Lc 9,7-9
7O tetrarca Herodes ouviu falar de tudo o que Jesus fazia e ficou perplexo. Uns diziam: “É João que ressurgiu dos mortos”; outros: “É Elias que apareceu”; 8e ainda outros: “É um dos antigos profetas que ressuscitou”. 9Mas Herodes dizia: “Eu degolei a João. Quem é, pois, este, de quem ouço tais coisas?”. E procurava ocasião de vê-lo. (= Mt 14,13-21 = Mc 6,30-44 = Jo 6,1-15)
São João Crisóstomo, Homilias sobre Mateus(séc. IV). Só depois de muito tempo, e não desde o começo, Herodes tomou conhecimento dos feitos de Jesus, para que fique clara para ti a soberba do tirano; por isso se diz: Herodes, o tetrarca, ouviu falar de tudo o que ele fazia.
Teofilacto(séc. XI). Este Herodes era filho do grande Herodes, o que matou os meninos; mas aquele era rei, e este, tetrarca. Perguntava quem seria Cristo; por isso segue: e ficou perplexo.
São João Crisóstomo. Os pecadores, sabendo ou sem saber, temem qualquer ruído: o pecado, sem que ninguém o repreenda, denuncia o homem; sem que ninguém o acuse, condena-o; e torna medroso e indolente quem o cometeu. A causa do temor vem em seguida, quando diz: porque alguns diziam que João tinha ressuscitado dos mortos, outros que Elias tinha aparecido, outros ainda que um dos antigos profetas tinha ressuscitado.
Teofilacto. Os judeus esperavam a ressurreição dos mortos como uma vida carnal, entre banquetes e bebidas. Mas os que ressuscitarem não estarão em atos carnais.
São João Crisóstomo. Tendo ouvido, portanto, que milagres Jesus fazia, Herodes disse: Eu mandei degolar João. Não era palavra de quem se gaba, mas de quem consola o próprio medo e tenta convencer a alma perturbada a lembrar que foi ele mesmo quem o matou. E, porque tinha degolado João, acrescenta: Quem é esse homem, sobre quem ouço falar essas coisas?
Teofilacto. Como se dissesse: se é João, e ressuscitou dos mortos, vendo-o eu o reconhecerei; por isso segue: e procurava vê-lo.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas(séc. IV–V). Lucas, seguindo aqui a mesma ordem de narração que Marcos, não obriga a crer que os fatos tenham acontecido nessa mesma ordem. Também nestas palavras concorda com Marcos, ao menos nisto: que foram outros, e não Herodes, que disseram que João tinha ressuscitado dos mortos. Mas, como lembrou que Herodes ficou hesitante, deve-se entender: ou que, depois dessa hesitação, ele confirmou em seu ânimo o que os outros diziam, quando disse aos seus servos, como narra Mateus: Este é João Batista; ele ressuscitou dos mortos; ou que essas palavras de Mateus devem ser lidas de modo a mostrar que ele ainda hesitava.
Lc 9,18-22
18Num dia em que ele estava a orar a sós com os discípulos, perguntou-lhes: “Quem dizem que eu sou?”. 19Responderam-lhe: “Uns dizem que és João Batista; outros, Elias; outros pensam que ressuscitou algum dos antigos profetas”. 20Perguntou-lhes, então: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “O Cristo de Deus”. 21Ordenou-lhes energicamente que não o dissessem a ninguém. (= Mt 16,24-28 = Mc 8,34–9,1 = Jo 12,25) 22Ele acrescentou: “É necessário que o Filho do Homem padeça muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas. É necessário que seja levado à morte e que ressuscite ao terceiro dia”.
São Cirilo de Alexandria(séc. V). Separado das multidões, o Senhor, posto à parte, dedicava-se às orações; por isso se diz: E aconteceu que, estando ele sozinho orando, estavam com ele também os discípulos. Pois nisto ele mesmo se estabelecia como modelo, ensinando aos discípulos a arte fácil dos dogmas doutrinais: penso, com efeito, que convém que os prelados dos povos também presidam pelos méritos aos seus súditos, ocupando-se continuamente nas coisas necessárias, e tratando daquelas coisas pelas quais Deus é aplacado.
São Beda, o Venerável(séc. VII–VIII). Os discípulos, pois, estavam presentes ao Senhor; mas ele mesmo orou ao Pai sozinho: porque os santos podem unir-se ao Senhor pela sociedade da fé e do amor. Em toda parte ele suplica sozinho, porque os votos humanos não compreendem o desígnio de Deus, nem alguém pode ser partícipe das coisas íntimas com Cristo.
São Cirilo de Alexandria. Ora, o negócio da oração podia perturbar os discípulos: pois viam orar humanamente aquele que outrora tinham visto realizar milagres com autoridade divina. Para afastar, pois, tal perturbação, ele os interroga, não porque ignorasse os louvores que lhe eram atribuídos pelos de fora, mas para afastá-los da opinião da maioria, e neles inserir a fé reta; por isso segue-se: E ele os interrogou, dizendo: quem dizem as multidões que eu sou?
São Beda, o Venerável. Belamente o Senhor, ao querer sondar a fé dos discípulos, primeiro pergunta a opinião das multidões, para que a confissão deles não parecesse formada pela opinião do vulgo, e não provada pelo conhecimento da verdade; e para que não parecessem crer no que conheceram, mas, à semelhança de Herodes, hesitar sobre o que ouviram.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Pode, porém, causar dificuldade o fato de Lucas dizer que o Senhor interrogou seus discípulos sobre quem os homens diziam que ele era, quando ele estava orando sozinho, e eles também estavam presentes; enquanto Marcos, por sua vez, diz que eles foram interrogados sobre isso por ele no caminho. Mas isso o perturba, porque ele nunca orou no caminho.
Santo Ambrósio(séc. IV). Não é, porém, ociosa a opinião das multidões que os discípulos relatam, quando se acrescenta: Mas eles responderam e disseram: uns, João Batista, que sabiam ter sido decapitado; outros, porém, Elias, que julgavam que havia de vir; outros ainda, que um dos antigos profetas ressuscitou. Mas indagar isso é próprio de outra prudência: pois se ao apóstolo Paulo basta não saber nada além de Jesus Cristo, e este crucificado, que mais devo eu desejar saber além de Cristo?
São Cirilo de Alexandria. Vê, porém, a elegância nas interrogações. Pois primeiro os dirige aos louvores externos, para que, afastados estes, gere neles a verdadeira opinião. Por isso, tendo os discípulos dito a opinião do povo, ele pergunta a opinião deles, quando se acrescenta: Disse-lhes então: mas vós, quem dizeis que eu sou? Ó quão notável aquele vós! Distingue-os dos demais, para que evitem as opiniões deles; como se dissesse: vós, que fostes chamados ao apostolado por meu julgamento, testemunhas dos meus milagres, quem dizeis que eu sou? Pedro, porém, se antecipa aos demais, e se torna a boca de todo o colégio, e profere as palavras do amor divino, e apresenta a confissão da fé, quando se diz: Respondendo, Pedro disse: o Cristo de Deus. Não diz simplesmente que ele é Cristo de Deus, mas antes, com o artigo, aquele Cristo de Deus: por isso no grego se tem ton christon. Pois muitos foram ungidos divinamente, e de diversos modos foram chamados cristos. Alguns, com efeito, foram ungidos como reis, outros como profetas; nós, porém, ungidos por Cristo com o Espírito Santo, obtivemos o nome de cristãos; mas um só é aquele que é o Cristo de Deus e do Pai, como se só ele tivesse por próprio o Pai, que está nos céus: e assim Lucas concorda, quanto ao sentido, com Mateus, que narrou ter Pedro dito: tu és o Cristo, Filho do Deus vivo; mas, usando de brevidade, diz que ele disse o Cristo de Deus.
Santo Ambrósio. Pois neste único nome há a expressão tanto da divindade quanto da encarnação, e a fé da paixão. Abraçou, portanto, tudo aquele que exprimiu tanto a natureza quanto o nome, no qual está a suma das virtudes.
São Cirilo de Alexandria. Mas deve-se notar que o prudentíssimo Pedro confessou ser um só o Cristo, contra os que presumem dividir o Emanuel em dois cristos. Pois ele não os interrogou dizendo quem os homens dizem ser o Verbo divino, mas o Filho do homem? A quem Pedro confessou ser o Filho de Deus. Nisto, pois, é admirável, e feito digno de tão notáveis honras, porque aquele que admirou em nossa forma, este creu ser o Cristo do Pai, isto é, o Verbo feito homem, que procedeu da substância do Pai.
Santo Ambrósio. O Senhor Jesus Cristo não quis, a princípio, ser pregado, para que não nascesse nenhum alvoroço; por isso segue-se: Mas ele, repreendendo-os, ordenou que a ninguém o dissessem. Por muitas razões ordena que os discípulos se calem: para enganar o príncipe deste mundo, para evitar a jactância, para ensinar a humildade. Cristo, pois, não quis gloriar-se; e tu, que nasceste ignóbil, te glorias? Ao mesmo tempo, para que os discípulos, ainda rudes e imperfeitos, não fossem oprimidos pelo peso de uma pregação tão grande. Proíbe-se, pois, que evangelizassem que ele era o Filho de Deus, para que depois evangelizassem o crucificado.
São João Crisóstomo, Homilias sobre Mateus. Oportunamente também o Senhor então proibiu que ninguém dissesse que ele era o Cristo, a fim de que, removidos do meio os escândalos, e consumado o patíbulo da cruz, se imprimisse habitualmente na mente dos ouvintes a opinião conveniente a respeito dele; pois o que uma vez se enraíza, e depois é arrancado, dificilmente será de novo implantado; mas o que, uma vez implantado, permanece imóvel, facilmente cresce. Pois se Pedro se escandalizou só de ouvir, que sofreriam tantos outros, ao ouvirem que ele era o Filho de Deus, e o vissem, porém, crucificado e cuspido?
São Cirilo de Alexandria. Convinha, pois, que os discípulos o pregassem por toda a terra (pois esta era a obra dos escolhidos por ele para o ofício do apostolado): mas, como testifica a sagrada Escritura, há tempo para cada coisa. Convinha, com efeito, que a cruz e a ressurreição se cumprissem, e só então seguisse a pregação dos apóstolos; por isso segue-se, dizendo: que era necessário que o Filho do homem padecesse muitas coisas, e fosse rejeitado pelos anciãos, e pelos príncipes dos sacerdotes e escribas, e fosse morto, e ao terceiro dia ressuscitasse.
Santo Ambrósio. Talvez, porque o Senhor sabia que também os discípulos criam com dificuldade o mistério da paixão e da ressurreição, ele mesmo quis ser o afirmador de sua própria paixão e ressurreição.
Lc 9,43-45
43Todos ficaram pasmados ante a grandeza de Deus. (= Mt 17,21s = Mc 9,30ss) Como todos se admirassem de tudo o que Jesus fazia, disse ele a seus discípulos: 44“Gravai nos vossos corações estas palavras: O Filho do Homem há de ser entregue às mãos dos homens!”. 45Eles, porém, não entendiam essa palavra e era-lhes obscura, de modo que não alcançaram o seu sentido; e tinham medo de lhe perguntar a esse respeito. (= Mt 18,1-6 = Mc 9,33-39)
São Cirilo de Alexandria. Todas as coisas que Jesus realizava eram dignas de admiração para todos: pois irradiava algo notável e divino em cada uma das suas obras, segundo aquilo: porás sobre ele glória e formosura. E, embora todos se admirassem das coisas que fazia, ele, contudo, relatou o que se segue não a todos, mas aos discípulos; por isso se diz: E, admirando-se todos de tudo o que fazia, disse a seus discípulos: ponde em vossos corações estas palavras. Tinha mostrado no monte aos discípulos a sua glória, e depois disso libertara alguém do espírito maligno; mas era necessário que ele suportasse a paixão por nós. Podiam, porém, os discípulos perturbar-se, dizendo: acaso fomos enganados ao julgar que ele era Deus? Para que soubessem, pois, o que estava por vir a seu respeito, ele lhes ordena que tenham na mente, como um depósito, o mistério da paixão, dizendo ponde em vossos corações. O que diz vós os distingue dos demais: pois não convinha que a gente comum soubesse que ele haveria de padecer; mas eles deviam antes ser certificados de que, morto, ressuscitaria, destruindo a morte, para que não se escandalizassem.
Tito de Bostra(séc. IV). Admirando-se, pois, todos dos sinais, ele mesmo anuncia de antemão a paixão: pois não são os sinais que salvam, mas a cruz que proporciona os benefícios; por isso se acrescenta: Pois o Filho do homem há de ser entregue nas mãos dos homens.
Orígenes, Homilias sobre Mateus(séc. III). Mas não diz claramente por quem ele havia de ser entregue: pois alguns dizem que ele seria entregue por Judas, outros pelo povo. Paulo, porém, diz que Deus Pai o entregou por todos nós; mas Judas, entregando-o por dinheiro, traiu-o hostilmente; o Pai, porém, por causa do benefício
Teofilacto. O Senhor, condescendendo com a fraqueza deles e governando-os com certa disciplina, não permitiu que entendessem o que fora dito sobre a cruz; donde se segue: Mas eles não entendiam essa palavra, e ela lhes estava velada, para que não a percebessem
São Beda, o Venerável. Essa ignorância dos discípulos nasce não tanto da lentidão quanto do amor; pois, sendo ainda carnais e ignorantes do mistério da cruz, não podiam crer que havia de morrer aquele que criam ser o verdadeiro Deus; e, como costumavam ouvi-lo falar muitas vezes por figuras, pensavam que também aquilo que dizia sobre sua entrega ele o significava figurativamente
São Cirilo de Alexandria. Dirá, porém, alguém talvez: como ignoraram os discípulos o mistério da cruz de Cristo, se ele era tocado em muitos lugares pela sombra da lei? Mas, como Paulo lembra, até o dia de hoje, quando se lê Moisés, um véu está posto sobre o coração deles. Convém, pois, que os que se acercam de Cristo digam: Descobre os meus olhos, e contemplarei as maravilhas da tua lei
Teofilacto. Vê também a reverência dos discípulos nisto que se segue: E temiam interrogá-lo sobre essa palavra: pois o temor é grau da reverência
Lc 9,46-50
46Veio-lhes então o pensamento de qual deles seria o maior. 47Penetrando Jesus nos pensamentos de seus corações, tomou um menino, colocou-o junto de si e disse-lhes: 48“Todo o que recebe este menino em meu nome, a mim é que recebe; e quem recebe a mim recebe aquele que me enviou; pois quem dentre vós for o menor, esse será grande”. 49João tomou a palavra e disse: “Mestre, vimos um homem que expelia demônios em teu nome, e nós lho proibimos, porque não é dos nossos”. 50Mas Jesus lhe disse: “Não lho proibais; porque, o que não é contra vós é a vosso favor”.
São Cirilo de Alexandria. O Diabo arma ciladas de muitos modos aos que amam a vida ótima; e se pode cercar a mente de alguém por meio das seduções carnais, aguça o afeto do prazer; se alguém escapar desses laços da cobiça, suscita a paixão da glória, paixão de vaga glória que invadiu um de seus apóstolos; por isso se diz: entrou, porém, neles o pensamento de qual deles seria o maior: pois pensar isto é próprio de quem deseja sobressair aos demais. Julgo, porém, improvável que todos os discípulos tenham incorrido nessa enfermidade; e por isso, para que não parecesse que o Evangelista forjava alguma acusação contra algum dos discípulos, exprime-se de modo indeterminado, dizendo que o pensamento entrou neles.
Teofilacto. Parece, porém, que essa paixão nasceu disto: de não terem conseguido curar o endemoninhado, discutindo eles sobre isso; dizendo um que não foi por sua impotência, mas de outro, que ele não pôde ser curado, de modo que daí se acendeu a contenda sobre qual deles seria o maior.
São Beda, o Venerável. Ou porque tinham visto Pedro, Tiago e João levados à parte ao monte, e que a Pedro tinham sido prometidas as chaves do reino dos céus, indignaram-se, seja por esses três terem sido preferidos aos demais, seja por Pedro ter sido preferido a todos; ou porque, pelo pagamento do tributo, tinham visto Pedro igualado ao próprio Senhor, julgavam que ele devia ser preferido aos demais. Mas o leitor atento encontrará que essa questão já se agitava entre eles até antes do pagamento do dídracma. Enfim, Mateus relata que isso se passou em Cafarnaum. Diz, porém, Marcos: e vieram a Cafarnaum. E estando eles em casa, perguntava-lhes: que tratáveis pelo caminho? Mas eles calavam-se, pois tinham discutido entre si pelo caminho qual deles seria o maior.
São Cirilo de Alexandria. O Senhor, porém, que sabe salvar, vendo que na mente dos discípulos tinha surgido esse pensamento, como certa raiz de amargura, antes que recebesse aumento, arrancou-a pela raiz: pois quando as paixões começam em nós, são facilmente vencidas; mas, uma vez crescidas, são dificilmente removidas; por isso segue-se: mas Jesus, vendo os pensamentos de seu coração, tomou um menino e o pôs junto de si. Aprenda quem pensa que Jesus é um homem nu que se enganou; pois, embora o Verbo se tenha feito carne, permaneceu, contudo, Deus: pois só a Deus pertence poder perscrutar os corações e os rins. E o fato de ter tomado um menino e o ter posto junto de si, fazia-se por utilidade dos apóstolos e nossa. Pois a doença da vanglória devora sobretudo aqueles que se destacam entre os outros homens. O menino, porém, tem mente sincera, coração imaculado, e permanece na simplicidade dos pensamentos: não ambiciona honras, nem conhece o modo de qualquer prerrogativa, nem foge de parecer ter menos, nem tem muita severidade na mente e no coração. Tais o Senhor abraça, e ama, e digna-se ter perto de si, como aqueles que escolheram saborear o que é seu. Pois diz: aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; por isso segue-se: e disse: quem receber este menino em meu nome, a mim recebe; como se dissesse: já que é uma e a mesma a recompensa para os que honram os santos, seja ele talvez o menor, seja ilustre em honra e glória, porque nele Cristo é recebido; como não é vão pedir para exercer alternadamente a prerrogativa?
São Beda, o Venerável. Nisto, porém, ensina que os pobres de Cristo devem ser recebidos, por sua honra, simplesmente pelos que queiram ser maiores; ou persuade que esses são pequeninos pela malícia; por isso, tendo dito quem receber este menino, acrescenta em meu nome; para que, a saber, eles sigam pela indústria da razão, em nome de Cristo, a forma de virtude que o menino observa sob a condução da natureza. Mas, porque ensina que ele mesmo é recebido no menino, e ele mesmo, menino, nasceu para nós, para que não se pensasse que isto era apenas o que parecia, acrescentou: e quem me recebe, recebe aquele que me enviou; querendo, sem dúvida, ser crido tal e tão grande quanto é o Pai.
Santo Ambrósio. Pois quem recebe um imitador de Cristo, recebe Cristo; e quem recebe a imagem de Deus, recebe Deus. Mas, porque não podíamos ver a imagem de Deus, ela se fez presente a nós pela encarnação do Verbo, para que se reconciliasse conosco a divindade, que está acima de nós.
São Cirilo de Alexandria. Insinua ainda mais a intenção da palavra antes dita, dizendo: pois quem é o menor entre vós todos, esse é o maior. O que diz do modesto, que nada julga de si mesmo com altivez por causa da honestidade.
Teofilacto. Porque o Senhor tinha dito quem é o menor entre vós todos, esse é o maior, temeu João que talvez tivessem feito algum mal, proibindo por autoridade própria certo homem; pois a proibição não mostra o que proíbe como menor, mas como sabendo algo maior; por isso se acrescenta: respondendo, porém, João, disse: mestre, vimos alguém expulsando demônios em teu nome, e o proibimos: não por inveja, é certo, mas julgando a operação dos milagres; pois ele não tinha recebido com eles o poder dos milagres, nem o Senhor o tinha enviado como a eles, nem seguia Jesus em tudo; por isso acrescenta: que não te segue conosco.
Santo Ambrósio. Pois João, amando muitíssimo, e por isso muitíssimo reamado, julga que deve ser excluído do benefício aquele que não presta obséquio.
São Cirilo de Alexandria. Mas era preciso antes pensar que não é este mesmo o autor dos milagres, mas a graça que está naquele que realiza milagres pela virtude de Cristo. E que importa se não são contados entre os apóstolos os que são coroados pela graça de Cristo? Muitas são as diferenças dos dons de Cristo; mas, porque o Salvador entregou aos apóstolos o poder de expulsar os espíritos imundos, pensaram que a nenhum outro além deles somente era lícito exercer a dignidade concedida; e por isso vêm perguntar se também é lícito a outros fazer isso
Santo Ambrósio. Ora, João não é repreendido, porque agia por amor, mas é instruído, para que conheça a distância entre os fracos e os fortes. E por isso o Senhor, ainda que recompense os mais fortes, contudo não exclui os fracos; donde segue-se e Jesus lhes disse: não proibais: quem não é contra vós é por vós. Bem, Senhor: pois também José e Nicodemos, discípulos ocultos por medo, contudo no seu tempo não negaram a ti o seu dever. Mas, contudo, porque noutro lugar disseste: quem não é comigo é contra mim, e quem não recolhe comigo, dispersa, explica-nos, para que não pareça ser contrário. E penso que, se alguém considerar o escrutador das mentes, não deve duvidar que o ato de cada um se discirna pela mente
São João Crisóstomo. Pois ali, quando disse: quem não é comigo é contra mim, mostrou que o Diabo e os judeus lhe eram contrários; aqui, porém, mostra que aquele que expulsava os demônios em nome de Cristo estava em parte com eles
São Cirilo de Alexandria. Como se dissesse: são a favor de vós, que amais a Cristo, os que querem promover o que diz respeito à glória dele, coroados pela graça do mesmo
Teofilacto. Admira, porém, o poder de Cristo, como a graça opera por meio de indignos e que não são discípulos seus; assim como também pelos sacerdotes os homens são santificados, ainda que os sacerdotes não tenham sido santos
Santo Ambrósio. Mas por que aqui nega que devam ser proibidos aqueles que podem, pela imposição das mãos, ordenar aos espíritos imundos em nome de Jesus? Segundo Mateus, diz a estes: não vos conheço. Mas devemos observar que não há discordância de sentenças; mas se deve julgar que não só se requer o ofício nos clérigos, mas também as obras da virtude; e que o nome de Cristo é tão grande, que socorre em auxílio até aos pouco santos, ainda que não socorra para a graça: donde ninguém que não esteja purificado reivindique para si a graça, na qual operou a virtude do nome eterno: pois não é vencido o Diabo por mérito do homem, mas pelo ódio contra si mesmo
São Beda, o Venerável. Portanto, nos hereges e nos maus católicos, não devemos detestar e proibir os sacramentos comuns, nos quais estão conosco e não são contrários a nós, mas a divisão contrária à paz e à verdade, pela qual são contrários a nós e não seguem o Senhor conosco
Lc 9,57-62
57Enquanto caminhavam, um homem lhe disse: “Senhor, te seguirei para onde quer que vás”. 58Jesus replicou-lhe: “As raposas têm covas e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. 59A outro disse: “Segue-me”. Mas ele pediu: “Senhor, permite-me ir primeiro enterrar meu pai”. 60Mas Jesus disse-lhe: “Deixa que os mortos enterrem seus mortos; tu, porém, vai e anuncia o Reino de Deus”. 61Um outro ainda lhe falou: “Senhor, te seguirei, mas permite primeiro que me despeça dos que estão em casa”. 62Mas Jesus disse-lhe: “Aquele que põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus”. (= Mt 9,37ss; 10,7-16.40; 11,21-24)
São Cirilo de Alexandria. Ainda que o Senhor de todos seja generoso, não dá simplesmente e sem discernimento os dons celestiais e divinos a cada um, mas àqueles que são dignos de recebê-los, isto é, aos que afastam sua alma das manchas das perversidades; e isto nos ensina a força das palavras evangélicas, quando se diz e aconteceu que, indo eles pelo caminho, alguém lhe disse: seguir-te-ei para onde quer que fores. Em primeiro lugar, contém-se nesta abordagem muita inércia; em seguida, mostra-se que está cheio de excessiva impudência: pois não pedia simplesmente seguir a Cristo, como muitos outros do povo; mas antes se lançava sobre as dignidades apostólicas, quando Paulo diz: ninguém tome para si esta honra, senão o chamado por Deus
Santo Atanásio(séc. IV). Ousou também comparar-se ao poder incompreensível do Salvador, dizendo seguir-te-ei para onde quer que fores: porque seguir simplesmente o Salvador para ouvir a sua doutrina é possível pela propriedade da natureza humana, com que ele se comporta para com os homens; mas não é possível acompanhá-lo em qualquer lugar em que esteja: pois ele mesmo é incompreensível, e não é circunscrito por lugar
São Cirilo de Alexandria. De outro modo também, não sem razão, o torna recusável; pois convinha que ele tomasse a sua cruz para seguir o Senhor, e renunciasse aos afetos da vida presente: e isto o Senhor repreende nele, não censurando, mas corrigindo. Segue-se: e disse Jesus: as raposas têm covis e as aves do céu ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça
Teofilacto. Pois, como tinha visto que o Senhor atraía muito povo, pensou que dele obteria proveito, e que, se seguisse o Senhor, poderia juntar dinheiro
São Beda, o Venerável. Por isso lhe é dito: por que desejas seguir-me por causa das riquezas e dos lucros deste século, se sou de tal pobreza que nem sequer tenho uma pequena morada, e não uso teto próprio?
São João Crisóstomo. Vê como demonstra pelas obras a pobreza que o Senhor tinha ensinado. Não tinha ele mesa, nem candelabro, nem casa, nem qualquer outra coisa semelhante
São Cirilo de Alexandria. Por significação mística, porém, chama de raposas e aves do céu os poderes malignos e astutos dos Demônios: como se dissesse: quando as raposas e as aves têm morada em ti, como repousará Cristo em ti? Que há em comum entre a luz e as trevas?
Santo Atanásio. Ou nisto o Senhor ensina a grandeza do seu dom; como se dissesse: todas as coisas geráveis podem ser circunscritas; mas o Verbo de Deus é de poder incompreensível: e por isso não digas seguir-te-ei para onde quer que fores. De resto, se quiseres tornar-te discípulo, renuncia às coisas irracionais: porque é impossível que aquele que permanece na irracionalidade se torne discípulo do Verbo
Santo Ambrósio. Ou compara as raposas aos hereges: pois é um animal enganoso e sempre atento a ciladas, que exerce a rapina da fraude: nada permite que seja seguro, nada tranquilo, nada deixa estar em segurança, porque busca a presa dentro das próprias moradas dos homens. Assim são os hereges, que não sabem preparar para si uma casa, mas tentam enganar os outros com as suas artimanhas. Este animal nunca se amansa; por isso o Apóstolo diz: evita o homem herege depois de uma admoestação. As aves do céu, por sua vez, são frequentemente trazidas para a semelhança da malícia espiritual; e constroem, por assim dizer, alguns ninhos nos peitos dos ímprobos: e por isso, dominando a astúcia nos afetos de cada um, não pode haver posse alguma da divindade; mas onde ela tiver comprovado a mente inocente, apoia sobre ela, de certo modo, a força de sua majestade, porque se insere nos peitos honrados com uma graça mais abundante. Assim, portanto, não parece condizer com a razão julgá-lo simples e fiel, a quem a dignação do Senhor rejeita, embora tivesse prometido o obséquio de um serviço incansável. Mas o Senhor não busca a aparência dos obséquios, mas a pureza do afeto; nem se admite o seu obséquio, cujo dever não se comprova: pois a hospedagem da fé deve ser circunspecta: para que, ao abrirmos aos infiéis o interior de nossa casa, não caiamos, por incauta credulidade, em perfídia alheia. Assim, pois, para que percebas que Deus não repudia o culto, mas a fraude; ele, que repudiou o fraudulento, escolheu o inocente; segue-se, com efeito: e disse a outro: segue-me. Mas isto disse a alguém de quem já sabia que o pai estava morto; por isso segue-se: ele, porém, disse: Senhor, permite-me primeiro ir sepultar meu pai
São Beda, o Venerável. Não rejeita o discipulado; mas, cumprido primeiro o dever piedoso do funeral paterno, deseja segui-lo mais livremente
Santo Ambrósio. Mas o Senhor chama aqueles de quem se compadece; por isso segue-se: e disse Jesus: deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, porém, vai e anuncia o reino de Deus. Sendo que recebemos o ofício religioso de sepultar o corpo humano, como é proibida também a sepultura do funeral paterno, senão para que entendas que as coisas humanas devem ser postas depois das divinas? É bom empenho, mas maior impedimento; pois quem reparte o empenho, desvia o afeto; quem divide o cuidado, adia o proveito; portanto, devem-se cumprir primeiro as coisas maiores: pois também os apóstolos, para não se ocuparem no empenho de distribuir, ordenaram ministros para os pobres
São João Crisóstomo, Homilias sobre Mateus. E que coisa é mais necessária do que as exéquias paternas; que coisa é mais fácil, visto que não seria preciso dar muito tempo? Por isto somos ensinados que não convém de modo algum passar o tempo em vão, ainda que haja mil coisas que constranjam; antes, é preciso preferir as coisas espirituais a todas as coisas por mais necessárias que sejam. Pois o diabo insiste com mais atenção, querendo encontrar alguma entrada; e, se toma uma pequena negligência, opera uma grande pusilanimidade
Santo Ambrósio. Não se proíbe, pois, a sepultura do funeral paterno: mas a piedade da religião divina é preferida à necessidade do parentesco. Aquilo se deixa aos parentes, isto se manda aos que ficam. Mas como podem os mortos sepultar os mortos, senão porque aqui deves entender uma dupla morte, uma da natureza, outra da culpa? Há também uma terceira morte, na qual morremos para o pecado e vivemos para Deus
São João Crisóstomo, Homilias sobre Mateus. Quando, portanto, disse seus mortos, mostrou que este não era um morto dele; penso, com efeito, que o defunto era do número dos infiéis
Santo Ambrósio. Ou porque o sepulcro aberto é a garganta dos ímpios, prescreve-se que se apague a memória daqueles cujo mérito perece junto com o corpo; nem o filho é afastado do dever para com o pai, mas o fiel é separado do pérfido quanto à comunhão; não se proíbe o dever, mas o mistério da religião, que não haverá comunhão nossa com os gentios mortos
São Cirilo de Alexandria. Ou de outro modo. Pois o pai estava carregado pela velhice. Ora, ele pensa fazer algo honesto ao propor observar-lhe a piedade devida, segundo aquilo: honra teu pai e tua mãe. Por isso, quando foi chamado ao ministério evangélico, dizendo o Senhor segue-me, ele buscava um prazo que pudesse bastar para o sustento do pai decrépito, dizendo: permite-me primeiro ir e sepultar meu pai: não que pedisse para sepultar o pai já morto — pois Cristo não teria impedido quem quisesse fazer isso — mas disse sepultar, isto é, sustentar na velhice até a morte. Mas o Senhor lhe disse: Deixa os mortos sepultarem os seus mortos: pois havia também outros cuidadores ligados pela linha de parentesco, mas, como julgo, mortos, porque ainda não haviam crido em Cristo. Daí percebe que se deve preferir a piedade pela qual estamos ligados a Deus ao amor dos pais; aos quais mostramos reverência, porque por eles fomos gerados; mas Deus é de todos, e, quando não éramos, conduziu-nos à existência; os pais, porém, tornaram-se ministros da entrada para a existência
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Isto, pois, dizia o Senhor àquele a quem tinha dito segue-me. Já outro discípulo se meteu no meio, a quem ninguém tinha dito nada; por isso segue-se: E outro disse: Eu te seguirei, Senhor, mas primeiro permite-me ir despedir-me dos que estão em casa, para que não aconteça, como costuma acontecer, que me procurem
São Cirilo de Alexandria. Ora, uma promessa dessa espécie deve ser imitada, e é digna de todo louvor; mas buscar despedir-se dos que estão em casa, licenciando-se deles, mostra que ele estava de algum modo dividido em relação ao Senhor, visto que não se propusera abraçar isto com a mente de modo perfeito: pois querer consultar os parentes, que não haveriam de consentir com este propósito, indica que ele estava de algum modo vacilante; por isso o Senhor reprova isto. Segue-se: Disse-lhe Jesus: Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o reino de Deus. Põe a mão no arado quem está afeiçoado a seguir; contudo, olha para trás quem pede uma delonga, sob a ocasião de voltar para casa e conversar com os parentes
Santo Agostinho, de Verb. Dom. Como se lhe dissesse: o oriente te chama, e tu atentas para o ocidente
São Beda, o Venerável. Pôr a mão no arado, para qualquer um, é como, por um certo instrumento de compunção, com o madeiro e o ferro da paixão do Senhor, desgastar a dureza do próprio coração, e abri-lo para semear os frutos das boas obras; e se alguém, começando a cultivá-lo, se deleita em olhar para trás, como a mulher de Ló, para aquilo que deixou, é privado já do dom do reino futuro
Um autor grego(). Pois os olhares repetidos para as coisas que deixamos, por causa do costume, arrastam-nos de volta ao que ficou para trás: com efeito, o hábito é algo violento para reter-nos a si. Acaso não nasce o costume do uso, e a natureza, verdadeiramente, do costume? Ora, é difícil remover ou alterar a natureza: pois, ainda que por um pouco se desvie forçada, volta a si mesma rapidamente
São Beda, o Venerável. Se, porém, o discípulo que há de seguir o Senhor é repreendido por querer ao menos despedir-se em casa, que será daqueles que, sem nenhuma utilidade, visitam com frequência as casas daqueles que deixaram no mundo?