Catena Aurea de São Tomás de Aquino

Mateus 15 comentado pelos Padres da Igreja

116 comentários de São Jerônimo, São João Crisóstomo, Remígio de Auxerre, Glosa, Rábano Mauro, Santo Agostinho, Santo Hilário, São Beda, o Venerável, (Hieronymus) e Orígenes sobre as passagens Mt 15,1-6, Mt 15,7-11, Mt 15,12-14, Mt 15,15-20, Mt 15,21-28, Mt 15,29-31 e Mt 15,32-39, reunidos por São Tomás de Aquino no século XIII e traduzidos do latim.

Mt 15,1-6

1Alguns fariseus e escribas de Jerusalém vieram um dia ter com Jesus e lhe disseram: 2“Por que transgridem teus discípulos a tradição dos antigos? Nem mesmo lavam as mãos antes de comer”. 3Jesus respondeu-lhes: “E vós, por que violais os preceitos de Deus, por causa de vossa tradição? 4Deus disse: Honra teu pai e tua mãe; aquele que amaldiçoar seu pai ou sua mãe será castigado de morte (Ex 20,12; 21,17). 5Mas vós dizeis: Aquele que disser a seu pai ou a sua mãe: ‘aquilo com que eu vos poderia assistir já ofereci a Deus’, 6esse já não é obrigado a socorrer de outro modo a seus pais. Assim, por causa de vossa tradição, anulais a Palavra de Deus.

Rábano Mauro(séc. IX). Os homens de Genesaré, e também os menos instruídos, creem; mas os que parecem sábios vêm para a luta, conforme aquilo: Ocultaste estas coisas aos sábios e prudentes, e as revelaste aos pequeninos; donde se diz: Então aproximaram-se dele, vindos de Jerusalém, escribas e fariseus.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas(séc. IV–V). Assim, pois, o Evangelista encadeia a ordem de sua narração, dizendo: Então aproximaram-se, para que, quanto a própria passagem o indica, seja também conservada a ordem dos fatos seguintes.

São João Crisóstomo, in Matth(séc. IV). Por isso o Evangelista designa aqui o tempo, para mostrar a indizível maldade deles, que a ninguém cede: pois vieram então, quando ele operara muitíssimos sinais, quando curara os enfermos pelo toque da orla de seu manto. Quanto ao fato de se dizer que os escribas e fariseus vieram de Jerusalém, deve-se saber que estavam espalhados por todas as tribos; mas os que habitavam na metrópole eram piores que os outros, por gozarem de maior honra e possuírem maior soberba.

Remígio de Auxerre(séc. IX). Mas são repreendidos por duas causas: porque vieram de Jerusalém, isto é, haviam descido de um lugar santo; e porque eram anciãos do povo e doutores da lei; e vieram não para aprender, mas para repreender o Senhor; pois acrescenta: dizendo: Por que os teus discípulos transgridem a tradição dos anciãos?

São Jerônimo(séc. IV–V). Admirável é a estultícia dos fariseus e escribas. Acusam o Filho de Deus de não observar as tradições e preceitos dos homens.

São João Crisóstomo, in Matth. Vê, porém, como são apanhados por sua própria pergunta: pois não dizem: Por que transgridem a lei de Moisés?, mas: a tradição dos anciãos; donde é manifesto que os sacerdotes introduziam muitas coisas novas, embora Moisés tivesse dito: Não acrescentareis nada à palavra que hoje vos proponho, e nada tirareis dela; e quando convinha que fossem libertados das observâncias, então se prendiam a observâncias ainda maiores, temendo que alguém lhes tirasse o primado, querendo ser mais temíveis, como se eles próprios fossem legisladores.

Remígio de Auxerre. Quais fossem as tradições, Marcos o manifesta quando diz: Os fariseus e todos os judeus, se não lavam freqüentemente as mãos, não comem pão. Por isso também aqui repreendem os discípulos, dizendo: pois não lavam as mãos quando comem pão.

São Beda, o Venerável(séc. VII–VIII). Com efeito, tomando carnalmente as palavras dos profetas, o que fora dito: Lavai-vos, e sede puros, observavam apenas quanto a lavar o corpo; e por isso haviam estabelecido que só se devia comer com as mãos lavadas.

São Jerônimo. Ora, as mãos, isto é, as obras, devem ser lavadas não no corpo, mas na alma, para que nelas se cumpra a palavra de Deus.

São João Crisóstomo, in Matth. Os discípulos comiam sem lavar as mãos porque já desprezavam o supérfluo, atendendo somente ao necessário, e não tendo por lei nem o lavar nem o não lavar, mas fazendo uma coisa ou outra conforme acontecia. Pois, se desprezavam até o alimento necessário, como teriam zelo por isso?

Remígio de Auxerre. Ou os fariseus repreendiam os discípulos do Senhor não por aquela lavagem que convém ao costume habitual e se faz nos tempos necessários, mas por aquela supérflua, que fora inventada pela supersticiosa tradição dos anciãos.

São João Crisóstomo, in Matth. Cristo, porém, não os desculpou, mas imediatamente os acusou em retorno, mostrando que quem peca gravemente não deve preocupar-se com os pecados pequenos dos outros; donde segue: Ele, respondendo, disse-lhes: Por que também vós transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição? Não diz, porém, que fazem bem os que transgridem, para não lhes dar ocasião de calúnia; nem, contudo, censura o que foi feito pelos apóstolos, para não aprovar as tradições deles; nem acusa de novo os anciãos, para que não o rejeitassem como injuriador, mas repreende os que haviam chegado, atingindo também os anciãos que haviam estabelecido tal tradição, dizendo:

(Hieronymus). Se vós, por causa da tradição dos homens, negligenciais os preceitos de Deus, por que julgais que meus discípulos devem ser acusados, por terem em pouco as ordens dos anciãos para guardar os preceitos de Deus? Pois Deus disse: Honra teu pai e tua mãe. A honra, nas Escrituras, não se manifesta tanto em saudações e deferências quanto em esmolas e na oferta de presentes. Honra, diz o Apóstolo, as viúvas que são verdadeiramente viúvas. Aqui, com efeito, entende-se a honra como dádiva. O Senhor, pois, havia ordenado, considerando as enfermidades, as idades ou as carências dos pais, que os filhos honrassem seus pais também no fornecer-lhes o necessário à vida.

São João Crisóstomo, in Matth. Quis, porém, mostrar que os pais devem ser muito honrados, ao acrescentar o prêmio e o castigo. Mas o Senhor, aqui, omitindo o prêmio prometido aos que honram, a saber, ter longa vida sobre a terra, põe o que é mais terrível, a saber, o castigo, para espantá-los e atrair os outros; donde acrescenta: e quem maldisser o pai ou a mãe, morra de morte; nisso mostra que eles são dignos de morte. Pois, se quem desonra o pai com a palavra é punido de morte, muito mais vós, que o desonrais com a obra; e não só desonrais os pais, mas também ensinais isso aos outros. Vós, portanto, que nem sequer deveríeis viver, como acusais meus discípulos? E manifesta de que modo transgridem o mandamento de Deus quando acrescenta: Vós, porém, dizeis: Quem disser ao pai ou à mãe: Todo dom que vem de mim te será proveitoso.

São Jerônimo. Com efeito, querendo os escribas e fariseus subverter a providentíssima lei de Deus já mencionada, para introduzir a impiedade sob o nome de piedade, ensinaram aos piores filhos que, se alguém quisesse votar a Deus, que é o verdadeiro pai, aquilo que deveria ser oferecido aos pais, a oferenda do Senhor fosse preferida aos presentes dos pais.

Glosa(séc. XII). Seja este o sentido: o que eu ofereço a Deus aproveitará a mim e a ti; e por isso não deves tomar, isto é, as minhas coisas para o teu uso, mas suportar que eu ofereça a Deus.

São Jerônimo. Ou então os próprios pais, que viam as coisas consagradas a Deus, esquivando-se para não incorrer no crime de sacrilégio, eram consumidos pela penúria; e assim acontecia que a oferta dos filhos, sob pretexto do templo e de Deus, redundava em lucro dos sacerdotes.

Glosa. Seja este o sentido: quem quer que, isto é, qualquer um de vós, ó jovens, disser, isto é, puder dizer ou disser, ao pai ou à mãe: ó pai, a oferta que vem de mim, já consagrada a Deus, te aproveitará. Em tom de admiração; como se dissesse: não deves tomar, para não seres réu de sacrilégio. Ou pode-se ler por elipse deste modo: quem quer que disser ao pai, etc., subentenda-se: cumprirá o mandamento de Deus, ou cumprirá a lei, ou será digno da vida eterna.

São Jerônimo. Pode, porém, ter também brevemente este sentido. Forçais, diz, os filhos a dizerem a seus pais: todo dom que eu ia oferecer a Deus, tu o consomes em teus alimentos, e te aproveita, ó pai e mãe; como se dissesse: não

Glosa. E assim, por causa dessas persuasões de vossa avareza, aquele jovem não honrará o pai e a mãe; daí o que se segue: e não honrará seu pai e sua mãe; como se dissesse: vós aconselhastes aos filhos essas coisas péssimas; e por isso o filho depois não honrará o pai e a mãe; e assim tornastes vão o mandamento de Deus sobre o sustento dos pais, por causa de vossa tradição, isto é, servindo à vossa avareza.

Santo Agostinho, contra Advers. Leg. et Proph. Aqui Cristo mostra claramente que aquela é a lei de Deus, que o herege blasfema, e que os judeus têm suas tradições alheias aos livros proféticos e legítimos; o Apóstolo as chama de fábulas profanas e vis.

Santo Agostinho, contra Faustum. Também aqui o Senhor nos ensina muitas coisas: que ele não se afasta do Deus dos judeus, que não só não infringe os seus mandamentos, mas até repreende aqueles por quem eram infringidos, e que não ordenou estas coisas senão por meio de Moisés.

Santo Agostinho, de quaest. Evang. Ou de outro modo. Toda oferta que vem de mim te aproveitará; isto é, a oferta que fazes por mim já pertencerá a ti: com essas palavras os filhos significam que já não lhes é necessária a oferta dos pais em seu favor, porque tinham chegado a uma idade em que já podiam eles mesmos oferecer por si. Assim, os que estavam nessa idade, para poderem dizer isso a seus pais, uma vez que o tivessem dito, os fariseus negavam que fossem réus, se não prestassem honra aos pais.

Mt 15,7-11

7Hipócritas! É bem de vós que fala o profeta Isaías: 8Este povo somente me honra com os lábios; seu coração, porém, está longe de mim. 9Vão é o culto que me prestam, porque ensinam preceitos que só vêm dos homens!”. (Is 29,13). 10Depois, reuniu os assistentes e disse-lhes: 11“Ouvi e compreendei. Não é aquilo que entra pela boca que mancha o homem, mas aquilo que sai dele. Eis o que mancha o homem”.

São João Crisóstomo, in Matth. O Senhor tinha mostrado que os fariseus não eram dignos de acusar os que transgrediam os mandamentos dos anciãos, já que destruíam a lei de Deus; mostra de novo isso mesmo também pelo profeta; por isso diz: Hipócritas, bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo me honra com os lábios; mas o seu coração está longe de mim.

Remígio de Auxerre. Hipócrita se diz o simulador, porque simula uma coisa nas obras e traz outra no coração. Estes, pois, são com razão chamados hipócritas, porque sob a honra de Deus desejavam acumular para si lucros terrenos.

Rábano Mauro. Isaías previu a simulação dos judeus, que com dolo combateriam contra o Evangelho; e por isso disse, em nome do Senhor: Este povo me honra com os lábios.

Remígio de Auxerre. Com efeito, o povo dos judeus parecia aproximar-se de Deus e honrá-lo com os lábios e a boca, porque se gloriava de ter o culto de um só Deus; mas com o coração afastou-se longe de Deus, porque, vistos os sinais e milagres, não quiseram nem reconhecer a sua divindade nem recebê-lo.

Rábano Mauro. Igualmente o honravam com os lábios quando diziam: Mestre, sabemos que és verdadeiro; mas o coração deles esteve longe dele quando enviaram emboscadores para o apanhar em suas palavras.

Glosa. Ou o honravam recomendando a limpeza exterior, mas, enquanto lhes faltava a interior, que é a verdadeira, o coração deles estava longe de Deus, e tal honra lhes era inútil; daí o que se segue: É em vão que me prestam culto, ensinando doutrinas e mandamentos de homens.

Rábano Mauro. Com efeito, não terão recompensa com os verdadeiros adoradores, ensinando doutrinas e mandamentos de homens, desprezados os preceitos divinos.

São João Crisóstomo, in Matth. Aumentada, pois, a acusação contra os fariseus pelo testemunho do profeta, e não se tendo eles emendado, já não fala com eles, mas com as multidões; por isso diz: e, tendo convocado as multidões, disse-lhes: ouvi e entendei. Como ia propor às multidões uma doutrina elevada e cheia de muita sabedoria, não a enuncia simplesmente, mas torna o discurso acessível. Primeiro, mostrando honra e solicitude para com as multidões; o que o Evangelista indica ao dizer e, tendo convocado as multidões. Depois, torna também o discurso acessível pelo momento: porque, depois de ressuscitar os mortos e de obter a vitória sobre os fariseus, então propõe a lei, para que seja acolhida mais facilmente. E não apenas chamou as multidões simplesmente, mas também as tornou mais atentas com o que disse: ouvi e entendei; isto é, prestai atenção e elevai-vos com a mente para ouvir isto. Não lhes disse, porém: a observância dos alimentos nada é, nem que Moisés tivesse prescrito mal; mas, a modo de advertência e de conselho, tomando testemunho da própria natureza das coisas, diz: não é o que entra pela boca que contamina o homem; mas o que sai da boca, isso contamina o homem. Jerônimo tem: comunica

São Jerônimo. Comunicar é propriamente próprio das Escrituras e não se gasta no falar público. Ora, o povo dos judeus, gabando-se de ser parte de Deus, chama de comuns os alimentos de que todos os homens se servem; por exemplo, a carne de porco, as ostras, as lebres e animais semelhantes, que não têm a unha fendida, nem ruminam, nem, entre os peixes, têm escamas. Por isso também está escrito nos Atos dos Apóstolos: o que Deus santificou, não o chames tu de comum. Comum, portanto, o que está aberto aos demais homens e, como se não fosse da parte de Deus, é chamado impuro

Santo Agostinho, contra Faustum. Esta sentença, porém, com que o Senhor diz não é o que entra pela boca, não é contrária ao Antigo Testamento; nela o Apóstolo diz: todas as coisas são puras para os puros e: toda criatura de Deus é boa. Se podem, entendam os maniqueus que o Apóstolo disse isto a respeito das próprias naturezas; e que aqueles escritos, por certas prefigurações adequadas ao tempo, chamaram impuros alguns animais não por natureza, mas por significação. Assim, por exemplo, se se perguntar sobre o porco e o cordeiro, ambos são puros por natureza, porque, por natureza, toda criatura de Deus é boa; mas, por certa significação, o cordeiro é puro e o porco é impuro; como se dissesses tolo e sábio: cada uma dessas palavras, pela natureza da voz, das letras e das sílabas de que consta, é decerto pura; mas, pela significação, uma dessas palavras, a que se diz tolo, pode ser dita impura, não por sua natureza, mas porque significa algo impuro. E talvez o que é o porco nas figuras das coisas, isso é o tolo no gênero dos homens; e tanto aquele animal quanto essas duas sílabas, que se dizem tolo, significam uma só e mesma coisa. Aquele animal foi posto na lei como impuro porque não rumina; ora, isso não é um vício dele, mas sua natureza. Há, porém, homens que são significados por esse animal, impuros por vício próprio, não por natureza; os quais, ainda que ouçam de bom grado as palavras da sabedoria, depois não pensam mais nelas de modo algum. Pois o que ouviste de útil, trazê-lo de volta, como do estômago da memória à boca do pensamento, pela doçura de recordar, que outra coisa é senão ruminar espiritualmente? Os que não fazem isto são figurados pelo gênero daqueles animais. Estas semelhanças das coisas, em locuções ou observâncias figuradas, movem útil e suavemente as mentes racionais; mas ao primeiro povo foram impostos muitos preceitos semelhantes, não apenas para serem ouvidos, mas também para serem observados. Era, com efeito, o tempo em que convinha profetizar, não só por palavras, mas também por fatos, aquilo que seria revelado em tempo posterior; revelado isto por Cristo e em Cristo, não foram impostos aos gentios, que creem, os fardos das observâncias, mas foi recomendada a autoridade da profecia. Pergunto, porém, aos maniqueus se esta sentença do Senhor, na qual disse que o homem não é contaminado pelas coisas que entram em sua boca, é verdadeira ou falsa. Se dizem que é falsa, por que o doutor deles, Adimanto, alegando-a como proferida por Cristo, a objetou para combater o Antigo Testamento? Se, porém, é verdadeira, por que creem ser contaminados contra ela?

São Jerônimo. Mas o leitor prudente objetará e dirá: se o que entra pela boca não contamina o homem, por que não comemos as carnes sacrificadas aos ídolos? Deve-se saber, portanto, que os próprios alimentos, e toda criatura de Deus, são puros em si; mas a invocação dos ídolos e dos demônios os torna impuros; isto é, para aqueles que, com consciência do ídolo, comem a carne sacrificada ao ídolo, e a consciência deles, sendo fraca, é manchada, como diz o Apóstolo

Remígio de Auxerre. Quem, porém, tem tanta fé que entende que a criatura de Deus de modo algum pode ser contaminada, seja santificado o alimento pela palavra de Deus e pela oração, e coma o que quiser; contanto, porém, que esta liberdade não se torne tropeço para os fracos, como diz o Apóstolo

Mt 15,12-14

12Então, se aproximaram dele seus discípulos e disseram-lhe: “Sabes que os fariseus se escandalizaram com as palavras que ouviram?”. 13Jesus respondeu: “Toda planta que meu Pai celeste não plantou será arrancada pela raiz. 14Deixai-os. São cegos e guias de cegos. Ora, se um cego conduz a outro, tombarão ambos na mesma vala”.

São Jerônimo. Por uma só palavra do Senhor foi destruída toda a superstição das observâncias judaicas, que julgavam estar situada a sua religião no tomar e no abominar alimentos

São João Crisóstomo, in Matth. Tendo, pois, os fariseus ouvido o que foi dito antes, nada contradisseram, porque os convencera veementemente, não só repreendendo-os, mas também desvendando o dolo deles; mas escandalizaram-se, os fariseus, claro, e não as multidões; por isso se diz: então, aproximando-se os seus discípulos, disseram-lhe: sabes que os fariseus, ao ouvirem esta palavra, se escandalizaram?

São Jerônimo. Como escândalo é muito usado nas Escrituras eclesiásticas, deve-se dizer brevemente o que significa escândalo. Nós podemos dizer tropeço, ou queda, e choque do pé. Quando, pois, lemos: quem quer que escandalizar, entendemos isto: quem, por dito ou feito, der ocasião de queda

São João Crisóstomo, in Matth. Cristo, porém, não desfez o escândalo dos fariseus, mas antes os repreendeu; por isso segue-se: mas ele, respondendo, disse: toda planta que meu Pai celeste não plantou será arrancada. Os maniqueus dizem que isto foi dito sobre a lei; mas o que foi dito antes os refuta. Se, com efeito, tivesse dito isto sobre a lei, como teria combatido acima pela lei, dizendo: por que transgredis o mandamento de Deus por causa de vossa tradição? Como teria também trazido ao meio o profeta? Se também Deus disse: honra teu pai e tua mãe, como é que isto, que foi dito na lei, não é planta de Deus?

Santo Hilário, in Matth(séc. IV). Dizendo, pois, que toda planta que não seja do Pai, ensina que deve ser arrancada a tradição dos homens, por favor da qual transgrediram os preceitos da lei

Remígio de Auxerre. Também toda doutrina falsa e observância supersticiosa não pode permanecer com os seus autores; e, porque não é de Deus Pai, será arrancada com eles. Somente permanecerá, portanto, aquilo que é de Deus Pai

São Jerônimo. Será, pois, arrancada também aquela planta, da qual diz o Apóstolo: eu plantei, Apolo regou? Mas a questão se resolve pelo que se segue: mas Deus deu o crescimento. Ele mesmo diz também: sois lavoura de Deus, edifício de Deus; e noutro lugar: somos cooperadores de Deus. Se, porém, somos cooperadores de Deus, então, plantando Paulo e regando Apolo, Deus planta e rega com os seus operários. Abusam, porém, deste passo os que introduzem naturezas diversas, dizendo: se a planta que o Pai não plantou será arrancada, logo a que ele plantou não pode ser arrancada. Mas ouçam aquilo de Jeremias: eu vos plantei como vinha verdadeira: como vos convertestes em amargura de vide estranha? Deus plantou, de fato, e ninguém pode arrancar a sua planta. Mas, porque esta planta está na vontade do próprio arbítrio, nenhum outro poderá arrancá-la, a não ser que ela mesma tenha dado o assentimento

Glosa. Ou então esta planta significa os doutores da lei com os seus seguidores, que não tinham Cristo por fundamento. Por que, porém, devem ser arrancados, acrescenta-se: deixai-os: são cegos, e guias de cegos

Rábano Mauro. São cegos, isto é, privados da luz dos mandamentos de Deus; e são guias de cegos, porque arrastam outros para o precipício, errando e levando ao erro; por isso se acrescenta: se um cego guia outro cego, ambos caem na cova

São Jerônimo. Isto é também o que o Apóstolo havia ordenado: ao homem herege, depois da primeira e da segunda correção, evita-o, sabendo que um tal está pervertido. Neste sentido o Salvador mandou que se deixassem os péssimos doutores ao seu próprio arbítrio, sabendo que dificilmente podem ser levados à verdade

Mt 15,15-20

15Tomando então a palavra, Pedro disse: “Explica-nos esta parábola”. 16Jesus respondeu: “Sois também vós de tão pouca compreensão? 17Não compreendeis que tudo o que entra pela boca vai ao ventre e depois é lançado num lugar secreto? 18“Ao contrário, aquilo que sai da boca provém do coração, e é isso o que mancha o homem. 19Porque é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias. 20Eis o que mancha o homem. Comer, porém, sem ter lavado as mãos, isso não mancha o homem”.

Remígio de Auxerre. O Senhor costumava falar em parábolas; e por isso Pedro, tendo ouvido: O que entra pela boca não contamina o homem, julgou que ele havia falado em parábola; e por isso perguntou, como se acrescenta: Pedro, respondendo, disse-lhe: Explica-nos essa parábola. E porque dissera isso em nome dos demais, foi repreendido pelo Senhor juntamente com os outros: daí o que se segue: Ele disse: Também vós ainda estais sem entendimento?

São Jerônimo. É repreendido pelo Senhor porque julga dito em parábola o que foi falado com clareza. Disso notamos que é defeituoso o ouvinte que quer entender obscuramente o que é claro, ou o que foi dito claramente.

São João Crisóstomo, in Matth. Ou então o Senhor o repreende porque o que perguntara não procedia de incerteza, mas do escândalo de que se escandalizara. Com efeito, as multidões não haviam entendido o que fora dito; os discípulos, porém, haviam-se escandalizado; por isso, no princípio queriam perguntar como que em favor dos fariseus; mas, porque o tinham ouvido dizer coisas grandes: Toda planta etc., foram contidos. Mas Pedro, que era fervoroso em toda parte, nem assim se calou; o Senhor o repreende e acrescentou à repreensão uma razão, dizendo: Não compreendeis que tudo o que entra pela boca vai para o ventre e é lançado na latrina?

São Jerônimo. Dessa sentença alguns fazem calúnia, dizendo que o Senhor, ignorante da discussão sobre a natureza, pensa que todos os alimentos vão para o ventre e são digeridos na latrina, quando os alimentos, logo que ingeridos, se espalham pelos membros, veias, medulas e nervos. Mas deve-se saber que o humor tênue e o alimento líquido, depois de cozidos e digeridos nas veias e nos membros, escoam-se para as partes inferiores por condutos ocultos do corpo, que os gregos chamam poros, e vão para a latrina.

Santo Agostinho, de vera Relig. Os alimentos da carne, corrompidos, isto é, perdendo a sua forma, passam para a constituição dos membros e restauram o que se corrompeu, passando a outra forma por conveniência, e por um movimento vital são de certo modo discernidos, de modo que deles se assumam, para a estrutura deste belo corpo visível, as partes aptas, e as não aptas sejam lançadas fora por vias adequadas: dessas, uma parte, a mais imunda, é devolvida à terra para assumir outras formas; outra exala por todo o corpo; outra alcança os nervos ocultos de todo o animal e é iniciada em prole.

São João Crisóstomo, in Matth. Quando o Senhor diz isto, ainda responde aos discípulos segundo a fraqueza judaica: diz, com efeito, que o alimento não permanece, mas sai; embora, ainda que permanecesse, não tornaria impuro. Mas eles ainda não podiam ouvir isso. Por isso também Moisés diz que são impuros por tanto tempo quanto o alimento permanece dentro: pois ordena que à tarde se lavem e sejam puros, como que medindo o tempo da digestão e da evacuação.

Santo Agostinho, de Trin. O Senhor compreendeu duas bocas do homem: uma do corpo, outra do coração: pois, quando diz: Tudo o que entra pela boca não contamina o homem, mostrou muito claramente a boca do corpo; mas no que se segue mostra a boca do coração, dizendo: As coisas que procedem da boca saem do coração, e são elas que contaminam o homem.

São João Crisóstomo, in Matth. Com efeito, as coisas do coração permanecem dentro do homem e, ao saírem, o contaminam, não apenas enquanto permanecem, mas sobretudo quando saem; por isso acrescentou: Do coração, com efeito, saem os maus pensamentos: e os põe em primeiro lugar porque este era o vício dos judeus, que armavam ciladas contra ele.

São Jerônimo. O princípio principal da alma não está, segundo Platão, no cérebro, mas, segundo Cristo, no coração; e, por esta sentença, devem ser refutados os que julgam que os pensamentos são introduzidos pelo Diabo e não nascem da própria vontade. O Diabo pode ser auxiliar e instigador dos maus pensamentos; autor, não pode ser. Se, porém, estando sempre à espreita, inflamar com seus combustíveis a leve centelha de nossos pensamentos, não devemos supor que ele esquadrinhe todas as coisas ocultas do coração, mas que avalia pelo porte e pelos gestos do corpo o que revolvemos no íntimo. Por exemplo, se nos vir olhar com frequência para uma bela mulher, entende que o coração foi ferido pelos olhos.

Glosa. Dos maus pensamentos provêm também as más obras e as más palavras, que a lei proíbe; por isso acrescenta: Homicídios, que são proibidos por aquele preceito da lei: Não matarás; adultérios, fornicações, que se entende serem proibidos por aquele preceito: Não adulterarás; furtos, que são proibidos por aquele preceito: Não furtarás; falsos testemunhos, contra aquele preceito: Não dirás falso testemunho contra o teu próximo; blasfêmias, contra aquele preceito: Não tomarás o nome de Deus em vão.

Remígio de Auxerre. Tendo nomeado os vícios que a lei divina proíbe, o Senhor acrescenta com acerto: Estas são as coisas que contaminam o homem; isto é, tornam-no imundo e impuro.

Glosa. E porque essas palavras do Senhor tinham tomado ocasião da malícia dos fariseus, que preferiam suas tradições aos preceitos divinos, conclui em seguida a inconveniência da tradição mencionada, dizendo: Comer sem lavar as mãos não contamina o homem.

São João Crisóstomo, in Matth. Não disse: Comer os alimentos proibidos pela lei não contamina o homem, para que não pudessem contradizê-lo, mas conclui sobre aquilo de que se discutia.

Mt 15,21-28

21Jesus partiu dali e retirou-se para os arredores de Tiro e Sidônia. 22E eis que uma cananeia, originária daquela terra, gritava: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim! Minha filha está cruelmente atormentada por um demônio”. 23Jesus não lhe respondeu palavra alguma. Seus discípulos vieram a ele e lhe disseram com insistência: “Despede-a, ela nos persegue com seus gritos”. 24Jesus respondeu-lhes: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”. 25Mas aquela mulher veio prostrar-se diante dele, dizendo: “Senhor, ajuda-me!”. 26Jesus respondeu-lhe: “Não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos”.* – 27“Certamente, Senhor, replicou-lhe ela; mas os cachorrinhos ao menos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos...”. 28Disse-lhe, então, Jesus: “Ó mulher, grande é tua fé! Seja-te feito como desejas”. E na mesma hora sua filha ficou curada.

São Jerônimo. Abandonados os escribas, os fariseus e os caluniadores, passa às regiões de Tiro e de Sidônia, para curar os tírios e os sidônios; e por isso se diz: E, partindo dali, Jesus retirou-se para as regiões de Tiro e de Sidônia.

Remígio de Auxerre. Tiro e Sidônia foram cidades dos gentios: pois Tiro fora a metrópole dos cananeus, e Sidônia, o limite dos cananeus voltado para o Norte.

São João Crisóstomo, in Matth. Deve-se, porém, considerar que, quando afastou os judeus da observância dos alimentos, então abriu também a porta aos gentios, assim como também Pedro foi antes mandado, em visão, a abolir esta lei, e depois é enviado a Cornélio. Se alguém perguntar, porém, como é que ele percorre este caminho, tendo dito aos seus discípulos: Não vades pelo caminho dos gentios, diremos primeiro que não estava sujeito ao preceito que havia dado aos discípulos. Em segundo lugar, que tampouco foi como quem vai pregar; por isso Marcos também diz que ocultou-se a si mesmo.

Remígio de Auxerre. Foi, porém, para curar os de Tiro e de Sidônia; ou para livrar do demônio a filha desta mulher, a fim de que, por meio da fé dela, condenasse a maldade dos escribas e fariseus; e acerca desta mulher acrescenta-se: E eis que uma mulher cananeia, tendo saído daquelas regiões.

São João Crisóstomo, in Matth. O Evangelista diz, porém, que ela era cananeia, para mostrar o poder da presença de Cristo. Com efeito, os cananeus, que haviam sido expulsos para que não pervertessem os judeus, mostraram-se mais prudentes que os judeus, ao saírem de suas fronteiras e se aproximarem de Cristo. Quando, porém, esta mulher se aproximou, nada pediu senão misericórdia; por isso segue-se: Clamou, dizendo-lhe: Tem piedade de mim, Senhor, filho de Davi.

Glosa. Nota-se aqui a grande fé da cananeia: crê em Deus, quando o chama Senhor; e no homem, quando diz filho de Davi. Nada pede por mérito, mas implora somente a misericórdia de Deus, dizendo: Tem piedade. E não diz: tem piedade da filha, mas tem piedade de mim, porque a dor da filha é dor da mãe; e, para movê-lo mais à compaixão, narra-lhe toda a dor; por isso segue-se: Minha filha é cruelmente atormentada por um demônio; nisto descobre ao médico as feridas, tanto a gravidade quanto a qualidade da doença: a gravidade, quando diz é cruelmente atormentada; a qualidade, quando diz por um demônio.

Orígenes(séc. III). Vê, porém, a prudência da mulher: não foi a homens sedutores; não buscou vãs ligaduras; mas, abandonando todos os cultos do Diabo, veio ao Senhor. Não pediu a Tiago, não rogou a João, não se aproximou de Pedro; mas tomou sobre si o patrocínio da penitência e correu sozinha ao Senhor. Mas vê o caso inaudito. Pede, e seu lamento se transforma em clamor; e Deus, amigo dos homens, não responde palavra; por isso segue-se: Ele não lhe respondeu palavra.

São Jerônimo. Não o fez, porém, por soberba farisaica, nem por desdém dos escribas, mas para não parecer contrário à sua própria sentença, pela qual havia ordenado: Não vades pelo caminho dos gentios; pois não queria dar ocasião aos que o caluniavam, e reservava a salvação perfeita dos gentios para o tempo da paixão e da ressurreição.

Glosa. Também ao adiar e ao não responder, mostra-nos a paciência e a perseverança da mulher. Por isso também não respondeu, para que os discípulos intercedessem por ela, mostrando com isto que as preces dos santos são necessárias para obter algo; por isso segue-se: E, aproximando-se os seus discípulos, rogavam-lhe, dizendo: Despede-a, porque vem gritando atrás de nós.

São Jerônimo. Os discípulos, ainda naquele tempo ignorando os mistérios do Senhor, ou movidos de misericórdia, rogavam pela mulher cananeia, ou desejando livrar-se da importunação dela.

Santo Agostinho, de Cons. Evan. Apresenta-se, porém, uma certa questão de aparente contradição: Marcos diz que o Senhor estava em casa quando a mulher veio a ele, rogando por sua filha, ao passo que Mateus poderia ser entendido como tendo calado a respeito da casa, mas narrado o mesmo fato. Mas, como diz que os discípulos assim sugeriram ao Senhor: Despede-a, porque vem gritando atrás de nós, parece não significar outra coisa senão que esta mulher lançou sua voz suplicante atrás do Senhor que caminhava. Deve-se, pois, entender que Marcos disse que ela entrou onde estava Jesus, porque havia dito antes que ele estava em casa. Mas, porque Mateus diz: Não lhe respondeu palavra, deu a conhecer que ambos se calaram, e que, nesse silêncio, Jesus saiu daquela casa; e assim se encadeiam as demais coisas, que já em nada discordam.

São João Crisóstomo, in Matth. Julgo, porém, que também os discípulos se entristeceram com a calamidade da mulher, mas, no entanto, não ousaram dizer: concede-lhe esta graça, mas: despede-a; assim como nós também, quando queremos persuadir alguém, muitas vezes dizemos o contrário. Ele, porém, respondendo, disse: Não fui enviado senão às ovelhas que se perderam da casa de Israel.

São Jerônimo. Não diz isto como se não tivesse sido enviado aos gentios, mas porque foi enviado primeiro a Israel, para que, não recebendo eles o Evangelho, fosse justa a passagem aos gentios.

Remígio de Auxerre. Com efeito, foi enviado especialmente para a salvação dos judeus, a fim de ensiná-los também pela presença corporal.

São Jerônimo. Disse, porém, de modo significativo, às ovelhas perdidas da casa de Israel, para que também a partir disto entendamos agora a ovelha desgarrada da outra parábola.

São João Crisóstomo, in Matth. Mas, porque a mulher viu que os apóstolos nada podiam, tornou-se despudorada com um bom despudor; pois antes nem ousava vir à vista dele; por isso se disse: vem gritando atrás de nós. Quando, porém, parecia que se retiraria angustiada, então se aproximou mais; por isso segue-se: Mas ela veio e o adorou.

São Jerônimo. Nota que esta cananeia chama-o primeiro, com perseverança, filho de Davi, depois Senhor, e por fim adorou-o como Deus.

São João Crisóstomo, in Matth. E por isso não disse: pede ou suplica a Deus; mas: Senhor, ajuda-me. Quanto mais, pois, a mulher multiplicava a súplica, tanto mais ele multiplicava a recusa: e ainda não chama os judeus de ovelhas, mas de filhos, e a ela de cão; daí segue-se: Respondendo, ele disse: Não é bom tomar o pão dos filhos e dá-lo aos cães.

Glosa. Os filhos são os judeus, gerados e nutridos sob o culto do único Deus pela lei; o pão é o Evangelho, os milagres e as outras coisas que dizem respeito à nossa salvação. Não é, pois, conveniente que lhes sejam tiradas e dadas às nações, que são os cães, enquanto os judeus não as repudiarem.

Rábano Mauro. Os gentios, por sua vez, são chamados cães por causa da idolatria, pois, dedicados ao consumo de sangue e de cadáveres de mortos, voltam-se para a raiva.

São João Crisóstomo, in Matth. Vê, porém, a prudência da mulher: como não ousou contradizer, nem se entristeceu com os louvores dos outros, nem se magoou com a própria injúria; daí segue-se: Mas ela disse: Sim, Senhor; pois também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus senhores. Ele disse: Não é bom; ela, porém, disse: Sim, Senhor; ele chama os judeus de filhos, ela, de senhores; ele a chamou de cão, ela acrescentou também a obra do cão; como se dissesse: se sou cão, não sou estranha; dizes que sou cão; então alimenta-me como a um cão; não posso abandonar a mesa do meu senhor.

São Jerônimo. Proclamam-se, porém, a admirável fé, paciência e humildade desta mulher: a fé, pela qual acreditava que sua filha podia ser curada; a paciência, pela qual, tantas vezes desprezada, persevera nas súplicas; a humildade, porque se compara não aos cães, mas aos cachorrinhos. Sabe, diz ela, que não mereço o pão dos filhos, nem posso receber alimentos inteiros, nem posso sentar-me à mesa com o pai; mas contento-me com as sobras dos cachorrinhos, para chegar, pela humildade das migalhas, à grandeza do pão inteiro.

São João Crisóstomo, in Matth. Por isso, porém, Cristo demorava: previa, com efeito, que ela diria isto, e não queria que a virtude tão grande da mulher ficasse oculta; daí segue-se: Então, respondendo, Jesus lhe disse: Ó mulher, grande é a tua fé: seja-te feito como queres; como se dissesse: a tua fé pode ouvir coisas maiores que estas; mas por ora seja-te feito como queres. Vê, porém, como também esta mulher contribuiu não pouco para a cura da filha: por isso, com efeito, Cristo não disse: Seja sã a tua filha; mas: Grande é a tua fé: seja-te feito como queres; para que aprendas que ele falava com simplicidade, e que as palavras dela eram não de adulação, mas de muita fé. Esta voz de Cristo é semelhante àquela com que disse: Faça-se o firmamento; e assim foi feito; daí segue-se: E sua filha ficou sã desde aquela hora. Considera, porém, como ela obtém o que os apóstolos não obtinham: tão grande coisa é a insistência da oração; com efeito, quer ser mais rogado por nós por causa de nossas faltas do que por outros em nosso favor.

Remígio de Auxerre. Por estas palavras também nos é dado o exemplo de catequizar e batizar crianças: pois esta mulher não diz: salva a minha filha, ou ajuda-a; mas: Tem piedade de mim e ajuda-me. Daí, com efeito, desceu à Igreja o costume de os fiéis prometerem a fé a Deus por seus pequeninos, quando estes não têm idade e razão tais que possam por si mesmos prometer a fé a Deus; a fim de que, como pela fé desta mulher sua filha foi curada, assim também pela fé de homens católicos os pecados sejam remitidos aos pequeninos. Alegoricamente, porém, esta mulher significa a santa Igreja congregada das nações. Pois, pelo fato de que o Senhor, deixando os escribas e fariseus, veio às regiões de Tiro e Sidônia, prefigurava-se que ele deixaria os judeus e passaria às nações. Esta mulher saiu de suas fronteiras, porque a santa Igreja se afastou dos erros e vícios antigos.

São Jerônimo. Considera que a filha da cananeia são as almas dos crentes, que eram gravemente atormentadas pelo demônio, ignorando o criador e adorando a pedra.

Remígio de Auxerre. O Senhor chama de filhos os patriarcas e profetas daquele tempo. Pela mesa designa-se a sagrada Escritura; pelas migalhas, os preceitos mínimos ou os mistérios internos, de que se alimenta a santa Igreja; pelas côdeas, os preceitos carnais, que os judeus observam. Diz-se que as migalhas são comidas debaixo da mesa, porque a Igreja se submete humildemente para cumprir os preceitos divinos.

Rábano Mauro. Os cachorrinhos comem do pão das crianças não as côdeas, mas as migalhas: porque os convertidos à fé, que eram desprezados entre as nações, procuram nas Escrituras não a superfície da letra, mas o sentido espiritual, pelo qual possam progredir nas boas obras.

São Jerônimo. Admirável, porém, é a inversão das coisas. Israel outrora filho, nós cães: conforme a diversidade da fé, a ordem dos nomes se troca: deles se diz depois: Cercaram-me muitos cães; nós ouvimos, com a mulher: A tua fé te salvou.

Rábano Mauro. Com razão se diz que ela é grande: porque as nações, nem instruídas pela lei, nem ensinadas pelas vozes dos profetas, à pregação dos apóstolos logo obedeceram ao ouvir do ouvido; e por isso mereceram alcançar a salvação. Mas se o Senhor, às primeiras lágrimas da Igreja que suplica, adia dar a salvação à alma, não se deve desesperar nem deixar de pedir; antes, deve-se insistir nas preces.

Santo Agostinho, de quaest. Evang. O fato de ele curar o servo do centurião e a filha da mulher cananeia sem vir às casas deles significa que as nações, às quais não veio, serão salvas por sua palavra. O fato de os filhos serem curados a pedido delas deve ser entendido da pessoa da Igreja, que é para si mesma mãe e filhos: pois todos juntos, dos quais se compõe a Igreja, são chamados mãe; cada um deles, porém, é chamado filho.

Santo Hilário, in Matth. Ou esta mulher apresenta a figura dos prosélitos: sai de suas fronteiras e, vinda das nações, passando assim ao nome de outro povo, ora pela filha, isto é, pela multidão das nações, ocupada pelo domínio dos espíritos imundos; e porque conheceu o Senhor pela lei, chama-o filho de Davi.

Rábano Mauro. Igualmente, se alguém tem a consciência manchada pela imundície de algum vício, tem uma filha gravemente atormentada pelo demônio. Igualmente, se alguém macula com a peste dos pecados os bens que praticou, tem uma filha agitada pelos furores do espírito imundo; e por isso é necessário que recorra às preces e às lágrimas, e procure as intercessões e os auxílios dos santos.

Mt 15,29-31

29Jesus saiu daquela região e voltou para perto do mar da Galileia. Subiu a uma colina e sentou-se ali. 30Então numerosa multidão aproximou-se dele, trazendo consigo mudos, cegos, coxos, aleijados e muitos outros enfermos. Puseram-nos aos seus pés e ele os curou, 31de sorte que o povo estava admirado ante o espetáculo dos mudos que falavam, daqueles aleijados curados, de coxos que andavam, dos cegos que viam; e glorificavam ao Deus de Israel.

São Jerônimo. Curada a filha da cananeia, o Senhor volta à Judeia; donde se diz: E tendo Jesus partido dali, veio para junto do mar da Galileia.

Remígio de Auxerre. Este mar é chamado por diversos nomes: chama-se, com efeito, mar da Galileia por causa da Galileia que lhe é adjacente; mar de Tiberíades por causa da cidade de Tiberíades. Segue-se: E subindo ao monte, sentava-se ali.

São João Crisóstomo, in Matth. Deve-se considerar, porém, que às vezes o Senhor percorre os lugares para curar os enfermos; outras vezes, porém, fica sentado esperando-os; e por isso se acrescenta aqui convenientemente: E aproximaram-se dele grandes multidões, trazendo consigo mudos, coxos, cegos, aleijados e muitos outros.

São Jerônimo. No lugar em que o intérprete latino traduziu debiles, está escrito no grego cyllous, que não é nome genérico de debilitados, mas de uma só enfermidade; de modo que, assim como se chama coxo quem manca de um só pé, assim se chame cyllos quem tem uma só mão debilitada.

São João Crisóstomo, in Matth. Estes, porém, demonstravam sua fé em duas coisas: ao subirem o monte, e ao julgarem que não precisavam de nenhuma outra coisa senão serem lançados aos pés de Jesus; e ainda não tocam a orla do vestido, mas ascendem a uma fé mais alta; donde se diz: E lançaram-nos a seus pés. E à filha da mulher, com efeito, curou com grande demora, para mostrar a virtude dela; a estes, porém, não porque fossem melhores, mas para tapar a boca dos judeus infiéis, concede logo a cura; donde se segue: E curou a todos. A multidão dos que eram curados e a facilidade da cura os lançavam em estupor; donde se segue: De modo que as multidões se admiravam, vendo os mudos falarem.

São Jerônimo. Calou-se sobre os debilitados, porque não tinha uma só palavra para dizer o contrário.

Rábano Mauro. Misticamente, porém, depois de a filha da cananeia ter prefigurado a salvação das nações, vem à Judeia: porque, quando a plenitude das nações tiver entrado, então todo o Israel será salvo.

Glosa. O mar, porém, junto do qual veio Jesus, significa as ondas turbulentas deste século; o que é da Galileia, quando os homens passam dos vícios às virtudes.

São Jerônimo. Subiu, porém, ao monte, como a ave que incita os tenros filhotes a voar.

Rábano Mauro. Isto é, para elevar seus ouvintes a meditarem as coisas superiores e celestes. E ali se sentava, para mostrar que só nas coisas celestes se deve buscar o repouso. Estando ele sentado no monte, isto é, na cidadela dos céus, aproximam-se as multidões dos fiéis, achegando-se a ele com mente devota, levando consigo mudos e cegos etc., e os lançam aos pés de Jesus: porque, confessando os pecados, submetem-se somente a ele para serem curados; e ele os cura de tal modo que as multidões se admiram e glorificam o Deus de Israel; porque os fiéis, quando virem os que haviam adoecido espiritualmente enriquecidos com diversas obras de virtude, cantam louvor a Deus.

Glosa. Mudos são, porém, os que não louvam a Deus; cegos, os que não entendem o caminho da vida; surdos, os que não obedecem; coxos, os que não andam retamente pelos desvios da boa obra; debilitados são os que são fracos nas boas obras.

Mt 15,32-39

32Jesus, porém, reuniu os seus discípulos e disse-lhes: “Tenho piedade desta multidão: eis que há três dias está perto de mim e não tem nada para comer. Não quero despedi-la em jejum, para que não desfaleça no caminho”. 33Disseram-lhe os discípulos: “De que maneira procuraremos neste lugar deserto pão bastante para saciar tal multidão?”. 34Pergunta-lhes Jesus: “Quantos pães tendes?”. “Sete, e alguns peixinhos” – responderam eles. 35Mandou, então, a multidão assentar-se no chão, 36tomou os sete pães e os peixes e abençoou-os. Depois os partiu e os deu aos discípulos, que os distribuíram à multidão. 37Todos comeram e ficaram saciados, e, dos pedaços que restaram, encheram sete cestos. 38Ora, os que se alimentaram foram quatro mil homens, sem contar as mulheres e as crianças. 39Jesus então despediu o povo, subiu para a barca e retornou à região de Magadã.

São Jerônimo. Cristo havia tirado primeiro as debilidades dos enfermos; depois, porém, oferece alimentos aos curados. Convoca também seus discípulos e diz o que vai fazer; donde se diz: Jesus, porém, tendo convocado seus discípulos, disse: Tenho compaixão da multidão. Faz isto para dar aos mestres o exemplo de comunicarem seus conselhos aos menores e aos discípulos; ou para que, pela conversa, compreendam a grandeza do sinal.

São João Crisóstomo, in Matth. As multidões, com efeito, tendo vindo para a cura, não ousavam pedir pães; donde ele mesmo, amigo dos homens e cuidando de todos, dá mesmo aos que não pedem; por isso diz: Tenho compaixão da multidão. Para que não se dissesse que, ao virem, haviam trazido provisão de viagem, diz: Já há três dias que perseveram comigo, e não têm o que comer. Pois, embora tivessem alimentos quando vieram, já estavam consumidos; e por isso não fez isto no primeiro ou no segundo dia, mas no terceiro, quando já tudo estava consumido: para que, postos antes eles mesmos na necessidade, recebessem com maior desejo o que se fazia. Mostra também que tinham vindo de longe, e que nada lhes sobrara, naquilo que diz: E não quero despedi-los em jejum, para que não desfaleçam no caminho. Embora não queira despedi-los em jejum, não faz, contudo, o sinal imediatamente, para tornar os discípulos mais atentos por esta pergunta e resposta, e para que mostrem sua fé, dizendo: Faze pães. E embora Cristo tivesse feito muitas coisas para que se recordassem do milagre feito antes, porque os fez ministros e eles repartiram os cestos, ainda assim estavam disposto de modo mais imperfeito: o que se evidencia pelo que se segue: E os discípulos lhe dizem: Donde, pois, teremos nós no deserto tantos pães para saciar tão grande multidão? Eles, com efeito, disseram isto com pensamento fraco; fazendo, contudo, por isso o milagre futuro insuspeitável: para que ninguém suspeitasse que os alimentos foram recebidos de algum castelo vizinho, por isso este milagre se faz na solidão, muito distante dos castelos. O próprio Cristo, para elevar a mente dos discípulos, os interroga; para que, pelo modo da pergunta, os faça lembrar das coisas que antes foram feitas; donde se segue: E Jesus lhes diz: Quantos pães tendes? E eles disseram: Sete, e uns poucos peixinhos. Não acrescentam, porém: Mas que é isto para tantos? Como haviam dito antes; pois já tinham progredido pouco a pouco, embora não apreendessem tudo. Admira, porém, nos apóstolos o amor da verdade, como eles, escrevendo, não ocultam nem mesmo seus grandes defeitos; pois não é pequena a acusação esquecer logo, tão pouco depois de feito tal sinal. Admira também outra sabedoria deles, como superavam o ventre, não se preocupando muito com a mesa; estando, com efeito, no ermo e demorando-se ali por três dias, tinham ali somente sete pães. Fez as outras coisas de modo semelhante às anteriores: pois os fez reclinar-se na terra, e os pães crescerem nas mãos dos discípulos; donde se segue: E mandou à multidão que se sentasse sobre a terra.

São Jerônimo. Já falamos disto acima, e repetir o mesmo é próprio de ociosos: detenhamo-nos apenas no que difere.

São João Crisóstomo, in Matth. O fim de um e outro milagre, porém, não é semelhante: segue-se, com efeito: E do que sobrou dos pedaços, levaram sete cestos cheios. Eram quatro mil homens os que haviam comido, afora as crianças e as mulheres. Por que, então, foram menores as sobras neste milagre do que no primeiro, ainda que não tenham sido tantos os que comeram? Ou é porque os cestos grandes eram maiores que os cestinhos; ou para que, pela diferença, se recordassem tanto daquele milagre como deste: e por isso então fez os cestinhos das sobras iguais em número aos discípulos, agora, porém, os cestos grandes iguais aos pães.

Remígio de Auxerre. Nesta leitura evangélica deve-se considerar em Cristo a operação da divindade e da humanidade: pois, por se compadecer das multidões, mostra ter o afeto da fragilidade humana; mas, por ter multiplicado os pães e alimentado as multidões, mostra-se a operação da divindade. Destrói-se, portanto, aqui o erro de Êutiques, que dizia haver em Cristo uma só natureza.

Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Não é sem propósito advertir, neste milagre, que, se algum dos Evangelistas o tivesse narrado sem ter falado dos cinco pães, seria tido por contrário aos demais. Mas, porque aqueles que narraram o milagre dos sete pães não se calaram sobre o dos cinco, ninguém se perturba, e os homens compreendem que ambos aconteceram. Dissemos isto para que, se em algum lugar se encontrar um fato semelhante realizado pelo Senhor, em que um Evangelista pareça de tal modo contradizer outro que não se possa de modo algum resolver, não se entenda outra coisa senão que ambos os fatos aconteceram, e que um foi lembrado por um, outro por outro.

Glosa. Deve-se notar, porém, que o Senhor primeiro tira as enfermidades e depois alimenta: porque primeiro devem ser afastados os pecados, e depois a alma deve ser nutrida com as palavras do Senhor.

Santo Hilário, in Matth. Assim como aquela multidão que primeiro alimentou corresponde ao povo judeu dos que creem, assim esta é comparada ao povo das nações. E o fato de se reunirem quatro mil homens significa a multidão inumerável vinda das quatro partes do mundo.

São Jerônimo. Estes também não são cinco mil, mas quatro mil, número que sempre é posto em louvor; e a pedra quadrangular não oscila, não é instável; e por esta causa os Evangelhos também foram consagrados neste número. No sinal anterior, porque eram próximos e vizinhos dos cinco sentidos, não é o próprio Senhor quem deles se lembra, mas os discípulos; aqui, porém, o próprio Senhor diz que se compadece deles porque já há três dias perseveram com ele: porque criam, a saber, no Pai, no Filho e no Espírito Santo.

Santo Hilário. Ou porque passam com o Senhor todo o tempo da paixão do Senhor; ou porque os que vão chegar ao Batismo confessam crer em sua paixão e ressurreição; ou porque, durante todo o tempo da paixão do Senhor, estão unidos ao Senhor pelos jejuns, em certa comunhão de compaixão.

Rábano Mauro. Ou se diz isto porque em todo o século há um tempo triplo em que a graça é dada: o primeiro antes da lei, o segundo sob a lei, o terceiro sob a graça; o quarto está no céu, para o qual quem tende é restaurado no caminho.

Remígio de Auxerre. Ou porque, corrigindo pela penitência os pecados cometidos, convertem-se ao Senhor pelo pensamento, pela palavra e pela obra. O Senhor não quis despedir em jejum estas multidões, para que não desfalecessem no caminho: porque os pecadores convertidos pela penitência perecem no curso do século que passa, se forem despedidos sem o alimento da sagrada doutrina.

Glosa. Os sete pães são a Escritura do Novo Testamento, na qual a graça do Espírito Santo é revelada e dada; e não são de cevada, como antes, porque aqui, como na lei, o alimento vital não está coberto pelas figuras como por uma palha tenacíssima; aqui não são dois peixes, como na lei eram ungidos dois, a saber, o rei e o sacerdote; mas são poucos, isto é, os santos do Novo Testamento, que, arrancados das ondas do século, tanto suportam o mar turbulento quanto nos restauram com seu exemplo, para que não desfaleçamos no caminho.

Santo Hilário. As multidões, porém, se reclinam na terra: pois antes não tinham sido apoiadas por nenhuma obra da lei, mas estavam apegadas aos seus pecados e aos seus corpos.

Glosa. Ou: ali sobre o feno, para que os desejos da carne sejam reprimidos; aqui sobre a terra, onde se manda deixar até o próprio mundo. Ou: o monte em que o Senhor restaura é a altura de Cristo; ali, portanto, o feno sobre a terra, porque ali a elevação de Cristo, por causa dos carnais, é encoberta pela esperança e pelo desejo carnal; aqui, removida toda cobiça carnal, contém os convivas do Novo Testamento permanecendo e firmados na esperança; ali cinco mil, que sujeita os carnais aos cinco sentidos; aqui quatro, por causa das quatro virtudes com que são espiritualmente fortificados: a temperança, a prudência, a fortaleza e a justiça; das quais a primeira é o conhecimento das coisas a desejar e a evitar; a segunda, o freio da cobiça com relação às coisas que deleitam temporalmente; a terceira, a firmeza contra as molestias do século; a quarta, que se difunde por todas, o amor de Deus e do próximo; e ali e aqui as mulheres e as crianças são excetuadas: porque, no Antigo e no Novo Testamento, não são admitidos ao Senhor os que não perseveram em ir ao encontro do homem perfeito, ou por fraqueza de forças, ou por leviandade de espírito. Ambas as refeições foram celebradas no monte, porque a Escritura de ambos os Testamentos ordena tanto a altura dos preceitos celestes quanto o prêmio. Ambas pregam a altura de Cristo. Os apóstolos suportam e cumprem os mistérios mais altos, que a multidão comum não alcança, isto é, os corações dos perfeitos, iluminados para entender pela graça do Espírito de sete formas. As cestas costumam ser tecidas de junco e folhas de palmeira; e significam os santos, que colocam a raiz do coração na própria fonte da vida, para que não sequem como o junco na água, e retêm no coração a palma da retribuição eterna.