Lc 16,1-7
1Jesus disse também a seus discípulos: “Havia um homem rico que tinha um administrador. Este lhe foi denunciado de ter dissipado os seus bens. 2Ele chamou o administrador e lhe disse: Que é que ouço dizer de ti? Presta contas da tua administração, pois já não poderás administrar meus bens. 3O administrador refletiu então consigo: Que farei, visto que meu patrão me tira o emprego? Lavrar a terra? Não o posso. Mendigar? Tenho vergonha. 4Já sei o que fazer, para que haja quem me receba em sua casa, quando eu for despedido do emprego. 5Chamou, pois, separadamente a cada um dos devedores de seu patrão e perguntou ao primeiro: Quanto deves a meu patrão? 6Ele respondeu: Cem medidas de azeite. Disse-lhe: Toma a tua conta, senta-te depressa e escreve: cinquenta. 7Depois perguntou ao outro: Tu, quanto deves? Respondeu: Cem medidas de trigo. Disse-lhe o administrador: Toma os teus papéis e escreve: oitenta.
São Beda, o Venerável(séc. VII–VIII). Depois que o Salvador repreendeu com três parábolas os que murmuravam do acolhimento dos penitentes, acrescenta logo uma quarta e uma quinta, sobre dar esmola e seguir a parcimônia; porque também a ordem da pregação é muito apropriada para que, depois da penitência, se acrescente a esmola; daí o que se diz: Dizia também a seus discípulos: Havia um homem rico, que tinha um administrador.
São João Crisóstomo(séc. IV). Uma opinião errônea, agravada nos mortais, aumenta os crimes e diminui os bens: é a de julgar que tudo o que possuímos para o uso da vida o possuímos como senhores; e por isso o tomamos até com oportunismo, como bens principais. Mas é o contrário: pois não fomos colocados na vida presente como senhores em casa própria, mas como hóspedes e forasteiros somos levados aonde não queremos e no tempo em que não pensamos: quem agora é rico em pouco se torna mendigo. Portanto, quem quer que sejas, saibas que és dispensador de bens alheios e que te foram concedidos os direitos de um uso passageiro e breve. Rejeitada, pois, da alma a soberba do domínio, toma a humildade e a modéstia do administrador.
São Beda, o Venerável. O administrador é, com efeito, o governador da propriedade, de onde recebeu também o nome de “propriedade”; o ecônomo, porém, é o dispensador tanto do dinheiro como dos frutos e de tudo o que o senhor possui.
Santo Ambrósio(séc. IV). Disto aprendemos, portanto, que não somos senhores, mas antes administradores de bens alheios.
Teofilacto(séc. XI). Depois, que, quando não exercemos a dispensação dos bens segundo a vontade do senhor, mas abusamos do que nos foi confiado para nossos próprios atrativos, somos administradores criminosos; daí o que se segue: e este foi difamado diante dele, como se tivesse dissipado os seus bens.
São João Crisóstomo. Entretanto, arrancado da administração, é dela afastado; pois se segue: e chamou-o e disse-lhe: Que é isto que ouço de ti? Presta contas da tua administração: pois já não poderás administrar. Todos os dias o Senhor nos clama tais coisas pelos acontecimentos, mostrando-nos alguém que goza de saúde ao meio-dia, sem vida antes que anoiteça, e outro expirando entre as refeições; e de modos diversos deixamos esta administração. Mas o dispensador fiel, que confia na própria dispensação, deseja com Paulo ser desligado e estar com Cristo; aquele, porém, cujos desejos são terrenos, angustia-se na saída: daí o que se acrescenta sobre este administrador: Disse, porém, o administrador consigo mesmo: Que farei, pois meu senhor me tira a administração? Cavar não posso, mendigar me envergonho. Ser incapaz para o trabalho é culpa de uma vida inerte; pois não temeria se tivesse o costume de procurar os trabalhos. Se entendermos a parábola segundo a alegoria, depois da passagem daqui feita não há tempo de trabalhar. A vida presente tem o exercício dos mandamentos, a futura, porém, o consolo. Se nada fizeste aqui, em vão te preocupas com o futuro; mas nem mendigando aproveitarás. Indício disto são as virgens loucas: que imprudentemente mendigaram das prudentes, mas voltaram de mãos vazias; pois cada um veste sua conduta como uma túnica; e não é possível despi-la nem trocá-la com outro. Mas o administrador, em sua malícia, engenhou o perdão das dívidas, estabelecendo para si nos companheiros de serviço o remédio dos males; pois se segue: Sei o que farei, para que, quando for afastado da administração, me recebam em suas casas. Quantas vezes, com efeito, alguém, percebendo sua saída, alivia pelo benefício o fardo dos pecados, ou perdoando as dívidas ao devedor, ou dando abundância aos necessitados, distribuindo o que é do senhor: ganha muitos amigos que lhe darão diante do juiz o testemunho da verdade, não com palavras, mas com a mostra de boas obras; e que ainda lhe prepararão, por esse testemunho, uma morada de refrigério. Nada, porém, é nosso, mas tudo está sob o domínio de Deus; daí o que se segue: Chamando, pois, os devedores de seu senhor, dizia ao primeiro: Quanto deves a meu senhor? Ele respondeu: Cem tonéis de azeite.
São Beda, o Venerável. Em grego, cado é uma ânfora que contém três urnas. Segue-se: E disse-lhe: Toma a tua conta, senta-te depressa e escreve cinquenta; perdoando-lhe a metade. Segue-se depois: A outro disse: E tu, quanto deves? Ele respondeu: Cem coros de trigo. O coro se completa com trinta módios. Segue-se: Disse-lhe: Toma os teus recibos e escreve oitenta; perdoando-lhe a quinta parte. Pode-se, portanto, entender simplesmente assim: Quem alivia a indigência do pobre, seja pela metade, seja pela quinta parte, deve ser galardoado com a recompensa de sua misericórdia.
Santo Agostinho, de quaest. Evang(séc. IV–V). Ou que, de cem tonéis de azeite, tenha feito escrever cinquenta pelo devedor, e de cem coros de trigo, oitenta, julgo que valha para isto: que aquilo que cada judeu faz pelos sacerdotes e levitas abunde na Igreja de Cristo, de modo que, como eles davam os dízimos, estes deem a metade, como fez Zaqueu com seus bens; ou, ao menos, dando dois décimos, isto é, uma quinta parte, superem os gastos dos judeus.
Lc 16,8-13
8E o proprietário admirou a astúcia do administrador, porque os filhos deste mundo são mais prudentes do que os filhos da luz no trato com seus semelhantes. 9Eu vos digo: fazei-vos amigos com a riqueza injusta, para que, no dia em que ela vos faltar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos. 10Aquele que é fiel nas coisas pequenas será também fiel nas coisas grandes. E quem é injusto nas coisas pequenas o será também nas grandes. 11Se, pois, não tiverdes sido fiéis nas riquezas injustas, quem vos confiará as verdadeiras? 12E se não fostes fiéis no alheio, quem vos dará o que é vosso? 13Nenhum servo pode servir a dois senhores: ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de aderir a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. O Senhor louvou o administrador, que ele expulsava da administração, porque tinha providenciado para si no futuro; daí o que se diz: E o senhor louvou o administrador iníquo, porque agira com prudência. Não devemos, contudo, tomar tudo para imitar; pois não se deve fazer fraude alguma ao nosso Senhor para fazer, desta mesma fraude, esmolas.
Orígenes(séc. III). Mas, porque os gentios dizem que a prudência é uma virtude e a definem como perícia dos bens, dos males e dos neutros, ou conhecimento do que se deve fazer e do que não se deve fazer, deve-se considerar se esta palavra significa várias coisas ou uma só. Diz-se, com efeito, que Deus preparou os céus com prudência: consta que é boa a prudência com que o Senhor preparou os céus. Diz-se também no Gênesis, segundo os Setenta, que a serpente era a mais prudente: onde chama prudência não a virtude, mas a astúcia que tem inclinação para o mal; e, segundo isto, diz-se que o Senhor louvou o administrador porque agira com prudência, isto é, com astúcia e perversamente. E talvez o que disse louvou não foi dito segundo um verdadeiro elogio, mas de modo impróprio; como quando dizemos que alguém é elogiado em coisas medíocres e indiferentes, e que de certo modo são de admirar os esforços e a agudeza com que se manifesta o vigor da mente.
Santo Agostinho. Dizem-se estas comparações por contraste, para que entendamos que, se pôde ser louvado pelo senhor aquele que fazia fraude, quanto mais agradam a Deus os que fazem aquelas obras segundo o seu preceito.
Orígenes. Também os filhos deste século são ditos não mais sábios, mas mais prudentes do que os filhos da luz; e isto não de modo absoluto e simples, mas em seu gênero; pois se segue: porque os filhos deste século são mais prudentes do que os filhos da luz em sua geração.
São Beda, o Venerável. Chamam-se filhos da luz e filhos deste século como se diz filhos do reino e filhos da perdição; pois cada um é chamado filho daquele cujas obras pratica.
Teofilacto. Chamam, portanto, filhos deste século os que pensam no que lhes é vantajoso na terra; filhos da luz, porém, os que tratam das riquezas espirituais com o olhar no amor divino. Ora, achamo-nos, nas administrações humanas, dispondo tudo com prudência e esforçando-nos ao máximo para que, se deixarmos a administração, tenhamos refúgio na vida; quando, porém, devemos dispensar as coisas divinas, não premeditamos o que depois nos será proveitoso.
São Gregório Magno(séc. VI). Para que, pois, os homens encontrem em sua mão alguma coisa depois da morte, ponham antes da morte suas riquezas nas mãos dos pobres; daí o que se segue: E eu vos digo: fazei amigos com a mamona da iniquidade.
Santo Agostinho, de Verb. Dom. O que os hebreus chamam mamona, em latim se chamam riquezas; como se dissesse: fazei amigos com as riquezas da iniquidade. Alguns, porém, entendendo isto mal, arrebatam bens alheios e disso dão algo aos pobres; e julgam fazer o que foi mandado. Esse entendimento deve ser corrigido. Fazei esmolas com trabalhos justos: pois não ireis corromper o juiz, Cristo. Se desses algo do despojo do indigente a um juiz para que julgasse a teu favor, e se esse juiz julgasse a teu favor, tamanha é a força da justiça que até a ti desagradaria. Não pintes para ti um Deus assim; ele é a fonte da justiça. Não faças, pois, esmolas de lucros e usuras: digo-o aos fiéis, a quem distribuímos o corpo de Cristo: mas, se tendes tais dinheiros, é do mal que o tendes. Não façais mais o mal. Zaqueu disse: Dou aos pobres a metade de meus bens. Eis como corre quem corre a fazer amigos com a mamona da iniquidade: e, para que não fosse réu por outra parte: se defraudei alguém em algo, devolvo o quádruplo. Há ainda outro entendimento. A mamona da iniquidade são todas as riquezas do século, de onde quer que venham. Se buscas as verdadeiras riquezas, são outras aquelas de que Jó, nu, abundava, quando tinha o coração cheio de Deus. Estas, porém, são chamadas riquezas da iniquidade porque não são verdadeiras: pois estão cheias de pobreza e sempre sujeitas aos acasos: se fossem verdadeiras riquezas, dar-te-iam segurança.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Ou são chamadas riquezas da iniquidade porque estas riquezas só o são para os iníquos e para os que nelas põem a esperança e a abundância de sua felicidade. Quando, porém, são possuídas aqui pelos justos, existe sim esse dinheiro, mas para eles não há riquezas senão as celestes e espirituais.
Santo Ambrósio. Ou chamou iníqua a mamona porque, com as várias seduções das riquezas, tenta nossos afetos de avareza, para que queiramos servir às riquezas.
São Basílio Magno(séc. IV). Ou, se sucedeste num patrimônio, recebeste bens reunidos de modo injusto: pois entre muitos predecessores é necessário que se encontre alguém que tenha usurpado injustamente os bens alheios. Suponha-se, porém, que nem o pai o tenha exigido; mas o ouro, de onde o tens? Se disseres: de mim, ignoras a Deus, não tendo conhecimento do Criador; se, porém, de Deus, dize-nos a razão pela qual o recebeste: acaso não é de Deus a terra e a sua plenitude? Portanto, se são do nosso Senhor comum, também são dos nossos companheiros de servidão
Teofilacto. São chamadas riquezas de iniquidade todas as que o Senhor deu para as despesas da necessidade de nossos irmãos e companheiros de servidão; nós, porém, as retemos para nós. Convinha, pois, desde o princípio que tudo fosse entregue aos pobres; mas, porque fomos administradores da iniquidade, retendo perversamente o que foi destinado à obra dos outros, não se deve de modo algum permanecer nesta crueldade, mas é preciso repartir com os pobres, para que sejamos recebidos por eles nas tendas celestes; pois se segue: quando vos faltarem, eles vos recebam nas tendas eternas
São Gregório Magno. Se, porém, adquirimos tendas eternas pela amizade deles, ao dar devemos considerar que oferecemos presentes aos patronos antes que concedamos dádivas aos necessitados
Santo Agostinho, de Verb. Dom. Com efeito, quem são os que terão tendas eternas, senão os santos de Deus? E quem são aqueles que devem ser recebidos por eles nas tendas eternas, senão os que servem à indigência deles e lhes fornecem com alegria o que lhes é necessário? Estes são os menores de Cristo, que deixaram tudo o que era seu e o seguiram: e tudo o que tiveram distribuíram aos pobres, para servir a Deus livres do grilhão secular e, libertos dos fardos do mundo, levantar para o alto os ombros como que alados
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Não é, pois, lícito entender como devedores de Deus aqueles por quem queremos ser recebidos nas tendas eternas; pois neste lugar são significados os justos e santos, que introduzem aqueles que partilharam os bens terrenos em suas necessidades
Santo Ambrósio. Ou de outro modo. Fazei amigos para vós com o mamona iníquo, para que, dando aos pobres, granjeemos a graça dos Anjos e dos demais santos
São João Crisóstomo. Observa também que não disse: para que vos recebam em suas moradas: pois não são eles que recebem; por isso, tendo dito fazei amigos para vós, acrescentou do mamona da iniquidade: mostrando que a amizade deles não nos patrocinará simplesmente, se as boas obras não nos acompanharem, se não esvaziarmos com justiça as riquezas acumuladas injustamente. A esmola é, pois, a mais perita das artes: pois não nos constrói casas de barro, mas confere a vida perene. Entre as diversas artes, uma precisa do auxílio de outra; quando, porém, é preciso ter misericórdia, a obra não é de nenhuma outra, mas só da vontade
São Cirilo de Alexandria(séc. V). Assim, pois, Cristo ensinava que os que abundam em riquezas amem sobretudo a amizade dos pobres e entesourem nos céus. Conhecia, porém, a indolência da mente humana, como os que ambicionam riquezas não prestam nenhuma obra de caridade aos necessitados. Que a tais não advenha nenhum fruto dos dons espirituais, mostra-o com exemplos manifestos, acrescentando: Quem é fiel no pouco, é fiel também no muito; e quem é iníquo no pouco, é iníquo também no muito. O Senhor nos abre o olho do coração, expondo o que dissera, ao acrescentar: Se, pois, não fostes fiéis no mamona iníquo, quem vos confiará o que é verdadeiro? Há, portanto, um mínimo de iniquidade no mamona, isto é, nas riquezas terrenas, que aos que apreciam as coisas do alto parecem nada ser. Julgo, pois, que alguém é fiel no pouco quando, dessas coisas mínimas, se dá socorro aos oprimidos pela aflição. Assim, se formos infiéis no pouco, de que modo obteremos dele o verdadeiro, isto é, o dom abundante dos carismas divinos, que imprime na alma humana a espécie divina? Que a intenção das palavras do Senhor tenda a isto, mostra-o o que se segue; pois diz: E se não fostes fiéis no alheio, quem vos dará o que é vosso?
Santo Ambrósio. As riquezas nos são alheias, porque são fora da natureza, nem nascem conosco, nem passam conosco; Cristo, porém, é nosso, porque é a vida dos homens; enfim, veio para o que era seu
Teofilacto. Assim, pois, até aqui nos ensinou com que fidelidade convém administrar as riquezas; mas, porque a administração das riquezas segundo Deus não se obtém senão pela impassibilidade de ânimo, não afeiçoado às riquezas, acrescenta: Nenhum servo pode servir a dois senhores
Santo Ambrósio. Não porque sejam dois, mas porque o Senhor é um só: pois, ainda que haja os que sirvam ao mamona, ele, contudo, não conhece nenhum direito de domínio, mas eles mesmos se impõem o jugo da servidão. Um só é o Senhor, porque um só é Deus; donde se vê que é um só o domínio do Pai e do Filho; e dá a razão disto acrescentando: Ou odiará um e amará o outro; ou se apegará a um e desprezará o outro
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Estas coisas, porém, não foram ditas ao acaso ou como que temerariamente; ninguém, com efeito, interrogado se ama o Diabo, responde que o ama, mas antes que o odeia; quase todos, porém, proclamam que amam a Deus. Portanto, ou odiará um, a saber, o Diabo, e amará o outro, a saber, Deus; ou se apegará ao outro, a saber, ao Diabo, quando persegue como que os prêmios temporais dele, e desprezará o outro, a saber, Deus; como costumam pospor as ameaças dele às suas cobiças aqueles que, pela bondade dele, se lisonjeiam com a impunidade
São Cirilo de Alexandria. A conclusão de todo o discurso é o que se segue: Não podeis servir a Deus e ao mamona. Transfiramos, pois, todo o empenho para o outro, renunciando às riquezas
São Beda, o Venerável. Ouça, pois, isto o avarento: que não se pode servir ao mesmo tempo às riquezas e a Cristo; e, no entanto, não disse: quem tem riquezas, mas: quem serve às riquezas; pois quem é servo das riquezas guarda as riquezas como servo; quem, porém, sacudiu o jugo da servidão, distribui-as como senhor. Mas quem serve ao mamona serve certamente àquele que, pelo mérito de sua perversidade, foi posto à frente destas coisas terrenas e é chamado príncipe deste mundo
Lc 16,14-18
14Ora, ouviam tudo isso os fariseus, que eram avarentos, e zombavam dele. 15Jesus disse-lhes: “Vós procurais parecer justos aos olhos dos homens, mas Deus vos conhece os corações; pois o que é elevado aos olhos dos homens é abominável aos olhos de Deus. 16A Lei e os Profetas duraram até João. Desde então é anunciado o Reino de Deus, e cada um faz violência para aí entrar. 17Mais facilmente, porém, passará o céu e a terra do que se perderá uma só letra da Lei. 18Todo o que abandonar sua mulher e casar com outra comete adultério; e quem se casar com a mulher rejeitada, comete adultério também”.
São Beda, o Venerável. Cristo havia advertido os Escribas e Fariseus a não presumirem de sua justiça, mas a receberem os pecadores penitentes e a redimirem seus pecados com esmolas; mas eles escarneciam o mestre da misericórdia, da humildade e da parcimônia; por isso diz: Os fariseus, que eram avarentos, ouviam todas estas coisas e zombavam dele; por duas causas: ou porque ordenava coisas menos úteis, ou porque impunha de modo supérfluo o que eles já tinham feito
Teofilacto. O Senhor, porém, descobrindo neles a malícia oculta, mostra que simulam justiça; por isso se acrescenta: E disse-lhes: Vós sois os que vos justificais diante dos homens. Justificam-se diante dos homens os que desprezam os pecadores como fracos e desesperados, e creem que eles próprios, como perfeitos, não têm necessidade do remédio das esmolas; mas quão justamente deve ser condenada a altura do tumor nocivo, vê-o aquele que iluminará o que está oculto nas trevas; por isso se segue: Mas Deus conhece os vossos corações
Teofilacto. E por isso lhe sois abomináveis, por causa da arrogância e da ambição do favor humano; por isso se acrescenta: porque o que é elevado entre os homens é abominação diante de Deus
São Beda, o Venerável. Os fariseus escarneciam o Salvador, que discorria contra a avareza, como se ordenasse o contrário da lei e dos profetas, nos quais se lê que muitos riquíssimos agradaram a Deus; e o próprio Moisés predisse ao povo que governava que, se seguisse a lei, abundaria em todos os bens terrenos: o Senhor, saindo-lhes ao encontro, mostra que entre a lei e o Evangelho há não pequena diferença, tanto nas promessas quanto nos preceitos; por isso se acrescenta: A lei e os profetas até João
Santo Ambrósio. Não porque a lei tenha cessado, mas porque começou a pregação do Evangelho: parece, com efeito, que as coisas menores se cumprem quando sucedem as mais excelentes
São João Crisóstomo, Homilias sobre Mateus. Com isto os torna prontos à fé em si: pois se até o tempo de João tudo foi consumado, eu sou aquele que veio: pois os profetas não teriam cessado se eu não tivesse vindo. Mas dirás: como os profetas até João, se houve muito mais profetas no Novo do que no Antigo Testamento? Mas fala daqueles profetas que anunciaram de antemão a vinda de Cristo
Eusébio de Cesareia(séc. IV). Os profetas anteriores conheciam a pregação do reino dos céus; mas nenhum deles a anunciara expressamente ao povo dos judeus, porque os judeus, tendo mente pueril, eram frágeis diante da imensidade da pregação. João foi o primeiro a pregar manifestamente que o reino dos céus se aproximara, e também a remissão dos pecados pelo banho da regeneração; por isso se segue: Desde então o reino de Deus é anunciado, e todos fazem violência para entrar nele
Santo Ambrósio, Homilias sobre Lucas. A lei, com efeito, transmitiu muitas coisas conforme a natureza, para que, mais indulgente com os desejos naturais, nos chamasse ao zelo da justiça; Cristo corta a natureza, porque também amputa os prazeres naturais. Mas por isso fazemos violência à natureza, para que não mergulhe nas coisas terrenas, mas se erga às do alto
Eusébio de Cesareia. Grande combate, com efeito, pesa sobre os mortais na subida aos céus: pois que homens revestidos de carne mortal subjuguem o prazer e todo apetite ilícito, querendo imitar a vida angélica, como não se faz com violência? Quem, vendo os que se esforçam no culto divino e quase mortificam a própria carne, não confessará verdadeiramente que eles fazem violência ao reino dos céus? E, se alguém investigar o admirável propósito dos veneráveis mártires, confessará que eles empregam violência contra o reino dos céus
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Fazem também violência ao reino dos céus, de modo que não só desprezam estas coisas temporais, mas também as línguas dos que zombam deles por desprezarem tais coisas: isto, com efeito, acrescenta o Evangelista, tendo dito que Jesus foi escarnecido quando falava do desprezo das riquezas terrenas
São Beda, o Venerável. Para que não pensassem que, ao dizer a lei e os profetas até João, se anunciava por ele a destruição da lei ou dos profetas, exclui isto acrescentando: É mais fácil passar o céu e a terra do que cair da lei um só traço. Passa, com efeito, a figura deste mundo; da lei, porém, nem o ápice de uma só letra, isto é, nem as menores coisas, carecem de sacramentos espirituais: e, no entanto, a lei e os profetas até João; porque não se pôde profetizar como ainda por vir aquele que, pelo pregão de João, já se mostrava ter vindo. O que predissera sobre a lei, que não seria violada para sempre, confirma-o com um só testemunho tomado dela como exemplo, dizendo: Todo aquele que repudia sua mulher e se casa com outra comete adultério; e quem se casa com a repudiada pelo marido comete adultério: para que, por este único ponto, aprendessem que também nos demais ele não veio para dissolver, mas para cumprir os decretos da lei
Teofilacto. Que a lei falasse de modo imperfeito com os imperfeitos, evidencia-se disto, que diz, para a dureza dos corações dos judeus: Se o marido tiver ódio à esposa, repudie-a; porque, sendo homicidas e se comprazendo no sangue, nem se compadeciam dos que lhes estavam ligados: a ponto de imolarem filhos e filhas aos Demônios. Agora, porém, é necessária obra de doutrina mais perfeita; por isso digo: quem repudia a esposa, sem que haja causa de fornicação, comete adultério, e quem se casar com outra comete adultério
Santo Ambrósio. Julgo que se deve falar primeiro da lei do matrimônio, para depois discutirmos sobre a proibição do divórcio. Alguns pensam que todo matrimônio vem de Deus, porque está escrito: O que Deus uniu, o homem não separe. Como, então, disse o Apóstolo: Se o infiel se separa, que se separe? Com isto mostra que nem todo matrimônio é de Deus: pois os cristãos não se unem aos gentios por juízo de Deus. Não queiras, portanto, repudiar a esposa, para não negares que Deus é o autor da tua culpa. Pois, se deves tolerar e emendar os costumes de estranhos, muito mais os da esposa: que é repudiada com os filhinhos pequenos que gerou: duro é se excluíres a mãe e retiveres os filhos, para que à injúria da mãe acrescentes também a injúria da piedade; mais duro, se por causa da mãe expulsas também os filhos juntamente. Suportarás que teus filhos, vivendo tu, estejam sob um padrasto; e, estando viva a mãe, sob uma madrasta? Quão perigoso, se expões a frágil idade da adolescência ao erro; quão ímpio, se abandonas a velhice daquela cuja juventude desfloraste. Suponha que a repudiada não se case; também isto te devia desagradar, pois ela guarda fidelidade a um adúltero. Suponha que se case; a necessidade dela é teu crime; e o que julgas matrimônio é adultério. Isto, porém, em sentido moral: porque acima havia proposto que o reino de Deus é anunciado; e, tendo dito que da lei não pode cair um só traço, acrescentou: Todo aquele que repudia sua mulher e se casa com outra comete adultério, etc.; o marido é Cristo, a esposa é a Igreja, esposa pela caridade, virgem pela integridade. Portanto, aquele a quem Deus atraiu ao Filho, que a perseguição não o separe, que a luxúria não o afaste, que a filosofia não o espolie, que o herege não o infecte, que o judeu não o separe. São adúlteros todos os que desejam adulterar a verdade da fé e da sabedoria