Catena Aurea de São Tomás de Aquino

Mateus 22 comentado pelos Padres da Igreja

10 comentários de São João Crisóstomo, Orígenes, São Gregório Magno, São Jerônimo, Santo Hilário e Santo Agostinho sobre as passagens Mt 22,1-14, Mt 22,15-22 e Mt 22,34-40, reunidos por São Tomás de Aquino no século XIII e traduzidos do latim. Outros 100 comentários destas passagens ainda estão por traduzir.

Mt 22,1-14

1Jesus tornou a falar-lhes por meio de parábolas: 2“O Reino dos Céus é comparado a um rei que celebrava as bodas de seu filho. 3Enviou seus servos para chamar os convidados, mas eles não quiseram vir. 4Enviou outros ainda, dizendo-lhes: Dizei aos convidados que já está preparado o meu banquete; meus bois e meus animais cevados estão mortos, tudo está preparado. Vinde às bodas! 5Mas, sem se importarem com aquele convite, foram-se, um a seu campo e outro para seu negócio. 6Outros lançaram mãos de seus servos, insultaram-nos e os mataram. 7O rei soube e indignou-se em extremo. Enviou suas tropas, matou aqueles assassinos e incendiou-lhes a cidade. 8Disse depois a seus servos: O festim está pronto, mas os convidados não foram dignos. 9Ide às encruzilhadas e convidai para as bodas todos quantos achardes. 10Espalharam-se eles pelos caminhos e reuniram todos quantos acharam, maus e bons, de modo que a sala do banquete ficou repleta de convidados. 11O rei entrou para vê-los e viu ali um homem que não trazia a veste nupcial. 12Perguntou-lhe: Meu amigo, como entraste aqui, sem a veste nupcial? O homem não proferiu palavra alguma. 13Disse, então, o rei aos servos: Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes. 14Porque muitos são os chamados, e poucos os escolhidos”.

São Gregório Magno(séc. VI). Ora, Deus Pai fez então as núpcias para Deus Filho quando o uniu à natureza humana no ventre da virgem. Mas, porque a união das núpcias costuma ser feita a partir de duas pessoas, longe esteja de nossos entendimentos crer que a pessoa do nosso redentor seja composta de duas pessoas. Pois dizemos que ele existe a partir de duas naturezas e em duas naturezas, mas evitamos como ímpio crer que seja composto de duas pessoas. Pode-se, portanto, dizer com mais segurança que o rei Pai fez, neste ponto, as núpcias para o rei Filho, porque a ele associou a santa Igreja pelo mistério da encarnação. Ora, o ventre da Virgem genitriz foi o tálamo deste esposo

São João Crisóstomo, in Matth(séc. IV). Ora, embora pareçam ser ocasiões razoáveis, disto contudo aprendemos que, ainda que sejam necessárias as coisas que retêm, é preciso, no entanto, antepor a tudo as coisas espirituais. A mim, porém, parece que, usando dessas ocasiões, propunham véus para sua negligência

Orígenes, in Matth(séc. III). As núpcias, isto é, de Cristo e da Igreja, se cumprem enquanto os que, restituídos a Deus, foram encontrados pelos apóstolos, se reclinaram para o banquete nas núpcias. Mas, porque convinha que bons e maus fossem chamados, não porém para que os maus permanecessem maus, mas para que depusessem as vestes contrárias às núpcias e vestissem as vestes nupciais, isto é, as entranhas de misericórdia e benignidade; por isso o rei sai, para ver os que estavam reclinados antes que lhes fosse servido o banquete, para reter os que tivessem as vestes nupciais e alegrar-se com eles, e condenar os contrários: donde se segue: o rei entrou para ver os que estavam reclinados

São Jerônimo(séc. IV–V). Ou a veste nupcial são os preceitos do Senhor, e as obras que se cumprem segundo a lei e o Evangelho, e que fazem a veste do homem novo; e quem, no dia do juízo, for encontrado sem tê-la sob o nome cristão, é imediatamente repreendido: donde se segue: e disse-lhe: amigo, como entraste aqui sem ter a veste nupcial? Chama-o de amigo, porque foi convidado às núpcias, como se fosse amigo pela fé. Acusa-o, porém, de impudência, por ter, com veste imunda, poluído as coisas puras nupciais

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Mt 22,15-22

15Reuniram-se então os fariseus para deliberar entre si sobre a maneira de surpreender Jesus nas suas próprias palavras. 16Enviaram seus discípulos com os herodianos, que lhe disseram: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens. 17Dize-nos, pois, o que te parece: É permitido ou não pagar o imposto a César?”. 18Jesus, percebendo a sua malícia, respondeu: “Por que me tentais, hipócritas? 19Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto!”. Apresentaram-lhe um denário. 20Perguntou Jesus: “De quem é esta imagem e esta inscrição?”. 21“De César” – responderam-lhe. Disse-lhes então Jesus: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. 22Esta resposta encheu-os de admiração e, deixando-o, retiraram-se.

São João Crisóstomo, super Matth. Diz-lhes, pois, hipócritas, para que, considerando-o conhecedor dos corações humanos, não ousassem levar a cabo o que pensavam fazer. Vê, pois, que os fariseus adulavam para perder; mas Jesus os confundia para salvar: porque é mais útil ao homem um Deus irado do que um homem propício.

São João Crisóstomo, in Matth. Tu, porém, quando ouvires dai a César o que é de César, sabe que ele diz isso somente das coisas que em nada prejudicam a piedade: pois, se algo assim houver, já não é tributo de César, mas do Diabo. Depois, para que não digam que os sujeita aos homens, acrescenta: e a Deus o que é de Deus.

Santo Hilário, in Matth(séc. IV). Também a Deus devemos dar o que é seu, isto é, o corpo, a alma e a vontade. Pois a moeda de César é de ouro, na qual está gravada a sua imagem. Mas a moeda de Deus é o homem, no qual está figurada a imagem de Deus: por isso, dai a César as vossas riquezas, mas a Deus guardai a consciência de vossa inocência.

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Mt 22,34-40

34Sabendo os fariseus que Jesus reduzira ao silêncio os saduceus, reuniram-se 35e um deles, doutor da Lei, fez-lhe esta pergunta para pô-lo à prova: 36“Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?”. 37Respondeu Jesus: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu o coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito (Dt 6,5). 38Esse é o maior e o primeiro mandamento. 39E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18). 40Nesses dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas”.

Orígenes. Tentando, dizia Mestre, pois não proferia essa palavra como discípulo de Cristo. Se, pois, alguém não aprende algo da Palavra, nem se entrega a ela com toda a sua alma, mas lhe diz Mestre, é irmão do fariseu que tenta a Cristo. Ora, como antes da vinda do Salvador se lia a lei, talvez se perguntasse qual era o mandamento grande nela; pois o fariseu não teria perguntado isso, se entre eles não se tivesse buscado longamente sobre isso e não se tivesse encontrado, até que, vindo Jesus, ensinasse isto.

São João Crisóstomo, super Matth. Ora, quem ama o homem é semelhante a quem ama a Deus: porque o homem é imagem de Deus, na qual Deus é amado, assim como o rei é honrado na sua imagem. E por isso se diz que este mandamento é semelhante ao primeiro.

Santo Agostinho, de Trin(séc. IV–V). Ora, como há dois preceitos dos quais depende a lei e os profetas — o amor de Deus e do próximo —, não sem razão a Escritura muitas vezes põe um por ambos: seja o amor de Deus, como aquilo: sabemos que para os que amam a Deus todas as coisas cooperam para o bem; seja o amor do próximo, como aquilo: toda a lei se cumpre numa só palavra: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Mas isto é assim porque quem ama o próximo, é consequência que também ame a Deus: pois é por uma só e mesma caridade que amamos a Deus e ao próximo; mas a Deus por causa de Deus, e a nós e ao próximo por causa de Deus.

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