Catena Aurea de São Tomás de Aquino

Lucas 17 comentado pelos Padres da Igreja

72 comentários de São Beda, o Venerável, São Cirilo de Alexandria, Teofilacto, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, Tito de Bostra, Eusébio de Cesareia, São Gregório Nazianzeno e São João Crisóstomo sobre as passagens Lc 17,7-10, Lc 17,11-19, Lc 17,20-21, Lc 17,22-25, Lc 17,26-30, Lc 17,31-33 e Lc 17,34-37, reunidos por São Tomás de Aquino no século XIII e traduzidos do latim.

Lc 17,7-10

7“Qual de vós, tendo um servo ocupado em lavrar ou em guardar o gado, quando voltar do campo lhe dirá: Vem depressa sentar-te à mesa? 8E não lhe dirá ao contrário: Prepara-me a ceia, cinge-te e serve-me, enquanto como e bebo, e depois disso comerás e beberás tu? 9E, se o servo tiver feito tudo o que lhe ordenara, porventura fica-lhe o senhor devendo alguma obrigação? 10Assim também vós, depois de terdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: Somos servos como quaisquer outros; fizemos o que devíamos fazer.”

Teofilacto(séc. XI). Como a fé torna seu possuidor observador dos mandamentos divinos, adornando-o com obras vivificantes, parecia daí que o homem podia incorrer no vício da soberba; por isso o Senhor advertiu antes os apóstolos a não se orgulharem de suas virtudes, por um exemplo adequado, dizendo: Quem de vós, tendo um servo que lavra ou apascenta bois, lhe dirá, quando ele volta do campo: Passa logo e põe-te à mesa?

Santo Agostinho, de quaest. Evang(séc. IV–V). Ou de outro modo. Muitos não compreendendo essa fé da verdade mais excelente, pode parecer que o Senhor não respondeu a seus discípulos ao que haviam pedido. Parece-me difícil; a não ser que entendamos de fé em fé, isto é, que ele quis significar que se passa desta fé, pela qual se serve a Deus, àquela em que se goza de Deus. Com efeito, a fé será aumentada quando se crê primeiro nas palavras dos que pregam, depois nas coisas que se manifestam; mas aquela contemplação tem o sumo repouso, que é retribuído no reino eterno de Deus. Ora, aquele sumo repouso é o prêmio dos justos trabalhos, que se realizam na administração da Igreja; e por isso, embora o servo lavre ou apascente no campo, isto é, ocupe-se de negócios da vida secular ou terrena, ou sirva a homens insensatos como a rebanhos, é necessário que depois desses trabalhos venha para casa, isto é, seja associado à Igreja.

São Beda, o Venerável(séc. VII–VIII). Ou o servo sai do campo quando, interrompida por algum tempo a obra de pregar, recorre à consciência o doutor, reconsiderando consigo o que fez ou disse; a ele o Senhor não diz logo: Passa, desta vida mortal; põe-te à mesa, isto é, repousa na sede eterna da vida bem-aventurada.

Santo Ambrósio(séc. IV). Entende-se, com efeito, que ninguém se põe à mesa se antes não tiver passado. Por fim, também Moisés passou antes, para ver uma grande visão. Como, portanto, tu não só não dizes ao teu servo: Põe-te à mesa, mas exiges dele outro serviço, assim também o Senhor não permite que em ti haja uso de uma só obra e trabalho: porque, enquanto vivemos, devemos sempre trabalhar; por isso se segue: E não lhe dirá: Prepara o que eu hei de jantar, cinge-te e serve-me, até que eu coma e beba?

São Beda, o Venerável. Manda preparar o que ele há de jantar, isto é, depois do trabalho da fala aberta, apresentar também a humildade da consideração de si mesmo: com tal ceia o Senhor deseja ser alimentado. Cingir-se, por sua vez, é reunir a mente humilhada, retirando-a de todos os limites dos pensamentos flutuantes, pelos quais costuma ser impedido o passo das obras; pois quem cinge as vestes faz isto para que, ao caminhar, não se embarace e caia. Servir a Deus, por sua vez, é professar que sem o auxílio de sua graça não se tem força alguma.

Santo Agostinho, de quaest. Evang. Aos servos que servem, isto é, que evangelizam, o Senhor come e bebe a confissão e a fé das nações. Segue-se: e depois disso tu comerás e beberás.

São Beda, o Venerável. Como se dissesse: depois que eu me tiver deleitado com a obra de tua pregação e me tiver restaurado com os banquetes de tua compunção, então enfim passarás e serás restaurado eternamente com as iguarias eternas da minha sabedoria.

São Cirilo de Alexandria(séc. V). O Senhor ensina que o direito do poder do Senhor exige dos servos uma sujeição como devida, quando acrescenta: Tem ele de agradecer ao servo porque fez o que lhe foi mandado? Penso que não. Por isso é afastada a doença da soberba. Por que te ensoberbeces? Ignoras que, se não pagas a dívida, o perigo é iminente; se, porém, a pagas, não fazes favor algum? Segundo aquilo de Paulo: Se eu evangelizo, não tenho de que me gloriar; é uma necessidade que se me impõe: ai de mim se não evangelizar. Considera, pois, que os que dominam entre nós não dão graças quando alguns dos súditos cumprem os serviços que lhes foram prescritos; mas, muitas vezes, provocando por benevolência a afeição dos seus, geram neles maior desejo de servir. Assim também Deus pede de nós o serviço por direito de servidão; mas, porque é clemente e bom, promete honras aos que trabalham; e a grandeza da benevolência supera os suores dos súditos.

Santo Ambrósio. Não te vanglories, pois, se serviste bem, porque fizeste o que devias. O sol obedece, a lua submete-se, os Anjos servem; e nós, portanto, não exijamos de nós mesmos o louvor. Daí, concluindo, acrescenta: assim também vós, quando tiverdes feito tudo, dizei: somos servos inúteis: fizemos o que devíamos fazer.

São Beda, o Venerável. Servos, de fato, porque comprados por um preço; inúteis, porque o Senhor não precisa de nossos bens, ou porque os sofrimentos do tempo presente não são dignos da glória futura. Esta é, portanto, a perfeição da fé nos homens: tendo cumprido tudo o que foi ordenado, reconhecerem-se imperfeitos.

Lc 17,11-19

11Sempre em caminho para Jerusalém, Jesus passava pelos confins da Samaria e da Galileia. 12Ao entrar numa aldeia, vieram-lhe ao encontro dez leprosos, que pararam ao longe e elevaram a voz, clamando: 13“Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!”. 14Jesus viu-os e disse-lhes: “Ide, mostrai-vos ao sacerdote”. E, quando eles iam andando, ficaram curados. 15Um deles, vendo-se curado, voltou, glorificando a Deus em alta voz. 16Prostrou-se aos pés de Jesus e lhe agradecia. E era um samaritano. 17Jesus lhe disse: “Não ficaram curados todos os dez? Onde estão os outros nove? 18Não se achou senão este estrangeiro que voltasse para agradecer a Deus?!”. 19E acrescentou: “Levanta-te e vai, tua fé te salvou”.

Santo Ambrósio. Depois da parábola mencionada, os ingratos são repreendidos; pois se diz: e aconteceu que, ao ir Jesus a Jerusalém, passava pelo meio da Samaria e da Galileia.

Tito de Bostra(séc. IV). Para mostrar que os samaritanos eram benevolentes, ao passo que os judeus eram ingratos pelos benefícios mencionados: pois havia discórdia entre samaritanos e judeus; e ele, como que pacificando entre ambos, passa por eles, para unir os dois num só homem novo.

São Cirilo de Alexandria. Em seguida o Salvador manifesta a sua glória, atraindo Israel à fé; donde se segue: e ao entrar numa aldeia, vieram ao seu encontro dez homens leprosos, expulsos das cidades e povoados e, por assim dizer, impuros segundo o rito da lei mosaica.

Tito de Bostra. Conviviam, porém, uns com os outros, porque a comunidade do sofrimento os tornara unânimes; e esperavam a passagem de Jesus, ansiosos até verem Cristo chegar; donde se segue: que pararam ao longe, porque a lei dos judeus julga impura a lepra; a lei evangélica, porém, afirma que não é impuro o que é externo, mas o interno.

Teofilacto. Ficaram, pois, ao longe, como que envergonhados da impureza que lhes era imputada: pois pensavam que Cristo os desprezaria, como os outros. Assim, pararam no lugar, mas tornaram-se próximos pela súplica: pois o Senhor está perto de todos os que o invocam com verdade; donde se segue: e levantaram a voz, dizendo: Jesus, mestre, tem piedade de nós.

Tito de Bostra. Dizem o nome de Jesus e ganham a coisa; pois Jesus se interpreta Salvador; dizem tem piedade de nós por causa da experiência do seu poder; não pedindo prata nem ouro, mas para obterem a aparência sadia do corpo.

Teofilacto. Não o suplicam de modo simples, nem lhe pedem como a um mortal: chamam-no mestre, isto é, senhor, com o que quase parecem julgá-lo Deus. E ele lhes manda que se mostrem aos sacerdotes; donde se segue: Ao vê-los, disse: ide, mostrai-vos aos sacerdotes: pois eles examinavam se tinham sido purificados da lepra ou não.

São Cirilo de Alexandria. A lei também mandava que os purificados da lepra oferecessem um sacrifício em razão da purificação.

Teofilacto. Mandar-lhes, portanto, que fossem aos sacerdotes não indicava outra coisa senão que deviam ser curados; donde se segue: e aconteceu que, enquanto iam, ficaram purificados.

São Cirilo de Alexandria. Com isso, os pontífices dos judeus, invejosos da sua glória, podiam reconhecer que foram curados inesperada e admiravelmente, por Cristo lhes conceder a saúde.

Teofilacto. Sendo eles dez, os nove, que eram israelitas, foram ingratos; mas o samaritano estrangeiro, tendo voltado, proferia palavras bondosas; donde se segue: um deles, ao ver que estava purificado, voltou, glorificando a Deus em alta voz.

Tito de Bostra. A purificação recebida deu-lhe a confiança de se aproximar; donde se segue: e caiu com o rosto por terra aos seus pés, dando graças, manifestando, pela prostração e pela súplica, a sua fé juntamente com a benevolência. Segue-se: e este era samaritano.

Teofilacto. Daqui qualquer um poderá concluir que nada impede alguém de agradar a Deus, ainda que provenha de uma raça profana, contanto que tenha bom propósito. Que ninguém, nascido de santos, se ensoberbeça; pois os nove, que eram israelitas, foram ingratos; donde se segue: Jesus, respondendo, disse: não foram purificados os dez? E os nove, onde estão? Não se achou quem voltasse e desse glória a Deus, a não ser este estrangeiro.

Tito de Bostra. Por isso se mostra que os estrangeiros estavam mais prontos para a fé: pois Israel era lento para a fé; donde se acrescenta: e disse-lhe: levanta-te, vai, a tua fé te salvou.

Santo Agostinho, de quaest. Evang. Misticamente, porém, podem-se entender como leprosos aqueles que, não tendo o conhecimento da verdadeira fé, professam diversas doutrinas de erro: pois não escondem a sua imperícia, mas a trazem à luz como se fosse suma perícia, e exibem a jactância do discurso. A lepra é, com efeito, um defeito da cor; portanto, as coisas verdadeiras misturadas desordenadamente com as falsas, numa só discussão ou narração de um homem, aparecendo como na cor de um só corpo, significam a lepra, que, com o colorido das coisas verdadeiras e falsas, varia e mancha os corpos humanos. Estes, porém, devem ser tão evitados pela Igreja que, se possível, afastados para bem longe, invoquem a Cristo com grande clamor. Quanto ao fato de o terem invocado como mestre, penso que isso significa suficientemente que a lepra é, na verdade, a doutrina falsa, que o bom mestre purifica. Ora, de todos aqueles a quem o Senhor concedeu estes benefícios corporais, não se encontra que tenha enviado ao sacerdote senão os leprosos. Pois o sacerdócio dos judeus foi figura do sacerdócio que existe na Igreja. Os demais vícios, o Senhor os sara e corrige por si mesmo, interiormente, na consciência; mas à Igreja foi atribuído o poder da doutrina, seja de instruir pelos sacramentos, seja de catequizar pela palavra. Enquanto iam, ficaram purificados: porque os gentios, a quem Pedro tinha vindo, sem ainda terem recebido o sacramento do Batismo, pelo qual espiritualmente se chega aos sacerdotes, são declarados purificados pela infusão do Espírito Santo. Assim, todo aquele que, na sociedade da Igreja, alcança a doutrina íntegra e verdadeira, de modo que se manifesta que carece, como de lepra, da variedade das mentiras, e contudo, ingrato a Deus, seu purificador, não se prostra com piedosa humildade para dar graças, assemelha-se àqueles de quem diz o Apóstolo que tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças. Por isso tais pessoas permanecerão no número nove, como imperfeitas: pois os nove precisam de um para se coagularem numa certa forma de unidade, a fim de serem dez. Aquele, porém, que deu graças foi aprovado como significação da única Igreja. E porque aqueles eram judeus, foram declarados, por causa da soberba, como tendo perdido o reino dos céus, onde sobretudo se guarda a unidade. Este, porém, que era samaritano, o que se interpreta guardião, atribuindo àquele de quem recebeu o que recebeu, segundo aquilo: guardarei para ti a minha força, conservou, com humilde devoção, a unidade do reino.

São Beda, o Venerável. Caiu, porém, com o rosto por terra, porque se envergonha dos males que se lembra de ter cometido; e é mandado levantar-se e ir, porque aquele que, reconhecendo a sua fraqueza, jaz humildemente, é mandado, pela consolação da palavra divina, avançar para obras fortes. Ora, se a fé salvou aquele que se inclinou para dar graças, então a infidelidade perde aqueles que negligenciaram dar glória a Deus pelos benefícios recebidos; por isso, que a fé deve ser aumentada pela humildade, como se decide na parábola anterior, assim aqui se mostra pelos próprios fatos.

Lc 17,20-21

20Os fariseus perguntaram um dia a Jesus quando viria o Reino de Deus. Respondeu-lhes: “O Reino de Deus não virá de um modo ostensivo. 21Nem se dirá: Ei-lo aqui; ou: Ei-lo ali. Pois o Reino de Deus já está no meio de vós”.

São Cirilo de Alexandria. Como o Salvador, nos discursos que dirigia a outros, mencionava com frequência o reino de Deus, por isso os fariseus zombavam dele; donde se diz: interrogado pelos fariseus: quando vem o reino de Deus? Como se dissessem em tom de zombaria: antes que venha aquilo de que falas, a morte da cruz te alcançará. O Senhor, porém, mostrando paciência, repreendido, não repreende; antes, não desdenha de dar a sua resposta mesmo a pessoas más; pois se segue: respondeu-lhes, e disse: o reino de Deus não vem com observação; como se dissesse: não pergunteis sobre os tempos em que de novo chegará o tempo do reino dos céus.

São Beda, o Venerável. Pois esse tempo não pode ser observado nem pelos homens nem pelos Anjos, como o tempo da encarnação foi manifestado pelos vaticínios dos profetas e pelos anúncios dos Anjos; donde acrescenta: nem dirão: eis aqui, ou: eis ali. Ou de outro modo. Perguntam sobre o tempo do reino de Deus porque, como se diz adiante, julgavam que, com a vinda do Senhor a Jerusalém, o reino de Deus se manifestaria de imediato; por isso o Senhor responde que o reino de Deus não virá com observação.

São Cirilo de Alexandria. Ele declara que só serve à utilidade de qualquer homem o que se acrescenta: pois eis que o reino de Deus está dentro de vós, isto é, em vossos afetos e em vosso poder alcançá-lo: pois qualquer homem justificado pela fé em Cristo e adornado de virtudes pode obter o reino dos céus.

São Gregório Nazianzeno(séc. IV). Ou talvez diga que o reino em nós implantado é a alegria posta em nossas almas pelo Espírito Santo: pois ela é como a imagem e o penhor da alegria perene, com a qual, no século futuro, se alegram as almas dos santos.

São Beda, o Venerável. Ou diz que o reino de Deus é ele próprio, posto no meio deles, isto é, reinando em seus corações pela fé.

Lc 17,22-25

22Mais tarde, ele explicou aos discípulos: “Virão dias em que desejareis ver um só dia o Filho do Homem, e não o vereis. 23Então, vos dirão: Ei-lo aqui; e: Ei-lo ali. Não deveis sair nem os seguir. 24Pois como o relâmpago, reluzindo numa extremidade do céu, brilha até a outra, assim será com o Filho do Homem no seu dia. 25É necessário, porém, que primeiro ele sofra muito e seja rejeitado por esta geração.

São Cirilo de Alexandria. Porque o Senhor tinha dito o reino de Deus está dentro de vós, quis que os discípulos estivessem preparados para a paciência, a fim de, tornados fortes, poderem entrar no reino de Deus. Prediz-lhes, pois, que, antes de vir do céu, no fim do século cairá sobre eles a perseguição; donde se diz: e disse a seus discípulos: virão dias em que desejareis ver um só dia do Filho do homem, e não o vereis; significando que a perseguição será tão grande que desejarão ver um só dia dele, isto é, daquele tempo em que ainda conviviam com Cristo. Por certo os judeus afligiram Cristo com muitas injúrias e afrontas; mas, em comparação com males maiores, parece que se devem escolher os menores.

Teofilacto. Pois então viviam sem preocupação, cuidando deles e protegendo-os Cristo; mas haveria de chegar o tempo em que, ausente Cristo, seriam entregues a perigos, levados diante de reis e príncipes; e então desejariam o primeiro tempo como tranquilo.

São Beda, o Venerável. Ou chama de dia de Cristo o reino de Deus, que esperamos futuro; e diz bem um só dia, porque naquela glória da bem-aventurança não há interrupção de trevas. É bom, portanto, desejar o dia de Cristo. Não devemos, porém, por causa da grandeza do desejo, forjar sonhos para nós, como se o dia do Senhor estivesse iminente; donde se segue: e dir-vos-ão: eis aqui, eis ali: não vades, nem os sigais.

Eusébio de Cesareia(séc. IV). Como se dissesse: se, vindo o Anticristo, a fama dele se espalhar como se Cristo tivesse aparecido, não saiais, nem o sigais: pois é impossível que aquele que uma vez foi visto na terra volte a andar pelos recantos da terra. Será, portanto, aquele de quem se fala, não o verdadeiro Cristo; pois o sinal manifesto da segunda vinda de nosso Salvador é este: que subitamente o esplendor da sua vinda encherá todo o orbe; donde se segue: pois como o relâmpago que fulgura de debaixo do céu resplandece nas coisas que estão debaixo do céu, assim será o Filho do homem no seu dia. Pois não aparecerá andando sobre a terra, como um homem comum, mas irradiará universalmente, mostrando a todos o fulgor da sua própria divindade.

São Beda, o Venerável. E belamente diz que fulgura de debaixo do céu: porque o juízo se fará debaixo do céu, isto é, no meio do ar, segundo aquilo do Apóstolo: seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens ao encontro de Cristo nos ares. Se, porém, o Senhor aparecerá no juízo como o relâmpago, ninguém então poderá ocultar-se em sua mente: porque será penetrado pelo próprio fulgor do juiz. Pode-se, contudo, entender esta resposta do Senhor também daquela vinda sua pela qual vem cada dia à Igreja. Com efeito, os hereges perturbaram tantas vezes a Igreja, dizendo que em seu dogma permanece a fé de Cristo, que os fiéis daqueles tempos desejavam que o Senhor voltasse à terra, ao menos um dia, se possível, para declarar por si mesmo como se acha a verdade da fé. E não vereis, diz: porque não é necessário que o Senhor volte em visão corporal: porque uma vez já mostrou o vigor do Evangelho por todo o mundo.

São Cirilo de Alexandria. Os discípulos opinavam que, indo a Jerusalém, ele mostraria logo o reino de Deus. Cortando, pois, essa opinião, dá-lhes a conhecer que convinha primeiro sofrer a paixão salutar, depois subir ao Pai e de cima resplandecer, para julgar o orbe da terra na justiça; donde acrescenta: primeiro, porém, é preciso que ele sofra muito e seja rejeitado por esta geração.

São Beda, o Venerável. Chama de geração não só a dos judeus, mas também a de todos os reprovados; por eles também agora o Filho do homem, em seu corpo, isto é, na Igreja, sofre muito e é rejeitado. Insere, porém, a sua paixão ao falar da glória da sua vinda, para que mitigassem a dor da sua paixão com a esperança da glorificação prometida, e ao mesmo tempo se preparassem, se amassem a glória do reino, para não temer o perigo da morte.

Lc 17,26-30

26Como ocorreu nos dias de Noé, acontecerá do mesmo modo nos dias do Filho do Homem. 27Comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. Veio o dilúvio e matou a todos. 28Também do mesmo modo como aconteceu nos dias de Ló. Os homens festejavam, compravam e vendiam, plantavam e edificavam. 29No dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu, que exterminou todos eles. 30Assim será no dia em que se manifestar o Filho do Homem.

São Beda, o Venerável. A vinda do Senhor, que havia comparado ao relâmpago que passa veloz, ele a compara agora aos dias de Noé e de Ló, quando uma destruição repentina sobreveio aos mortais; donde se diz: e como aconteceu nos dias de Noé, assim será no dia do Filho do homem.

São João Crisóstomo, Homilias sobre Mateus(séc. IV). Porque então não creram nas palavras de ameaça, sofreram de repente o juízo real. A sua incredulidade procedia de uma alma lenta: pois tudo o que alguém quer e deseja, isso também espera; donde se segue: comiam e bebiam, tomavam mulheres e eram dadas em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca; e veio o dilúvio e destruiu a todos.

Santo Ambrósio. Bem afirma que a causa do dilúvio procedeu de nossos pecados: porque Deus não criou o mal, mas nossos méritos o encontraram para si; não porque os matrimônios sejam condenados: pois tampouco os alimentos são condenados, uma vez que naqueles há o amparo da sucessão, e nestes o da natureza; mas em tudo se busca a medida: pois tudo o que é demasiado vem do mal.

São Beda, o Venerável. Misticamente, porém, Noé constrói a arca quando o Senhor edifica a Igreja, reunindo os fiéis de Cristo como madeiras aplainadas; entra nela, já perfeitamente concluída, quando o habitante eterno a ilumina, no dia do juízo, com a presença de sua visão. Mas, enquanto a arca é construída, os iníquos se entregam à luxúria; quando, porém, se entra nela, perecem: porque os que aqui insultam os santos que lutam serão feridos, ali, quando estes forem coroados, com a condenação eterna.

Eusébio de Cesareia. Mas porque o Senhor se serviu do exemplo do dilúvio, para que ninguém pensasse que o dilúvio futuro seria de água, serve-se de um segundo exemplo, o de Ló, ensinando o modo da perdição dos ímpios: que a ira de Deus sobrevirá aos ímpios com fogo enviado do céu; donde se acrescenta: do mesmo modo como aconteceu nos dias de Ló: comiam e bebiam, compravam e vendiam, plantavam e edificavam.

São Beda, o Venerável. Omitido aquele nefando crime dos sodomitas, lembra apenas os delitos que se podiam julgar leves ou nulos, para que compreendas com que castigo são feridas as coisas ilícitas, se as lícitas, praticadas sem moderação, são punidas com fogo e enxofre; pois se segue: mas no dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu do céu fogo e enxofre e destruiu a todos.

Eusébio de Cesareia. Não disse que o fogo desceu do céu sobre os ímpios de Sodoma antes que Ló saísse deles; assim como o dilúvio não destruiu os habitantes da terra antes que Noé entrasse na arca: porque, enquanto Noé ou Ló conviviam com os ímpios, Deus não enviava a ira, para que não perecessem juntamente com os pecadores; querendo, porém, destruí-los, retirou o justo. Assim também na consumação do século não haverá fim antes que todos os justos sejam separados dos ímpios; donde se segue: conforme isso será no dia em que o Filho do homem for revelado.

São Beda, o Venerável. Porque aquele que, entretanto, sem aparecer, vê tudo, então, aparecendo, julgará tudo; aparecerá, porém, para julgar sobretudo no tempo em que vir a todos esquecidos dos seus juízos e entregues a este século.

Teofilacto. Pois depois que vier o Anticristo, os homens se tornarão lascivos, entregues a vícios enormes, segundo aquilo do Apóstolo: amantes dos prazeres mais do que de Deus. Se, com efeito, o Anticristo é a morada de qualquer pecado, que outra coisa trará ele ao miserável gênero humano daquele tempo senão o que é seu? E isso o Senhor insinua pelos exemplos do dilúvio e dos sodomitas.

São Beda, o Venerável. Misticamente, porém, Ló, que se interpreta o que se desvia, é o povo dos eleitos, que, enquanto mora em Sodoma, isto é, entre os reprovados, como forasteiro, desvia-se, quanto pode, dos crimes deles. Quando Ló sai, Sodoma perece: porque na consumação do século sairão os Anjos e separarão os maus do meio dos justos e os lançarão na fornalha de fogo. O fogo, porém, e o enxofre, que ele recorda terem chovido do céu, não significam a própria chama do suplício perene, mas a vinda repentina daquele dia.

Lc 17,31-33

31Naquele dia, quem estiver no terraço e tiver os seus bens em casa não desça para os tirar; da mesma forma, quem estiver no campo não torne atrás. 32Lembrai-vos da mulher de Ló. 33Todo o que procurar salvar a sua vida irá perdê-la; mas todo o que a perder irá encontrá-la.

Santo Ambrósio. Porque, por causa dos ímpios, é necessário que os justos, neste século, sofram a contrição do coração e da alma, para receberem no futuro uma recompensa mais abundante, são instruídos com certos remédios quando se diz: naquela hora, quem estiver no terraço e tiver seus utensílios em casa, não desça para pegá-los; isto é, se alguém já subiu aos andares superiores de sua casa e ao cume das virtudes eminentes, não se volte às obras terrenas deste mundo.

Santo Agostinho, de quaest. Evang. No terraço, com efeito, está aquele que, saindo das coisas carnais, vive espiritualmente como em ar livre; os utensílios na casa são os sentidos carnais, dos quais muitos, usando-os para investigar a verdade que se alcança pelo intelecto, erraram completamente. Cuide, pois, o homem espiritual para que, no dia da tribulação, deleitado de novo pela vida carnal, que se alimenta pelos sentidos do corpo, não desça para pegar os utensílios deste mundo. Segue-se: e quem estiver no campo, do mesmo modo não volte para trás; isto é, quem trabalha na Igreja, como Paulo plantando e como Apolo regando, não olhe para a esperança secular a que renunciou.

Teofilacto. Mateus afirma que tudo isso foi dito pelo Senhor a respeito da tomada de Jerusalém, a fim de que, sobrevindo os romanos, nem os que estivessem em casa devessem descer por qualquer necessidade, mas fugir imediatamente, nem os que estivessem no campo voltar para casa. E sem dúvida consta que isso aconteceu na tomada de Jerusalém, e que tornará a acontecer na vinda do Anticristo; mais ainda, porém, no próprio tempo da consumação, quando também então será intolerável a calamidade.

Eusébio de Cesareia. Insinua, portanto, com isso que haverá perseguição do filho da perdição contra os fiéis de Cristo. Chama, pois, aquele dia o tempo que precede o fim do mundo; nele, quem fugir não volte, e, perdendo os bens, não se preocupe, nem imite a mulher de Ló, que, depois de fugir, ao sair da cidade de Sodoma, voltou-se, morreu e foi feita coluna de sal; donde se segue: lembrai-vos da mulher de Ló.

Santo Ambrósio. Ela, porque olhou para trás, perdeu o dom de sua natureza: pois para trás está Satanás, para trás está Sodoma. Por isso foge da intemperança, evita a luxúria, lembra-te de que aquele que não se voltou para os antigos afãs escapou porque chegou ao monte; ela, porque olhou para as coisas de trás, nem ajudada pelo auxílio do marido, pôde chegar ao monte, mas ficou.

Santo Agostinho, de quaest. Evang. Significa, pois, a mulher de Ló aqueles que, na tribulação, olham para trás e se afastam da esperança da promessa divina; e por isso foi feita estátua de sal, para que, advertindo os homens a não fazerem isso, como que tempere o coração deles, a fim de que não sejam insensatos

Teofilacto. Em seguida acrescenta o que se segue ao que foi dito, afirmando: Quem procurar salvar a sua vida, a perderá; como se dissesse: que ninguém procure, nas perseguições do Anticristo, cuidar da própria vida, pois a perderá; quem, porém, se entregar às mortes e aos perigos, será salvo; donde se segue: e quem a perder, a conservará; de modo algum submetendo-se ao tirano por amor da vida

São Cirilo de Alexandria. De que modo também alguém perde a própria vida para a salvar, Paulo o manifesta, dizendo de alguns: os que crucificaram a sua carne com os vícios e as concupiscências, empreendendo, isto é, com trabalho e piedade, os combates

Lc 17,34-37

34Digo-vos que naquela noite dois estarão em uma cama: um será tomado e o outro será deixado; 35duas mulheres estarão moendo juntas: uma será tomada e a outra será deixada. 36Dois homens estarão no campo: um será tomado e o outro será deixado”. 37Perguntaram-lhe os discípulos: “Onde será isto, Senhor?. Respondeu-lhes: “Onde estiver o cadáver, ali se reunirão também as águias”.

São Beda, o Venerável. Dissera acima o Senhor que aquele que estiver no campo não deve voltar atrás; para que não julgasses que isso foi dito apenas daqueles que abertamente voltarão do campo, isto é, que publicamente renegarão o Senhor, passa a mostrar que há alguns que, embora pareçam ter o rosto voltado para a frente, no ânimo, contudo, olham para trás; donde se diz: Digo-vos: naquela noite estarão dois num só leito: um será levado, e o outro deixado

Santo Ambrósio. Diz bem noite, porque o Anticristo é a hora das trevas, por infundir o Anticristo trevas nos corações dos homens, ao dizer que ele é Cristo; Cristo, porém, resplandece como relâmpago fulgurante, para que naquela noite possamos ver a glória da ressurreição

Santo Agostinho, de quaest. Evang. Ou diz naquela noite, isto é, naquela tribulação

Teofilacto. Ou ensina que a vinda de Cristo é inesperada, a qual aprendemos que será de noite. Tendo dito, porém, que os ricos dificilmente se salvam, mostra que nem todos os ricos perecem, nem todos os pobres se salvam

São Cirilo de Alexandria. Por dois, com efeito, que estão num só leito, parece designar os ricos que repousam nos deleites mundanos: o leito, pois, é sinal de repouso. Nem todos, porém, os que abundam em riquezas são ímpios, mas há quem seja probo e escolhido na fé; este, portanto, será levado, ao passo que o outro, que não é tal, será deixado. Descendo, com efeito, o Senhor para o juízo, enviará os seus Anjos, que, deixados os demais na terra para sofrerem o castigo, lhe conduzirão os santos e justos, segundo aquilo do apóstolo: seremos arrebatados nas nuvens ao encontro de Cristo nos ares

Santo Ambrósio. Ou, de um só leito da fraqueza humana, um é deixado, isto é, reprovado; o outro, porém, é levado, isto é, arrebatado ao encontro de Cristo nos ares. Segue-se: Duas estarão moendo juntas: uma será levada, e a outra deixada

São Cirilo de Alexandria. Pelas que moem parece indicar os pobres e oprimidos pelos trabalhos; a isso também pertence o que se acrescenta: dois no campo: um será levado, e o outro deixado. Nestes, com efeito, não é pequena a diferença: pois estes carregam virilmente o fardo da pobreza, levando uma vida honesta e humilde, e são os que serão levados; aqueles, porém, são prontíssimos para o profano, e serão deixados

Santo Ambrósio. Ou pelas que moem parecem significar-se os que buscam o alimento a partir do oculto e o trazem a descoberto a partir das coisas inferiores. E talvez este mundo seja um moinho; e a nossa alma é como que encerrada num certo cárcere corporal. Neste moinho, portanto, ou a sinagoga, ou a alma sujeita aos delitos, moendo o trigo umedecido e corrompido por pesada umidade, não pode separar o interior do exterior; e por isso é deixada, porque a sua flor de farinha desagradou. Mas a santa Igreja, ou a alma não manchada por nenhum contágio de delitos, que mói um trigo tal que está torrado pelo calor do sol eterno, oferece a Deus, das profundezas dos homens, boa flor de farinha. Quais sejam, porém, os agricultores, podemos descobrir, se advertirmos que há em nós duas mentes: uma do homem exterior, que se corrompe; outra do interior, que se renova pelo sacramento. São estas, portanto, as que trabalham no nosso campo; das quais uma dá bom fruto pela diligência, a outra o perde pela incúria. Ou interpretemos dois povos neste mundo, que se compara a um campo: dos quais um, que é fiel, é levado; o outro, que é infiel, é deixado

Santo Agostinho, de quaest. Evang. Ou parecem aqui significar-se três gêneros de homens. Um, o dos que escolhem o ócio e o repouso, sem ocupação nem em negócios seculares nem eclesiásticos; o repouso deles foi significado pelo nome de leito. O outro, o dos que, postos entre o povo, são regidos pelos doutores, ocupando-se das coisas deste século; os quais ele significou também pelo nome de mulheres, porque lhes convém ser regidos pelos conselhos dos prelados; e disse que moem, porque fazem girar o círculo e a roda dos negócios temporais; disse, contudo, como que moendo juntas, na medida em que, destas coisas e negócios seus, fornecem para os usos da Igreja. O terceiro gênero é o dos que trabalham no ministério da Igreja, como no campo de Deus. Nestes três gêneros, portanto, há de novo, em cada um, dois gêneros de homens: dos quais alguns permanecem na Igreja, e são levados; outros caem, e são deixados

Santo Ambrósio. Com efeito, Deus não é iníquo, a ponto de discernir, na retribuição dos méritos, os que são iguais nos empenhos na convivência e na qualidade indistinta das ações. Mas o uso da união não iguala os méritos dos homens, porque nem todos realizam o que empreendem, mas quem perseverar até o fim, este será salvo

São Cirilo de Alexandria. Porque, pois, disse que alguns seriam levados, os discípulos perguntam útil e bem para onde seriam levados; donde se segue: Respondendo, disseram-lhe: Onde, Senhor?

São Beda, o Venerável. Interrogado o Salvador sobre duas coisas, isto é, onde os bons seriam levados e onde os maus deixados, disse uma e deixou a outra a subentender; donde se segue: Ele lhes disse: Onde quer que esteja o corpo, ali se reunirão também as águias

São Cirilo de Alexandria. Como se dissesse: assim como, lançado o cadáver, as aves cujo alimento são as carnes acorrem a ele, assim, quando vier o Filho do homem, então todas as águias, isto é, os santos, concorrerão a ele

Santo Ambrósio. As almas dos justos, com efeito, são comparadas às águias, porque procuram o alto, deixam as coisas humildes e dizem que levam uma longa vida. Quanto ao corpo, porém, não podemos duvidar, sobretudo se nos lembrarmos de que José recebeu de Pilatos o corpo. Não te parecem águias em torno do corpo as mulheres e a reunião dos apóstolos em torno da sepultura do Senhor? Não te parecem águias em torno do corpo, quando vier nas nuvens e todo olho o vir? Há também o corpo do qual foi dito: a minha carne é verdadeiramente comida. Em torno deste corpo estão as águias, que voam em volta com asas espirituais. Há também em torno do corpo águias que creem que Jesus Cristo veio na carne. Há também a Igreja, na qual somos renovados no espírito pela graça do Batismo

Eusébio de Cesareia. Ou pelas águias que se alimentam de animais mortos designou os príncipes deste século e aqueles que, naquele tempo, perseguirão os santos de Deus, em poder dos quais são deixados os indignos de serem levados, que são chamados corpo ou cadáver; ou as potências punidoras, que hão de agir sobre os ímpios, são aqui designadas pelas águias

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Estas coisas, porém, que Lucas aqui coloca, ou as recorda antecipando-as, para mencionar primeiro as que depois foram ditas pelo Senhor, ou dá a entender que foram ditas duas vezes pelo Senhor