Mt 25,1-13
1“Então, o Reino dos Céus será semelhante a dez virgens, que saíram com suas lâmpadas ao encontro do esposo. 2Cinco dentre elas eram tolas e cinco, prudentes. 3Tomando suas lâmpadas, as tolas não levaram óleo consigo. 4As prudentes, todavia, levaram de reserva vasos de óleo junto com as lâmpadas. 5Tardando o esposo, cochilaram todas e adormeceram. 6No meio da noite, porém, ouviu-se um clamor: Eis o esposo, ide-lhe ao encontro. 7E as virgens levantaram-se todas e prepararam suas lâmpadas. 8As tolas disseram às prudentes: Dai-nos de vosso óleo, porque nossas lâmpadas se estão apagando. 9As prudentes responderam: Não temos o suficiente para nós e para vós; é preferível irdes aos vendedores, a fim de o comprar para vós. 10Ora, enquanto foram comprar, veio o esposo. As que estavam preparadas entraram com ele para a sala das bodas e foi fechada a porta. 11Mais tarde, chegaram também as outras e diziam: Senhor, senhor, abre-nos! 12Mas ele respondeu: Em verdade vos digo: não vos conheço! 13Vigiai, pois, porque não sabeis nem o dia nem a hora.”
São João Crisóstomo, in Matth(séc. IV). Na parábola anterior, o Senhor mostrou o castigo daquele que batia e se embriagava e dissipava os bens de seu senhor; nesta, porém, impõe punição também àquele que não traz utilidade e nem prepara abundantemente para si o que lhe é necessário; as virgens tolas, com efeito, tinham óleo, mas não em abundância; donde se diz: Então o Reino dos céus será semelhante a dez virgens.
Santo Hilário, in Matth(séc. IV). Diz-se, porém, então porque todo este discurso é sobre o grande dia do Senhor, do qual se tratava acima.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos(séc. VI). O Reino dos céus é chamado a Igreja do tempo presente, como também ali: O Filho do homem enviará seus Anjos, e eles recolherão de seu Reino todos os escândalos.
São Jerônimo(séc. IV–V). A semelhança das dez virgens, tolas e prudentes, alguns a interpretam simplesmente a respeito de virgens, das quais umas, segundo o Apóstolo, são virgens de corpo e de mente; outras, guardando apenas a virgindade dos corpos, ou não têm o restante, ou, preservadas pela custódia dos pais, ainda assim casaram-se em mente. Mas parece-me, a partir do que foi dito acima, que há outro sentido, que é este: que esta comparação diz respeito não aos corpos virginais, mas a todo o gênero humano.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Cada um subsiste, com efeito, nos cinco sentidos do corpo, duplicados; ora, o cinco duplicado perfaz o dez. E porque a multidão dos fiéis se reúne de ambos os sexos, a santa Igreja é declarada semelhante a dez virgens; e porque nela os maus estão misturados aos bons, os réprobos aos eleitos, com razão se diz semelhante a virgens prudentes e tolas.
São João Crisóstomo, in Matth. Coloca esta parábola na pessoa de virgens para mostrar que, embora a virgindade seja algo grande, contudo, se for abandonada pelas obras de misericórdia, será lançada fora com os adúlteros.
Orígenes, in Matth(séc. III). Ou: o sentido é que todos os que receberam a palavra de Deus são virgens. Tal é, com efeito, a palavra de Deus que comunica de sua pureza a todos os que, por sua doutrina, se afastaram do culto dos ídolos e se achegaram, por Cristo, ao culto de Deus; donde segue: que, tomando suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo e da esposa. Tomam, com efeito, suas lâmpadas, isto é, seus órgãos naturais, e saem do mundo e dos erros, e vão ao encontro do Salvador, que está sempre pronto a vir, para entrar juntamente com os dignos na bem-aventurada esposa, a Igreja.
Santo Hilário. Ou: o esposo e a esposa é Deus, nosso Senhor, no corpo; pois a carne é esposa para o espírito. As lâmpadas que receberam são a luz das almas resplandecentes, que resplandeceram pelo sacramento do Batismo.
Santo Agostinho, de Verb. Dom(séc. IV–V). Ou: as lâmpadas que se levam nas mãos são as obras; com efeito, foi dito acima: Brilhem as vossas obras diante dos homens.
São Gregório Magno. Os que creem retamente e vivem com justiça são comparados às cinco prudentes; os que, porém, professam a fé em Jesus mas não se preparam para a salvação com boas obras, às outras cinco virgens tolas; donde se acrescenta: Cinco delas eram tolas e cinco prudentes.
São Jerônimo. São, com efeito, cinco os sentidos que se apressam para as coisas celestes e desejam as do alto. Da visão, da audição e do tato disse-se especialmente: o que vimos, o que ouvimos, o que contemplamos com nossos olhos e nossas mãos apalparam. Do gosto: Provai e vede como o Senhor é suave. Do olfato: Corremos ao odor de teus perfumes. Há, porém, outros cinco sentidos, que anseiam pelas borras terrenas.
Santo Agostinho. Ou: pelas cinco virgens significa-se a continência quíntupla em relação aos atrativos da carne: deve-se, com efeito, conter o apetite do ânimo quanto à vontade dos olhos, dos ouvidos, do olfato, do gosto e do tato. Mas porque essa continência se faz em parte diante de Deus, para lhe agradar com a alegria interior da consciência, e em parte somente diante dos homens, para obter a glória humana, dizem-se cinco sábias e cinco tolas; ambas, contudo, virgens, porque ambas são continência, embora se alegrem com estímulo diverso.
Orígenes. Assim como as virtudes se seguem umas às outras, de modo que quem tiver uma as tem todas, assim também todos os sentidos se seguem mutuamente; por isso é necessário que ou todos os cinco sentidos sejam prudentes, ou todos tolos.
Santo Hilário. Ou, em termos absolutos, nas cinco prudentes e nas cinco tolas está estabelecida a divisão entre fiéis e infiéis.
São Gregório Magno. Deve-se notar, porém, que todas têm lâmpadas, mas nem todas têm óleo; segue, com efeito: mas as cinco tolas, tomando as lâmpadas, não levaram óleo consigo; as prudentes, porém, tomaram óleo em seus vasos com as lâmpadas.
Santo Hilário. O óleo é o fruto da boa obra; os vasos são os corpos humanos, em cujo interior deve ser guardado o tesouro da boa consciência.
São Jerônimo. Têm, pois, óleo as virgens que se adornam de obras segundo a fé; não têm óleo as que parecem, de fato, professar uma fé semelhante, mas negligenciam as obras das virtudes.
Santo Agostinho. Penso que também pelo óleo se significa a própria alegria, conforme aquilo: Deus, o teu Deus, ungiu-te com óleo de exultação. Quem, portanto, não se alegra por agradar a Deus interiormente, não tem óleo consigo: pois não têm alegria, enquanto vivem com continência, senão nos louvores dos homens. As prudentes, porém, tomaram óleo com suas lâmpadas: isto é, puseram a alegria das boas obras em seus vasos, isto é, no coração e na consciência, como o Apóstolo adverte: Examine-se cada um a si mesmo; e então terá glória em si mesmo, e não em outro.
São João Crisóstomo, in Matth. Ou ainda, chama aqui de óleo a caridade e a esmola, e todo auxílio prestado aos necessitados; e chama de lâmpadas os dons da virgindade; por isso as chama de tolas, porque, suportando um trabalho maior, perderam tudo por causa de um menor; pois com maior esforço se vence a cobiça da carne do que a do dinheiro.
Orígenes. Ou ainda, o óleo é a palavra da doutrina, com que se enchem os vasos das almas: nada, com efeito, fortalece tanto como o discurso moral, que se chama óleo da luz. As prudentes, portanto, tomaram um óleo desses, que lhes bastasse, mesmo se a saída tardasse e a palavra demorasse a chegar à consumação delas; as néscias, porém, tomaram lâmpadas, de fato acesas no início, mas não tomaram óleo tanto que lhes bastasse até o fim, negligentes quanto à acolhida da doutrina, que fortalece a fé e acende a luz das boas ações; donde se segue: Tardando o esposo, todas cochilaram e dormiram.
Santo Agostinho. De ambos os gêneros de homens, com efeito, morrem neste intervalo de tempo, até que, na vinda do Senhor, se dê a ressurreição dos mortos.
São Gregório Magno. Dormir, com efeito, é morrer; mas cochilar, antes do sono, é enfraquecer, antes da morte, quanto à saúde: porque pelo peso da enfermidade se chega ao sono da morte.
São Jerônimo. Ou: cochilaram, isto é, morreram. Em seguida diz-se dormiram, porque depois haverão de ser ressuscitadas. Por dizer tardando o esposo, mostra que não pouco tempo transcorre entre a primeira e a segunda vinda do Senhor.
Orígenes. Ou ainda, tardando o esposo e não vindo logo a palavra à consumação da vida, os sentidos que cochilam sofrem algo, agindo como que na noite do mundo; e dormiram, por exemplo, agindo mais frouxamente quanto àquele sentido vital; contudo, não perderam as lâmpadas, nem aquelas prudentes desesperaram da conservação do óleo; donde se segue: À meia-noite ouviu-se um grito: Eis o esposo que vem; saí ao seu encontro.
São Jerônimo. É tradição dos judeus que Cristo virá à meia-noite, à semelhança do tempo do Egito, quando se celebrou a Páscoa, e veio o exterminador, e o Senhor passou sobre as tendas, e os umbrais de nossas frontes foram consagrados com o sangue do cordeiro; donde julgo ter permanecido também a tradição apostólica de que, no dia das vigílias da Páscoa, não é lícito despedir o povo antes da metade da noite, esperando a vinda de Cristo: passado aquele tempo, tomada a segurança, todos celebrem o dia de festa; donde dizia o Salmista: À meia-noite levantava-me para te louvar.
Santo Agostinho. Ou ainda: à meia-noite, isto é, sem que ninguém saiba ou espere.
São Jerônimo. De repente, pois, como em noite profunda, estando todos seguros, quando é gravíssimo o sono, pelo clamor dos Anjos e pelas trombetas das potências que precedem, ressoará a vinda de Cristo; o que se significa quando se diz: Eis o esposo que vem; saí ao seu encontro.
Santo Hilário. Pois, ao soar a trombeta, só ao esposo se vai ao encontro: com efeito, já serão ambos um só, isto é, carne e Deus, porque a humildade da carne foi transformada em glória espiritual.
Santo Agostinho. Ou ainda, quanto ao dizer que as virgens vão ao encontro só do esposo, penso que se deve entender assim: que das próprias virgens se constitui aquela que se chama esposa; como se, correndo todos os cristãos juntos na Igreja, se dissesse que os filhos correm à mãe, embora dos próprios filhos reunidos se constitua aquela que se chama mãe. Agora, com efeito, a Igreja está desposada, e, virgem, há de ser conduzida às núpcias naquele tempo em que, passando nela toda a mortalidade, será mantida em união imortal.
Orígenes, in Matth. Ou ainda, à meia-noite, isto é, na profundidade do relaxamento, fez-se um clamor, dos Anjos que, como penso, querem despertar a todos, os quais são espíritos servidores, clamando por dentro nos sentidos de todos os que dormem: Eis o esposo que vem; saí ao seu encontro. E todos ouviram esta advertência e se levantaram; mas nem todos puseram convenientemente o adorno em suas lâmpadas; donde se segue: Então todas aquelas virgens se levantaram e prepararam suas lâmpadas. Preparam-se, porém, as lâmpadas dos sentidos com usos evangélicos e retos. Os que, porém, usam mal dos sentidos, não têm nenhum adorno nos sentidos.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Ou então, todas as virgens se levantam, porque tanto os eleitos quanto os réprobos são despertados do sono de sua morte; preparam as lâmpadas, porque levam consigo suas obras, pelas quais esperam receber a bem-aventurança eterna.
Santo Agostinho, de Verb. Dom. Prepararam, com efeito, suas lâmpadas, isto é, as razões a prestar de suas obras.
Santo Hilário, in Matth. Ou, a tomada das lâmpadas é o retorno das almas aos corpos, e a luz delas é a consciência da boa obra que resplandece, a qual está contida nos pequenos vasos dos corpos.
Orígenes. Mas as lâmpadas das virgens tolas se apagam, porque as obras delas, que apareceram brilhantes aos homens por fora, na vinda do juiz escurecem por dentro; donde se segue: As tolas disseram às sábias: Dai-nos do vosso óleo, porque as nossas lâmpadas se apagam. Que significa, então, pedirem elas nesse momento óleo às prudentes, senão que, na vinda do juiz, achando-se vazias por dentro, buscam fora um testemunho? Como se, enganadas em sua confiança, dissessem às vizinhas: Já que vedes que somos rejeitadas como sem obras, dizei o que vistes das nossas obras.
Santo Agostinho. Com efeito, por costume ela busca sempre aquilo de que o ânimo costuma alegrar-se. Assim, querem ter diante de Deus, que perscruta o coração, o testemunho dos homens, que não veem os corações. Mas aqueles cujos feitos se apoiam em louvor alheio, retirado este, desfalecem; por isso também as lâmpadas delas se apagam. Ou, as virgens que se queixam de que suas lâmpadas se apagam mostram que elas brilham em parte; e, contudo, não têm luz que não falha, nem obras perpétuas. Se alguém, portanto, tem ânimo virginal e é amante da pudicícia, não deve contentar-se medianamente com aquilo que logo seca e murcha ao surgir o calor; mas siga as virtudes perfeitas, para ter a luz sempiterna.
São João Crisóstomo, in Matth. Ou de outro modo. Estas virgens não eram tolas somente porque daqui partiram carentes de misericórdia, mas porque julgavam receber lá aquilo que pediram fora de tempo. Embora nada haja de mais misericordioso do que aquelas virgens prudentes, que foram aprovadas sobretudo por causa da misericórdia, as virgens tolas, porém, não alcançaram o que pediram. Segue-se: Responderam as prudentes, dizendo: Para que talvez não baste para nós e para vós. Daqui aprendemos que nenhum de nós poderá entrar senão pelas obras com que formos achados.
São Jerônimo. Com efeito, as virgens prudentes não respondem isto por avareza, mas por temor; donde cada um receberá a recompensa por suas obras, e não podem, no dia do juízo, as virtudes de uns suprir os vícios de outros. As prudentes dão, porém, o conselho de que não devem ir ao encontro do esposo sem óleo nas lâmpadas; e isto é o que se segue: Ide antes aos que vendem e comprai para vós.
Santo Hilário. Os que vendem são os que, necessitando da misericórdia dos fiéis, devolvem de si o intercâmbio pedido à sua indigência, vendendo, com a sua saciedade, a consciência de nossa boa obra. Esta é, com efeito, a copiosa matéria da luz infatigável, que deve ser comprada e renovada pelos frutos da misericórdia.
São João Crisóstomo, in Matth. Vês, pois, quão grande negócio temos com os pobres; ora, os pobres não estão lá, mas aqui; por isso é preciso juntar aqui o óleo, para que seja útil lá, quando o tempo nos chamar.
São Jerônimo. Este óleo também se vende e é comprado a alto preço, e é adquirido com difícil labor; o qual entendemos que se encontra não só nas esmolas, mas em todas as virtudes e nos conselhos dos mestres.
Orígenes. Ou de outro modo. Ainda que fossem tolas, entendiam, contudo, que deviam ir ao encontro do esposo com luz, tendo iluminadas todas as lâmpadas dos sentidos. Viam também isto: que, por terem menos óleo racional, suas lâmpadas, ao se aproximarem as trevas, haviam de se escurecer. Mas as sábias enviam as tolas aos vendedores de óleo, vendo que não haviam juntado óleo, isto é, a palavra da doutrina, em quantidade que bastasse a elas para a vida e para instruir aquelas; por isso dizem: Ide antes aos que vendem, isto é, aos doutores, e comprai para vós, isto é: recebei deles; e o preço é a perseverança, o amor de aprender, a diligência e o labor dos que desejam aprender.
Santo Agostinho. Ou não se deve pensar que deram conselho, mas que lembraram indiretamente o crime delas. Vendem, com efeito, o óleo os aduladores, que, louvando coisas falsas ou ignoradas, lançam as almas em erros e, aconselhando-lhes alegrias vãs como a tolos, recebem disso alguma recompensa de proveito temporal. Diz-se, pois: Ide aos que vendem e comprai para vós, isto é, vejamos agora o que vos ajudam aqueles que costumavam vender-vos louvores. Dizem, porém: Para que talvez não baste para nós e para vós, porque ninguém é ajudado por testemunho alheio diante de Deus, a quem se manifestam os segredos do coração; e a custo cada um basta a si mesmo, a quem sua consciência presta testemunho.
São Jerônimo. Mas porque já passara o tempo de comprar, e, chegando o dia do juízo, não havia lugar para a penitência, são obrigadas não a praticar obras novas, mas a prestar contas das passadas; donde se segue: Enquanto elas foram comprar, chegou o esposo, e as que estavam preparadas entraram com ele para as núpcias.
Santo Hilário, in Matth. As núpcias, porém, são a assunção da imortalidade e a união, por uma nova sociedade, entre a corrupção e a incorrupção.
São João Crisóstomo, in Matth. Por isto que diz enquanto foram comprar, mostra que, ainda que nos tornemos misericordiosos depois da morte, nada daqui lucraremos para escapar; assim como também ao rico não aproveitou ter-se tornado misericordioso e solícito para com os que lhe pertenciam.
Orígenes, in Matth. Ou diz: enquanto iam comprar: pois há quem, quando devia, tenha negligenciado aprender algo útil; mas, no próprio termo de sua vida, enquanto se dispõem a aprender, são surpreendidos pela morte.
Santo Agostinho, de Verb. Dom. Ou de outro modo. Enquanto elas iam comprar, isto é, enquanto se inclinavam às coisas exteriores e buscavam os costumeiros motivos de alegria, porque não conheciam as alegrias interiores, veio aquele que julga; e as que estavam preparadas, isto é, aquelas a quem a consciência dava testemunho diante de Deus, entraram com ele para as núpcias; isto é, onde a alma pura se une, fecunda, à palavra pura e perfeita de Deus.
São Jerônimo. Depois do dia do juízo, não se deixa ocasião para boas obras e para a justiça; donde se segue: e a porta foi fechada.
Santo Agostinho. Recebidos, com efeito, aqueles que foram transformados para a vida angélica, fecha-se o acesso aos reinos dos céus; pois depois do juízo não há lugar aberto para preces e méritos.
Santo Hilário. E, no entanto, embora já não haja tempo de penitência, as tolas se apresentam e pedem que lhes seja aberta a entrada; donde se segue: Por fim, vieram também as outras virgens, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos.
São Jerônimo. A excelente confissão no chamar Senhor é sinal de fé. Mas de que adianta invocar com a voz aquele a quem negas com as obras?
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Pela dor da rejeição, forçadas, repetem o título de senhorio, invocando o Pai, de quem desprezaram a misericórdia em sua vida.
Santo Agostinho. Não se diz, porém, que compraram óleo; e por isso se deve entender que, já não restando nenhuma alegria com louvores alheios, voltam, em angústias e grandes aflições, a implorar a Deus. Mas é grande o rigor dele depois do juízo, cuja misericórdia inefável foi manifestada antes do juízo; por isso se segue: Mas ele, respondendo, disse: Em verdade vos digo: não vos conheço: isto é, conforme aquela regra, porque a arte de Deus, isto é, a sua sabedoria, não faz entrar em seu gozo aqueles que se esforçaram por realizar algo segundo os seus preceitos não diante de Deus, mas para agradar aos homens.
São Jerônimo. Pois o Senhor conhece os que são seus, e quem ignora será ignorado; e ainda que sejam virgens, seja pela pureza do corpo, seja pela confissão da verdadeira fé, contudo, porque não têm óleo, são desconhecidas pelo Esposo. Do que ele acrescenta: Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora, entende-se que tudo o que foi dito foi apresentado antes, para que, ignorando o dia do juízo, preparemos com solicitude a lâmpada das boas obras.
Santo Agostinho. Cada um, porém, ignora não somente o dia e a hora daquele tempo futuro em que o Esposo virá, mas também o de sua própria morte; e quem está preparado para ela será também encontrado preparado quando soar aquela voz pela qual todos hão de despertar.
Santo Agostinho, ad Hesychium. Não faltaram, porém, os que quiseram ensinar que estas cinco e cinco virgens dizem respeito àquela sua vinda que agora se realiza pela Igreja; mas isso não se deve afirmar temerariamente, para que não surja algo que o contradiga com força.
Mt 25,14-30
14“Será também como um homem que, tendo de viajar, reuniu seus servos e lhes confiou seus bens. 15A um deu cinco talentos; a outro, dois; e a outro, um, segundo a capacidade de cada um. Depois partiu. 16Logo em seguida, o que recebeu cinco talentos negociou com eles; fê-los produzir, e ganhou outros cinco. 17Do mesmo modo, o que recebeu dois, ganhou outros dois. 18Mas, o que recebeu apenas um, foi cavar a terra e escondeu o dinheiro de seu senhor. 19Muito tempo depois, o senhor daqueles servos voltou e pediu-lhes contas. 20O que recebeu cinco talentos aproximou-se e apresentou outros cinco: ‘Senhor’ – disse-lhe –, ‘confiaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco que ganhei’. 21Disse-lhe seu senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor’. 22O que recebeu dois talentos adiantou-se também e disse: ‘Senhor, confiaste-me dois talentos; eis aqui os dois outros que lucrei’. 23Disse-lhe seu senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor’. 24Veio, por fim, o que recebeu só um talento: ‘Senhor, disse-lhe, sabia que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. 25Por isso, tive medo e fui esconder teu talento na terra. Eis aqui, toma o que te pertence’. 26Respondeu-lhe seu senhor: ‘Servo mau e preguiçoso! Sabias que colho onde não semeei e que recolho onde não espalhei. 27Devias, pois, levar meu dinheiro ao banco e, à minha volta, eu receberia com os juros o que é meu. 28Tirai-lhe este talento e dai-o ao que tem dez. 29Será dado ao que tem e terá em abundância. Mas ao que não tem será tirado mesmo aquilo que julga ter. 30E a esse servo inútil, jogai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes’.”
Glosa(séc. XII). Na parábola precedente mostrou-se a condenação daqueles que não haviam preparado suficientemente o óleo para si, quer se entenda por óleo o brilho das obras, quer a alegria da consciência, quer a esmola, que se faz com dinheiro. Esta parábola, porém, é apresentada contra aqueles que não querem ser úteis ao próximo nem só com dinheiro, nem com a palavra, nem de outro modo, mas tudo escondem; por isso diz: Pois é como um homem que, partindo para o estrangeiro, chamou seus servos e lhes entregou os seus bens.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Este homem que parte para o estrangeiro é o nosso Redentor, que, na carne que assumira, subiu ao céu. Com efeito, o lugar próprio da carne é a terra, que é como que levada a peregrinar quando, por meio do nosso Redentor, é colocada no céu.
Orígenes, in Matth. Segundo a natureza de sua divindade, ele não peregrina, mas segundo a economia do corpo que assumiu. Pois quem diz a seus discípulos: Eis que estou convosco até a consumação do século é o Unigênito de Deus, que não está circunscrito por uma condição corpórea. Dizendo isto, não dividimos Jesus, mas preservamos a cada substância a sua propriedade. Podemos dizer também que o Senhor peregrina para os que caminham pela fé e não pela visão. Mas se, peregrinos longe do corpo, estivermos com o Senhor, então ele mesmo estará conosco. Considera ao mesmo tempo que a aplicação do discurso não parece escrita assim: como um homem que peregrina, assim eu, ou o Filho do Homem: porque é ele mesmo quem é proposto na parábola como peregrino, como homem, não como Filho de Deus.
São Jerônimo. Tendo chamado os apóstolos, transmitiu-lhes a doutrina dos Evangelhos, não como quem por largueza ou parcimônia dá mais a um e menos a outro, mas conforme as forças dos que recebem; assim como o Apóstolo diz que deu leite a beber aos que não podiam tomar alimento sólido; donde se segue: E a um deu cinco talentos, a outro dois, a outro um, a cada um segundo a sua própria capacidade.
São João Crisóstomo, in Matth. Pelos cinco, pelos dois e pelo um talento entendemos as diversas graças que foram dadas a cada um.
Orígenes. Pois, se alguma vez vires que, entre aqueles que receberam de Cristo a dispensação das palavras de Deus, uns têm mais, outros menos, e, por assim dizer, nem sequer pela metade entendem os assuntos, em comparação com os melhores; e que outros têm ainda menos; verás as diferenças dos que receberam do Senhor, por meio de Cristo, as palavras: porque foi uma a capacidade daqueles a quem foram dados cinco talentos, outra a daqueles a quem foram dados dois, outra a daqueles a quem foi dado um; e um não alcançava a medida do outro; e aquele que recebeu um talento recebeu, de fato, um dom não desprezível: pois mesmo um só talento de tal senhor é muito. Contudo, são três os servos próprios, como são três os gêneros dos que dão fruto; e recebeu cinco talentos aquele que pode conduzir todos os sentidos sensíveis das Escrituras a sentidos mais divinos; dois, porém, aquele que foi instruído na doutrina corporal: pois o dois parece ser um número carnal; mas ao que podia ainda menos o pai de família deu um talento.
São Gregório Magno. Ou de outro modo. Pelos cinco talentos exprimem-se os dons dos cinco sentidos, isto é, a ciência das coisas exteriores; pelos dois, porém, designam-se o entendimento e a operação; e pelo nome de um talento designa-se apenas o entendimento. Segue-se: e partiu logo.
Glosa. Não mudando de lugar, mas permitindo-lhes o livre poder de agir e deixando-os ao seu arbítrio. Segue-se: Aquele que havia recebido cinco talentos partiu, negociou com eles e ganhou outros cinco.
São Jerônimo. Pois, recebidos os sentidos terrenos, duplicou para si o conhecimento das coisas celestes, entendendo o Criador a partir das criaturas, as coisas incorpóreas a partir das corporais, as sempiternas a partir das breves.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Há também alguns que, ainda que não saibam penetrar as coisas interiores e místicas, ensinam, contudo, com a intenção voltada à pátria celeste, as coisas retas que podem, a partir das próprias coisas exteriores que receberam; e, enquanto se guardam da petulância da carne, da ambição das coisas terrenas e do prazer das coisas visíveis, reprimem também a outros, admoestando-os, quanto a isso.
Orígenes, in Matth. Ou aqueles que têm os sentidos exercitados, que vivem de modo salutar, elevando-se a si mesmos a um maior conhecimento e ensinando com zelo, ganharam outros cinco: porque ninguém facilmente recebe o acréscimo da virtude de outro, a não ser da que já tem; e quanto ele mesmo sabe, tanto ensina ao outro, e não mais.
Santo Hilário, in Matth. Ou aquele servo que recebeu cinco talentos é o povo dos que creem pela lei, e o mérito de seu progresso, a partir dela, duplicou-se pela operação retamente cumprida da fé evangélica. Segue-se: Da mesma forma, aquele que havia recebido dois ganhou outros dois.
São Gregório Magno. Pois há alguns que, ao pregarem aos outros pelo entendimento e pela operação, trazem, por assim dizer, um lucro duplicado do negócio: porque, enquanto a pregação é dispensada a um e outro sexo, os talentos recebidos como que se duplicam.
Orígenes. Ou ganharam outros dois, isto é, a instrução corporal e outra um pouco mais sublime.
Santo Hilário. Ou aquele servo a quem foram confiados dois talentos é o povo das nações, justificado pela fé e pela confissão tanto do Filho como do Pai, tendo confessado nosso Senhor Jesus Cristo, Deus e homem, de espírito e carne. Estes, portanto, são os dois talentos a ele confiados. Mas, assim como o povo dos judeus duplicou, pela fé do Evangelho, todo o mistério que havia conhecido nos cinco talentos, isto é, na lei, assim este, pelo acréscimo dos dois talentos, mereceu o entendimento e a operação. Segue-se: Mas aquele que havia recebido um, foi-se, cavou a terra e escondeu o dinheiro de seu senhor.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Esconder o talento na terra é, de fato, implicar o engenho recebido em atividades terrenas.
Orígenes, in Matth. Ou de outro modo. Se alguma vez vires alguém que tem a capacidade de ensinar e de aproveitar às almas, e oculta essa capacidade, embora tenha certa religiosidade de conduta, não duvides em dizer que ele é aquele que recebeu um talento e o escondeu na terra.
Santo Hilário, in Matth. Ou este servo que recebeu um talento e o guardou na terra é o povo que persiste na lei, o qual, por inveja da salvação das nações, escondeu na terra o talento recebido: pois esconder o talento na terra é ocultar a glória da nova pregação sob a difamação da paixão corporal. Segue-se: Muito tempo depois, veio o senhor daqueles servos e acertou contas com eles. Ora, no acertar das contas está o exame do juízo.
Orígenes. E observa neste lugar que os servos não vão ao senhor para serem julgados, mas o senhor vem a eles, quando o tempo se tiver cumprido; sobre o que diz muito tempo depois, isto é, depois que deixou aptos para negociar a salvação das almas; e por isso talvez não se encontre facilmente alguém, dentre os que foram aptos para tal obra, que passe cedo desta vida; como é manifesto pelo fato de que também os apóstolos envelheceram: dos quais se diz a Pedro: quando fores velho, estenderás as tuas mãos; e de Paulo foi dito a Filêmon: agora, porém, como Paulo, já velho.
São João Crisóstomo, in Matth. Vê também que o Senhor não exige as contas logo em seguida, para que aprendas a sua longanimidade. A mim, porém, parece que, insinuando ocultamente a ressurreição, diz isto.
São Jerônimo. Diz, portanto, depois de muito tempo porque é grande o tempo entre a ascensão do Salvador e a sua segunda vinda.
São Gregório Magno. Esta leitura do Evangelho nos adverte a considerar que aqueles que se veem ter recebido neste mundo mais do que os outros não sejam julgados mais gravemente pelo Autor do mundo: pois, quando os dons aumentam, crescem também as contas dos dons. Tanto mais humilde, portanto, deve ser cada um por causa do dom, quanto mais se vê obrigado a prestar contas.
Orígenes. A confiança fez com que aquele que havia recebido cinco talentos ousasse aproximar-se primeiro do Senhor; segue-se, com efeito: E, aproximando-se aquele que havia recebido cinco talentos, apresentou outros cinco talentos, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos; eis que lucrei outros cinco além deles.
São Gregório Magno. O servo, pois, que devolveu os talentos duplicados é louvado pelo Senhor e conduzido à recompensa eterna; por isso se acrescenta: Disse-lhe o seu senhor: Muito bem.
Rábano Mauro(séc. IX). Muito bem é uma interjeição de quem se alegra; com isso o Senhor insinua a sua alegria, ele que convida ao gozo eterno o servo que trabalhou bem; a respeito do qual o profeta diz: Alegrar-nos-ás com a alegria do teu rosto.
São João Crisóstomo, in Matth. Servo bom, porque fala do bem que se refere ao próximo, e fiel, porque nada do que é do senhor tomou para si.
São Jerônimo. Diz, porém, foste fiel sobre o pouco, porque tudo o que temos no presente, embora pareça grande e muitíssimo, é, em comparação com as coisas futuras, pequeno e pouco.
São Gregório Magno. Mas então o servo fiel é posto sobre muitas coisas, quando, vencido todo o incômodo da corrupção, se gloria dos gozos eternos naquela sede celeste. Então também é perfeitamente introduzido na alegria do seu senhor, quando, acolhido naquela pátria eterna e misturado aos coros dos Anjos, se alegra tanto interiormente pelo dom que já não haja nada de que sofrer exteriormente por causa da corrupção.
São Jerônimo. Que pode, porém, ser dado de maior ao servo fiel do que estar com o Senhor e ver a alegria do seu Senhor?
São João Crisóstomo, in Matth. Com esta palavra, com efeito, mostra toda a bem-aventurança.
Santo Agostinho, de Trin. Esta será, com efeito, a nossa alegria plena, além da qual não há outra: gozar de Deus Trindade, a cuja imagem fomos feitos.
São Jerônimo. A ambos os servos, tanto o que de cinco talentos fez dez quanto o que de dois fez quatro, a mesma palavra do pai de família elogia; e a ambos recebe com igual alegria, não considerando a grandeza do lucro, mas a vontade do empenho; por isso se segue: Aproximou-se também aquele que havia recebido dois talentos.
Orígenes, in Matth. Quando diz, quer daquele que recebeu cinco talentos, quer deste que recebeu dois, aproximando-se, entende a aproximação como a passagem deste mundo para aquele; e vê que as mesmas palavras foram ditas a ambos, para que talvez aquele que teve menor virtude, e exerceu toda aquela que teve, como convinha, não venha a ter junto de Deus menos do que aquele que teve maior virtude: pois só isto se busca, que tudo o que o homem tiver recebido de Deus, use-o todo para a glória de Deus.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. O servo, porém, que não quis trabalhar com o talento volta ao senhor com palavras de desculpa; por isso se acrescenta: Aproximando-se também aquele que havia recebido um talento, disse: Senhor, sei que és um homem duro.
São Jerônimo. Verdadeiramente, o que está escrito: para desculpar as desculpas nos pecados, sucede também a este servo, de modo que à preguiça e à negligência se acrescentou ainda o crime de soberba. Com efeito, quem devia confessar com simplicidade a sua inércia e suplicar ao pai de família, ao contrário, calunia-o e diz que agiu por prudente conselho, para que, enquanto buscava lucros em dinheiro, não corresse risco também quanto ao capital.
Orígenes. Parece-me, com efeito, que este servo estava entre os que creem, mas não agem com confiança, antes querem esconder-se e fazem tudo para não serem reconhecidos como cristãos. Parece-me ainda que os que são assim têm o temor de Deus e pensam dele como de alguém austero e implacável: isto é o que significa quando diz: Senhor, sei que és um homem duro. Entendemos, porém, que verdadeiramente nosso Senhor colhe onde não semeou, porque o justo semeia no espírito, do qual colherá a vida eterna. Colhe também onde não semeia, e reúne onde não espalhou, porque considera como dado a si tudo o que tiver sido semeado entre os pobres.
São Jerônimo. Pelo fato de este servo ter ousado dizer: colhes onde não semeaste, entendemos também que o Senhor acolhe a boa vida dos gentios e dos filósofos.
São Gregório Magno. Há, porém, muitos dentro da Igreja, dos quais este servo traz a imagem, que temem empreender os caminhos de uma vida melhor, e contudo não receiam jazer na indolência do próprio corpo; e, quando se consideram pecadores, hesitam em tomar os caminhos da santidade, e não temem permanecer em suas iniquidades.
Santo Hilário, in Matth. Ou, por este servo, entende-se o povo dos judeus que persiste na lei, o qual diz: tive medo de ti, como se, por temor dos antigos preceitos, se abstivesse do uso da liberdade evangélica, e dissesse: Eis o que é teu, como se tivesse permanecido naquilo que foi ordenado pelo Senhor; ao passo que soube que os frutos da justiça haviam de ser colhidos ali onde a lei não foi semeada, e que haviam de ser reunidos dentre os gentios os que estavam dispersos, não sendo da estirpe de Abraão.
São Jerônimo. Mas o que ele julgara dizer como desculpa volta-se em culpa própria; por isso segue: Respondendo, seu senhor disse-lhe: Servo mau e preguiçoso, sabias que colho onde não semeio. É chamado servo mau porque fez calúnia ao senhor; preguiçoso, porque não quis duplicar o talento: para que seja condenado em um por soberba, em outro por negligência. Se, diz, me conhecias duro e cruel, e que busco o que é alheio, deverias saber que eu buscaria com mais diligência o que é meu, e darias o meu dinheiro, ou a minha prata, aos banqueiros: pois ambos os sentidos a língua grega significa com argyrion. As palavras do Senhor são palavras castas, prata provada no fogo. O dinheiro e a prata, portanto, são a pregação do Evangelho e a palavra divina; a qual devia ser dada aos banqueiros, isto é, ou aos demais doutores, o que fizeram os apóstolos, ordenando presbíteros e bispos em cada província; ou a todos os que creem, que podem duplicar o dinheiro e devolvê-lo com juros, de modo que cumprissem pela obra tudo o que haviam aprendido pela palavra.
São Gregório Magno. Assim, pois, como se vê o perigo dos doutores, se retiverem o dinheiro do Senhor, assim também o dos ouvintes: porque deles se exige com juros o que ouviram, a saber, que, a partir do que ouvem, procurem entender também o que não ouviram.
Orígenes. O Senhor, porém, não confessou ser duro, como aquele julgava; quanto às demais palavras dele, concedeu-as. Mas é verdadeiramente duro para os que abusam da misericórdia de Deus para sua negligência, e não para a conversão.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Ouçamos, porém, com que sentença o Senhor fere o servo preguiçoso: Tirai, pois, dele o talento, e dai-o ao que tem dez talentos.
Orígenes. O Senhor pode, pela virtude de sua divindade, tirar a suficiência daquele que dela se serviu com mais preguiça, e dá-la àquele que a multiplicou.
São Gregório Magno. Parecia, porém, oportuno que fosse dado antes àquele que recebera dois talentos do que àquele que recebera cinco: pois devia ser dado àquele que tinha menos. Mas, como pelos cinco talentos se designa a ciência das coisas exteriores, e pelos dois o entendimento e a operação, teve mais quem recebeu dois do que quem recebeu cinco talentos: porque aquele que, pelos cinco talentos, mereceu a administração das coisas exteriores, ainda estava vazio do entendimento das coisas eternas. Portanto, o único talento, pelo qual dissemos significar-se o entendimento, devia ser dado àquele que administrou bem as coisas exteriores que recebera; o que vemos cada dia na santa Igreja: que os que administram fielmente as coisas exteriores se destacam também pela inteligência interior.
São Jerônimo. Ou é dado àquele que havia feito render dez talentos, para que entendamos que, embora seja igual a alegria do Senhor pelo trabalho de ambos, isto é, daquele que duplicou cinco e daquele que duplicou dois, contudo é devido maior prêmio àquele que mais trabalhou no dinheiro do Senhor.
São Gregório Magno. Logo em seguida acrescenta-se também a sentença geral, em que se diz: Pois a todo o que tem será dado, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que parece ter lhe será tirado. Quem tem a caridade recebe também os outros dons; quem não tem a caridade perde até os dons que parecia ter recebido.
São João Crisóstomo, in Matth. Quem tem a graça da palavra e da doutrina para progredir, e não a usa, perde a graça; quem, porém, aplica empenho, atrai um dom maior.
São Jerônimo. Muitos, mesmo sendo sábios por natureza e tendo agudeza de engenho, se forem negligentes e corromperem por desleixo o bem da natureza, perdem o bem natural em comparação com aquele que, um pouco mais lento, compensou pelo trabalho e pela diligência o que tinha de menos; e veem o prêmio que lhes fora prometido passar a outros. Pode-se também entender assim: àquele que tem fé e boa vontade para com o Senhor, mesmo que tenha tido algo de menos, como homem, na obra, será dado pelo bom juiz; quem, porém, não tiver fé, perderá também as demais virtudes que parecia possuir naturalmente. E diz com elegância: o que parece ter lhe será tirado; pois tudo o que existe sem a fé em Cristo não deve ser imputado àquele que dele usou mal, mas àquele que concedeu o bem da natureza até ao servo mau.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Ou: quem não tem caridade perde até aquilo que parecia ter recebido.
Santo Hilário, in Matth. Aos que têm o uso dos Evangelhos e da lei, é dada honra; mas a quem não tem a fé de Cristo, será tirada até a honra que lhe parecia vir da lei.
São João Crisóstomo, in Matth. O servo mau, porém, é punido não somente com a perda, mas também com uma pena intolerável, e com a pena, uma denúncia acusadora; por isso segue: E lançai o servo inútil nas trevas exteriores.
Orígenes, in Matth. Onde, a saber, não há iluminação alguma, talvez nem sequer corporal; nem há ali o olhar de Deus, mas, como indignos da contemplação de Deus, os que cometeram tais pecados são condenados nestas coisas que se chamam trevas exteriores. Lemos também que alguém, antes de nós, explicava isto das trevas do abismo que está fora do mundo, a fim de que, como indignos do mundo inteiro, sejam lançados para fora naquele abismo, no qual há trevas, sem que ninguém as ilumine.
São Gregório Magno. E assim, por meio da pena, cairá nas trevas exteriores aquele que, por sua própria culpa, caiu voluntariamente nas trevas interiores.
São Jerônimo. O que seja o choro e o ranger de dentes, já dissemos acima.
São João Crisóstomo, in Matth. Vê, porém, que é punido com a pena extrema não somente quem rouba o alheio ou pratica o mal, mas também quem não faz o bem.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Quem tem, pois, inteligência, cuide absolutamente de não se calar; quem tem abundância de bens, não se entorpeça na misericórdia; quem tem a arte pela qual é governado, reparta o seu uso com o próximo; quem tem ocasião de falar, interceda junto ao rico em favor dos pobres. Pois será contado sob o nome de talento tudo o que alguém tiver recebido, ainda que seja o mínimo.
Orígenes. Se, porém, te desagrada o que se diz, se alguém é julgado por aquilo que não ensinou, lembra-te das palavras do Apóstolo: Ai de mim, se eu não evangelizar.
Mt 25,31-45
31“Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, se sentará no seu trono glorioso. 32Todas as nações se reunirão diante dele e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. 33Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. 34Então, o Rei dirá aos que estão à direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, 35porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; 36nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim’. 37Os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? 38Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? 39Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar?’. 40Responderá o Rei: ‘Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.’ 41Ele se voltará em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: ‘Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. 42Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; 43era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes’. 44Também estes lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não te socorremos?’. 45E ele responderá: ‘Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer’.
Rábano Mauro. Depois das parábolas sobre o fim do mundo, o Senhor passa a expor o modo do juízo futuro.
São João Crisóstomo, in Matth. Esta é a parte mais deleitável; devemos ouvi-la com zelo e com toda compunção, revolvendo-a continuamente no ânimo; pois o próprio Cristo trata este discurso de modo mais terrível e mais luminoso. Por isso não diz daqui por diante: O Reino dos céus tornou-se semelhante, mas mostra-se a si mesmo abertamente, dizendo: Quando o Filho do Homem vier em sua majestade.
São Jerônimo. Embora estivesse para celebrar a Páscoa dali a dois dias, para ser entregue à cruz e escarnecido pelos homens, promete com razão a glória do triunfador, a fim de compensar com o prêmio da promessa os escândalos que se seguiriam. E é de notar que aquele que será visto em majestade é o Filho do Homem.
Santo Agostinho, super Ioannem. Na forma humana o verão os ímpios, e o verão também os postos à direita; pois no juízo aparecerá na forma que recebeu de nós; mas depois será visto na forma de Deus, que todos os fiéis conhecem.
Remígio de Auxerre(séc. IX). Com estas palavras destrói-se o erro dos que disseram que o Senhor não permanece na mesma forma de servo. Chama de majestade a divindade, pela qual é igual ao Pai e ao Espírito Santo.
Orígenes, in Matth. Ou: porque voltará aqui com glória, a fim de que seu corpo seja como foi quando se transfigurou no monte. Quanto ao seu trono, ou se dizem tais alguns dos mais perfeitos entre os santos, dos quais está escrito: Porque ali se assentaram os tronos para o juízo; ou certas virtudes angélicas, das quais se diz: Sejam tronos, sejam dominações.
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Com efeito, descerá com os Anjos, que convocará dos lugares supremos para realizar o juízo; por isso se diz: e todos os seus Anjos com ele.
São João Crisóstomo, in Matth. Com efeito, todos os Anjos estarão presentes com ele, dando também eles testemunho de quanto serviram, enviados pelo Senhor para a salvação dos homens.
Santo Agostinho, de poenitentia. Ou então, pelo nome de Anjos, designou os homens que julgarão com Cristo: com efeito, os Anjos são mensageiros; e com toda a razão entendemos por mensageiros todos os que anunciaram aos homens a salvação celeste. Segue-se: e serão reunidas diante dele todas as nações.
Remígio de Auxerre. Por estas palavras se mostra a verdadeira ressurreição futura do homem.
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Esta reunião, porém, far-se-á pelo ministério dos anjos, aos quais se diz: reuni-lhe os seus santos.
Orígenes, in Matth. Ou então, não entendamos em sentido local que serão reunidas diante dele todas as nações, mas que já não estarão dispersas em doutrinas falsas e múltiplas a seu respeito. Com efeito, a divindade de Cristo tornar-se-á manifesta, de modo que nenhum dos justos, e nem mesmo algum dos pecadores, a ignore; pois o Filho de Deus não aparecerá em um lugar e não aparecerá em outro, como ele mesmo quis mostrar pela comparação com o relâmpago. Enquanto, portanto, os iníquos não conhecem nem a si mesmos nem a Cristo, ou os justos veem por um espelho, em enigma, os bons não estão separados dos maus; quando, porém, por causa da manifestação do Filho de Deus, todos chegarem ao conhecimento de si, então o Salvador separará os bons dos maus; por isso se segue: e separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; porque também os pecadores reconhecerão os seus delitos, e os justos verão claramente a que fim conduziram as sementes de sua justiça. Chamam-se ovelhas os que se salvam, por causa da mansidão que aprenderam daquele que diz: aprendei de mim, que sou manso; e porque estiveram prontos a ir até a morte, imitando Cristo, que foi levado como ovelha ao matadouro. Cabritos, por sua vez, são chamados os maus, que sobem rochedos ásperos e duros e caminham por seus precipícios.
São João Crisóstomo, in Matth. Ou então chama a estes cabritos e àqueles ovelhas, para mostrar a infrutuosidade destes; pois nenhum fruto vem dos cabritos; e a utilidade daqueles; pois é grande o fruto das ovelhas, pela lã, pelo leite e pelas crias que dão à luz. Pelo nome de ovelha, nas divinas Escrituras, costuma-se designar a simplicidade e a inocência. Belamente, pois, neste lugar os eleitos são designados pelas ovelhas.
São Jerônimo. O cabrito, porém, é um animal lascivo e sempre ardente para o acasalamento, e é sempre oferecido pelos pecados na Lei; e não diz cabras, que podem ter crias e, tosquiadas, saem do banho.
São João Crisóstomo, in Matth. Em seguida, separa-os também pelo lugar; pois se segue: e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à esquerda.
Orígenes, in Matth. Com efeito, os santos, que praticaram obras da direita, receberam, como recompensa de suas obras da direita, a direita do rei, na qual há repouso e glória; os maus, porém, por causa de suas obras péssimas e da esquerda, caíram na esquerda, isto é, na tristeza dos tormentos. Segue-se: então o rei dirá aos que estiverem à sua direita: vinde; para que, se algo lhes faltar, o alcancem quando estiverem unidos a Cristo de modo mais perfeito. Acrescenta, porém: benditos de meu Pai, para que se manifeste a excelência de sua bênção: porque foram antes abençoados pelo Senhor, que fez o céu e a terra.
Rábano Mauro. Ou então são chamados benditos aqueles a quem, por seus bons méritos, é devida a bênção eterna. Diz, porém, que o reino é de seu Pai, porque refere o poder do reino àquele de quem o próprio rei foi gerado; por isso, pela autoridade régia, com a qual só ele será exaltado naquele dia, proferirá a sentença do juízo; por isso se diz expressamente: Então o rei dirá.
São João Crisóstomo, in Matth. Nota, porém, que não disse: recebei, mas possuí, isto é, como herança, como bens familiares e paternos, como coisas vossas, devidas a vós desde a antiguidade; por isso se diz: o reino preparado para vós desde a fundação do mundo.
São Jerônimo. Isto, porém, deve ser entendido segundo a presciência de Deus, para quem as coisas futuras já estão feitas.
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Excetuado, porém, aquele reino, do qual dirá no fim: possuí o reino preparado para vós, também a Igreja presente, embora de modo muito desigual, é chamada reino dele; nele ainda se luta com o inimigo, até que se chegue àquele reino pacificíssimo, onde se reinará sem inimigo.
Santo Agostinho, de poenitentia. Mas alguém dirá: não quero reinar, basta-me estar salvo; nisto, primeiro, engana-se, porque não há salvação alguma para aqueles cuja iniquidade persevera; depois, se há alguma diferença entre os que reinam e os que não reinam, convém, contudo, que todos estejam num só reino, para que não sejam contados entre os inimigos ou os estranhos e pereçam enquanto os outros reinam. Com efeito, todos os romanos possuem o reino romano, ainda que nem todos nele reinem.
São João Crisóstomo, in Matth. Por quais obras, pois, os santos recebem os bens do reino celeste, manifesta-se quando se acrescenta: tive fome e me destes de comer.
Remígio de Auxerre. E deve-se notar que neste lugar o Senhor menciona seis obras de misericórdia; quem quer que se esforce por cumpri-las merecerá receber o reino preparado para os eleitos desde a fundação do mundo.
Rábano Mauro. Misticamente, porém, quem sacia com o pão da palavra o que tem fome e sede de justiça, ou refresca com a bebida da sabedoria, e quem recolhe na casa da mãe Igreja o que erra pela heresia ou pelo pecado, e quem acolhe na fé o enfermo, observa os direitos do verdadeiro amor.
São Gregório Magno(séc. VI). Aqueles, porém, a quem o juiz, ao vir, diz, estando eles à direita: tive fome, etc., são os que são julgados em parte entre os eleitos e reinam, os que limpam com lágrimas as manchas da vida; os que, resgatando os males passados com as obras seguintes, cobrem diante dos olhos do juiz, com a abundância das esmolas, tudo o que outrora fizeram de ilícito. Outros, porém, são os que não são julgados e reinam, os que também ultrapassam os preceitos da lei pela virtude da perfeição.
Orígenes, in Matth. Por humildade, porém, proclamam-se indignos do louvor de seus benefícios, sem se esquecerem do que fizeram. Ele, contudo, mostra-lhes a sua compaixão para com os seus; por isso segue: Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos.
Rábano Mauro. Dizem isto, sem dúvida, não por desconfiarem das palavras do Senhor, mas porque se espantam diante de tão grande elevação e da grandeza de sua majestade; ou porque lhes parecerá pequeno o bem que haviam feito, segundo aquilo do Apóstolo: Os sofrimentos deste tempo não se comparam à glória futura que será revelada em nós. Segue: E o rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos digo: sempre que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes.
São Jerônimo. Era-nos livre entender que em todo pobre Cristo é alimentado quando tem fome, e saciado quando tem sede, e assim quanto ao resto; mas, por aquilo que segue: sempre que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, etc., não me parece que tenha falado em geral dos pobres, mas dos que são pobres de espírito; a estes, estendendo a mão, tinha dito: Meus irmãos são os que fazem a vontade de meu Pai.
São João Crisóstomo, in Matth. Mas se são irmãos dele, por que os chama de pequeninos? Porque são humildes, porque são pobres, porque são desprezados. Com isto, porém, ele não entende somente os monges, que se retiraram para os montes, mas todo fiel, ainda que seja secular, e esteja com fome ou em outra necessidade semelhante, e quer que obtenha o auxílio da misericórdia: pois o Batismo e a comunhão dos mistérios fazem dele um irmão. Segue: Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o Diabo e seus Anjos.
Orígenes, in Matth. Assim como dissera aos justos: vinde, assim diz também aos injustos: afastai-vos; pois estão próximos da palavra os que guardam o mandamento de Deus, e são chamados para se tornarem ainda mais próximos; mas estão longe dele, ainda que pareçam estar junto dele, os que não cumprem os seus mandamentos: por isso ouvem afastai-vos, para que os que agora parecem estar diante dele, depois nem sequer pareçam. Deve-se considerar, porém, que sobre os santos foi dito: benditos de meu Pai; ora, não se diz agora: malditos de meu Pai; pois o ministro da bênção é o Pai, mas da maldição cada um é autor para si mesmo, o que praticou o que é digno de maldição. Os que se afastam de Jesus caem no fogo eterno, que é de gênero diverso deste fogo que temos em uso. Pois nenhum fogo entre os homens é eterno, nem sequer de muito tempo. E considera que ele diz que o reino não foi preparado para os Anjos, mas o fogo eterno para o Diabo e seus Anjos: porque, quanto a ele, não criou os homens para a perdição; mas os pecadores unem-se ao Diabo; de modo que, assim como os que se salvam são igualados aos santos Anjos, assim os que perecem sejam igualados aos Anjos do Diabo.
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Disto fica claro que o mesmo fogo será atribuído ao suplício dos homens e dos Demônios. Se ele for nocivo por contato corporal, de modo que por ele possam ser atormentados os corpos, como estará nele a pena dos espíritos malignos, a não ser porque os Demônios têm certos corpos, como pareceu a alguns, feitos deste ar espesso e úmido? Se, porém, alguém afirmar que os Demônios não têm corpo algum, não se deve porfiar nesta matéria com disputa contenciosa. Por que, com efeito, não diríamos que, ainda que por modos admiráveis, contudo verdadeiros, também os espíritos incorpóreos podem ser afligidos pela pena do fogo corporal, se os espíritos dos homens, também eles certamente incorpóreos, puderam agora ser encerrados em membros corporais e então poderão ser indissoluvelmente ligados aos vínculos de seus corpos? Os Demônios, pois, ainda que incorpóreos, estarão aderidos aos fogos corporais para serem atormentados, recebendo dos fogos a pena, sem dar aos fogos a vida. Aquele fogo, porém, será corpóreo, e atormentará corpos desse tipo juntamente com os espíritos; os Demônios, contudo, são espíritos sem corpos.
Orígenes, in Matth. Ou talvez aquele fogo seja de tal substância que queime as coisas invisíveis, sendo ele mesmo invisível, segundo o que diz o Apóstolo: as coisas que se veem são temporais; as que não se veem, eternas. Não te admires, porém, ao ouvir que há um fogo invisível e que castiga, quando vês interiormente o calor que sobrevém aos homens e os atormenta não pouco. Segue: Tive fome e não me destes de comer. Está escrito aos fiéis: Vós sois o corpo de Cristo. Assim como, pois, a alma que habita no corpo, embora não tenha fome quanto à sua substância espiritual, tem contudo fome do alimento do corpo, porque está unida ao seu corpo, assim também o Salvador padece o que padece o seu corpo, a Igreja, embora ele mesmo seja impassível. E considera também isto: falando aos justos, enumera os benefícios deles segundo cada espécie; aos injustos, porém, cortando a narração, reuniu ambos, dizendo: estive enfermo e na prisão, e não me visitastes; porque era próprio do juiz misericordioso proclamar e ampliar mais generosamente as boas obras dos homens, e mencionar de passagem e abreviar as más.
São João Crisóstomo, in Matth. Observa, porém, que abandonaram a misericórdia não em uma só coisa ou em duas, mas em todas: com efeito, não somente não alimentaram o que tinha fome, mas nem sequer visitaram o enfermo, o que era mais leve. E vê como impõe coisas leves; não disse: estava na prisão, e não me libertastes; estava enfermo, e não me curastes; mas: não me visitastes, e não viestes a mim. Ao ter fome, também não pede uma mesa preciosa, mas o alimento necessário. Todas as coisas, portanto, bastam para a pena. Primeiro, a facilidade do pedido, pois era pão; segundo, a miséria de quem pedia, pois era pobre; terceiro, a compaixão da natureza, pois era homem; quarto, o desejo da promessa, pois prometeu o reino; quinto, a dignidade de quem recebia, pois era Deus quem recebia os pobres; sexto, a superabundância da honra, porque se dignou receber dos homens; sétimo, a justiça da doação, pois recebe de nós do que é seu: mas contra tudo isto os homens são cegados pela avareza.
São Gregório Magno. Estes, porém, a quem isto é dito, são os fiéis maus, que são julgados e perecem; os outros, isto é, os infiéis, não são julgados e perecem: pois não se discute então a causa dos que já comparecem diante do juiz rigoroso com a condenação de sua infidelidade; os que, porém, conservam a profissão da fé, mas não têm as obras da profissão, são repreendidos para que pereçam. Estes, com efeito, ouvem ao menos as palavras do juiz, porque ao menos mantiveram as palavras de sua fé; aqueles, em sua condenação, nem sequer recebem as palavras do juiz eterno, porque não quiseram guardar a reverência a ele nem sequer em palavras: pois também o príncipe que governa a república terrena pune de um modo o cidadão que delinque no interior e de outro o inimigo que se rebela no exterior: naquele, com efeito, consulta os seus direitos; contra o inimigo, porém, move guerra, e não indaga o que a lei tem sobre a pena dele.
São João Crisóstomo, in Matth. Repreendidos, porém, pelas palavras do juiz, falam com mansidão; segue, com efeito: Então também eles lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos?
Orígenes, in Matth. Considera que os justos se demoram em cada palavra, os injustos, porém, não assim por partes, mas falam às pressas: porque é próprio dos justos, por humildade, quando suas boas obras lhes são relatadas na cara, refutá-las com cuidado e por partes; é próprio, porém, dos homens maus, para se desculparem, ou mostrar que suas culpas não existem, ou que são leves e poucas. Mas também a resposta de Cristo assinala isto mesmo; por isso segue: Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo. Querendo, com efeito, mostrar grandes as boas obras dos justos, e não grandes as culpas dos pecadores, aos justos diz: sempre que o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos; aos injustos, porém, não acrescentou: irmãos: pois na verdade são seus irmãos os que são perfeitos. É mais grata a Deus a obra boa que se faz aos mais santos do que aos menos santos; e é mais leve a culpa de negligenciar os menos santos do que os mais santos.
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Mas agora trata-se do juízo final, quando Cristo há de vir do céu para julgar os vivos e os mortos. Chamamos este dia de último do juízo divino, isto é, o tempo derradeiro: pois por quantos dias se estenda esse juízo é incerto; mas, segundo o costume das santas Escrituras, costuma-se pôr dias pelo tempo. Dizemos, porém, juízo último ou derradeiro, porque também agora ele julga, e desde o início do gênero humano julgou, separando da árvore da vida os primeiros homens e não poupando os Anjos que pecaram; mas nesse juízo final serão julgados ao mesmo tempo os homens e os Anjos: pois far-se-á, por virtude divina, que a cada um todas as suas obras, boas ou más, sejam trazidas à memória e vistas, com o olhar do espírito, com admirável rapidez, de modo que a ciência acuse ou escuse a consciência.
Mt 25,46
46“E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna.”
Santo Agostinho, de fide et operibus. Alguns enganam a si mesmos, dizendo que foi dito fogo eterno, mas não a própria pena eterna. Prevendo isto, o Senhor concluiu assim a sua sentença, dizendo: E irão estes para o suplício eterno, os justos porém para a vida eterna.
Orígenes, in Matth. Observa que, tendo dito antes: Vinde, benditos, depois: Afastai-vos, malditos, porque é próprio do Deus bom recordar primeiro as boas ações dos bons do que as más ações dos maus, aqui nomeia primeiro a pena dos maus, depois a vida dos bons: para que primeiro evitemos os males, que são próprios do temor; depois busquemos os bens, que são próprios da honra.
São Gregório Magno. Se, pois, é castigado com tão grande pena quem é convencido de não ter dado, com que pena deve ser ferido quem é acusado de ter tirado o alheio?
Santo Agostinho, de Civ. Dei. A vida eterna é, porém, o nosso sumo bem e o fim da cidade de Deus; sobre este fim diz o Apóstolo: o fim, porém, a vida eterna. Mas, por outro lado, como a vida eterna pode ser entendida, por aqueles que não têm familiaridade com as santas Escrituras, também na vida dos maus, por causa da imortalidade da alma ou por causa das penas intermináveis dos ímpios, o fim desta cidade, em que se terá o sumo bem, deve ser dito ou paz na vida eterna, ou vida eterna na paz, para que possa ser entendido por todos.
Santo Agostinho, de Trin. Aquilo, pois, que o Senhor disse a seu servo Moisés: Eu sou aquele que sou, isto contemplaremos quando vivermos eternamente. Com efeito, assim diz o Senhor: Esta é a vida eterna, que te conheçam, o Deus verdadeiro. Esta contemplação, com efeito, nos é prometida como fim de todas as ações e perfeição eterna das alegrias, da qual diz João: vê-lo-emos tal como ele é.
São Jerônimo. Tu, porém, leitor prudente, atenta em que também os suplícios são eternos, e em que a vida perpétua não tenha doravante o temor de ruínas.
Gregorius Dialog. Dizem: ameaçou os pecadores para os conter dos pecados; ao que respondemos: se ameaçou coisas falsas para corrigir a injustiça, também prometera coisas falsas para incitar à justiça; e assim, enquanto se esforçam por apresentar Deus como misericordioso, não temem pregá-lo como enganador. Mas, dizem, a culpa com fim não deve ser punida sem fim; ao que respondemos que diriam bem, se o juiz justo pesasse não os corações dos homens, mas os fatos. Pertence, pois, à justiça do juiz rigoroso que nunca careçam de suplício aqueles cuja mente nunca quis carecer de pecado nesta vida.
Santo Agostinho, de Civ. Dei. A justiça de nenhuma lei considera que alguém seja punido por tanto tempo quanto o que levou para cometer aquilo por que é punido. Ninguém, com efeito, houve que julgasse que os tormentos dos culpados devam acabar tão depressa quanto foi cometido o homicídio ou o adultério. Quem, porém, é punido com a morte por algum grande crime, acaso as leis consideram seu suplício a demora em que é morto, e não o fato de o afastarem para sempre da sociedade dos vivos? Ora, o dano, a ignomínia, o exílio, a servidão, como na maioria das vezes são infligidos de modo que por nenhum perdão sejam relaxados, não parecem, para o modo desta vida, semelhantes às penas eternas? Por isso, com efeito, não podem ser eternas, porque nem a própria vida que é por elas castigada se estende ao eterno. Mas dizem: como então é verdade o que diz Cristo: com a medida com que medirdes, será medido a vós, se o pecado temporal é punido com suplício eterno? E não atentam que a mesma medida foi dita não por igual espaço de tempo, mas por retribuição do mal; isto é, que quem tiver feito o mal, sofra o mal. Tornou-se, pois, o homem digno do mal eterno, ele que destruiu em si aquele bem que poderia ser eterno.
Gregorius Dialog. Mas dizem: nenhum justo se alimenta de crueldades, e o servo delinquente é mandado castigar por um senhor justo para que seja corrigido da maldade. Os iníquos, porém, entregues aos fogos da Geena, com que fim arderão para sempre? Ao que respondemos que Deus onipotente, porque é piedoso, não se alimenta do tormento dos miseráveis; porque, porém, é justo, não se aplaca com a vingança sobre os iníquos; e, no entanto, os iníquos são sempre queimados para algum fim, a saber, para que os justos reconheçam ser tanto mais devedores, por toda a eternidade, à graça divina, quanto mais veem por toda a eternidade punidos os males que, com o auxílio dela, puderam evitar.
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Mas dizem: não há corpo que possa sofrer e não possa morrer. É necessário, porém, que viva sofrendo, não é necessário que a dor mate; porque nem toda dor mata estes corpos mortais; e que alguma dor possa matar, a causa é que a alma está de tal modo ligada a este corpo que cede às dores supremas e se retira; então, porém, a alma está ligada a tal corpo, e de tal modo, que aquele vínculo por nenhuma dor é vencido. Não haverá então, pois, nenhuma morte, mas morte sempiterna, quando a alma não poderá nem viver, não tendo a Deus, nem carecer das dores do corpo morrendo. Entre os que negam a eternidade do suplício, foi mais misericordioso Orígenes, que creu que o próprio Diabo e seus Anjos, depois de suplícios mais graves e prolongados segundo os merecimentos, seriam arrancados àqueles tormentos e associados aos santos Anjos. Mas a Igreja, não sem razão, reprovou-o por isso e por algumas outras coisas: porque perdeu também aquilo que parecia misericordioso, fazendo verdadeiras misérias, pelas quais pagassem as penas, e falsas bem-aventuranças, nas quais não tivessem o gozo seguro e sempiterno do bem. Muito diferentemente, porém, erra a misericórdia de outros por afeto, que julgam temporais as misérias dos homens condenados naquele juízo, e eterna a felicidade dos homens que são libertados mais cedo ou mais tarde. Por que, porém, esta misericórdia se estende a toda a natureza humana, e, quando se chega à angélica, logo se seca?
Gregorius Dialog. Mas dizem: onde está o fato de serem santos, se não rogarem pelos seus inimigos, que então virem arder? Rogam, de fato, por seus inimigos no tempo em que podem converter-lhes os corações a uma penitência frutuosa; como, porém, se rogará então por aqueles que já de modo algum podem ser mudados da iniquidade?
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Há também outros que prometem a libertação do suplício eterno não a todos os homens, mas somente aos lavados pelo Batismo de Cristo, que são participantes do seu corpo, como quer que tenham vivido: por causa daquilo que diz o Senhor: se alguém comer deste pão, não morrerá para sempre. Há os que prometem isto não a todos os que têm o sacramento de Cristo, mas só aos católicos, ainda que vivam mal, porque comeram o corpo de Cristo não só no sacramento, mas na realidade, constituídos no seu corpo que é a Igreja, ainda que depois tenham caído em alguma heresia ou na idolatria dos gentios. Há, porém, os que, por causa do que está escrito acima: quem perseverar até o fim, esse será salvo, prometem isto somente aos que perseveram na Igreja Católica, que pelo mérito do fundamento, isto é, da fé, serão salvos pelo fogo; fogo com que no último juízo serão punidos os maus. Mas a todos estes contradiz o Apóstolo, dizendo: manifestas são as obras da carne, que são a impureza, a fornicação, e coisas semelhantes; as quais vos previno que os que tais coisas praticam não possuirão o reino de Deus. Se alguém, porém, antepõe a Cristo em seu coração as coisas temporais, embora pareça ter a fé de Cristo, não está nele, contudo, o fundamento, Cristo, a quem se antepõem outras coisas: quanto mais, se cometer coisas ilícitas, é convencido de não ter antes preferido, mas posposto Cristo? Soube também que alguns pensam que arderão naquela eternidade de suplício somente os que negligenciam fazer dignas esmolas pelos pecados; por isso julgam que o próprio juiz não quis lembrar outra coisa que dirá, senão as esmolas, feitas ou não feitas. Mas quem faz dignamente esmolas pelos seus pecados começa por fazê-las a si mesmo: é indigno, com efeito, que não faça a si quem faz ao próximo, quando ouve Deus dizer: amarás o teu próximo como a ti mesmo; e também ouve: tem misericórdia da tua alma, agradando a Deus. Quem não faz esta esmola à sua alma, isto é, agradar a Deus, como se há de dizer que faz dignas esmolas pelos seus pecados? Por isso, pois, devem fazer-se esmolas, para que, quando suplicamos pelos pecados passados, sejamos ouvidos; não para que, perseverando neles, creiamos obter pelas esmolas licença de fazer o mal. Por isso, porém, o Senhor predisse que imputaria à direita as esmolas por eles feitas, à esquerda as não feitas, para mostrar daí quanto valem as esmolas para apagar os pecados anteriores, não para cometer impunemente pecados perpétuos.
Orígenes, in Matth. Ou não se recompensa apenas uma espécie de justiça, como muitos pensam. Em todas as causas, com efeito, em que alguém cumprir o mandamento de Cristo, alimenta e dá de beber a Cristo, ele que come e bebe a justiça e a verdade dos fiéis. Assim também, ao Cristo que tem frio cobrimos com veste, recebendo o tecido da sabedoria, de modo que pela doutrina instruamos alguns e os revistamos de entranhas de misericórdia. Quando também preparamos o nosso coração com diversas virtudes para receptáculo dele, ou daquilo que lhe pertence, acolhemos o próprio peregrino na casa do nosso peito. Assim também, quando visitamos o irmão enfermo, seja na fé, seja na boa obra, ou pela doutrina, ou pela repreensão, ou pela consolação, visitamos o próprio Cristo. Depois, tudo o que aqui está é cárcere de Cristo e dos que são seus, os quais vivem neste mundo, como que constrangidos também num cárcere pela necessidade da natureza. Quando, pois, fizermos neles uma boa obra, visitamo-los no cárcere, e a Cristo neles.