Mt 11,1
1Após ter dado instruções aos seus doze discípulos, Jesus partiu para ensinar e pregar nas cidades daquela região.
Rábano Mauro(séc. IX). Depois que o Senhor, enviando seus discípulos a pregar, os instruiu com palavras prévias, ele próprio cumpriu também com obras o que havia ensinado com palavras, oferecendo a primeira pregação aos judeus; e é isto o que se diz: E aconteceu que, quando Jesus terminou. Diz ainda: partiu dali.
São João Crisóstomo, in Matth(séc. IV). Pois, ao enviá-los, retirou-se a si mesmo, dando-lhes lugar e tempo para fazerem o que lhes havia ordenado; com efeito, estando ele presente e curando, ninguém quereria aproximar-se dos discípulos.
Remígio de Auxerre(séc. IX). Passa, de modo muito apropriado, da doutrina especial, com a qual instruíra os apóstolos, à geral, pregando nas cidades; porque nisto desceu dos céus à terra, para iluminar a todos; com esse fato, são também advertidos os santos pregadores a procurarem ser úteis a todos.
Mt 11,2-6
2Tendo João, em sua prisão, ouvido falar das obras de Cristo, mandou-lhe dizer pelos seus discípulos: 3“Sois vós aquele que deve vir, ou devemos esperar por outro?”. 4Respondeu-lhes Jesus: “Ide e contai a João o que ouvistes e o que vistes: 5os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres... 6Bem-aventurado aquele para quem eu não for ocasião de queda!”.
Glosa(séc. XII). O Evangelista havia exposto acima como, pelos milagres e pela doutrina de Cristo, tanto os discípulos quanto as multidões eram instruídos; agora mostra como essa instrução chegou até os discípulos de João, que pareciam ter emulação para com Cristo; por isso diz: João, porém, ao ouvir no cárcere as obras de Cristo, enviando dois de seus discípulos, disse-lhe: És tu aquele que há de vir, ou esperamos outro?
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos(séc. VI). Devemos perguntar: João, profeta e mais que profeta, que mostrou o Senhor quando vinha ao Batismo, dizendo: Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tira os pecados do mundo, por que, posto no cárcere, enviando discípulos, pergunta: És tu aquele que há de vir, ou esperamos outro? Como se ignorasse aquele que havia mostrado; e não soubesse se é ele aquele que ele mesmo, profetizando, batizando, mostrando, proclamara que era ele.
Santo Ambrósio, super Lucam(séc. IV). Alguns, porém, entendem isto assim: que João era um profeta tão grande que reconhecia Cristo e anunciava que viria a remissão dos pecados; mas que, como piedoso vidente, não acreditava que aquele que cria que haveria de vir fosse morrer. Portanto, duvidou não por fé, mas por piedade. Também Pedro duvidou, dizendo: Tem compaixão de ti, Senhor: isso não te acontecerá.
São João Crisóstomo, in Matth. Mas isto, de modo algum, tem fundamento. Pois João não ignorava também isto: antes, testemunhou-o em primeiro lugar, dizendo: Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tira os pecados do mundo. Ao chamá-lo Cordeiro, divulga a cruz; e não foi senão pela cruz que ele tirou o pecado do mundo. Como, aliás, seria ele o maior profeta, se nem sequer conhece o que pertence aos profetas? Pois Isaías diz: Como ovelha foi levado ao matadouro.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Mas essa questão se resolve de outro modo, se se pondera o tempo do fato ocorrido. Pois, posto junto às águas do Jordão, afirmou que ele era o redentor do mundo; enviado, porém, ao cárcere, pergunta se ele vem: não porque duvide que ele seja o redentor do mundo, mas pergunta para saber se aquele que por si mesmo viera ao mundo desceria também por si mesmo às prisões do Inferno.
São Jerônimo(séc. IV–V). Por isso não diz: És tu aquele que vieste?, mas: És tu aquele que há de vir? E o sentido é: Manda-me dizer, pois estou para descer aos Infernos, se devo anunciar-te também aos que estão nos Infernos, ou se enviarás outro a esses mistérios.
São João Crisóstomo, in Matth. Mas como também isto tem fundamento? Por que motivo, com efeito, não disse: És tu aquele que há de vir ao Inferno?, mas simplesmente: Aquele que há de vir? Embora pareça até ridículo que lhe tenha dito isso para que, indo também ali, pregasse: pois a vida presente é o tempo da graça; depois da morte, porém, há o juízo e a pena; por isso, ali não havia necessidade alguma de precursor. Mas, de outro modo: se os infiéis houvessem de ser salvos crendo depois da morte, ninguém jamais pereceria; pois todos então se arrependerão e adorarão. Pois todo joelho se dobrará, dos celestes, dos terrestres e dos Infernos.
Glosa. Deve-se considerar que Jerônimo e Gregório não disseram que João haveria de anunciar de antemão a vinda de Cristo ao Inferno por que, com a sua pregação, alguns que não criam se convertessem à fé; mas para levar, aos justos que permaneciam na expectativa de Cristo, a consolação de uma vinda próxima.
Santo Hilário, in Matth(séc. IV). É certo, contudo, que aquele que anunciou como futuro, como precursor, que reconheceu como presente, como profeta, e que venerou como quem se aproximava, como confessor, não foi surpreendido pelo erro em sua abundante ciência. E não se pode, de fato, crer que a graça do Espírito Santo tenha faltado a quem estava posto no cárcere, quando ela haveria de ministrar aos apóstolos, postos no cárcere, a luz de seu poder.
São Jerônimo. Não pergunta, portanto, como quem ignora, mas como o Salvador pergunta onde foi posto Lázaro; para que aqueles que indicavam o lugar do sepulcro fossem, ao menos assim, preparados para a fé, vendo o morto ressurgir; assim também João, prestes a ser morto por Herodes, envia seus discípulos a Cristo, para que, por essa ocasião, vendo sinais e milagres, cressem nele, e aprendessem, pela pergunta do mestre, para si mesmos. Que os discípulos de João tivessem alguma mordacidade, por inveja, contra o Senhor, mostrou-o também a pergunta anterior, quando disseram: Por que nós e os fariseus jejuamos frequentemente, e os teus discípulos não jejuam?
São João Crisóstomo, in Matth. Enquanto, pois, João estava com eles, persuadia-os continuamente a respeito de Cristo; mas, como já estava para morrer, empenha-se mais. Com efeito, temia deixar em seus discípulos a condição de uma doutrina perniciosa, e que permanecessem afastados de Cristo, a quem desde o princípio procurou levar todos os seus. Se, porém, lhes tivesse dito: Ide a ele, pois é melhor do que eu, certamente não os teria persuadido, mas julgariam que dizia isso por sentir humildemente de si; e assim ficariam ainda mais apegados a ele. Que faz, então? Espera ouvir deles que Cristo faz milagres. Nem enviou todos, mas apenas dois, que talvez soubesse serem mais persuasíveis que os outros, para que a pergunta fosse insuspeita, e para que aprendessem pelos próprios fatos a distância entre ele e Jesus.
Santo Hilário, in Matth. João, portanto, cuida não da sua ignorância, mas da dos discípulos: para que soubessem que não era outro o que ele pregara, enviou seus discípulos a contemplar as obras dele, para que as obras dele conferissem autoridade às suas palavras; e não se esperasse outro Cristo senão aquele a quem as obras haviam prestado testemunho.
São João Crisóstomo, in Matth. Idem Christus autem mentem noscens Ioannis, non dixit: quoniam ego sum, quia per hoc rursus obsisteret audientibus: excogitassent enim, etsi non dixissent, quod Iudaei ad ipsum dixerunt. Tu dás testemunho de ti mesmo. E por isso os fez aprender pelos milagres, tornando a doutrina insuspeita e mais manifesta. Com efeito, o testemunho que vem das coisas é mais digno de crédito do que o testemunho que vem das palavras. Por isso, imediatamente curou cegos, coxos e muitos outros, não para instruir João, que sabia, mas aqueles que duvidavam; e por isso segue: E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que ouvistes e vistes. Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, os pobres são evangelizados.
São Jerônimo. Isto não é menos do que o que foi dito antes. Entende, porém, os pobres evangelizados ou como os pobres em espírito, ou certamente como os pobres em riquezas, de modo que na pregação não haja nenhuma distância entre nobres e plebeus, entre ricos e necessitados; isto comprova o rigor do mestre, isto a verdade do preceptor, pois todos são iguais diante daquele que pode salvar.
São João Crisóstomo, in Matth. Quanto ao que diz: E bem-aventurado é aquele que não se escandalizar de mim, atinge os mensageiros; pois, como se escandalizavam dele, sem divulgar a dúvida deles e deixando-a apenas à consciência deles, introduziu veladamente a sua repreensão.
Santo Hilário. Assim, mostrou aquilo de que João se acautelara, dizendo bem-aventurados aqueles em quem não houvesse algo de escândalo; pois foi por temor disso, isto é, de que se escandalizassem, que João enviou seus discípulos para que ouvissem a Cristo.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Ou de outro modo. O espírito dos infiéis sofreu grave escândalo em Cristo, quando o viu morrendo mesmo depois de tantos milagres; donde diz Paulo: Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus. Que é, pois, dizer: Bem-aventurado aquele que não se escandalizar de mim, senão indicar em voz aberta o aviltamento e a humildade de sua morte? Como se dissesse claramente: realizo coisas admiráveis, mas não me recuso a sofrer coisas aviltantes. Visto que, portanto, ao morrer eu te sigo, os homens devem acautelar-se muito para que, quando veneram os sinais, não desprezem em mim a morte.
Santo Hilário. Oferece-se também, em sentido místico, nestas coisas que se passaram com João, uma inteligência mais ampla: que o profeta profetizasse pelo próprio gênero de sua condição, pois nele foi apresentada a figura da lei. Com efeito, a lei anunciou a Cristo, pregou a remissão dos pecados e prometeu o reino dos céus; e João cumpriu toda essa obra da lei. Por isso, cessando já a lei (que, encerrada pelos pecados do povo, para que Cristo não pudesse ser entendido, era mantida como que em cadeias e como que em um cárcere), a lei envia aos Evangelhos para que a infidelidade contemple a verdade das palavras nos fatos.
Santo Ambrósio, super Lucam. E talvez esses discípulos que ele enviou sejam os dois povos: um que creu vindo dos judeus, o outro dos gentios.
Mt 11,7-10
7Tendo eles partido, disse Jesus à multidão a respeito de João: “Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? 8Que fostes ver, então? Um homem vestido com roupas luxuosas? Mas os que estão revestidos de tais roupas vivem nos palácios dos reis. 9Então, por que fostes para lá? Para ver um profeta? Sim, digo-vos eu, mais que um profeta. 10É dele que está escrito: Eis que eu envio meu mensageiro diante de ti para te preparar o caminho (Ml 3,1).
São João Crisóstomo, in Matth. Quanto aos discípulos de João, já se havia feito o bastante: certificados acerca de Cristo pelos sinais que tinham visto, retiraram-se. Mas era preciso que também as multidões fossem curadas, as quais, pela pergunta dos discípulos de João, teriam suposto muitas coisas inconvenientes, ignorando o propósito de quem os enviava. Podiam, com efeito, dizer: aquele que testemunhou tanto a respeito de Cristo foi agora persuadido de outro modo e duvida se ele é o mesmo. Porventura, então, diz isso disputando com Jesus? Porventura se tornou mais tímido por causa do cárcere? Porventura falou em vão e inutilmente antes?
Santo Hilário, in Matth. E, para que aquilo que acabara de dizer não pudesse ser referido a João, como se este tivesse se escandalizado de Cristo, acrescenta-se: Tendo eles partido, Jesus começou a falar às multidões a respeito de João.
São João Crisóstomo, in Matth. Por isso, quando eles partiram, para que não parecesse lisonjear um homem. E, corrigindo também o povo, não leva ao meio a suspeita deles, mas introduz a solução dos pensamentos que os lançavam na dúvida, mostrando que conhece as coisas ocultas. Com efeito, não disse, como aos judeus: Por que pensais o mal? Embora tenham pensado mal, não foi por malícia, mas por ignorância; por isso não lhes fala duramente, mas responde em favor de João, mostrando que não decaiu da opinião anterior. E isto ensina não só com a sua própria palavra, mas com o testemunho deles; não só pelo que disseram, mas pelo que fizeram; e por isso diz: Que saístes a ver no deserto? Como se dissesse: por que motivo, deixando as cidades, vos reunistes no deserto? Pois um povo tão grande não teria ido ao ermo com tamanho desejo, se não julgasse ver alguém grande, admirável e mais sólido que a pedra.
Glosa. Ora, não tinham saído então ao deserto para ver João, pois então ele não estava no deserto, mas no cárcere; mas refere o passado, porque o povo saíra frequentemente ao deserto para ver João, quando ele ainda estava no deserto.
São João Crisóstomo, in Matth. E vê que, passando por alto toda outra malícia, afasta de João a leviandade, da qual as multidões duvidavam, dizendo: Um caniço agitado pelo vento?
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Isto, evidentemente, ele o introduziu não afirmando, mas negando. Com efeito, o caniço, assim que a brisa o toca, inclina-se para um lado; por ele se designa o ânimo carnal, que, assim que é tocado pelo favor e pela detração, se inclina para qualquer parte. Portanto, João não era um caniço agitado pelo vento, ele a quem nenhuma variedade de coisas desviava da retidão de seu estado. Como se o Senhor dissesse:
São Jerônimo. porventura saístes ao deserto para ver um homem semelhante a um caniço, que é levado por todo vento, e que, por leviandade de espírito, duvidaria daquele a quem antes pregava? Ou talvez seja constrangido contra mim pelos aguilhões da inveja, e a sua pregação persiga uma vã glória, para daí buscar lucros? Por que desejaria riquezas? Para abundar em banquetes? Alimenta-se de gafanhotos e de mel silvestre. Ou para vestir-se de roupas macias? Pelos de camelo são a sua cobertura; e por isso acrescenta: Mas que saístes a ver? Um homem vestido de roupas macias?
São João Crisóstomo, in Matth. Ou de outro modo. Que João não seja semelhante a um caniço volúvel, vós o indicastes pelo vosso zelo, isto é, ao saírem para o deserto. Contudo, ninguém pode dizer que João era constante, mas depois, servindo à lascívia, se tornou volúvel; pois, assim como alguém é irascível por natureza, outro por longa enfermidade, assim alguns são volúveis por natureza, outros, porém, tornam-se volúveis servindo à lascívia. João, no entanto, nem era volúvel por natureza (por isso dissera: Saístes para ver um caniço agitado pelo vento?), nem, entregando-se à lascívia, perdeu a excelência que tinha; pois que não serviu à lascívia, mostram-no a veste, a solidão e o cárcere. Com efeito, se quisesse vestir-se de roupas macias, não teria habitado o ermo, mas os palácios dos reis; donde segue: Eis que os que se vestem de roupas macias estão nas casas dos reis.
São Jerônimo. Disto se mostra que a vida rigorosa e a pregação austera devem evitar as cortes dos reis e afastar-se dos palácios dos homens amolecidos.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Ninguém julgue, porém, que no luxo e no empenho por vestes preciosas não haja pecados; pois, se isso não fosse culpa, de modo algum o Senhor teria louvado João pela aspereza de sua veste. E Pedro de modo nenhum reprimiria nas mulheres o desejo de vestes preciosas, dizendo: não em veste preciosa.
Santo Agostinho, de Doctr. Christ(séc. IV–V). Pois em todas as coisas desse gênero a culpa não está no uso das coisas, mas na paixão de quem as usa. Com efeito, quem usa as coisas de modo mais restrito do que o permitem os costumes daqueles com quem vive, ou é temperante ou é supersticioso. Quem, porém, as usa de tal modo que excede os limites do costume dos bons entre os quais vive, ou significa alguma coisa, ou é dissoluto.
São João Crisóstomo, in Matth. Tendo, pois, indicado o lugar, as vestes, a afluência dos homens e os costumes dele, introduz agora que ele é também profeta, dizendo: mas que saístes para ver? Um profeta? Digo-vos: e mais do que profeta.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Com efeito, o ofício do profeta é predizer as coisas futuras, e não também mostrá-las. João, portanto, é mais do que profeta, porque aquele que havia profetizado precedendo-o, anunciava-o também mostrando-o.
São Jerônimo. Nisto ele é maior também do que os demais profetas, e porque ao privilégio profético se acrescentou ainda o prêmio do Batismo, de modo que batizasse o seu Senhor.
São João Crisóstomo. Em seguida, mostra em que sentido ele é maior, dizendo: este é aquele de quem está escrito: eis que envio o meu anjo diante da tua face.
São Jerônimo. Com efeito, para engrandecer os méritos de João, traz o testemunho de Malaquias, no qual ele é também proclamado Anjo. Não pensemos, porém, que aqui João é chamado Anjo por comunhão de natureza, mas pela dignidade do ofício; isto é, o mensageiro que anunciou o Senhor que haveria de vir.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Com efeito, o que em grego se diz Anjo, em latim se diz mensageiro. Com razão, portanto, aquele que viera anunciar o mensageiro do alto é chamado Anjo, para que conserve no nome a dignidade que cumpre na obra.
São João Crisóstomo. Mostra, pois, em que sentido João é maior do que os profetas, a saber, no fato de estar perto de Cristo; e por isso diz: envio diante da tua face, isto é, perto de ti. Assim como os que caminham junto ao carro do rei são mais ilustres que os outros, assim também João junto à presença de Cristo.
Glosa. Além disso, os outros profetas foram enviados para anunciar o advento de Cristo; este, porém, para preparar o seu caminho. Daí se segue: que preparará o teu caminho diante de ti, isto é, tornará transitáveis para ti os corações dos ouvintes, pregando a penitência e batizando.
Santo Hilário, in Matth. Em sentido místico, porém, o deserto deve ser entendido como vazio do Espírito Santo, onde não haja habitação alguma de Deus; no caniço mostra-se um homem tal, vistoso pela glória do mundo e pela vaidade de sua vida, mas oco em si quanto ao fruto da verdade, agradável por fora e nenhum por dentro, que se move a todo movimento dos ventos, isto é, ao sopro dos espíritos impuros, sem capacidade de firmeza para se manter, e vazio da medula da alma. Pela veste, porém, significa-se o corpo de que a alma se reveste, que se amolece com o luxo e as lascívias. Em reis está a designação dos anjos transgressores: pois estes são os poderosos do século e os dominadores do mundo. Portanto, os vestidos de coisas macias estão nas casas dos reis; isto é, aqueles cujos corpos, pelo luxo, são frouxos e dissolutos, é claro que são habitação dos demônios.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. João também não foi vestido de coisas macias, porque não fomentou com afagos a vida dos pecadores, mas a repreendeu com o rigor de uma áspera invectiva, dizendo: raça de víboras,
Mt 11,11
11Em verdade vos digo: entre os filhos das mulheres, não surgiu outro maior que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele.
São João Crisóstomo, in Matth. Apresentado o louvor de João pelo testemunho do profeta, não parou aí, mas já introduz o seu próprio juízo a respeito dele, dizendo: em verdade vos digo: entre os nascidos de mulher não surgiu outro maior do que João Batista.
Rábano Mauro. Como se dissesse: por que falar de cada ponto do louvor de João? Em verdade vos digo: entre os nascidos de mulher, etc. Entre os nascidos, diz, de mulheres, não de virgens: pois as mulheres, propriamente, são chamadas corrompidas. Se, porém, Maria é chamada alguma vez mulher no Evangelho, deve-se saber que o tradutor pôs mulher por fêmea, como ali: mulher, eis o teu filho.
São Jerônimo. Portanto, é preferido a esses homens que nasceram de mulheres e do concúbito de um homem, e não àquele que nasceu da Virgem e do Espírito Santo; embora, ao dizer “não surgiu entre os nascidos de mulher maior que João Batista”, não tenha preferido João aos demais profetas e patriarcas e a todos os homens, mas tenha igualado os demais a João: pois não se segue logo que, se outros não são maiores que ele, ele seja maior que os outros.
São João Crisóstomo, super Matth. Mas, sendo tão grande a altura da justiça que nela ninguém pode ser perfeito, a não ser somente Deus, penso que todos os santos, quanto à sutileza do juízo divino, são uns inferiores ou anteriores aos outros. Daí entendemos que aquele que não tem ninguém maior do que si é maior que todos.
São João Crisóstomo, in Matth. Para que, por sua vez, a superabundância dos louvores não gerasse algum inconveniente entre os judeus, que prefeririam João a Cristo, convenientemente remove isso dizendo: “Aquele, porém, que é menor no Reino dos Céus é maior do que ele”.
Santo Agostinho, contra Advers. legis et Prophet. O herege argumenta a partir disso, como que raciocinando, de modo que João não pertenceria ao Reino dos Céus e, por isso, muito menos os demais profetas daquele povo, dos quais João é maior. Estas palavras do Senhor, porém, podem ser entendidas de dois modos: ou chamou Reino dos Céus aquilo que ainda não recebemos, a respeito do qual dirá no fim: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei o reino”; e, porque ali estão os Anjos, qualquer um deles, ainda que menor, é maior do que qualquer justo que carrega o corpo corruptível. Ou, se quis que se entendesse por Reino dos Céus a Igreja, cujos filhos são, desde a instituição do gênero humano até agora, todos os justos, o Senhor designou a si mesmo: que, no tempo do nascimento, era menor que João, mas maior pela eternidade da divindade e pelo poder de Senhor. Por conseguinte, segundo a primeira exposição, assim se pontua: “aquele que é menor no Reino dos Céus”, e depois se acrescenta: “é maior do que ele”. Segundo esta última, porém, assim: “aquele que é menor”, e depois se acrescenta: “no Reino dos Céus é maior do que ele”.
São João Crisóstomo, in Matth. Diz, porém, “no Reino dos Céus”, isto é, nas coisas espirituais e em tudo o que é segundo o céu. Alguns, contudo, dizem que Cristo disse isso a respeito dos apóstolos.
São Jerônimo. Nós, porém, entendamos simplesmente que todo santo que já está com o Senhor é maior do que aquele que ainda se encontra no combate: uma coisa é, com efeito, possuir a coroa da vitória; outra, ainda lutar na linha de batalha.
Mt 11,12-15
12Desde a época de João Batista até o presente, o Reino dos Céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam. 13Porque os profetas e a Lei tiveram a palavra até João. 14E, se quereis compreender, é ele o Elias que devia voltar. 15Quem tem ouvidos ouça.
Glosa. Porque havia dito antes: “aquele que é menor no Reino dos Céus é maior que João”, para que João não parecesse alheio ao Reino dos Céus, remove isso acrescentando: “Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos Céus sofre violência, e os violentos o arrebatam”.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Por Reino dos Céus significa-se o trono supremo, no qual, quando os pecadores, manchados por qualquer crime, voltam à penitência e se corrigem, entram como saqueadores em lugar alheio e arrebatam violentamente o Reino dos Céus.
São Jerônimo. Se, porém, João Batista foi o primeiro a anunciar a penitência aos povos, dizendo: “Fazei penitência, pois o Reino dos Céus se aproxima”, convenientemente “desde os dias dele o Reino dos Céus sofre violência e os violentos o arrebatam”. É grande, com efeito, a violência de termos sido gerados na terra e buscarmos a sede dos céus, e de possuirmos pela virtude o que não tínhamos por natureza.
Santo Hilário, in Matth. Ou de outro modo. O Senhor havia ordenado aos apóstolos que fossem às ovelhas perdidas de Israel; mas toda esta pregação trazia proveito aos publicanos e pecadores. Assim, “o reino sofre violência, e os violentos o arrebatam”: porque a glória de Israel, devida aos pais, anunciada pelos profetas, oferecida por Cristo, é ocupada e arrebatada pela fé dos gentios.
São João Crisóstomo, in Matth. Ou: arrebatam o Reino de Deus, pela fé em Cristo, todos os que vêm com presteza; por isso diz “desde os dias de João até agora”; e assim o impele e faz apressar-se para a sua fé, e ao mesmo tempo socorre também as coisas ditas antes por João. Pois, se até João tudo foi cumprido, ele é aquele que há de vir; por isso acrescenta: “Todos os profetas e a Lei profetizaram até João”.
São Jerônimo. Não que exclua os profetas depois de João; lemos, com efeito, nos Atos dos Apóstolos que Ágabo profetizou e também as quatro virgens filhas de Filipe; mas a Lei e os profetas, que lemos por escrito, tudo o que profetizaram, vaticinaram a respeito do Senhor. Quando, pois, se diz “profetizaram até João”, mostra-se o tempo de Cristo; e aquele que eles disseram que haveria de vir, João mostrou que veio.
São João Crisóstomo. Em seguida, apresenta outra conjectura de sua vinda, dizendo: “E, se quereis aceitar, ele é Elias, que há de vir”. Diz o Senhor em Malaquias: “Enviar-vos-ei Elias, o Tesbita”; e a respeito deste diz: “Eis que envio o meu Anjo diante de tua face”.
São Jerônimo. João é chamado Elias, portanto, não segundo os filósofos tolos e certos hereges, que introduzem a metempsicose, isto é, a migração da alma de um corpo para outro; mas porque, conforme outro testemunho do Evangelho, veio no espírito e na virtude de Elias, e teve a mesma graça ou medida do Espírito Santo. Mas também a austeridade de vida e o rigor de espírito de Elias e de João são iguais: ambos no deserto, ambos cingidos por um cinto de pele; aquele, porque repreendeu o rei Acab e Jezabel por sua impiedade, foi obrigado a fugir; este, porque repreendeu as núpcias ilícitas de Herodes e Herodíades, foi decapitado.
São João Crisóstomo, in Matth. E disse bem “se quereis aceitar”, mostrando a liberdade e exigindo um espírito voluntário. Pois aquele é este, e este é aquele: porque ambos se tornaram precursores.
São Jerônimo. Que isto que foi dito, “ele mesmo é Elias”, é místico e precisa de inteligência, demonstra-o a palavra seguinte do Senhor, dizendo: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.
Remígio de Auxerre. Como se dissesse: quem tem ouvidos do coração para ouvir, isto é, para entender, entenda; porque não disse que João era Elias em pessoa, mas em espírito.
Mt 11,16-19
16A quem hei de comparar esta geração? É semelhante a meninos sentados nas praças que gritam aos seus companheiros: 17Tocamos a flauta e não dançais, cantamos uma lamentação e não chorais. 18João veio; ele não bebia e não comia, e disseram: Ele está possesso de um demônio. 19O Filho do Homem vem, come e bebe, e dizem: É um comilão e beberrão, amigo dos publicanos e dos devassos. Mas a sabedoria foi justificada por seus filhos”.
Santo Hilário, in Matth. Todo este discurso é uma censura à incredulidade e provém do sentimento da queixa anterior: porque o povo insolente não se deixou instruir pelos diversos gêneros de palavras.
São João Crisóstomo, in Matth. Por isso usa também de uma interrogação, mostrando que nada do que devia ser feito para a salvação deles foi deixado de lado, dizendo: “A quem compararei esta geração?”
Glosa. Como se dissesse: tão grande é João; mas vós não quisestes crer nem nele nem em mim; e por isso, a quem vos compararei? Por “geração” entende em geral tanto os judeus quanto a si mesmo com João.
Remígio de Auxerre. Logo depois responde a si mesmo, acrescentando: “É semelhante a crianças sentadas na praça, que gritam aos companheiros: Tocamos flauta para vós, e não dançastes; entoamos lamentações, e não batestes no peito.”
Santo Hilário, in Matth. Nas crianças são designados os profetas, que pregaram na simplicidade do entendimento, como crianças, e no meio da sinagoga, como numa reunião pública da praça, repreendem porque não acompanharam com o ofício do corpo os que cantavam, e porque não obedeceram às suas palavras; pois ao modo dos que cantam se ajusta o movimento dos que dançam. Os profetas, com efeito, convidaram a louvar a Deus com salmos, como se vê no cântico de Moisés, de Isaías e de Davi.
São Jerônimo. Dizem, pois: “Tocamos flauta para vós e não dançastes”, isto é: convidamo-vos a praticar boas obras ao som do nosso canto, e não quisestes. Lamentamos, e vos convidamos à penitência; e nem isto quisestes fazer, desprezando ambas as pregações, tanto a da exortação às virtudes quanto a da penitência depois dos pecados.
Remígio de Auxerre. Que significa, porém, o que diz “aos companheiros”? Acaso os judeus infiéis eram iguais aos santos profetas? Mas diz isto porque nasceram de uma só estirpe.
São Jerônimo. Também são crianças aquelas de quem Isaías fala: “Eis que eu e os meus filhos, que o Senhor me deu”. Estas crianças, portanto, estão sentadas na praça, onde há muitas coisas à venda, e dizem:
São João Crisóstomo, in Matth.. “Tocamos flauta para vós, e não dançastes”; isto é: mostrei-vos uma vida mais branda, e não vos persuadistes; “lamentamos, e não batestes no peito”: isto é, João suportou uma vida dura, e não prestastes atenção. Ele não diz “aquele isto e eu aquilo”, mas em geral, porque a intenção de ambos era uma só; por isso segue: “Veio João, que não comia nem bebia; e dizem: Tem um demônio. Veio o Filho do Homem”.
Santo Agostinho, contra Faustum. Eu quisera, porém, que os maniqueus me dissessem o que comia e o que bebia Cristo, que, em comparação com João, que não comia nem bebia, disse de si mesmo que comia e bebia. Com efeito, não foi dito que João não bebia absolutamente nada, mas que não bebia vinho nem bebida fermentada: bebia, portanto, água. E o seu alimento não era absolutamente nenhum, mas gafanhotos e mel silvestre. Por que então se disse que não comia nem bebia, senão porque não usava aquele modo de viver de que os judeus usavam? Se o Senhor não o usasse, não seria dito, em comparação com ele, que comia e bebia. É de admirar, porém, que se diga que não come quem come gafanhotos e mel, e se diga que come quem se contenta com pão e legumes.
São João Crisóstomo. Diz, pois: “Veio Jesus”; como se dissesse: por caminho contrário viemos eu e João, e fizemos o mesmo; como se caçadores perseguissem um animal por dois caminhos contrários, para que caia num deles. Todo o gênero humano, porém, admira o jejum e o caminho duro; e por isso foi disposto que João fosse assim alimentado desde a primeira idade, para que, por isso, fossem dignas de fé as coisas ditas por ele. O Senhor, de fato, andou por este caminho quando jejuou quarenta dias; mas ensinou também de outro modo que devia ser acreditado; pois era muito maior o que João, que andara por este caminho, testemunhava a seu favor, do que o fato de ele mesmo andar por este caminho. De outro modo, João nada mais mostrou além da vida e da justiça; Cristo, porém, tinha testemunho também dos milagres. Deixando, pois, que João resplandecesse pelo jejum, ele mesmo andou pelo caminho contrário, entrando à mesa dos publicanos, comendo e bebendo.
São Jerônimo. Se, pois, o jejum vos agrada, por que João vos desagradou? Se a fartura, por que o Filho do Homem? De um dos quais dissestes que tinha um demônio, e do outro que era comilão e beberrão.
São João Crisóstomo. Que desculpa receberão, então? Por isso acrescenta: “E a sabedoria foi justificada por seus filhos”: isto é, ainda que vós não vos tenhais persuadido, não tendes, porém, como me acusar; o que também o profeta diz do Pai: “Para que sejas justificado em tuas palavras”: pois, ainda que nada se cumpra em vós do cuidado de Deus para convosco, ele cumpre tudo o que é de sua parte, de modo a não deixar sequer sombra a uma dúvida ingrata dos sem-vergonha.
São Jerônimo. A sabedoria foi, pois, justificada por seus filhos; isto é, a dispensação e a doutrina de Deus, ou o próprio Cristo, que é a virtude de Deus e a sabedoria de Deus, foi aprovado por seus filhos, os apóstolos, por ter agido com justiça.
Santo Hilário, in Matth. Ora, essa sabedoria é tal não por efeito, mas por natureza. Muitos costumam esquivar-se da palavra apostólica que diz que Cristo é a sabedoria de Deus e a virtude de Deus, de modos tais que, ao ser criado da Virgem, a sabedoria e a virtude de Deus se teriam mostrado eficazes nele. Mas, para que não se pudesse entender assim, ele mesmo se chamou sabedoria, mostrando-a nele mesmo, e não as coisas que são dela. Com efeito, a obra da virtude e a virtude não são o mesmo; e o que produz distingue-se do efeito.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Ou então: a sabedoria foi justificada por seus filhos, porque os santos apóstolos compreenderam que o Reino de Deus não está na comida e na bebida, mas na equanimidade de suportar; a eles nem a abundância exalta, nem a penúria abate; donde Paulo dizia: sei viver na abundância e sei passar necessidade.
São Jerônimo. Em alguns livros lê-se: a sabedoria foi justificada por suas obras; pois a sabedoria não busca o testemunho da palavra, mas o das obras.
São João Crisóstomo, in Matth. Se os exemplos tirados das crianças são humildes, não te admires: ele falava à fraqueza dos ouvintes; assim como Ezequiel diz muitos exemplos adequados aos judeus, indignos da grandeza de Deus.
Santo Hilário. Misticamente, porém, nem a pregação de João dobrou os judeus, aos quais também a Lei pareceu pesada, com as bebidas e os alimentos prescritos, e difícil e molesta, tendo em si o pecado que ele chama demônio: porque, pela dificuldade da observância, lhes seria necessário pecar na Lei; e, por sua vez, em Cristo a pregação do Evangelho não lhes agradou pela liberdade de vida, pela qual as dificuldades e os fardos da Lei foram aliviados, e nela creram os publicanos e os pecadores. E assim, tendo sido inúteis tantos e tão grandes gêneros de advertências, nem são justificados pela graça, e são repudiados pela Lei; e a sabedoria foi justificada por seus filhos, isto é, por aqueles que arrebatam o Reino dos céus pela justificação da fé, confessando que foi justa a obra da sabedoria, que transferiu dos obstinados para os fiéis o seu dom.
Mt 11,20-24
20Depois Jesus começou a censurar as cidades, onde tinha feito grande número de seus milagres, por terem recusado arrepender-se: 21“Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas se teriam arrependido sob o cilício e a cinza. 22Por isso, vos digo: no dia do juízo, haverá menor rigor para Tiro e para Sidônia que para vós! 23E tu, Cafarnaum, serás elevada até o céu? Não! Serás atirada até o inferno! Porque, se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro dos teus muros, subsistiria até este dia. 24Por isso, te digo: no dia do juízo, haverá menor rigor para Sodoma do que para ti!”.
Glosa. Até aqui repreendera os judeus em geral; agora, porém, repreende como que nominalmente algumas cidades, às quais pregara de modo especial, e que não queriam converter-se; por isso se diz: Então começou a censurar as cidades nas quais foram feitos muitíssimos de seus milagres, porque não tinham feito penitência.
São Jerônimo. A censura às cidades de Corazim, Betsaida e Cafarnaum se manifesta no título deste capítulo: censurou-as porque, depois de tantos milagres e sinais realizados, não fizeram penitência; por isso acrescenta: Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida!
São João Crisóstomo, in Matth. Para que não digas que eles são maus por natureza, põe o nome de uma cidade, a saber, Betsaida, de onde em algum tempo vieram os apóstolos; pois Filipe e os dois pares dos principais apóstolos foram daqui: a saber, Pedro e André, Tiago e João.
São Jerônimo. Mas, pelo "ai" que diz, essas cidades da Galileia são lamentadas pelo Salvador porque, depois de tantos sinais e milagres, não fizeram penitência.
Rábano Mauro. Corazim, que se interpreta meu mistério, e Betsaida, que se diz casa dos frutos ou casa dos caçadores, são cidades da Galileia situadas na margem do mar da Galileia. O Senhor lamenta, pois, as cidades que outrora possuíram o mistério de Deus, e que já deviam ter produzido fruto de virtudes, e às quais foram enviados caçadores espirituais.
São Jerônimo. E são-lhes preferidas Tiro e Sidônia, cidades entregues à idolatria e aos vícios; e por isso segue: Se em Tiro e Sidônia tivessem sido feitos os milagres que foram feitos em vós, há muito tempo teriam feito penitência em saco e cinza.
São Gregório Magno(séc. VI). No cilício, de fato, mostra-se a aspereza, que é o aguilhão dos pecados; na cinza, porém, o pó dos mortos; e por isso costumam empregar-se ambos para a penitência, a fim de que, no aguilhão do cilício, reconheçamos o que fizemos pela culpa, e, na brasa da cinza, consideremos o que nos tornamos pelo juízo.
Rábano Mauro. Tiro e Sidônia são cidades da Fenícia. Tiro se interpreta angústia, e Sidônia, caça; e significa os povos que o caçador, o Diabo, prende na angústia dos pecados, mas que o Salvador Jesus liberta pelo Evangelho.
São Jerônimo. Perguntamos, porém, onde está escrito que o Senhor fez sinais em Corazim e Betsaida. Lemos acima: E percorria todas as cidades e povoados, curando toda enfermidade, e o resto; portanto, entre as demais cidades e povoados, deve-se supor que o Senhor fez sinais em Corazim e em Betsaida.
Santo Agostinho, de bono Persev. Não é, portanto, verdade que o seu Evangelho não tenha sido pregado nestes tempos e nestes lugares, nos quais ele previa que todos seriam tais como muitos foram na sua presença corporal, os quais não quiseram crer nele nem mesmo depois de ressuscitados por ele os mortos. Eis que, com efeito, o Senhor atesta que os habitantes de Tiro e de Sidônia fariam penitência de grande humildade, se neles tivessem sido feitos os sinais de poder divino. Ora, se também segundo os atos que fariam, se vivessem, os mortos são julgados; certamente, porque estes haveriam de ser fiéis, se lhes tivesse sido pregado o Evangelho com tão grandes milagres, não devem de modo algum ser punidos, e no entanto serão punidos no dia do juízo: pois segue-se: Contudo, eu vos digo, etc. Portanto, aqueles serão punidos com mais severidade, estes com mais brandura.
São Jerônimo. O que acontece porque Tiro e Sidônia tinham transgredido somente a lei natural; estas cidades, porém, depois da transgressão da lei natural e da escrita, tiveram em pouca conta até os sinais que foram feitos entre elas.
Rábano Mauro. Vemos hoje cumprida a palavra do Salvador: porque Corazaim e Betsaida não quiseram crer estando o Senhor presente; Tiro e Sidônia, porém, creram depois, quando os discípulos evangelizavam.
Remígio de Auxerre. Cafarnaum era a metrópole da Galileia e a cidade insigne daquela província; e por isso o Senhor faz menção dela de modo especial, dizendo: E tu, Cafarnaum, porventura serás elevada até o céu? Descerás até o Inferno.
São Jerônimo. Em outro exemplar encontramos: E tu, Cafarnaum, que foste elevada até o céu, descerás até os Infernos; e há duplo entendimento. Ou descerás aos Infernos porque resististe com soberba extrema à minha pregação; ou porque, elevada até o céu pela minha hospedagem, e tendo tão grande privilégio nos meus sinais e prodígios, serás castigada com suplícios maiores, porque nem mesmo a estes quiseste crer.
Remígio de Auxerre. Mas não só os pecados de Tiro e de Sidônia, como os próprios pecados de Sodoma e de Gomorra foram leves em comparação; e por isso segue-se: porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que foram feitos em ti, talvez tivesse permanecido até o dia de hoje.
São João Crisóstomo, in Matth. Com isso aumenta a acusação contra eles: pois é a maior demonstração de malícia mostrarem-se piores não só do que os que então existiam, mas do que os que jamais existiram como maus.
São Jerônimo. Em Cafarnaum, que se interpreta aldeia belíssima, é condenada Jerusalém, quando se diz por Ezequiel: Sodoma foi justificada por ti.
Remígio de Auxerre. Por isso o Senhor, que conhece todas as coisas, pôs neste lugar uma palavra dubitativa, a saber, talvez, para demonstrar que o livre-arbítrio foi concedido aos homens. Segue-se: Contudo, eu vos digo que a terra de Sodoma será tratada com mais brandura no dia do juízo do que vós. E deve-se saber que, pelo nome de cidade ou de terra, o Senhor não repreende os edifícios nem as paredes das casas, mas os homens que nelas habitam; segundo a espécie de tropo que é a metonímia, na qual, por aquilo que contém, se designa aquilo que é contido. Ao dizer, porém, será tratada com mais brandura no dia do juízo, demonstra claramente que são diversos os suplícios no Inferno, assim como são diversas as moradas no reino dos céus.
São Jerônimo. Pergunte, porém, o leitor prudente, e diga: se Tiro, Sidônia e Sodoma poderiam ter feito penitência diante da pregação do Salvador e dos milagres dos sinais, não são culpadas por não terem crido; mas a falta do silêncio está naquele que não quis pregar aos que fariam penitência. A isto a resposta é fácil e clara: que ignoramos os juízos de Deus e desconhecemos os mistérios de suas disposições particulares. O Senhor tinha o propósito de não ultrapassar as fronteiras da Judeia, para não dar aos fariseus e aos sacerdotes justa ocasião de perseguição; por isso também ordenou aos apóstolos: Não entreis no caminho dos gentios. Corazaim e Betsaida são condenadas porque não quiseram crer estando o Senhor presente; Tiro e Sidônia são justificadas porque creram nos apóstolos dele. Não busques os tempos, quando contemplas a salvação dos que creem.
Remígio de Auxerre. Resolve-se também de outro modo. Talvez houvesse muitos em Corazaim e Betsaida que haviam de crer; e havia muitos em Tiro e Sidônia que não haviam de crer; e por isso não eram dignos do Evangelho. O Senhor, portanto, pregou aos habitantes de Corazaim e Betsaida para que aqueles que haviam de crer, cressem; e não quis pregar aos habitantes de Tiro e Sidônia, para que, porventura, os que não haviam de crer, tornados piores pelo desprezo do Evangelho, não fossem punidos mais atrozmente.
Santo Agostinho, de bono Persev. Certo controversista católico, não pouco ilustre, expôs assim este passo do Evangelho: dizendo que o Senhor previu que os habitantes de Tiro e de Sidônia se afastariam depois da fé, depois de terem crido pelos milagres feitos entre eles; e que, por misericórdia, antes não fez ali tais coisas, porque ficariam sujeitos a uma pena mais grave se abandonassem a fé que tinham mantido, do que se jamais a tivessem mantido. Ou de outro modo. Deus previu certamente os seus benefícios, pelos quais se digna livrar-nos. Ora, esta é a predestinação dos santos: a presciência e a preparação dos benefícios de Deus, pelos quais são libertados com toda a certeza quantos são libertados. Os demais, porém, são deixados, por justo juízo divino, na massa de perdição, onde foram deixados os de Tiro e de Sidônia, que também poderiam crer, se tivessem visto muitos sinais de Cristo; mas, porque não lhes foi dado que cressem, foi-lhes negado aquilo por que haveriam de crer. Disso se vê que alguns têm, na própria índole, por natureza, o dom divino da inteligência, pelo qual são movidos à fé, se ouvirem palavras ou virem sinais adequados às suas mentes; e no entanto, se por juízo mais alto de Deus não foram separados da massa de perdição pela predestinação da graça, nem lhes são aplicadas as palavras ou as obras divinas por meio das quais poderiam crer, se ouvissem ou vissem tais coisas. Na mesma massa de perdição foram deixados também os judeus, que não puderam crer diante de prodígios tão grandes e tão claros feitos à sua vista. Por que não podiam crer, o Evangelho não calou, dizendo: Mas, tendo feito tantos sinais diante deles, não podiam crer, porque disse Isaías: Cegou os seus olhos e endureceu o seu coração. Não estavam, portanto, assim cegos os olhos nem assim endurecido o coração dos habitantes de Tiro e de Sidônia: porque teriam crido, se tivessem visto sinais como os que estes viram. Mas nem àqueles aproveitou poderem crer, porque não estavam predestinados, nem a estes teria prejudicado não poderem crer, se tivessem sido predestinados de tal modo que o Senhor iluminasse os cegos e quisesse tirar dos endurecidos o coração de pedra.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Isto que aqui se diz, Lucas também o menciona, ligando-o, em continuação, a um discurso do Senhor, também da sua própria boca; por isso parece antes que ele relata aquelas coisas na ordem em que foram ditas pelo Senhor, e que Mateus manteve a ordem da sua lembrança. Ou, quanto ao que Mateus diz: Então começou a censurar as cidades, pensam que se deve entender que se crê que ele quis exprimir o próprio ponto do tempo, naquilo que é então; e não o próprio tempo, um pouco mais amplo, em que aqui muitas coisas eram feitas e ditas. Quem, portanto, crê isso, creia que foi dito duas vezes. Pois, como se encontram em um só Evangelista algumas coisas que o Senhor dissera duas vezes, como em Lucas sobre não levar a bolsa pelo caminho, que há de admirar se alguma outra coisa dita duas vezes é referida por cada um separadamente na mesma ordem em que foi dita? E por isso aparece uma ordem diferente em cada um: porque foi dito tanto quando aquele o relata, como quando este o relata.
Mt 11,25-26
25Por aquele tempo, Jesus pronunciou estas palavras: “Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos. 26Sim, Pai, eu te bendigo, porque assim foi do teu agrado.
São João Crisóstomo, super Matth. Porque o Senhor sabia que muitos duvidariam da questão anterior, a saber, de que os judeus não receberam Cristo, a quem os gentios acolheram tão prontamente, responde a esses pensamentos deles; e por isso diz: Respondendo, Jesus disse: Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra.
Glosa. Isto é, tu que fazes os céus e deixas na terrenidade aqueles que queres. Ou, ao pé da letra.
Santo Agostinho, de Verb. Dom. Se Cristo disse confesso, ele de quem todo pecado está longe, a confissão não é somente do pecador, mas às vezes também de quem louva. Confessamos, portanto, seja louvando a Deus, seja acusando a nós mesmos. Disse, pois, confesso-te; isto é, louvo-te, não me acuso.
São Jerônimo. Ouçam, pois, os que caluniam o Salvador como criado e não gerado, porque chama seu Pai de Senhor do céu e da terra. Se, com efeito, ele próprio é criatura, e uma criatura pode chamar de pai o seu criador, foi tolice não chamar igualmente de pai também o Senhor de si mesmo, do céu e da terra. Dá graças, porém, porque na sua vinda abriu aos apóstolos os mistérios que ignoraram os escribas e fariseus, que parecem sábios a si mesmos e prudentes aos seus próprios olhos; e por isso segue: porque escondeste estas coisas aos sábios e prudentes, e as revelaste aos pequeninos.
Santo Agostinho, de Verb. Dom. Pelo nome de sábios e prudentes, ele próprio explicou que se podem entender os soberbos, quando disse as revelaste aos pequeninos: pois que são os pequeninos, senão os humildes?
São Gregório Magno. Pois, ao não acrescentar revelaste-as aos tolos, mas aos pequeninos, dá a entender que condenou o orgulho, não a agudeza de espírito.
São João Crisóstomo, in Matth. Ou ainda: ao dizer sábios, não fala da verdadeira sabedoria, mas daquela que os escribas e fariseus pareciam ter por causa da eloquência. Por isso não disse: revelaste-as aos tolos, mas aos pequeninos, isto é, aos sem formação ou rústicos; com o que nos ensina a nos livrarmos em tudo da soberba e a cultivar a humildade.
Santo Hilário, in Matth. Os segredos e as virtudes das palavras celestes, portanto, estão escondidos aos sábios e são revelados aos pequeninos; pequeninos pela inocência, não pelo entendimento; sábios, porém, pela presunção da sua tolice, não por causa da sabedoria.
São João Crisóstomo, in Matth. Ora, que isto tenha sido revelado a estes é digno de alegria; que tenha sido ocultado àqueles, é digno não de alegria, mas de lágrimas. Não se alegra, portanto, por isso, mas porque estes conheceram o que os sábios não conheceram.
Santo Hilário. O Senhor confirma a justiça deste fato pelo juízo da vontade do Pai, para que os que se indignam de que outros se façam pequeninos em Deus se tornem, depois, tolos na sua sabedoria; e por isso se acrescenta: Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado.
São Gregório Magno. Por estas palavras recebemos exemplos de humildade, para que não presumamos examinar temerariamente os desígnios do alto sobre a vocação de uns e a rejeição de outros, mostrando que não pode ser injusto o que agradou ao Justo.
São Jerônimo. Nestas palavras, fala também ao Pai com afeto de quem o acaricia, para que o benefício começado nos apóstolos se complete.
São João Crisóstomo, in Matth. Ora, estas coisas que o Senhor disse aos discípulos os tornaram mais atentos: pois, como era de se esperar que pensassem grandes coisas de si, porque expulsavam os demônios, aqui ele os reprime; com efeito, o que lhes foi feito era uma revelação, não obra do esforço deles; e por isso os escribas, que se julgavam sábios e prudentes, decaíram por causa do próprio orgulho; donde, se por isso lhes foram ocultados os mistérios de Deus: temei, diz, também vós, e permanecei pequeninos: pois isto fez que alcançásseis a revelação. Assim como, quando Paulo diz: Deus os entregou a um sentimento reprovável, não diz isso apresentando Deus como quem o faz, mas aqueles que deram a causa, assim também aqui: escondeste estas coisas aos sábios e prudentes. E por que lhes foram ocultadas? Ouve Paulo dizendo: procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus.
Mt 11,27
27Todas as coisas me foram dadas por meu Pai; ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo.
São João Crisóstomo, in Matth. Tendo dito: Eu te confesso, Pai, porque escondeste estas coisas aos sábios, para que não penses que dá graças ao Pai como se ele próprio estivesse privado desse poder, acrescenta em seguida: Tudo me foi entregue por meu Pai. Mas quando ouvires que foi entregue, não suspeites nada de humano: com efeito, para que não julgues que há dois deuses não gerados, emprega esta expressão. Pois, ao ser gerado, foi ao mesmo tempo senhor de todas as coisas.
São Jerônimo. De outro modo, se quisermos entender segundo a nossa fragilidade, quando aquele que recebeu começar a ter, aquele que deu começará a não ter. Ou ainda: por tudo lhe foi entregue não se devem entender o céu, a terra, os elementos e as demais coisas que ele próprio fez e criou, mas aqueles que, por meio do Filho, têm acesso ao Pai.
Santo Hilário. Ou disse isto para que não se julgasse haver nele algo a menos do que há em Deus.
Santo Agostinho, contra maximum. Pois, se tem em seu poder algo a menos que o Pai, nem tudo o que o Pai tem é dele: com efeito, o Pai, ao gerar, deu o poder ao Filho, assim como, ao gerar, deu a quem gerou de sua substância tudo o que tem em sua substância.
Santo Hilário, in Matth. Em seguida, no conhecimento mútuo do Pai e do Filho, dá a entender que no Filho não existe outra coisa senão o que existiu no Pai; pois segue-se: e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, nem alguém conhece o Pai, senão o Filho.
São João Crisóstomo, in Matth. Pois, pelo fato de que só ele conhece o Pai, mostra veladamente que é da mesma substância; como se dissesse: que há de admirar, se sou o senhor de todas as coisas, quando tenho algo outro maior, a saber, conhecer o Pai e ser da mesma substância?
Santo Hilário, in Matth. Ensina, pois, que a substância de ambos é a mesma no conhecimento mútuo, pois quem conhecesse o Filho haveria de conhecer também o Pai no Filho, porque todas as coisas lhe foram entregues pelo Pai.
São João Crisóstomo, super Matth. Ora, ao dizer: nem alguém conhece o Pai, senão o Filho, diz isto não porque todos o ignorem absolutamente, mas porque ninguém o conhece com o conhecimento com que o próprio Filho o conhece; o que se deve dizer também do Filho. Nem disse isto de algum Deus desconhecido, como afirma Marcião.
Santo Agostinho, de Trin. Enfim, por causa da inseparabilidade da substância, às vezes basta nomear só o Pai ou só o Filho; e daí não se separa o Espírito de ambos, que é chamado propriamente Espírito da verdade.
São Jerônimo. Enrubesça, pois, o herege Eunômio, que reivindica para si tanto conhecimento do Pai e do Filho quanto o que eles têm um do outro. E se daí argumenta, e consola a sua loucura, porque se segue: e aquele a quem o Filho o quiser revelar, uma coisa é conhecer por igualdade de natureza o que se conhece, outra coisa é conhecer pela dignação de quem revela.
Santo Agostinho, de Trin. Ora, o Pai é revelado pelo Filho, isto é, por seu Verbo. Pois se esta palavra que nós proferimos, temporal e transitória, mostra tanto a si mesma quanto aquilo de que falamos, quanto mais o Verbo de Deus, por quem foram feitas todas as coisas, que mostra o Pai tal como o Pai é, porque também ele mesmo é assim e é o que o Pai é?
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Ora, ao dizer: ninguém conhece o Filho, senão o Pai, não disse: e aquele a quem o Pai o quiser revelar; mas, ao dizer: ninguém conhece o Pai, senão o Filho, acrescentou: e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Isto não se deve entender como se o Filho não pudesse ser conhecido por ninguém senão só pelo Pai, e o Pai, porém, não só pelo Filho, mas também por aqueles a quem o Filho o revelou; pois foi dito assim, antes, para que entendamos que o Pai e o próprio Filho são revelados por meio do Filho, porque ele é a luz da nossa mente; e o que depois acrescentou, e aquele a quem o Filho o quiser revelar, entendamos não só do Pai, mas também do Filho: pois foi acrescentado a tudo o que disse. Com efeito, o Pai se declara por seu Verbo; e o Verbo declara não só aquilo que é declarado por meio do Verbo, mas também a si mesmo.
São João Crisóstomo, super Matth. Se, portanto, revela o Pai, revela também a si mesmo. Isto, na verdade, deixou de dizer como manifesto; aquilo, porém, afirmou, porque podia haver dúvida. Por isso também ensina que concorda de tal modo com o Pai que não é possível alguém vir ao Pai senão pelo Filho: pois isto escandalizava sobretudo, que parecia contrário a Deus; e por isso procurou destruir isso por todos os meios.
Mt 11,28-30
28Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. 29Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. 30Porque meu jugo é suave e meu peso é leve”.
São João Crisóstomo, in Matth. Pelas coisas que foram ditas, havia suscitado nos discípulos o desejo de si, mostrando o seu poder inefável; agora, porém, chama-os a si, dizendo: vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados.
Santo Agostinho, de Verb. Dom. Por que todos nós nos cansamos, senão porque somos homens mortais, que carregam vasos de barro, os quais se apertam mutuamente? Mas se os vasos da carne se apertam, dilatem-se os espaços da caridade. Para que, pois, diz: vinde a mim, todos os que estais cansados, senão para que não vos canseis?
Santo Hilário, in Matth. Chama a si também os que se cansam com as dificuldades da Lei e os sobrecarregados com os pecados do mundo.
São Jerônimo. Que os fardos do pecado são pesados, o testemunha também o profeta Zacarias, dizendo que a iniquidade está sentada sobre um talento de chumbo. E o Salmista o completou: as minhas iniquidades pesaram sobre mim.
São Gregório Magno. É também jugo áspero e duro peso de servidão estar sujeito às coisas temporais, cobiçar as terrenas, reter as que escorregam, querer ficar de pé no que não se mantém de pé, desejar, sim, as coisas que passam, mas não querer passar com as que passam. Pois, quando, contra o desejo, fogem todas as coisas que antes tinham afligido a mente pelo desejo de obtê-las, depois a oprimem pelo temor de perdê-las.
São João Crisóstomo, in Matth. Ora, não diz: vinde este e aquele; mas todos os que estais em preocupações, em tristezas, em pecados; não para exigir castigos, mas para perdoar os pecados. Vinde, não porque eu precise da vossa glória, mas porque quero a vossa salvação: por isso diz: e eu vos aliviarei; não disse: só vos salvarei; mas, o que era muito mais, vos aliviarei, isto é, vos colocarei em todo repouso.
Rábano Mauro. Não só aliviarei, mas saciarei com um refrigério interior.
Remígio de Auxerre. Vinde, diz, não com os pés, mas com os costumes; não com o corpo, mas com a fé. Pois este é o acesso espiritual, pelo qual cada um se aproxima de Deus; e por isso segue: tomai sobre vós o meu jugo.
Rábano Mauro. O jugo de Cristo é o Evangelho de Cristo, que une e associa judeus e gentios na unidade da fé. Ora, ordena-se que o tomemos sobre nós, isto é, que o tenhamos em honra, para que, por acaso, pondo-o debaixo de nós, isto é, desprezando-o perversamente, não o pisemos com os pés lodosos dos vícios; por isso se acrescenta: aprendei de mim.
Santo Agostinho, de Verb. Dom. Não a fabricar o mundo, não a fazer milagres no próprio mundo; mas porque sou manso e humilde de coração. Queres ser grande? Começa pelo menor. Pensas em construir um grande edifício de altura? Pensa primeiro no fundamento da humildade. E quanto maior o edifício que alguém quer erguer, tanto mais profundo cave o fundamento. Mas até onde chegará o cume de nosso edifício? Até a visão de Deus.
Rábano Mauro. Devemos, pois, aprender de nosso Salvador a ser mansos nos costumes e humildes nos pensamentos: a não ofender ninguém, a não desprezar ninguém, e a guardar dentro, no coração, as virtudes que mostramos fora, na obra.
São João Crisóstomo, in Matth. E por isso, ao começar as leis divinas, começa pela humildade; e põe o maior prêmio, dizendo: e encontrareis descanso para as vossas almas. Este é o maior prêmio: pois não te tornas útil apenas a outro, mas fazes a ti mesmo repousar; e antes das coisas futuras dá-te esta promessa; no futuro, porém, gozarás de perpétuo descanso.
São João Crisóstomo. E para que não se atemorizassem por ele ter dito fardo e jugo, acrescenta: pois o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.
Santo Hilário. Propõe os afagos do jugo suave e do fardo leve, para conceder aos que creem nele o conhecimento do bem que somente ele conhece no Pai.
São Gregório Magno. Que coisa pesada impõe à cerviz de nossa mente aquele que manda evitar todo desejo que perturba, que adverte a se afastar dos caminhos trabalhosos deste mundo?
Santo Hilário, in Matth. E o que há de mais suave que este jugo, de mais leve que este fardo? Tornar-se mais íntegro, abster-se do crime, querer o bem, não querer o mal, amar a todos, odiar a ninguém, alcançar as coisas eternas, não se deixar prender pelas presentes, não querer fazer a outro o que lhe seria molesto sofrer.
Rábano Mauro. Mas como é suave o jugo de Cristo, quando acima se diz: estreito é o caminho que conduz à vida? Mas o que se começa num início estreito, com o passar do tempo se dilata pela inefável doçura do amor.
Santo Agostinho, de Verb. Dom. Igualmente, os que submeteram a cerviz sem temor ao jugo do Senhor sofrem perigos tão difíceis que parecem chamados não dos trabalhos ao repouso, mas do repouso ao trabalho. Mas certamente estava presente o Espírito Santo, que, na corrupção do homem exterior, renovava o interior de dia em dia; e, tendo provado o repouso espiritual na abundância das delícias de Deus, na esperança da futura bem-aventurança, suavizava todas as asperezas presentes e aliviava todas as dificuldades. Os homens suportam ser cortados e queimados, para que as dores não eternas, mas de uma úlcera um pouco mais duradoura, sejam resgatadas ao preço de dores mais agudas. Que tempestades ou penas não enfrentam os mercadores importunos, para adquirir riquezas perecíveis? Mas os que não as amam suportam as mesmas coisas como pesadas; os que, porém, as amam, suportam as mesmas, mas não pesadas. Pois o amor torna fáceis, e quase nulas, todas as coisas cruéis e enormes; quanto mais facilmente, então, a caridade conduz à verdadeira bem-aventurança o que a cobiça, quanto pôde, fez para a miséria?
São Jerônimo. Como também o Evangelho é mais leve que a lei, quando na lei se punem o homicídio e o adultério, e no Evangelho a ira e a concupiscência; pois na lei há muitos preceitos que o Apóstolo ensina não poderem ser plenamente cumpridos: na lei exigem-se as obras; no Evangelho busca-se a vontade, que, mesmo que não tenha tido efeito, nem por isso perde o prêmio. O Evangelho prescreve o que podemos, a saber, não cobiçar: isto está em nosso arbítrio; a lei, como não pune a vontade, pune o efeito: não cometas adultério. Imagina em uma perseguição uma virgem prostituída: esta, junto ao Evangelho, porque não peca pela vontade, é recebida como virgem; na lei é repudiada como corrompida.