Catena Aurea de São Tomás de Aquino

Mateus 8 comentado pelos Padres da Igreja

179 comentários de São João Crisóstomo, São Jerônimo, Santo Agostinho, Orígenes, Santo Hilário, Rábano Mauro, Remígio de Auxerre, Haymo, São Gregório Magno, São Beda, o Venerável, Glosa, São João Damasceno, Severianus, Glossa, e Santo Ambrósio sobre as passagens Mt 8,1-4, Mt 8,5-9, Mt 8,10-13, Mt 8,14-15, Mt 8,16-17, Mt 8,18-22, Mt 8,23-27 e Mt 8,28-34, reunidos por São Tomás de Aquino no século XIII e traduzidos do latim.

Mt 8,1-4

1Tendo Jesus descido da montanha, uma grande multidão o seguiu. 2Eis que um leproso aproximou-se e prostrou-se diante dele, dizendo: “Senhor, se queres, podes curar-me”. 3Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: “Eu quero, sê curado”. No mesmo instante, a lepra desapareceu. 4Jesus então lhe disse: “Vê que não o digas a ninguém. Vai, porém, mostrar-te ao sacerdote e oferece o dom prescrito por Moisés em testemunho de tua cura”.

São Jerônimo(séc. IV–V). Depois da pregação e da doutrina, oferece-se a ocasião dos sinais, para que, pelos milagres dos poderes, a palavra anterior seja confirmada entre os ouvintes.

São João Crisóstomo, super Matth(séc. IV). Porque ensinava como quem tem autoridade, para que não se julgasse que esse modo de doutrina fosse ostentação, faz o mesmo com as obras, como quem tem poder de curar; e por isso diz: Tendo Jesus descido do monte, seguiram-no muitas multidões.

Orígenes(séc. III). Ensinando o Senhor no monte, os discípulos estavam com ele, aos quais foi dado conhecer os segredos da doutrina celeste; agora, porém, descendo ele do monte, as multidões o seguiram, porque não podiam de modo algum subir ao monte; pois os que o peso dos delitos oprime não conseguem escalar as alturas dos mistérios. Descendo, porém, o Senhor, isto é, inclinando-se à fraqueza e à incapacidade dos demais, quando teve compaixão da imperfeição ou fraqueza deles, seguiram-no muitas multidões: alguns pelo esplendor, muitos pela doutrina, outros pela cura e pela assistência.

Haymo. Ou de outro modo. Pelo monte em que o Senhor se assenta entende-se o céu, de que está escrito: O céu é para mim um trono. Mas quando o Senhor se assenta no monte, somente os discípulos se aproximam dele: porque, antes de assumir a humanidade de nossa fragilidade, Deus era conhecido apenas na Judeia; mas depois que desceu do monte de sua divindade e assumiu a fragilidade de nossa humanidade, uma grande multidão de nações o seguiu. Mostra-se, além disso, aos doutores que tenham em sua pregação um discurso moderado e que, conforme virem que cada um pode compreender, assim anunciem a palavra de Deus. Sobem, com efeito, ao monte os doutores, quando aos mais perfeitos mostram os preceitos excelentes; descem, quando aos mais fracos mostram os mais leves.

São João Crisóstomo, super Matth. Entre os outros que não haviam subido ao monte, também o leproso não conseguia subir, como quem carrega o peso dos pecados: pois a lepra é o pecado de nossas almas. Por isso, portanto, o Senhor desce da altura do céu, como de um monte elevado, para limpar a lepra de nossos pecados; e por isso o leproso, como já preparado, vai ao encontro de quem desce; razão pela qual se diz: E eis que um leproso, aproximando-se.

Orígenes. Cura embaixo e nada faz no monte: porque há tempo para tudo debaixo do céu: tempo de doutrina e tempo de cura. No monte ensinou, curou as almas, sanou os corações; concluído isso, como quem desce dos montes celestes para salvar os carnais, veio a ele um leproso e o adorava. Antes de pedir, começou a adorar, mostrando culto.

São João Crisóstomo, super Matth. Não lhe pedia como a um homem artífice, mas o adorava como a Deus. A oração perfeita, porém, é a fé e a confissão: por isso o leproso, adorando, cumpriu a obra da fé; mas cumpriu a obra da confissão nas palavras: por isso o adorava dizendo:

Orígenes. Senhor, por ti todas as coisas foram feitas: tu, portanto, se queres, podes limpar-me. A tua vontade é obra, e as tuas obras obedecem à tua vontade. Tu outrora limpaste da lepra Naamã, o sírio, por meio de Eliseu; e agora, se queres, podes limpar-me.

São João Crisóstomo, in Matth. Não disse: se pedires a Deus, nem: se me adorares; mas: se quiseres, podes limpar-me. Nem disse: Senhor, limpa; mas entrega-lhe tudo; e o faz senhor, e lhe atribui o poder sobre todas as coisas.

São João Crisóstomo, super Matth. E assim oferecia ao médico espiritual um pagamento espiritual: pois, como os médicos se aplacam com dinheiro, este se aplaca com a oração. Nada de mais digno oferecemos a Deus do que a oração fiel. Ao dizer se queres, não duvida de que a vontade de Cristo esteja pronta para toda obra boa. Mas, porque a integridade corporal não convém a todos, ele não sabia se aquela cura lhe convinha. Diz, portanto, se queres; como se dissesse: creio que queres o que é bom; ignoro, porém, se é bom para mim o que desejo.

São João Crisóstomo, in Matth. Podendo, porém, purificar por vontade e palavra, aplicou a mão ao toque, donde se segue: E, estendendo a mão, tocou-o: para mostrar que não está sujeito à lei, e que para o limpo nada é impuro. Eliseu, porém, observando o rigor da lei, não saiu nem tocou Naamã, mas o manda lavar-se no Jordão. O Senhor, porém, mostra que cura e toca não como servo, mas como senhor: pois a mão não se tornou impura pela lepra, mas o corpo leproso foi tornado limpo pela mão santa. Pois ele não veio para curar somente os corpos, mas também para conduzir a alma à verdadeira sabedoria. Assim como, portanto, já não proibia comer sem lavar as mãos, assim também aqui ensina que se deve temer apenas a lepra da alma, que é o pecado; e que a lepra do corpo não é impedimento algum para a virtude.

São João Crisóstomo, super Matth. Embora tenha dispensado a letra da lei, não dispensou, contudo, o propósito dela. Pois a lei mandou não tocar a lepra porque não podia fazer que a lepra não manchasse quem a tocasse; proibiu, portanto, tocar a lepra, não para que os leprosos não fossem curados, mas para que os que tocavam não se contaminassem. Este, porém, ao tocar, não foi contaminado pela lepra, mas limpou a própria lepra ao tocá-la.

São João Damasceno, de fide Orth(séc. VIII). Pois não era apenas Deus, mas homem: por isso operava sinais divinos pelo toque e pela palavra: com efeito, como por um instrumento, assim pelo corpo se realizavam as ações divinas.

São João Crisóstomo, in Matth. Quando toca o leproso, ninguém o acusa, porque os ouvintes ainda não estavam tomados pela inveja.

São João Crisóstomo, super Matth. Se o tivesse curado em silêncio, quem poderia saber por cuja virtude fora sanado? Assim, a vontade de limpar foi feita por causa do leproso, a palavra, porém, por causa dos que olhavam; por isso disse: Quero, fica limpo.

São Jerônimo. Não se deve, porém, como pensam muitos dos latinos, ler junto “quero ser limpo”; mas separadamente, de modo que primeiro se diga “quero”, e depois, como quem ordena, diga “sê limpo”. Pois aquele havia dito: “Se queres”; o Senhor respondeu: “Quero”; aquele havia antecipado: “Podes limpar-me”; o Senhor disse: “Sê limpo”

São João Crisóstomo, in Matth. Em nenhum lugar, porém, se vê que ele diga esta palavra, ainda que fizesse grandes sinais; mas aqui acrescentou “quero” para confirmar a opinião do povo e do leproso sobre o poder dele

São João Crisóstomo. A natureza cedeu ao que mandava com a devida rapidez; e por isso segue-se: “e imediatamente sua lepra foi limpa”. Mas isto que diz, “imediatamente”, é muito mais lento do que a rapidez com que a obra foi realizada

Orígenes. Porque não duvidou em crer, a cura não se demora; porque não adiou a confissão, a purificação não é retardada

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas(séc. IV–V). Deste leproso purificado também Lucas faz menção, não certamente nesta ordem, mas como costumam recordar-se as coisas omitidas e antecipar-se as feitas depois, conforme eram sugeridas por inspiração divina, de modo que o que antes foi conhecido, depois, ao recordá-lo, o escrevessem de novo

São João Crisóstomo, in Matth. Ora, Jesus, curando o corpo, manda a ninguém dizer; donde se segue: “E Jesus lhe disse: Olha, não o digas a ninguém”. Alguns, pois, dizem que ele mandou isso para que não maldissessem a respeito da sua purificação; o que é dito sem sensatez: pois ele não o purificou de modo que a purificação fosse duvidosa; mas manda não dizer a ninguém, ensinando a não amar a ostentação e a honra. Como, então, manda a outro que foi curado que o diga? Mas nisto nos instruiu a ter boa disposição de espírito; pois ali não mandou que ele fosse divulgado, mas que se desse glória a Deus. Por meio deste leproso, portanto, ensina-nos a não sermos vangloriosos; por meio daquele, porém, a não sermos ingratos, mas a referir tudo ao louvor de Deus

São Jerônimo. E, na verdade, que necessidade havia de proclamar com a palavra o que ele exibia no corpo?

Santo Hilário, in Matth(séc. IV). Ou então, para que esta salvação não fosse antes oferecida do que procurada, impõe-se o silêncio. Segue-se: “Mas vai, mostra-te ao sacerdote”

São Jerônimo. Envia-o, porém, aos sacerdotes, primeiro por humildade, para parecer que presta deferência aos sacerdotes; depois, para que, vendo o leproso purificado, se acreditassem no Salvador, fossem salvos; se, porém, não acreditassem, ficassem sem desculpa; e ao mesmo tempo para que não parecesse infringir a lei, o que com muita frequência lhe imputavam

São João Crisóstomo, In Matth. Pois nem em toda parte a dissolvia, nem em toda parte a guardava; mas ora fazia isto, ora aquilo: num caso preparando a vida da sabedoria futura, noutro refreando a língua despudorada dos judeus e condescendendo com a fraqueza deles. Donde os apóstolos aparecem ora observando a lei, ora a omitindo

Orígenes. Ou então envia aos sacerdotes para que reconheçam que ele não foi purificado pelo costume da lei, mas pela operação da graça

São Jerônimo. Havia, porém, na lei o preceito de que os que tivessem sido purificados da lepra oferecessem dons aos sacerdotes; donde se segue: “e oferece a oferta que Moisés ordenou, para servir de testemunho a eles”

São João Crisóstomo, super Matth. Não entendas assim, que Moisés ordenou isto como testemunho para eles; mas: vai tu, oferece como testemunho para eles

São João Crisóstomo, in Matth. Pois Cristo, prevendo que eles nada lucrariam com isso, não disse: para a correção deles, mas para testemunho, isto é, para acusação e atestação de que tudo o que cabia a mim fazer foi feito. E embora tenha previsto que eles não se emendariam, não deixou, contudo, o que devia fazer; eles, porém, permaneceram na própria malícia. Não disse, porém: a oferta que eu ordeno, mas a que Moisés ordenou, para remeter por ora à lei e tapar a boca dos iníquos: para que não dissessem que ele arrebatou a glória dos sacerdotes, ele mesmo cumpriu a obra, mas lhes concedeu a comprovação

Orígenes. Ou então: oferece a tua oferta, para que todos os que te veem levá-la creiam no milagre

São João Crisóstomo, super Matth. Ou ainda: manda oferecer os dons para que, se depois quisessem expulsá-lo, pudesse dizer-lhes: Recebestes os dons como de um purificado; e como me expulsais como a um leproso?

Santo Hilário, in Matth. Ou ainda: deve-se ler o que Moisés ordenou para servir de testemunho a eles, porque o que Moisés ordenou na Lei é testemunho, não efeito.

São Beda, o Venerável, in Hom. Dom. 3 post Epiph(séc. VII–VIII). Se alguém se perguntar como é que o Senhor, ao parecer aprovar o sacrifício de Moisés, a Igreja não o aceita, lembre-se de que Cristo ainda não havia oferecido seu corpo pela paixão em holocausto. Ora, não convinha que os sacrifícios que prefiguravam fossem abolidos antes que aquilo que era prefigurado fosse confirmado pelo testemunho dos apóstolos que pregavam e pela fé dos povos que criam. Este homem designa o gênero humano, que é descrito não somente como leproso, mas, segundo o Evangelho de Lucas, como coberto de lepra. Com efeito, todos pecaram e carecem da glória de Deus, a saber, para que, pela mão estendida do Salvador, isto é, pelo Verbo de Deus encarnado, que toca a natureza humana, sejam purificados da vaidade do antigo erro; e os que por muito tempo foram abomináveis e expulsos do acampamento do povo de Deus, devolvidos enfim ao templo e ao sacerdote, possam oferecer seus corpos como hóstia viva àquele a quem se diz: Tu és sacerdote para sempre.

Remígio de Auxerre(séc. IX). Moralmente, porém, o leproso designa o pecador: pois o pecado torna a alma impura e manchada; ele se prostra diante de Cristo quando se envergonha dos pecados passados; e contudo deve confessar e pedir o remédio da penitência: pois o leproso mostrou a ferida e pediu o remédio. O Senhor estende a mão quando concede o auxílio da misericórdia divina; e logo se segue a remissão dos delitos; e a Igreja não deve reconciliá-lo senão pelo juízo do sacerdote.

Mt 8,5-9

5Entrou Jesus em Cafarnaum. Um centurião veio a ele e lhe fez esta súplica: 6“Senhor, meu servo está em casa, de cama, paralítico, e sofre muito”. 7Disse-lhe Jesus: “Eu irei e o curarei”. 8Respondeu o centurião: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado. 9Pois eu também sou um subordinado e tenho soldados às minhas ordens. Eu digo a um: “Vai, e ele vai; a outro: Vem, e ele vem; e a meu servo: Faze isto, e ele o faz...”.

São João Crisóstomo, super Matth. Depois que o Senhor ensinou os discípulos no monte e curou o leproso ao pé do monte, veio a Cafarnaum, em mistério, porque, depois da purificação dos judeus, veio aos gentios.

Haymo. Cafarnaum, que se interpreta vila da fartura ou campo de consolação, significa a Igreja reunida dentre os gentios, a qual está repleta de fartura espiritual, segundo aquilo do Sl 62,6: Seja minha alma saciada como de gordura e de fartura. E em meio às tribulações do mundo é consolada pelos bens celestes, segundo aquilo do Sl 93,19: Tuas consolações alegraram a minha alma. Por isso se diz: Tendo ele entrado em Cafarnaum, aproximou-se dele um centurião.

Santo Agostinho, de Verb. Dom. Este centurião era dos gentios: pois o povo judeu já tinha um soldado do império romano.

São João Crisóstomo, super Matth. Este centurião é o primeiro fruto dos gentios, em comparação com cuja fé a fé de todos os judeus foi achada infidelidade; ele nem ouviu Cristo ensinar, nem viu o leproso quando era purificado, mas, tendo apenas ouvido falar da cura do leproso, creu mais do que ouvira: era, em mistério, figura dos gentios futuros, que nem tinham lido a Lei ou os profetas acerca de Cristo, nem tinham visto o próprio Cristo realizar maravilhas. Aproximou-se, pois, rogando e dizendo: Senhor, meu servo jaz em casa paralítico e sofre terrivelmente. Vê a bondade do centurião, que tanto se apressava pela saúde do servo, como se fosse sofrer, na morte dele, não um prejuízo de dinheiro, mas de saúde. Não estabelecia, com efeito, nenhuma diferença entre servo e senhor: porque, embora a dignidade seja diversa entre eles neste mundo, a natureza deles é uma só. Vê também a fé do centurião: pois não disse: Vem e salva-o, porque Ele, estando em todo lugar, estava presente; e a sabedoria, pois não disse: Salva-o daqui onde estás: sabia que Ele é poderoso para fazer, sábio para compreender, misericordioso para atender; por isso expôs somente a enfermidade e deixou o remédio da cura ao poder de sua misericórdia, dizendo e sofre terrivelmente: nisso se vê que o amava; pois cada um, quando alguém que ama sofre ainda que pouco, julga que sofre mais do que sofre.

Rábano Mauro(séc. IX). Mencionou tudo isso com dor: que jazia, que era paralítico, que estava mal detido; para mostrar as angústias de sua alma e comover o Senhor; assim todos devem compadecer-se dos servos e cuidar deles.

São João Crisóstomo, in Matth. Alguns, porém, dizem que, desculpando-se, deu esta razão pela qual não o trouxe. Pois não era possível transportar um homem prostrado, que se torcia de dor e estava nos últimos suspiros. Eu, porém, digo que isto é sinal de grande fé: pois, como sabia que bastava uma só ordem para restaurar o que jazia, julgava supérfluo trazê-lo.

Santo Hilário, in Matth. Devem-se considerar como os que jazem no mundo e estão espiritualmente prostrados pelas doenças dos pecados os gentios, com todos os membros frouxos por todos os lados e incapazes de manter-se de pé e de caminhar; o mistério de cuja salvação se cumpre no servo do centurião, o qual basta dizer que é o príncipe dos gentios que haveriam de crer. Quem seja este príncipe, ensina-o o cântico de Moisés, onde se diz: Estabeleceu os limites das nações segundo o número dos Anjos.

Remígio de Auxerre. Ou então, pelo centurião são designados os que primeiro creram dentre os gentios e foram perfeitos na virtude: pois chama-se centurião quem comanda cem soldados; ora, o número cem é perfeito. Com razão, pois, o centurião roga por seu servo, porque as primícias dos gentios rogaram a Deus pela salvação de toda a gentilidade.

São Jerônimo. Vendo o Senhor a fé, a humildade e a previdência do centurião, promete imediatamente que irá e curará; por isso segue: E Jesus lhe diz: Eu irei e o curarei.

São João Crisóstomo, in Matth. O que Jesus nunca fez, faz aqui: em toda parte, com efeito, segue a vontade dos que suplicam; aqui, porém, antecipa-se, e promete não somente curar, mas ir à casa. Faz isso para que conheçamos as virtudes do centurião.

São João Crisóstomo, super Matth. Se, com efeito, ele não tivesse dito: Eu irei e o curarei, este nunca responderia: Não sou digno. Depois, como pedia por um servo, por isso prometeu ir, para nos ensinar a não venerar os grandes e desprezar os pequenos, mas a honrar igualmente pobres e ricos.

São Jerônimo. Assim como no centurião recomendamos a fé, por ter acreditado que o paralítico podia ser curado pelo Salvador, assim também se evidencia a humildade nisto: que se julgou indigno de que o Senhor entrasse em sua casa; por isso se segue: E respondendo o centurião, disse-lhe: Senhor, não sou digno de que entres sob o meu teto.

Rábano Mauro. Pois, em razão da consciência de sua vida pagã, julgou ser mais um peso para si a dignação do que um auxílio; embora fosse dotado de fé, ainda não estava ungido pelos sacramentos.

Santo Agostinho, de Verb. Dom. Dizendo-se, porém, indigno, tornou-se digno de que Cristo, Verbo de Deus, entrasse não nas suas paredes, mas no seu coração. E não diria isto com tanta fé e humildade, se não trouxesse no coração aquele que temia que entrasse em sua casa; pois não seria grande felicidade se Jesus entrasse nas suas paredes e não estivesse no seu peito.

Severianus. Misticamente, porém, este teto é o corpo que cobre a alma, o qual encerra em si a liberdade da mente para a visão celeste. Mas Deus não se desdenha nem de habitar a carne, nem de entrar sob o teto de nosso corpo.

Orígenes. Ainda agora, quando os santos prelados das Igrejas, aceitos por Deus, entram sob o teu teto, então ali, por meio deles, o Senhor entra; e tu julga-o como quem recebe o Senhor. E quando comes e bebes o corpo e o sangue do Senhor, então o Senhor entra sob o teu teto; e tu, portanto, humilhando-te, dize: Senhor, não sou digno. Pois onde entra indignamente, ali entra para juízo daquele que o recebe.

São Jerônimo. A prudência do centurião, por sua vez, aparece em que, para além do invólucro do corpo, viu a divindade oculta; por isso acrescenta: mas dize somente uma palavra, e o meu servo será curado.

São João Crisóstomo, super Matth. Sabia, com efeito, que estavam diante dele, invisivelmente, Anjos a servi-lo, que convertem em obra toda palavra sua; e que, ainda que os Anjos cessem, as enfermidades são expulsas por suas ordens vivificantes.

Santo Hilário, in Matth. O centurião diz também que o servo pode ser curado pela palavra, porque toda a salvação dos povos vem da fé, e nas ordens do Senhor está a vida de todos; e por isso acrescenta, dizendo: Pois também eu sou um homem colocado sob autoridade, tendo soldados sob mim; e digo a este: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem; e ao meu servo: Faze isto, e ele o faz.

São João Crisóstomo, super Matth. Representou o mistério do Pai e do Filho por inspiração do Espírito Santo, como se dissesse: embora eu esteja sob a autoridade de outro, tenho contudo autoridade de mandar nos que estão sob mim; assim também tu, embora estejas sob a autoridade do Pai, isto é, enquanto homem, tens contudo autoridade de mandar nos Anjos. Mas talvez Sabélio, querendo mostrar que o Pai e o Filho são o mesmo, dirá que isto deve ser entendido assim: se eu, colocado sob autoridade, posso mandar, quanto mais tu, que não estás sob a autoridade de ninguém? Mas o texto não admite essa exposição. Pois não disse: se, sendo homem sob autoridade; mas disse: pois também eu sou um homem colocado sob autoridade; nisto fica claro que entre si e Cristo não estabeleceu uma diferença de comparação, mas introduziu uma razão de semelhança.

Santo Agostinho, de Verb. Dom. Se eu, que estou sob autoridade, tenho poder de mandar, o que não podes tu, a quem servem todas as potestades?

Glosa(séc. XII). Podes, pelo ministério dos Anjos, sem a presença corporal, dizer à enfermidade que se retire, e ela se retirará; e à saúde que venha, e ela virá.

Haymo. Pelos subordinados do centurião podem entender-se as virtudes naturais, em que muitos dos gentios se destacavam; ou também os pensamentos bons ou maus. Digamos, pois, aos maus que se retirem, e eles se retirarão; mas chamemos os bons, e virão; e ao nosso servo, isto é, ao corpo, que se submeta à vontade divina.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Ao que aqui se diz parece opor-se o que diz Lucas: Tendo o centurião ouvido falar de Jesus, enviou-lhe os anciãos dos judeus, pedindo-lhe que viesse e salvasse o seu servo; e de novo: Quando já não estava longe da casa, o centurião enviou-lhe amigos, dizendo: Senhor, não te incomodes, pois não sou digno de que entres sob o meu teto.

São João Crisóstomo, in Matth. Alguns dizem, porém, que aquele e este não são o mesmo, o que tem muitas conjecturas. Pois daquele diz Lucas: Construiu a nossa sinagoga e ama o nosso povo; deste, porém, o próprio Jesus diz: Nem em Israel encontrei tão grande fé; por isso parece que aquele era judeu. A mim, contudo, parece que este e aquele são o mesmo. Mas quando Lucas diz que ele enviou para que viesse, deu a entender as lisonjas dos judeus. Convém, com efeito, crer que o centurião, querendo ir, foi impedido pelos judeus, que o lisonjeavam e diziam: nós iremos e o traremos. Mas quando se livrou da pressão deles, então enviou, dizendo: não penses que não vim por desleixo, mas porque me julguei indigno de te receber em minha casa. Quanto a Mateus dizer que ele falou isto não por meio de amigos, mas por si mesmo, nada há de contrário: pois ambos representaram o desejo do homem, e que tinha de Cristo uma opinião digna. Convém, ainda, supor que ele mesmo, depois de enviar os amigos, disse estas coisas quando ele veio pessoalmente. Se, porém, Lucas não disse isto, nem Mateus aquilo, não se contradizem, mas completam o que um deixara de lado em relação ao outro.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Mateus, portanto, quis dizer em resumo que a aproximação do centurião ao Senhor se fez por meio de outros, porque louvou a sua fé, pela qual verdadeiramente se chega a Deus, a ponto de dizer: Não encontrei tão grande fé em Israel. Lucas, por sua vez, expôs tudo como aconteceu, para que daí fôssemos levados a entender de que modo Mateus disse que ele o recebeu, ele que não podia mentir.

São João Crisóstomo, in Matth. Com efeito, não é contrário o fato de ter edificado a sinagoga, segundo Lucas, e de aqui se mostrar que não era israelita: é possível, pois, não sendo judeu, ter edificado a sinagoga e amar o povo.

Mt 8,10-13

10Ouvindo isto, cheio de admiração, disse Jesus aos presentes: “Em verdade vos digo: não encontrei semelhante fé em ninguém de Israel. 11Por isso, eu vos declaro que multidões virão do Oriente e do Ocidente e se assentarão no Reino dos Céus com Abraão, Isaac e Jacó, 12enquanto os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes”. 13Depois, dirigindo-se ao centurião, disse: “Vai, seja-te feito conforme a tua fé”. Na mesma hora o servo ficou curado.

São João Crisóstomo, in Matth. Assim como o que o leproso dissera sobre o poder de Cristo, se queres, podes limpar-me, foi confirmado pela voz de Cristo, que disse: Quero, sê limpo, assim também aqui Ele não só não acusou o centurião, que testemunhava o poder de Cristo, mas até o elogiou. Mas fez ainda algo a mais: o Evangelista, significando a intensidade do louvor, diz: Ouvindo isto, Jesus admirou-se.

Orígenes. Considera quão grande ou quão notável é aquilo que o Deus unigênito admira. O ouro, as riquezas, os reinos, os principados são, a seus olhos, como uma sombra ou uma flor que cai: nada disto, portanto, é admirável aos olhos de Deus, como se fosse grande ou precioso, mas somente a fé: a esta admira, honrando-a; a esta julga aceitável para si.

Santo Agostinho, super Genesim contra Manichaeos. Mas quem fizera naquele homem aquela fé, senão aquele mesmo que se admirava? Pois, se outro a tivesse feito, por que se admiraria Aquele que tudo sabia de antemão? Portanto, o fato de o Senhor se admirar significa que nós devemos admirar-nos, nós a quem ainda é necessário ser assim movidos: com efeito, todos esses movimentos seus não são sinais de um ânimo perturbado, mas magistério de quem ensina.

São João Crisóstomo, in Matth. Por isso, diz-se que Ele se admirou na presença de todo o povo, e deu aos outros o exemplo para que o admirem; com efeito, segue-se: e disse aos que o seguiam: Em verdade vos digo: não encontrei tamanha fé em Israel.

Santo Agostinho, contra Faustum. Louva a fé daquele; não lhe mandou, porém, abandonar a milícia.

São Jerônimo. Isto, porém, diz a respeito dos presentes, não de todos os patriarcas e profetas de outrora.

São João Crisóstomo, super Matth. Com efeito, André creu, mas por João dizer: Eis o Cordeiro de Deus; Pedro creu, mas porque André lho anunciou; Filipe creu, mas lendo as Escrituras; e Natanael recebeu primeiro um sinal da divindade e assim ofereceu a confissão da fé.

Orígenes. Jairo, chefe de Israel, pedindo por sua filha, não disse: Dize uma palavra, mas: Vem depressa. Nicodemos, ouvindo falar do sacramento da fé, disse: Como pode isto acontecer?. Maria e Marta dizem: Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido, como que duvidando de que o poder de Deus pudesse estar presente em toda parte.

São João Crisóstomo, super Matth. Ou, se queremos considerar este homem mais fiel que os apóstolos, o testemunho de Cristo deve ser entendido no sentido de que cada bem do homem é louvado segundo a condição da pessoa: com efeito, que um camponês diga algo com sabedoria é coisa grande; que o faça um filósofo não é de admirar: assim foi dito do centurião: Em ninguém encontrei tamanha fé em Israel.

São João Crisóstomo, in Matth. Com efeito, não será igual um judeu crer e um gentio crer.

São Jerônimo. Ou talvez, no centurião, a fé dos gentios é preferida a Israel; por isso acrescenta: Digo-vos que muitos virão do oriente e do ocidente.

Santo Agostinho, de Verb. Dom. Não diz todos, mas muitos; contudo, eles do oriente e do ocidente: por estas duas partes designa-se o mundo inteiro.

Haymo. Ou do oriente vêm os que, iluminados logo, passam adiante; do ocidente, os que toleraram a perseguição até a morte pela fé; ou do oriente vem aquele que desde a infância começa a servir a Deus; do ocidente, quem se converte a Deus na própria idade decrépita.

Orígenes. Mas como diz em outro lugar que poucos são os escolhidos? Com efeito, ao longo das diversas gerações poucos são os escolhidos, mas reunidos juntos no tempo da visitação, serão encontrados muitos. Segue-se: E se reclinarão, não deitando-se carnalmente, mas repousando espiritualmente; não bebendo temporalmente, mas banqueteando-se eternamente com Abraão, Isaac e Jacó no Reino dos céus, onde há luz, exultação, glória e longevidade de vida eterna.

São Jerônimo. Mas porque o Deus de Abraão, criador do céu, é o pai de Cristo, por isso está no reino dos céus também Abraão, com quem se assentarão à mesa as nações que creram em Cristo, filho do criador.

Santo Agostinho, de Verb. Dom. Assim como vemos os cristãos chamados ao banquete celeste, onde está o pão da justiça e a bebida da sabedoria, assim vemos também os judeus reprovados; donde se segue: Mas os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores: os judeus, a saber, que receberam a Lei, que celebram as figuras de todas as coisas futuras, mas que não reconheceram as presentes.

São Jerônimo. Ou chama filhos do reino os judeus, porque neles Deus reinou antes.

São João Crisóstomo, in Matth. Ou chama filhos do reino àqueles para quem o reino estava preparado; o que os mordia ainda mais.

Santo Agostinho, contra Faustum. Se, pois, Moisés não recomendou ao povo de Israel senão o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, e Cristo recomenda esse mesmo Deus, não tentou desviar aquele povo de seu Deus; mas ameaçou-os de irem para as trevas exteriores porque os via afastados de seu Deus, em cujo reino diz que as nações, chamadas de todo o orbe da terra, se assentarão com Abraão, Isaac e Jacó: não por outra razão senão porque mantiveram a fé do Deus de Abraão, Isaac e Jacó; a estes o Senhor dá testemunho, não como a homens corrigidos na morte ou justificados depois de sua paixão.

São Jerônimo. As trevas, porém, chamam-se exteriores porque quem é expulso para fora pelo Senhor abandona a luz.

Haymo. O que haverão de padecer ali, manifesta-o quando acrescenta: Ali haverá choro e ranger de dentes. Pois, por metáfora dos membros, descreve as penas dos tormentos: costumam, com efeito, os olhos tocados pela fumaça produzir lágrimas, e os dentes ranger com o frio excessivo. Mostra-se, portanto, que os réprobos no Inferno suportarão tanto um calor intolerável como o frio, segundo aquilo de Jó: Passarão das águas das neves ao calor excessivo.

São Jerônimo. Se, porém, há choro dos olhos, e o ranger de dentes mostra os ossos, é verdadeira a ressurreição dos corpos e dos mesmos membros que haviam caído.

Rábano Mauro. Ou o ranger de dentes revela o sentimento de quem se indigna, porque cada um tarde se arrepende, tarde se irrita consigo mesmo por ter pecado com tão pertinaz malícia.

Remígio de Auxerre. Ou de outro modo. Chama de trevas exteriores as nações estrangeiras: quanto à história, o Senhor prediz com estas palavras a ruína dos judeus, que por causa da infidelidade seriam levados cativos e dispersos pelos diversos reinos da terra: o choro, com efeito, costuma vir do fogo, o ranger de dentes do frio. Atribui-se, pois, o choro aos que habitam em lugares mais quentes, como na Índia e na Etiópia; o ranger de dentes, porém, atribui-se aos que moram em lugares mais frios, como a Hircânia e a Cítia.

São João Crisóstomo, in Matth. Para que ninguém julgue serem lisonjas estas palavras que foram ditas, faz crer com um sinal; donde se segue: E Jesus disse ao centurião: Vai, e como creste, assim te seja feito.

Rábano Mauro. Como se dissesse: segundo a medida da fé te seja feita também esta graça. Pode, porém, o mérito do senhor valer também aos servos, não só pelo mérito da fé, mas também pelo zelo da disciplina; donde se segue: E foi curado.

São João Crisóstomo, in Matth. Aqui admira a rapidez: pois não só curar, mas fazê-lo inesperadamente e num instante de tempo mostrava o poder de Cristo.

Santo Agostinho, de Verb. Dom. Pois assim como o Senhor não entrou na casa do centurião com o corpo, mas, ausente no corpo e presente pela majestade, curou o menino, assim também esteve com o corpo somente no povo judeu; entre as outras nações, porém, nem nasceu da Virgem, nem padeceu, nem suportou as coisas humanas, nem fez milagres divinos; e contudo cumpriu-se o que fora dito: Um povo que não conheci serviu-me; ao ouvir com o ouvido, obedeceu-me. Pois a nação judaica conheceu e crucificou; o orbe da terra ouviu e creu.

Mt 8,14-15

14Foi então Jesus à casa de Pedro, cuja sogra estava de cama, com febre. 15Tomou-lhe a mão, e a febre a deixou. Ela levantou-se e pôs-se a servi-los.

Rábano Mauro. Depois que Mateus mostrou, pelo leproso, curado todo o gênero humano, e, no servo do centurião, a cura do povo gentio, designa em seguida, pela sogra de Pedro, a cura da sinagoga, quando diz: E tendo Jesus chegado à casa de Pedro. Narra primeiro o do servo, porque foi maior o milagre e maior a graça no gentio convertido; ou porque no fim dos tempos a sinagoga será plenamente convertida, quando tiver entrado a plenitude dos gentios. A casa de Pedro ficava em Betsaida.

São João Crisóstomo, in Matth. Mas por que entrou na casa de Pedro? Parece-me que para tomar alimento; daí se segue: e levantou-se, e servia-os. Pois se hospedava junto aos discípulos, honrando-os e tornando-os por isso mais fervorosos. Observa, porém, a reverência de Pedro para com Cristo: tendo em casa a sogra enferma de febre, não o levou à casa, mas esperou que a pregação se completasse e que os outros fossem curados. Desde o princípio, com efeito, era instruído a antepor a si mesmo as coisas dos outros. Por isso, nem ele mesmo o introduz, mas Cristo foi por iniciativa própria, depois que o centurião disse: Não sou digno de que entres sob o meu teto, mostrando quanto concedia ao discípulo. Não desdenhou, porém, entrar nas humildes choupanas dos pescadores, ensinando por tudo a pisotear o orgulho humano. E às vezes cura somente com palavras, outras vezes também estende a mão; por isso aqui também se diz: e tocou-lhe a mão, e a febre deixou-a. Não queria, com efeito, fazer sempre os milagres com superabundância; convinha, entretanto, ocultar-se. Mas, tocando o corpo, não só extinguiu a febre, como também concedeu pura saúde. Pois, sendo a doença curável, manifestava seu poder pelo modo da cura, fazendo o que a arte médica não realiza, isto é, restituir ao mesmo tempo a saúde perfeita; por isso o Evangelista, aludindo a isso, diz que levantou-se, e servia-os.

São Jerônimo. Pois a natureza dos homens é tal que, depois da febre, os corpos mais se enfraquecem, e, ao começar a saúde, sentem os males da doença. Mas a saúde que é conferida pelo Senhor volta toda de uma vez; e não basta estar curada, mas, para que se indicasse o vigor da força, acrescentou-se: levantou-se, e servia-os.

São João Crisóstomo, in Matth. Portanto, no que se diz, que levantou-se, e servia-os, há um sinal do poder de Cristo e do afeto que a mulher mostrava para com Cristo.

São Beda, o Venerável. Misticamente, porém, a casa de Pedro é a Lei ou a circuncisão; a sogra é a sinagoga, que de certo modo é a mãe da Igreja confiada a Pedro. Ela tem febre, porque padecia com os ardores da inveja, perseguindo a Igreja; o Senhor lhe toca a mão quando converte as obras carnais dela em uso espiritual.

Remígio de Auxerre. Ou, pela sogra de Pedro, pode-se entender a Lei, que, segundo o Apóstolo, estava enfraquecida pela carne, isto é, pelo entendimento carnal. Mas quando o Senhor, pelo mistério da encarnação, apareceu visivelmente na sinagoga, e cumpriu a Lei pela obra e ensinou que devia ser entendida espiritualmente, logo ela, associada à graça do Evangelho, recebeu tanto vigor que, tendo sido ministra da morte e da pena, tornou-se depois ministra da vida e da glória.

Rábano Mauro. Ou ainda, toda alma que milita sob as concupiscências da carne arde como em febres; mas, tocada pela mão da misericórdia divina, recupera as forças, e pelos freios da continência reprime a lascívia da carne, e com os membros com que servira à impureza, serve à justiça.

Santo Hilário, in Matth. Ou na sogra de Pedro se considera a disposição viciosa da infidelidade, à qual adere a liberdade da vontade, que nos une a si por uma espécie de sociedade conjugal. Portanto, com a entrada do Senhor na casa de Pedro, isto é, no corpo, é curada a infidelidade, que ardia no calor dos pecados, e, salva, serve no ministério do ofício.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Quando isto aconteceu, isto é, depois de quê ou antes de quê, Mateus não o expressou: pois não é necessário que se entenda que aquilo que é narrado depois também tenha acontecido depois; contudo, entende-se que este aqui recordou o que antes omitira. Pois Marcos narra isto aqui antes de mencionar aquilo sobre o leproso purificado, que parece ter interposto depois do sermão proferido no monte, sobre o qual ele mesmo se calou. Assim também Lucas narra este fato depois, o da sogra de Pedro, depois do qual também Marcos o narra: antes do sermão que interpôs, longo, o qual pode parecer o mesmo que Mateus diz ter sido proferido no monte. Que importa, porém, quem o coloca em que lugar, seja porque virá na ordem, seja porque recorda o que foi omitido, seja porque antecipa o que foi feito depois, contanto que não contradiga as mesmas outras coisas narradas, nem a si mesmo nem a outro? Pois, como não está no poder de ninguém a ordem em que cada um recorda as coisas oportunamente conhecidas, é bastante provável que cada um dos Evangelistas tenha julgado dever narrar naquela ordem em que Deus quis sugerir à sua recordação as coisas que narrava. Por isso, onde a ordem dos tempos não aparece, não nos deve importar a ordem de narrar que qualquer deles tenha seguido.

Mt 8,16-17

16Pela tarde, apresentaram-lhe muitos possessos de demônios. Com uma palavra expulsou ele os espíritos e curou todos os enfermos. 17Assim se cumpriu a predição do profeta Isaías: Tomou as nossas enfermidades e sobrecarregou-se dos nossos males (Is 53,4).

São João Crisóstomo, in Matth. Como a multidão dos que criam já havia aumentado, e nem a hora os impelia a afastar-se de Cristo, ao entardecer lhe trazem os enfermos; daí se diz: Ao entardecer, apresentaram-lhe muitos endemoninhados.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Pelo que diz: ao entardecer, indica-se suficientemente que isto pertence ao tempo do mesmo dia, embora não seja necessário, onde se diz ao entardecer, entender o entardecer do mesmo dia.

Remígio de Auxerre. Cristo, porém, Filho de Deus, autor da salvação humana, fonte e origem de toda piedade, concedia o remédio celeste; daí se segue: e expulsou os espíritos com a palavra, e curou todos os que estavam doentes. Pois repelia os demônios e as doenças só com a palavra, para mostrar por estes sinais e poderes que viera para a salvação do gênero humano.

São João Crisóstomo, in Matth. Repara, porém, quão grande multidão curada os Evangelistas passam por alto; não narrando cada um dos curados, mas introduzindo com uma só palavra um oceano inefável de milagres. E para que a grandeza do milagre não suscite incredulidade, por ter curado tão grande povo e tão variadas enfermidades num só momento, introduz o profeta que atesta o que acontecia; daí se segue: para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías: Ele tomou as nossas enfermidades.

Rábano Mauro. Não para tê-las para si, mas para tirá-las de nós; e carregou as nossas doenças, para que carregasse por nós o que, por fraqueza de forças, não podíamos suportar.

Remígio de Auxerre. Porque assumiu a fraqueza da natureza humana para tornar fortes e robustos a nós, que éramos fracos.

Santo Hilário, in Matth. E pela paixão de seu corpo, segundo as palavras dos profetas, absorveu as enfermidades da fraqueza humana.

São João Crisóstomo, in Matth. Isto, porém, parece ter sido dito pelo profeta antes a respeito dos pecados. Como, então, o Evangelista o expõe a respeito das enfermidades? Mas deve-se saber que ou ele aplicou aqui o testemunho à narrativa, ou mostrou que muitas enfermidades das almas provêm dos pecados; pois a própria morte tem sua raiz nos pecados.

São Jerônimo. Deve-se notar que todos são curados não de manhã, nem ao meio-dia, mas ao entardecer, quando o sol está para se pôr, e quando o grão de trigo morre na terra, para produzir muito fruto.

Rábano Mauro. Com efeito, o pôr do sol designa a paixão e a morte daquele que disse: Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo; que, vivendo temporalmente na carne, ensinou a poucos dos judeus; mas, tendo calcado o reino da morte, prometeu a todos os gentios do mundo inteiro os dons da fé.

Mt 8,18-22

18Certo dia, vendo-se no meio de grande multidão, ordenou Jesus que o levassem para a outra margem do lago. 19Nisso aproximou-se dele um escriba e lhe disse: “Mestre, eu te seguirei para onde quer que fores”. 20Respondeu Jesus: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu, seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”. 21Outra vez um dos seus discípulos lhe disse: “Senhor, deixa-me ir primeiro enterrar meu pai”. 22Jesus, porém, lhe respondeu: “Segue-me e deixa que os mortos enterrem seus mortos”.

São João Crisóstomo, in Matth. Cristo não apenas curava os corpos, mas corrigia a alma, e quis mostrar a verdadeira sabedoria, não só curando as enfermidades, mas também nada fazendo por ostentação; e por isso se diz: Vendo Jesus ao redor de si muitas multidões, mandou os discípulos irem para a outra margem. Fazia isso ao mesmo tempo ensinando-nos a desejar com moderação, atenuando a inveja dos judeus e ensinando-nos a nada fazer por ostentação.

Remígio de Auxerre. Ou faz isto como homem que quer evitar a importunidade das multidões. Estavam, porém, agarrados a ele, admirando-o e querendo vê-lo. Quem, com efeito, se afastaria de quem opera tais milagres? Quem não quereria ver o seu rosto simples e a boca que dizia tais coisas? Se, pois, Moisés tinha o rosto glorificado, e Estêvão como o de um Anjo, entende qual teria aparecido então o rosto do Senhor comum a todos, como convém; donde diz o profeta: Tu és o mais belo dos filhos dos homens.

Santo Hilário, in Matth. Não se deve julgar que o nome de discípulos convenha apenas aos doze apóstolos; pois lemos que, além dos apóstolos, houve muitos discípulos.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. É manifesto que o dia em que ordenou ir para a outra margem é outro, e não aquele que se segue ao dia em que a sogra de Pedro foi curada, dia em que Marcos e Lucas afirmam que ele saiu para o deserto.

São João Crisóstomo, in Matth. Vê como ele não despede as multidões sem mais, para não as ofender. Pois não disse: Retirai-vos, mas mandou espontaneamente que os discípulos partissem, dando à multidão a esperança de ir também para lá.

Remígio de Auxerre. Mas o que aconteceu entre a ordem de Deus e a travessia, o Evangelista procurou manifestá-lo, ao dizer: E aproximando-se um escriba, disse-lhe: Mestre, seguir-te-ei aonde quer que fores.

São Jerônimo. Este escriba, que só conhecia a letra que mata, se tivesse dito: Senhor, seguir-te-ei aonde quer que fores, não teria sido repelido pelo Senhor; mas porque considera o mestre um entre muitos, e era letrado (o que em grego se diz mais significativamente grammateus), e não ouvinte espiritual, por isso não tem lugar onde Jesus possa reclinar a cabeça. Mostra-se-nos também que o escriba foi repudiado porque, vendo a grandeza dos sinais, quis seguir o Salvador para buscar lucros nos milagres das obras; desejando o mesmo que Simão, o mago, quisera comprar de Pedro.

São João Crisóstomo, in Matth. Vê também quão grande é o seu orgulho: pois assim se aproximou e falou como quem desdenha ser contado com a multidão, mas mostrando que está acima de muitos.

Santo Hilário, in Matth. Ou de outro modo. Este escriba, que é um dos doutores da lei, pergunta se haverá de seguir, como se não estivesse contido na lei que este é aquele a quem convém seguir. Expressou, portanto, o sentimento de infidelidade sob a desconfiança da pergunta; porque a adesão da fé não se deve perguntar, mas seguir.

São João Crisóstomo, in Matth. Cristo, porém, responde-lhe não à pergunta das palavras, mas saindo ao encontro do desígnio do seu espírito; donde se segue: E Jesus lhe diz: As raposas têm covas, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça; como se dissesse:

São Jerônimo. Por que queres seguir-me por causa das riquezas e dos lucros do século, sendo eu de tão grande pobreza que nem sequer uma pequena hospedagem tenho, e uso teto que não é meu?

São João Crisóstomo, in Matth. Isto, porém, não era de quem o afastava, mas de quem repreendia o mau desígnio, concedendo, contudo, que, se quisesse, seguisse a Cristo na expectativa da pobreza. E para que aprendas a malícia dele: ouvindo isto e sendo corrigido, não disse: Estou pronto a seguir-te.

Santo Agostinho, de Verb. Dom. Ou de outro modo: O Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça, isto é, na tua fé. Pois as raposas têm tocas, no teu coração, porque és dissimulado; as aves do céu têm ninhos, no teu coração, porque és soberbo. Sendo dissimulado e soberbo, não me segues; pois como o dissimulado seguiria a simplicidade?

São Gregório Magno(séc. VI). Ou de outro modo: As raposas são animais muito astutos, que se escondem em covas ou cavernas; e, quando aparecem, nunca correm por caminhos retos, mas por desvios tortuosos; as aves, por sua vez, elevam-se em voo alto. Pelo nome de raposas, portanto, são designados os demônios dissimulados e astutos; pelo nome de aves, esses mesmos demônios soberbos; como se dissesse: os demônios astutos e altivos encontram habitação no teu coração; minha humildade, porém, não encontra repouso numa mente soberba.

Santo Agostinho, de quaest. Evang. Entende-se, com efeito, que, movido pelos milagres, quis segui-lo por vã jactância, a qual é significada pelas aves; e que fingiu obséquio de discípulo, fingimento que foi significado pelo nome das raposas.

Rábano Mauro. Os hereges, porém, que confiam na sua astúcia, são significados pelas raposas, e os espíritos malignos, pelas aves do céu, que tinham tocas e ninhos, isto é, moradas, no coração do povo judeu. Segue-se: Outro, porém, dos seus discípulos disse-lhe: Senhor, permite-me ir primeiro enterrar meu pai.

São Jerônimo. Que semelhança há entre o escriba e o discípulo? Aquele chama-o mestre, este confessa-o Senhor.

Santo Hilário, in Matth. Este deseja ir enterrar o pai por ocasião de piedade; aquele promete segui-lo aonde quer que for, buscando não o mestre, mas o lucro vindo do mestre. Aquele discípulo também não pergunta se deve seguir; pois já acreditou que devia segui-lo; mas pede que lhe seja permitido enterrar o pai.

Santo Agostinho, de Verb. Dom. O Senhor, porém, quando prepara os homens para o Evangelho, não quer que se interponha nenhuma desculpa dessa piedade carnal e temporal; e por isso se segue: Jesus, porém, disse-lhe: Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos.

São João Crisóstomo, in Matth. Disse isso, porém, não ordenando desprezar o amor aos pais, mas mostrando que nada nos deve ser mais necessário do que os assuntos celestes; que devemos unir-nos a eles com todo o empenho, e não tardar nem um pouco, ainda que sejam muito convidativos e atraentes os motivos que nos puxam. Pois o que era mais necessário do que enterrar o pai? E o que mais fácil? Com efeito, não era preciso gastar muito tempo. Com isso também o Senhor o livrou de muitos males: a saber, lutos e aflições, e as coisas que se esperam daqui. Pois depois da sepultura era necessário examinar os testamentos, a divisão da herança e outras coisas semelhantes; e assim, vagas sucedendo a vagas, poderiam afastá-lo longe do porto da verdade. Se, porém, ainda te perturbas, considera que muitos não permitem que os doentes saibam, nem por um instante os sigam, ainda que seja o pai, a mãe ou o filho que morreu; e nem por isso são acusados de crueldade; antes, o contrário é que seria crueldade. E é um mal muito maior afastar o homem das palavras espirituais, sobretudo quando havia quem cumprisse isso: pois havia quem fosse realizar a sepultura desse funeral; por isso diz: Deixa que os mortos enterrem os seus mortos.

Santo Agostinho, de Verb. Dom. Como se dissesse: teu pai morreu. Mas há outros mortos, que enterram os seus mortos, porque são infiéis.

São João Crisóstomo, in Matth. Nisso mostra que esse morto não era seu: com efeito, o que havia falecido era, segundo penso, do número dos infiéis. Se, porém, admiras o jovem, porque por um assunto tão necessário interrogou a Jesus e não foi embora espontaneamente, admira muito mais que, mesmo impedido, permaneceu; o que não era ingratidão, pois não o fez por indolência, mas para que não se perdesse um assunto mais necessário.

Santo Hilário, in Matth. Igualmente, porque aprendemos que no início da oração dominical se deve rezar primeiro assim: Pai nosso, que estás nos céus, e na pessoa do discípulo está o povo crente, é advertido de que o pai está vivo para ele nos céus; depois, de que entre o filho fiel e o pai infiel não resta o direito do nome de pai. Advertiu também que os mortos infiéis não se misturam à memória dos santos, e que estão mortos os que vivem fora de Deus: de modo que os mortos sejam sepultados pelos mortos, porque, pela fé em Deus, convém que os vivos se unam ao Vivo. Se, porém, o morto sepulta o morto, não devemos ter cuidado dos mortos, mas dos vivos; para que, enquanto nos preocupamos com os mortos, não sejamos também chamados mortos.

São Gregório Magno. Os mortos também sepultam o morto quando os pecadores favorecem os pecadores. Pois os que cobrem de louvores o pecador escondem o morto sob o montão de suas palavras.

Rábano Mauro. Deve-se notar também, nesta sentença, que às vezes os bens menores devem ser deixados de lado em vista da utilidade dos maiores.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. O que Mateus diz, que isso aconteceu quando mandou que passassem para o outro lado do mar, e Lucas, enquanto eles caminhavam pela estrada, não é contraditório; porque certamente caminhavam pela estrada para chegar ao mar.

Mt 8,23-27

23Subiu ele a uma barca com seus discípulos. 24De repente, desencadeou-se sobre o mar uma tempestade tão grande, que as ondas cobriam a barca. Ele, no entanto, dormia. 25Os discípulos achegaram-se a ele e o acordaram, dizendo: “Senhor, salva-nos, nós perecemos!”. 26E Jesus perguntou: “Por que este medo, gente de pouca fé?” Então, levantando-se, deu ordens aos ventos e ao mar, e fez-se uma grande calmaria. 27Admirados, diziam: “Quem é este homem a quem até os ventos e o mar obedecem?”.

Orígenes. Tendo Cristo mostrado na terra muitas coisas grandes e admiráveis, passa ao mar, para ali manifestar obras excelentes, a fim de mostrar a todos que é o Senhor da terra e do mar; por isso se diz: E, subindo ele ao barco, seus discípulos o seguiram: não fracos, mas firmes e estáveis na fé. Estes, portanto, o seguiram, não só acompanhando seus passos, mas sobretudo acompanhando sua santidade.

São João Crisóstomo, in Matth. Levou consigo também os discípulos no barco, para elevá-los em ambos os sentidos: tanto para que nos perigos não se assustassem, quanto para que nas honras tivessem sentimentos moderados a respeito de si. Com efeito, para que não pensassem grandes coisas de si mesmos, por terem sido retidos enquanto os outros eram dispensados, permite que sejam sacudidos pelas ondas. Pois onde havia manifestação de milagres, permite que o povo esteja presente; mas onde havia o assalto das tentações e dos temores, toma somente estes, atletas do orbe da terra, que ia exercitar

Orígenes. Tendo, pois, entrado no barquinho, fez o mar se agitar; por isso se segue: E eis que se levantou uma grande agitação no mar, de modo que o barquinho era coberto pelas ondas. Essa tempestade não nasceu por si mesma, mas obedeceu ao poder daquele que manda, que tira os ventos de seus tesouros. Ora, a tempestade foi grande para que se mostrasse uma grande obra: pois quanto mais as ondas se lançavam contra o barquinho, tanto mais o temor perturbava os discípulos, de modo que desejassem ser libertados tanto mais pelos prodígios do Salvador

São João Crisóstomo, in Matth. Porque tinham visto outros receberem os benefícios de Cristo; mas ninguém avalia do mesmo modo o que sucede em corpos alheios e o que sucede em si mesmo; convinha que eles alcançassem os benefícios de Cristo por uma percepção familiar. E por isso quis que se fizesse essa tempestade, para que, pela libertação, recebessem mais claramente a percepção do benefício. Ora, essa perturbação era figura das tentações futuras, das quais Paulo diz: Não quero que ignoreis, irmãos, que fomos oprimidos acima de nossas forças. Para, pois, dar tempo ao temor, segue-se: Ele, porém, dormia. Se, com efeito, a tempestade tivesse acontecido estando ele desperto, ou não teriam pedido, ou não creriam que ele pudesse fazer algo semelhante

Orígenes. É, porém, coisa admirável e espantosa: aquele que nunca dorme nem cochila é dito dormir. Dormia, sem dúvida, no corpo, mas velava pela divindade; mostrando que trazia um verdadeiro corpo humano, que revestira de corruptibilidade. Dormia, pois, no corpo, para fazer os apóstolos velarem, e para que nós todos nunca durmamos no espírito. Ora, os discípulos estavam tão aterrorizados e quase fora de si no ânimo, que se lançaram sobre ele; e não o advertiram com modéstia e suavidade, mas o despertaram tumultuosamente; por isso se segue: E os seus discípulos aproximaram-se dele e o despertaram, dizendo: Senhor, salva-nos, estamos perecendo

São Jerônimo. O tipo deste sinal lemos em Jonas, quando, estando os demais em perigo, ele está seguro, e dorme e é despertado

Orígenes. Ó verdadeiros discípulos, tendes convosco o Salvador e temeis o perigo? A Vida está convosco e estais aflitos com a morte? Mas poderiam responder: Somos pequeninos e ainda fracos, e por isso tememos; por isso se segue: E Jesus lhes diz: Por que sois medrosos, homens de pouca fé? Como se dissesse: se me reconhecestes poderoso sobre a terra, por que não credes que sou poderoso também sobre o mar? E se a morte sobreviesse, não deveríeis suportá-la com toda firmeza? Quem crê pouco será repreendido; quem nada crê será desprezado

São João Crisóstomo, in Matth. Se alguém disser que não era de pouca fé aproximar-se para despertar Jesus, isso foi sinal de que não tinham dele uma opinião conveniente. Sabiam, com efeito, que, despertado, podia repreender o mar; mas ainda não que o podia dormindo. Por isso também não fez esse sinal diante das multidões presentes, para que não fossem acusados de pouca fé; mas tomando só os discípulos, corrige-os; e primeiro dissipa a perturbação das águas; por isso se segue: Então, levantando-se, ordenou aos ventos e ao mar, e fez-se uma grande calmaria

São Jerônimo. Deste passo, porém, compreendemos que todas as criaturas sentem o Criador: pois aquelas a quem se manda sentem aquele que manda: não pelo erro dos hereges, que julgam que todos os seres animados são sensíveis; mas pela majestade do Criador, as coisas que para nós são insensíveis, para ele são sensíveis

Orígenes. Ordenou, pois, aos ventos e ao mar; e de um grande vento fez-se uma grande calmaria: convém, com efeito, ao grande fazer coisas grandes; e por isso aquele que antes perturbou magnificamente a profundeza do mar, agora de novo mandou que se fizesse uma grande calmaria, para que os discípulos, excessivamente perturbados, se alegrassem magnificamente

São João Crisóstomo, in Matth. Nisso também se mostra que toda a tempestade se desfez de imediato, e não restou sequer vestígio da agitação; o que era extraordinário: pois quando a agitação cessa naturalmente, as águas continuam sacudidas por muito tempo; mas aqui tudo se desfez de uma vez; de modo que o que foi dito do Pai: Disse, e cessou o sopro da tempestade, Cristo o cumpriu em obra: com efeito, somente com a palavra e a ordem acalmou e refreou o mar. Ora, pelo aspecto, pelo sono e pelo uso do barco, os que estavam presentes o julgavam um homem; por isso caíram em admiração; daí se segue: E os homens se admiraram, dizendo: Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?

Glossa,. Crisóstomo põe esta leitura: Que homem é este? Pois o sono, e o que aparecia, mostravam um homem; mas o mar e a calmaria mostravam Deus

Orígenes. Mas que homens se admiraram? Não penses que aqui se designam os apóstolos: com efeito, em nenhum lugar encontramos os discípulos do Senhor designados, fora da honra, por outro nome; mas sempre são chamados ou apóstolos ou discípulos. Admiravam-se, portanto, estes homens que navegavam com ele, de quem era o barquinho

São Jerônimo. Se, porém, alguém quiser porfiar que os que se admiravam eram discípulos, responderemos que foram chamados corretamente de homens, porque ainda não conheciam o poder do Salvador

Orígenes. Ora, não dizem perguntando: Quem é este? Mas afirmando que este é tal que os ventos e o mar lhe obedecem. Qual é, pois, este? Isto é, quão grande, quão forte, quão magnífico? Manda a toda criatura, e ela não ultrapassa a sua ordem; só os homens resistem, e por isso serão condenados no juízo. Misticamente, porém, todos nós, na barquinha da santa Igreja, com o Senhor, navegamos por este mundo agitado. O próprio Senhor, por sua vez, adormece num sono piedoso, esperando a nossa paciência e a penitência dos ímpios

Santo Hilário, in Matth. Ou dorme porque é adormecido em nós pelo nosso sono. Isso acontece sobretudo para que esperemos de Deus o auxílio no temor do perigo: e oxalá ao menos uma esperança tardia confie que pode escapar do perigo, pela virtude de Cristo que vela dentro de si

Orígenes. Aproximemo-nos, pois, dele com alegria, dizendo com o profeta: Levanta-te, por que dormes, Senhor? E ele mesmo mandará aos ventos, isto é, aos demônios, que agitam as ondas, isto é, os príncipes deste mundo, para lançar perseguições contra os santos, e fará uma grande calmaria em torno do corpo e do espírito, a paz da Igreja e a serenidade para o mundo.

Rábano Mauro. Ou de outro modo. O mar é a agitação do século; a barquinha em que Cristo subiu entende-se como o madeiro da cruz, com cujo auxílio os fiéis, atravessadas as ondas do mundo, chegam à pátria celeste, como a uma margem segura, na qual Cristo sobe junto com os seus; por isso diz depois: Quem quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Quando, pois, Cristo foi posto na cruz, fez-se uma grande agitação: porque os ânimos dos discípulos se abalaram com a sua paixão, e a barquinha foi coberta pelas ondas: porque toda a força da perseguição se voltou contra a cruz de Cristo, onde ele sucumbiu à morte; por isso foi dito: Ele, porém, dormia. Seu dormir é morrer. Os discípulos despertam o Senhor quando, perturbados pela morte, buscam a ressurreição com os maiores desejos, dizendo: Salva-nos, ressuscitando, que perecemos, pela perturbação da tua morte. Ele, ressuscitando, repreende a dureza do coração deles, como se lê em outro lugar. Mandou aos ventos, porque abateu a soberba do Diabo; mandou ao mar, porque dispersou a insânia dos judeus; e fez-se uma grande calmaria, porque os ânimos dos discípulos se aquietaram, vista a ressurreição.

Glosa. Ou a barquinha é a Igreja presente, na qual Cristo, com os seus, atravessa o mar do século e reprime as águas dos perseguidores. Por isso, admiremo-nos e demos graças.

Mt 8,28-34

28No outro lado do lago, na terra dos gadarenos, dois possessos de demônios saíram de um cemitério e vieram-lhe ao encontro. Eram tão furiosos que pessoa alguma ousava passar por ali. 29Eis que se puseram a gritar: “Que tens a ver conosco, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?”. 30Havia, não longe dali, uma grande manada de porcos que pastava. 31Os demônios imploraram a Jesus: “Se nos expulsas, envia-nos para aquela manada de porcos.” – 32“Ide” – disse-lhes. Eles saíram e entraram nos porcos. Nesse instante, toda a manada se precipitou pelo declive escarpado para o lago, e morreu nas águas. 33Os guardas fugiram e foram contar na cidade o que se tinha passado e o sucedido com os endemoninhados. 34Então, a população saiu ao encontro de Jesus. Quando o viu, suplicou-lhe que deixasse aquela região.

São João Crisóstomo, in Matth. Alguns homens diziam que Cristo era homem; vieram os demônios, divulgando a sua divindade, para que aqueles que não ouviram o mar tempestuoso e depois tranquilo ouvissem os demônios que clamavam; por isso se diz: E, tendo ele chegado à outra margem, à região dos gerasenos, vieram-lhe ao encontro dois homens possuídos por demônios.

Rábano Mauro. Gerasa é uma cidade da Arábia, além do Jordão, junto ao monte Galaad, que a tribo de Manassés possuiu, não longe do lago de Tiberíades, no qual os porcos foram precipitados.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Quanto ao que Mateus diz, que eram dois os que sofriam a possessão dos demônios, enquanto Marcos e Lucas mencionam um só, deves entender que um deles era de uma pessoa mais ilustre e conhecida, por quem aquela região mais se afligia e por cuja salvação muito se empenhava, e de quem a fama deste fato se espalhou de modo mais notável.

São João Crisóstomo, in Matth. Ou Lucas e Marcos escolheram o mais furioso deles, e por isso expressam a sua calamidade. Com efeito, Lucas diz que, rompidos os grilhões, era arrastado para o deserto; Marcos, que também se feria com pedras; e, no entanto, não dizem que era um só, para não parecerem contradizer Mateus. Pelo que se acrescenta, saindo dos sepulcros, queriam impor uma doutrina perniciosa, a saber, que as almas dos que morrem se tornam demônios; por isso muitos adivinhos matam crianças, para ter a alma delas como auxiliar; e por isso também os endemoninhados clamam: Eu sou a alma daquele. Mas não é a alma do defunto que clama; é o demônio que isso finge, para enganar os ouvintes. Se, de fato, fosse possível que a alma de um morto entrasse no corpo de outro, muito mais no seu próprio. Mas tampouco é razoável que a alma que sofreu injustiças coopere com quem lhe faz injustiças, nem que um homem possa transmudar uma virtude incorpórea em outra substância, isto é, a alma em substância de demônio. Pois ninguém pode maquinar isto nos corpos, a ponto de transmudar em corpo de homem um corpo de jumento; nem é razoável que a alma separada do corpo ande ainda errando por aqui. Pois as almas dos justos estão na mão de Deus; e assim também as das crianças, que não são más. E as dos pecadores são logo levadas daqui; e isto é manifesto pelo caso de Lázaro e do rico. Mas, como ninguém ousava trazê-los a Cristo, por causa da fúria destes endemoninhados, Cristo vai até eles. Essa fúria é indicada quando se acrescenta: furiosos em excesso, de modo que ninguém podia passar por aquele caminho. Mas, porque impediam os outros de passar, acharam o caminho obstruído para si. Com efeito, eram flagelados invisivelmente, sofrendo coisas intoleráveis pela presença de Cristo; por isso segue: E eis que clamaram, dizendo: Que tens a ver conosco, Jesus, Filho de Deus?

São Jerônimo. Essa confissão, porém, não é de vontade, à qual se segue o prêmio dos que confessam, mas arrancada pela necessidade, que obriga os que não querem. Como escravos fugitivos que, depois de muito tempo, vêem o seu senhor e nada mais pedem senão serem poupados dos açoites, assim também os demônios, vendo o Senhor aparecer de repente na terra, julgavam que ele viera para julgá-los. Alguns consideram ridículo que os demônios saibam que ele é o Filho de Deus e o Diabo o ignore, sendo estes de menor malícia do que aquele de quem são satélites, quando todo o saber dos discípulos deve ser referido ao mestre.

Santo Agostinho, de Civ. Dei. Deus se deu a conhecer a eles tanto quanto quis; e quis tanto quanto convinha. Deu-se, pois, a conhecer a eles não por aquilo que é a vida eterna e a luz que ilumina os piedosos, mas por certos efeitos temporais de seu poder e sinais de sua ocultíssima presença, que podem ser evidentes aos espíritos angélicos, mesmo malignos, antes que à fraqueza dos homens.

São Jerônimo. Contudo, deve-se entender que tanto os demônios quanto o Diabo suspeitavam que ele era o Filho de Deus, mais do que o conheciam.

Santo Agostinho, de quaest. Nov. et Vet. Testam. Quanto ao que os demônios clamam: Que tens a ver conosco, Jesus, Filho de Deus?, deve-se crer que o disseram mais por suspeita do que por conhecimento. Se tivessem conhecido, jamais teriam permitido que o Senhor da glória fosse crucificado.

Remígio de Auxerre. Mas, sempre que eram atormentados pelo seu poder e o viam fazer sinais e milagres, julgavam que ele era o Filho de Deus; depois que o viam ter fome, ter sede e sofrer coisas semelhantes, duvidavam e criam que era puro homem. Deve-se considerar que tanto os judeus incrédulos, que diziam que Cristo expulsava os demônios por Beelzebu, quanto os arianos, que diziam que ele é criatura, merecem ser condenados não só pelo juízo de Deus, mas também pela confissão dos demônios, que dizem que Cristo é o Filho de Deus. E dizem com razão: Que tens a ver conosco, Jesus, Filho de Deus?, isto é, nada há de comum entre a nossa malícia e a tua graça, porque, segundo o Apóstolo, não há sociedade da luz com as trevas.

São João Crisóstomo, in Matth. Para que isso não parecesse adulação, clamavam pela experiência, dizendo: Vieste aqui antes do tempo atormentar-nos?

Santo Agostinho, de Civ. Dei. Ou porque lhes foi súbito o que esperavam que viesse, mas mais tarde; ou porque chamavam de sua perdição justamente isto, que acontecia ser desprezado o conhecimento que tinham; e isso era antes do tempo do juízo, em que serão punidos com a condenação eterna.

São Jerônimo. A presença do Salvador também é tormento dos demônios.

São João Crisóstomo, in Matth. Não podiam, porém, dizer que não tinham pecado, porque Cristo os havia encontrado praticando o mal e punindo a criatura de Deus; por isso julgavam que, por causa da superabundância dos males que haviam feito, não seria esperado neles o tempo do castigo final, que será no dia do juízo.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Quanto ao fato de as palavras dos demônios terem sido ditas de modo diverso pelos Evangelistas, isso não traz nenhum escrúpulo: pois ou podem ser reduzidas a um só sentido, ou todas as palavras podem ser compreendidas; nem pelo fato de que em Mateus se fala no plural e nos outros no singular, uma vez que eles mesmos narram que, interrogado sobre como se chamava, respondeu que era legião, porque eram muitos os demônios. Segue-se: Havia, não longe deles, uma manada de muitos porcos pastando. Os demônios, porém, lhe rogavam, dizendo: Se nos expulsas daqui, manda-nos para os porcos.

São Gregório Magno. Pois o Diabo sabe que não basta para fazer coisa alguma por si mesmo; porque nem por si mesmo existe naquilo que é espírito.

Remígio de Auxerre. Mas não pediram que fossem enviados aos homens, porque viam que aquele por cuja força eram atormentados trazia a natureza humana. Nem pediram que fossem enviados aos rebanhos, porque os rebanhos, por preceito de Deus, são animais puros e eram então oferecidos no templo de Deus. Pediram, porém, ser enviados aos porcos antes que a outros impuros, porque nenhum animal é mais impuro que o porco: donde também o porco é dito como se fosse spurcus, porque se deleita nas imundícies; assim também os demônios se deleitam nas imundícies dos pecados. Não pediram, porém, ser enviados ao ar, por causa do excessivo desejo de fazer mal aos homens. Segue-se: E disse-lhes: Ide.

São João Crisóstomo, in Matth. Jesus, porém, não fez isto como que persuadido pelos demônios, mas dispondo daí muitas coisas: uma, para ensinar a grandeza do dano dos demônios, que armavam ciladas àqueles homens; outra, para que todos aprendam que nem contra os porcos ousam, se ele mesmo não o permitir; a terceira, para mostrar que teriam feito coisas mais graves contra aqueles homens do que contra os porcos, se aqueles homens não tivessem sido ajudados pela providência divina em meio às calamidades: pois odeiam mais os homens do que os irracionais. Por isso é manifesto que não há ninguém que não participe da providência divina. Se, porém, não todos da mesma maneira nem de um só modo, também isto é a máxima espécie de providência; pois a providência se mostra naquilo que convém a cada um. Além do que foi dito, aprendemos disto também outra coisa: que ele não provê apenas em comum a todos, mas singularmente a cada um; o que alguém verá claramente nestes endemoninhados, que teriam sido sufocados há tempo, se não tivessem alcançado a divina disposição. Por isso também permitiu que fossem para a manada de porcos, a fim de que os que habitavam aquelas regiões aprendessem o seu poder. Pois, onde ninguém o conhecera, fazia brilhar milagres, para atraí-los ao conhecimento de sua divindade.

São Jerônimo. O Salvador, portanto, disse Ide não para conceder aos demônios o que pediam, mas para que, pela morte dos porcos, se oferecesse aos homens ocasião de salvação. Segue-se: E eles, saindo, isto é, dos homens, foram para os porcos; e eis que toda a manada, com grande ímpeto, se precipitou no mar, e morreram nas águas. Enrubesça o maniqueu. Se as almas dos homens e dos animais são da mesma substância e da mesma origem, como se sufocam dois mil porcos pela salvação de um só homem ou de dois?

São João Crisóstomo, in Matth. Os demônios mataram os porcos porque em toda parte procuram lançar os homens na tristeza e se alegram com a perdição. A grandeza do dano aumentava também a fama do que havia acontecido: pois foi divulgado por muitos, a saber, por aqueles que haviam sido curados, pelos donos dos porcos e pelos pastores; donde se segue: Os pastores, porém, fugiram e, chegando à cidade, anunciaram tudo, e o que se passara com os que tinham tido demônios; e eis que toda a cidade saiu ao encontro de Jesus. Mas, quando lhes convinha adorar e admirar o poder, mandavam-no embora de junto de si; donde se segue: E, vendo-o, rogavam-lhe que se retirasse de seus territórios. Considera também a mansidão de Cristo depois do milagre: pois, como aqueles que haviam recebido benefícios o expulsavam, não resistiu, mas retirou-se; e aos que se declararam indignos de sua doutrina, deixou-os, dando-lhes como doutores os libertados dos demônios e os pastores dos porcos.

São Jerônimo. Ou então, quando rogam que se retire de seus territórios, não o fazem por soberba, mas por humildade, pela qual se julgavam indignos da presença do Senhor; como também Pedro diz: Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador.

Rábano Mauro. Interpreta-se, porém, Gerasa como a que expulsa o colono ou o forasteiro que se aproxima, isto é, a gentilidade, que expulsou de si o Diabo; e que antes estava longe e agora se fez próxima, visitada por Cristo, depois da ressurreição, por meio dos pregadores.

Santo Ambrósio, super Lucam(séc. IV). Os dois endemoninhados também recebem a figura do povo gentio: pois, quando Noé gerou três filhos, Cam, Sem e Jafé, somente a família de Sem foi chamada à posse de Deus, ao passo que dos outros dois brotaram os povos das nações.

Santo Hilário, in Matth. Por isso, fora da cidade, isto é, fora da sinagoga da lei e dos profetas, os demônios retinham dois homens nos sepulcros; isto é, haviam ocupado as origens de duas gentes entre as moradas dos defuntos e os restos dos mortos, tornando perigoso aos que passavam o caminho da vida presente.

Rábano Mauro. Ou então, não sem razão, deu a entender que eles habitavam nos sepulcros: pois que outra coisa são os corpos dos descrentes senão certos sepulcros de defuntos, nos quais a alma do pecador é encerrada pela morte, e não pela palavra de Deus? Diz, porém, assim: de modo que ninguém podia passar por aquele caminho, porque, antes da vinda do Salvador, a gentilidade esteve no caminho. Ou então, por dois entende os judeus e os gentios, que não habitavam em casa, isto é, não repousavam em sua consciência. Permaneciam nos sepulcros, isto é, deleitavam-se em obras mortas; e não deixam ninguém passar pelo caminho da fé, caminho que os judeus combatiam.

Santo Hilário. Pelo seu ir ao encontro, indica-se a vontade dos que correm à salvação. Vendo, porém, os demônios que já não lhes é deixado lugar entre as gentes, suplicam que lhes seja permitido habitar nos hereges; ocupados por eles, são precipitados, por instigação dos demônios, no mar, isto é, na cobiça secular; e morrem com a infidelidade das demais gentes. Ou então, os porcos são os que se deleitam em atos imundos: pois, se alguém não tiver vivido à maneira de porco, o Diabo não recebe poder sobre ele; ou o recebe apenas para provar, não para destruir. Quanto ao fato de os porcos terem sido precipitados no lago, significa que, mesmo libertado o povo das gentes da condenação dos demônios, os que não quiseram crer em Cristo praticam às escondidas os seus ritos sacrílegos, submersos em cega e profunda curiosidade. Quanto ao fato de os pastores dos porcos, fugindo, anunciarem estas coisas, significa que alguns até dos principais dos ímpios, embora fujam da lei cristã, não cessam, contudo, de proclamar com assombro o poder de Cristo. Quanto ao fato de, feridos de grande temor, rogarem que se retire deles, significa que a multidão, deleitada em sua velha vida, não quer honrar a lei cristã, ao dizer que não pode cumpri-la.

Santo Hilário. Ou então, aquela cidade teve a figura do povo judeu, que, ouvidas as obras de Cristo, vai ao encontro de seu Senhor, proibindo-o de tocar seus territórios e sua cidade: pois não recebeu os Evangelhos.