Lc 10,1-2
1Depois disso, designou o Senhor ainda setenta e dois outros discípulos e mandou-os, dois a dois, adiante de si, por todas as cidades e lugares para onde ele tinha de ir. 2Disse-lhes: “Grande é a messe, mas poucos são os operários. Rogai ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos(séc. VI). Envia os discípulos de dois em dois para pregar, porque dois são os preceitos da caridade, a saber, o amor de Deus e o do próximo; e a caridade não pode existir em menos que dois: para que com isso nos dê a entender tacitamente que quem não tem caridade para com o outro, de modo algum deve assumir o ofício da pregação.
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Lc 10,3-4
3Ide, eis que vos envio como cordeiros entre lobos. 4Não leveis bolsa nem mochila, nem calçado e a ninguém saudeis pelo caminho.
Santo Ambrósio(séc. IV). Ora, estes animais são contrários entre si, de modo que uns são devorados pelos outros, a saber, os cordeiros pelos lobos; mas o bom pastor não sabe temer os lobos por seu rebanho; por isso estes discípulos são enviados não para serem presa, mas para a graça; pois a solicitude do bom pastor faz com que os lobos nada possam ousar contra os cordeiros. Envia, pois, os cordeiros entre os lobos, para que se cumprisse aquilo: então os lobos e os cordeiros pastarão juntos.
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Lc 10,5-12
5Em toda casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa! 6Se ali houver algum homem pacífico, repousará sobre ele a vossa paz; mas, se não houver, ela tornará para vós. 7Permanecei na mesma casa, comei e bebei do que eles tiverem, pois o operário é digno do seu salário. Não andeis de casa em casa. 8Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei o que se vos servir. 9Curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: O Reino de Deus está próximo. 10Mas se entrardes em alguma cidade e não vos receberem, saindo pelas suas praças, dizei: 11Até o pó que se nos pegou da vossa cidade, sacudimos contra vós; sabei, contudo, que o Reino de Deus está próximo. 12Digo-vos: naqueles dias haverá um tratamento menos rigoroso para Sodoma.
São João Crisóstomo(séc. IV). A paz é a mãe de todos os bens, sem a qual os demais são vãos: por isso o Senhor, quando os discípulos entrassem nas casas, mandou logo que anunciassem a paz como sinal dos bens, dizendo: em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: paz a esta casa.
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Lc 10,17-20
17Voltaram alegres os setenta e dois, dizendo: “Senhor, até os demônios se nos submetem em teu nome!”. 18Jesus disse-lhes: “Vi Satanás cair do céu como um raio. 19Eis que vos dei poder para pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo. 20Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos estão sujeitos, mas alegrai-vos porque os vossos nomes estejam escritos nos céus”. (= Mt 11,25ss; 13,16s)
São Gregório Magno(séc. VI). Admiravelmente, o Senhor, para reprimir a soberba nos corações dos discípulos, relatou o julgamento de ruína que o próprio mestre da soberba recebeu; para que, no autor da soberba, aprendessem o que deviam temer quanto ao vício da soberba; por isso segue-se: eu via Satanás caindo do céu como um raio.
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Lc 10,21-22
21Naquela mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: “Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-te porque assim foi do teu agrado. 22Todas as coisas me foram entregues por meu Pai. Ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.
São João Crisóstomo, Homilias sobre Mateus. Ora, ele não se alegra nem dá graças porque os mistérios de Deus estavam ocultos aos escribas e fariseus: pois isso não era motivo de alegria, mas de gemido; mas dá graças por isto, porque o que os sábios não conheceram, estes conheceram. E dá graças sobre isso ao Pai, com quem ele mesmo faz isso ao mesmo tempo, mostrando o amor imenso com que nos ama. Mostra, em seguida, que a causa primeira disto é a vontade dele mesmo e a do Pai, que agia por vontade própria; por isso segue-se também: sim, Pai, porque assim foi do teu agrado.
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Lc 10,23-24
23E voltou-se para os seus discípulos e disse: “Ditosos os olhos que veem o que vós vedes, 24pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que vós ouvis, e não o ouviram”. (= Mt 22,34-40 = Mc 12,28-34)
São Cirilo de Alexandria(séc. V). Volta-se, pois, para eles, porque, repelindo os judeus surdos e de mente cega, e que não queriam ver, entregava-se todo aos que o amavam; e afirma bem-aventurados os olhos que veem o que antes outros mesmos viam. Convém apenas saber isto: que ver não significa o ato dos olhos, mas a recreação da mente nos benefícios recebidos; por exemplo, se alguém disser: este viu bons tempos, isto é, alegrou-se em bons tempos, segundo aquilo: vejas os bens de Jerusalém. Pois muitos dos judeus viram Cristo operando coisas divinas, isto é, com o olhar corporal; e, no entanto, nem a todos convém a bem-aventurança: pois não creram, nem tampouco viram a glória de Deus com os olhos da mente. Bem-aventurados são, pois, os nossos olhos, porque pela fé vimos o Verbo feito homem por nós, imprimindo em nós a beleza de sua divindade, para nos tornar conformes a si por meio da santificação e da justiça.
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Lc 10,25-28
25Levantou-se um doutor da Lei e, para pô-lo à prova, perguntou: “Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?”. 26Disse-lhe Jesus: “Que está escrito na Lei? Como é que lês?”. 27Respondeu ele: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento (Dt 6,5); e a teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18). 28Falou-lhe Jesus: “Respondeste bem; faze isto e viverás”.
São Basílio Magno(séc. IV). O que se diz com toda a tua mente não admite divisão para o resto: pois toda a dedicação que empregares nas coisas ínfimas, essa necessariamente faltará ao todo. Pois assim como num vaso cheio de líquido, quanto sai para fora, tanto é necessário que falte à plenitude; assim também na alma, na medida em que se derramar de seu amor para coisas ilícitas, na mesma medida é necessário que diminua o amor a Deus.
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Lc 10,29-37
29Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: “E quem é o meu próximo?” 30Jesus então contou: “Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto. 31Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante. 32Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante. 33Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão. 34Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; colocou-o sobre a sua própria montaria e levou-o a uma hospedaria e tratou dele. 35No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei. 36Qual desses três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?”. 37Respondeu o doutor: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Então, Jesus lhe disse: “Vai, e faze tu o mesmo”.
Santo Agostinho, de Verb. Dom(séc. IV–V). Pois que há de tão longínquo, o que há de tão distante quanto Deus dos homens, o imortal dos mortais, o justo dos pecadores, não em distância de lugar, mas de dessemelhança? Tendo, pois, em si dois bens, a saber, a justiça e a imortalidade, e nós dois males, a saber, a iniquidade e a mortalidade; se tivesse assumido ambos os nossos males, seria igual a nós, e teria necessidade, junto conosco, de um libertador. Para que, pois, fosse não o que somos nós, mas próximo de nós, ele não é pecador como tu; mas se fez mortal como tu; assumindo a pena, e não assumindo a culpa, apagou tanto a culpa como a pena.
São João Crisóstomo. Pois a Igreja é a estalagem, que acolhe os que chegam cansados na jornada do mundo e exaustos pelo fardo dos pecados; onde, deposto o peso dos pecados, o viajante cansado é reconfortado, e, reconfortado, é restaurado por um pasto salutar; e é isso que se diz e cuidou dele. Pois tudo o que é contrário, nocivo e mau está fora, porque dentro da estalagem está encerrado todo repouso e toda salubridade.
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Lc 10,38-42
38Estando Jesus em viagem, entrou numa aldeia, onde uma mulher, chamada Marta, o recebeu em sua casa. 39Tinha ela uma irmã por nome Maria, que se assentou aos pés do Senhor para ouvi-lo falar. 40Marta, toda preocupada na lida da casa, veio a Jesus e disse: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude”. 41Respondeu-lhe o Senhor: “Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; 42no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a boa parte, que lhe não será tirada”. (= Mt 6,9-15; 7,7-11)
Teofilacto(séc. XI). Portanto o Senhor não proíbe a hospitalidade, mas a perturbação de muitas coisas, isto é, a distração e o tumulto. E vê o conselho do Senhor: que antes o Senhor nada tinha dito a Marta; mas depois que ela se esforçava por arrancar a irmã da audição, então o Senhor, tendo a ocasião, a repreendeu: pois a hospitalidade é honrada até o ponto em que nos atrai às coisas necessárias; mas quando começa a impedir as coisas mais úteis, é manifesto que a audição das coisas divinas é mais honrosa.
Santo Agostinho, de Verb. Dom. Portanto o Senhor não reprovou a obra, mas distinguiu a função; pois segue-se: Maria escolheu a parte ótima, que não lhe será tirada. Não que a tua seja má, mas a dela é melhor. Por que melhor? Porque não lhe será tirada; de ti será tirado algum dia o peso da necessidade: pois quando chegares àquela pátria, não encontrarás peregrino que recebas em hospedagem. Mas te será tirado para teu bem, para que se te dê o que é melhor: te será tirado o trabalho, para que se te dê o descanso. Tu navegas, ela está no porto: pois eterna é a doçura da verdade; contudo, nesta vida ela cresce, naquela se aperfeiçoará, nunca será tirada.
São Gregório Magno. Ou por Maria, que sentada ouvia as palavras do Senhor, exprime-se a vida contemplativa; por Marta, ocupada nos serviços exteriores, significa-se a vida ativa. Mas o cuidado de Marta não é reprovado, e o de Maria é louvado: porque grandes são os méritos da vida ativa, mas maiores os da contemplativa. Por isso se diz que a parte de Maria nunca lhe será tirada: porque as obras da vida ativa passam com o corpo, mas os gozos da vida contemplativa se fortalecem melhor ao fim.
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