Catena Aurea de São Tomás de Aquino

Mateus 9 comentado pelos Padres da Igreja

162 comentários de São João Crisóstomo, São Jerônimo, Remígio de Auxerre, Santo Hilário, Rábano Mauro, Glosa, Santo Agostinho, Ioannes, São Gregório Magno e Santo Ambrósio sobre as passagens Mt 9,1-8, Mt 9,9-13, Mt 9,14-17, Mt 9,18-22, Mt 9,23-26, Mt 9,27-31, Mt 9,32-34 e Mt 9,35-38, reunidos por São Tomás de Aquino no século XIII e traduzidos do latim.

Mt 9,1-8

1Jesus tomou de novo a barca, passou o lago e veio para a sua cidade. 2Eis que lhe apresentaram um paralítico estendido numa padiola. Jesus, vendo a fé daquela gente, disse ao paralítico: “Meu filho, coragem! Teus pecados te são perdoados”. 3Ouvindo isso, alguns escribas murmuraram entre si: “Este homem blasfema”. 4Jesus, penetrando-lhes os pensamentos, perguntou-lhes: “Por que pensais mal em vossos corações? 5Que é mais fácil dizer: Teus pecados te são perdoados, ou: Levanta-te e anda? 6Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra o poder de perdoar os pecados: Levanta-te – disse ele ao paralítico –, toma a tua maca e volta para tua casa”. 7Levantou-se aquele homem e foi para sua casa. 8Vendo isso, a multidão encheu-se de medo e glorificou a Deus por ter dado tal poder aos homens.

São João Crisóstomo, in Matth(séc. IV). Cristo mostrou anteriormente o seu poder pela doutrina, quando os ensinou como quem tem autoridade; pelo leproso, quando disse: Quero, fica limpo; pelo centurião, que disse: Dize uma palavra, e meu servo será curado; pelo mar, que refreou com a palavra; pelos demônios, que o confessavam; aqui, porém, de novo de um modo ainda maior, obriga os seus inimigos a confessar a igualdade de honra com o Pai; por isso, para mostrar isto, acrescenta-se: E subindo Jesus a uma barquinha, atravessou e veio à sua cidade. Entra num barco aquele que podia atravessar o mar a pé; pois nem sempre queria fazer coisas admiráveis, para não prejudicar a razão da encarnação.

Ioannes, episcopus. Mas o Criador das coisas, o Senhor do orbe da terra, depois que por nossa causa se estreitou na nossa carne, começou a ter uma pátria humana, começou a ser cidadão de uma cidade judaica, começou a ter pais, ele que é o pai de todos os pais, para que a caridade atraísse aqueles que o temor havia dispersado.

São João Crisóstomo, in Matth. Aqui, porém, chama de sua cidade Cafarnaum: pois uma o recebeu ao nascer, a saber, Belém; outra o criou, a saber, Nazaré; e outra o teve habitando continuamente, a saber, Cafarnaum.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas(séc. IV–V). Ou de outro modo. O que Mateus escreve aqui sobre a cidade do Senhor, e Marcos sobre Cafarnaum, seria de solução mais difícil se Mateus tivesse nomeado Nazaré; agora, porém, como a própria Galileia podia ser chamada cidade de Cristo, porque em Galileia estava Nazaré, assim como todo o reino romano, constituído de tantas cidades, é chamado agora cidade romana, quem duvidaria de que o Senhor, vindo à Galileia, fosse corretamente dito ter vindo à sua cidade, em qualquer povoado da Galileia que estivesse, sobretudo porque a própria Cafarnaum se destacava na Galileia, a ponto de ser tida como metrópole?

São Jerônimo(séc. IV–V). Ou entendamos que a sua cidade não é outra senão Nazaré: por isso também foi chamado Nazareno.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. E segundo isto, dizemos que Mateus omitiu o que aconteceu depois que Jesus veio à sua cidade, até que chegasse a Cafarnaum, e aqui acrescentou a cura do paralítico; como muitos fazem, omitindo o que está no meio, como se aquilo se seguisse imediatamente, o que acrescentam sem nenhum sinal de omissão; e deste modo acrescenta-se aqui: E eis que lhe apresentaram um paralítico, deitado num leito.

São João Crisóstomo, in Matth. Mas este paralítico é diferente daquele que sofre em João. Aquele jazia nas piscinas, este em Cafarnaum; aquele carecia de servos, este tinha quem cuidasse dele, os quais, carregando-o, o trouxeram.

São Jerônimo. Apresentaram-lhe o que jazia no leito, porque ele mesmo não podia caminhar.

São João Crisóstomo, in Matth. Mas nem sempre ele exige a fé somente dos enfermos, por exemplo quando enlouquecem, ou quando, de outro modo, pela doença estão fora de si; por isso acrescenta-se: Vendo Jesus a fé deles.

São Jerônimo. Não a daquele que era apresentado, mas a dos que o apresentavam.

São João Crisóstomo, in Matth. Como, pois, mostram tão grande fé, ele também mostra o seu poder, perdoando os pecados com toda autoridade; por isso se segue: Disse ao paralítico: Tem confiança, filho, os teus pecados te são perdoados.

Ioannes, episcopus. Quanto vale diante de Deus a fé própria, diante de quem a fé alheia valeu tanto que curou o homem por dentro e por fora? O paralítico ouve o perdão e se cala; nem responde com ação de graças, porque se inclinava mais à cura do corpo do que à da alma. Com razão, portanto, Cristo recebe a fé dos que o apresentavam, não a insensatez do que jazia.

São João Crisóstomo, in Matth. Ou também a fé deste enfermo era grande: pois não teria permitido ser descido pelo telhado, como diz outro Evangelista, se não cresse.

São Jerônimo. Ó admirável humildade! Chama de filho o desprezado e fraco, desfeito em todas as junturas dos membros, a quem os sacerdotes não se dignavam tocar; ou então o chama filho porque os seus pecados lhe são perdoados: onde se nos dá a entender que as fraquezas dos corpos sobrevêm, na maioria das vezes, por causa dos pecados. E talvez por isso os pecados sejam perdoados primeiro, para que, removidas as causas da fraqueza, a saúde seja restituída.

São João Crisóstomo, in Matth. Os escribas, querendo difamar, fizeram resplandecer, mesmo sem querer, o que foi feito; pois Cristo se serviu da inveja deles para a manifestação do sinal: com efeito, é a superabundância da sua sabedoria manifestar as suas obras por meio dos inimigos; por isso se segue: E eis que alguns dos escribas disseram entre si: Este blasfema.

São Jerônimo. Lemos no profeta: Eu sou aquele que apago todas as tuas iniquidades. Por conseguinte, os escribas, porque o julgavam um homem e não entendiam as palavras de Deus, acusam-no do vício da blasfêmia. Mas, vendo os pensamentos deles, mostra-se Deus, que pode conhecer os segredos do coração, e de certo modo, calando, fala: com o mesmo poder com que vejo os vossos pensamentos, posso também perdoar os pecados aos homens. Por vós mesmos entendei o que o paralítico recebe. Daí se segue: E Jesus, tendo visto os pensamentos deles, disse: Por que pensais o mal em vossos corações?

São João Crisóstomo, in Matth. Não destruiu, de fato, a suspeita deles, a saber, a de que pensavam que ele dissera as coisas ditas como Deus. Pois, se não fosse igual a Deus Pai, convinha que dissesse: Estou longe desse poder, isto é, de perdoar os pecados. Agora, porém, confirmou o contrário com a sua voz e com a demonstração do milagre; por isso acrescenta: Que é mais fácil dizer: Os teus pecados te são perdoados, ou dizer: Levanta-te e anda? Quanto a alma é superior ao corpo, tanto perdoar o pecado é maior do que curar o corpo. Mas, como aquilo não é manifesto e isto é manifesto, faz o que é menos, que é mais manifesto, para demonstrar o que é maior e não manifesto.

São Jerônimo. Se os pecados foram perdoados ao paralítico, só o sabia aquele que os perdoava; mas levanta-te e anda tanto podia comprovar aquele que se levantava quanto os que o viam levantar-se; embora seja próprio do mesmo poder perdoar os vícios do corpo e da alma. Entre dizer e fazer, porém, há grande distância. Seja, pois, um sinal corporal, para que se comprove o espiritual; daí se segue: Mas, para que saibais que o Filho do homem tem na terra o poder de perdoar os pecados.

São João Crisóstomo, in Matth. Antes, ao paralítico não disse: Eu te perdoo os pecados, mas: Os teus pecados te são perdoados; mas, porque os escribas resistiam, mostra o seu poder mais elevado, dizendo: Porque o Filho do homem tem o poder de perdoar os pecados. E, para mostrar-se igual ao Pai, não disse: O Filho do homem precisa de alguém para perdoar os pecados, mas: Porque tem.

Glosa(séc. XII). Estas palavras, para que saibais, podem ser de Cristo ou do Evangelista; como se o Evangelista dissesse: eles duvidavam de que ele perdoasse os pecados; mas, para que saibais que o Filho do homem tem o poder, diz ao paralítico. Se, porém, se disser que Cristo pronunciou estas palavras, entendem-se assim: vós duvidais de que eu possa perdoar os pecados; mas, para que saibais que o Filho do homem tem o poder de perdoar os pecados: oração esta que é incompleta; mas se acrescenta a ação no lugar da consequência; por isso se diz: Disse ao paralítico: Levanta-te e toma o teu leito.

Ioannes, episcopus. Para que o que foi prova da enfermidade seja testemunho da saúde. E vai para a tua casa, para que, curado pela fé cristã, não morras na perfídia dos judeus.

São João Crisóstomo, in Matth. Ordenou isto para que não se julgasse ser fantasia o que foi feito; por isso, para mostrar a verdade do fato, acrescenta-se: E levantou-se e foi para a sua casa. Mas os homens presentes ainda são arrastados para baixo; por isso se segue: Vendo isso, as multidões temeram e glorificaram a Deus, que deu tal poder aos homens. Pois, se tivessem pensado bem consigo mesmos, teriam reconhecido que era o Filho de Deus. Entretanto, não era pouco julgá-lo maior do que todos os homens e vindo de Deus.

Santo Hilário, in Matth(séc. IV). Misticamente, porém, rejeitado pela Judeia, volta à sua cidade. A cidade de Deus é o povo dos fiéis; nela, pois, entrou levado por uma barca, isto é, a Igreja.

Ioannes, episcopus. Cristo, porém, não precisa da barca, mas a barca precisa de Cristo, porque, sem o governo celeste, a barca da Igreja não pode chegar, pelo mar do mundo, ao porto celeste.

Santo Hilário. No paralítico, porém, apresenta-se a totalidade dos gentios a ser curada. Este é apresentado para ser servido pelos Anjos; é chamado filho, porque é obra de Deus; a ele são perdoados os pecados da alma, que a lei não podia desatar: pois só a fé justifica. Depois mostra o poder da ressurreição, pois, com o levantar do leito, ensinou que a enfermidade faltará aos corpos.

São Jerônimo. Segundo o sentido tropológico, porém, às vezes a alma, jazendo em seu corpo com as virtudes dissolvidas, é apresentada ao Senhor, perfeito mestre, para ser curada: cada enfermo, com efeito, deve recorrer a intercessores para pedir a saúde, por meio dos quais os passos coxos de nossas ações sejam restaurados pelo remédio da palavra celeste. Há, pois, admoestadores da mente que elevam às coisas superiores o ânimo do ouvinte, ainda que entorpecido pela debilidade do corpo exterior.

Ioannes, episcopus. O Senhor, porém, neste mundo não busca as vontades dos insensatos, mas olha para a fé de outro; nem o médico olha para a vontade dos doentes, quando o enfermo exige coisas contrárias.

Rábano Mauro(séc. IX). Levantar-se é afastar a alma dos desejos carnais; tomar o leito é elevar a carne dos desejos terrenos ao deleite do espírito; ir para casa é voltar ao Paraíso, ou à guarda interior de si mesmo, para que não peque outra vez.

São Gregório Magno(séc. VI). Ou, pelo leito, designa-se o prazer do corpo. Ordena-se, portanto, que o carregue, são, onde jazera enfermo: porque todo aquele que ainda se deleita nos vícios jaz enfermo nos prazeres da carne; mas, curado, carrega-o, porque suporta depois as afrontas daquela mesma carne em cujos desejos antes repousava interiormente.

Santo Hilário, in Matth. Vendo isso, as multidões temeram. É, de fato, motivo de grande temor ser dissolvido na morte sem que os pecados tenham sido perdoados por Cristo, porque não há retorno à casa eterna para quem não tiver recebido o perdão dos delitos. Cessando o temor, porém, dá-se honra a Deus, porque foi dado aos homens, por esta via, por meio da sua palavra, o poder da remissão dos pecados, da ressurreição dos corpos e do retorno ao céu.

Mt 9,9-13

9Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, que estava sentado no posto do pagamento das taxas. Disse-lhe: “Segue-me”. O homem levantou-se e o seguiu. 10Como Jesus estivesse à mesa na casa desse homem, numerosos publicanos e pecadores vieram e sentaram-se com ele e seus discípulos. 11Vendo isso, os fariseus disseram aos discípulos: “Por que come vosso mestre com os publicanos e com os pecadores?”. 12Jesus, ouvindo isso, respondeu-lhes: “Não são os que estão bem que precisam de médico, mas sim os doentes. 13Ide e aprendei o que significam estas palavras: Eu quero a misericórdia e não o sacrifício (Os 6,6). Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”.

São João Crisóstomo, in Matth. Depois que Cristo fez o milagre, não permaneceu no mesmo lugar, para não acender maior zelo dos judeus. Façamos também nós isto, não resistindo obstinadamente aos que armam ciladas; donde se diz: E, passando Jesus dali, isto é, do lugar onde fizera o milagre, viu um homem sentado na coletoria, chamado Mateus.

São Jerônimo. Os demais Evangelistas, por vergonha e em honra de Mateus, não quiseram chamá-lo pelo nome comum, mas disseram Levi: pois teve dois nomes. O próprio Mateus, porém (segundo aquilo de Salomão, Pr 18,17: o justo é acusador de si mesmo), chama-se a si mesmo Mateus e publicano, para mostrar aos leitores que ninguém deve desesperar da salvação, se se converteu para o melhor, uma vez que ele mesmo, de publicano, foi de repente mudado em apóstolo.

Glosa. Diz, porém, sentado na coletoria, isto é, na casa onde se reúnem os tributos. Era, com efeito, coletor, assim chamado de telon, em grego, que significa tributo.

São João Crisóstomo, in Matth. Por isso, portanto, mostra o poder de quem chama: porque, sem que ele desistisse do ofício perigoso, o arrancou do meio dos males, como também a Paulo, ainda enfurecido; e por isso se segue: e disse-lhe: Segue-me. Assim como viste o poder de quem chama, aprende também a obediência do chamado. Pois nem resistiu, nem pediu para ir à casa e comunicar isto aos seus.

Remígio de Auxerre(séc. IX). Desprezou também os perigos humanos, que lhe podiam sobrevir da parte dos príncipes, ao deixar inacabadas as contas de seu ofício; donde se segue: e, levantando-se, seguiu-o. E porque abandonou os lucros terrenos, com razão foi feito dispensador dos talentos do Senhor.

São Jerônimo. Neste passo, porém, Porfírio e Juliano Augusto acusam ou a imperícia do historiador que mente, ou a estultícia dos que seguiram logo o Salvador; como se tivessem seguido sem razão um homem qualquer que os chamava, tendo precedido tantos prodígios e tantos sinais, que não há dúvida de que os apóstolos viram antes de crer. Certamente o próprio fulgor e a majestade da divindade oculta, que resplandecia mesmo no rosto humano, podia atrair a si, à primeira vista, os que o viam. Pois se se diz haver na pedra magnética esta força de atrair o ferro, quanto mais o Senhor de todas as criaturas podia atrair a si aqueles que quisesse?

São João Crisóstomo, in Matth. Mas por que não o chamou com Pedro, João e os outros? Porque estava ainda mais duramente disposto; mas chamou-o depois de muitos milagres e da grande fama de Cristo, quando aquele que conhece o íntimo do coração o soube mais apto à obediência.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Ou parece mais provável que Mateus mencione isto recordando coisas omitidas: porque se deve crer que Mateus foi chamado antes do sermão proferido no monte; pois nesse monte Lucas menciona então todos os doze escolhidos, a quem chama apóstolos. Mateus, com efeito, refere a sua vocação entre os milagres: foi, de fato, grande milagre que um publicano se tornasse apóstolo.

São João Crisóstomo, in Matth. Que significa, porém, que dos outros apóstolos não se diz como e quando foram chamados, a não ser de Pedro, André, Tiago, João e Mateus? Estes, com efeito, estavam sobretudo em ocupações inconvenientes e humildes: pois nada há pior que o ofício de coletor, nem mais vil que a pesca.

Glosa. Mateus, retribuindo a correspondência devida ao benefício celeste, preparou para Cristo um grande banquete em sua casa, para emprestar seus bens temporais àquele de quem esperava os bens eternos; donde se segue: e aconteceu que, estando ele à mesa na casa.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Mateus não expressou em cuja casa Jesus estava à mesa; donde poderia parecer que não acrescentou isto em ordem, mas que interpôs, por recordação, o que se fez em outro tempo; se Marcos e Lucas, que narram isto de modo totalmente semelhante, não manifestassem que Jesus esteve à mesa na casa de Levi, isto é, de Mateus.

São João Crisóstomo, in Matth. Mateus, honrado com a entrada de Cristo em sua casa, convocou todos os publicanos, que eram do mesmo ofício; donde se segue: eis que muitos publicanos e pecadores, vindo, estavam à mesa com Jesus e seus discípulos.

Glosa. Chamam-se publicanos, com efeito, os que se ocupam de negócios públicos, que sem pecado ou dificilmente ou nunca podem ser tratados. E foi belo presságio: porque aquele que seria apóstolo e doutor dos gentios, em sua primeira conversão arrasta atrás de si para a salvação um rebanho de pecadores; para já cumprir pelo exemplo o que devia cumprir também pela palavra.

São Jerônimo. Tertuliano diz que estes eram gentios, dizendo a Escritura: não haverá tributo cobrado de Israel; como se Mateus não tivesse sido judeu. Ora, o Senhor não banqueteia com gentios, evitando isso ao máximo, para não parecer dissolver a lei, ele que também ordenou aos discípulos: não ireis pelo caminho dos gentios. Eles, porém, tinham visto que um publicano, convertido dos pecados para o melhor, encontrara lugar de penitência, e por isso também eles não desesperam da salvação.

São João Crisóstomo, in Matth. Por isso aproximaram-se de nosso Redentor, e foram recebidos não só para conversar, mas também para comer com ele: pois não somente disputando, ou curando, ou repreendendo os inimigos, mas também comendo junto, emendava muitas vezes os que estavam mal dispostos, ensinando-nos por isso que todo tempo e toda obra pode trazer-nos utilidade. Vendo isto, os fariseus indignaram-se; deles se acrescenta: e vendo os fariseus, diziam aos seus discípulos: Por que come vosso mestre com os publicanos e pecadores? Deve-se notar que, quando os discípulos parecem pecar, falam a Cristo, dizendo: eis que teus discípulos fazem o que não é lícito fazer no sábado; aqui, junto aos discípulos, difamam a Cristo; tudo isso era próprio de malignos, que queriam separar do mestre os corações dos discípulos.

Rábano Mauro. Mas estavam presos a um duplo erro, porque tanto se julgavam justos, eles que pelo fausto da soberba se haviam afastado longe da justiça, quanto acusavam de injustos aqueles que, voltando a si dos pecados, se aproximavam da justiça.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Lucas, porém, parece ter relatado isto de modo algo diferente; segundo ele, os fariseus dizem aos discípulos: Por que comeis e bebeis com os publicanos e pecadores?, insinuando que isso era objetado a Cristo e a seus discípulos. Mas, embora se dissesse aos discípulos, objetava-se mais ao mestre, a quem imitavam seguindo-o. Una é, portanto, a sentença, e tanto melhor insinuada quanto, permanecendo a verdade, mudada em algumas palavras.

São Jerônimo. E não vêm a Jesus permanecendo no que eram antes, como murmuram os fariseus e escribas, mas fazendo penitência; o que também significa a presente palavra do Senhor; donde se segue: Jesus, porém, ao ouvir isso, disse: Não é de médico que precisam os que têm saúde, mas os que estão mal.

Rábano Mauro. Chama a si mesmo de médico, que, por um admirável modo de curar, foi ferido por causa de nossas iniquidades, para sanar a ferida de nossos pecados. Chama de sãos aqueles que, querendo estabelecer a própria justiça, não se submetem à verdadeira justiça de Deus. Chama de doentes aqueles que, vencidos pela consciência de sua fragilidade, e não vendo que se justificam pela lei, se submetem, fazendo penitência, à graça de Deus.

São João Crisóstomo, in Matth. Depois de lhes ter falado a partir das opiniões comuns, fala-lhes a partir das Escrituras, quando diz: Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício.

São Jerônimo. Tomando o testemunho do profeta, a saber, Oseias, censura os escribas e fariseus, que, julgando-se justos, evitavam a companhia dos pecadores e publicanos.

São João Crisóstomo, in Matth. Como se dissesse: Por que me acusais, porque corrijo os pecadores? Acusai, pois, também por isso a Deus Pai. Pois assim como ele quer a emenda dos pecadores, assim também eu. E assim mostra que o que acusavam não só não era proibido, mas era, segundo a lei, até maior que o sacrifício: com efeito, não disse: Misericórdia quero e sacrifício; mas acrescentou isto e rejeitou aquilo.

Glosa. Deus, contudo, não despreza o sacrifício, mas o sacrifício sem misericórdia. Os fariseus faziam frequentemente sacrifícios no templo, para parecerem justos diante do povo; mas não exerciam as obras de misericórdia, nas quais se comprova a verdadeira justiça.

Rábano Mauro. Adverte-os, pois, que pelas obras de misericórdia busquem para si os prêmios da misericórdia do alto; e que, desprezadas as necessidades dos pobres, não confiem agradar a Deus pela oferta de sacrifícios; por isso diz Ide, isto é, da temeridade de uma insensata censura para uma meditação mais diligente da Sagrada Escritura, que maximamente recomenda a misericórdia; por isso também lhes propõe o seu exemplo de misericórdia, dizendo: Pois não vim chamar os justos, mas os pecadores.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Lucas acrescentou: à penitência; o que serve para esclarecer o sentido, para que ninguém julgue que os pecadores são amados por Cristo pelo simples fato de serem pecadores: pois também aquela comparação dos doentes bem indica o que Deus quer ao chamar os pecadores. Como o médico aos doentes, a saber, para que da iniquidade, como de uma enfermidade, sejam salvos; o que se faz pela penitência.

Santo Hilário, in Matth. Cristo, porém, viera para todos: como então diz que não veio para os justos? Havia, pois, alguns para os quais não era necessário que ele viesse? Mas ninguém é justo pela lei. Mostra, portanto, a vã jactância de justiça, porque os sacrifícios eram necessários aos fracos para a salvação, e a misericórdia a todos os que estavam postos sob a lei.

São João Crisóstomo, in Matth. Por isso parece falar-lhes com ironia, como quando se diz: Eis que Adão se tornou como um de nós. Pois que ninguém era justo na terra, Paulo o significa dizendo: Todos pecaram e estão privados da glória de Deus. Nisso, porém, suavizou também aqueles que haviam sido chamados; como se dissesse: tanto recuso abominar os pecadores que vim somente por causa deles.

Rábano Mauro. Ou porque os que eram justos, como Natanael e João Batista, não deviam ser convidados à penitência. Ou: não vim chamar os falsos justos, que se gloriam de sua justiça, como os fariseus, mas aqueles que se reconhecem pecadores. Pela vocação de Mateus e dos publicanos exprime-se a fé dos gentios, que antes cobiçavam os lucros do mundo e agora se refazem espiritualmente com o Senhor; pela soberba dos fariseus, a inveja dos judeus pela salvação dos gentios. Ou Mateus significa o homem que cobiça lucros terrenos, a quem Jesus vê, quando o olha com o olhar da misericórdia. Mateus, com efeito, se interpreta dado, Levi, assumido: o penitente é assumido da massa dos perdidos e é dado à Igreja pela graça de Deus. E Jesus lhe diz: Segue-me, seja pela pregação, seja pela advertência da Escritura, seja pela inspiração interna.

Mt 9,14-17

14Então, os discípulos de João, dirigindo-se a ele, perguntaram: “Por que jejuamos nós e os fariseus, e os teus discípulos não?”. 15Jesus respondeu: “Podem os amigos do esposo 'estar triste', enquanto o esposo está com eles? Dias virão em que lhes será tirado o esposo. Então, eles jejuarão”. 16“Ninguém põe um remendo de pano novo numa veste velha, porque arrancaria uma parte da veste e o rasgão ficaria pior. 17Não se coloca tampouco vinho novo em odres velhos; do contrário, os odres se rompem, o vinho se derrama e os odres se perdem. Coloca-se, porém, o vinho novo em odres novos, e assim tanto um como outro se conservam.”

Glosa. Tendo-lhes respondido sobre o banquete e a participação com os pecadores, abordam-no a respeito do comer; por isso se diz: Então os discípulos de João se aproximaram dele, dizendo: Por que nós e os fariseus jejuamos frequentemente, e os teus discípulos não jejuam?

São Jerônimo. Pergunta soberba, e jactância de jejum digna de repreensão. E os discípulos de João não podiam deixar de estar sob o vício, unindo-se aos fariseus, que sabiam terem sido condenados por João; e caluniavam aquele que sabiam ter sido anunciado pelas palavras de seu mestre.

São João Crisóstomo, in Matth. O que dizem é isto: seja; tu, como médico, fazes isto; mas por que os teus discípulos, deixando o jejum, se aproximam de tais mesas? Em seguida, querendo agravar a acusação por meio da comparação, põem primeiro a si mesmos e depois os fariseus. Aqueles, por um lado, jejuavam aprendendo da lei, como também disse o fariseu: Jejuo duas vezes por semana; estes, porém, aprendendo de João.

Rábano Mauro. João, com efeito, não bebia vinho nem bebida fermentada: isso aumenta o mérito da abstinência naquele a quem não pertence nenhum poder da natureza. O Senhor, porém, que pode perdoar os pecados, por que haveria de se afastar dos pecadores que comem, se podia torná-los mais justos do que os que se abstêm? Cristo jejua, para não se desviar do preceito; come, porém, com os pecadores, para que compreendas a graça e o poder.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Mas, embora Mateus afirme que apenas os discípulos de João disseram isto, as palavras que se leem em Marcos indicam antes que uns disseram isto a respeito de outros, isto é, os convivas a respeito dos discípulos de João e dos fariseus; o que Lucas exprimiu mais claramente, ele que narrou que uns disseram aos outros. Por que, então, Mateus diz: Então se aproximaram dele os discípulos de João, senão porque também eles estavam presentes, e todos, à porfia, cada um como podia, objetaram isto?

São João Crisóstomo, in Matth. Ou Lucas diz que os fariseus disseram isto, e aqui se diz que foram os discípulos de João: porque os fariseus os levaram consigo para dizer o que depois fizeram com os herodianos. Mas deve-se considerar que, quando o discurso era em favor de estranhos, como os publicanos, para apaziguar-lhes o ânimo perturbado, ele os investiu com mais veemência, repreendendo-os; quando, porém, injuriavam os discípulos, responde com mansidão; por isso se segue: E Jesus lhes disse: Acaso podem os filhos do esposo estar de luto enquanto o esposo está com eles? Primeiro chamara a si mesmo de médico; aqui, porém, de esposo, trazendo à memória as palavras de João, que disse: Quem tem a esposa é o esposo.

São Jerônimo. O esposo é Cristo, a esposa, porém, é a Igreja. Desta união espiritual foram criados os apóstolos, que não podem estar de luto enquanto veem o esposo no tálamo e sabem que o esposo está com a esposa. Quando, porém, as núpcias tiverem passado e chegar o tempo da paixão e da ressurreição, então os filhos do esposo jejuarão. E é isto o que se acrescenta: Virão dias em que o esposo lhes será tirado; e então jejuarão.

São João Crisóstomo, in Matth. O que diz é isto: o tempo presente é de alegria e de regozijo; não se devem, pois, introduzir coisas tristes; com efeito, o jejum é triste não por natureza, mas para estes que ainda estão dispostos de modo mais frágil; para os que desejam contemplar a sabedoria, é deleitável; por isso falou isto segundo a opinião deles. Com isso, porém, mostra que o que se fazia não era por gula, mas por certa dispensação.

São Jerônimo. Alguns, porém, pensam que por isso os jejuns devem ser cumpridos nos quarenta dias da paixão, embora logo o dia de Pentecostes e o Espírito Santo, que vem, nos tragam a festividade. Com base nesta ocasião do testemunho, Montano, Prisca e Maximila fazem a Quaresma também depois de Pentecostes, porque, tirado o esposo, os filhos do esposo devem jejuar. O costume da Igreja, porém, chega à paixão do Senhor e à ressurreição pela humildade da carne, para que preparemos pelo jejum do corpo o alimento espiritual.

São João Crisóstomo, in Matth. De novo confirma este discurso com exemplos comuns, quando acrescenta: Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho; pois tira a sua plenitude do vestido, e o rasgão se faz pior; como se dissesse: meus discípulos ainda não se tornaram fortes, mas ainda precisam de muita condescendência; ainda não foram renovados pelo Espírito. A pessoas assim dispostas não convém impor o peso dos preceitos. Disse isto, porém, dando uma regra aos seus discípulos, para que recebam com mansidão os discípulos vindos de todo o orbe da terra.

Remígio de Auxerre. Quer que se entenda por vestido velho os discípulos, porque ainda não estavam renovados em tudo. Chama de pano novo, isto é, recente, a graça nova, isto é, a doutrina evangélica, da qual o jejum é uma pequena parte; e por isso não convinha que lhes fossem confiados os preceitos mais severos do jejum, para que talvez não se quebrassem pela austeridade do jejum e perdessem a fé que tinham; por isso acrescenta: pois tira a sua plenitude do vestido, e o rasgão se faz pior.

Glosa. Como se dissesse: por isso o pano novo, isto é, recente, não deve ser posto em vestido velho, porque muitas vezes tira do vestido a sua plenitude, isto é, a perfeição; e então o rasgão se faz pior. Com efeito, um fardo pesado imposto a um principiante muitas vezes destrói o bem que antes nele havia.

Remígio de Auxerre. Postas, pois, duas comparações, a saber, a das núpcias e a do pano novo no vestido velho, acrescenta agora uma terceira comparação, a dos odres e do vinho: Nem se põe vinho novo em odres velhos. Chama de odres velhos os seus discípulos, que ainda não estavam perfeitamente renovados. Chama de vinho novo a plenitude do Espírito Santo e as profundezas dos mistérios celestes, que os discípulos então não podiam suportar; mas, depois da ressurreição, tornaram-se odres novos e receberam o vinho novo quando o Espírito Santo encheu os seus corações. Por isso alguns disseram: Estes estão cheios de mosto.

São João Crisóstomo, in Matth. Daí nos ensinou também a causa das palavras humildes que dizia continuamente a eles, por causa da fraqueza deles.

São Jerônimo. Ou de outro modo. Pelo vestido velho e pelos odres velhos devemos entender os escribas e fariseus; pela parte do vestido novo e pelo vinho novo, os preceitos evangélicos: os quais os judeus não podem suportar, para que não se faça um rasgão maior. Algo semelhante desejavam fazer também os gálatas, misturando com o Evangelho os preceitos da lei e pondo vinho novo em odres velhos. O discurso evangélico, portanto, deve ser infundido antes nos apóstolos do que nos escribas e fariseus, que, depravados pelas tradições dos antepassados, não podiam guardar a pureza dos preceitos de Cristo.

Glosa. Com isso, portanto, significa que os apóstolos, que convinha serem inundados pela novidade da graça, não deviam ser retidos nas antigas observâncias.

Santo Agostinho, in Serm. de Quadrag. Ou de outro modo. Todo aquele que jejua retamente, ou humilha a sua alma no gemido da oração e na mortificação do corpo, ou suspende os atrativos carnais pelo deleite da sabedoria espiritual. Sobre ambos os gêneros de jejum o Senhor aqui responde: pois a respeito do primeiro, que traz a humilhação da alma, diz: Não podem os filhos do esposo estar de luto; a respeito do que é banquete da mente, falou em seguida, dizendo: Ninguém põe remendo de pano novo. Depois, porque o esposo nos foi tirado, é preciso estar de luto. E com razão estamos de luto, se ardemos de desejo dele. Bem-aventurados aqueles a quem foi concedido tê-lo então presente antes da paixão, interrogá-lo como quisessem, ouvi-lo como deviam. Aqueles dias desejaram ver os patriarcas antes da sua vinda, e não os viram, porque foram ordenados em outra dispensação, para que por meio deles se anunciasse aquele que haveria de vir, e não para que o ouvissem quando viesse; em nós, porém, cumpriu-se aquilo que ele mesmo diz: Virão dias em que desejareis ver um dos dias de agora, e não podereis. Quem, pois, aqui não estará de luto? Quem não dirá: As minhas lágrimas tornaram-se meu pão dia e noite, enquanto me dizem todos os dias: Onde está o teu Deus? Com razão, portanto, o Apóstolo desejava ser desatado e estar com Cristo.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Portanto, o que Mateus disse sobre lamentar, onde Marcos e Lucas dizem jejuar, significa que o Senhor falou de um tal jejum que pertence à humildade da tribulação, de modo que se entenda que aquele outro, que pertence à alegria da mente suspensa nas coisas espirituais e, por isso, afastada dos alimentos corporais, foi significado pelas semelhanças posteriores; mostrando que, para os ocupados com o corpo e, por isso, possuidores do sentido velho, esse gênero de jejum não convém

Santo Hilário, in Matth. Misticamente, porém, ao responder que, estando presente o esposo, os discípulos não têm necessidade de jejuar, ensina a alegria de sua presença e o sacramento do santo alimento, do qual ninguém, estando ele presente (isto é, tendo Cristo diante do olhar da mente), tinha necessidade; diz, porém, que, tirado ele, jejuarão; porque todos os que não creem que Cristo ressuscitou não teriam o alimento da vida. Pois na fé da ressurreição é recebido o sacramento do pão celeste

São Jerônimo. Ou, quando ele se afastar de nós por causa dos pecados, então se deve proclamar o jejum, então se deve receber o luto

Santo Hilário, (ut supra). Apresenta também exemplos, com os quais mostra que as almas e os corpos enfraquecidos pela velhice dos pecados não comportam os sacramentos da nova graça

Rábano Mauro. Embora tenham sido dadas diversas semelhanças para o mesmo fim, diferem, contudo: pois a veste com que somos cobertos por fora significa as boas obras, que praticamos exteriormente; o vinho com que somos restaurados por dentro é o fervor da fé e da caridade, pelo qual somos interiormente renovados

Mt 9,18-22

18Falava ele ainda, quando se apresentou um chefe da sinagoga. Prostrou-se diante dele e lhe disse: “Senhor, minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe-lhe as mãos e ela viverá”. 19Jesus levantou-se e o foi seguindo com seus discípulos. 20Ora, uma mulher atormentada por um fluxo de sangue, havia doze anos, aproximou-se dele por trás e tocou-lhe a orla do manto. 21Dizia consigo: “Se eu somente tocar na sua vestimenta, serei curada”. 22Jesus virou-se, viu-a e disse-lhe: “Tem confiança, minha filha, tua fé te salvou”. E a mulher ficou curada instantaneamente.

São João Crisóstomo, in Matth. Depois dos discursos acrescentou uma obra, pela qual os fariseus fossem ainda mais confundidos, pois quem veio pedir o milagre era chefe da sinagoga, e o luto era grande, porque a menina era unigênita e tinha doze anos, quando começa a flor da idade; e por isso se diz, falando ele estas coisas a eles: eis que um chefe se aproximou

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Dizem isto também Marcos e Lucas, mas já se afastam desta ordem: com efeito, inserem-no no lugar em que, depois de expulsos os demônios e enviados aos porcos, ele volta, atravessando o mar, da região dos gerasenos. E, pelo que Marcos diz, deve-se entender que isso aconteceu depois que ele veio de novo para o outro lado do mar; mas quanto tempo depois, não aparece. Se, porém, não tivesse havido algum intervalo, não haveria quando acontecesse o que Mateus narra no banquete em sua casa. Depois deste fato segue-se imediatamente o da filha do chefe da sinagoga. Se, com efeito, enquanto ele falava do pano novo, o chefe se aproximou, nada mais de seus feitos e ditos foi interposto; na narração de Marcos, porém, é claro o lugar onde outras coisas puderam ser interpostas. De modo semelhante, Lucas também não contradiz Mateus: pois o que acrescentou: e eis que um homem cujo nome era Jairo, não deve ser tomado como acontecido imediatamente, mas depois daquilo do banquete dos publicanos, como narra Mateus dizendo: falando ele estas coisas a eles, eis que um chefe, isto é, Jairo, chefe da sinagoga, aproximou-se e o adorava, dizendo: Senhor, minha filha acaba de morrer. Deve-se considerar, porém, para que não pareça haver contradição, que os outros dois Evangelistas dizem que ela estava já próxima da morte, mas não morta, a ponto de dizerem que depois vieram os que anunciassem que estava morta, e que por isso não se devia incomodar o Mestre: deve-se entender, com efeito, que Mateus, por brevidade, quis antes dizer isto, que o Senhor foi rogado a fazer o que é manifesto que fez, a saber, também ressuscitar a morta. Pois atende não às palavras do pai sobre sua filha, mas, o que é principal, à vontade. Tinha, com efeito, desesperado de tal modo que preferia que ressuscitasse aquela que deixara moribunda, não crendo que se pudesse encontrá-la viva. Assim, os dois expuseram o que Jairo disse; Mateus, porém, o que ele quis e pensou. Sem dúvida, se algum daqueles dois tivesse mencionado que o próprio pai disse que Jesus não fosse incomodado, porque a menina estava morta, as palavras que Mateus pôs repugnariam ao pensamento dele. Agora, porém, não se lê que ele tenha concordado com os que lhe anunciavam. Daqui aprendemos algo muito necessário: que nas palavras de cada um não se deve examinar senão a vontade, à qual as palavras devem servir; e que ninguém mente, se disser com outras palavras o que quis aquele cujas palavras não diz

São João Crisóstomo, in Matth. Ou o que o chefe disse sobre a morte da menina é aumentar a calamidade. Com efeito, é costume dos que suplicam exagerar em palavras os próprios males e dizer algo a mais do que é, para atrair mais aqueles a quem suplicam; por isso acrescenta: mas vem, impõe a mão sobre ela, e viverá. Vê, porém, sua rudeza. Pois pede a Cristo duas coisas: que venha e que imponha a mão. Isto também aquele sírio Naamã pedia ao profeta. Pois precisam também da vista e das coisas sensíveis os que estavam dispostos de modo mais rude

Remígio de Auxerre. Deve-se admirar e imitar igualmente a humildade e a mansidão do Senhor: pois, logo que foi rogado, começou a seguir o que rogava; por isso acrescenta: e Jesus, levantando-se, o seguia. Aqui instruiu igualmente súditos e prelados: o súdito deixou o exemplo de obediência, aos prelados, porém, mostrou a insistência e a solicitude em ensinar, para que, sempre que ouvirem que alguém está morto na alma, procurem acorrer imediatamente. E com ele iam seus discípulos

São João Crisóstomo, in Matth. Marcos e Lucas dizem que tomou três discípulos, a saber, Pedro, Tiago e João; a Mateus, porém, não levou, infundindo-lhe maior desejo, e porque estava ainda disposto de modo mais imperfeito; por isso, com efeito, honra aqueles, para que os outros se tornem semelhantes a eles. Bastava, entretanto, a Mateus ver o que foi feito com a que sofria de fluxo de sangue, da qual se acrescenta: e eis que uma mulher que sofria de fluxo de sangue havia doze anos, aproximou-se por trás e tocou a orla de seu manto

São Jerônimo. Esta mulher com fluxo de sangue não se aproxima do Senhor em casa, nem na cidade, porque segundo a lei era excluída das cidades; mas no caminho, enquanto o Senhor andava; para que, enquanto ele vai a uma, outra fosse curada

São João Crisóstomo, in Matth. Por isso, porém, não veio a Cristo com franca manifestação, porque se envergonhava por causa da enfermidade, julgando-se impura: com efeito, segundo a lei, esta enfermidade era considerada de muita impureza; por isso se esconde e se oculta

Remígio de Auxerre. Nisso deve-se louvar sua humildade, porque não se aproximou de frente, mas por trás, e julgou-se indigna de tocar os pés do Senhor; e não tocou a plenitude do manto, mas somente a orla: com efeito, o Senhor tinha orla conforme o preceito da lei. Os fariseus também tinham orlas, que engrandeciam, nas quais também prendiam espinhos. Mas as orlas do Senhor não haviam de ferir, mas antes curar; e por isso segue: dizia, com efeito, dentro de si: se eu tocar somente o seu manto, serei salva: nisso se deve admirar sua fé, porque, desesperada da salvação pelos médicos, em quem gastara seus bens, como diz Marcos, compreendeu que o médico celeste estava presente, e nele pôs toda a sua intenção, e por isso mereceu ser salva; donde segue: Jesus, voltando-se e vendo-a, disse: Tem confiança, filha: tua fé te salvou

Rábano Mauro. Por que lhe mandou ter confiança, ela que, se não tivesse fé, não buscaria dele a salvação? Mas exigiu dela a firmeza e a perseverança da fé, para que chegue à salvação certa e verdadeira

São João Crisóstomo, in Matth. Ou, porque esta mulher era medrosa, por isso diz: tem confiança. E a chama de filha, porque a fé a tinha feito filha

São Jerônimo. Não disse, porém: “A tua fé te há de salvar”, mas “salvou-te”: com efeito, por isso que creste, já foste salva.

São João Crisóstomo, in Matth. Contudo, ainda não tinha uma opinião perfeita sobre Cristo, pois de modo algum teria pensado que ele podia ficar ignorando; mas Cristo não a deixou passar despercebida, não como quem deseja glória, mas por causa de muitos. Primeiro, com efeito, dissipa o temor da mulher, para que não seja atormentada pela consciência, como se tivesse furtado um dom; segundo, corrige-a quanto ao que ela julga, que passaria despercebida; terceiro, mostra a todos a fé dela, para que a imitem; quarto, deu nisto um sinal de que sabia todas as coisas, não menos do que por ter estancado a fonte do sangue, a respeito do que se segue: “e a mulher ficou salva desde aquela hora”.

Glosa. Deve-se entender: desde aquela hora em que tocou a orla; não desde aquela hora em que Jesus se voltou para ela: pois já estava salva, como os outros Evangelistas mostram claramente e como se pode avaliar pelas palavras do Senhor.

Santo Hilário, In Matth. Nisto há grande admiração pelo poder do Senhor, pois a potência, permanecendo dentro do corpo, acrescentava eficácia de saúde às coisas perecíveis, e a operação divina chegava até às orlas das vestes: com efeito, Deus não era compreensível, de modo que fosse encerrado no corpo. Pois a assunção do corpo não encerrou a natureza do poder, mas o poder assumiu a fragilidade do corpo para a nossa redenção. Misticamente, porém, entende-se aqui que o chefe é a Lei, que pede ao Senhor que devolva a vida à plebe morta, que ela própria alimentara para Cristo, anunciada a expectativa do seu advento.

Rábano Mauro. Ou então o chefe da sinagoga significa Moisés, e chama-se Jairo, isto é, “que ilumina”, ou “que haverá de iluminar”, porque recebeu as palavras de vida para nos dar, e por isso ilumina a todos, ele mesmo iluminado pelo Espírito Santo. A filha do chefe da sinagoga, isto é, a própria sinagoga, como que no décimo segundo ano de idade, isto é, no tempo da puberdade, depois de dever gerar para Deus uma descendência espiritual, foi prostrada pelo langor dos erros. Enquanto, pois, a Palavra de Deus se apressa para essa filha do chefe, a fim de salvar os filhos de Israel, a santa Igreja, reunida dentre as nações, que perecia pela queda dos crimes interiores, recebeu a saúde preparada pela fé de outros. Deve-se notar, porém, que, sendo a filha do chefe da sinagoga de doze anos, e padecendo esta mulher de fluxo de sangue havia doze anos, no tempo em que aquela nasceu esta começou a adoecer: pois quase numa só idade do mundo a sinagoga começou a nascer dos patriarcas e a nação dos povos estrangeiros a ser maculada pela podridão da idolatria. Com efeito, o fluxo de sangue pode ser entendido de dois modos: a saber, quanto à poluição da idolatria e quanto àquelas coisas que se fazem pelo deleite da carne e do sangue; e assim, enquanto a sinagoga floresceu, a Igreja sofreu; mas pela falta deles a salvação foi dada às nações. A Igreja, porém, aproxima-se e toca o Senhor quando dele se aproxima pela fé.

Glosa. Creu, disse, tocou, porque por estas três coisas, a fé, a palavra e a obra, se adquire toda a salvação.

Rábano Mauro. Ela se aproxima, porém, por detrás, ou segundo o que ele mesmo diz: “Se alguém me serve, siga-me”, ou porque, não vendo o Senhor presente na carne, já cumpridos os sacramentos da sua encarnação, chegou à graça do seu conhecimento. Por isso também toca a orla da veste, porque, não tendo o povo gentio visto Cristo na carne, recebeu as palavras da encarnação. Com efeito, chama-se veste de Cristo o mistério da sua encarnação, com o qual a divindade foi revestida; orla da veste, as palavras que dependem da sua encarnação. Não toca, porém, a veste, mas a orla, porque não viu o Senhor na carne, mas recebeu pelos apóstolos a palavra da encarnação. Bem-aventurado quem toca pela fé a extremidade da palavra. Não é curada na cidade, mas enquanto o Senhor segue o seu caminho; daí os apóstolos: “Porque vos julgais indignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios”. A gentilidade, porém, começou a ter a salvação a partir da hora do advento do Senhor.

Mt 9,23-26

23Chegando à casa do chefe da sinagoga, viu Jesus os tocadores de flauta e uma multidão alvoroçada. Disse-lhes: 24“Retirai-vos, porque a menina não está morta; ela dorme”. Eles, porém, zombavam dele. 25Tendo saído a multidão, ele entrou, tomou a menina pela mão e ela levantou-se. 26Essa notícia espalhou-se por toda a região.

Glosa. Depois da cura da mulher que sofria de hemorragia, segue-se a ressurreição da morta, quando se diz: “E tendo Jesus chegado à casa do chefe”.

São João Crisóstomo, in Matth. Deve-se considerar, porém, que por isso ele vai mais devagar e fala mais com a mulher curada, a fim de permitir que a menina morra, e assim se torne manifesta a demonstração da ressurreição. E de modo semelhante, no caso de Lázaro, permaneceu até o terceiro dia. Segue-se: “E tendo visto os tocadores de flauta e a multidão em tumulto”, o que é demonstração de morte.

Santo Ambrósio, super Lucam(séc. IV). Pois, segundo o antigo costume, dizia-se que se empregavam tocadores de flauta para excitar o luto pelos mortos.

São João Crisóstomo, in Matth. Mas Cristo lançou fora todas as flautas; introduziu, porém, os pais da menina, para que não se pudesse dizer que curou de outro modo; mas também, antes da ressurreição da menina, levanta a esperança com a palavra: daí se segue: “Dizia: Retirai-vos, pois a menina não está morta, mas dorme”.

Rábano Mauro. Como se dissesse: Para vós ela está morta; mas para Deus, que pode ressuscitar, dorme, tanto na alma como no corpo.

São João Crisóstomo, in Matth. Por isso removeu também o tumulto do espírito dos que estavam presentes, e mostrou que lhe é fácil ressuscitar os mortos, o que de fato fez com Lázaro, dizendo: “Lázaro, nosso amigo, dorme”. E ao mesmo tempo ensinou a não temer a morte: pois, como ele próprio haveria de morrer, instruiu os discípulos, nos corpos de outros, a confiar e a suportar a morte com coragem. Com efeito, com a sua chegada, a morte já era sono. Dizendo o Senhor isto, zombavam; por isso se segue: “E zombavam dele”. Não repreendeu, porém, a zombaria, para que a própria zombaria, as flautas e toda a outra demonstração se tornassem prova da morte: pois, como muitas vezes os homens não creem depois de realizados os milagres, convence-os antes com as suas próprias respostas; o que também fez com Lázaro, quando disse: “Onde o pusestes?”, para que os que disseram: “Vem e vê”, e “já cheira mal, pois está morto há quatro dias”, não pudessem mais deixar de crer que ressuscitou um morto.

São Jerônimo. Não eram dignos, porém, de ver o mistério do que ressuscita aqueles que escarneciam com indignas injúrias o que ressuscitava; e por isso se segue: “E tendo sido expulsa a multidão, entrou, tomou-lhe a mão, e a menina levantou-se”.

São João Crisóstomo, in Matth. Não ressuscitou a menina introduzindo-lhe outra alma, mas reconduzindo a que havia saído, e levantando-a como do sono, para abrir antes o caminho, pela visão da fé, à ressurreição; e não só ressuscita a menina, mas manda também que lhe deem de comer, como dizem os outros Evangelistas, para que não parecesse ser fantasma o que se fez. Segue-se: “E a fama disto espalhou-se por toda aquela terra”.

Glosa. Quanto à grandeza e novidade do milagre, e à sua manifesta verdade, para que não se julgue inventado

Santo Hilário. Misticamente, porém, o Senhor entra na casa do chefe, isto é, a sinagoga, para a qual o hino nos cânticos da lei ressoava como luto

São Jerônimo. Pois até hoje jaz morta na casa do chefe; e os que parecem mestres são flautistas, que entoam um canto fúnebre; também a multidão dos judeus não é multidão de crentes, mas de tumultuosos. Mas quando entrar a plenitude das nações, então todo o Israel será salvo

Santo Hilário, in Matth. Para que se pudesse compreender o número raro dos que, vindos da lei, creem na eleição, toda a multidão foi expulsa; o Senhor certamente teria desejado que ela fosse salva; mas, zombando de suas palavras e ações, não foi digna da comunhão da ressurreição

São Jerônimo. Tomou-lhe, porém, a mão, e a menina levantou-se: porque, se antes não forem purificadas as mãos dos judeus, que estão cheias de sangue, a sinagoga deles, morta, não se levantará

Santo Hilário, in Matth. Espalhando-se a fama por toda aquela terra, são proclamados a salvação da eleição, o dom de Cristo e as obras

Rábano Mauro. Moralmente, porém, a menina morta em casa é a alma morta no pensamento. Diz, porém, que a menina dorme, porque os que pecam no presente ainda podem ser ressuscitados pela penitência. Os flautistas são os aduladores, que acalentam a morta

São Gregório Magno. A multidão, porém, é lançada fora para que a menina seja ressuscitada: porque, se antes não for expulsa dos recônditos do coração a multidão das preocupações seculares, a alma que jaz morta no interior não ressurge

Rábano Mauro. Em casa, porém, a menina ressurge com poucas testemunhas, o jovem fora da porta, e Lázaro diante de muitos; porque a falta pública requer remédio público; a leve, e a mais leve, pode ser apagada também por uma penitência secreta

Mt 9,27-31

27Partindo Jesus dali, dois cegos o seguiram, gritando: “Filho de Davi, tem piedade de nós!”. 28Jesus entrou numa casa e os cegos aproximaram-se dele. Disse-lhes: “Credes que eu posso fazer isso?” – “Sim, Senhor” –, responderam eles. 29Então, ele tocou-lhes nos olhos, dizendo: “Seja-vos feito segundo vossa fé”. 30No mesmo instante, os seus olhos se abriram. Recomendou-lhes Jesus em tom severo: “Vede que ninguém o saiba”. 31Mas apenas haviam saído, espalharam a sua fama por toda a região.

São Jerônimo. Ao primeiro sinal, sobre a filha do chefe e a mulher enferma, acrescenta-se em seguida o sinal dos dois cegos, para que o que ali mostrava a morte e a debilidade, aqui mostrasse a cegueira; e por isso se diz: E, passando Jesus dali, isto é, da casa do chefe, seguiram-no dois cegos, clamando e dizendo: Tem piedade de nós, filho de Davi

São João Crisóstomo, in Matth. Não é pequena aqui a acusação contra os judeus: pois estes, carecendo de olhos, recebem a fé só pelo ouvido; aqueles, porém, tendo a vista, não dão testemunho dos milagres que se faziam. Vê também o desejo deles: pois não se retiraram simplesmente, mas com clamor, e nada pedindo senão misericórdia. Chamavam-no, porém, filho de Davi porque o nome parecia ser de honra

Remígio de Auxerre. Com razão, pois, chamam-no filho de Davi, porque a Virgem Maria teve origem da estirpe de Davi

São Jerônimo. Ouçam Marcião e Maniqueu, e os demais hereges, que dilaceram o Antigo Testamento: e aprendam que o Salvador é chamado filho de Davi: pois, se não nasceu na carne, como é chamado filho de Davi?

São João Crisóstomo, in Matth. Deve-se considerar, porém, que muitas vezes o Senhor, quando lhe pediram, não quis curar, para que ninguém julgue que ele se lança aos milagres para captar a magnificência da honra

São Jerônimo. E, no entanto, os que pedem não são curados no caminho; não de passagem, como pensavam; mas, depois que ele veio àquela casa, aproximam-se dele para entrar; e primeiro examina-se a fé deles; para que assim recebam a luz da verdadeira fé; donde segue: Tendo chegado o Senhor à casa, os cegos aproximaram-se dele; e Jesus lhes disse: Credes que posso fazer isto por vós?

São João Crisóstomo, in Matth. Por sua vez, aqui nos ensina a afastar a glória da multidão: pois, como a casa estava próxima, leva-os para lá, a fim de curá-los em particular.

Remígio de Auxerre. Aquele que podia devolver a vista aos cegos não ignorava se criam; mas interrogou-os para que a fé deles, que era trazida no coração, ao ser confessada com a boca, se tornasse digna de maior recompensa, segundo o dito do Apóstolo: “Com a boca se faz a confissão para a salvação”.

São João Crisóstomo, in Matth. E não apenas por isso, mas para mostrar que eram dignos da cura, e para que ninguém diga que, se salvava somente por misericórdia, todos deveriam ser salvos. Por isso exige deles também a fé, para por meio dela elevá-los a algo mais alto: pois, como o tinham chamado filho de Davi, ensina que é preciso pensar dele coisas maiores; por isso não disse: “Credes que posso pedir ao Pai?”, mas: “Credes que posso fazer isto?”. De sua resposta segue-se: “Disseram-lhe: Sim, Senhor.” Já não o chamam filho de Davi, mas elevam-se mais alto e confessam o seu senhorio. A partir de então ele mesmo lhes impõe a mão; por isso segue-se: “Então tocou-lhes os olhos, dizendo: Seja-vos feito segundo a vossa fé.” Diz isto confirmando a fé deles e atestando que as palavras que haviam dito não eram de adulação. Depois acrescenta a cura, dizendo: “E abriram-se-lhes os olhos.” Em seguida, depois da cura, manda que não digam a ninguém; e não o manda simplesmente, mas com muita veemência; por isso se segue: “E advertiu-os severamente, dizendo: Vede que ninguém o saiba.” “Eles, porém, saindo, divulgaram a sua fama por toda aquela terra.”

São Jerônimo. O Senhor, certamente, fugindo por humildade da glória da vanglória, havia ordenado isto; e eles, pela lembrança da graça recebida, não podem calar o benefício.

São João Crisóstomo, in Matth. O que disse a outro: “Vai e anuncia a glória de Deus”, não é contrário: com efeito, ensina-nos a impedir os que querem louvar-nos por causa de nós mesmos. Mas se isso se refere à glória do Senhor, não devemos impedir, antes recomendar que se faça.

Santo Hilário, in Matth. Ou então o Senhor impõe silêncio aos cegos porque pregar era próprio dos apóstolos.

São Gregório Magno. Devemos, porém, perguntar o que significa que o próprio Onipotente, para quem querer é o mesmo que poder, quis que se calassem os seus milagres, e no entanto eles são divulgados como que contra a vontade por aqueles que foram iluminados: a não ser que deu um exemplo aos seus servos que o seguem, para que desejem que as suas virtudes sejam ocultadas e, contudo, para que os outros progridam pelo exemplo deles, sejam reveladas contra a vontade. Que sejam, pois, ocultadas por zelo, e tornadas públicas por necessidade; e que a ocultação seja a sua própria guarda, e a publicação, a utilidade alheia.

Remígio de Auxerre. Alegoricamente, porém, por estes dois cegos são designados dois povos, isto é, o judaico e o gentio, ou dois povos da gente judaica: pois no tempo de Roboão o seu reino foi dividido em duas partes. De ambos os povos, Cristo iluminou na casa os que nele criam, pela qual se entende a Igreja, porque fora da unidade da Igreja ninguém pode ser salvo. Aqueles, porém, que dentre os judeus creram na vinda do Senhor, divulgaram-no por todo o mundo.

Rábano Mauro. A casa do chefe é a sinagoga submetida a Moisés; a casa de Jesus é a Jerusalém celeste. Passando, pois, o Senhor por este mundo e voltando para a sua casa, os dois cegos o seguiram: porque, pregado o Evangelho pelos apóstolos, muitos dentre os judeus e os gentios começaram a segui-lo. Mas depois que subiu ao céu, entrou na casa, isto é, na Igreja, e ali foram iluminados.

Mt 9,32-34

32Logo que se foram, apresentaram-lhe um mudo, possuído do demônio. 33O demônio foi expulso, o mudo falou e a multidão exclamava com admiração: “Jamais se viu algo semelhante em Israel”. 34Os fariseus, porém, diziam: “É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios”.

Remígio de Auxerre. Belamente, tendo iluminado os cegos, devolveu a fala ao mudo e curou o possesso do demônio: com esse feito mostra que é o Senhor do poder e o autor da medicina celeste: pois por Isaías foi dito: “Então se abrirão os olhos dos cegos, e os ouvidos dos surdos se desimpedirão, e a língua dos mudos será solta.” Por isso se diz: “Tendo eles saído, eis que lhe apresentaram um mudo endemoninhado.”

São Jerônimo. O que se diz em grego cophos é mais usual na linguagem comum, de modo que se entende tanto o surdo quanto o mudo; mas é costume das Escrituras dizer cophos indiferentemente do surdo ou do mudo.

São João Crisóstomo, in Matth. Esta aflição, porém, não era da natureza, mas das ciladas do demônio; e por isso precisou também de outros que o conduzissem; pois não podia pedir por si mesmo, estando sem voz, nem suplicar a outros, prendendo o demônio a alma junto com a língua; por isso não lhe exige a fé, mas cura logo a enfermidade; donde se segue: “E expulso o demônio, falou o mudo.”

Santo Hilário, in Matth. Nisso foi guardada a ordem das coisas: pois primeiro é expulso o demônio, e depois seguem as demais funções do corpo. Segue-se: “E as multidões admiraram-se, dizendo: Nunca se viu coisa assim em Israel.”

São João Crisóstomo, in Matth. Preferiam-no, de fato, aos outros, não só porque curava, mas porque curava com facilidade e rapidez enfermidades sem número e incuráveis. Isto entristecia sobretudo os fariseus: porque o preferiam a todos, não só aos que então viviam, mas também aos que haviam nascido antes em Israel; por isso os fariseus, irritados, o difamavam em sentido contrário; donde se segue: “Os fariseus, porém, diziam: É pelo príncipe dos demônios que expulsa os demônios.”

Remígio de Auxerre. Pois os escribas e os fariseus negavam os feitos do Senhor que podiam negar; e os que não podiam negar, interpretavam-nos em mau sentido, segundo o Salmo 65, 3: “Na multidão do teu poder, mentir-te-ão os teus inimigos.”

São João Crisóstomo, in Matth. Mas o que há de mais insensato do que o dito deles? Pois não se pode imaginar que um demônio expulse outro demônio: ele costuma, com efeito, aplaudir os seus, não destruir o que é seu. Ora, Cristo não só expulsava os demônios, mas também purificava os leprosos, ressuscitava os mortos, perdoava os pecados, pregava o reino de Deus e conduzia os homens ao Pai, coisas que o demônio nem poderia nem quereria fazer.

Rábano Mauro. Misticamente, assim como nos dois cegos foi significado cada um dos dois povos, o dos judeus e o dos gentios, assim também no homem mudo e endemoninhado foi significado, de modo geral, todo o gênero humano.

Santo Hilário, in Matth. Ou ainda: no mudo, surdo e endemoninhado representa-se o povo dos gentios, indigno de toda salvação: cercado, com efeito, por todos os males de todos os lados, achava-se envolvido nos vícios de todo o corpo.

Remígio de Auxerre. Com efeito, o povo gentio era mudo, porque não podia abrir a boca para a confissão da verdadeira fé e para o louvor de seu Criador; ou porque prestava culto a ídolos mudos, tornando-se semelhante a eles. Era endemoninhado porque, pela morte da infidelidade, estava sujeito ao domínio do Diabo.

Santo Hilário. Mas, pelo conhecimento de Deus, afugentada a insânia de todas as superstições, são concedidos a visão, a audição e a palavra da salvação.

São Jerônimo. Assim como os cegos recebem a luz, assim também aos mudos se solta a língua para falar, a fim de que confessem aquele que antes negavam. Na multidão que se admira está a confissão das nações. Os fariseus, por sua calúnia, mostram até hoje a infidelidade dos judeus.

Santo Hilário. À admiração da multidão seguiu-se tal confissão: Jamais se viu algo assim em Israel, porque aquele a quem a lei em nada pôde socorrer é salvo pelo poder da palavra.

Remígio de Auxerre. Aqueles que apresentaram o mudo ao Senhor para ser curado entendem-se como os apóstolos e os pregadores, que apresentaram, para ser salvo, o povo gentio ao olhar da divina piedade.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. O que aqui se diz sobre os dois cegos e o demônio mudo, só Mateus o relatou. Esses dois cegos, de que outros narram, não são estes; mas, no entanto, aconteceu um fato semelhante; de modo que, se o próprio Mateus não tivesse mencionado também aquele fato, poderia pensar-se que o que ele agora narra tinha sido dito também pelos outros dois. Devemos guardar diligentemente na memória que há certos fatos semelhantes, o que se prova não serem o mesmo quando o próprio Evangelista menciona ambos; de modo que, se alguma vez encontrarmos tais fatos, um a um, em cada autor, e neles nos ocorrer uma contrariedade que não se possa resolver, entendamos que não foi o mesmo fato, mas outro semelhante, ou feito de modo semelhante.

Mt 9,35-38

35Jesus percorria todas as cidades e aldeias. Ensinava nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo mal e toda enfermidade. 36Vendo a multidão, ficou tomado de compaixão, porque estava enfraquecida e abatida como ovelhas sem pastor. 37Disse, então, aos seus discípulos: “A messe é grande, mas os operários são poucos. 38Pedi, pois, ao Senhor da messe que envie operários para sua messe”.

São João Crisóstomo, in Matth. O Senhor quis refutar pelo próprio fato a acusação dos fariseus, que diziam: É pelo príncipe dos demônios que expulsa os demônios. Com efeito, o demônio, ao sofrer uma injúria, não faz o bem, mas prejudica os que o desonram. O Senhor, porém, faz o contrário: depois das injúrias e dos insultos, não só não castiga, mas nem sequer repreendeu, antes concedeu benefícios; por isso se segue: E Jesus percorria todas as cidades e povoados. Com isso nos ensina a retribuir aos nossos acusadores não acusações, mas benefícios. Quem, com efeito, depois de uma acusação deixa de fazer o bem, mostra que faz o bem por causa do louvor dos homens. Se, porém, fazes o bem a teus companheiros de serviço por causa de Deus, não deixas de fazer o bem, façam eles o que fizerem, para que seja maior a recompensa.

São Jerônimo. Vês que ele pregou o Evangelho igualmente nas aldeias, nas cidades e nos povoados, isto é, aos grandes e aos pequenos, para não considerar o poder dos nobres, mas a salvação dos que creem. Segue-se: ensinando nas sinagogas deles: tendo assim por obra o que o Pai havia mandado, e esta fome de salvar os infiéis pela doutrina. Ensinava nas sinagogas o Evangelho do reino; por isso se segue: e pregando o Evangelho do reino.

Remígio de Auxerre. Deve-se entender: de Deus. Pois, embora se anunciem bens temporais, não se chama Evangelho. Daí que a lei não se chame Evangelho: porque não prometia aos seus observantes bens celestes, mas terrenos.

São Jerônimo. Depois da pregação e do ensino, curava toda enfermidade e toda doença, a fim de que aqueles a quem a palavra não persuadira fossem persuadidos pelas obras; por isso se segue: curando toda enfermidade e toda doença; o que se diz propriamente dele, pois nada lhe é impossível.

Glosa. Chama de enfermidade a doença prolongada, e de doença, as moléstias leves.

Remígio de Auxerre. Deve-se saber que aqueles que curava no corpo, por fora, curava na alma, por dentro. Os outros, porém, não podem fazer isso por seu próprio poder, mas pela graça de Deus.

São João Crisóstomo, in Matth. Mas a bondade de Cristo não se detém nisso: mostra ainda outra providência para com eles, abrindo as entranhas de misericórdia em seu favor; daí o que se segue: Vendo as multidões, teve compaixão delas.

Remígio de Auxerre. Por esse ofício, Cristo mostrou em si o bom pastor, mais que o mercenário. Acrescenta por que teve compaixão: porque estavam vexadas e prostradas como ovelhas sem pastor: vexadas, de fato, pelos demônios; ou porque estavam consumidas por diversas enfermidades e fraquezas.

Rábano Mauro. Ou vexadas por diversos erros, e prostradas, isto é, entorpecidas, incapazes de se levantar; e, embora tivessem pastores, era como se não tivessem pastor.

São João Crisóstomo, in Matth. Esta é a acusação contra os chefes dos judeus: sendo pastores, faziam o que é próprio dos lobos; pois não só não corrigiam a multidão, como ainda prejudicavam o seu progresso. Com efeito, quando aqueles se admiravam e diziam: Nunca se viu coisa assim em Israel, eles, ao contrário, diziam: É pelo príncipe dos demônios que expulsa os demônios.

Remígio de Auxerre. Depois que o Filho de Deus olhou do céu para a terra, a fim de ouvir os gemidos dos encarcerados, logo a messe começou a crescer abundante: as multidões do gênero humano não se teriam aproximado da fé, se o autor da salvação humana não tivesse olhado dos céus para a terra; e por isso se segue: Então disse a seus discípulos: A messe é grande, mas os operários são poucos.

Glosa. Chamam-se, pois, messe os homens que podem ser ceifados pelos pregadores e separados da massa dos perdidos, para que, como os grãos debulhados e separados das palhas, sejam depois guardados nos celeiros.

São Jerônimo. A messe grande significa a multidão dos povos; os operários poucos, a escassez de mestres.

Remígio de Auxerre. Era pequeno, com efeito, o número dos apóstolos comparado a tantas searas. O Senhor exorta seus pregadores, isto é, os apóstolos e seus seguidores, a pedirem cada dia o aumento de seu número; por isso acrescenta: Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe.

São João Crisóstomo, in Matth. Mostra veladamente que ele mesmo é o Senhor: ele é, com efeito, quem é o Senhor da messe. Se enviou a ceifar o que os apóstolos não semearam, é manifesto que não enviou a ceifar o alheio, mas o que ele mesmo semeou por meio dos profetas. Mas, sendo os apóstolos doze operários, disse: Suplicai ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe; e, no entanto, não lhes acrescentou nenhum, porque, estando já eles em número de doze, os multiplicou, não acrescentando em número, mas concedendo poder.

Remígio de Auxerre. Ou então foi aumentado quando designou outros setenta e dois, e quando se tornaram muitos os pregadores, descendo o Espírito Santo sobre os que criam.

São João Crisóstomo, in Matth. Mostra que é grande dom este, isto é, que alguém tenha a capacidade de pregar convenientemente, ao dizer que se deve orar por isso. Lembra, neste passo, as palavras de João sobre a eira, o ventilabro, a palha e o trigo.

Santo Hilário, in Matth. Misticamente, porém, dada a salvação às nações, todas as cidades e todos os povoados são iluminados pelo poder e pela entrada de Cristo, e escapam de toda a antiga enfermidade da fraqueza. O Senhor tem compaixão do povo vexado pela violência dos espíritos imundos que dominavam, e enfermo sob o peso da Lei, porque ainda não havia para eles pastor que lhes devolvesse a guarda do Espírito Santo. Era riquíssimo o fruto desse dom, cuja abundância supera a multidão dos que dele bebem; pois, por mais que seja tomado por todos, sempre transborda para ser dado. E, porque é útil que sejam muitos aqueles por quem ele é ministrado, manda rogar ao Senhor da messe que Deus conceda abundância de ceifeiros para receber o dom do Espírito Santo que se preparava: pois é pela oração que este dom nos é derramado por Deus.