Lc 7,18-23
18Os discípulos de João contaram-lhe todas estas coisas. 19E João chamou dois dos seus discípulos e enviou-os a Jesus, perguntando: “És tu o que há de vir ou devemos esperar por outro?”. 20Chegando estes homens a ele, disseram: “João Batista enviou-nos a ti, perguntando: És tu o que há de vir ou devemos esperar por outro?”. 21Ora, naquele momento Jesus havia curado muitas pessoas de enfermidades, de doenças e de espíritos malignos e dado a vista a muitos cegos. 22Respondeu-lhes ele: “Ide anunciar a João o que tendes visto e ouvido: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres é anunciado o Evangelho; 23e bem-aventurado é aquele para quem eu não for ocasião de queda!”
São Cirilo de Alexandria(séc. V). O milagre que todos os habitantes da Judeia e da Galileia tinham conhecido, alguns de seus discípulos o referem ao santo Batista; donde se segue: E os discípulos de João lhe anunciaram tudo isso.
São Beda, o Venerável(séc. VII–VIII). Não com coração simples, como julgo, mas por estímulo da inveja: pois também em outro lugar se queixam, dizendo: Rabi, aquele que estava contigo do outro lado do Jordão, eis que batiza, e todos vão a ele.
São João Crisóstomo(séc. IV). Mas então nos erguemos mais para ele quando a necessidade nos aperta; e por isso João, lançado ao cárcere, quando seus discípulos mais precisavam de Jesus, então os envia a Cristo; pois se segue: E João chamou dois de seus discípulos e os enviou a Jesus, dizendo: Tu és aquele que há de vir, ou esperamos outro?
São Beda, o Venerável. Não diz: tu és aquele que veio; mas: tu és aquele que há de vir? E o sentido é: manda-me dizer, porque vou ser morto por Herodes e descer aos Infernos, se devo anunciar-te também aos que estão nos Infernos, eu que te anunciei aos que estão em cima; ou se isto não convém ao Filho de Deus, e enviarás outro a estes mistérios?
São Cirilo de Alexandria. Mas tal opinião deve ser inteiramente rejeitada: pois nunca encontramos a Sagrada Escritura dizer que João Batista tenha anunciado aos habitantes do inferno a vinda do Salvador. Também é verdade dizer que o Batista não ignorou o poder do mistério da encarnação do Unigênito; por isso sabia, com os outros, que ele iluminaria os que permaneciam no Inferno, quando provasse a morte por todos, tanto vivos quanto mortos. Mas, uma vez que a palavra da Sagrada Escritura predisse que este viria como Deus e Senhor, ao passo que os outros foram enviados como servos antes de Cristo, por isso o Salvador e Senhor de todos era chamado pelos profetas aquele que vem ou que há de vir, segundo aquilo: Bendito o que vem em nome do Senhor; e em Habacuc: Dentro de pouco, aquele que há de vir virá e não tardará. Portanto, o divino Batista, tomando como que um nome da Sagrada Escritura, enviou alguns de seus discípulos para perguntar se ele é aquele que veio ou que há de vir.
Santo Ambrósio(séc. IV). Mas como poderia ser que aquele de quem dissera: Eis o que tira o pecado do mundo ainda não cresse que era o Filho de Deus? Pois atribuir-lhe o que ignora das coisas divinas é insolência, e duvidar do Filho de Deus é perfídia. Alguns, porém, entendem que o próprio João, grande profeta a ponto de reconhecer Cristo, não duvidou como quem hesita, mas como piedoso vidente que, tendo crido que ele viria, não cria que haveria de morrer. Portanto, duvidou não por falta de fé, mas por piedade, como também Pedro, dizendo: Tem piedade de ti, Senhor, isso não acontecerá.
São Cirilo de Alexandria. Ou pergunta por dispensação; pois, como precursor, conhecia o mistério da paixão de Cristo; mas, para que seus discípulos soubessem quão grande é a excelência do Salvador, enviou, dentre seus discípulos, os mais prudentes, aos quais mandou que perguntassem e conjecturassem, pela viva voz do Salvador, se ele é aquele que era esperado; donde se acrescenta: Tendo chegado a ele esses homens, disseram: João Batista nos enviou a ti, dizendo: Tu és aquele que há de vir, ou esperamos outro? Sabendo, porém, como Deus, com que ânimo João os enviara e a causa da vinda deles, fez então milagres mais abundantes; donde se segue: Naquela mesma hora curou muitos de enfermidades, de chagas e de espíritos malignos, e deu vista a muitos cegos. Não lhes diz expressamente: eu sou; mas os conduz antes à certeza do fato, para que, recebendo a fé de modo conveniente, voltassem àquele que os enviara; por isso deu resposta não às palavras, mas ao propósito de quem os enviava; pois se segue: E, respondendo, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes; como se dissesse: contai a João o que ouvistes pelos profetas e vistes cumprir-se em mim: pois então fazia o que os profetas haviam predito que ele faria; das quais coisas se acrescenta: Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam.
Santo Ambrósio. Testemunho plenamente cabal, pelo qual o profeta reconheceria o Senhor: pois dele fora profetizado que o Senhor dá alimento aos famintos, levanta os abatidos, solta os acorrentados, ilumina os cegos; e que quem faz estas coisas reinará eternamente. Estes, portanto, são sinais não de poder humano, mas divino. Ora, deste Evangelho exemplos ou raros ou nenhum se encontram: só Tobias recobrou os olhos; e foi remédio de um Anjo, não de um homem; Elias ressuscitou um morto; ele, porém, rogou e chorou, este ordenou; Eliseu fez purificar um leproso; ali, porém, não valeu a autoridade da ordem, mas a figura do mistério.
Teofilacto(séc. XI). Estas, com efeito, são palavras de Isaías, que diz: O próprio Deus virá e nos salvará. Então se abrirão os olhos dos cegos, e os ouvidos dos surdos se desimpedirão; então o coxo saltará como o cervo.
São Beda, o Venerável. E, o que não é menos que isto, acrescenta-se: Os pobres são evangelizados, isto é, os pobres de espírito ou de bens são iluminados interiormente, de modo que, entre ricos e necessitados, não haja distinção alguma na pregação. Isto comprovou a verdade do mestre; pois todo aquele que pode ser salvo junto a ele é igual.
Santo Ambrósio. Mas, contudo, estes são ainda pequenos exemplos do testemunho do Senhor: a plenitude da fé é a cruz do Senhor, a morte, a sepultura; por isso acrescentou: E bem-aventurado aquele que não se escandalizar de mim. Pois a cruz podia trazer escândalo até aos eleitos; mas não há testemunho maior da pessoa divina; nada há, com efeito, que pareça mais superar o humano do que ter-se oferecido inteiro pelo mundo.
São Cirilo de Alexandria. Ou por isso queria mostrar que tudo o que se passava em seus corações não pôde escapar-lhe aos olhos; pois eram eles mesmos que se escandalizavam dele.
Santo Ambrósio. Misticamente, porém, dissemos acima que João é figura da lei, que foi a anunciadora de Cristo. João envia, pois, seus discípulos a Cristo para que alcancem o complemento da ciência, porque a plenitude da lei é Cristo; e talvez esses discípulos sejam os dois povos, dos quais um creu vindo dos judeus, outro dos gentios, que por isso creu, porque ouviu. Quiseram, pois, também estes ver: porque bem-aventurados os olhos que veem. Quando, porém, chegarem ao Evangelho e reconhecerem que os cegos são iluminados e os coxos andam, então dirão: vimos com nossos olhos; parece-nos, com efeito, ter visto o que lemos; ou talvez, em alguma parte de nosso corpo, todos parecemos ter investigado a série da paixão do Senhor: pois a fé passa por poucos a muitos. A lei anuncia, pois, que Cristo virá; a Escritura do Evangelho confirma que veio.