Lc 19,1-10
1Jesus entrou em Jericó e ia atravessando a cidade. 2Havia aí um homem muito rico chamado Zaqueu, chefe dos recebedores de impostos. 3Ele procurava ver quem era Jesus, mas não o conseguia por causa da multidão, porque era de baixa estatura. 4Ele correu adiante, subiu a um sicômoro para o ver, quando ele passasse por ali. 5Chegando Jesus àquele lugar e levantando os olhos, viu-o e disse-lhe: “Zaqueu, desce depressa, porque é preciso que eu fique hoje em tua casa.” 6Ele desceu a toda a pressa e recebeu-o alegremente. 7Vendo isso, todos murmuravam e diziam: “Ele vai hospedar-se em casa de um pecador...”. 8Zaqueu, entretanto, de pé diante do Senhor, disse-lhe: “Senhor, vou dar a metade dos meus bens aos pobres e, se tiver defraudado alguém, restituirei o quádruplo”. 9Disse-lhe Jesus: “Hoje entrou a salvação nesta casa, porquanto também este é filho de Abraão. 10Pois o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”. (= Mt 25,14-30)
Santo Ambrósio(séc. IV). Zaqueu no sicômoro, o cego à beira do caminho: o Senhor, que há de ter misericórdia, aguarda um deles; ao outro enobrece com o esplendor de sua morada; a respeito disso se diz: E, tendo entrado, Jesus atravessava Jericó; e eis que um homem chamado Zaqueu, que era chefe dos publicanos e rico. E com razão é apresentado como chefe dos publicanos: pois quem desesperaria de si mesmo, quando chega à graça este, cuja riqueza vinha da fraude? E ele era de fato rico, para que saibas que todos os ricos são avarentos
São Cirilo de Alexandria(séc. V). Mas Zaqueu não se demorou nisso; tornou-se, antes, digno da benevolência de Deus, que ilumina os cegos e chama os que estão longe
Tito de Bostra(séc. IV). Nele havia brotado a semente da salvação, pois desejava ver Jesus; donde se segue: E procurava ver quem era Jesus, como quem nunca o tinha visto: pois, se o tivesse visto, já havia muito teria se afastado da maldade de publicano. Com efeito, quem vê Jesus não pode demorar-se nas maldades. Eram duas as dificuldades para essa visão: a multidão o retardava, composta não tanto de homens quanto de pecadores; e era pequeno de estatura; donde se segue: E não podia, por causa da multidão, porque era pequeno de estatura
Santo Ambrósio. Que quer dizer o fato de não ter descrito a estatura de nenhum outro, senão a deste? Vê se não era pequeno em malícia, ou ainda pequeno na fé: pois ainda não estava inclinado quando subiu, ainda não tinha visto a Cristo
Tito de Bostra. Mas ele encontrou um bom engenho: correndo adiante, subiu a um sicômoro e via o Jesus desejado que passava; donde se segue: E, correndo adiante, subiu a um sicômoro para vê-lo, porque por ali havia de passar. Ele, portanto, desejou apenas a visão; mas aquele que sabe fazer mais do que pedimos deu-lhe além do que esperava; donde se segue: E, tendo chegado ao lugar, Jesus, levantando os olhos, viu-o
São Cirilo de Alexandria. Viu, de fato, a alma do homem esforçando-se muito prontamente por viver santamente, e o converteu à piedade
Santo Ambrósio. Sem ser convidado, convida-se à casa dele; donde se segue: E disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, porque hoje devo ficar em tua casa: sabia, com efeito, que a recompensa de sua hospitalidade seria abundante; mas, ainda que não tivesse ouvido a voz, tinha ouvido o afeto de quem o convidava
São Beda, o Venerável(séc. VII–VIII). Eis que o camelo, depondo ali a carga, passa pelo buraco da agulha: isto é, o rico e publicano, deixado o amor das riquezas e desprezada a fortuna das fraudes, recebe a bênção de acolher o Senhor. Segue-se: E, descendo depressa, recebeu-o com alegria
Santo Ambrósio. Aprendam os ricos que a culpa não está nas posses, mas naqueles que não sabem usar as posses: pois as riquezas, assim como são obstáculos para os maus, são auxílios da virtude para os bons
São João Crisóstomo(séc. IV). Mas considera a imensa bondade do Salvador. O inocente convive com os culpados; a fonte da justiça, com a avareza, que é a matéria da perversidade: entrando na casa do publicano, não sofre dano algum da névoa da avareza, mas com o fulgor da justiça destrói a avareza. Mas os maldizentes e amantes da acusação tentam atacar o que ele fazia; pois se segue: E, vendo isso, todos murmuravam, dizendo que ele fora hospedar-se em casa de um homem pecador. Ele, porém, acusado de ser glutão e amigo dos publicanos, desprezava essas coisas para cumprir o seu propósito: porque também o médico, se não suporta o pus dos enfermos, não os livra da doença; o que então aconteceu, pois o publicano converteu-se e tornou-se melhor. Segue-se: Zaqueu, de pé, disse a Jesus: Eis que dou, Senhor, a metade de meus bens aos pobres; e, se defraudei alguém em alguma coisa, restituo o quádruplo. Ouve algo admirável. Ainda não tinha aprendido, e já obedece; e, como o sol, difundido pelos raios na casa, ilumina não pela palavra, mas pela obra, assim o Salvador, com os raios da justiça, pôs em fuga a escuridão da maldade: pois a luz brilha nas trevas. Ora, qualquer coisa unida é forte, dividida, porém, é frágil; e por isso divide a sua substância em duas partes. Deve-se, porém, notar com mais cuidado que as riquezas de Zaqueu não eram apenas injustas, mas também foram reunidas a partir do patrimônio; de outro modo, como poderia restituir em quádruplo o que fora injustamente extorquido? Sabia, com efeito, que a lei manda restituir em quádruplo o que foi mal tirado, para que, se a lei não atemoriza, os prejuízos amenizem. Zaqueu, pois, não espera o rigor da lei, tornando-se juiz de si mesmo
Teofilacto(séc. XI). Mas, se quisermos investigar mais sutilmente, nada lhe restava de seus bens próprios. Com efeito, dada a metade dos bens aos pobres, com o que sobrava restituía em quádruplo aos lesados. E não só prometia isso, mas o fazia: pois não diz: darei a metade e restituirei o quádruplo, mas: dou e restituo. Cristo, porém, anuncia-lhe a salvação: pois se segue: Disse-lhe Jesus: Hoje a salvação entrou nesta casa, significando que o próprio Zaqueu alcançara a salvação, designando pela casa o seu morador; e se segue: Porque também ele é filho de Abraão: pois não chamaria de filho de Abraão uma construção inanimada
São Beda, o Venerável. Zaqueu é chamado filho de Abraão não por ter sido gerado de sua estirpe, mas por ter imitado a sua fé: de modo que, assim como aquele deixou a terra e a casa paterna, este deixasse seus bens repartindo-os com os pobres. E diz belamente também ele, para declarar que pertencem aos filhos da promessa não só os que viveram com justiça, mas também os que se arrependem da injustiça
Teofilacto. Não disse que era filho de Abraão, mas que agora o é: pois antes, quando era chefe dos publicanos, não tendo semelhança alguma com Abraão, o justo, não era filho de Abraão. Mas, como alguns murmuravam por ele se demorar com um homem pecador, para reprimi-los acrescenta: Pois o Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido
São João Crisóstomo. Como se dissesse: por que me acusais, se corrijo os pecadores? Com efeito, está tão longe de mim o ódio aos pecadores que foi por causa deles que vim: pois vim como médico, não como juiz; por isso me torno convidado dos enfermos e suporto o mau cheiro, para aplicar remédios. Alguém perguntará: como Paulo manda que, se algum irmão for insolente ou avarento, não se tome alimento com um tal? Cristo, porém, era convidado dos publicanos. Mas estes ainda não tinham progredido a ponto de se tornarem irmãos. Mas também então Paulo mandou evitar os irmãos quando persistem no mal; estes, porém, tinham sido mudados
São Beda, o Venerável. Misticamente, porém, Zaqueu, que se interpreta justificado, significa o povo que crê, vindo dos gentios, que, rebaixado pela ocupação com as coisas temporais, era o menor, mas foi santificado por Deus; o qual quis ver o Salvador que entrava em Jericó, enquanto procurou participar da fé que ele trouxe ao mundo
São Cirilo de Alexandria. A multidão é a confusão de uma massa inculta, que não pôde ver o cume da sabedoria. Portanto, enquanto Zaqueu está na multidão, não vê a Cristo; mas, tendo ultrapassado a ignorância plebeia, mereceu contemplar aquele que desejava
São Beda, o Venerável. Ou a multidão, isto é, o costume dos vícios, que repreendia o cego que gritava, retarda também a este que olha para o alto; mas, assim como o cego, gritando mais, venceu a multidão, assim o pequeno, deixando as coisas terrenas e subindo à árvore da cruz, transpôs a multidão que o impedia. Com efeito, o sicômoro, que é uma árvore de folhas semelhantes à amoreira, mas superior em altura, razão pela qual é chamado pelos latinos celsa, chama-se figueira tola: e essa mesma cruz do Senhor alimenta os que creem como figueira, e é escarnecida pelos incrédulos como tola. Zaqueu, pequeno de estatura, sobe a essa árvore para poder ser exaltado juntamente, quando qualquer humilde e consciente de sua própria fraqueza clama: Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo
Santo Ambrósio. Belamente acrescentou que o Senhor havia de passar por aquele lado, ou onde estava o sicômoro, ou onde alguém haveria de crer, para guardar o mistério e semear a graça: pois assim viera, para chegar às nações por meio dos judeus. Viu, pois, Zaqueu no alto; com efeito, a sublimidade da fé já se elevava entre os frutos das boas obras, entre a altura de uma árvore fecunda. Zaqueu, porém, está acima da árvore, porque está acima da lei
São Beda, o Venerável. O Senhor, caminhando, chegou ao lugar onde Zaqueu havia subido ao sicômoro: porque, enviados pelo mundo os pregadores, nos quais ele mesmo falava e caminhava, chegou ao povo das nações, que já estava elevado pela fé em sua paixão; e, acolhendo-o, viu-o, porque o escolheu pela graça. Outrora, o Senhor permanecia na casa de um chefe dos fariseus; mas, enquanto ele fazia obras dignas de Deus, línguas venenosas o criticavam: por isso, detestando os crimes deles, retirou-se, dizendo: Vossa casa vos será deixada deserta. Hoje, porém, é preciso que ele permaneça na casa do pequeno Zaqueu, isto é, que repouse no coração das nações humildes, resplandecendo a graça da nova lei. Quanto a ser mandado descer do sicômoro e assim preparar a morada em sua casa, é o que diz o Apóstolo: Ainda que tenhamos conhecido a Cristo segundo a carne, agora já não o conhecemos assim (...). Pois, embora tenha sido morto por fraqueza, vive pelo poder de Deus. É manifesto que os judeus odeiam sempre a salvação das nações; mas a salvação, que outrora enchia as casas dos judeus, iluminou hoje o povo das nações, porque também ele, crendo em Deus, é filho de Abraão
Teofilacto. Mas é fácil também voltar isto para a utilidade moral. Com efeito, todo aquele que preside a muitos na malícia é pequeno de estatura espiritual e não pode ver Jesus por causa da multidão: pois, enredado nas paixões e nas coisas do século, não vê Jesus caminhando, isto é, operando em nós, não reconhecendo obra alguma sua. Sobe, porém, ao sicômoro, isto é, à doçura do prazer, que é significada pelo figo, rebaixando-a; e assim, tornado mais elevado, vê e é visto por Cristo
São Gregório Magno(séc. VI). Ou, porque o sicômoro é chamado figueira tola, o pequeno Zaqueu subiu ao sicômoro e viu o Senhor: porque aqueles que humildemente escolhem a tolice do mundo contemplam sutilmente a sabedoria de Deus. Que há, com efeito, neste mundo, de mais tolo do que não buscar o que se perdeu, deixar aos que arrebatam o que se possui, não devolver injúria alguma pelas injúrias recebidas? Por essa tolice sábia, ainda que não solidamente como ela é, vê-se contudo, pela luz da contemplação, a sabedoria de Deus
Teofilacto. O Senhor lhe diz: Desce depressa; isto é, subiste pela penitência a um lugar mais alto, desce pela humildade, para que a soberba não te derrube: pois é preciso que eu fique na casa do humilde. Existindo em nós dois bens, a saber, os corporais e os espirituais, o justo deixa todos os corporais aos pobres, mas não abandona os bens espirituais, e, se exigiu algo de alguém, restitui o quádruplo: significando com isso que, se alguém pela penitência segue um caminho contrário ao da antiga perversidade, por múltiplas virtudes cura todos os delitos passados; e assim merece a salvação e é chamado filho de Abraão, porque saiu de sua própria parentela, isto é, da antiga maldade
Lc 19,11-27
11Ouviam-no falar. E, como estava perto de Jerusalém, alguns se persuadiam de que o Reino de Deus se havia de manifestar brevemente; ele acrescentou esta parábola: 12“Um homem ilustre foi para um país distante, a fim de ser investido da realeza e depois regressar. 13Chamou dez dos seus servos e deu-lhes dez minas, dizendo-lhes: Negociai até eu voltar. 14Mas os homens daquela região odiavam-no e enviaram atrás dele embaixadores, para protestarem: Não queremos que ele reine sobre nós. 15Quando, investido da dignidade real, voltou, mandou chamar os servos a quem confiara o dinheiro, a fim de saber quanto cada um tinha lucrado. 16Veio o primeiro: Senhor, teu dinheiro rendeu 10 vezes mais. 17Ele lhe disse: Muito bem, servo bom; porque foste fiel nas coisas pequenas, receberás o governo de dez cidades. 18Veio o segundo: Senhor, teu dinheiro rendeu 5 vezes mais. 19Disse a este: Sê também tu governador de cinco cidades. 20Veio também o outro: Senhor, aqui tens teu dinheiro, que guardei embrulhado num lenço; 21pois tive medo de ti, por seres homem rigoroso, que tiras o que não puseste e ceifas o que não semeaste. 22Replicou-lhe ele: Servo mau, pelas tuas palavras te julgo. Sabias que sou rigoroso, que tiro o que não depositei e ceifo o que não semeei... 23Por que, pois, não puseste o meu dinheiro num banco? Na minha volta, eu o teria retirado com juros. 24E disse aos que estavam presentes: Tirai-lhe a mina, e dai-a ao que tem dez minas. 25Replicaram-lhe: Senhor, este já tem dez minas!... 26Eu vos declaro: a todo aquele que tiver, lhe será dado; mas, ao que não tiver, lhe será tirado até o que tem. 27Quanto aos que me odeiam, e que não me quiseram por rei, trazei-os e massacrai-os na minha presença”.
Eusébio de Cesareia(séc. IV). Alguns julgavam que, na primeira vinda do Salvador, o seu reino viria; e pensavam que isso aconteceria logo, quando ele estava para subir a Jerusalém: tanto os havia deixado atônitos os milagres divinos que fizera. E por isso os instrui de que não receberia o reino do Pai antes de ir dos homens ao Pai; e por isso se diz, ouvindo eles isto: Acrescentando, disse uma parábola, por estar perto de Jerusalém e porque julgavam que o reino de Deus se manifestaria imediatamente
Teofilacto. Mas o Senhor mostra-lhes que julgavam coisas vãs: pois o reino de Deus não é sensível. Mostra também que, como Deus, conhece os pensamentos deles, propondo-lhes a parábola seguinte; donde se segue: Disse, pois: Um homem nobre foi para uma região distante, a fim de receber para si um reino e voltar
São Cirilo de Alexandria. O sentido desta parábola descreve os mistérios de Cristo do primeiro ao último. Com efeito, o Verbo, que era Deus, fez-se homem: e, embora tenha se feito servo, é contudo nobre pela inefável origem do Pai
São Basílio Magno(séc. IV). Não apenas segundo o gênero humano, nascido da descendência de Davi segundo a carne. Foi para uma região distante, separada não tanto por distância de lugar quanto pela condição das coisas: pois o próprio Deus está perto de cada um de nós, quando nossas boas obras nos unem a ele; e está distante todas as vezes que, apegando-nos à perdição, nos afastamos dele. Chegou, pois, a esta região terrena, distante de Deus, para receber o reino das nações, segundo aquilo: Pede-me, e te darei as nações por herança
Santo Agostinho, de quaest. Evang(séc. IV–V). Ou a região distante é a Igreja das nações, até os confins da terra: pois foi para que entrasse a plenitude das nações; voltará para que todo o Israel seja salvo
Eusébio de Cesareia. Ou, por ter partido para uma região distante, designa a sua própria subida da terra aos céus; quando, porém, acrescenta para receber para si um reino e voltar, mostra a sua segunda aparição, gloriosa e régia. E primeiro chama-se homem por causa do nascimento na carne, depois nobre; ainda não se chama rei, porque ainda não exercia, na primeira aparição, a majestade régia. E diz-se bem que obtém para si o reino; pois o obteve do Pai que o deu, segundo aquilo: Eis que o Filho do Homem vinha nas nuvens, e foi-lhe dado o reino
São Cirilo de Alexandria. Com efeito, subindo aos céus, está sentado à direita da majestade nas alturas; subindo, porém, distribuiu aos que creem nele a diversidade dos carismas divinos, assim como aos servos são confiados os bens do senhor, para que, lucrando algo, apresentem os louvores de seu serviço; donde se segue: Chamando dez servos seus, deu-lhes dez minas. A Sagrada Escritura costuma usar o número dez como sinal de perfeição: se alguém quiser passar dele ao contar, recomeçará de novo da unidade, como se o dez tivesse sido levado à meta: e por isso, na distribuição dos talentos, diz que aquele que alcança a meta do serviço divino recebeu dez minas
Santo Agostinho. Ou por dez minas significa a lei, por causa do Decálogo; e por dez servos, aqueles a quem, postos sob ela, foi pregada a graça. Assim se deve entender que as minas lhes foram dadas para o uso, quando entenderam que a lei, removido o véu, pertence ao Evangelho
São Beda, o Venerável. A mina, que os gregos chamam mna, pesa cem dracmas; e toda palavra da Escritura, porque sugere a perfeição da vida celeste, resplandece como com o peso do número cem
Eusébio de Cesareia. Significa, portanto, por aqueles que recebem as minas, os seus discípulos, aos quais, dando a cada um uma mina, confiando a todos uma distribuição igual, mandou negociar. Segue-se: E disse-lhes: Negociai até que eu venha. Não havia outro negócio senão pregar, por meio de seus discípulos, a doutrina do seu reino aos mortais atentos. Ora, a instrução de todos é a mesma, e a mesma a fé, um só o Batismo; e por isso se dá uma só mina a cada um
São Cirilo de Alexandria. Grande é a diferença entre estes e aqueles que renegaram o reino de Deus; a respeito deles se acrescenta: Seus cidadãos, porém, o odiavam e enviaram atrás dele uma delegação, dizendo: Não queremos que este reine sobre nós. É o que Cristo censurou nos judeus, dizendo: Agora, porém, viram e odiaram a mim e ao Pai. Recusaram o seu reino, dizendo a Pilatos: Não temos rei senão César
Eusébio de Cesareia. Pois, ao dizer seus cidadãos, significa os judeus, nascidos da mesma linhagem segundo a carne, e porque seguia com eles, igualmente, o rito da lei
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Enviaram uma delegação atrás dele, porque, mesmo depois da sua ressurreição, lançaram perseguições contra os apóstolos e rejeitaram a pregação do Evangelho
Eusébio de Cesareia. Depois que o Salvador ensinou isto, que pertence à sua primeira vinda, mostra em seguida o seu retorno glorioso e régio, dizendo: E aconteceu que, tendo recebido o reino, voltou e mandou chamar os servos a quem dera o dinheiro, para saber quanto cada um havia negociado
São João Crisóstomo. A Sagrada Escritura conhece dois reinos de Deus: um pela criação, segundo o qual é rei de todos por direito de criação; o outro pela aprovação, segundo o qual domina sobre os justos, a ele sujeitos por própria vontade; e diz-se aqui que ele recebeu este reino
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Volta também depois de ter recebido o reino, porque virá em claríssimo esplendor aquele que lhes apareceu humilde, quando dizia: O meu reino não é deste mundo
São Cirilo de Alexandria. Quando Cristo voltar, tendo recebido o reino, merecerão louvores e se deleitarão, nas honras do alto, os ministros da palavra, porque multiplicaram o talento com muitos ganhos; donde se acrescenta: Veio o primeiro, dizendo: Senhor, a tua mina rendeu dez minas
São Beda, o Venerável. O primeiro servo é a ordem dos doutores enviados à circuncisão; que recebeu uma só mina para negociar, porque lhe foi mandado pregar uma só fé; mas essa mina rendeu dez minas, porque, ensinando, associou a si o povo constituído sob a lei. Segue-se: E disse-lhe: Muito bem, servo bom: porque foste fiel no pouco, terás poder sobre dez cidades. É fiel no pouco o servo, porque não adultera a palavra de Deus. Com efeito, tudo o que recebemos agora de dons é pouco em comparação com os futuros
Um autor grego(). Mas, porque recebe a recompensa de seus próprios bens, diz-se que preside a dez cidades. Alguns, conjeturando de modo muito baixo sobre estas promessas, julgam que lhes serão dadas magistraturas e prefeituras na Jerusalém terrena restaurada com pedras preciosas, se tiverem vivido honestamente em Cristo, sem de modo algum depor da alma a ambição de poder e de precedência
Santo Ambrósio. Mas as dez cidades são almas, às quais é com razão preposto aquele que emprestou a juros, às mentes dos homens, o dinheiro do Senhor e as palavras castas provadas como a prata: pois, assim como se diz que Jerusalém foi edificada como cidade, assim são as almas pacíficas; e, assim como os Anjos presidem, assim também os que mereceram a vida dos Anjos. Segue-se: E veio outro, dizendo: Senhor, a tua mina rendeu cinco minas
São Beda, o Venerável. Aquele servo é a assembleia dos que foram enviados a evangelizar os incircuncisos, cuja mina, isto é, a fé evangélica, rendeu cinco minas: porque converteu à graça da fé evangélica as nações antes sujeitas aos sentidos do corpo. Segue-se: E a este disse: Tu também, sê sobre cinco cidades; isto é, resplandeças elevado pela fé e pela conduta daquelas almas que tinhas instruído
Santo Ambrósio. Ou talvez de outro modo. Este que ganhou cinco minas possui as coisas morais, porque cinco são os sentidos do corpo; aquele que ganhou dez, as duplas; isto é, as místicas da lei e as morais da probidade. Podemos também entender aqui as dez minas como as dez palavras, isto é, a doutrina da lei; as cinco minas, como os ensinamentos da disciplina; quero, porém, que o conhecedor da lei seja perfeito em tudo. E é bom que, falando dos judeus, apenas dois apresentem o dinheiro multiplicado, não certamente com os juros do bronze, mas com os da discussão
São João Crisóstomo. Com efeito, uma coisa é o dinheiro do empréstimo a juros, outra o rendimento da doutrina celeste. Nas riquezas terrenas, não acontece que um se torne rico sem que outro empobreça; mas nas espirituais não acontece que alguém se enriqueça sem enriquecer também a outro: pois nas coisas corporais a partilha diminui, mas nas espirituais aumenta
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Ou de outro modo. O fato de que um dos que fizeram bom uso adquiriu dez, e o outro cinco, significa que são adquiridos para o rebanho do Senhor aqueles pelos quais a lei já foi compreendida mediante a graça, seja por causa dos dez preceitos da lei, seja porque aquele por quem a lei foi dada escreveu cinco livros. A isso se referem as dez e as cinco cidades, às quais ele os põe à frente: com efeito, a multiplicação da inteligência, na própria variedade que brota de cada preceito ou de cada livro, reduzida à unidade, faz como que uma cidade das razões eternas dos viventes; pois a cidade é a multidão, não de quaisquer seres vivos, mas de seres racionais, unida pela sociedade de uma só lei. Quanto ao fato de que os servos, ao prestarem contas do que haviam recebido, são louvados por terem lucrado, significa que prestam boa conta aqueles que fizeram bom uso do que receberam para aumentar as riquezas do Senhor por meio dos que creem nele. Os que não querem fazê-lo estão indicados naquele que guardou a sua mina no lenço; a respeito dele segue-se: E veio o terceiro, dizendo: Senhor, eis a tua mina, que eu tinha guardada num lenço. Há, com efeito, homens que se lisonjeiam com esta perversidade, dizendo: basta que cada um preste contas de si mesmo; que necessidade há de pregar aos outros e de servi-los, de modo que cada um seja obrigado a prestar contas também a respeito deles? Ora, junto ao Senhor são inescusáveis até aqueles a quem a lei não foi dada, e também os que, tendo ouvido o Evangelho, não obedeceram, porque pela criatura podiam conhecer o criador; por isso se segue: Tive medo de ti, porque és homem severo: tomas o que não puseste e ceifas o que não semeaste. Isto é, com efeito, como que ceifar onde não semeou: considerar réus de impiedade aqueles a quem não foi ministrada a palavra, nem da lei nem do Evangelho. Ora, evitando como que esse perigo do julgamento, repousam, com preguiçoso labor, do ministério da palavra; e isto é como que atar num lenço o que receberam.
Teofilacto. Com efeito, com o lenço cobre-se o rosto dos mortos; com razão, pois, diz-se que este preguiçoso envolveu a mina num lenço, porque, mortificando-a e deixando-a ociosa, não a manejou nem a aumentou.
São Beda, o Venerável. Ou: atar o dinheiro num lenço é esconder os dons recebidos sob o ócio de um corpo indolente. Mas o que ele julgara dizer como desculpa volta-se em culpa própria; por isso se segue: Pela tua boca te julgo, servo mau. Chama-se servo mau, como quem é preguiçoso para exercer o negócio e soberbo para acusar o julgamento do Senhor. Sabias que sou homem severo, que tomo o que não pus e ceifo o que não semeei; e por que não puseste o meu dinheiro no banco? Como se dissesse: se sabias que eu era duro e cobiçava o alheio, por que este pensamento não te incutiu temor, para que soubesses que eu reclamaria com mais diligência o que é meu? Ora, o dinheiro ou a prata é a pregação do Evangelho e a palavra divina, porque as palavras do Senhor são palavras castas, prata provada no fogo; essa palavra do Senhor devia ser posta no banco, isto é, ser incutida em corações prontos e preparados.
Santo Agostinho. Ou o banco em que se devia pôr o dinheiro, entendemos como a própria profissão da religião, que é como que proposta publicamente para o uso necessário à salvação.
São João Crisóstomo. Ora, nas riquezas sensíveis os devedores estão obrigados apenas à conservação; pois quanto recebem, tanto é necessário que devolvam, e nada mais se lhes exige. Nas palavras divinas, porém, não somos obrigados apenas à guarda, mas somos também advertidos a multiplicar; por isso se segue: E eu, ao vir, certamente a teria exigido com juros.
São Beda, o Venerável. Com efeito, quem recebe do doutor, pela fé, o dinheiro da palavra, é necessário que o pague com juros pela prática; ou que, a partir do que ouviu, procure compreender também outras coisas que ainda não aprendeu da boca do pregador.
São Cirilo de Alexandria. Com efeito, é próprio dos doutores semear nos ouvintes a palavra salutar e proveitosa; é obra, porém, do poder divino atrair os obedientes à escuta e tornar fértil o seu entendimento. Ora, este servo não é louvado nem mereceu honra, mas antes foi condenado como inerte; por isso se segue: E disse aos presentes: Tirai-lhe a mina e dai-a ao que tem dez minas.
Santo Agostinho. Por isso se significa que pode perder o dom de Deus aquele que, tendo, não tem, isto é, não o usa; e que é aumentado aquele que, tendo, tem, isto é, usa bem.
São Beda, o Venerável. Ora, isto, como penso, indica misticamente que, entrando a plenitude das nações, todo o Israel será salvo, e então a abundância da graça espiritual, que agora exercemos com tibieza, será conferida aos doutores daquele povo.
São João Crisóstomo. Diz, porém, aos presentes: Tirai-lhe a mina, porque não é próprio de ânimo prudente punir; mas precisa de outro, a saber, de um ministro, para o ofício de punir do juiz; pois também Deus não inflige ele mesmo as penas, mas por mediação dos Anjos.
Santo Ambrósio. Silencia-se sobre os outros servos, que, como devedores pródigos, perderam o que haviam recebido. Nos dois servos que lucraram, estão indicados os poucos que foram enviados por duas vezes aos cultivadores da vinha; nos restantes, todos os judeus. Segue-se: E disseram-lhe: Senhor, ele tem dez minas. E, para que isso não parecesse injusto, acrescenta: Digo-vos que a todo aquele que tem será dado.
Teofilacto. Porque, tendo aumentado as dez por decuplicação, é claro que, decuplicando mais, será ocasião de maior lucro para o Senhor. Do indolente e ocioso, porém, que não se empenha em aumentar o que recebeu, será tirado até aquilo que possui; por isso se segue: Daquele, porém, que não tem, até o que tem lhe será tirado, para que o capital do Senhor não fique ocioso, quando poderia ser dado a outros e multiplicado. Isto, porém, deve ser referido não só à palavra e à doutrina, mas também às virtudes morais, porque também nestas Deus nos dá os seus carismas, dotando este com o jejum, aquele com a oração, outro com a mansidão ou a humildade; se vigiarmos sobre eles, os multiplicaremos; se formos tíbios, os extinguiremos. Em seguida, acerca dos adversários, acrescenta: Mas quanto àqueles meus inimigos, que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os e matai-os diante de mim.
Santo Agostinho. Com isso designa a impiedade dos judeus, porque não quiseram converter-se a ele.
Teofilacto. Entregou-os à morte, lançando-os no fogo exterior; mas também neste mundo foram mortos lamentavelmente pelo exército dos romanos.
São João Crisóstomo. Isto convém contra os marcionistas; pois também Cristo diz: Trazei os meus inimigos e matai-os na minha presença, embora aqueles digam que Cristo é bom, mas que o Deus do Antigo Testamento é mau. Fica claro, porém, que o Pai e o Filho fazem o mesmo: pois o Pai envia o exército contra a vinha, e o Filho manda que os inimigos sejam trucidados diante de si. Esta parábola que se escreve em Lucas é outra, diferente da que se narra em Mateus sobre os talentos: pois aqui, de um só capital recebido, houve vários rendimentos, porque, de uma só mina recebida, este cinco talentos, aquele ofereceu dez; mas em Mateus é o contrário: pois quem recebeu dois acrescentou dois, e quem recebeu cinco, outro tanto; por isso também são agraciados com prêmios desiguais.
Lc 19,28-36
28Depois dessas palavras, Jesus os foi precedendo no caminho que sobe a Jerusalém. (= Mt 21,1-16 = Mc 11,1-11 = Jo 12,12-19) 29Chegando perto de Betfagé e de Betânia, junto do monte chamado das Oliveiras, Jesus enviou dois dos seus discípulos e disse-lhes: 30“Ide a essa aldeia que está defronte de vós. Entrando nela, achareis um jumentinho atado, em que nunca montou pessoa alguma; desprendei-o e trazei-mo. 31Se alguém vos perguntar por que o soltais, respondereis assim: O Senhor precisa dele”. 32Partiram os dois discípulos e acharam tudo como Jesus tinha dito. 33Quando desprendiam o jumentinho, perguntaram-lhes seus donos: “Por que fazeis isto?”. 34Eles responderam: “O Senhor precisa dele”. 35E trouxeram a Jesus o jumentinho, sobre o qual deitaram seus mantos e fizeram Jesus montar. 36À sua passagem, muitas pessoas estendiam seus mantos no caminho.
Tito de Bostra. Porque o Senhor dissera: Aproximou-se o reino de Deus, vendo-o subir a Jerusalém, pensavam que ele subia para dar início ao reino de Deus. Consumada, pois, a parábola, na qual corrigiu o erro mencionado, e mostrado que ainda não vencera a morte que lhe armava ciladas, avançava para a paixão, subindo a Jerusalém; por isso se diz: E, ditas estas coisas, ia adiante, subindo a Jerusalém.
São Beda, o Venerável. Mostrando também que a parábola fora proposta a respeito do destino da mesma cidade, que ia matá-lo e que ia perecer em calamidade inimiga. Segue-se: E aconteceu que, ao aproximar-se de Betfagé e Betânia, junto ao monte chamado das Oliveiras, enviou dois dos seus discípulos. Betfagé era um lugar de sacerdotes no monte das Oliveiras; Betânia também, uma cidade, ou aldeola, na encosta do mesmo monte, a cerca de quinze estádios de Jerusalém.
São João Crisóstomo. E, de fato, nos começos o Senhor se apresentava aos judeus sem distinção; mas, depois que deu suficiente prova do seu poder, trata cada coisa com muita autoridade. Realizam-se, pois, muitos milagres. Predisse que encontrariam um jumentinho indomado; e é o que se acrescenta, dizendo: Ide à aldeia que está diante de vós; ao entrardes nela, encontrareis preso um jumentinho de jumenta, no qual jamais homem algum se sentou. Prediz também que ninguém o impedirá, mas que, ao ouvirem, se calarão; por isso se segue: Soltai-o e trazei-o. Se alguém vos perguntar: Por que o soltais? Assim lhe direis: Porque o Senhor deseja o seu serviço.
Tito de Bostra. Nisso ficou claro que a vocação seria divina: com efeito, ninguém pode resistir a Deus, que chama o que é seu. Os discípulos, mandados levar o jumentinho, não recusaram este ofício como pequeno, mas foram para trazê-lo; por isso se segue: Foram, pois, os que haviam sido mandados e encontraram, como ele disse, o jumentinho em pé.
São Basílio Magno. Assim também nos ensina a empreender com muito afeto e zelo até as obras mais humildes, sabendo que tudo o que se faz tendo Deus em vista não é pequeno, mas digno no reino dos céus.
Tito de Bostra. Calam-se, porém, por causa da excelência de um poder forte, não podendo resistir às palavras do Salvador, os que haviam amarrado o jumento; segue-se, com efeito: Enquanto eles o soltavam, disseram-lhes os seus donos: Por que soltais o jumentinho? E eles disseram: Porque o Senhor precisa dele. Pois é nome majestoso o de Senhor: com efeito, o rei estava para vir à vista da multidão.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Que não perturbe o fato de Mateus falar da jumenta e do jumentinho e os demais calarem sobre a jumenta: pois, onde se pode entender que ambas as coisas aconteceram, não há contradição, nem se um mencionasse uma coisa e outro, outra; quanto menos onde um menciona uma e outro, ambas?
Glosa(séc. XII). Os discípulos obedeceram a Cristo não só quanto ao jumentinho alheio, mas também quanto às próprias vestes, que em parte puseram sobre o jumento, em parte estendiam no caminho; por isso se segue: E o levaram a Jesus e, lançando suas vestes sobre o jumentinho, fizeram Jesus montar. Enquanto ele avançava, estendiam as suas vestes pelo caminho.
São Beda, o Venerável. Segundo os outros Evangelistas, não apenas os discípulos, mas também muitíssimos da multidão estendiam vestes pelo caminho.
Santo Ambrósio, Homilias sobre Lucas. Misticamente, o Senhor veio ao monte das Oliveiras para plantar, na sublime verdade, novas oliveiras; e talvez o próprio monte seja Cristo: quem mais produziria tais frutos de oliveiras fecundadas pelo Espírito Santo?
São Beda, o Venerável. Com razão, porém, mencionam-se as cidades situadas no monte das Oliveiras, isto é, no próprio Senhor, que reanima a unção dos carismas espirituais com a luz da ciência e da piedade.
Orígenes(séc. III). Betânia, porém, interpreta-se casa da obediência; Betfagé, casa das mandíbulas, lugar de certo modo sacerdotal: com efeito, as mandíbulas eram dadas aos sacerdotes, como se prescreve na lei: é para lá, onde há obediência e onde o lugar é consagrado aos sacerdotes, que o Salvador envia os seus discípulos, para que soltem o jumentinho da jumenta.
Santo Ambrósio. Estavam, com efeito, na aldeia, e o jumentinho estava preso junto com a jumenta, e não podia ser solto senão por ordem do Senhor. Solta-o a mão apostólica. Tal ato, tal vida, tal graça. Sê tal, que possas soltar os presos. Na jumenta, o Evangelista Mateus figurou como que a mãe do erro; aqui, porém, no jumentinho exprimiu a generalidade do povo gentio. E bem se diz: no qual ninguém se sentou, porque ninguém antes de Cristo chamou à Igreja os povos das nações. Estava, porém, retido preso pelos laços da perfídia, entregue ao serviço do erro, de um senhor iníquo; mas não podia reivindicar para si o domínio, aquele a quem fizera senhor não a natureza, mas a culpa; e por isso, quando se diz o Senhor, reconhece-se um só. Miserável servidão aquela cujo direito é incerto: com efeito, tem muitos senhores quem não tem um só. Os alheios prendem para possuir; este solta, para ter: sabe, com efeito, que os dons são mais poderosos que os laços.
Orígenes. Eram, pois, muitos os senhores deste jumentinho, antes que o Salvador precisasse dele; depois, porém, que aquele começou a ser o Senhor, deixaram de existir muitos senhores: com efeito, ninguém pode servir a Deus e a Mamon. Quando servimos à malícia, estamos sujeitos a muitas paixões e vícios. O Senhor precisa, porém, do jumentinho, porque deseja que sejamos soltos dos laços dos pecados.
Orígenes, super Ioannem. Eu, porém, julgo que não é em vão que este lugar, onde estava presa a jumenta e o jumentinho, é uma aldeia: pois, como uma aldeia em relação a todo o orbe celeste, toda a terra é desprezada, sendo chamada sem acréscimo de outro nome.
Santo Ambrósio. Nem é ocioso que dois discípulos sejam enviados, Pedro a Cornélio, Paulo aos demais: e por isso não designou pessoas, mas definiu o número. Todavia, se há quem exija pessoas, pode pensar em Filipe, a quem o Espírito Santo enviou a Gaza, quando batizou o eunuco da rainha Candace.
Teofilacto. Ou os dois enviados indicam isto: que para a introdução do povo gentio e sua sujeição a Cristo, os profetas e os apóstolos constituem dois degraus. Conduzem-no, porém, de uma certa aldeia, para que nos fique claro que este povo era rústico e indouto.
Santo Ambrósio. Aqueles, pois, enviados, ao soltarem o jumentinho, não usaram palavras suas, mas disseram o que Jesus lhes dissera; para que reconheças que não com palavra sua, mas com a palavra de Deus, nem em nome próprio, mas no de Cristo, infundiram a fé nos povos gentios: e as potências adversárias, que reivindicavam para si a obediência das nações, cederam ao mandato divino.
Orígenes, Homilias sobre Lucas. Em seguida, os discípulos põem as suas vestes sobre a jumenta e fazem sentar o Salvador, enquanto assumem a palavra de Deus e a impõem sobre as almas dos ouvintes. Despojam-se das vestes e as estendem no caminho: porque as vestes dos apóstolos são as suas boas obras. E de fato o jumento, solto pelos discípulos e levando Jesus, avança sobre as vestes dos apóstolos, quando imita a doutrina e a vida deles. Quem de nós é tão bem-aventurado que Jesus se sente sobre ele?
Santo Ambrósio. Não agradou, com efeito, ao Senhor do mundo ser levado sobre o dorso de uma jumenta; mas que, oculto o mistério, nos recessos das almas, em assento interior, o condutor místico se assentasse, regendo os passos da mente, refreando a lascívia da carne: a sua palavra é rédea, é aguilhão.
Lc 19,41-44
41Aproximando-se ainda mais, Jesus contemplou Jerusalém e chorou sobre ela, dizendo: 42“Oh! Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!... Mas não, isso está oculto aos teus olhos. 43Virão sobre ti dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, te sitiarão e te apertarão de todos os lados; 44eles destruirão a ti e a teus filhos que estiverem dentro de ti, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo em que foste visitada”.* (Mt 21,12s = Mc 11,15-19)
Orígenes, Homilias sobre Lucas. Todas as bem-aventuranças que Jesus proferiu em seu Evangelho, confirma-as com o exemplo; assim, o que dissera: Bem-aventurados os mansos, prova dizendo: Aprendei de mim, que sou manso; e porque dissera: Bem-aventurados os que choram, ele próprio também chorou sobre a cidade; por isso se diz: E, quando se aproximou, vendo a cidade, chorou sobre ela.
São Cirilo de Alexandria. Cristo se compadecia deles, ele que quer que todos os homens sejam salvos: o que não nos teria ficado claro se não se tornasse evidente por algo humano: com efeito, as lágrimas derramadas são sinais de tristeza.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos(séc. VI). Chorou, pois, o piedoso redentor a ruína da cidade infiel, que a própria cidade não reconhecia que viria sobre si; por isso se acrescenta, dizendo: Pois, se tu também tivesses conhecido: subentende-se: choraria, tu que agora, porque ignoras o que está iminente, exultas; por isso se acrescenta: E, de fato, neste teu dia, o que é para a paz. Pois, entregando-se aos prazeres da carne no seu dia, tinha as coisas que podiam ser-lhe para a paz. Por que, porém, tinha para a paz os bens presentes, manifesta-se quando se acrescenta: Mas agora estão ocultas aos teus olhos. Se, com efeito, os males iminentes não estivessem ocultos aos olhos do seu coração, não teria estado alegre nas prosperidades presentes; por isso logo se lhe acrescenta a pena que a ameaçava, quando se segue: Pois virão dias sobre ti.
São Cirilo de Alexandria. Ou de outro modo. Pois, se tu também tivesses conhecido: com efeito, não eram dignos de receber as Escrituras divinamente inspiradas, que narram o mistério de Cristo: pois, todas as vezes que se lê Moisés, um véu cobre o seu coração. E porque não contemplaram a verdade, tornaram-se indignos da salvação que emana de Cristo; por isso se segue: E, de fato, neste teu dia, o que é para a paz.
Eusébio de Cesareia. Aqui nota que a sua vinda se fez para a paz do mundo inteiro; com efeito, veio para isto, para pregar a paz aos próximos e aos distantes. Mas, porque não quiseram receber a paz que lhes foi anunciada, isto lhes ficou oculto; por isso se acrescenta: Mas agora estão ocultas aos teus olhos. E por isso prenuncia com a máxima clareza o cerco que em breve lhe sobreviria, acrescentando: Pois virão dias sobre ti, e os teus inimigos te cercarão com uma trincheira.
São Gregório Magno. Aqui são anunciados os príncipes romanos. Descreve-se, com efeito, aquela destruição de Jerusalém que foi feita por Vespasiano e Tito, príncipes romanos; por isso se acrescenta: E te cercarão, e te apertarão por todos os lados, e te lançarão por terra, a ti e aos teus filhos que estão dentro de ti.
Eusébio de Cesareia. Como, porém, estas coisas se cumpriram, podemos colher do que foi transmitido por Josefo, que, sendo judeu, narrou também cada um dos fatos em consonância com o que foi predito por Cristo.
São Gregório Magno. Também o que se acrescenta: E não deixarão em ti pedra sobre pedra, o testemunha já a própria transmigração da mesma cidade: porque, estando ela agora construída no lugar onde o Senhor foi crucificado fora da porta, aquela primeira Jerusalém, como se diz, foi destruída desde os fundamentos. Por qual culpa lhe foi infligida a pena da destruição, acrescenta-se: Por não teres conhecido o tempo da tua visita.
Teofilacto. Isto é, da minha vinda: pois vim para te ver e salvar. Se o conhecesses e cresses em mim, estarias pacificada em relação aos romanos e livre de todos os perigos; como todos os que creram em Cristo escaparam.
Orígenes, Homilias sobre Lucas. Não nego, pois, que também aquela Jerusalém foi destruída por causa dos crimes dos habitantes; mas pergunto se por acaso este pranto não diz respeito a esta Jerusalém. Se, com efeito, alguém pecar depois dos mistérios da verdade, será pranteado: pois ninguém é chorado por ser gentio, mas aquele que foi de Jerusalém e deixou de ser.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Com efeito, o nosso Redentor não cessa de chorar por meio dos seus eleitos, quando vê que alguns passaram da vida boa a costumes reprováveis; se esses tivessem conhecido a condenação que lhes ameaça, chorariam a si mesmos com as lágrimas dos eleitos. Ora, a alma perversa tem aqui o seu dia, ela que se alegra no tempo passageiro; para ela as coisas presentes são paz, enquanto se compraz nas coisas temporais. Ela foge de prever as coisas futuras, que perturbariam a alegria presente; por isso se diz: agora, porém, estão escondidas aos teus olhos.
Orígenes. Ora, também a nossa Jerusalém é chorada, porque, depois dos pecados, os inimigos a cercam, isto é, os espíritos malignos, e lançam ao redor dela uma trincheira, para a sitiarem e não deixarem pedra sobre pedra; sobretudo se alguém, depois de muita continência, depois de alguns anos de castidade, tiver sido vencido e, seduzido pelos afagos da carne, tiver perdido a paciência e o pudor, se tiver fornicado; não deixarão nele pedra sobre pedra, conforme aquilo: não me recordarei das suas primeiras justiças.
São Gregório Magno. Ou de outro modo. Os espíritos malignos sitiam a alma que sai do corpo, a qual, posta no amor da carne, eles acalentavam com deleites enganosos; eles a cercam com uma trincheira, porque, trazendo diante dos olhos da sua mente as iniquidades que ela cometeu, a apertam pela companhia da sua própria condenação, para que, surpreendida no extremo da vida, veja por quais inimigos está cercada e, contudo, não possa achar saída para escapar: porque já não lhe é lícito praticar o bem, que desprezou quando lhe era lícito fazê-lo. Também a apertam por todos os lados, quando lhe repassam as iniquidades não só da obra, mas também da palavra e do pensamento: de modo que a que antes se dilatou no crime por meio de muitas coisas, no fim se angustie por tudo na retribuição. Então a alma é lançada por terra pela condição da sua culpa, quando a carne, que ela julgou ser a sua vida, é obrigada a voltar ao pó. Então caem os seus filhos na morte, quando os pensamentos ilícitos, que agora procedem dela, se dissipam na vingança extrema: esses pensamentos também podem ser significados pelas pedras: com efeito, a mente perversa, quando ao pensamento perverso acrescenta outro mais perverso, é como se pusesse pedra sobre pedra; mas quando a alma é conduzida ao seu castigo, toda a construção dos pensamentos se dissipa. Ora, Deus visita assiduamente a alma má, ora com um preceito, ora com um flagelo, ora com um milagre, para que ouça as verdades que ignorava; e, desprezando-o, ou volte, compungida pela dor, ou, vencida pelos benefícios, se envergonhe do mal que fez. Mas, porque não conhece o tempo da sua visita, no fim da vida é entregue aos seus inimigos.
Lc 19,45-48
45Em seguida, entrou no templo e começou a expulsar os mercadores. 46Disse ele: “Está escrito: A minha casa é casa de oração! Mas vós a fizestes um covil de ladrões” (Is 56,7; Jr 7,11). 47Todos os dias ensinava no templo. Os príncipes dos sacerdotes, porém, os escribas e os chefes do povo procuravam tirar-lhe a vida. 48Mas não sabiam como realizá-lo, porque todo o povo ficava muito admirado, quando o ouvia falar. (Mt 21,23-27 = Mc 11,27-33)
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Aquele que tinha narrado os males vindouros entrou logo no templo, para dele expulsar os que vendiam e compravam, mostrando que a ruína do povo se deveu sobretudo à culpa dos sacerdotes; por isso se diz: E, tendo entrado no templo, começou a expulsar os que nele vendiam e compravam.
Santo Ambrósio. Com efeito, Deus quer que o seu templo não seja hospedaria de mercador, mas morada de santidade; e não ordena o uso do ministério sacerdotal para um ofício de religião posto à venda, mas para um serviço gratuito.
São Cirilo de Alexandria. Havia no templo uma multidão de mercadores, que vendiam os animais a serem imolados nos sacrifícios segundo o rito da Lei. Mas já chegava o tempo de cessar a sombra e de resplandecer a verdade de Cristo: por isso Cristo, que juntamente com o Pai era adorado no templo, mandou corrigir os ritos da Lei e fazer do templo uma casa de oração; por isso se acrescenta, dizendo-lhes: Está escrito: A minha casa é casa de oração; vós, porém, fizestes dela um covil de ladrões.
São Gregório Magno. Com efeito, não havia dúvida de que aqueles que se assentavam no templo para receber presentes causariam prejuízos a alguns que não os davam.
Teofilacto. O Senhor fez isto também no princípio da sua pregação, como narra João; e agora o fez de novo: o que redunda em maior crime dos judeus, que não foram corrigidos pela primeira advertência.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Em sentido místico, podes entender o próprio templo como o homem Cristo, ou também com o corpo a ele unido, que é a Igreja. Segundo aquilo que ele é como cabeça da Igreja, foi dito: Destruí este templo, e em três dias o levantarei; segundo aquilo que é a Igreja a ele unida, entende-se o templo do qual parece ter dito: Tirai isto daqui. Com efeito, significou que haveria na Igreja quem tratasse antes de seus próprios negócios, ou tivesse ali esconderijos para ocultar os seus crimes, em vez de seguir a caridade de Cristo e, pela confissão dos pecados, recebido o perdão, ser corrigido.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. O nosso Redentor não retira as palavras da pregação nem aos indignos, nem aos ingratos; por isso, depois de ter mantido o rigor da disciplina expulsando os perversos, mostra-lhes o dom da graça; pois se acrescenta: E ensinava cada dia no templo.
São Cirilo de Alexandria. Convinha que, pelo que Cristo dissera e fizera, o adorassem como Deus; mas eles, de modo algum fazendo isso, procuravam matá-lo; pois segue-se: Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os chefes do povo procuravam fazê-lo perecer.
São Beda, o Venerável. Ou porque ensinava cada dia no templo, ou porque tinha expulsado os ladrões do templo, ou porque, vindo para lá como rei e senhor, recebeu da multidão dos que creem o louvor do hino celeste.
São Cirilo de Alexandria. Mas o povo formou de Cristo um juízo mais elevado do que os escribas, os fariseus e os chefes dos judeus, que, não aceitando a fé em Cristo, repreendiam os outros; por isso segue-se: E não achavam o que lhe fazer; pois todo o povo estava suspenso, ouvindo-o.
São Beda, o Venerável. O que pode ser entendido de dois modos: ou porque, temendo o tumulto do povo, não achavam o que fazer de Jesus, a quem tinham resolvido fazer perecer; ou porque procuravam fazer Jesus perecer, uma vez que viam que, desprezado o seu magistério, muitos acorriam para ouvi-lo.
São Gregório Magno. Em sentido místico, assim como o templo de Deus está na cidade, assim está, no povo fiel, a vida dos religiosos. E muitas vezes alguns tomam o hábito da religião e, enquanto recebem um lugar nas ordens sagradas, arrastam o ofício da santa religião para o comércio da negociação terrena. Vendem no templo, com efeito, os que concedem por recompensa aquilo que a alguns compete por direito; pois vender a justiça é guardá-la em vista do recebimento de uma recompensa. Compram no templo os que, não querendo pagar ao próximo o que é justo e desprezando fazer o que é devido por direito, compram o pecado dando uma recompensa aos patronos.
Orígenes, Homilias sobre Lucas. Se alguém, portanto, vende, será expulso; e sobretudo se vende pombas. Com efeito, se as coisas que me foram reveladas e confiadas pelo Espírito Santo eu as vender ao povo por preço, ou não as ensinar sem remuneração, que outra coisa faço senão vender a pomba, isto é, o Espírito Santo?
Santo Ambrósio. De modo geral, portanto, o Senhor ensina que os contratos seculares devem estar longe do templo de Deus. Em sentido espiritual, porém, expulsou os cambistas, que buscam lucro do dinheiro do Senhor, isto é, da Escritura divina, e não distinguem o bem do mal.
São Gregório Magno. Fazem da casa de Deus um covil de ladrões aqueles que, sendo homens perversos, ocupam o lugar da religião e aí matam com as espadas da sua malícia, onde deviam vivificar o próximo pela intercessão da sua oração. O próprio espírito dos fiéis também é um templo; se ele, em prejuízo do próximo, produz pensamentos perversos, é como se ladrões residissem num covil; quando, porém, instrui com sutileza o espírito dos fiéis a evitar os males, a verdade ensina cada dia no templo.