Mt 10,1-4
1Jesus reuniu seus doze discípulos. Conferiu-lhes o poder de expulsar os espíritos imundos e de curar todo mal e toda enfermidade. 2Eis os nomes dos doze apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro; depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. 3Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. 4Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor.
Glosa(séc. XII). Desde a cura da sogra de Pedro até aqui, os milagres narrados tiveram continuidade; e foram realizados antes do sermão proferido no monte, o que sabemos sem dúvida pela escolha de Mateus, que é narrada entre eles: com efeito, foi um dos doze escolhidos no monte para o apostolado. Aqui, porém, retoma a ordem dos fatos, tal como aconteceram, depois da cura do servo do centurião, dizendo: E tendo convocado os doze discípulos.
Remígio de Auxerre(séc. IX). Com efeito, o Evangelista havia narrado acima que o Senhor exortou os discípulos a rogar ao Senhor da messe que enviasse operários para a sua messe; e o que exortou, isso agora parece cumprir. Com efeito, o número doze é perfeito: nasce do seis, que tem perfeição, porque se forma em si mesmo a partir de suas partes, que são um, dois e três; ora, o seis duplicado gera o doze.
Glosa. Essa duplicação parece referir-se aos dois preceitos da caridade, ou aos dois Testamentos.
Rábano Mauro(séc. IX). O número doze, que se compõe de três e quatro, designa também aqueles que pregariam a fé na santa Trindade pelas quatro regiões do mundo. Esse número foi também prefigurado por muitas figuras no Antigo Testamento: pelos doze filhos de Jacó, pelos doze príncipes dos filhos de Israel, pelas doze fontes vivas em Elim, pelas doze pedras no peitoral de Aarão, pelos doze pães da proposição, pelos doze exploradores enviados por Moisés, pelas doze pedras com que foi feito o altar, pelas doze pedras retiradas do Jordão, pelos doze bois que sustentavam o mar de bronze. No Novo Testamento também, pelas doze estrelas na coroa da esposa, pelos doze fundamentos de Jerusalém, que João viu, e pelas doze portas.
São João Crisóstomo, in Matth(séc. IV). Não somente os fez confiar, chamando o seu ministério de envio à messe, mas também tornando-os capazes para o ministério; por isso segue: Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros, para os expulsarem e para curarem toda enfermidade e toda doença.
Remígio de Auxerre. Nisso se mostra claramente que o sofrimento das multidões não era um só nem simples, mas variado; e isto é compadecer-se das multidões: dar aos discípulos o poder de curá-las e sará-las.
São Jerônimo(séc. IV–V). Com efeito, o Senhor e Mestre, benigno e clemente, não tem inveja de seus servos e discípulos por causa de seus poderes; e assim como ele mesmo havia curado toda enfermidade e doença, concedeu também a seus apóstolos o poder de curar toda enfermidade e toda doença. Mas há muita diferença entre ter e conceder, dar e receber. Ele, tudo o que faz, faz pelo poder do Senhor; eles, se fazem algo, confessam a sua própria fraqueza e o poder do Senhor, dizendo: Em nome de Jesus, levanta-te e anda. O catálogo dos apóstolos é apresentado para que sejam excluídos, além destes, os que são falsos apóstolos; por isso segue: Os nomes dos doze apóstolos são estes: o primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão. A ordem dos apóstolos e o mérito de cada um cabia distribuir àquele que perscruta os segredos do coração. O primeiro a ser escrito é Simão, de sobrenome Pedro, para distingui-lo do outro Simão, chamado Cananeu, da aldeia de Caná da Galileia, onde o Senhor converteu a água em vinho.
Rábano Mauro. Pedro, em grego ou em latim, é o mesmo que Cefas em sírio; e em ambas as línguas o nome deriva de pedra. E não há dúvida de que é aquela de que Paulo diz: A pedra era Cristo.
Remígio de Auxerre. Houve, porém, alguns que, buscando a interpretação em língua hebraica para este nome, grego e latino, que é Pedro, disseram que se interpreta o que descalça, ou o que dissolve ou o que reconhece. Mas os que dizem isto são retidos por duas contradições. A primeira vem da propriedade da língua hebraica, na qual o p não se exprime, mas em seu lugar se põe ph; daí dizerem Philato em vez de Pilatos. A segunda, da interpretação do Evangelista, que narra que o Senhor disse: Tu serás chamado Cefas, e ele mesmo acrescenta de sua parte: que se interpreta Pedro. Simão se interpreta obediente: com efeito, obedeceu às palavras de André e foi com ele a Cristo; ou porque obedeceu aos preceitos divinos e porque seguiu o Senhor à voz de uma só ordem; ou, como agrada a alguns, se interpreta o que depõe a tristeza e ouve a aflição: com efeito, ao ressurgir o Senhor, depôs a tristeza da paixão do Senhor, e ouviu a aflição quando o Senhor lhe disse: Outro te cingirá e te conduzirá para onde não queres. Segue: e André, seu irmão.
São João Crisóstomo, in Matth. Também este não é um pequeno louvor. Com efeito, denominou Pedro pela virtude, e André pela nobreza segundo o costume, ao dizer que ele era irmão de Pedro. Marcos, porém, enumera André depois dos dois cumes, a saber, Pedro e João; aqui, porém, não é assim: Marcos, com efeito, os ordenou segundo a dignidade.
Remígio de Auxerre. André se interpreta viril. Assim como entre os latinos viril deriva de varão, assim entre os gregos André deriva de andros. Bem se diz viril, porque, deixando tudo, seguiu a Cristo e perseverou virilmente em seus mandamentos.
São Jerônimo. O Evangelista, porém, associa os apóstolos em pares. Une, com efeito, Pedro e André, irmãos não tanto pela carne quanto pelo espírito; Tiago e João, que, deixando o pai segundo o corpo, seguiram o verdadeiro Pai; por isso segue: Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Chama também Tiago de filho de Zebedeu, porque se segue outro Tiago, o de Alfeu.
São João Crisóstomo, in Matth. Vê, porém, que não os ordena segundo a dignidade. Parece-me, com efeito, que João é maior não só que os outros, mas também que o irmão.
Remígio de Auxerre. Tiago se interpreta o que suplanta, ou suplantador: porque não só suplantou os vícios da carne, mas desprezou até a própria carne, quando Herodes o mandou matar. João se interpreta graça de Deus, porque mereceu ser amado pelo Senhor mais que todos; por isso, pela graça do amor singular, recostou-se sobre o peito do Senhor na ceia. Segue: Filipe e Bartolomeu. Filipe se interpreta boca da lâmpada, ou das lâmpadas, porque a luz com que foi iluminado pelo Senhor, logo se empenhou, pelo ofício da boca, em dá-la a beber ao irmão que encontrou. Bartolomeu é nome sírio, não hebraico, e se interpreta filho do que suspende as águas, isto é, de Cristo: que eleva e suspende dos bens terrenos para os celestiais os corações de seus pregadores, para que, quanto mais penetram nas coisas celestiais, tanto mais inebriem e inundem os corações de seus ouvintes com a gota da santa pregação. Segue: Tomé e Mateus, o publicano.
São Jerônimo. Os demais Evangelistas, na ligação dos nomes, põem primeiro Mateus e depois Tomé; nem acrescentam o nome de publicano, para que, recordando sua antiga conduta, não parecessem ofender o Evangelista; este, porém, põe-se depois de Tomé e se chama publicano, para que, onde abundou o pecado, superabunde também a graça.
Remígio de Auxerre. Tomé, porém, se interpreta abismo, ou gêmeo, e em grego se diz Dídimo. Com razão Dídimo se interpreta abismo, porque, quanto mais tempo duvidou, tanto mais profundamente creu no efeito da paixão do Senhor e reconheceu o mistério da divindade; por isso disse: Meu Senhor e meu Deus. Mateus, por sua vez, se interpreta dado, porque, por dom de Deus, de publicano foi feito Evangelista. Segue-se: e Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu.
Rábano Mauro. Este Tiago é o que nos Evangelhos é chamado irmão do Senhor, e também na carta aos Gálatas, porque Maria, esposa de Alfeu, foi irmã de Maria, mãe do Senhor, a quem o Evangelista João chamou Maria de Cléofas, talvez porque Cléofas e Alfeu sejam o mesmo homem. Ou então a própria Maria, morto Alfeu, depois de nascido Tiago, casou-se com Cléofas.
Remígio de Auxerre. E com razão é chamado filho de Alfeu, isto é, do justo ou do douto, porque não só suplantou os vícios da carne, mas também desprezou o cuidado da carne; pois de que mérito foi, são testemunhas os apóstolos, que o ordenaram bispo da Igreja de Jerusalém; por isso também a história eclesiástica diz dele, entre outras coisas, que nunca comeu carne, não bebia vinho nem bebida inebriante, não usava banhos nem vestes de linho, e orava de joelhos dia e noite. Foi também de tão grande mérito que por todos era chamado o justo. Tadeu, por sua vez, é aquele que Lucas chama Judas de Tiago, isto é, irmão de Tiago, cuja carta se lê na Igreja, na qual ele se nomeia irmão de Tiago.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas(séc. IV–V). Alguns códices, porém, trazem Lebeu. Ora, quem jamais proibiu que um mesmo homem fosse chamado por dois ou três nomes?
Remígio de Auxerre. Judas se interpreta confessado, porque confessou o Filho de Deus.
Rábano Mauro. Tadeu, ou Lebeu, se interpreta coraçãozinho, isto é, cultor do coração. Segue-se: Simão Cananeu, e Judas Iscariotes, aquele que também o entregou.
São Jerônimo. Simão Cananeu é o mesmo que por outro Evangelista é escrito Zelote, pois Caná se interpreta zelo. Judas Iscariotes tomou o nome ou da aldeia em que nasceu, ou da tribo de Issacar, como que por uma profecia, para que nascesse para a sua própria condenação. Issacar, com efeito, se interpretou recompensa, para significar o preço do traidor.
Remígio de Auxerre. Iscariotes se interpreta memória do Senhor, porque seguiu o Senhor; ou memorial da morte, porque meditou em seu coração entregar o Senhor à morte; ou ainda sufocação, porque estrangulou a si mesmo. E deve-se saber que dois discípulos foram chamados com este nome, por meio dos quais todos os cristãos são designados: por Judas de Tiago, aqueles que perseveram na confissão da fé; por Judas Iscariotes, aqueles que, abandonada a fé, voltam atrás.
Glosa. De dois em dois são nomeados expressamente, para que se aprove a sociedade conjugal.
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Escolheu, pois, como discípulos, a quem também chamou apóstolos, homens de nascimento humilde, sem honras, sem letras, para que tudo o que fossem e fizessem de grande, ele mesmo estivesse neles e o fizesse. Teve entre eles um, de quem, usando bem do mal, cumpriu o desígnio de sua paixão e deu à sua Igreja um exemplo de como suportar os males.
Rábano Mauro. Este não foi escolhido entre os apóstolos por imprudência; pois grande é a verdade, que nem um ministro adversário enfraquece. Quis também ser entregue por um discípulo, para que tu, entregue por um companheiro, suportes com moderação que o teu juízo se tenha enganado e que o benefício se tenha perdido.
Mt 10,5-8
5Estes são os Doze que Jesus enviou em missão, após lhes ter dado as seguintes instruções: “Não ireis ao meio dos gentios nem entrareis em Samaria; 6ide antes às ovelhas que se perderam da casa de Israel. 7Por onde andardes, anunciai que o Reino dos Céus está próximo. 8Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. Recebestes de graça, de graça dai!
Glosa. Porque a manifestação do Espírito, como diz o Apóstolo, é dada para a utilidade da Igreja, depois de dado o poder aos apóstolos, envia-os para que exerçam o poder em proveito dos outros; por isso se diz: Jesus enviou estes doze.
São João Crisóstomo, in Matth. Atentai, porém, à oportunidade do envio. Depois, com efeito, de o terem visto ressuscitar um morto, repreender o mar e outras coisas semelhantes, e de terem recebido suficiente demonstração de seu poder por palavras e por obras, então os envia.
Glosa. Ao enviá-los, ensina-lhes aonde vão, o que pregam e o que fazem. Primeiro, aonde vão; por isso se diz: ordenando-lhes e dizendo: Não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis nas cidades dos samaritanos; ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel.
São Jerônimo. Este lugar, porém, não é contrário ao preceito que depois se diz: Ide, ensinai todas as nações, porque este foi dado antes da ressurreição, aquele depois da ressurreição. E convinha anunciar primeiro aos judeus a vinda de Cristo, para que não tivessem justa desculpa, dizendo que haviam rejeitado o Senhor porque ele enviara os apóstolos aos gentios e aos samaritanos.
São João Crisóstomo, in Matth. Por isso também os envia primeiro aos judeus, para que, exercitados na Judeia como numa palestra, entrassem nos combates do mundo inteiro, conduzindo-os como a certos filhotes frágeis para que aprendessem a voar.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos(séc. VI). Ou porque quis que a pregação fosse feita primeiro somente à Judeia e depois aos gentios, a fim de que, rejeitada a pregação de nosso Redentor pelos seus, ele buscasse os povos gentios como estranhos. Havia também então alguns que deviam ser chamados dentre os judeus e não deviam ser chamados dentre os gentios; os quais não mereciam ser reparados para a vida, nem, contudo, ser julgados mais severamente pelo desprezo da pregação.
Santo Hilário, in Matth(séc. IV). Também a leitura da Lei devia obter o privilégio do Evangelho, de modo que Israel tivesse tanto menos desculpa para o seu crime quanto mais solicitude houvesse experimentado na advertência.
São João Crisóstomo, in Matth. Igualmente, para que não julgassem que, por terem ultrajado a Cristo e o chamarem de endemoninhado, ele os tinha em ódio por isso, procurou primeiro corrigi-los e, afastando os discípulos de todos os outros, envia-lhes médicos e doutores; e não somente proibiu anunciar a outros antes que aos judeus, mas nem sequer permitia chegar ao caminho que conduz aos gentios, o que indica ao dizer: Não tomeis o caminho dos gentios. E porque os samaritanos eram contrários aos judeus, embora fossem mais fáceis de converter-se à fé, contudo não permitiu que se pregasse aos samaritanos antes que aos judeus; por isso diz: e não entreis nas cidades dos samaritanos.
Glosa. Os samaritanos foram, com efeito, gentios deixados na terra de Israel pelo rei dos assírios depois do cativeiro por ele promovido, e, forçados por muitos perigos, converteram-se ao judaísmo, recebendo a circuncisão e os cinco livros de Moisés, mas rejeitando totalmente o resto; por isso os judeus não se misturavam com os samaritanos.
São João Crisóstomo, in Matth. Afastando, pois, os discípulos destes, envia-os aos filhos de Israel, que chama ovelhas perdidas, não ocultas, procurando por todos os meios o perdão para eles e atraindo-lhes o espírito.
Santo Hilário, in Matth. Estes, porém, embora sejam chamados ovelhas, enfureceram-se contra Cristo com línguas e goelas de lobos e de víboras.
São Jerônimo. Segundo a tropologia, ordena-se-nos, a nós que somos contados pelo nome de Cristo, que não andemos no caminho dos gentios e no erro dos hereges, para que, aqueles cuja religião é separada, tenham também a vida separada.
Glosa. Depois de lhes ter ensinado aonde irem, indica o que pregar; por isso se acrescenta: Ide, pois, pregando e dizendo: Aproximou-se o reino dos céus.
Rábano Mauro. Diz-se aqui que o reino dos céus se aproxima pela fé que nos foi conferida no Criador invisível, não por algum movimento dos eleitos. Com razão, porém, são chamados céus os santos, que retêm a Deus pela fé e são amados pela caridade.
São João Crisóstomo, in Matth. Vês a grandeza do mistério, vês a dignidade dos apóstolos. Não lhes é mandado dizer nada de sensível, como Moisés e os profetas, mas coisas novas e inesperadas; pois aqueles pregaram bens terrenos, ao passo que estes pregam o reino dos céus e todos os bens que há ali.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Aos santos pregadores foram acrescentados milagres, para que o poder manifestado desse crédito às palavras, e fizessem coisas novas os que pregavam coisas novas; por isso segue: Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expulsai os demônios.
São Jerônimo. Para que ninguém acreditasse em homens rústicos, sem beleza de linguagem, ignorantes e iletrados, que prometiam os reinos dos céus, dá-lhes o poder de fazer as coisas ditas, a fim de que a grandeza dos sinais comprove a grandeza das promessas.
Santo Hilário, in Matth. Todo o poder da virtude do Senhor é atribuído aos apóstolos: para que aqueles que em Adão foram configurados à imagem e semelhança de Deus recebam agora a perfeita imagem de Cristo; e todo o mal que o instinto de Satanás infligiu ao corpo de Adão, eles agora o reparem pela comunhão do poder do Senhor.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Estes sinais foram necessários no início da Igreja: pois, para que a fé dos que criam crescesse, devia ser alimentada por milagres.
São João Crisóstomo. Depois, porém, cessaram, tendo sido plantada em toda parte a reverência da fé. Se, contudo, também depois aconteceram, foram poucos e raros; pois é costume de Deus fazer tais coisas quando os males aumentam: então, com efeito, manifesta o seu poder.
São Gregório Magno. A santa Igreja, contudo, faz todos os dias espiritualmente o que então fazia corporalmente por meio dos apóstolos; e isso, sem dúvida, é tanto maior quanto por estas obras não são os corpos, mas as almas que são ressuscitadas.
Remígio de Auxerre. Enfermos, com efeito, são os indolentes que não têm forças para viver bem; leprosos são os impuros nas obras ou por deleite carnal; mortos são os que praticam obras de morte; endemoninhados tornam-se aqueles que foram reduzidos ao poder do Diabo.
São Jerônimo. E porque os dons espirituais, se há paga de permeio, são mais vis, acrescenta-se a condenação da avareza, quando acrescenta: de graça recebestes, de graça dai; como se dissesse: eu, mestre e Senhor, concedi-vos isto sem preço; portanto, também vós dai sem preço.
Glosa. Diz isto, porém, para que Judas, que tinha a bolsa, não quisesse juntar dinheiro com o poder mencionado, condenando aqui também a perfídia da heresia simoníaca.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Previa, com efeito, que alguns converteriam o dom do Espírito recebido em uso de negócio, e desviariam os sinais dos milagres para o serviço da avareza.
São João Crisóstomo, in Matth. Vê, porém, como ele tem não menos cuidado com os costumes do que com os sinais, mostrando que os sinais sem eles nada são. Com efeito, reprime-lhes a soberba, dizendo: de graça recebestes; e manda que sejam limpos do amor ao dinheiro, dizendo: de graça dai. Ou, para que não pareça que o benefício é deles, diz: de graça recebestes; como se dissesse: nada dais do vosso aos que recebem: pois nem recebestes isto por paga, nem trabalhando por esta graça: de graça, com efeito, recebestes; assim, portanto, dai aos outros; pois não é possível encontrar preço condigno delas.
Mt 10,9-10
9Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossos cintos, 10nem mochila para a viagem, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão; pois o operário merece o seu sustento.
São João Crisóstomo, in Matth. Porque o Senhor havia proibido acima o comércio das coisas espirituais, arrancando em seguida a raiz de todos os males, diz: Não possuais ouro nem prata.
São Jerônimo. Se, com efeito, pregam de modo a não receber paga, é supérflua a posse de ouro, prata e moedas; pois, se as tivessem, pareceriam pregar não por causa da salvação dos homens, mas por causa do lucro.
São João Crisóstomo, in Matth. Por este preceito, pois, primeiro faz que os discípulos não sejam suspeitos; segundo, livra-os de toda solicitude, para que dediquem todo o tempo à palavra de Deus; terceiro, ensina-lhes a sua virtude. Isto, com efeito, lhes disse depois: Por acaso algo vos faltou, quando vos enviei sem bolsa e sem alforje?
São Jerônimo. Aquele, porém, que cortara as riquezas, que são significadas pelo ouro, a prata e o bronze, retira quase também as coisas necessárias à vida, a fim de que os apóstolos, doutores da verdadeira religião, que ensinavam que todas as coisas são governadas pela providência de Deus, mostrassem que nada pensam do dia de amanhã.
Glosa. Donde acrescenta: nem dinheiro em vossos cintos. Há, com efeito, dois gêneros de coisas necessárias: um com o qual se compram as necessárias, que se entende pelo dinheiro nos cintos; outro, as próprias coisas necessárias, que se entende pelo alforje.
São Jerônimo. Por isto, porém, que diz nem alforje no caminho, repreende os filósofos que vulgarmente se chamam Bactroperitas, porque, desprezadores do mundo e tendo tudo por nada, levam consigo a despensa. Segue-se: nem duas túnicas. Nas duas túnicas parece-me indicar um duplo vestuário: não que, nos lugares da Cítia e rígidos de neve glacial, alguém deva contentar-se com uma só túnica, mas que na túnica entendamos o vestuário, para que, vestidos de um, não reservemos outro para nós por temor do futuro. Segue-se: nem calçados. E Platão também prescreve que essas duas extremidades do corpo não sejam cobertas, nem se deva acostumar à moleza a cabeça e os pés: pois, quando estes tiverem firmeza, as demais partes são mais robustas. Segue-se: nem bordão: nós, com efeito, que temos o auxílio do Senhor, por que buscaríamos o amparo de um bastão?
Remígio de Auxerre. O Senhor mostra também com estas palavras que os santos pregadores foram chamados de volta à dignidade do primeiro homem: o qual, enquanto possuiu os tesouros celestes, não cobiçou estas coisas; mas logo que, pecando, perdeu aqueles, começou a desejar estas.
São João Crisóstomo, in Matth. Feliz, porém, é esta troca: pois, em lugar de ouro, prata e coisas semelhantes, receberam o poder de curar os enfermos, ressuscitar os mortos e outras coisas semelhantes: donde não lhes disse desde o princípio não possuais ouro nem prata; mas quando havia dito purificai os leprosos, expulsai os demônios. Disso fica claro que os constituiu, por assim dizer, anjos tirados dos homens, livrando-os de toda solicitude desta vida: para que fossem retidos por um só cuidado, o da doutrina; do qual também os livrou, dizendo: não vos preocupeis com o que haveis de falar. Por isso, o que parece ser muito oneroso e pesado, isto mostra-lhes sumamente leve e fácil: nada há, com efeito, tão agradável como estar livre de cuidado e solicitude; e sobretudo quando for possível que, livres disso, em nada sejam diminuídos, estando Deus presente e feito tudo por todos nós.
São Jerônimo. E porque tinha enviado os apóstolos de certo modo nus e desembaraçados para a pregação, e a condição dos mestres parecia dura, mitigou a severidade do preceito com a sentença seguinte, dizendo: pois o operário é digno do seu sustento; como se dissesse: recebei somente o que vos é necessário em vestuário e alimento; daí o Apóstolo: tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isso; e noutro lugar: Aquele que é instruído comunique todos os bens a quem o instrui; para que aqueles de quem os discípulos colhem os bens espirituais, façam-nos participar de seus bens carnais, não por avareza, mas por necessidade.
São João Crisóstomo, in Matth. Convinha, porém, que os apóstolos fossem alimentados pelos discípulos: para que nem eles mesmos se ensoberbecessem contra os que eram ensinados, como quem tudo dá e nada recebe; nem, por outro lado, aqueles se afastassem, como que desprezados por eles. Depois, para que os apóstolos não dissessem: então ordena que vivamos mendigando, e se envergonhassem disso, mostra-lhes que isso lhes é devido, chamando-os operários e chamando salário o que lhes é dado: pois, embora a obra dos apóstolos consistisse em palavras, não deviam julgar pequeno o benefício que prestavam; e por isso diz: o operário é digno do seu sustento. Disse isto, porém, não para mostrar que os trabalhos apostólicos sejam dignos de tamanho preço, mas introduzindo uma lei para os apóstolos e persuadindo os que dão, de que o que por eles é dado é uma dívida.
Santo Agostinho, de Pastor. Portanto, o Evangelho não é venal, para ser pregado em troca de coisas temporais. Pois se o vendem assim, vendem coisa grande por preço vil. Recebam, pois, os pregadores do povo o sustento da necessidade, e de Deus o salário da dispensação. Pois não é dado pelo povo como salário àqueles que servem a si mesmos na caridade do Evangelho, mas é dado como estipêndio, para que, alimentados, possam trabalhar.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Ou de outro modo. Tendo dito o Senhor aos apóstolos: Não possuais ouro, logo acrescentou: o operário é digno do seu sustento; com isso mostra suficientemente por que não quis que possuíssem nem levassem isso: não porque as coisas necessárias ao sustento desta vida não existam, mas porque os enviava de modo a lhes demonstrar que isso lhes era devido por aqueles a quem, quando cressem, anunciassem o Evangelho, como o soldo aos que militam. Aparece, porém, que o Senhor não preceituou aqui que não devessem viver evangelicamente de outra fonte senão do que lhes oferecessem aqueles a quem anunciam o Evangelho: de outro modo, Paulo teria agido contra este preceito, ele que tirava o sustento do trabalho de suas mãos. Mas aparece que deu aos apóstolos o poder de que a casa em que se hospedassem lhes devesse estas coisas. Quando, porém, algo é ordenado pelo Senhor, se não se faz, há culpa de desobediência; quando, porém, o poder é dado pelo Senhor, é lícito a cada um não usá-lo e, por assim dizer, renunciar ao seu direito. Ordenando, pois, o Senhor isto, que os que anunciam o Evangelho vivam do Evangelho, dizia aquelas coisas aos apóstolos para que, seguros, não possuíssem nem levassem o necessário a esta vida, nem muito nem pouco; por isso pôs nem bastão, mostrando que tudo é devido pelos fiéis a seus ministros que não exigem nada supérfluo. Esse poder, portanto, significou com o nome de bastão, quando disse, segundo Marcos: que nada levassem pelo caminho, exceto somente o bastão. Mas também quando Mateus diz que as sandálias não devem ser levadas pelo caminho, proibiu a preocupação, pela qual se pensa levá-las para que não faltem. Isto também se deve entender das duas túnicas, para que ninguém julgasse dever levar outra além da que vestisse, preocupado com o que pudesse ser necessário, quando pode recebê-la por aquele poder. Por isso Marcos, ao dizer que eles se calçassem com sandálias ou sapatos, adverte que este calçado tem algo de significação mística, a saber, que o pé não esteja coberto por cima, nem nu em relação à terra; isto é, que o Evangelho não seja ocultado, nem se apoiem em comodidades terrenas. E porque proíbe, não que se levem duas túnicas, mas, de modo mais expresso, que se vistam, adverte que se ande não duplamente, mas com simplicidade. Assim, não se deve de modo algum duvidar de que o Senhor disse tudo, em parte em sentido próprio, em parte em sentido figurado; mas os evangelistas inseriram em seus escritos umas coisas este, outras aquele. Quem, porém, pensa que o Senhor não pôde, num só discurso, pôr algumas palavras em sentido figurado e outras em sentido próprio, examine as demais palavras dele; e verá quão temerária e indoutamente julga: pois, como o Senhor adverte que a esquerda não saiba o que faz a direita, pensará que as próprias esmolas, e tudo o mais que aqui prescreve, devem ser tomados em sentido figurado.
São Jerônimo. Digamos estas coisas em sentido histórico; as demais, segundo a anagogia. Não é lícito aos mestres possuir ouro, prata e dinheiro que está nos cintos. Lemos frequentemente ouro por inteligência, prata por palavra, bronze por voz: estas coisas não vos é lícito receber de outros, mas possuí-las dadas pelo Senhor; nem acolher as disciplinas das perversas doutrinas dos hereges e filósofos.
Santo Hilário, in Matth. Como o cinto é o aparato do ministério e a cintura para a eficácia da obra, pelo fato de se proibir a posse de bronze no cinto somos advertidos de que nada no ministério seja venal. Somos advertidos também de não ter alforje no caminho, isto é, de que se deve abandonar a preocupação com a substância secular: porque todo tesouro na terra é pernicioso ao coração, que estará no lugar onde se guarda o tesouro. Diz, porém, não duas túnicas: pois nos basta ter vestido uma só vez a Cristo; e para que, depois do verdadeiro conhecimento, não nos vistamos em seguida de outra veste, seja de heresia, seja da Lei. Nem sandálias, porque, estabelecidos de pés descalços na terra santa, não ocupada pelos espinhos e aguilhões dos pecados, como foi dito a Moisés, somos advertidos de não ter outro preparo para nossos passos senão o que recebemos de Cristo.
São Jerônimo. Ou o Senhor ensina que nossos pés não sejam atados com liames mortíferos, mas que, entrando na terra santa, estejam descalços, nem tenham bastão que se transforme em serpente, nem se apoiem em nenhum amparo da carne: porque tal bastão é também um caniço, que, se o apertares um pouco, se quebra e perfura a mão de quem nele se apoia.
Santo Hilário. Pelo direito do poder externo, porém, não somos indignos, tendo o bastão da raiz de Jessé.
Mt 10,11-15
11Nas cidades ou aldeias onde entrardes, informai-vos se há alguém ali digno de vos receber; ficai ali até a vossa partida. 12Entrando numa casa, saudai-a: Paz a esta casa. 13Se aquela casa for digna, descerá sobre ela vossa paz; se, porém, não o for, vosso voto de paz retornará a vós. 14Se não vos receberem e não ouvirem vossas palavras, quando sairdes daquela casa ou daquela cidade, sacudi até mesmo o pó de vossos pés. 15Em verdade vos digo: no dia do juízo haverá mais indulgência com Sodoma e Gomorra que com aquela cidade.
São João Crisóstomo, in Matth. Tendo dito acima o Senhor: o operário é digno do seu sustento, para que não se cresse que por isso lhes abria a porta de todos, manda aqui ter muito cuidado na escolha do hóspede; daí se diz: em qualquer cidade ou povoado em que entrardes, informai-vos de quem nela seja digno.
São Jerônimo. Os apóstolos, entrando numa cidade nova, não podiam saber quem era e como era; logo, o hóspede deve ser escolhido pela fama junto ao povo e pelo juízo dos vizinhos; para que a dignidade do pregador não seja desonrada pela infâmia de quem o acolhe.
São João Crisóstomo, in Matth. Como, então, o próprio Cristo ficava em casa de um publicano? Porque, evidentemente, este se tornara digno pela conversão; isso não só lhes redundava em glória, mas também em alimentação. Pois, se é digno, dará totalmente o alimento; e sobretudo quando nada além do necessário seria pedido. Considera, porém, como, despojando-os de tudo, lhes deu tudo, permitindo-lhes permanecer nas casas dos que eram ensinados. Assim, com efeito, eles mesmos eram livrados das preocupações e persuadiam os outros de que tinham vindo somente por causa da salvação deles, pelo fato de nada trazerem e nada pedirem além do necessário. E não entravam simplesmente em casa de todos: pois não queria que aparecessem ilustres somente pelos sinais, mas antes pela virtude. Ora, nada designa tanto a virtude quanto não usar o supérfluo.
São Jerônimo. Escolhe-se também um só hóspede, não para que conceda benefício àquele que vai ficar em sua casa, mas para que o receba; pois aqui se diz quem nela seja digno, para que ele reconheça melhor que recebe a graça, mais do que a dá.
São João Crisóstomo, in Matth. Considera, porém, que ainda não lhes concedeu tudo; pois não lhes dá o dom de saber quem é digno, mas manda investigar; e não só manda procurar os dignos, mas também não passar de casa em casa, ao acrescentar: e ali permanecei até partirdes: para que nem entristeçam quem os acolhe, nem eles mesmos recebam fama de leviandade ou de gula.
Santo Ambrósio, super Lucam(séc. IV). Não é, pois, em vão que se determina escolher a casa em que os apóstolos entrarão, para que não haja motivo de mudar de hospedagem; contudo, não se impõe a mesma cautela a quem recebe, para que, enquanto se escolhe o hóspede, não diminua a hospitalidade. Segue-se: Ao entrardes na casa, saudai-a, dizendo: Paz a esta casa.
Glosa. Como se dissesse: pedi paz para o hóspede, para que se aplaque toda repugnância contra a verdade.
São Jerônimo. Nisto também expressou ocultamente a saudação da língua hebraica e síria; pois o que em grego se diz chere, e em latim ave, na língua hebraica e síria se chama salemlach, ou samalach, isto é, a paz esteja contigo. O que ele prescreve é o seguinte: Ao entrardes, desejai a paz ao hóspede, e, quanto está em vós, apaziguai as guerras da discórdia. Se, porém, surgir contradição, vós tereis a recompensa pela paz oferecida; aqueles que não quiseram tê-la possuirão a guerra; daí se segue: E se aquela casa for digna, a vossa paz virá sobre ela; se, porém, não for digna, a vossa paz voltará para vós.
Remígio de Auxerre. Porque, evidentemente, ou cada um será predestinado à vida e seguirá a palavra celeste que ouve; ou, se ninguém quiser ouvir, o próprio pregador não ficará sem fruto: porque a paz volta a ele, quando é recompensado pelo Senhor pelo trabalho de sua obra.
São João Crisóstomo, in Matth. O Senhor os instrui, portanto, a não esperarem ser saudados primeiro pelos outros por causa de seu ensino, mas a anteciparem-se na saudação, honrando os outros. Em seguida mostra que não é apenas uma saudação, mas uma bênção, ao dizer: Se aquela casa for digna, a vossa paz virá sobre ela.
Remígio de Auxerre. O Senhor ensinou, pois, a seus discípulos a oferecer a paz na entrada da casa, para que pela saudação da paz fosse escolhida a casa digna, ou o hóspede; como se dissesse pacientemente: oferecei a paz a todos, porque, aceitando, mostrar-se-ão dignos, ou, não aceitando, mostrar-se-ão indignos; pois, ainda que o hóspede tenha sido escolhido digno pela fama junto ao povo, deve contudo ser saudado, para que os pregadores sejam chamados antes por sua dignidade do que pareçam impor-se por si mesmos. Esta paz, porém, de poucas palavras, pode referir-se a toda a exploração da casa ou do hóspede digno.
Santo Hilário, in Matth. Os apóstolos saúdam, portanto, a casa com afeto de paz; mas de modo que a paz seja antes pronunciada do que dada. Quanto à paz própria, porém, que é entranha de misericórdia, não convém que venha sobre ela, se não for digna; e se não for achada digna, o sacramento da paz celeste deve ser contido na própria consciência dos apóstolos. Sobre aqueles que rejeitarem os preceitos do reino celeste, pela saída dos apóstolos e pelo sinal do pó sacudido dos pés, fique a maldição eterna; daí se segue: E quem não vos receber, nem ouvir as vossas palavras, saindo daquela casa ou daquela cidade, sacudi o pó dos vossos pés. Pois a quem está num lugar parece haver comunhão com o lugar. Tudo, portanto, o que é daquela casa fica, sacudido o pó dos pés, e nada de saúde se recebe emprestado dos passos dos apóstolos que ali se detiveram.
São Jerônimo. O pó também é sacudido dos pés em testemunho de seu trabalho, porque entraram na cidade e a pregação apostólica chegou até eles. Ou o pó é sacudido para que, se será mais tolerável para a terra dos sodomitas do que para aquela cidade que não recebe o Evangelho, nada recebam deles, nem mesmo o necessário ao sustento, os que desprezaram o Evangelho.
Rábano Mauro. Ou de outro modo. Os pés dos discípulos significam a própria obra e o caminhar da pregação. O pó, com que são aspergidos, é a leviandade do pensamento terreno, da qual nem mesmo os maiores doutores podem ser isentos, quando, solícitos pelos ouvintes, aplicam-se sem cessar a cuidados salutares e, como pelos caminhos do mundo, recolhem num só calcanhar o pó da terra. Os que, portanto, desprezarem a doutrina dos que ensinam, voltam contra si os trabalhos, os perigos e o tédio das solicitudes, em testemunho de sua condenação. Os que, porém, receberem a palavra, convertem em argumento de humildade para si as aflições e os cuidados dos doutores que suportarão por eles. E para que não pareça leve a culpa de não receber os apóstolos, acrescenta: Em verdade vos digo: será mais tolerável para a terra de Sodoma e Gomorra no dia do juízo do que para aquela cidade.
São Jerônimo. Porque aos sodomitas e gomorreus não foi pregado; a esta, porém, tendo-lhe sido pregado, não recebe o Evangelho.
Remígio de Auxerre. Ou porque se lê que os sodomitas e gomorreus, entre os vícios da carne, foram também hospitaleiros; embora não tenham recebido tais hóspedes como os apóstolos.
São Jerônimo. Se, porém, será mais tolerável para a terra dos sodomitas do que para aquela cidade que não recebe o Evangelho, então entre os pecadores os suplícios são diversos.
Remígio de Auxerre. Faz, contudo, menção especial de Sodoma e Gomorra, para mostrar com isso que os pecados mais odiosos a Deus são os que se cometem contra a natureza, por causa dos quais o mundo foi destruído pelas águas do dilúvio, quatro cidades foram subvertidas, e o mundo é afligido cada dia por diversos males.
Santo Hilário, in Matth. Misticamente, porém, o Senhor nos instrui a não nos misturarmos às casas ou às familiaridades daqueles que ou perseguem a Cristo ou o ignoram; e, em qualquer cidade, a perguntar quem é digno de sua habitação, isto é, se em algum lugar há Igreja, e Cristo como habitante; e a não passar a nenhum outro lugar, porque esta é a casa digna e o hóspede justo. Dos judeus, porém, haveria muitos cuja afeição pela lei seria tão grande que, embora tivessem crido em Cristo pela admiração das obras, permaneceriam todavia nas obras da lei; outros, curiosos de explorar a liberdade que está em Cristo, fingiriam passar da lei aos Evangelhos; muitos também seriam levados à heresia pela perversidade da inteligência. E porque todos estes mentem que a verdade católica está com eles, deve-se usar com cautela da própria casa, isto é, da Igreja.
Mt 10,16-18
16Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas. 17Cuidai-vos dos homens. Eles vos levarão aos seus tribunais e sereis açoitados com varas nas suas sinagogas. 18Sereis por minha causa levados diante dos governadores e dos reis: servireis assim de testemunho para eles e para os pagãos.
São João Crisóstomo, in Matth. Porque acima removeu a solicitude dos apóstolos e os armou com a demonstração de seus sinais, prediz-lhes em seguida os males que deviam sobrevir-lhes. Primeiro, para que aprendessem a força de sua presciência; segundo, para que ninguém suspeitasse que esses males lhes sobreviriam por causa da fraqueza do mestre; terceiro, para que, ao suportá-los, não ficassem estupefatos, quando acontecessem inesperadamente e contra a esperança; quarto, para que, tendo ouvido isto, não se perturbem no tempo da cruz; depois, para que aprendam que esta é a nova lei do combate. Pois envia-os nus, ordena que sejam alimentados pelos que os acolhem; e não se detém nisso, mas mostra mais além o seu poder, dizendo: Eis que eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Onde se deve considerar que não os envia simplesmente aos lobos, mas no meio dos lobos, para que assim demonstrem mais o seu poder, quando as ovelhas vencerem os lobos, mesmo estando no meio dos lobos; e, recebendo deles muitíssimas mordidas, não só não são consumidas, mas ainda os convertem: ora, é muito mais admirável e maior transformar-lhes a mente do que matá-los. Entre os lobos, porém, ensina-os a mostrar a mansidão das ovelhas.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Quem, com efeito, recebe o lugar de pregador não deve infligir males, mas suportá-los; para que, por sua própria mansidão, aplaque a ira dos que o recebem, e, ferido ele próprio em outras aflições, sare as feridas dos pecados. Pois, se alguma vez o zelo da retidão exige que se enfureça contra os súditos, o próprio furor seja de amor, não de crueldade: de modo que exiba por fora os direitos da disciplina e por dentro ame com piedade paterna aqueles que por fora castiga. Muitos, porém, quando recebem os direitos do governo, inflamam-se para dilacerar os súditos, exibem o terror do poder, desejam parecer senhores, de modo algum se reconhecem pais, mudam o lugar da humildade em arrogância de dominação, e, se alguma vez afagam por fora, enfurecem-se por dentro: deles se diz: Vêm a vós com vestes de ovelhas, mas por dentro são lobos rapaces. Contra isso devemos considerar que somos enviados como ovelhas entre lobos, para que, guardando o sentido da inocência, não tenhamos a mordida da malícia.
São Jerônimo. Chama de lobos os escribas e fariseus, que são os clérigos dos judeus.
Santo Hilário, in Matth. Significa também por lobos todos aqueles que haviam de se enfurecer contra os apóstolos com louco furor.
São João Crisóstomo, in Matth. Ora, o poder daquele que os envia era a consolação para os seus males; e por isso o pôs antes de tudo, dizendo: Eis que eu vos envio; como se dissesse: Não vos perturbeis, porque sois enviados no meio de lobos: pois posso fazer que nada de mal sofrais; não apenas não sujeitos aos lobos, mas tornados mais terríveis que leões. Mas convém que assim aconteça; pois isto vos torna mais ilustres e divulga mais o meu poder. Depois, para que também eles contribuam com algo de si mesmos, e não se julgue que são coroados sem motivo, acrescenta: Sede, pois, prudentes como as serpentes e simples como as pombas.
São Jerônimo. Para que pela prudência evitem as ciladas, e pela simplicidade não façam o mal. E a astúcia da serpente é posta como exemplo, porque ela oculta a cabeça com todo o corpo, para proteger aquilo em que está a vida. Assim também nós, diante de todo perigo do corpo, guardemos a nossa cabeça, que é Cristo; isto é, procuremos conservar a fé íntegra e incorrupta.
Rábano Mauro. A serpente costuma também escolher fendas estreitas, passando pelas quais se despoja da pele velha; de modo semelhante, o pregador, passando pelo caminho estreito, deponha inteiramente o homem velho.
Remígio de Auxerre. Belamente também o Senhor admoesta os pregadores a ter a prudência da serpente, porque o primeiro homem foi enganado por uma serpente; como se dissesse: Já que o inimigo foi astuto para enganar, sede vós prudentes para libertar: ele louvou a árvore, louvai vós o poder da cruz.
Santo Hilário, in Matth. Aquele atacou primeiro o ânimo do sexo mais frágil, depois a seduziu com a esperança e prometeu a comunhão da imortalidade. Com igual oportunidade, portanto, examinada a natureza e a vontade de cada um, deve-se empregar a prudência nas palavras e revelar a esperança dos bens futuros; para que aquilo que ele mentiu, nós o preguemos como verdade, segundo a promessa de Deus: que os que crerem serão semelhantes aos Anjos.
São João Crisóstomo, in Matth. Assim como convém ter a prudência da serpente, para que não sejamos lesados nas coisas principais, assim também convém ter a simplicidade da pomba, em não nos vingarmos quando sofremos injustiças, nem prejudicando alguém por ciladas.
Remígio de Auxerre. O Senhor, porém, associou estas duas coisas porque a simplicidade sem prudência pode facilmente ser enganada; e a prudência é perigosa, se não for temperada pela simplicidade, de modo a não prejudicar ninguém.
São Jerônimo. A simplicidade das pombas, por sua vez, é mostrada pela aparência do Espírito Santo; por isso diz o Apóstolo: Sede crianças na malícia.
São João Crisóstomo, in Matth. Que se poderia impor de mais duro do que estas ordens? Pois não basta sofrer males, mas nem sequer é permitido perturbar-se, o que é próprio da pomba: com efeito, a ira não se extingue com a ira, mas com a mansidão.
Rábano Mauro. Que os lobos, de quem falara acima, são homens, mostra-o quando acrescenta: Guardai-vos dos homens.
Glosa. É necessário, pois, que sejais como serpentes, isto é, astutos: porque, segundo o seu costume, primeiro vos entregarão aos Conselhos, proibindo que pregueis em meu nome; depois, se não vos corrigirdes, vos açoitarão; por fim, sereis levados diante de reis e governadores.
Santo Hilário, in Matth. Os que tentam extorquir o vosso silêncio ou a vossa conivência.
São João Crisóstomo. É de admirar, porém, como os homens que nunca haviam saído daquele lago em torno do qual pescavam, ao ouvirem isto, não se retiraram logo: o que não foi apenas obra da virtude deles, mas da sabedoria do Mestre. Pois a cada um dos males ele acrescenta um alívio; por isso diz aqui: por minha causa; com efeito, não é pequena consolação sofrer por Cristo, porque não padeciam isso como perniciosos e nocivos. E acrescenta ainda: para lhes servir de testemunho.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Isto é, os que, perseguindo, causaram a morte, ou os que, vendo, não se converteram. Com efeito, a morte dos santos é auxílio para os bons e testemunho contra os maus, para que os perversos pereçam sem desculpa, por aquilo mesmo de que os eleitos tiram exemplo e vivem.
São João Crisóstomo, in Matth. Consolava-os com isto, não porque desejassem o castigo dos outros, mas para que tivessem confiança de que o têm em toda parte, presente e conhecedor do futuro.
Santo Hilário, in Matth. Mas por este testemunho não se deve apenas tirar aos perseguidores a desculpa de ignorarem a divindade, mas também abrir às nações o caminho de crer em Cristo, anunciado com firmeza, entre os suplícios dos que se enfureciam, pelas vozes dos confessores; e é isto que acrescenta: e às nações.
Mt 10,19-20
19Quando fordes presos, não vos preocupeis nem pela maneira com que haveis de falar, nem pelo que haveis de dizer: naquele momento vos será inspirado o que haveis de dizer. 20Porque não sereis vós que falareis, mas é o Espírito de vosso Pai que falará em vós.
São João Crisóstomo, in Matth. Além das consolações já dadas, acrescenta outra, não pequena: para que não dissessem: como poderemos persuadir homens assim, que nos perseguem, estando as perseguições em curso? Manda-os confiar quanto à resposta, dizendo: Quando vos entregarem, não vos preocupeis como ou o que haveis de falar.
Remígio de Auxerre. Diz duas coisas: como e o que; uma refere-se à sabedoria, a outra ao ofício da boca. Porque ele mesmo lhes fornecia tanto as palavras que haviam de dizer quanto a sabedoria com que as proferissem, não foi necessário aos santos pregadores pensar no que dizer nem como.
São Jerônimo. Com efeito, já que somos levados diante dos juízes por causa de Cristo, devemos oferecer por Cristo apenas a nossa vontade. De resto, o próprio Cristo, que habita em nós, fala por si, e a graça do Espírito Santo será ministrada ao responder.
Santo Hilário, in Matth. Pois a nossa fé, atenta a todos os preceitos da vontade divina, será instruída para a resposta do conhecimento, tendo como exemplo Abraão, a quem, ao pedir uma vítima em lugar de Isaac, não faltou o carneiro para o sacrifício; e por isso segue: Pois não sois vós que falais, mas o Espírito de vosso Pai que fala em vós.
Remígio de Auxerre. E o sentido é: vós ides ao combate, mas sou eu quem luta; vós pronunciais as palavras, mas sou eu quem fala. Por isso Paulo diz: Buscais uma prova de Cristo que fala em mim?
São Jerônimo. Com isso os elevou à dignidade dos profetas, que falaram pelo Espírito de Deus. Embora aqui diga: não vos preocupeis com o que haveis de falar, em outro lugar se diz: Estai sempre prontos a dar satisfação a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós. Pois quando o combate for entre amigos, mandam-nos ser solícitos; mas quando houver um julgamento terrível, povos enfurecidos e temor por toda parte, o auxílio vem de Cristo, para que falem com confiança e não fiquem atônitos.
Mt 10,21-22
21O irmão entregará seu irmão à morte. O pai, seu filho. Os filhos se levantarão contra seus pais e os matarão. 22Sereis odiados de todos por causa de meu nome, mas aquele que perseverar até o fim será salvo.
Glosa. Dada a consolação, acrescenta perigos mais graves; por isso se diz: O irmão entregará o irmão à morte, e o pai, o filho; e os filhos se levantarão contra os pais e os matarão.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Os males que vêm de estranhos causam menor dor; maior, os que sofremos daqueles de cujo ânimo presumíamos bem, porque esses males nos atormentam com o dano do corpo e o da caridade perdida.
São Jerônimo. Vemos isto acontecer com frequência nas perseguições: não há afeto fiel entre aqueles cuja fé é diversa.
São João Crisóstomo, in Matth. Depois acrescentou algo muito mais horrível, dizendo: E sereis odiados por todos os homens. Pois como a inimigos comuns do mundo inteiro, assim tentavam expulsá-los. Daí se acrescenta de novo uma consolação, quando diz: por causa do meu nome. E com isto se põe ainda outro consolo, quando se acrescenta: Mas aquele que perseverar até o fim, esse será salvo. Pois como muitos costumam ser veementes no princípio e depois se desfazem, por isso diz: porque exijo o fim. Que utilidade há em sementes que florescem no princípio, mas depois murcham? Por isso exige deles perseverança suficiente.
São Jerônimo. Com efeito, é próprio da virtude não ter começado, mas ter levado a termo.
Remígio de Auxerre. O prêmio não é dado aos que começam, mas aos que perseveram.
São João Crisóstomo, in Matth. Para que ninguém diga que Cristo fez tudo nos apóstolos, que nada há de admirável em que se tornassem tais, nada sofrendo de pesado, por isso diz que têm necessidade de perseverança. Pois ainda que tenham sido livrados dos primeiros perigos, são guardados para outros mais difíceis; e depois destes outros se seguirão, e não deixarão de sofrer ciladas enquanto viverem: e isto o insinua veladamente, dizendo: Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo.
Remígio de Auxerre. Isto é, quem não tiver abandonado os preceitos da fé e não tiver fraquejado nas perseguições será salvo, porque, em troca das perseguições terrenas, receberá os prêmios do reino celeste. E deve-se notar que o fim nem sempre significa consumação, mas às vezes perfeição, segundo aquilo: o fim da lei é Cristo. Donde também pode ser este o sentido: quem perseverar até o fim, isto é, em Cristo.
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Pois perseverar em Cristo é permanecer na fé nele, que opera pela caridade.
Mt 10,23
23Se vos perseguirem numa cidade, fugi para uma outra. Em verdade vos digo: não acabareis de percorrer as cidades de Israel antes que volte o Filho do Homem.
São João Crisóstomo, in Matth. Depois de predizer as coisas terríveis que lhes viriam após a cruz, a ressurreição e a ascensão, conduz de novo os discípulos a coisas mais brandas; com efeito, não os mandou ir audaciosamente à perseguição, mas fugir; por isso diz: quando vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra. Pois, como era então o princípio da conversão deles, usa de uma linguagem condescendente.
São Jerônimo. Isto, com efeito, deve ser referido àquele tempo em que os apóstolos eram enviados a pregar, aos quais foi dito propriamente: não ireis pelo caminho dos gentios; isto é, que não devem temer a perseguição, mas evitá-la. É o que vemos que os fiéis fizeram no princípio, quando, surgida a perseguição em Jerusalém, foram dispersos por toda a Judeia, de modo que a ocasião da tribulação se tornou semeadura do Evangelho.
Santo Agostinho, contra Faustum. Contudo, o Salvador não era incapaz de proteger os discípulos a quem manda fugir; e deu antes o exemplo disso; mas instruía a fraqueza do homem, para que não ouse tentar a Deus quando tem o que fazer, a fim de escapar do que convém evitar.
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Poderia, porém, tê-los advertido a que pusessem mãos sobre si mesmos, para não caírem nas mãos dos perseguidores. Ora, se ele não ordenou nem aconselhou que os seus saíssem desta vida dessa maneira, ele que prometeu preparar uma morada eterna para eles quando partissem, quaisquer exemplos que apresentem os povos que ignoram a Deus, é manifesto que isto não é lícito aos que creem no único Deus verdadeiro.
São João Crisóstomo. Para que não digam: e então, se, sofrendo a perseguição, fugirmos, e eles de novo nos expulsarem daqui? Destruindo este temor, diz: em verdade vos digo, não acabareis, isto é, não chegareis a mim, percorrendo a Palestina, até que eu vos receba.
Rábano Mauro. Ou prediz que eles não levarão todas as cidades de Israel à fé com suas pregações antes que a ressurreição do Senhor se tenha cumprido e tenha sido concedido o poder de pregar o Evangelho em todo o orbe da terra.
Santo Hilário, in Matth. Ou, de outro modo. Aconselha de uma fuga a outra, porque a sua pregação, primeiro expulsa da Judeia, passa à Grécia; depois, fatigada pelas diversas paixões dos apóstolos dentro das cidades da Grécia, demora-se em terceiro lugar em todas as nações. Mas, para mostrar que as nações creriam na pregação dos apóstolos, e que o resto de Israel, para crer, era devido à sua vinda, diz: não acabareis as cidades de Israel; isto é, depois da plenitude das nações, o que será o resto de Israel, para completar o número dos santos, deverá ser reunido na Igreja pela futura vinda gloriosa de Cristo.
Santo Agostinho, ad Honor. Façam, pois, os servos de Cristo o que ele ordenou ou permitiu: como ele mesmo fugiu para o Egito, fujam de cidade em cidade quando algum deles for especialmente procurado pelos perseguidores, para que, pelos outros que não são assim procurados, a Igreja não seja abandonada; mas deem alimento aos companheiros de serviço, que sabem não poder viver de outro modo. Quando, porém, o perigo é comum a todos, isto é, bispos, clérigos e leigos, aqueles que precisam de outros não sejam abandonados por aqueles de quem precisam. Ou passem todos a lugares fortificados; ou aqueles que têm necessidade de permanecer não sejam deixados por aqueles por quem deve ser suprida a necessidade eclesiástica deles: para que vivam juntos ou sofram juntos o que o pai de família quiser que sofram.
Remígio de Auxerre. Além disso, deve-se saber que, assim como o preceito de perseverar nas perseguições pertence especialmente aos apóstolos e aos seus sucessores, homens fortes, assim a licença de fugir convém bastante aos fracos na fé, com os quais o piedoso Mestre condescende: para que, se se tivessem oferecido espontaneamente ao martírio, talvez, postos nos tormentos, negassem; pois era mais leve fugir do que negar. Mas, embora fugindo não mostrassem em si a constância de uma fé perfeita, eram, contudo, de grande mérito, porque estavam prontos a abandonar tudo por Cristo, isto é, fugindo. Se, porém, não lhes tivesse dado a licença de fugir, alguns diriam que eles são alheios à glória do reino celeste.
São Jerônimo. Espiritualmente, porém, podemos dizer: quando vos perseguirem numa cidade, isto é, num só livro ou testemunho das Escrituras, não fujamos para outras cidades, isto é, para outros volumes: pois, por mais contencioso que seja o perseguidor, o auxílio do Salvador chegará antes que se conceda a vitória aos adversários.
Mt 10,24-25
24“O discípulo não é mais que o mestre, o servidor não é mais que o patrão. 25Basta ao discípulo ser tratado como seu mestre, e ao servidor como seu patrão. Se chamaram de Beelzebul ao pai de família, quanto mais o farão às pessoas de sua casa!
São João Crisóstomo, in Matth. Como haveria de acontecer que os discípulos, além das perseguições preditas, sofressem também má fama difamados, o que a muitos parecia mais penoso, aqui os consola por si mesmo e pelas coisas ditas a respeito dele; consolação à qual nenhuma outra poderia ser igual.
Santo Hilário, in Matth. Com efeito, o Senhor, luz eterna, guia dos que creem e pai da imortalidade, antepôs a seus discípulos o consolo das paixões futuras, para que tenhamos por glória sermos igualados ao nosso Senhor, ainda que seja nas paixões; por isso diz: o discípulo não está acima do mestre, nem o servo acima do seu senhor.
São João Crisóstomo, in Matth. Deve-se entender: enquanto for discípulo e servo; não está, digo, acima do mestre e do senhor, segundo a natureza da honra. E não me objetes aqui o que raramente acontece; mas recebe esta palavra a partir do que se dá na maioria dos casos.
Remígio de Auxerre. Chama a si mesmo de mestre e senhor; por servo e discípulo quer que se entendam os seus apóstolos.
Glosa. Como se dissesse: Não vos indigneis de suportar o que eu suporto, porque sou o senhor, fazendo o que quero, e mestre, ensinando o que sei ser útil.
Remígio de Auxerre. E porque esta sentença parecia pouco conforme às palavras anteriores, manifesta-se para onde tendem as palavras quando se acrescenta: Se chamaram Beelzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos?
São João Crisóstomo, in Matth. Não disse: servos, mas: domésticos, para mostrar a grande familiaridade que tinha com eles; como também disse em outro lugar: Não vos chamarei servos, mas meus amigos.
Remígio de Auxerre. Como se dissesse: Vós, portanto, não busqueis honras temporais e glória humana, vendo que eu redimo o gênero humano por meio de zombarias e opróbrios.
São João Crisóstomo, in Matth. Não disse apenas: Se injuriaram o senhor da casa; mas a própria espécie da injúria, porque o chamaram Beelzebu.
São Jerônimo. Beelzebu é o ídolo de Acaron, que no livro dos Reis é chamado ídolo da mosca: Beel é o mesmo que Bel, ou Baal; zebub, porém, significa mosca. Chamavam, pois, o príncipe dos demônios pelo nome de um ídolo sujíssimo, que é chamado mosca por causa da imundície, que destrói a suavidade do óleo.
Mt 10,26-28
26Não os temais, pois; porque nada há de escondido que não venha à luz, nada de secreto que não se venha a saber. 27O que vos digo na escuridão, dizei-o às claras. O que vos é dito ao ouvido, publicai-o de cima dos telhados. 28Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena.
Remígio de Auxerre. Depois da consolação já apresentada, acrescenta outra não menor, dizendo: Não os temais, portanto, isto é, os perseguidores. E por que não se deveria temer, manifesta-o quando acrescenta: Nada há encoberto que não venha a ser revelado, e oculto que não venha a ser conhecido.
São Jerônimo. Como, então, no tempo presente os vícios de muitos são ignorados? Mas isto está escrito a respeito do tempo futuro, quando Deus julgar as coisas ocultas dos homens, iluminar os esconderijos das trevas e tornar manifestos os desígnios dos corações. E o sentido é: Não temais a crueldade dos perseguidores nem o furor dos blasfemadores: porque virá o dia do juízo, no qual serão demonstradas tanto a vossa virtude como a maldade deles.
Santo Hilário, in Matth. Portanto, não adverte que se devam temer as ameaças, nem as injúrias, nem o poder dos que perseguem; porque o dia do juízo revelará que nada disso existiu e que era vão.
São João Crisóstomo, in Matth. Ou de outro modo. A forma do que é dito parece ter um enunciado universal; mas foi dito não de todas as coisas, e sim somente das anteriormente mencionadas: como se dissesse: Se vos afligis ao ouvir injúrias, pensai nisto: que também desta suspeita sereis libertados dentro de pouco. Chamam-vos adivinhos, magos e sedutores; mas esperai um pouco, e dir-vos-ão salvadores de todo o orbe da terra; quando pelas próprias obras vos mostrardes benfeitores: e os homens não atenderão aos discursos deles, mas à verdade dos fatos.
Remígio de Auxerre. Alguns, porém, dizem que, com estas palavras, o Senhor prometeu a seus discípulos que por meio deles seriam reveladas todas as coisas ocultas, os mistérios que estavam escondidos sob o véu da letra da lei: donde diz o Apóstolo: Quando se converterem a Cristo, então será tirado o véu. E o sentido é: Por que deveis temer os vossos perseguidores, sendo de tão grande dignidade que por vós foram manifestados os mistérios ocultos da lei e dos profetas?
São João Crisóstomo. Em seguida, porque os havia libertado de todo temor e os tornara superiores aos opróbrios, agora, em tempo oportuno, fala-lhes da livre proclamação que há na pregação, dizendo: O que vos digo nas trevas, dizei-o na luz; e o que ouvis ao ouvido, pregai-o sobre os telhados.
Santo Hilário, in Matth. Não lemos que o Senhor costumasse conversar durante as noites ou transmitir a doutrina nas trevas; mas diz isto porque toda palavra sua é trevas para os carnais, e a sua palavra é noite para os infiéis. Assim, o que por ele foi dito deve ser dito com a liberdade da fé e da confissão.
Remígio de Auxerre. Eis, pois, o sentido: o que vos digo nas trevas, isto é, entre os judeus incrédulos, dizei-o na luz, isto é, pregai-o aos fiéis; e o que ouvis ao ouvido, isto é, o que vos digo em segredo, pregai-o sobre os telhados, isto é, abertamente diante de todos. Costumamos, com efeito, dizer: fala-lhe ao ouvido, isto é, em segredo.
Rábano Mauro. Quanto ao que diz: pregai sobre os telhados, fala segundo o costume da província da Palestina, onde se costuma sentar nos terraços, porque não são pontiagudos, mas planos. Será, pois, pregado sobre os telhados o que será dito abertamente a todos os que ouvem.
Glosa. Ou de outro modo: O que vos digo nas trevas, isto é, enquanto ainda estais no temor carnal, dizei-o na luz, isto é, na confiança da verdade, quando fordes iluminados pelo Espírito Santo; e o que ouvis ao ouvido, isto é, o que percebeis apenas pelo ouvir, pregai-o, cumprindo-o em obras, estando sobre os telhados, isto é, sobre os vossos corpos, que são as moradas das almas.
São Jerônimo. Ou de outro modo: O que vos digo nas trevas, dizei-o na luz; isto é, o que ouvis em mistério, pregai mais abertamente; e o que ouvis ao ouvido, pregai-o sobre os telhados, isto é, o que eu vos instruí num pequeno lugar da Judeia, proclamai-o com ousadia a todas as cidades do mundo inteiro.
São João Crisóstomo, in Matth. Assim como, quando dizia: Quem crê em mim, as obras que eu faço, também ele as fará, e fará maiores do que estas, assim também aqui mostra que opera tudo por meio deles, mais ainda do que por si mesmo; como se dissesse: Eu dei o princípio; mas, o que é mais, quero levá-lo a termo por vós. Isto, porém, não é próprio apenas de quem ordena, mas de quem prediz o futuro e mostra que eles superarão tudo.
Santo Hilário, in Matth. Deve-se, pois, inculcar com constância o conhecimento de Deus, e o profundo segredo da doutrina evangélica deve ser revelado pela luz da pregação, sem temer aqueles que, embora tenham poder apenas sobre os corpos, não têm direito algum sobre a alma; e por isso se acrescenta: E não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma.
São João Crisóstomo. Vê como os estabeleceu superiores a todos: persuadindo-os a desprezar, por temor de Deus, não só a preocupação, a maldição e os perigos, mas até a própria morte, que a todos parece a mais terrível; por isso acrescenta: Temei antes aquele que pode destruir na geena tanto a alma como o corpo.
São Jerônimo. O nome de Geena não se encontra nos livros antigos, mas é posto primeiro pelo Salvador. Busquemos, pois, qual é a ocasião desta palavra. Lemos mais de uma vez que o ídolo de Baal esteve junto a Jerusalém, ao pé do monte Moriá, onde corre o Siloé. Este vale e pequena planície eram irrigados e arborizados, cheios de delícias, e nele havia um bosque consagrado ao ídolo. O povo de Israel chegara a tamanha demência que, abandonada a vizinhança do templo, imolava ali vítimas, e as delícias venciam o rigor da religião, e queimavam seus filhos ao Demônio; e o próprio lugar chamava-se Geenon, isto é, vale dos filhos de Hennon. Escrevem isto muito amplamente o livro dos Reis, os Paralipômenos e Jeremias; e Deus ameaça encher o próprio lugar de cadáveres de mortos, de modo que não se chame mais Tofet e Baal, mas se chame polyandrion, isto é, sepultura dos mortos. Assim, os suplícios futuros e as penas perpétuas, com que os pecadores hão de ser atormentados, são designados pelo nome deste lugar.
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Isto, porém, não acontecerá antes que a alma esteja unida ao corpo, de modo que não se separem por nenhuma ruptura; e contudo, então, com razão se diz morte da alma, porque não vive de Deus; e morte do corpo, porque, na condenação última, embora o homem não deixe de sentir, todavia, como o próprio sentir não é agradável pela vontade nem salutar pelo repouso, mas penoso pela dor, foi chamado antes morte do que vida.
São João Crisóstomo, in Matth. Vê, porém, de novo que não lhes promete a libertação da morte, mas os persuade a desprezar a morte, o que é muito maior do que ser livrado da morte; e que, com este discurso, lhes imprime os dogmas que dizem respeito à imortalidade.
Mt 10,29-31
29Não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade de vosso Pai. 30Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. 31Não temais, pois! Bem mais que os pássaros valeis vós.
São João Crisóstomo, in Matth. Depois de ter afastado o temor da morte, para que os apóstolos não pensassem que, se fossem mortos, seriam abandonados por Deus, introduz de novo o discurso sobre a providência de Deus, dizendo: Não se vendem dois pardais por um asse? E um deles não cairá por terra sem o vosso Pai?
São Jerônimo. E o sentido é: se os pequenos animais não caem sem Deus como autor, e há providência em todas as coisas, e aquilo que neles está destinado a perecer não perece sem a vontade de Deus, vós, que sois eternos, não deveis temer viver sem a providência de Deus.
Santo Hilário, in Matth. Misticamente, porém, o que se vende é o corpo e a alma; e aquele a quem se vende é o pecado. Assim, os que vendem dois pardais por um asse vendem-se a si mesmos a um pecado mínimo, nascidos para voar e para serem elevados ao céu por asas espirituais; mas, cativos pelo preço dos prazeres presentes, e à venda para o luxo do século, negociam-se inteiramente em tais ações. Ora, é da vontade de Deus que um deles antes voe para o alto; mas a lei, perfeita pela constituição de Deus, decreta que um deles antes caia. Pois, como se voassem seriam um só e o corpo se tornaria espiritual, assim, vendidos pelo preço dos pecados, a alma contrai a matéria terrena da sujeira dos vícios, e torna-se um daqueles que é lançado por terra.
São Jerônimo. Quanto ao que diz: Quanto a vós, até os cabelos da cabeça estão todos contados, mostra a imensa providência de Deus para com os homens, e assinala um afeto inefável, pois nada de nós escapa a Deus.
Santo Hilário, in Matth. Com efeito, reunir algo em número é próprio da diligência.
São João Crisóstomo, in Matth. Por isso disse isto, não porque Deus conte os cabelos, mas para mostrar um conhecimento diligente e uma grande providência a respeito deles.
São Jerônimo. Zombam da compreensão eclesiástica neste passo os que negam a ressurreição da carne, como se nós disséssemos que ressuscitam todos os cabelos que foram contados e cortados pelo barbeiro, embora o Salvador não tenha dito: os vossos cabelos serão todos salvos, mas foram contados. Onde há número, demonstra-se o conhecimento do número, não a conservação do mesmo número.
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Embora também se possa perguntar, a respeito dos próprios cabelos, se volta tudo o que caiu aos que os cortam: se isso há de voltar, quem não se horrorizaria com tal deformidade? Mas, uma vez entendido que nada do corpo perecerá, de modo que nada haja de disforme no corpo, entende-se ao mesmo tempo que aquelas coisas que teriam produzido a deformidade se acrescentarão à própria massa, e não aos lugares em que a forma dos membros seria perturbada: como se de barro se fizesse um vaso que, reduzido de novo ao mesmo barro, outra vez se refizesse inteiro do todo; não seria necessário que aquela parte do barro que estivera na asa voltasse à asa, nem que a que havia feito o fundo fizesse de novo o fundo; contanto que o todo voltasse ao todo, isto é, que todo aquele barro voltasse a ser o vaso inteiro, sem perder parte alguma de si. Por isso, se os cabelos tantas vezes cortados voltam deformemente aos seus lugares, não voltarão, porque na mesma carne, ocupando qualquer lugar do corpo, conservada a conveniência das partes, serão convertidos em proveito da matéria. Embora o que se diz: um cabelo de vossa cabeça não perecerá possa ser entendido não do comprimento, mas do número dos cabelos; por isso aqui se diz: os cabelos de vossa cabeça estão contados.
Santo Hilário, in Matth. Pois não é digno de empenho contar coisas que hão de perecer; assim, para que soubéssemos que nada de nós há de perecer, indica-se pelo próprio número de nossos cabelos computados. Portanto, nenhuma queda de nossos corpos deve ser temida; e por isso se acrescenta: não temais, pois: valeis mais do que muitos pardais.
São Jerônimo. Nisto se exprimiu mais claramente o sentido da exposição anterior, a saber, que não devem temer os que podem matar o corpo: pois se, sem o conhecimento de Deus, nem os pequenos animais caem, quanto mais o homem, que é sustentado pela dignidade apostólica?
Santo Hilário. Ou, quando diz que eles estão à frente de muitíssimos pardais, mostra que a escolha dos fiéis precede a multidão dos infiéis: porque para estes há a queda na terra, para aqueles o voo para o céu.
Remígio de Auxerre. Misticamente, porém, Cristo é a cabeça, os apóstolos os cabelos; os quais se dizem belamente contados, porque os nomes dos santos estão escritos nos céus.
Mt 10,32-33
32Portanto, quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante de meu Pai que está nos céus. 33Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus.
São João Crisóstomo, in Matth. O Senhor, afastando o temor que abalava a alma dos discípulos, fortalece-os de novo pelo que se segue, não só afastando o temor, mas também os erguendo, pela esperança de prêmios maiores, à livre proclamação da verdade, dizendo: todo aquele, pois, que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus. Considera, porém, atentamente que não disse quem me confessar, mas, como se lê em grego, quem me confessar em mim, para te mostrar que quem confessa não confessa por virtude própria, mas ajudado por uma graça superior.
Santo Hilário. Diz isto como conclusão: que, confirmados por tais doutrinas, convém que tenham a livre constância de confessar a Deus.
Remígio de Auxerre. A confissão aqui, porém, deve ser entendida como aquela de que fala o Apóstolo: com o coração se crê para a justiça, com a boca se faz a confissão para a salvação. Para que ninguém pensasse que poderia salvar-se sem a confissão da boca, não diz apenas quem me tiver confessado, mas acrescenta diante dos homens; e acrescenta de novo: quem, porém, me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus.
Santo Hilário. Nisto mostra que, quais testemunhas formos diante dos homens, tal será o testemunho que dele teremos junto a Deus Pai.
São João Crisóstomo, in Matth. Onde se deve considerar que no castigo o suplício é maior, e nos bens a retribuição é maior. Como se dissesse: tu me superaste antes, confessando-me ou negando-me aqui; superar-te-ei eu também, dando-te inefavelmente coisas maiores: pois lá eu te confessarei ou te negarei. Por isso, se fizeres algum bem e não receberes retribuição, não te perturbes: pois, com acréscimo, a retribuição te espera no tempo futuro. E se fizeres algum mal e não pagares a pena, não desprezes; pois lá te receberá o castigo, se não mudares e não te tornares melhor.
Rábano Mauro. E deve-se saber que negar que Deus exista, nem os pagãos o podem; mas que Deus seja Filho e Pai, isso os infiéis podem negar. O Filho, portanto, confessará alguém junto ao Pai, porque por meio do Filho ele terá acesso ao Pai, e porque o Filho dirá: vinde, benditos de meu Pai.
Remígio de Auxerre. Negará, porém, aquele que o nega, porque por meio dele não terá acesso ao Pai, e será repelido da presença de sua divindade e do Pai.
São João Crisóstomo, in Matth. Por isso, porém, exige não só a fé que está na mente, mas também a confissão da boca, para nos erguer à livre proclamação e a um amor maior, tornando-nos elevados. Ora, estas palavras dirige-as a todos, e não fala apenas na pessoa dos apóstolos: pois não torna corajosos somente os apóstolos, mas também os discípulos deles. Quem agora observa isto não só ensinará com livre proclamação, mas também persuadirá facilmente a todos: a observância desta palavra, com efeito, levou muitos aos apóstolos.
Rábano Mauro. Ou alguém confessa Jesus com a fé que opera pela caridade, cumprindo fielmente os seus mandamentos; nega-o quem não obedece aos preceitos.
Mt 10,34-36
34Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. 35Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, 36e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa.
São Jerônimo. Havia dito antes: “O que vos digo nas trevas, dizei-o na luz”; agora acrescenta o que se segue após a pregação, dizendo: “Não penseis que vim trazer a paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a espada”.
Glosa. Ou, de outro modo, continua assim: como o temor da morte não deve atrair, assim também não o afeto carnal.
São João Crisóstomo, in Matth. Como lhes ordenou que, entrando em cada casa, anunciassem a paz, como também os Anjos disseram: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens”, porque esta é sobretudo a paz: quando se corta o que está doente, quando se separa o que provoca a discórdia; assim, com efeito, será possível unir o céu à terra. Pois também o médico conserva assim o resto do corpo, quando amputa o que está incuravelmente enfermo. Assim também se deu na torre de Babel: pois uma boa dissonância desfez uma paz má. Assim também Paulo dividiu os que concordavam contra ele. Pois nem em toda parte a concórdia é um bem: também os ladrões concordam entre si. Ora, esta guerra não é do seu propósito, mas do desígnio daqueles.
São Jerônimo. Pois, por causa da fé em Cristo, o mundo inteiro se dividiu contra si mesmo. Cada casa teve infiéis e crentes, e por isso foi enviada a boa guerra, para que se rompesse a paz má.
São João Crisóstomo, in Matth. Disse isto como que consolando os discípulos; como se dissesse: Não vos perturbeis, como se essas coisas vos acontecessem contra a esperança; pois por isso vim, para trazer a guerra. E não disse: guerra; mas, o que é mais difícil.
gladium. Quis, com efeito, com a aspereza das palavras despertar o ouvido deles, para que não desfaleçam diante da dificuldade das coisas, a fim de que ninguém diga que persuadiu com suavidade, mas ocultou as dificuldades. Pois é melhor ver a mansidão nas obras do que nas palavras; e por isso não se deteve nestas, mas, expondo a espécie da guerra, mostrou que ela é mais difícil que a guerra civil, dizendo: “Vim, com efeito, separar o homem de seu pai, e a filha de sua mãe, e a nora de sua sogra”. Nisso mostra que essa guerra não será somente entre familiares, mas entre os mais amados e muito necessários: o que mostra sobretudo a virtude de Cristo, porque os discípulos, ouvindo isso, também eles o aceitaram e persuadiram outros. Embora o próprio Cristo não tenha feito essa separação, mas a malícia deles, diz, contudo, que ele a faz, segundo o costume da Escritura. Pois está escrito: “Deus lhes deu olhos para que não vejam”. Isto mostra sobretudo que o Antigo Testamento é aparentado ao Novo. Com efeito, entre os judeus, cada um matava o próximo, quando fizeram o bezerro e quando sacrificaram a Baal-Peor; por isso, para mostrar que é o mesmo aquele a quem agradaram uma e outra coisa, lembra a profecia, dizendo: “e os inimigos do homem, os seus familiares”. E entre os judeus aconteceu algo semelhante: havia profetas e falsos profetas; e o povo se dividia, e as casas se dividiam; e estes criam nestes, mas outros naqueles.
São Jerônimo. Este passo está escrito quase com as mesmas palavras no profeta Miqueias. E deve-se notar, onde quer que se apresente um testemunho do Antigo Testamento, se concordam apenas o sentido ou também as palavras.
Santo Hilário, in Matth. Misticamente, porém, a espada é a mais aguda de todas as armas, na qual está o direito do poder, o rigor do juízo e o castigo dos pecados. Lembremo-nos, portanto, de que a palavra de Deus é chamada espada; essa espada foi enviada à terra, isto é, a sua pregação, infundida nos corações dos homens. Esta, pois, divide cinco que habitam numa só casa, três em dois, e dois em três; e os três referimos ao homem, isto é, corpo, alma e vontade: pois, assim como a alma foi dada ao corpo, assim também foi concedido ao homem o poder de usar de ambos como quisesse; e por isso a lei foi proposta à vontade. Mas isto só se encontra naqueles que foram os primeiros formados por Deus. Mas, pelo pecado e pela infidelidade do primeiro pai, nas gerações seguintes o pecado começou a ser o pai do nosso corpo, a infidelidade a mãe da alma. A vontade, porém, jaz junto a cada um: portanto, já são cinco numa só casa. Quando, pois, somos renovados pelo banho do Batismo, pela virtude da palavra somos separados dos pecados de nossa origem e, cortados como por um golpe da espada de Deus, afastamo-nos dos afetos do pai e da mãe, e surge grave dissensão numa só casa, e os da casa serão inimigos do homem novo: porque ele se alegrará de permanecer na novidade do espírito; aqueles, porém, que provêm da antiguidade da estirpe, desejam permanecer naquilo em que se deleitam.
Augustinus, de quaest. Evang. Ou de outro modo. “Vim separar o homem de seu pai”: porque alguém renuncia ao Diabo, que foi seu pai; “e a filha de sua mãe”, isto é, o povo de Deus da cidade mundana, isto é, da sociedade perniciosa do gênero humano, que a Escritura designa ora com o nome de Babilônia, ora de Egito, ora de Sodoma, ora com outros e outros nomes. “A nora de sua sogra”: a Igreja da sinagoga, que segundo a carne deu à luz Cristo, esposo da Igreja. Dividem-se, porém, pela espada do espírito, que é a palavra de Deus. “E os inimigos do homem, os seus familiares”, aqueles com quem antes estava ligado pelo costume.
Rábano Mauro. Nenhum direito pode ser guardado entre aqueles entre os quais há guerra de fé.
Glosa. Ou de outro modo. Diz isto como se dissesse: não vim entre os homens para confirmar os afetos carnais, mas para cortá-los com a espada espiritual; por isso se diz com razão: “e os inimigos do homem, os seus familiares”.
São Gregório Magno(séc. VI). Com efeito, o adversário astuto, quando vê que é repelido dos corações dos bons, procura aqueles que são muito amados por eles; e, lisonjeando, fala pelas palavras dos que são mais amados que os outros, para que, enquanto a força do amor perfura o coração, a espada de sua persuasão irrompa facilmente nas defesas da retidão íntima.
Mt 10,37-39
37Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim não é digno de mim. Quem ama seu filho mais que a mim não é digno de mim. 38Quem não toma a sua cruz e não me segue não é digno de mim. 39Aquele que tentar salvar a sua vida irá perdê-la. Aquele que a perder, por minha causa, irá reencontrá-la.
São Jerônimo. Porque antes havia dito: “Não vim trazer a paz, mas a espada”, e dividir o homem contra o pai, a mãe e a sogra, para que ninguém subtraísse a piedade à religião, acrescentou, dizendo: “Quem ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim”. E lemos no Cântico dos Cânticos: “Ordenou em mim a caridade”. Pois esta ordem é necessária em todo afeto. Ama, depois de Deus, o pai ou a mãe ou os filhos. Se, porém, chegar a necessidade de que o amor dos pais ou dos filhos seja comparado ao amor de Deus, e não se possa salvar ambos, o ódio aos seus é piedade para com Deus. Não proibiu, pois, amar o pai ou a mãe; mas acrescentou expressamente “mais do que a mim”.
Santo Hilário, in Matth. Pois aqueles que antepuserem as afeições domésticas dos homens ao amor dele serão indignos da herança dos bens futuros.
São João Crisóstomo, in Matth. Se, porém, Paulo manda obedecer aos pais em tudo, não te admires: pois diz que se deve obedecer-lhes somente naquilo que não prejudica a piedade; com efeito, é santo prestar-lhes toda outra honra. Quando, porém, exigirem mais que o devido, não convém assentir. Ora, isto é consoante com o Antigo Testamento: pois ali o Senhor manda não só ter ódio, mas até apedrejar os que adoravam ídolos; e no Deuteronômio se diz: “Quem disser a seu pai e a sua mãe: Não vos conheço; e a seus irmãos: Ignoro-os, estes guardaram a tua palavra”.
Glosa. Parece, porém, acontecer em muitos casos que os pais amam mais os filhos do que os filhos os amam; e por isso, gradualmente, depois de ter ensinado que o amor a ele deve ser preferido ao amor dos pais, ensina em seguida que deve ser preferido também ao amor dos filhos, dizendo: E quem ama o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim.
Rábano Mauro. Com isso indica que é indigno da comunhão divina aquele que antepõe o amor carnal do parentesco ao amor espiritual de Deus.
São João Crisóstomo, in Matth. Em seguida, para que aqueles a quem se prefere o amor de Deus não o recebam com desgosto, leva-os a um discurso mais elevado. Com efeito, nada nos é mais familiar que a vida; contudo, também esta ele não mandou simplesmente ter em ódio, mas entregá-la a mortes e derramamentos de sangue; mostrando que é preciso estar preparado não só para a morte, mas para uma morte violenta e sumamente infame, isto é, a morte de cruz; por isso se segue: E quem não toma a sua cruz e me segue, não é digno de mim. Mas ainda não lhes tinha dito nada sobre a sua própria paixão; entretanto, os instrui nestas coisas para que acolham melhor o discurso sobre a sua paixão.
Santo Hilário, in Matth. Ou: os que são de Cristo crucificaram a sua carne com os vícios e concupiscências; e é indigno de Cristo quem não toma a sua cruz, na qual sofremos com ele, morremos com ele, somos sepultados com ele, ressuscitamos com ele, e não segue o Senhor, para viver, neste sacramento da fé, na novidade do espírito.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. A cruz, com efeito, tem este nome por causa do tormento; e de dois modos carregamos a cruz do Senhor: quando afligimos a carne pela abstinência, ou quando, por compaixão do próximo, consideramos a necessidade dele como nossa. Deve-se saber, porém, que há alguns que praticam a abstinência da carne não por Deus, mas por vã glória; e há alguns que dispensam a compaixão ao próximo não espiritualmente, mas de modo carnal, de maneira que, por assim dizer, compadecendo-se dele, favorecem-lhe as culpas e não a virtude. Estes, portanto, parecem levar a cruz, mas não seguem o Senhor; e por isso diz: e me segue.
São João Crisóstomo, in Matth. Como, porém, esses preceitos que são impostos pareciam pesados, apresenta também a sua máxima utilidade, dizendo: Quem achar a sua vida, perdê-la-á; como se dissesse: não só estas coisas que antes disse não prejudicam, mas aproveitarão sobretudo; as contrárias, porém, prejudicarão. E isto ele faz em toda parte. Com efeito, parte daquilo que os homens desejam, como se dissesse: por que não queres desprezar a tua vida? Porque a amas? Por isso mesmo despreza-a, e então lhe serás sumamente útil.
Remígio de Auxerre. Neste lugar, porém, vida não se deve entender como substância, mas como esta vida presente; e o sentido é: quem achar a sua vida, isto é, esta vida presente; ou seja, quem deseja esta luz, o amor a ela e os prazeres, a fim de poder sempre encontrá-los, perderá esta que deseja conservar sempre, e prepara a sua alma para a condenação eterna.
Rábano Mauro. Ou de outro modo: quem busca a salvação eterna da sua alma, não duvida em perdê-la, isto é, entregá-la à morte. Ora, a ambos os sentidos convém perfeitamente o que se segue: e quem perder a sua vida por causa de mim, achá-la-á.
Remígio de Auxerre. Isto é, quem, no tempo da perseguição, por causa da confissão do meu nome, tiver desprezado esta luz temporal, e os amores e prazeres dela, achará para a sua alma a salvação eterna.
Santo Hilário, in Matth. Assim, pois, o ganho da alma resulta em morte, e a perda em salvação: com efeito, pela perda de uma vida breve adquire-se o juro da imortalidade.
Mt 10,40-42
40Quem vos recebe, a mim recebe. E quem me recebe recebe aquele que me enviou. 41Aquele que recebe um profeta, na qualidade de profeta, receberá uma recompensa de profeta. Aquele que recebe um justo, na qualidade de justo, receberá uma recompensa de justo. 42Todo aquele que der ainda que seja somente um copo de água fresca a um destes pequeninos, porque é meu discípulo, em verdade eu vos digo: não perderá sua recompensa.”
São Jerônimo. O Senhor, enviando os discípulos a pregar, ensina que os perigos não devem ser temidos e submete o afeto à religião; tinha tirado o ouro, tinha sacudido o bronze do cinto: dura é a condição dos evangelistas. De onde, então, o sustento, de onde o alimento, de onde o necessário, e o mais? E por isso tempera a austeridade dos preceitos com a esperança das promessas, dizendo: Quem vos recebe, recebe a mim; para que, ao acolher os apóstolos, cada um dos fiéis julgue ter acolhido a Cristo.
São João Crisóstomo, in Matth. Com efeito, o que foi dito antes bastava para persuadir aqueles que haviam de receber os apóstolos. Pois quem não receberia com todo o desejo homens tão fortes, que desprezavam tudo para que os outros se salvassem? E acima ameaçou de castigo os que não os recebessem; aqui, porém, promete retribuição aos que os recebem. E primeiro promete honra aos que recebem os apóstolos: que recebam Cristo, e também o Pai; por isso acrescenta: E quem me recebe, recebe aquele que me enviou. Que honra será igual a esta, que alguém receba o Pai e o Filho?
Santo Hilário, in Matth. Nestas palavras ensina também nele o ofício de mediador; pois, tendo sido recebido por nós, e tendo ele mesmo procedido de Deus, Deus, por meio dele, se derrama em nós; e, por esta ordem das graças, receber os apóstolos não é outra coisa que receber a Deus: porque neles habita Cristo, e em Cristo habita Deus.
São João Crisóstomo, in Matth. Promete, depois disso, ainda outra retribuição, dizendo: Quem recebe um profeta em nome de profeta, receberá a recompensa de profeta. Não disse simplesmente: quem recebe um profeta, ou quem recebe um justo; mas acrescenta em nome de profeta e em nome de justo; isto é, se o recebeu não pela eminência desta vida, nem por qualquer outra coisa temporal, mas porque é profeta ou justo.
São Jerônimo. Ou de outro modo: Como tinha convidado os discípulos a acolher os mestres, a resposta dos fiéis podia ficar oculta: então devemos receber também os falsos profetas e Judas, o traidor. Por isso o Senhor diz que não se devem receber as pessoas, mas os nomes; e que a recompensa de quem recebe não se perde, ainda que seja indigno aquele que foi recebido.
São João Crisóstomo, in Matth. Diz, porém: receberá a recompensa de profeta e a recompensa de justo; isto é, a recompensa que convém receber àquele que acolhe um profeta ou um justo; ou a recompensa que o profeta ou o justo haverá de receber.
São João Crisóstomo, in Matth. Com efeito, não disse a recompensa pelo profeta ou pelo justo, mas a recompensa do profeta ou do justo. Pois talvez este seja um justo; e quanto menos possui neste mundo, tanto maior confiança tem para falar em favor da justiça. Quando aquele que possui algo neste mundo o sustenta, faz-se participante da liberdade da justiça dele e receberá igualmente, com aquele a quem sustentou e ajudou, os prêmios da justiça. Aquele está cheio do espírito de profecia, mas, contudo, necessita de alimento corporal; e se o corpo não é reconfortado, é certo que a própria voz se lhe retira. Portanto, quem dá alimento ao profeta deu-lhe forças para falar; assim, receberá a recompensa de profeta, com o profeta, aquele que, diante dos olhos de Deus, prestou isto: que o ajudou.
São Jerônimo. Misticamente, porém, quem recebe o profeta como profeta, e o entende falando das coisas futuras, este receberá a recompensa do profeta. Logo, os judeus, que entendem os profetas de modo carnal, não receberão a recompensa dos profetas.
Remígio de Auxerre. Alguns, contudo, entendem por profeta o Senhor Jesus Cristo, de quem Moisés diz: Deus vos suscitará um profeta; e do mesmo modo entendem por justo, porque é incomparavelmente justo. Quem, portanto, em nome do justo e do profeta, isto é, de Cristo, acolhe um profeta ou um justo, receberá a retribuição daquele por cujo amor o acolhe.
São Jerônimo. Alguém poderia, porém, alegar e dizer: a pobreza me impede de poder ser hospitaleiro; e ele dissolve essa desculpa com um exemplo levíssimo, para que ofereçamos de todo o coração um copo de água fria, dizendo: e quem der de beber a um destes pequeninos, apenas um copo de água fria, em nome de discípulo, em verdade vos digo, não perderá a sua recompensa. Fria, diz, não quente; para que não se buscasse, também no caso da água quente, um pretexto de pobreza e de escassez de lenha.
Remígio de Auxerre. Diz, porém, pequeninos, isto é, não ao profeta, não ao justo, mas a algum dos pequeninos.
Glosa. Onde se nota que Deus olha mais para o afeto piedoso de quem dá do que para a quantidade da coisa oferecida. Ou então, pequeninos são os que absolutamente nada têm neste mundo, e serão juízes com Cristo.
Santo Hilário, in Matth. Ou então, prevendo que haveria muitos gloriosos apenas pelo nome de apostolado, mas reprováveis em toda a obra de sua vida, não defrauda de recompensa o serviço que lhes foi prestado sob a opinião de religião: pois, ainda que eles mesmos fossem pequeninos, isto é, os últimos de todos os pecadores, decide, contudo, que os serviços prestados a eles, mesmo os leves, indicados sob o nome de água fria, não são vãos. Com efeito, a honra foi prestada não aos pecados do homem, mas ao nome de discípulo.