Catena Aurea de São Tomás de Aquino

Mateus 23 comentado pelos Padres da Igreja

134 comentários de São João Crisóstomo, Orígenes, São Jerônimo, Santo Hilário, Glosa, Rábano Mauro, Santo Agostinho, Remígio de Auxerre e São Gregório Magno sobre as passagens Mt 23,1-4, Mt 23,5-12, Mt 23,13, Mt 23,14, Mt 23,15, Mt 23,16-22, Mt 23,23-24, Mt 23,25-26, Mt 23,27-28, Mt 23,29-31, Mt 23,32-36 e Mt 23,37-39, reunidos por São Tomás de Aquino no século XIII e traduzidos do latim.

Mt 23,1-4

1Dirigindo-se, então, Jesus à multidão e aos seus discípulos, disse: 2“Os escribas e os fariseus sentaram-se na cadeira de Moisés. 3Observai e fazei tudo o que eles dizem, mas não façais como eles, pois dizem e não fazem. 4Atam fardos pesados e esmagadores e com eles sobrecarregam os ombros dos homens, mas não querem movê-los sequer com o dedo.

São João Crisóstomo, super Matth(séc. IV). Depois que o Senhor reduziu os sacerdotes ao silêncio com sua resposta e mostrou a condição incorrigível deles (pois os clérigos, se fizerem o mal, são inemendáveis, ao passo que os leigos que delinquem são facilmente emendados), voltou então seu discurso para os apóstolos e para o povo; por isso se diz: Então Jesus falou às multidões e a seus discípulos. Com efeito, é infrutuosa a palavra na qual um é de tal modo confundido que o outro não é instruído.

Orígenes, in Matth(séc. III). Os discípulos de Cristo são melhores que o restante das multidões; e encontrarás nas Igrejas alguns que se aproximam da palavra de Deus com mais afeto, que são discípulos de Cristo, enquanto os outros são o povo dele. E por vezes diz certas coisas só aos discípulos, e outras às multidões juntamente com os discípulos, como esta; por isso segue dizendo: Na cátedra de Moisés, e o mais. Os que professam a lei de Moisés e se gloriam de interpretá-la, esses se sentam na cátedra de Moisés. Os que, portanto, não se afastam da letra da lei são chamados escribas; os que, professando algo maior, se separam dos muitos como se fossem melhores, são chamados fariseus, nome que se interpreta separados; já os que compreendem e expõem Moisés segundo a força espiritual sentam-se, sim, na cátedra de Moisés, mas não são escribas e fariseus; melhores que estes são os discípulos amados de Cristo. Depois da vinda de Cristo, porém, sentam-se na cátedra da Igreja, que é a cátedra de Cristo.

São João Crisóstomo, super Matth. Deve-se ver, contudo, de que modo alguém se senta na cátedra: porque não é a cátedra que faz o sacerdote, mas o sacerdote que faz a cátedra; não é o lugar que santifica o homem, mas o homem que santifica o lugar. Por isso o mau sacerdote adquire do seu sacerdócio a culpa, não a dignidade.

São João Crisóstomo, in Matth. Para que ninguém diga: Por isso me tornei mais negligente em agir, porque o mestre é mau, ele elimina essa ocasião ao acrescentar: Fazei e observai, pois, tudo o que vos disserem; com efeito, não dizem coisas suas, mas as que são de Deus, as que Deus, por meio de Moisés, introduziu na lei. E considera quanta honra ele tributa a Moisés, mostrando de novo a concordância com o Antigo Testamento.

Orígenes. Mas se os escribas e fariseus, sentados na cátedra de Moisés, são os doutores dos judeus, que ensinam os mandamentos da lei segundo a letra, como o Senhor nos manda fazer segundo tudo o que eles dizem, quando os apóstolos, nos Atos, proíbem aos fiéis viver segundo a letra da lei? Mas aqueles ensinam segundo a letra, sem compreender a lei espiritualmente. Portanto, tudo o que nos dizem a partir da lei, nós o fazemos e observamos compreendendo o sentido da lei, de modo algum agindo segundo as obras deles; pois eles não fazem como a lei ensina, nem compreendem que há um véu sobre a letra da lei. Ou então: ao ouvires tudo, não compreendas todos os preceitos da lei, por exemplo, os muitos que tratam dos alimentos, das vítimas e coisas semelhantes, mas aqueles que corrigem os costumes. Mas por que não ordenou isso a respeito da lei da graça, e sim a respeito da doutrina de Moisés? Porque ainda não era tempo de manifestar os preceitos da nova lei antes do tempo da paixão. A mim, porém, parece que ele diz isto também preparando outra coisa: como haveria de acusar os escribas e fariseus nos discursos seguintes, para que não parecesse, aos tolos, desejar por isso o poder deles, ou fazê-lo por inimizade, afasta primeiro de si essa suspeita, e só então começa a repreendê-los, para que as multidões não caiam nos mesmos vícios; e também para que não pensem que, por deverem ouvi-los, devam por isso imitá-los nas obras: pois se acrescenta: Mas não façais segundo as obras deles. Que há de mais miserável que um doutor cuja vida, se os discípulos não a seguem, eles se salvam, e se a imitam, se perdem?

São João Crisóstomo, super Matth. Assim como o ouro é tirado da terra e a terra é deixada, assim também os ouvintes recebam a doutrina e deixem os costumes; com efeito, frequentemente de um homem mau procede uma boa doutrina. E assim como os sacerdotes julgam melhor ensinar os maus por causa dos bons do que negligenciar os bons por causa dos maus, assim também os súditos, por causa dos bons sacerdotes, honrem também os maus, para que, por causa dos maus, os bons não sejam também desprezados: é melhor, com efeito, prestar aos maus o que é injusto do que subtrair aos bons o que é justo.

São João Crisóstomo, in Matth. Considera, porém, por onde ele começa a repreendê-los; pois segue: Dizem, com efeito, e não fazem. É sobretudo digno de acusação aquele que, tendo a autoridade da doutrina, transgride a lei: primeiro, porque prevarica quem deve corrigir os outros; depois, porque, pecando, é digno de maior pena por causa da honra; em terceiro lugar, porque corrompe mais, como quem peca na ordem do doutor. De novo, apresenta outra repreensão a eles, a saber, que são pesados para os que lhes estão sujeitos; por isso segue: Atam, com efeito, fardos pesados. Nisso mostra a dupla malícia deles: uma, em que exigem dos súditos, sem indulgência, o máximo rigor de vida; outra, em que concedem a si mesmos ampla licença. Convém, porém, que o bom governante se comporte ao contrário: nas coisas que dizem respeito a si mesmo, seja juiz severo; com os súditos, porém, brando. Observa também como ele agrava a repreensão: não disse, com efeito: não podem, mas não querem; nem disse: carregar, mas mover com o dedo, isto é, nem se aproximar, nem tocar.

São João Crisóstomo, super Matth. E, de fato, quanto aos fariseus e escribas, de quem fala, chama de fardos pesados e insuportáveis os mandamentos da lei, a respeito dos quais Pedro diz: Por que quereis impor sobre o pescoço dos discípulos um jugo que nem nós nem nossos pais pudemos carregar? Com efeito, recomendando os fardos da lei com certas razões fabulosas, atavam-nos aos ouvintes como cadeias sobre os ombros de seus corações, para que, como que presos pelo laço da razão, não os rejeitassem de si; eles mesmos, porém, nem em pequena parte os cumpriam; isto é (para não dizer com obra plena), nem com um leve toque, isto é, com o dedo.

Glosa(séc. XII). Ou: atam fardos, isto é, recolhem de toda parte tradições que não aliviam a consciência, mas a sobrecarregam.

São Jerônimo(séc. IV–V). Os ombros, o dedo, os fardos e as cadeias com que atam os fardos devem ser entendidos espiritualmente. Aqui também o Senhor fala em geral contra todos os mestres que mandam coisas grandes e não fazem as menores.

São João Crisóstomo, super Matth. Tais são os que impõem um pesado fardo aos que vêm à penitência; e assim, enquanto se foge da pena presente, despreza-se a pena futura. Se, com efeito, puseres sobre os ombros de um jovem uma carga que ele não pode levar, ele necessariamente ou rejeita a carga ou é esmagado sob o peso; assim também o homem a quem impões um pesado fardo de penitência, necessariamente ou rejeita a penitência ou, aceitando-a e não podendo suportá-la, escandalizado peca ainda mais. Além disso, se erramos impondo uma penitência pequena, não é melhor prestar contas por misericórdia do que por crueldade? Onde o pai de família é generoso, o administrador não deve ser avarento. Se Deus é benigno, por que seu sacerdote é áspero? Queres parecer santo? Sê áspero na tua própria vida e benigno com a dos outros: que os homens te ouçam mandar coisas pequenas e fazer coisas grandes. Tal é o sacerdote que se poupa e exige dos outros, como um mau arrecadador de tributo na cidade, que se alivia e sobrecarrega os contribuintes.

Mt 23,5-12

5Fazem todas as suas ações para serem vistos pelos homens, por isso trazem largas faixas e longas franjas nos seus mantos. 6Gostam dos primeiros lugares nos banquetes e das primeiras cadeiras nas sinagogas. 7Gostam de ser saudados nas praças públicas e de ser chamados rabi pelos homens. 8Mas vós não vos façais chamar rabi, porque um só é o vosso preceptor, e vós sois todos irmãos. 9E a ninguém chameis de pai sobre a terra, porque um só é vosso Pai, aquele que está nos céus. 10Nem vos façais chamar de mestres, porque só tendes um Mestre, o Cristo. 11O maior dentre vós será vosso servo. 12Aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado.

São João Crisóstomo, in Matth. O Senhor tinha acusado acima os escribas e fariseus de crueldade e negligência; em seguida, acusa-os de vanglória, que os fez afastar-se de Deus; por isso diz: Fazem todas as suas obras para serem vistos pelos homens.

São João Crisóstomo, super Matth. Em toda coisa nasce o que a destrói, como do madeiro o verme e da veste a traça; por isso o diabo se esforça por corromper o ministério dos sacerdotes, que foram postos para a edificação da santidade, de modo que esse mesmo bem, enquanto é feito por causa dos homens, se torne mal. Tira este vício do clero e tudo cortarás sem trabalho: é por causa dele, com efeito, que os clérigos pecadores dificilmente fazem penitência. O Senhor quer mostrar com isto a causa pela qual não podiam crer em Cristo: é que fazem tudo para serem vistos pelos homens; pois é impossível que creia em Cristo, que prega as coisas celestes, aquele que cobiça a glória terrena dos homens. Li, com efeito, alguém que interpretava este passo assim: sobre a cátedra, isto é, na honra e no grau em que estivera Moisés, foram constituídos indignamente os escribas e fariseus, que pregavam aos outros a lei que profetizava o Cristo que viria, mas eles mesmos não recebiam o que estava presente. Por isso exorta o povo a ouvir a lei que pregavam, isto é, a crer em Cristo pregado pela lei, e a não imitar os escribas e fariseus incrédulos. E dá a causa de pregarem a partir da lei o Cristo que viria e não crerem nele: porque fazem todas as suas obras para serem vistos pelos homens, isto é, porque não pregavam o Cristo que viria com o desejo de sua vinda, mas para serem vistos pelos homens como doutores da lei.

Orígenes, in Matth. Fazem suas obras para serem vistos pelos homens: recebendo visivelmente a circuncisão, retirando visivelmente de suas casas o fermento corporal, e fazendo de modo semelhante coisas semelhantes a estas. Os discípulos de Cristo, porém, cumprem a lei em segredo, como judeus constituídos em oculto, como diz o Apóstolo.

São João Crisóstomo, in Matth. Vê, porém, que aqui ele os acusa com certa intensidade. Com efeito, não diz simplesmente que fazem suas obras para serem vistos pelos homens, mas acrescentou todas. Em seguida mostra que eles não se vangloriavam em coisas grandes, mas em certas coisas de pouco valor; por isso se acrescenta: Alargam, com efeito, os seus filactérios e engrandecem as suas franjas.

São Jerônimo. Com efeito, o Senhor, tendo dado os mandamentos da lei por meio de Moisés, acrescentou por fim: Atá-los-ás na tua mão, e estarão sempre diante dos teus olhos; e o sentido é: que os meus preceitos estejam na tua mão, para que sejam cumpridos pela obra; que estejam diante dos teus olhos, para que dia e noite medites neles. Os fariseus, interpretando isso mal, escreviam em pergaminhos o Decálogo de Moisés, isto é, as dez palavras da lei, dobravam-nos, atavam-nos na fronte e faziam deles como que uma coroa da cabeça, para que se movessem sempre diante dos olhos. Moisés ordenara também outra coisa: que nos quatro cantos dos mantos fizessem franjas de cor azul-celeste, para distinguir o povo de Israel, a fim de que, assim como nos corpos a circuncisão dava o sinal da gente judaica, também a veste tivesse alguma diferença. Mas os mestres supersticiosos, buscando o favor popular e tirando lucros das mulherzinhas, faziam franjas grandes e prendiam nelas espinhos agudíssimos, de modo que, ao andar e por vezes ao estar sentados, fossem picados e, por essa advertência, fossem reconduzidos ao serviço de Deus. Aqueles pequenos pergaminhos do Decálogo, portanto, chamavam-nos filactérios, isto é, preservativos, porque quem os tivesse os teria como guarda e defesa de si; não entendendo os fariseus que essas coisas devem ser levadas no coração, não no corpo; de outro modo, também os armários e as arcas têm livros e não têm o conhecimento de Deus.

São João Crisóstomo, super Matth. Ora, a exemplo deles, ainda hoje muitos inventam, escrevem e atam alguns nomes hebraicos de Anjos, que parecem temíveis a quem não entende; e alguns trazem ao pescoço uma parte escrita do Evangelho. Mas não se lê o Evangelho todos os dias na Igreja, e não é ouvido por todos? Se, pois, os Evangelhos postos nos ouvidos de nada lhe servem, como poderão salvá-lo pendurados ao pescoço? Depois, onde está a força do Evangelho? Na forma das letras, ou na compreensão dos sentidos? Se na forma, fazes bem em pendurá-los ao pescoço; se na compreensão, então postos no coração aproveitam mais do que pendurados ao pescoço. Outros, porém, expõem assim este passo: eles alargavam suas palavras sobre as próprias observâncias, como filactérios, isto é, preservativos da salvação, pregando-as assiduamente ao povo. E as franjas das vestes ampliadas, diz ele, são as excelências desses mesmos mandamentos.

São Jerônimo. Como alargam em excesso os filactérios e fazem grandes as franjas, desejando a glória que vem dos homens, são em seguida repreendidos nas demais coisas; por isso se diz: Amam os primeiros lugares nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas.

Rábano Mauro(séc. IX). Deve-se notar que ele não proíbe ser saudado na praça, nem sentar-se ou reclinar-se em primeiro lugar, a quem isso convém pela ordem do ofício; mas diz que os fiéis devem acautelar-se, como de gente má, daqueles que amam indevidamente essas coisas, quer as tenham, quer não.

São João Crisóstomo, super Matth. Com efeito, não censura os que se reclinam no primeiro lugar, mas os que amam os primeiros lugares à mesa; refere a censura à vontade, não ao fato. Pois sem motivo se humilha quanto ao lugar aquele que no coração se prefere aos outros: algum jactancioso, ouvindo que é louvável reclinar-se no último lugar, reclina-se depois de todos, e não só não abandona a jactância do coração, mas adquire ainda outra jactância, a da humildade, para que quem quer parecer justo pareça também humilde. Muitos soberbos, reclinando-se de corpo no último lugar, parecem-se a si mesmos, pela elevação do coração, reclinados à cabeceira; e muitos humildes, reclinados à cabeceira, julgam-se em consciência estar no último.

São João Crisóstomo, in Matth. Observa onde nesses homens dominava a vanglória: nas sinagogas, evidentemente, nas quais entravam para dirigir os outros; nos banquetes, sofrer isso era de algum modo tolerável, embora convenha que o doutor seja objeto de admiração, não só na Igreja, mas em toda parte. Se, porém, amar tais coisas é motivo de acusação, quão mau é empenhar-se para que alguém as alcance!

São João Crisóstomo, super Matth. Amam também as primeiras saudações, não só quanto ao tempo, para que os saudemos primeiro, mas também quanto à voz, para que, clamando, digamos: Salve, Rabi; e quanto ao corpo, para que, com as cabeças inclinadas, nos curvemos diante deles; e quanto ao lugar, para que sejam saudados em público; por isso diz: e as saudações nas praças.

Rábano Mauro. Embora nisso não careçam de culpa, se os mesmos que desejam ser chamados mestres da sinagoga na cátedra de Moisés tomam parte em litígios na praça, e ser chamados Rabi pelos homens.

São João Crisóstomo, super Matth. Isto é, querem ser chamados, e não ser; buscam o nome e negligenciam o ofício.

Orígenes, in Matth. Também na Igreja de Cristo encontram-se os que recebem o primado das mesas, para se tornarem diáconos; em seguida procuram arrebatar as primeiras cadeiras dos que são chamados presbíteros; e alguns maquinam para serem chamados pelos homens bispos, isto é, Rabi. O discípulo de Cristo, porém, ama de fato os primeiros lugares nos banquetes espirituais, para comer os melhores dos alimentos espirituais; ama também, com os apóstolos sentados sobre doze tronos, as primeiras cadeiras, apressando-se por mostrar-se digno de tais cadeiras com boas obras; e assim ama também as saudações que se dão nos mercados celestes, isto é, nas assembleias celestes dos primogênitos. Mas o justo não ama ser chamado Rabi nem pelos homens nem por qualquer outro, porque um só é o mestre de todos; por isso acrescenta: Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi.

São João Crisóstomo, in Matth. Ou de outro modo. Das coisas mencionadas antes, pelas quais acusara os fariseus, algumas ele deixou de lado como pequenas e vis, como se os discípulos não precisassem ser instruídos sobre elas; mas o que era causa de todos os males, isto é, desejar o trono de mestre, isso ele traz ao meio para instruir os discípulos; por isso acrescenta: Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi; pois um só é o vosso mestre.

São João Crisóstomo, super Matth. Como se dissesse: não queirais ser chamados Rabi, para não presumirdes para vós o que é devido a Deus. Nem chameis os outros Rabi, para não atribuirdes aos homens a honra divina. Pois um só é o mestre de todos, que ensina naturalmente todos os homens. Se, com efeito, o homem instruísse o homem, todos os que têm doutores aprenderiam; mas agora, porque não é o homem que ensina, mas Deus, muitos são ensinados, mas poucos aprendem. Pois o homem não dá a inteligência ao homem ensinando, mas exerce, por meio da advertência, o que foi dado por Deus.

Santo Hilário, in Matth(séc. IV). E para que os discípulos se lembrem de que são filhos de um só pai e de que, pela geração de um novo nascimento, ultrapassaram os começos da origem terrena, acrescenta: Todos vós sois irmãos.

São Jerônimo, contra Helvidium. Todos os homens, porém, podem ser chamados irmãos por afeto, o que se divide em duas formas: a especial e a comum. A especial, porque todos os cristãos se chamam irmãos; a comum, porque todos os homens, nascidos de um só pai, estamos unidos entre nós por igual fraternidade. Segue-se: E a ninguém sobre a terra chameis vosso pai.

São João Crisóstomo, super Matth. No mundo, com efeito, embora o homem gere o homem, há contudo um só pai que criou a todos. Pois não temos dos pais o princípio da vida, mas por meio deles recebemos a passagem da vida.

Orígenes, in Matth. Mas quem não chama de pai a alguém na terra? Aquele que, em todo ato cumprido segundo Deus, diz: Pai nosso, que estás nos céus.

Glosa. Como já se via quem é o Pai de todos, ao dizer que estás nos céus, quer explicar quem é o mestre de todos; por isso repete de novo o preceito sobre o mestre, dizendo: Não vos chameis mestres, porque um só é o vosso mestre: o Cristo.

São João Crisóstomo, in Matth. Contudo, ao dizer-se que Cristo é mestre, não se exclui o pai; assim como, pelo fato de Deus ser chamado nosso Pai, não se exclui que Cristo seja pai dos homens.

São Jerônimo, contra Helvidium. Pergunta-se, porém, por que o Apóstolo, contra este preceito, disse ser doutor das nações, ou como nos mosteiros, pelo uso comum da fala, se chamam uns aos outros de pais. Isto se resolve assim: uma coisa é ser pai ou mestre por natureza, outra é sê-lo por concessão. Nós, se chamamos um homem de pai, prestamos honra à idade, não o apresentamos como autor da nossa vida. Pois alguém é chamado mestre pela participação no verdadeiro Mestre; e, para não me alongar sem fim, assim como um só é Deus por natureza, e um só é o Filho, e isso não prejudica os demais, para que por adoção sejam chamados deuses e filhos, assim também o fato de haver um só pai e mestre não prejudica os outros, para que, em sentido impróprio, sejam chamados também pais e mestres.

São João Crisóstomo, in Matth. O Senhor, porém, não apenas proíbe desejar a primazia, mas leva o ouvinte ao contrário; por isso acrescenta: O maior dentre vós será vosso servo.

Orígenes, in Matth. Ou de outro modo. Também se alguém ministra as palavras divinas, sabendo que Cristo frutifica nele, de modo algum se declara mestre, mas ministro; por isso segue: O maior dentre vós será vosso servo; pois o próprio Cristo, sendo verdadeiramente mestre, declarou-se ministro, dizendo: Eu estou no meio de vós como aquele que serve. E bem acrescentou, depois de tudo aquilo com que proibiu o desejo da vanglória, dizendo: Aquele que se exaltar será humilhado; e aquele que se humilhar será exaltado.

Remígio de Auxerre(séc. IX). Isto se entende assim: todo aquele que se exalta por seus méritos será humilhado diante de Deus; e aquele que se humilha por causa dos benefícios recebidos será exaltado diante de Deus.

Mt 23,13

13Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Vós fechais aos homens o Reino dos Céus. Vós mesmos não entrais e nem deixais que entrem os que querem entrar.

Orígenes, in Matth. Cristo, como verdadeiro Filho de Deus, daquele que deu a lei, segundo a semelhança das bênçãos que estão na lei, pronunciou também ele as bem-aventuranças dos que se salvam; e, segundo a semelhança das maldições postas na lei, coloca "ai contra os pecadores, dizendo: Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas. Os que admitem que é próprio da bondade pronunciar estas coisas contra os pecadores entendam que semelhante é o propósito de Deus nas maldições da lei; ora, tanto aquela maldição quanto este ai não sobrevêm ao pecador por obra de quem os pronuncia, mas pelos pecados, pelos quais ele se mostra digno de receber o que Deus predisse para correção, a fim de que os homens se convertam ao bem: assim como o pai, ao repreender o filho, profere palavras de maldição, sem contudo querer que ele se torne digno dessas maldições, mas antes que se afaste delas. A causa deste ai ele a acrescenta: Vós que fechais o reino dos céus diante dos homens; vós, porém, não entrais, nem deixais entrar os que entram". Estes dois preceitos são naturalmente inseparáveis, porque basta para a exclusão o fato de não permitir que outros entrem.

São João Crisóstomo, super Matth. Chamam-se reino dos céus as Escrituras, porque nelas está implantado o reino dos céus: a porta é a sua inteligência. Ou o reino dos céus é a bem-aventurança celeste; a porta, porém, é Cristo, por quem se entra nela. Os porteiros são os sacerdotes, a quem foi confiada a palavra de ensinar e interpretar as Escrituras; a chave é a palavra do conhecimento das Escrituras, pela qual se abre aos homens a porta da verdade. Sua abertura é a interpretação verdadeira. Vê, porém, que não disse: Ai de vós que abris, mas que fechais; portanto, as Escrituras não estão fechadas, ainda que sejam obscuras.

Orígenes. Os fariseus e escribas, portanto, nem entravam, nem queriam ouvir aquele que disse: Se alguém entrar por mim, será salvo; e não deixavam entrar os que entravam, isto é, os que podiam crer por causa do que fora declarado antes, pela lei e pelos profetas, acerca de Cristo, fechando a porta com todo terror; além disso, difamavam a sua doutrina, subvertiam toda a Escritura profética a seu respeito e blasfemavam de toda a sua obra, como falsa e feita pelo Diabo. Mas também todos os que, por sua má conduta, dão exemplo de pecar ao povo, e os que fazem injúria, escandalizando os pequeninos, parecem fechar diante dos homens o reino dos céus. E este pecado se encontra de fato entre o povo, mas sobretudo entre os doutores, que ensinam o que convém aos homens segundo a justiça do Evangelho, mas não fazem o que ensinam. Os que vivem bem e ensinam bem abrem aos homens o reino dos céus; e, enquanto eles próprios entram, incitam outros a entrar. Mas também muitos não permitem entrar no reino dos céus os que querem entrar, quando, sem razão, por algum zelo, excomungam certas pessoas que são melhores do que eles; e eles, de fato, não permitem que elas entrem. Aqueles, porém, que são sóbrios de mente, vencendo com a sua paciência a tirania deles, ainda que proibidos, entram contudo e herdam o reino. Mas também os que, com muita temeridade, se entregaram à profissão de ensinar antes de aprender, e, imitando as fábulas judaicas, denigrem os que buscam nas Escrituras as coisas do alto, fecham, quanto lhes cabe, o reino dos céus diante dos homens.

Mt 23,14

14[Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Devorais as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso, sereis castigados com muito maior rigor.]

São João Crisóstomo, in Matth. Quanto ao mais, o Senhor os repreende pela gula; e, o que é pior, porque não recebiam dos ricos, mas das viúvas, com que encher o ventre; e esmagavam a penúria dessas, que convinha aliviar; por isso se diz: Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que devorais as casas das viúvas.

Glosa. Isto é: vós que, com a vossa superstição, só tendes em vista fazer do povo submisso uma presa.

São João Crisóstomo, super Matth. O sexo das mulheres é incauto, porque nem tudo o que vê ou ouve considera com razão; é também brando, porque facilmente se inclina do mal para o bem, ou do bem para o mal. O sexo viril, porém, é mais cauteloso e mais firme. Por isso os simuladores de santidade fazem seus negócios sobretudo com as mulheres: porque estas nem podem compreender as simulações deles e facilmente se inclinam à estima por eles por causa da religião. Fazem-no, contudo, principalmente com as viúvas: primeiro, porque a mulher que tem um marido por conselheiro não é facilmente enganada; depois, porque não dão facilmente algo de seus bens, estando sob o poder do marido. Por isso o Senhor, ao confundir os sacerdotes judeus, adverte os cristãos a não se demorarem com as viúvas mais do que com as outras mulheres: porque, ainda que a vontade não seja má, a suspeita é má.

São João Crisóstomo, in Matth. Além disso, o modo dessa rapina era mais grave: acrescenta-se, com efeito: fazendo longas orações. Todo aquele que faz o mal é digno de pena; mas quem toma da religião a ocasião da maldade fica sujeito a pena mais grave; por isso segue: Por isso recebereis um julgamento mais severo.

São João Crisóstomo, super Matth. Primeiro, por serdes iníquos; depois, por tomardes a aparência de santidade: pois a vossa avareza, pintais com a cor da religião; e como que emprestais ao Diabo as armas de Deus, para que a iniquidade seja amada, enquanto a piedade é tida em estima.

Santo Hilário, in Matth. Ou porque daqui procede a observância do reino dos céus, a saber, que a ambição se contenha ao visitar as casas das viúvas; por isso receberão maior julgamento, porque deverão a pena do próprio pecado e a culpa da ignorância alheia.

Glosa. Ou porque o servo que sabe e não faz será açoitado com muitos golpes.

Mt 23,15

15Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Percorreis mares e terras para fazer um prosélito e, quando o conseguis, fazeis dele um filho do inferno duas vezes pior que vós mesmos.

São João Crisóstomo, in Matth. Depois do que foi dito, o Senhor os acusa de novo de outro modo: tanto porque são ineficazes para a salvação de muitos, necessitando de muito trabalho para converter um só à salvação; quanto porque não apenas são negligentes para com aqueles que convertem, mas também seus destruidores, ao corrompê-los com os exemplos de uma vida má. Por isso se diz: Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que percorreis o mar e a terra seca para fazer um só prosélito.

Santo Hilário, in Matth. Pela travessia do mar e da terra, porém, significa que eles, nos confins de todo o mundo, difamariam o Evangelho de Cristo e submeteriam alguns ao jugo da lei contra a justificação pela fé. Com efeito, prosélitos são os que dentre os gentios foram recebidos na sinagoga, e a raridade dos que haveriam de existir é indicada no "um". Pois, depois da pregação de Cristo, a fé não foi deixada à sua doutrina; mas todo aquele que for conquistado para a fé dos judeus torna-se filho da Geena.

Orígenes, in Matth. Com efeito, quantos, depois do Salvador, judaízam, são ensinados a imitar o sentimento daqueles que disseram naquele tempo: Crucifica-o, crucifica-o. Por isso se segue: e, depois de feito, o tornais filho da Geena duas vezes mais do que vós.

Santo Hilário. Será, porém, filho de pena dobrada porque não alcançou a remissão dos pecados dos gentios e seguiu a companhia dos que perseguiram Cristo.

São Jerônimo. Ou de outro modo. Os escribas e fariseus, percorrendo todo o mundo, tinham este empenho: fazer prosélito dentre os gentios, isto é, misturar ao povo de Deus um estrangeiro incircunciso.

São João Crisóstomo, super Matth. Não por misericórdia, querendo salvar aquele a quem ensinavam; mas ou por avareza, para que, acrescentados judeus às sinagogas, se acrescentasse a oferta dos sacrifícios; ou por vanglória. Pois quem mergulha a si mesmo no abismo dos pecados, como quereria arrancar outro dos pecados? Poderia alguém ser mais misericordioso para com outro do que para consigo? Pelas próprias obras, portanto, se mostra quem quer converter alguém por causa de Deus, ou por causa da vaidade.

São Gregório Magno(séc. VI). Embora os hipócritas pratiquem sempre o mal, não deixam, contudo, de dizer coisas retas; falando bem, geram filhos na fé ou na conduta, mas não podem nutri-los vivendo bem: pois quanto mais de bom grado se metem em ocupações terrenas, tanto mais negligentemente permitem que aqueles que geraram se ocupem de coisas terrenas. E porque vivem com o coração endurecido, nem sequer aos filhos que geram reconhecem com a piedade do amor devido. Por isso também aqui se diz aos hipócritas: e, depois de feito, o tornais filho da Geena duas vezes mais do que vós.

Santo Agostinho, contra Faustum(séc. IV–V). Isto, porém, ele disse não porque eram circuncidados, mas porque imitavam os costumes daqueles que ele havia impedido de imitar, dizendo: Sobre a cadeira de Moisés, e o que se segue. Nestas palavras deve-se notar duas coisas: quão grande honra foi concedida à doutrina de Moisés, em cuja cadeira até os maus, ao se sentarem, eram obrigados a ensinar o bem; e que daí o prosélito se tornava filho da Geena, não ouvindo as palavras da lei, mas seguindo as obras deles. E duas vezes mais do que eles, porque negligenciava cumprir aquilo que assumira por vontade própria, não nascido dentre os judeus, mas feito judeu por livre escolha.

São Jerônimo. Ou porque antes, quando era gentio, errava por simplicidade e era filho da Geena uma só vez; vendo, porém, os vícios dos mestres e compreendendo que eles destruíam pela obra o que ensinavam com a palavra, volta ao seu vômito e, feito gentio de novo, como prevaricador era digno de maior pena.

São João Crisóstomo, super Matth. Ou porque talvez, estando sob o culto dos ídolos, ou por causa dos homens, guardava a justiça; feito judeu, porém, provocado pelo exemplo dos maus mestres, tornava-se pior que os mestres.

São João Crisóstomo, in Matth. Com efeito, quando o mestre é virtuoso, o discípulo o imita; quando, porém, é mau, o excede. Chama-se filho da Geena como se diz filho da perdição e filho deste século; pois cada um é chamado filho daquele cujas obras pratica.

Orígenes, in Matth. Deste passo aprendemos que também entre os que estarão na Geena haverá diferença de tormentos, porquanto um é simplesmente filho da Geena, e outro duplamente. Mas convém ver também aqui se é de modo geral que alguém se torna filho da Geena, como, por exemplo, judeu ou gentio, ou também de modo especial, de sorte que alguém se torne filho da Geena por cada espécie de pecado: assim como o justo cresce em glória segundo o número de suas justiças, o pecador se multiplica na Geena segundo o número de seus pecados.

Mt 23,16-22

16Ai de vós, guias cegos! Vós dizeis: Se alguém jura pelo templo, isto não é nada; mas, se jura pelo tesouro do templo, é obrigado pelo seu juramento. 17Insensatos, cegos! Qual é o maior: o ouro ou o templo que santifica o ouro? 18E dizeis ainda: Se alguém jura pelo altar, não é nada; mas, se jura pela oferta que está sobre ele, é obrigado. 19Cegos! Qual é o maior: a oferta ou o altar que santifica a oferta? 20Aquele que jura pelo altar jura ao mesmo tempo por tudo o que está sobre ele. 21Aquele que jura pelo templo, jura ao mesmo tempo por aquele que nele habita. 22E aquele que jura pelo céu, jura ao mesmo tempo pelo trono de Deus e por aquele que nele está sentado.

São Jerônimo. Assim como nos filactérios e nas franjas alargadas a opinião de santidade buscava a glória, e por ocasião da glória procuravam lucros, assim, descoberta outra fraude da tradição, ele acusa de impiedade os transgressores. Com efeito, se alguém, numa contenda, ou em alguma disputa, ou na incerteza de uma causa, tivesse jurado no templo e depois fosse convencido de mentira, não era tido por culpado; e é isto que ele diz: Ai de vós, guias cegos, que dizeis: Quem jurar pelo templo, não é nada, como quem diz: nada deve. Mas, se tivesse jurado pelo ouro e pelo dinheiro que se oferecia aos sacerdotes no templo, era logo obrigado a pagar aquilo pelo que jurava. Por isso se segue: quem, porém, jurar pelo ouro do templo, deve, isto é, é devedor.

São João Crisóstomo, super Matth. O templo pertence à glória de Deus e à salvação espiritual dos homens; já o ouro do templo, embora pertença à glória de Deus, é oferecido antes para o deleite dos homens e para a utilidade dos sacerdotes. Os judeus, portanto, diziam que o ouro, com o qual eles mesmos se deleitavam, e os donativos, com os quais se sustentavam, eram mais sagrados do que o próprio templo, para tornar os homens mais prontos a oferecer donativos do que a derramar preces no templo. Por isso o Senhor os repreende convenientemente, dizendo: Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro, ou o templo que santifica o ouro? Ora, muitos cristãos hoje entendem assim, insensatamente. Eis que, se houver alguma causa, parece fazer pouco quem jura por Deus; mas quem jura pelo Evangelho parece ter feito algo maior. A estes se deve dizer igualmente: Insensatos e cegos! Pois as Escrituras foram escritas por causa de Deus, e não Deus por causa das Escrituras. Maior é, portanto, Deus, que santifica o Evangelho, do que o Evangelho, que é santificado por ele.

São Jerônimo. Por outro lado, se alguém jurasse pelo altar, ninguém o retinha como réu de perjúrio; mas, se jurasse pelo donativo ou pelas oferendas, isto é, pela hóstia, ou pelas vítimas, pela farinha e pelas demais coisas que são oferecidas a Deus sobre o altar, exigiam isso com o maior empenho. Faziam tudo isso não por temor de Deus, mas por cobiça das riquezas; por isso segue: Quem jurar pelo altar, não é nada; mas quem jurar pelo donativo que está sobre ele, fica obrigado. O Senhor os acusa de insensatez e de fraude, porque o altar é muito maior do que as hóstias, que são santificadas pelo altar; por isso segue: Cegos! Pois qual é maior: o donativo, ou o altar que santifica o donativo?

Glosa. E para que não chegassem a tal loucura de dizer que o ouro é mais santo que o templo, e o donativo mais que o altar, ele os convence por outra razão: a saber, que no juramento feito pelo templo e pelo altar está contido o juramento feito pelo ouro ou pelo donativo; e é isto que acrescenta: Quem, portanto, jura pelo altar, jura por ele e por tudo o que está sobre ele.

Orígenes, in Matth. Do mesmo modo, como os judeus tinham o costume de jurar pelo céu, para repreendê-los acrescenta: Quem jura pelo céu, jura pelo trono de Deus e por aquele que está sentado sobre ele. Não escapam, portanto, do perigo, como pensam, por não jurarem por Deus, mas pelo trono de Deus, isto é, o céu.

Glosa. Quem jura pela criatura submetida jura também pela divindade que preside à criatura.

Orígenes. O juramento é a confirmação da palavra sobre a qual se jura. Deve-se, pois, entender por juramento o testemunho das Escrituras, que se apresenta para confirmar a palavra que dizemos; de modo que o templo de Deus seja a Escritura divina, e o ouro, o sentido nela contido. Ora, assim como o ouro que estiver fora do templo não é santificado, assim todo sentido que estiver fora da Escritura divina, por mais admirável que pareça, não é santo. Não devemos, portanto, assumir os nossos entendimentos para confirmar a doutrina, a não ser que mostremos que são santos, pelo fato de estarem contidos nas divinas Escrituras. O altar, por sua vez, é o coração do homem, que é tido como o principal no homem. Os votos e os donativos que se colocam sobre o altar são tudo o que se coloca sob o coração, como orar, cantar salmos, dar esmolas e jejuar. Santo torna, portanto, todo voto do homem o seu coração, do qual o voto lhe é oferecido. Por isso não pode haver voto mais honroso do que o coração do homem, do qual o voto é enviado. Se, portanto, a consciência do homem não o reprova, ele tem confiança diante de Deus, não por causa dos donativos, mas porque, por assim dizer, construiu bem o altar do seu coração. Em terceiro lugar, podemos dizer que, acima do templo, isto é, acima de toda a Escritura, e acima do altar, isto é, acima de todo coração, há certo entendimento que se chama céu, e seu trono se diz ser de Deus, no qual se pode ver, com a face descoberta, quando vier o que é perfeito, a face da verdade.

Santo Hilário, in Matth. Com a vinda de Cristo, ensina também que é inútil a confiança na lei, porque Cristo não é santificado na lei, mas a lei é santificada em Cristo, no qual, como numa sede e num trono, ela foi colocada; e assim são insensatos e cegos os que, deixando de lado quem santifica, veneram o que é santificado.

Santo Agostinho, de quaest. Evang. Entendemos também por templo e altar o próprio Cristo; por ouro e donativo, os louvores e os sacrifícios das preces, que oferecemos nele e por ele. Pois ele não é santificado por estas coisas, mas elas é que são santificadas por ele.

Mt 23,23-24

23“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar sem, contudo, deixar o restante. 24Guias cegos! Filtrais um mosquito e engolis um camelo.

São João Crisóstomo, in Matth. Acima o Senhor tinha dito que atavam fardos mais pesados e os impunham aos outros, fardos que eles mesmos nem queriam tocar; aqui mostra, por sua vez, que, buscando a diligência nas coisas pequenas, desprezavam as grandes; por isso se diz: Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho.

São Jerônimo. Pois os fariseus, porque o Senhor tinha ordenado que se oferecessem no templo os dízimos de todas as coisas, para o sustento dos sacerdotes e dos levitas, dos quais o Senhor era a porção, e deixando de lado os sentidos místicos, tinham este único empenho: que se reunissem as coisas que eram de pouco valor; as demais, que eram maiores, tinham em pouca conta; por isso segue: E deixastes o que há de mais grave na lei: o juízo, a misericórdia e a fé. Com este ponto os acusa de avareza, porque exigem com zelo até os dízimos das hortaliças de pouco valor, e omitem o juízo no julgamento dos negócios, a misericórdia para com os pobres e a fé em Deus, que são as coisas grandes.

São João Crisóstomo, super Matth. Ou então porque os sacerdotes, cheios de avareza, se alguém não tivesse oferecido o dízimo de alguma coisa mínima, o repreendiam como se tivesse cometido um grande crime; mas, se alguém prejudicava o outro ou pecava contra Deus, não se preocupavam em repreendê-lo; solícitos, sem dúvida, pelo seu lucro, e negligentes quanto à glória de Deus e à salvação dos homens. Deus mandou guardar a justiça, praticar a misericórdia e ter fé por causa da sua própria glória; mandou, porém, oferecer os dízimos por causa da utilidade dos sacerdotes, para que os sacerdotes servissem o povo nas coisas espirituais, e os povos, por sua vez, provessem aos sacerdotes nas coisas materiais. Assim também acontece agora: todos se preocupam com a sua própria honra, mas ninguém com a honra de Deus; defendem vigilantes as suas porções, mas não cuidam de dedicar atenção ao serviço da Igreja. Se o povo não oferece direito os dízimos, todos murmuram; se veem o povo pecando, ninguém murmura contra ele. Mas, como alguns dos escribas e fariseus a quem falava eram gente do povo, não é descabido que façamos outra exposição, por causa dos que davam os dízimos: pois tanto quem recebe os dízimos como quem os dá se diz, com razão, que paga o dízimo. Os escribas e fariseus ofereciam, portanto, os dízimos das coisas mínimas para fazer ostentação de religião; mas eram injustos nos juízos, sem misericórdia para com os irmãos, incrédulos diante da verdade.

Orígenes, in Matth. Mas, como podia acontecer que alguns, ao ouvirem o Senhor dizer isto, desprezassem o pagamento do dízimo das coisas mínimas, acrescentou sabiamente: Era preciso fazer estas coisas, isto é, o juízo, a misericórdia e a fé, e não omitir aquelas, isto é, o dízimo da hortelã, do endro e do cominho.

Remígio de Auxerre. Com estas palavras o Senhor mostra que todos os preceitos da lei, tanto os maiores quanto os menores, devem ser cumpridos. São repreendidos, porém, os que dão esmolas dos frutos da terra pensando que de modo algum podem pecar; para estes as esmolas de nada servem, se não se esforçarem por deixar os pecados.

Santo Hilário, in Matth. E porque seria menor o perigo em omitir o dízimo da hortaliça do que o dever da benevolência, o Senhor em seguida os ridiculariza, dizendo: Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo.

São Jerônimo. Julgo que o camelo é a grandeza dos preceitos: o juízo, a misericórdia e a fé; o mosquito, o dízimo da hortelã, do endro, do cominho e das demais hortaliças de pouco valor. Ora, estes preceitos de Deus, que são grandes, nós os devoramos e negligenciamos; e a prática da religião nas coisas pequenas, que dão lucro, mostramos com diligência.

Orígenes. Ou: coando o mosquito, isto é, expulsando de si os menores pecados, que chamou de mosquitos; engolindo, porém, o camelo, isto é, cometendo os maiores pecados, que chama de camelos, animais evidentemente tortuosos e grandes. Os escribas, em sentido moral, são os que nada mais julgam estar posto nas Escrituras do que o que a simples palavra mostra; os fariseus são todos os que se justificam a si mesmos e se separam dos demais, dizendo: não te aproximes de mim, porque sou puro. A hortelã, o endro e o cominho são temperos dos alimentos, não alimentos principais. Assim, em nosso modo de viver, certas coisas são necessárias para a justificação, como o juízo, a misericórdia e a fé; outras são como condimentos de nossos atos e os tornam mais agradáveis: como a abstenção do riso, o jejum, a genuflexão e coisas semelhantes. Como, porém, não seriam tidos por cegos os que não veem? Porque de nada adianta o administrador ser cuidadoso nas coisas mínimas, quando as principais são negligenciadas. A estes, portanto, a presente palavra confunde, não proibindo observar as coisas leves, mas mandando guardar com mais cuidado as principais

São Gregório Magno. Ou de outro modo. O mosquito fere zumbindo, e o camelo se inclina espontaneamente para receber as cargas. Coaram, pois, o mosquito os judeus, que pediram que fosse solto o ladrão sedicioso; engoliram, porém, o camelo, porque tentaram, gritando, eliminar aquele que espontaneamente descera para tomar sobre si os fardos de nossa mortalidade

Mt 23,25-26

25Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Limpais por fora o copo e o prato e por dentro estais cheios de roubo e de intemperança. 26Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o que está fora fique limpo.

São Jerônimo. Com palavras diversas, no mesmo sentido que acima, acusa os fariseus de simulação e mentira, porque mostram uma coisa aos homens por fora e fazem outra em casa; por isso se diz: ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que limpais o que está por fora do copo e do prato. Não diz isso porque a superstição deles residisse no copo e no prato, mas porque mostravam aos homens, por fora, santidade; o que é manifesto pelo que acrescentou, dizendo: por dentro, porém, estais cheios de rapina e imundície

São João Crisóstomo, super Matth. Ou diz isto porque os judeus, todas as vezes que iam entrar no templo, ou oferecer sacrifícios, ou nos dias de festa, lavavam a si mesmos, suas vestes e utensílios; e ninguém se purificava dos pecados; embora Deus nem louve a limpeza do corpo, nem condene a sujeira. Admite, porém, que Deus odeie a sujeira dos corpos e dos vasos, que necessariamente se sujam pelo próprio uso; quanto mais abomina a sujeira da consciência, que, se quisermos, conservamos sempre limpa?

Santo Hilário, in Matth. Acusa, pois, os que, seguindo a vanglória de um zelo inútil, abandonam o serviço da utilidade perfeita. Com efeito, o uso do copo é interior; se ele estiver sujo, de que adiantará a lavagem exterior? E por isso deve-se obter o brilho da consciência interior, para que as coisas do corpo sejam lavadas por fora; e por isso acrescenta: fariseu cego, limpa primeiro o que está dentro do copo e do prato, para que também o que está fora fique limpo

São João Crisóstomo, super Matth. Não diz isto, porém, do copo ou do prato sensível, mas do inteligível: o qual, se nunca tocar a água, pode ser puro diante de Deus; mas, se pecar, ainda que se lave com toda a água do mar e dos rios, é sujo e miserável diante de Deus

São João Crisóstomo, in Matth. Observa, porém, que, quando falava dos dízimos, disse convenientemente: era preciso fazer estas coisas e não omitir aquelas. Pois o dízimo é uma esmola. E que mal há em dar esmola? Não disse isto, contudo, como quem introduz uma observância legal. Aqui, porém, onde discute as purificações e imundícies, não acrescenta isto; mas mostra que, por necessidade, à limpeza interior segue a exterior; chamando de corpo o que está fora do copo e do prato, e de alma o que está dentro

Orígenes, in Matth. Esta palavra nos instrui a nos apressarmos em ser justos, não em parecer. Pois quem se empenha em parecer justo limpa o que está por fora e cuida do que se vê; mas negligencia o coração e a consciência. Quem, porém, se empenha em limpar o que está por dentro, isto é, os pensamentos, por consequência torna limpo também o que está por fora. Mas todos os professores de falsa doutrina são copos limpos por fora, por causa da aparência de religião que simulam; por dentro, porém, estão cheios de rapina e dissimulação, enquanto arrastam os homens ao erro. O copo é também vaso para a bebida, o prato para o alimento. Toda palavra, pois, pela qual somos espiritualmente dessedentados, ou toda narração pela qual somos nutridos, são vasos de bebida e de comida. Os que, portanto, se empenham em proferir um discurso bem composto, mais que um discurso cheio de sentido salutar, têm o copo limpo por fora, mas por dentro cheio das imundícies da vaidade. Mas também as letras da lei e dos profetas são copos de bebida espiritual e pratos de alimentos necessários. Os escribas e fariseus se empenham em mostrar limpo o sentido exterior; os discípulos de Cristo, porém, se apressam em purificar o sentido espiritual

Mt 23,27-28

27Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Sois semelhantes aos sepulcros caiados: por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos, de cadáveres e de toda espécie de podridão. 28Assim também vós: por fora pareceis justos aos olhos dos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.

Orígenes, in Matth. Como se tem acima: por dentro cheios de rapina e intemperança; semelhantemente aqui estão cheios de hipocrisia e iniquidade; são comparados aos ossos dos mortos e a toda imundície; por isso diz: ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que sois semelhantes a sepulcros caiados

São João Crisóstomo, super Matth. Com razão os corpos dos justos são chamados templos, porque a alma domina no corpo do justo como Deus no templo; ou porque o próprio Deus habita nos corpos dos justos. Os corpos dos pecadores, porém, são chamados sepulcros de mortos, porque a alma está morta no corpo do pecador; pois não se deve julgar viva a que nada de vivo ou espiritual faz no corpo

São Jerônimo. Os sepulcros, por fora, são alisados com cal e ornados de mármores, com ouro e cores variadas; por dentro, porém, estão cheios de ossos de mortos; por isso se diz: que aparecem formosos aos homens; por dentro, porém, estão cheios de ossos de mortos e de toda sujeira. Assim também os mestres perversos, que ensinam uma coisa e fazem outra, mostram limpeza pelo hábito da veste e pela humildade das palavras; por dentro, porém, estão cheios de toda sujeira, avareza e luxúria; e isto exprime claramente, acrescentando: assim também vós, por fora, pareceis justos aos homens; por dentro, porém, estais cheios de hipocrisia e iniquidade

Orígenes. Toda justiça simulada, com efeito, está morta, pois não é feita por causa de Deus; é antes uma justiça má; assim como um homem morto não é homem, e como os mimos, que assumem as personagens de outros e não são eles mesmos o que simulam. Tantos são, pois, os ossos e imundícies neles, quantos os bens que simulam por afeto mau. Parecem, porém, justos por fora diante dos homens; não diante daqueles que a Escritura chama deuses, mas diante dos que morrem como homens

São Gregório Magno. Diante do juiz rigoroso, porém, não podem ter a desculpa da ignorância, porque, enquanto mostram diante dos olhos dos homens toda forma de santidade, eles mesmos são testemunho contra si de que não ignoram o bem viver

São João Crisóstomo, super Matth. Dize, porém, hipócrita: se é bom ser mau, por que não queres parecer o que queres ser? Pois o que é torpe parecer, é mais torpe ser; e o que é belo parecer, é mais belo ser. Portanto, ou sê o que pareces, ou parece o que és

Mt 23,29-31

29Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Edificais sepulcros aos profetas, adornais os monumentos dos justos 30e dizeis: Se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos manchado nossas mãos como eles no sangue dos profetas... 31Testemunhais assim contra vós mesmos que sois de fato os filhos dos assassinos dos profetas.

São Jerônimo. Com um silogismo prudentíssimo mostra que são filhos de homicidas, pois eles, pela opinião de bondade e glória junto ao povo, edificam os sepulcros dos profetas, que seus antepassados mataram; e é isto que diz: ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que edificais os sepulcros dos profetas e ornais os monumentos dos justos

Orígenes, in Matth. Não parece razoável que ele ameace com tanta severidade os que edificam os sepulcros dos profetas; pois, quanto a isso, faziam algo louvável. Como, então, eram dignos de receber o "ai"?

São João Crisóstomo, in Matth. Não os acusa, portanto, de edificarem sepulcros, mas censura a intenção com que os edificam: não o faziam pela honra dos que haviam sido mortos, mas para erigir para si um monumento de ostentação sobre as mortes deles, receando que, com o passar do tempo, destruídos os sepulcros, se apagasse a memória de tamanha audácia.

São João Crisóstomo, super Matth. Ou porque diziam entre si: se fizermos o bem aos pobres, não muitos o veem, e o veem só por um tempo; não faremos melhor, então, construindo edifícios que todos contemplam, não apenas neste tempo, mas também no futuro? Ó homem insensato, que te aproveita depois da morte essa memória, se onde estás és atormentado, e onde não estás és louvado? Mas, ao repreender os judeus, o Senhor ensina os cristãos; pois, se tivesse dito isso só a eles, teria sido apenas dito, e não também escrito; agora, porém, foi dito por causa deles e escrito por causa destes. Se, pois, junto com outras boas obras, o homem edificar templos santos, é um acréscimo às boas obras; mas, se o fizer sem outras boas obras, é paixão de glória mundana. Os mártires não se alegram quando são honrados com aquelas riquezas pelas quais os pobres choram. Também os judeus sempre foram cultores dos santos do passado e desprezadores dos presentes, ou antes, perseguidores. Não suportando as repreensões de seus profetas, perseguiam-nos e matavam-nos; depois, porém, os filhos que nasciam reconheciam as culpas de seus pais e, por isso, como que lamentando a morte dos profetas inocentes, edificavam-lhes memoriais; e, no entanto, eles mesmos perseguiam e matavam igualmente os seus profetas, que os repreendiam por seus pecados. E por isso se acrescenta: e dizeis: Se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no sangue dos profetas.

São Jerônimo. Embora não o digam com palavras, falam-no pelas obras, pelo fato de edificarem com ambição e magnificência os memoriais dos que foram mortos.

São João Crisóstomo, super Matth. Assim como pensavam no coração, assim falavam e agiam. Cristo expõe aqui o costume natural de todos os homens maus: que um percebe depressa a culpa do outro, mas dificilmente a sua; pois o homem tem o coração tranquilo na causa alheia, mas perturbado na sua. Na causa alheia, portanto, todos nós podemos facilmente ser juízes justos. Mas é verdadeiramente justo e sábio aquele que pode tornar-se juiz de si mesmo. Segue-se, pois: Assim, dais testemunho contra vós mesmos de que sois filhos dos que mataram os profetas.

São João Crisóstomo, in Matth. Mas que espécie de acusação é dizer que é filho do homicida aquele que não compartilha a mente do pai? É evidente que nenhuma; por isso é claro que ele diz isto porque insinua veladamente a semelhança na malícia.

São João Crisóstomo, super Matth. Os costumes dos pais são, com efeito, testemunhos acerca dos filhos: se o pai for bom e a mãe má, ou o contrário, os filhos ora seguem o pai, ora a mãe. Se ambos forem iguais, acontece às vezes que de pais bons saiam filhos maus, ou o contrário, mas raramente. Isso é como quando nasce, fora da regra da natureza, um homem com seis dedos ou sem olhos.

Orígenes, in Matth. Mas também nas palavras dos profetas a narração segundo a história é o corpo, e o sentido espiritual é a alma; os sepulcros são as próprias letras das Escrituras e os livros. Os que atendem só à história veneram os corpos dos profetas postos na letra, como em certos sepulcros; e chamam-se fariseus, isto é, separados, como que separando do corpo a alma dos profetas.

Mt 23,32-36

32Acabai, pois, de encher a medida de vossos pais! 33Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno? 34Vede, eu vos envio profetas, sábios, doutores. Matareis e crucificareis uns e açoitareis outros nas vossas sinagogas. Eu os perseguireis de cidade em cidade, 35para que caia sobre vós todos o sangue inocente derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o templo e o altar. 36Em verdade vos digo: todos esses crimes pesam sobre esta raça.

São João Crisóstomo, in Matth. Tendo dito contra os fariseus e escribas que eram filhos dos que mataram os profetas, agora mostra que lhes eram semelhantes na malícia, e que era fingimento dizerem que não teriam sido cúmplices de suas obras, se tivessem vivido naquele tempo; e por isso diz: E vós, completai a medida de vossos pais. Não o diz como quem ordena, mas como quem prediz o que haveria de acontecer.

São João Crisóstomo, super Matth. Profetiza-lhes, pois, que, assim como seus pais mataram os profetas, também eles matariam Cristo, os apóstolos e os demais santos; como se, ao litigares com um adversário, lhe dissesses: faze o que estás para fazer; não ordenas que faça, mas mostras que compreendes o que ele pensa fazer. E, na verdade, quanto à realidade, excederam a medida de seus pais: aqueles mataram homens, estes crucificaram a Deus. Mas, porque desceu à morte por sua própria vontade, não lhes imputa o pecado de sua morte; imputa-lhes, porém, a morte dos apóstolos e dos demais santos; e por isso diz completai, e não superai a medida; pois é próprio de um juiz benigno e justo desprezar as injúrias que lhe são feitas e vingar as injúrias dos outros.

Orígenes, in Matth. Completam também a medida da iniquidade paterna pelo fato mesmo de não crerem em Cristo. A causa da incredulidade foi terem aplicado o ânimo às histórias corporais, não querendo entender nelas nada de espiritual.

Santo Hilário, in Matth. Porque, pois, completarão a medida da vontade paterna, por isso são serpentes e geração de víboras; donde se segue: Serpentes, raça de víboras, como escapareis do julgamento da Geena?

São Jerônimo. Isto mesmo já dissera João Batista. Assim como das víboras, diz, nascem víboras, assim, de pais homicidas, vós nascestes homicidas.

São João Crisóstomo, super Matth. Chamam-se raça de víboras porque a natureza das víboras é tal que os filhos rompem o ventre da mãe e assim saem; e assim os judeus sempre condenam os pais, censurando-lhes os atos. Diz, porém: Como escapareis do julgamento da Geena? Acaso edificando os sepulcros dos santos? Mas o primeiro degrau da piedade é amar a santidade, depois os santos; pois honra sem motivo os justos quem despreza a justiça. Os santos não podem ser amigos daqueles a quem Deus é inimigo. Ou talvez vos libertará um nome vazio, porque pareceis estar no povo de Deus? Julgo, porém, que é melhor o inimigo declarado do que o amigo falso; assim também, diante de Deus, é mais odioso quem se diz servo de Deus e cumpre os mandamentos do Diabo. Diante de Deus, quem se dispõe a matar um homem, antes de matar já é tido por homicida; pois é a vontade que é recompensada pelo bem ou condenada pelo mal. As obras, porém, são testemunhos da vontade. Deus não procura as obras por si mesmo, para saber como julgar, mas por causa dos outros, para que todos compreendam que Deus é justo. Deus proporciona aos maus a ocasião de pecar, não para fazê-los pecar, mas para mostrar o pecador, e dá aos bons a ocasião de manifestarem o propósito de sua vontade. Assim, deu aos escribas e fariseus a ocasião de mostrarem a sua vontade; donde conclui: Por isso, eis que vos envio profetas, sábios e escribas.

Santo Hilário, in Matth. Isto é, os apóstolos, que são profetas pela revelação das coisas futuras, sábios pelo conhecimento de Cristo, escribas pela inteligência da lei.

São Jerônimo. Ou observa, segundo o Apóstolo que escreve aos Coríntios, que são vários os dons dos discípulos de Cristo: uns, profetas, que anunciam as coisas futuras; outros, sábios, que sabem quando devem proferir a palavra; outros, escribas doutíssimos na Lei; dentre eles, Estêvão foi apedrejado, Paulo morto, Pedro crucificado, e os discípulos açoitados nos Atos dos Apóstolos; e os perseguiram de cidade em cidade, expulsando-os da Judeia, para que passassem aos povos das nações.

Orígenes, in Matth. Ou os escribas que são enviados por Cristo são os escribas segundo o Evangelho, a quem o espírito vivifica e a letra não mata, como a letra da Lei, seguindo a qual caem em vãs superstições. A simples narração do Evangelho basta para a salvação. Os escribas da Lei, porém, ainda açoitam por maledicência, em suas sinagogas, os escribas do Novo Testamento; mas também os hereges, que são fariseus espirituais, açoitam os cristãos com suas línguas e os perseguem de cidade em cidade, ora corporalmente, ora espiritualmente, querendo expulsá-los, como que da própria cidade da Lei, dos Profetas e do Evangelho, para outro Evangelho.

São João Crisóstomo, in Matth. Em seguida, para mostrar que não fazem isso impunemente, incute-lhes por essas palavras um temor indizível; por isso se acrescenta: para que venha sobre vós todo o sangue.

Rábano Mauro. Isto é, toda a vingança devida pelo sangue derramado dos justos.

São Jerônimo. Quanto a Abel, não há dúvida de que é aquele que seu irmão Caim matou. Que era justo, prova-se não só pela sentença do Senhor agora, mas pelo testemunho do Gênesis, onde se narra que suas ofertas foram aceitas por Deus. Perguntamos, porém, quem foi esse Zacarias, filho de Baraquias, pois lemos de muitos Zacarias; e para que não nos fosse dada livre ocasião de erro, acrescentou-se: a quem matastes entre o templo e o altar. Alguns dizem que é Zacarias, filho de Baraquias, que é o décimo primeiro entre os doze profetas, e o nome do pai nele concorda; mas onde foi morto entre o templo e o altar, a Escritura não diz, sobretudo porque em seu tempo mal havia as ruínas do templo. Outros querem que se entenda Zacarias, pai de João.

Orígenes. Chegou-nos, com efeito, uma tradição segundo a qual haveria no templo um lugar onde às virgens era lícito adorar a Deus, mas às que haviam conhecido o leito conjugal não se permitia permanecer nele. Ora, Maria, depois de dar à luz o Salvador, entrando para orar, pôs-se naquele lugar das virgens. Como a impedissem os que sabiam que ela já havia gerado um filho, Zacarias disse que ela era digna do lugar das virgens, pois ainda era virgem. Por isso, como que agindo manifestissimamente contra a Lei, os homens daquela geração o mataram entre o templo e o altar; e assim é verdadeira a palavra de Cristo, que disse aos presentes: a quem matastes.

São Jerônimo. Contudo, como isso não tem autoridade das Escrituras, é desprezado com a mesma facilidade com que é afirmado. Outros querem que seja aquele Zacarias que foi morto por Joás, rei de Judá, entre o templo e o altar, isto é, no átrio do templo. Mas deve-se observar que esse Zacarias não foi filho de Baraquias, mas do sacerdote Joiada. Ora, Baraquias, em nossa língua, significa aquele que bendiz a Deus; e pelo nome hebraico se indica a justiça do sacerdote Joiada. No Evangelho de que se servem os nazarenos, encontramos escrito filho de Joiada em lugar de filho de Baraquias.

Remígio de Auxerre. Deve-se perguntar como disse até o sangue de Zacarias, sendo que depois foi derramado o sangue de muitíssimos santos. Resolve-se assim: Abel foi pastor de ovelhas, morto no campo; Zacarias foi sacerdote, e morto no átrio do templo. Por isso o Senhor menciona esses dois, porque por eles são designados todos os santos mártires, isto é, da ordem leiga e da sacerdotal.

São João Crisóstomo, in Matth. Mencionou também Abel, mostrando que por inveja matariam Cristo e seus discípulos. Fez menção de Zacarias, porque houve dupla presunção em sua morte: pois o crime foi cometido não só contra um homem santo, mas também em lugar santo.

Orígenes. Zacarias também se interpreta memória de Deus. Todo aquele, pois, que se apressa em destruir a memória de Deus naqueles a quem escandaliza, parece derramar o sangue de Zacarias, filho de Baraquias. Pois pela bênção de Deus somos lembrados de Deus. Pelos ímpios também é morta a memória de Deus, quando o templo de Deus é corrompido pelos lascivos e seu altar é manchado pela negligência das orações. Abel, por sua vez, se interpreta luto. Quem, portanto, não recebe o que está escrito: bem-aventurados os que choram, derrama o sangue de Abel, isto é, a verdade do luto salutar. Alguns também derramam a verdade das Escrituras, como seu sangue, porque toda Escritura, se não for entendida segundo a verdade, está morta.

São João Crisóstomo, in Matth. E para lhes tirar toda desculpa, para que não dissessem: porque os enviaste aos gentios, por isso nos escandalizamos, havia predito que os discípulos seriam enviados a eles; e por isso, acerca da punição deles, acrescenta-se: em verdade vos digo: todas essas coisas virão sobre esta geração.

Glosa. Não fala somente dos presentes, mas de toda a geração precedente e futura, porque todos são uma só cidade e um só corpo do Diabo.

São Jerônimo. É regra das Escrituras conhecer duas gerações, a dos bons e a dos maus. Da geração dos bons se diz: a geração dos justos será abençoada; dos maus, no presente passo: geração de víboras. Logo, também estes, porque fizeram contra os apóstolos coisas semelhantes às de Caim e Joás, são tidos como de uma só geração.

São João Crisóstomo, in Matth. Ou de outro modo: como adiava o castigo da Geena, com que os havia ameaçado, ameaça-os também com os males presentes, ao dizer: todas essas coisas virão sobre esta geração.

São João Crisóstomo, super Matth. Assim como todos os bens que os santos mereciam em cada geração, desde a constituição do mundo, foram dados àqueles últimos que receberam Cristo, assim todos os males que os iníquos mereceram sofrer em cada geração, desde a constituição do mundo, vieram sobre os últimos judeus, porque rejeitaram Cristo. Ou assim: assim como toda a justiça dos santos anteriores, antes, de todos os santos, não pôde merecer tanto quanto foi dado de graça aos homens em Cristo, assim os pecados de todos os ímpios não puderam merecer tanto mal quanto veio sobre os judeus, a ponto de sofrerem no corpo tais coisas como sofreram dos romanos; e assim depois todas as suas gerações, até o fim do mundo, seriam rejeitadas por Deus e se tornariam escárnio para todas as nações. Que pode, com efeito, ser pior do que não acolher o Filho que vem com misericórdia e humildade, e matá-lo daquele modo? Ou assim: Deus não castiga imediatamente toda nação ou cidade quando peca, mas espera por muitas gerações; quando, porém, aprouver a Deus destruir essa cidade ou nação, parece cobrar-lhe os pecados de todas as gerações precedentes, porque sofreu sozinha o que todas mereciam; assim também a geração dos judeus parece punida por seus pais. Na verdade, porém, foram condenados não por aqueles, mas por si mesmos.

São João Crisóstomo, in Matth. Com efeito, aquele que viu muitos já pecando e permaneceu incorrigido, fazendo de novo as mesmas coisas ou ainda piores, está sujeito a maior pena.

Mt 23,37-39

37Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas... e tu não quiseste! 38Pois bem, a vossa casa vos é deixada deserta. 39Porque eu vos digo: já não me vereis de hoje em diante, até que digais: Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor.”

São João Crisóstomo, in Matth. Depois do que foi dito, o Senhor dirige o discurso à cidade, querendo com isso instruir os ouvintes; por isso diz: Jerusalém, Jerusalém. Ora, esta repetição é própria de quem se compadece e ama muito.

São Jerônimo. Ora, chama de Jerusalém não as pedras e os edifícios da cidade, mas os habitantes, que ele lamenta com afeto de pai.

São João Crisóstomo, super Matth. Prevendo a ruína daquela cidade e o flagelo que viria dos romanos, recordava o sangue dos seus santos que fora derramado por eles e ainda seria derramado depois; por isso acrescenta: que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados. Mataste Isaías, enviado a ti, e apedrejaste meu servo Jeremias, e esmagaste a cabeça de Ezequiel, arrastado por entre as pedras: como serás salva, tu que não permites que o médico venha a ti? E não disse: mataste ou apedrejaste, mas matas e apedrejas, isto é, como se tivesses este costume próprio e natural de matar e apedrejar os santos. Pois fez aos apóstolos o mesmo que outrora tinha feito aos profetas.

São João Crisóstomo, in Matth. Em seguida, depois de a ter chamado e de ter dito que suas mortes eram abomináveis, disse como que se desculpando: Quantas vezes quis reunir os teus filhos? Como se dissesse: nem pelas mortes mencionadas me afastaste da tua benevolência; mas quis unir-te a mim, não uma ou duas vezes, mas muitas vezes. Mostra, porém, a grandeza do amor sob a semelhança da galinha.

Santo Agostinho, de quaest. Evang. Com efeito, este gênero de animal tem grande afeto pelos filhotes, de modo que, afetada pela fraqueza deles, ela mesma enfraquece; e, o que dificilmente encontrarás nos outros animais, protegendo os filhotes com as asas, luta contra o milhafre; assim também nossa mãe, a Sabedoria de Deus, de algum modo enfraquecida pela assunção da carne, segundo aquilo do Apóstolo: o que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens, protege a nossa fraqueza e resiste ao Diabo, para que não nos arrebate.

Orígenes, in Matth. Diz filhos de Jerusalém no sentido em que dizemos que os sucessores dos cidadãos são sempre filhos dos que os precederam. Diz, porém, quantas vezes quis, embora seja manifesto que ele ensinou os judeus uma só vez no corpo: com efeito, Cristo esteve sempre presente, tanto em Moisés como nos profetas e nos Anjos, que serviam à salvação humana em cada geração. Se alguém, porém, não tiver sido reunido por ele, será julgado como se não tivesse querido ser reunido.

Rábano Mauro. Cessem, portanto, os hereges de dar a Cristo o princípio a partir da Virgem; deixem de pregar um outro Deus da lei e dos profetas.

Santo Agostinho, in Enchir. Onde está, então, aquela onipotência com que no céu e na terra fez tudo o que quis, se quis reunir os filhos de Jerusalém e não o fez? Ou, antes, aquela não quis que seus filhos fossem reunidos por ele, mas, mesmo contra a vontade dela, ele reuniu os filhos dela que quis?

São João Crisóstomo, in Matth. Em seguida ameaça com a pena que eles sempre temeram, a saber, a destruição da cidade e do templo, dizendo: eis que a vossa casa vos ficará deserta.

São João Crisóstomo, super Matth. Com efeito, assim como o corpo, ao retirar-se a alma, primeiro esfria, depois apodrece e se dissolve, assim também o nosso templo, retirando-se o Espírito de Deus, primeiro se encherá de sedições e de indisciplina, depois chegará à ruína.

Orígenes. Também àqueles que não quiseram ser reunidos sob as suas asas Cristo sempre ameaça: eis que a vossa casa vos ficará deserta, isto é, a alma e o corpo. Mas também se alguém dentre vós não quiser ser reunido sob as asas de Cristo, desde o tempo em que fugiu da reunião, mais por obra do que pelo corpo, não verá a beleza da Palavra, até que, arrependido do mau propósito, diga: bendito o que vem em nome do Senhor. Então, com efeito, a Palavra de Deus bendita vem sobre o coração do homem, quando alguém se tiver convertido a Deus; por isso segue: pois eu vos digo: não me vereis de agora em diante até que digais: bendito o que vem em nome do Senhor.

São Jerônimo. Como se dissesse: se não fizerdes penitência e não confessardes que eu sou aquele de quem os profetas cantaram, o Filho do Pai onipotente, não vereis a minha face. Têm, pois, os judeus o tempo de penitência que lhes foi dado. Confessem como bendito aquele que vem em nome do Senhor, e contemplarão o rosto de Cristo.

São João Crisóstomo, in Matth. Ou de outro modo. Com isso significou ocultamente a segunda vinda: porque então o adorarão plenamente. Quanto ao que diz de agora em diante, refere-se ao tempo da cruz.