele contamina o interior das mentes com sacrilégios funestos, sentando-se, segundo a história, no templo, para reivindicar para si o trono do poder divino. Segundo a interpretação espiritual, a imagem é aplicada com acerto, porque ele deseja fixar o rastro de sua perfídia nos afetos de cada um, disputando a partir das Escrituras que ele é o Cristo. Então se aproximará a desolação, porque muitos, tendo decaído, abandonarão a verdadeira religião; então será o dia do Senhor, porque, assim como a primeira vinda do Senhor foi para redimir os pecados, assim também a segunda será para reprimir os delitos, a fim de que não sejam mais os que caem no erro da perfídia. Há também outro Anticristo, isto é, o Diabo, que se esforça por sitiar Jerusalém, isto é, a alma pacífica, com o exército de sua lei. Portanto, quando o Diabo está no meio do templo, é a desolação da abominação. Quando, porém, a presença espiritual de Cristo resplandece para cada um que luta, o iníquo é tirado do meio, e a justiça começa a reinar. Há ainda um terceiro Anticristo, como Ário e Sabélio e todos os que nos seduzem com intenção perversa. São estas as grávidas a quem se diz "ai": as que estendem a gordura de sua carne, e nas quais o passo dos ânimos interiores se torna lento, e que são estéreis de virtudes e fecundas de vícios. Mas nem aquelas grávidas estão isentas de condenação que, empenhadas na realização de boas obras, ainda não deram nenhum fruto à obra empreendida. Há as que concebem pelo temor de Deus, mas nem todas dão à luz: pois há as que expelem a palavra como aborto antes de darem à luz. Há também as que têm Cristo no ventre, mas ainda não o formaram. Portanto, quem dá à luz a justiça, dá à luz Cristo. Apressemo-nos também a desmamar os nossos pequeninos, para que não nos encontre, como pais de filhos imperfeitos, nem o dia do juízo nem o da morte. Isso se dará se guardares no coração todas as palavras da justiça e não esperares o tempo da velhice, mas, na primeira idade, concebes depressa a sabedoria, sem corrupção do teu corpo, e depressa a nutres. No fim, porém, toda a Judeia será submetida pelas nações que hão de crer, ao fio da espada espiritual, que é a palavra de dois gumes.
Lc 21,25-27
25“Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra a aflição e a angústia irão apoderar-se das nações pelo bramido do mar e das ondas. 26Os homens definharão de medo, na expectativa dos males que devem sobrevir a toda a terra. As próprias forças dos céus serão abaladas. 27Então, verão o Filho do Homem vir sobre uma nuvem com grande glória e majestade.
São Beda, o Venerável. O que se seguirá, cumpridos os tempos das nações, ele o manifesta em ordem, dizendo: Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas.
Santo Ambrósio. Esses sinais são expressos com mais clareza segundo Mateus: Então, diz ele, o sol escurecerá, a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu.
Eusébio de Cesareia. Pois então, quando se realizar a consumação da vida corruptível, e, segundo o Apóstolo, passar a figura deste mundo, e suceder um novo século, no qual, em lugar dos luzeiros sensíveis, o próprio Cristo resplandecerá como o fulgor e o rei do novo século, será tão grande a força e a glória de sua luz que o sol, que agora brilha, e a lua e os demais astros se ocultarão com a vinda da luz maior.
São João Crisóstomo. Pois, assim como neste século a lua e os astros logo se ofuscam quando nasce o sol, assim, na gloriosa aparição de Cristo, o sol escurecerá, a lua não dará o seu próprio brilho, e as estrelas cairão do céu, despojadas da veste anterior, para receberem a veste de uma luz melhor.
Eusébio de Cesareia. O que acontecerá ao mundo depois do escurecimento dos luzeiros, do qual resultará a angústia das nações, ele o exprime em seguida, dizendo: E sobre a terra, angústia das nações, em meio ao estrondo do mar e das ondas; onde parece ensinar que o princípio da transformação do universo virá da falta da substância úmida. Pois, consumida ou congelada esta primeira, de modo que já não se ouça o rumor do mar nem as suas ondas toquem a areia, por causa do excesso de secura, as demais partes do mundo, não obtendo mais o vapor costumeiro emitido da substância úmida, sofrerão transformação; e assim, como a aparição do Salvador deve refutar os prodígios contrários a Deus, os prelúdios do furor tomarão princípio das secas, de modo que nem a tempestade nem o bramido do mar se ouçam mais. Feito isto, seguir-se-á a angústia dos homens sobreviventes; por isso se segue: Os homens definhando, isto é, consumindo-se, de medo e na expectativa daquilo que sobrevirá a todo o mundo. O que então cairá sobre o mundo, ele mostra em seguida, acrescentando: Pois as potências dos céus serão abaladas.
Teofilacto. Ou de outro modo. Quando o orbe superior for alterado, também os elementos inferiores com razão sofrerão dano; por isso se segue: E sobre a terra, angústia das nações, em meio ao estrondo do mar e das ondas; como se dissesse: o mar bramirá terrivelmente, e a praia do mar será agitada pela tempestade, de modo que haja para o povo da terra angústia, isto é, miséria comum, e definhem de medo e na expectativa dos males que irrompem sobre o mundo; por isso se segue: Os homens definhando de medo e na expectativa do que sobrevirá a todo o mundo.
Santo Agostinho, ad Hesychium. Mas dirás: a vossa pena vos obriga a confessar que o fim já está próximo, uma vez que se cumpre o que foi predito. Com efeito, é certo que, em nossos tempos, não há pátria nem lugar que não seja afligido ou atribulado. Mas se esses males que agora o gênero humano sofre são indícios certos de que o Senhor já está para vir, que significa o que diz o Apóstolo: Quando disserem: Paz e segurança? Vejamos, pois, se não se entende melhor que as coisas preditas nestas palavras não se cumprem desse modo, mas que virão antes quando a tribulação de todo o mundo for tal que diga respeito à Igreja, que será atribulada em todo o mundo, e não àqueles que a atribularão: eles mesmos, com efeito, dirão: Paz e segurança. Agora, porém, esses males, que se creem os supremos e últimos, vemos serem comuns aos dois reinos, o de Cristo e o do Diabo: igualmente por eles são afligidos os bons e os maus; e em meio a tantos males ainda se multiplicam por toda parte os banquetes luxuriosos. É isto definhar de medo, ou antes arder de desejo?
Teofilacto. Não somente os mortais vacilarão quando o mundo for alterado, mas também os Anjos ficarão atônitos diante de mudanças tão terríveis do universo; por isso se segue: Pois as potências dos céus serão abaladas.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Que chama ele de potências dos céus, senão os Anjos, as dominações, os principados e as potestades? Estes, na vinda do juiz rigoroso, aparecerão então visivelmente aos nossos olhos, para exigirem de nós com rigor aquilo que agora o Criador invisível suporta com serenidade.
Eusébio de Cesareia. Quando também o Filho de Deus vier em glória e refutar a tirania soberba do filho do pecado, servindo-o os Anjos, as portas do céu, fechadas desde o princípio do século, se abrirão, para que se contemplem as coisas excelsas.
São João Crisóstomo. Ou as potências celestes serão abaladas, embora não tenham consciência de culpa: pois, vendo multidões infinitas serem condenadas, não permanecerão ali sem temor.
São Beda, o Venerável. Por isso também se diz em Jó: As colunas do céu tremem e se espantam a um aceno seu. Que fazem, pois, as tábuas, quando tremem as colunas? Que sofre a varinha do deserto, quando o cedro do Paraíso é sacudido?
Eusébio de Cesareia. Ou as potências dos céus são as que presidem às partes sensíveis do universo: estas então serão abaladas, para alcançarem um estado melhor. Com efeito, no novo século serão libertadas do ministério com que servem a Deus em torno dos corpos sensíveis, segundo o estado de corrupção.
Santo Agostinho. Mas, para que o Senhor, ao aproximar-se a sua segunda vinda, não pareça ter predito como grandes coisas que costumavam acontecer a este mundo mesmo antes da sua primeira vinda, e para que não riam de nós os que leram na história dos povos coisas mais numerosas e maiores, julgo que estas palavras se entendem melhor da Igreja. Com efeito, a Igreja é o sol, a lua e as estrelas, a ela foi dito: Formosa como a lua, escolhida como o sol; ela então não aparecerá, enfurecendo-se os perseguidores além da medida.
Santo Ambrósio. Desertando muitíssimos da religião, a fé luminosa será obscurecida pela nuvem da perfídia, porque o sol celeste nela diminui ou cresce conforme a fé; e, assim como a lua, nos eclipses mensais, isto é, dos meses, se desvanece pela interposição da terra, quando está na região oposta ao sol, assim também a santa Igreja, quando os vícios da carne se opõem à luz celeste, não pode tomar emprestado o fulgor da luz divina dos raios de Cristo: pois, nas perseguições, o amor desta vida frequentemente exclui a luz do sol divino. Caem também as estrelas, isto é, os homens que resplandecem em glória, se a aspereza da perseguição se fortalece, a qual convém que aconteça até que se complete a multidão da Igreja: assim, com efeito, são provados os bons, assim são revelados os fracos.
Santo Agostinho. Quanto ao que foi dito: E sobre a terra, angústia das nações, quis que se entendessem as nações, não as que serão abençoadas na descendência de Abraão, mas as que estarão à esquerda.
Santo Ambrósio. Portanto, as diversas agitações dos ânimos serão tão graves que, pela multidão dos delitos, e com o temor do juízo futuro nos que têm má consciência, secará para nós o orvalho da fonte sagrada. Assim como se espera a vinda do Senhor, para que a sua presença se faça no todo, seja no orbe do homem, seja no do mundo, presença que se faz em cada um quando, com todos os afetos, acolheram Cristo, assim as potências dos céus, na vinda do Senhor, obterão aumento de graça e serão abaladas, infundindo-se mais de perto a plenitude da divindade. Há também potências dos céus que proclamam a glória de Deus, as quais serão abaladas por uma infusão mais plena de Cristo, a fim de que vejam a Cristo.
Santo Agostinho. Ou as potências dos céus serão abaladas, porque, perseguindo os ímpios, alguns fiéis fortíssimos ficarão perturbados. Segue-se: E então verão o Filho do Homem.
Teofilacto. Tanto os fiéis como os infiéis: pois resplandecerá mais que o sol, tanto ele mesmo como a sua cruz; por isso será reconhecido por todos.
Santo Agostinho, ad Hesychium. Quanto ao que diz, vindo numa nuvem, pode ser entendido de dois modos: ou vindo em sua Igreja como numa nuvem, assim como agora não cessa de vir; mas então com grande poder e majestade, porque maior majestade e poder seu aparecerá aos santos, aos quais dará grande força para que não sejam vencidos por tão grande perseguição; ou em seu corpo, no qual está sentado à direita do Pai, com razão se deve crer que virá não somente no mesmo corpo, mas também numa nuvem: porque virá assim como partiu; uma nuvem, com efeito, o recebeu, tirando-o de seus olhos.
São João Crisóstomo. Com efeito, Deus sempre aparece na nuvem, conforme aquilo: Nuvem e escuridão estão ao seu redor; por isso também o Filho do Homem virá nas nuvens, como Deus e Senhor, não às ocultas, mas em glória digna de Deus; e por isso acrescenta: com grande poder e majestade.
São Cirilo de Alexandria. Deve-se entender igualmente grande. Com efeito, a primeira aparição ele a realizou com a nossa fraqueza e humildade; mas a segunda a celebrará com poder próprio e grande majestade.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Com efeito, verão em poder e majestade aquele que, posto na humildade, não quiseram ouvir; de modo que sintam então a sua força tanto mais rigorosamente quanto menos inclinam a cerviz do coração à sua paciência.
Lc 21,28-33
28Quando começarem a acontecer essas coisas, reanimai-vos e levantai as vossas cabeças; porque se aproxima a vossa libertação.” 29Acrescentou ainda esta comparação: “Olhai para a figueira e para as demais árvores. 30Quando elas lançam os brotos, vós julgais que está perto o verão. 31Assim também, quando virdes que vão sucedendo essas coisas, sabereis que está perto o Reino de Deus. 32Em verdade vos declaro: não passará esta geração sem que tudo isso se cumpra. 33Passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão”.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Como as palavras anteriores foram ditas contra os réprobos, logo as palavras se voltam para a consolação dos eleitos; pois se acrescenta: Quando estas coisas começarem a acontecer, olhai e levantai as vossas cabeças, porque se aproxima a vossa redenção; como se dissesse: quando as pragas do mundo se multiplicam, levantai as cabeças, isto é, alegrai os corações: porque, ao acabar o mundo, de quem não sois amigos, está perto a redenção que buscastes. Na Sagrada Escritura, com efeito, a cabeça é muitas vezes posta no lugar da mente: porque, assim como os membros são regidos pela cabeça, assim os pensamentos são ordenados pela mente. Levantar as cabeças, portanto, é elevar as nossas mentes às alegrias da pátria celeste.
Eusébio de Cesareia. Ou de outro modo. Passadas as coisas corporais, estarão presentes as inteligíveis e celestes, a saber, o reino do século que não passará mais; e então serão concedidas aos dignos as promessas de salvação; por isso se diz: Quando estas coisas começarem a acontecer, olhai e levantai as vossas cabeças, porque se aproxima a vossa redenção. Com efeito, recebidas as promessas de Deus que esperamos, nos erguermos nós que antes estávamos curvados, e levantaremos as nossas cabeças, outrora humilhadas, porque estará presente a nossa redenção, que esperávamos, aquela, a saber, que toda a criatura aguarda.
Teofilacto. Isto é, a liberdade perfeita do corpo e da alma. Pois, assim como a primeira vinda do Senhor foi para a reforma de nossas almas, assim a segunda será celebrada para a reforma dos corpos.
Eusébio de Cesareia. Diz isto, porém, a seus discípulos, não como a pessoas que devessem permanecer nesta vida até o fim do mundo, mas como se fossem um só corpo com eles, conosco e com os pósteros que, até a consumação do mundo, hão de crer em Cristo.
São Gregório Magno. Que o mundo deve ser pisado e desprezado, ele o manifesta por uma comparação providente, quando acrescenta: Vede a figueira e todas as árvores: quando produzem fruto, sabeis que o verão está próximo: assim também vós, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o Reino de Deus está próximo; como se dissesse: assim como pelo fruto da árvore se reconhece que o verão está próximo, assim pela ruína do mundo se reconhece que está próximo o Reino de Deus. E daí se mostra que o fruto do mundo é a ruína. Com efeito, ele germina para consumir em desastres tudo o que alimentou com o seu germe. Bem se compara, porém, o Reino de Deus ao verão, porque então passam as nuvens da nossa tristeza, e os dias da vida resplandecem com a claridade do sol eterno.
Santo Ambrósio. Mateus, porém, falou apenas da figueira; aqui se fala de todas as árvores. A figueira tem um duplo simbolismo: quando as coisas duras se abrandam, ou quando os pecados abundam. Assim, quando o fruto verdeja em todas as árvores e a figueira fecunda já floresce, isto é, quando toda língua confessa a Deus, confessando também o povo dos judeus, devemos esperar a vinda do Senhor, na qual, como nos tempos de verão, se colhem os frutos da ressurreição; ou, quando o homem da iniquidade se revestir de uma jactância leve e frágil, como as folhas da sinagoga, devemos concluir que o juízo se aproxima: pois o Senhor se apressa em recompensar a fé e em pôr fim ao pecado.
Santo Agostinho, ad Hesychium. Quando diz: quando virdes acontecer estas coisas, que poderemos entender senão as que foram mencionadas acima? Entre elas está o que diz: e então verão o Filho do Homem vindo. Logo, quando isso for visto, o Reino de Deus já não estará por vir, mas estará próximo. Ou se deve dizer que nem todas as coisas mencionadas acima devem ser entendidas onde diz quando virdes acontecer estas coisas, mas algumas delas, com exceção do que foi dito: e então verão o Filho do Homem? Mas Mateus mostrou que se deve entender sem exceção alguma, dizendo: assim também vós, quando virdes todas estas coisas; entre elas está que o Filho do Homem será visto vindo, de modo que se entenda da vinda pela qual ele agora vem em seus membros, como nas nuvens, ou na Igreja, como numa grande nuvem.
Tito de Bostra. Ou de outro modo. Diz: está próximo o Reino de Deus, porque, enquanto isso acontece, o fim último das coisas ainda não chegará, mas já tenderão para o fim: pois a própria vinda do Senhor, eliminando todo principado e toda potestade, prepara o Reino de Deus.
Eusébio de Cesareia. Assim como nesta vida o sol, quando o inverno se retira e vem a primavera, lançando um raio cálido, aquece e vivifica as sementes ocultas na terra, que, despojando-se de sua antiga figura, brotam novas, com variado verdor; assim também a gloriosa vinda do Filho unigênito de Deus, iluminando o novo século com raios vivificantes, trará à luz, em corpos melhores do que antes, as sementes há muito depositadas por todo o mundo, isto é, os que dormem no pó da terra; e, vencida a morte, reinará daí em diante a vida do século novo.
São Gregório Magno. Todas as coisas preditas são confirmadas com grande certeza, quando se acrescenta: em verdade vos digo que não passará esta geração até que tudo aconteça.
São Beda, o Venerável. Recomenda muito o que prediz assim. E, se é lícito dizer, é um juramento seu o que diz: em verdade vos digo: pois amém se interpreta como verdadeiro. Portanto a Verdade diz: digo-vos o verdadeiro; e, se não o dissesse, não poderia de modo algum mentir. Por geração entende ou todo o gênero humano, ou especialmente os judeus.
Eusébio de Cesareia. Ou por geração entende a nova geração de sua santa Igreja, mostrando que o povo dos fiéis durará até o tempo em que verá todas as coisas e apreenderá com os olhos o cumprimento das palavras do Salvador.
Teofilacto. Como tinha predito que haveria perturbações, guerras e alterações tanto dos elementos quanto das demais coisas, para que ninguém suspeitasse que a própria cristandade ia perecer, acrescenta: o céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão; como se dissesse: ainda que todas as coisas sejam abaladas, a minha fé não faltará; com isso dá a entender que a Igreja é preferida a toda a criação: pois a criação sofrerá alteração, mas a Igreja dos fiéis e as palavras do Evangelho permanecerão.
São Gregório Magno. Ou de outro modo: o céu e a terra passarão etc., como se dissesse: tudo o que entre nós é duradouro, sem mudança não é duradouro para a eternidade; e tudo o que em mim se vê passar, é mantido fixo e sem passagem: porque a minha palavra, que passa, exprime sentenças que permanecem sem mutabilidade.
São Beda, o Venerável. O céu que passará não devemos entendê-lo como o éter, nem o céu sideral, nem o aéreo, de onde as aves recebem o nome de aves do céu. Mas, se a terra passará, como diz o Eclesiastes: a terra permanece para sempre? Por clara razão, o céu e a terra passam quanto à figura que agora têm, mas subsistem sem fim quanto à essência.
Lc 21,34-36
34“Velai sobre vós mesmos, para que os vossos corações não se tornem pesados com o excesso do comer, com a embriaguez e com as preocupações da vida; para que aquele dia não vos apanhe de improviso. 35Como um laço cairá sobre aqueles que habitam a face de toda a terra. 36Vigiai, pois, em todo o tempo e orai, a fim de que vos torneis dignos de escapar a todos esses males que hão de acontecer, e de vos apresentar de pé diante do Filho do Homem.”
Teofilacto. O Senhor expôs acima os terríveis e sensíveis sinais dos males que ocuparão os pecadores; mas contra esses males o remédio é a cautela e a oração; por isso se diz: atentai, pois, para vós mesmos, para que não se tornem pesados os vossos corações pela devassidão e pela embriaguez.
São Basílio Magno(séc. IV). Cada um dos animais tem de Deus, criador de todas as coisas, causas interiores que servem à tutela de sua própria existência; por isso Cristo também nos deu esta advertência, para que o que a eles vem da natureza nos venha pelo auxílio da razão e da cautela: fugindo do pecado, como os irracionais fogem dos alimentos mortíferos, e buscando a justiça, como aqueles procuram as ervas nutritivas; e por isso diz: atentai para vós, isto é, para que possais discernir o nocivo do salutar. Mas, como se pode atentar de dois modos, ora com os olhos do corpo, ora pela virtude intelectiva, e o olho do corpo não alcança a virtude, resta que se trate da obra do intelecto: atentai; isto é, olhai em volta de vós por todos os lados, tendo vigilante, para vossa guarda, a luz da alma. E não disse: atentai para as vossas coisas, ou para o que está ao vosso redor, mas para vós: pois vós sois o intelecto e a alma; o vosso corpo é sensação; ao vosso redor estão as riquezas, as artes e o restante mobiliário da vida; a estas não adverte que se atenda, mas à alma, de que se deve ter o principal cuidado. Esta mesma advertência cura os enfermos e aperfeiçoa os sãos; torna-os guardiões do presente e previdentes do futuro; não censores das coisas alheias, mas examinadores das suas; não deixando que o intelecto se faça servo das paixões, mas submetendo o irracional da alma ao racional. Por que se deve atentar, acrescenta dizendo: para que não se tornem pesados os vossos corações pela devassidão e pela embriaguez e pelos cuidados desta vida.
Tito de Bostra. Como se dissesse: guardai-vos de que se tornem pesadas as luzes da vossa mente: pois o cuidado da vida presente, a devassidão e a embriaguez afugentam a prudência, abalam a fé, causam naufrágios.
São Basílio Magno. A embriaguez é o uso excessivo do vinho; a devassidão, porém, é a angústia e a náusea que há na embriaguez, assim chamada, em vocábulo grego, pelo movimento da cabeça. Assim como devemos usar os alimentos para não sentirmos fome, usemos também as bebidas para não sofrermos sede, evitando com mais diligência a queda. Pois enganosa é a ingestão do vinho. A alma livre do vinho será prudentíssima e ótima; mas umedecida pelos vapores do vinho, fica como que velada por uma nuvem. A preocupação com esta vida, embora pareça nada conter de proibido, deve ser evitada se não ajuda ao culto divino; e por que o disse, mostra acrescentando: e venha sobre vós de repente aquele dia.
Teofilacto. Pois aquele dia não virá com deliberação, mas de improviso e furtivamente, apanhando como um laço os desprevenidos; por isso segue: como um laço virá sobre todos os que habitam a face de toda a terra. Isso pode ser examinado com mais cuidado. Aquele dia apanhará os que estão sentados na superfície da terra, como despreparados e inertes. Todos os que, porém, são diligentes e ágeis para o bem, não sentados nem ociosos nas coisas terrenas, mas levantando-se delas e dizendo a si mesmos: levanta-te, vai, porque aqui não há repouso para ti, para estes aquele dia não é como um laço, para o perigo, mas como um dia de festa.
Eusébio de Cesareia. Ensinou, pois, que as coisas preditas devem ser tidas em conta para evitar o peso que delas provém; por isso segue: vigiai, pois, orando em todo tempo, para que sejais dignos de fugir de tudo isso que há de acontecer.
Teofilacto. A saber, a fome, a peste e outras coisas semelhantes, que ameaçam temporalmente os eleitos e os outros, e as que depois acontecem perpetuamente aos réus: pois essas não podemos evitá-las de outro modo senão pelas vigílias e orações.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Entende-se aqui aquela fuga que Mateus menciona, que não deve acontecer no inverno nem no sábado. Ao inverno pertencem os cuidados desta vida, que são tristes como o inverno; ao sábado, a devassidão e a embriaguez, que mergulham e submergem o coração na alegria carnal e na luxúria; e esse mal é significado pelo nome de sábado, porque nesse dia os judeus abundam em delícias, ignorando o sábado espiritual.
Teofilacto. E porque convém ao cristão não só fugir dos males, mas também esforçar-se por alcançar a glória, acrescenta: e estar de pé diante do Filho do Homem: pois esta é a glória angélica: estar de pé diante do Filho do Homem, nosso Deus, e contemplar continuamente a sua face.
São Beda, o Venerável. E certamente, se um médico sábio mandasse guardar-se do suco de alguma erva, para que não sobrevenha morte repentina, observaríamos com grande zelo as ordens do médico; agora, porém, advertindo o Salvador que se devem evitar a embriaguez, a devassidão e os cuidados do século, não temem ser feridos e consumidos por eles: porque a fé que dão às palavras do médico, desprezam dá-la às palavras do Senhor.