Lc 18,1-8
1Propôs-lhes Jesus uma parábola para mostrar que é necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo. 2“Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus, nem respeitava pessoa alguma. 3Na mesma cidade vivia também uma viúva que vinha com frequência à sua presença para dizer-lhe: Faze-me justiça contra o meu adversário. 4Ele, porém, por muito tempo não o quis. Por fim, refletiu consigo: Eu não temo a Deus nem respeito os homens; 5todavia, porque esta viúva me importuna, lhe farei justiça, senão ela não cessará de me molestar.” 6Prosseguiu o Senhor: “Ouvis o que diz este juiz injusto? 7Por acaso não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que estão clamando por ele dia e noite? Porventura tardará em socorrê-los? 8Digo-vos que em breve lhes fará justiça. Mas, quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a terra?”.
Teofilacto(séc. XI). Depois de mencionar o Senhor as tribulações e os perigos, acrescenta o remédio deles, que é a oração contínua e premeditada; donde diz: Dizia-lhes também uma parábola, sobre ser necessário orar sempre e não desfalecer
São João Crisóstomo(séc. IV). Aquele que te redimiu mostrou o que quis que fizesses. Não quer que cesses as preces; quer que medites os benefícios enquanto pedes; quer que, rogando, recebas o que a benignidade deseja conceder. E nunca nega benefícios a quem ora aquele que, para que os que oram não desfaleçam, os estimula por sua bondade. Acolhe de bom grado as exortações do Senhor: o que ele mandou, deves querer; e não querer, se o próprio Senhor o proibisse. Considera, enfim, quanta felicidade te foi concedida: conversar com Deus em orações, para pedir o que desejas; ele, ainda que se cale em palavras, responde contudo com benefícios; não despreza o que pedes, e não se enfada, a não ser que talvez tenhas calado
São Beda, o Venerável(séc. VII–VIII). Deve-se dizer que ora sempre e não desfalece aquele que não deixa de rezar nas horas canônicas; ou que tudo o que o justo faz e diz segundo Deus deve ser reputado como oração
Santo Agostinho, de quaest. Evang(séc. IV–V). O Senhor, porém, propõe as parábolas ou por semelhança, como a do credor que, tendo perdoado a dois devedores o que deviam, foi mais amado por aquele a quem mais perdoou; ou prova algo a partir da própria semelhança, como aquilo: se o feno do campo, que hoje existe e amanhã é lançado ao forno, Deus assim o veste, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Este juiz iníquo, portanto, foi empregado não por semelhança, mas por dessemelhança; dele acrescenta-se: Havia numa cidade um juiz que não temia a Deus e não respeitava homem algum
Teofilacto. Vê que ser impudente para com os homens é indício de mal mais grave: com efeito, muitíssimos não temem a Deus, mas são contidos pelo pudor humano, e por isso pecam menos; quando, porém, alguém se torna impudente também quanto aos homens, então cresce o acúmulo dos vícios. Segue-se: Havia também naquela cidade uma viúva
Santo Agostinho. Esta viúva pode ter semelhança com a Igreja, que parece desolada até que venha o Senhor, que agora em segredo cuida dela. Mas porque se segue: e vinha a ele dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversário. E durante muito tempo não quis, aqui adverte por que os eleitos de Deus pedem vingança, o que também se diz no Apocalipse de João acerca dos mártires, embora sejamos muito claramente exortados a rezar por nossos inimigos e perseguidores. Deve-se entender, porém, que essa vingança dos justos é que todos os maus pereçam. Perecem, porém, de dois modos: ou pela conversão à justiça, ou perdendo o poder pelo suplício. Assim, ainda que todos os homens se convertessem a Deus, o Diabo permaneceria, para ser condenado no fim do mundo; e, desejando os justos ver esse fim, diz-se, não sem razão, que desejam vingança
São Cirilo de Alexandria(séc. V). Ou de outro modo. Sempre que algumas ofensas nos são infligidas por alguns, então julgaremos glorioso o esquecimento dos males; sempre, porém, que pecam contra a própria glória de Deus, combatendo os ministros da doutrina divina, então nos achegamos a Deus pedindo auxílio e clamando contra os que impugnam a sua glória
Santo Agostinho. Junto ao juiz iniquíssimo, portanto, a perseverança da que suplicava teve força de arrastar até a realização do desejo; donde se segue: Depois disso, disse consigo: Embora eu não tema a Deus nem respeite homem algum, contudo, porque esta viúva me importuna, farei justiça a ela, para que, vindo por fim, não me agrida. Muito mais seguros devem estar, portanto, os que rogam perseverantemente a Deus, fonte de justiça e de misericórdia; donde se segue: E o Senhor disse: Ouvi o que diz o juiz de iniquidade. Deus, porém, não fará justiça aos seus eleitos, que clamam a ele dia e noite, e terá paciência com eles?
Teofilacto. Como se dissesse: se a assiduidade abrandou um juiz imbuído de qualquer crime, quanto mais inclinaremos à piedade, orando, a Deus, pai de misericórdia? Donde se segue: Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Alguns tentaram investigar mais sutilmente esta parábola; dizem, com efeito, que a viúva é qualquer alma que exclui o antigo marido, isto é, o Diabo, que lhe é adverso por ela se aproximar de Deus, juiz de justiça; o qual nem teme a Deus, pois somente ele é Deus; nem respeita o homem, pois em Deus não há acepção de pessoas. Desta viúva, portanto, isto é, da alma suplicante, Deus se compadece continuamente contra o Diabo, abrandando-o a insistência dela. Depois que o Senhor ensinou que se deve usar, no tempo da consumação, a oração contra os perigos então futuros, acrescenta: Contudo, o Filho do homem, ao vir, pensas que achará fé na terra?
Santo Agostinho, de Verb. Dom. Fala o Senhor, porém, da fé que é perfeita: esta, com efeito, dificilmente se encontra na terra. Eis que a Igreja de Deus está cheia: quem viria até aqui, se nenhuma fé houvesse? Quem não transportaria montes, se a fé fosse plena?
São Beda, o Venerável. Quando, porém, o Criador onipotente aparecer na forma de Filho do homem, tão grande será a raridade dos eleitos que, não tanto pelo clamor dos fiéis quanto pela tibieza dos outros, deverá ser apressada a ruína do mundo inteiro. O que o Senhor aqui diz como que em dúvida, não o diz duvidando, mas censurando: pois também nós, às vezes, a respeito de coisas que temos por certas, proferimos em tom de repreensão uma palavra de dúvida; como se se dissesse a um servo: considera, talvez eu seja o teu senhor
Santo Agostinho. Isto, porém, o Senhor acrescenta para mostrar que, se a fé desfalece, a oração perece. Portanto, creiamos para orar, e oremos para que a própria fé não desfaleça. A fé derrama a oração; derramada a oração, alcança a firmeza da fé
Lc 18,35-43
35Ao aproximar-se Jesus de Jericó, estava um cego sentado à beira do caminho, pedindo esmolas. 36Ouvindo o ruído da multidão que passava, perguntou o que havia. 37Responderam-lhe: “É Jesus de Nazaré que passa”. 38Ele então exclamou: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!”. 39Os que vinham na frente repreendiam-no rudemente para que se calasse. Mas ele gritava ainda mais forte: “Filho de Davi, tem piedade de mim!”. 40Jesus parou e mandou que lho trouxessem. Chegando ele perto, perguntou-lhe: 41“Que queres que te faça?”. Respondeu ele: “Senhor, que eu veja”. 42Jesus lhe disse: “Vê! Tua fé te salvou”. 43E imediatamente ficou vendo e seguia a Jesus, glorificando a Deus. Presenciando isto, todo o povo deu glória a Deus.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos(séc. VI). Porque os discípulos, ainda carnais, não eram capazes de apreender as palavras do mistério, chega-se ao milagre: diante dos olhos deles um cego recebe a luz, para que os feitos celestes os firmassem na fé; donde se diz: Aconteceu que, aproximando-se ele de Jericó, um cego estava sentado à beira do caminho, pedindo esmola
Teofilacto. E para que o caminhar do Senhor não fosse inútil, no caminho realizou o milagre do cego, dando este ensinamento aos seus discípulos: que sejamos proveitosos em tudo, e que nada em nós seja ocioso
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Podemos entender dos que se aproximam de Jericó que, já tendo saído dali, estavam ainda perto daquela cidade; o que, na verdade, se diz de modo pouco usual; mas, contudo, isto poderia parecer dito, porque Mateus diz que, ao saírem eles de Jericó, foram iluminados dois cegos, que estavam sentados junto ao caminho. Quanto ao número, não haveria questão alguma, se um dos Evangelistas tivesse silenciado sobre um, lembrando-se de um só: pois também Marcos menciona um, dizendo que foi iluminado quando eles saíam de Jericó; do qual disse também o nome e o pai, para que entendamos que era o mais eminente, e o outro desconhecido, de modo que, com razão, aquele conhecido fosse decentemente mencionado também sozinho. Mas, como o que se segue no Evangelho segundo Lucas mostra muito adequadamente que isso que ele narra aconteceu quando eles ainda chegavam a Jericó, nada resta a entender senão que este milagre foi feito duas vezes: uma vez num só cego, quando ainda vinha para aquela cidade; outra vez em dois, quando dali saía: de modo que Lucas narre aquele um, Mateus o outro
São Cirilo de Alexandria. Havia, porém, muita gente em volta de Cristo, e o cego não o conhecia, mas sentia o efeito, e arrebatava pelo afeto o que a vista não colhera; donde se acrescenta: e, ouvindo a multidão que passava, perguntava o que era aquilo. E os que enxergavam falavam segundo a opinião; segue-se, com efeito: Disseram-lhe que Jesus, o Nazareno, passava. O cego, porém, clamava coisas verdadeiras: é ensinado uma coisa e proclama outra; pois se segue: e clamou, dizendo: Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim. Quem te ensinou isto, ó homem? Porventura leste os livros, privado da luz? Donde, pois, conheces o luzeiro do mundo? Verdadeiramente o Senhor ilumina os cegos
São Cirilo de Alexandria. Educado no judaísmo, porém, não ignorava que da descendência de Davi nasceria Deus segundo a carne; e por isso lhe fala como a Deus, dizendo: tem piedade de mim. Imitem-no os que dividem Cristo em dois: este, com efeito, aproxima-se de Cristo como de Deus e o chama filho de Davi. Admirem, porém, a insistência da sua confissão: alguns, com efeito, reprimiam o que confessava a fé. Segue-se: E os que iam à frente o repreendiam para que se calasse. Mas por tais proibições a sua ousadia não era impedida. A fé sabe, com efeito, resistir a todos e triunfar em tudo: é útil, com efeito, depor o pudor pelo culto divino: pois, se alguns são impudentes por causa do dinheiro, pela salvação da alma não convém revestir-se de boa impudência? Donde se segue: Ele, porém, clamava ainda muito mais: Filho de Davi, tem piedade de mim. A voz de quem invoca na fé detém Cristo, e ele olha para os que invocam na fé; e por isso, com razão, chama o cego e manda que se aproxime; donde se segue: Parando, Jesus mandou que o trouxessem a ele, para que, isto é, quem antes o tocara pela fé se aproximasse também com o corpo. Ao cego que se aproxima o Senhor interroga; pois se segue: E, quando ele se aproximou, perguntou-lhe, dizendo: Que queres que eu te faça? Interroga por dispensação, não como quem ignora, mas para que os presentes soubessem que ele não pedia dinheiro, mas a eficácia divina, como a Deus; donde se segue: Ele disse: Senhor, que eu veja
São João Crisóstomo. Ou, porque os judeus, caluniadores da verdade, poderiam dizer, como no cego de nascença: não é este, mas semelhante a ele; quis que o cego primeiro mostrasse o defeito da natureza, e então reconhecesse a majestade da graça. Mas, quando o cego explicou o teor do pedido, então com suprema majestade ordenou-lhe que visse: donde se segue: E Jesus lhe disse: Recobra a vista; o que redundava em acusação da perfídia dos judeus: qual dos profetas, com efeito, disse tais coisas? Observa, contudo, o que o médico toma daquele a quem foi dada a saúde; segue-se, com efeito: A tua fé te salvou. Pela fé, com efeito, são vendidos os benefícios; difunde-se, com efeito, a graça que a fé recebeu. E, como de uma fonte uns tiram pouca água com vasos pequenos, e outros muita com maiores, sem a fonte distinguir medidas; e, conforme as janelas que se abrem mais ou menos, o esplendor do sol se derrama; assim, segundo a capacidade da intenção, tira-se a graça. A voz de Cristo converte-se em luz para o enfermo; era, com efeito, a palavra da verdadeira luz; donde se segue: e logo viu. Ora, o cego, já antes do benefício, mostrou fé fervorosa, e depois do benefício observou a benevolência; segue-se, com efeito: e seguia-o, glorificando a Deus
São Cirilo de Alexandria. Disto fica claro que ele era libertado de dupla cegueira, isto é, a corporal e a intelectual: pois não teria glorificado como a Deus se não tivesse visto verdadeiramente; mas tornou-se também para outros ocasião de glorificar a Deus; segue-se, com efeito: e todo o povo, ao ver, deu louvor a Deus
São Beda, o Venerável. Não só pelo dom da luz obtido, mas também pelo mérito da fé de quem o obteve
São João Crisóstomo. Aqui, porém, é necessário perguntar por que Cristo proíbe ao endemoninhado curado, que queria segui-lo, mas não proíbe ao cego iluminado que o segue? Mas julgo que nenhuma das duas coisas é irracional: àquele, com efeito, envia como pregador, para que, por seu estado, proclame o benfeitor: era, com efeito, milagre excelente ver um furioso tornado de mente sã; o cego, porém, permite que o siga, quando subia a Jerusalém para realizar pela cruz o alto mistério, para que, tendo recente a menção do milagre, não julgassem que ele sofria por fraqueza antes que por misericórdia
Santo Ambrósio(séc. IV). Neste cego, porém, há o tipo do povo gentio, que pelo sacramento do Senhor recebeu a claridade da luz perdida. Nada importa, contudo, que receba a medicina num só cego ou em dois; porque, tirando a origem de Cam e Jafé, filhos de Noé, nos dois cegos apresentava os dois autores da sua raça
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Ou o gênero humano é o cego, que, ignorando no primeiro pai a claridade da luz superior, sofre as trevas da sua condenação. Jericó, porém, interpreta-se lua, que, enquanto decresce nos momentos mensais, designa o declínio da nossa mortalidade. Enquanto, pois, nosso Criador se aproxima de Jericó, o cego volta à luz: porque, enquanto a divindade assumiu o declínio da nossa carne, o gênero humano recebeu a luz que perdera. Quem, portanto, ignora a claridade da luz eterna é cego. Se, porém, creu num tão grande redentor, que disse: Eu sou o caminho, senta-se junto ao caminho; se de fato creu e suplica que receba a luz eterna, senta-se junto ao caminho e mendiga. Aqueles, porém, que vão adiante de Jesus que vem designam as multidões dos desejos carnais e os tumultos dos vícios, que, antes que Jesus chegue ao nosso coração, dissipam o nosso pensamento e nos perturbam na própria oração. Ele, porém, clamava ainda mais: porque, quanto mais grave é o tumulto de pensamentos que nos oprime, tanto mais ardentemente devemos insistir na oração. Quando, porém, ainda padecemos na oração as multidões de fantasmas, sentimos Jesus de algum modo passando; quando, porém, insistimos veementemente na oração, Deus se fixa no coração, e a luz perdida é reparada. Ou passar é próprio da humanidade, parar é da divindade. O Senhor, pois, passando ouviu o cego que clamava, parando o iluminou: porque, por sua humanidade, compadecendo-se, teve misericórdia das vozes da nossa cegueira, mas pelo poder da divindade infunde em nós a luz da graça. Para isto, porém, pergunta o que ele quer, para excitar o coração à oração: quer, com efeito, que se peça aquilo que também sabe de antemão que nós pediremos e que ele concederá
Santo Ambrósio. Ou perguntou ao cego para que cressemos que não pode ser salvo senão o que confessa
São Gregório Magno. O cego, porém, não pede ao Senhor ouro, mas luz; e nós busquemos não falsas riquezas, mas a luz, que possamos ver com os Anjos somente; para essa luz a fé é o caminho; donde se diz com razão ao cego: Recobra a vista: a tua fé te salvou. Aquele que vê e segue, porque opera o bem que entende
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Se, porém, interpretarmos Jericó como lua, e por isso mortalidade, o Senhor, aproximando-se da morte, mandara pregar aos judeus a luz do sol do Evangelho; os quais significou aquele único cego que Lucas menciona: ressurgindo, porém, da morte e descendo, aos judeus e aos gentios; os quais dois povos parecem significar os dois cegos mencionados por Mateus