Mc 13,32-37
32A respeito, porém, daquele dia ou daquela hora, ninguém o sabe, nem os anjos do céu nem mesmo o Filho, mas somente o Pai. 33Ficai de sobreaviso, vigiai; porque não sabeis quando será o tempo. 34Será como um homem que, partindo em viagem, deixa a sua casa e delega sua autoridade aos seus servos, indicando o trabalho de cada um, e manda ao porteiro que vigie. 35Vigiai, pois, visto que não sabeis quando o senhor da casa voltará, se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã, 36para que, vindo de repente, não vos encontre dormindo. 37O que vos digo, digo a todos: vigiai!” (= Mt 26,1-5 = Lc 22,1s)
Teofilacto(séc. XI). Querendo o Senhor impedir os discípulos de o interrogarem sobre aquele dia e hora, disse: Quanto àquele dia e hora, ninguém o sabe, nem os Anjos no céu, nem o Filho, mas somente o Pai. Pois, se tivesse dito: Eu sei, mas não quero revelar-vos, tê-los-ia contristado não pouco. Agora, porém, agiu com mais sabedoria e os excluiu dessa interrogação, para que não lhe fossem importunos, ao dizer: nem os Anjos o sabem, nem eu
Santo Hilário, de Trin(séc. IV). A ignorância do dia e da hora é atribuída ao Deus unigênito, como se o Deus nascido de Deus não a tivesse na perfeição da natureza em que é Deus. Mas, primeiro, deve-se julgar pelo senso comum se é crível que ignore algo de tudo aquele que é autor de tudo o que é e será. Como, com efeito, estaria fora do conhecimento de sua natureza aquilo em que e pelo qual se contém o que deve ser feito? Acaso ele ignora este dia, que é o dia de sua vinda? Os homens preveem, quanto está neles, o que determinam fazer, e o conhecimento de agir segue a vontade de agir. Como, pois, se crê que o Senhor da glória, ignorando o dia de sua vinda, é de natureza imperfeita, que tem a necessidade de vir e não adquiriu a ciência de sua vinda? Mais ainda: quanta ocasião de impiedade se duplica, se se atribuir ao Deus Pai um afeto de indignidade, se se lhe tirar o conhecimento da bem-aventurança, a ele que introduziu a presciência da morte! Mas, se nele estão todos os tesouros da ciência, ele não ignora este dia. Convém, porém, lembrarmos que nele os tesouros da ciência estão ocultos. Sua ignorância, portanto, é segundo o modo como os tesouros da ciência nele se escondem. Em tudo o que Deus diz ignorar, não é detido pela ignorância; mas ou é tempo de não falar, ou é uma disposição de não agir. Se, porém, se diz que Deus então conheceu que Abraão o amava, quando não lho ocultou, é necessário que também se diga que o Pai sabe o dia porque não o ocultou ao Filho. Se, pois, o Filho ignora o dia, é um mistério o seu calar; ao contrário, mostra-se que só o Pai o sabe, porque não se cala. Longe de nós pensar que haja novidades de mudanças corporais no Pai e no Filho. Enfim, para que não se diga que ignora por fraqueza, acrescentou logo: Vede, vigiai e orai: pois não sabeis quando será o tempo
São Jerônimo(séc. IV–V). Pois a vigília é obra da mente antes da morte do corpo
Teofilacto. Ensina, porém, a vigiar e a orar, estas duas coisas: muitos de nós vigiamos, mas passando as noites em perversidades. Para isso, em seguida, introduz uma comparação, dizendo: É como um homem que, partindo para o estrangeiro, deixou sua casa, e deu a seus servos o poder sobre cada obra, e ao porteiro mandou que vigiasse
São Beda, o Venerável(séc. VII–VIII). O homem que, partindo para o estrangeiro, deixou sua casa é Cristo, que, subindo vitorioso ao Pai depois da ressurreição, deixou corporalmente a Igreja, a qual, contudo, nunca privou do amparo da presença divina
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos(séc. VI). Com efeito, o lugar próprio da carne é a terra, que como que foi levada a peregrinar quando, por meio de nosso Redentor, foi colocada nos céus. Deu, porém, a seus servos o poder sobre cada obra, porque, concedida aos seus fiéis a graça do Espírito Santo, deu-lhes a faculdade de servir em boas obras. Ao porteiro também mandou que vigiasse, porque ordena à classe dos pastores que dediquem cuidado à Igreja que lhes foi confiada. Mas não só os governantes da Igreja, e sim todos somos mandados a vigiar, guardando as portas dos corações, para que a má sugestão do antigo inimigo não entre, para que o Senhor não nos encontre dormindo. Por isso, concluindo desta comparação, acrescenta: Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o senhor da casa: à tarde, ou à meia-noite, ou ao canto do galo, ou de manhã; para que, vindo de repente, não vos encontre dormindo
São Jerônimo. Pois quem dorme não percebe corpos verdadeiros, mas fantasmas, e acorda vazio do que tinha visto. Assim são, sem dúvida, aqueles que o amor do mundo arrebata na vida, os quais, depois da vida, perdem como certo o que sonhavam
Teofilacto. Vê, porém, que não disse: Não sei quando será o tempo, mas: Não sabeis. Por isso o ocultou, porque nos convinha: pois se agora, ignorando o fim, não nos preocupamos, que faríamos se soubéssemos o fim? Adiaríamos nossas maldades até o último momento. Atentemos também para as expressões: à tarde, com efeito, o fim chega quando alguém morre na velhice; à meia-noite, quando alguém morre no meio da juventude; ao canto do galo, quando a razão se completa em nós: pois quando a criança começa a viver segundo a razão, então o galo canta nela, despertando-a do sono da sensualidade; de manhã, por sua vez, é a idade pueril. Convém, pois, que todos estes conheçam de antemão o fim: pois também a criança deve cuidar para não passar sem ser batizada
São Jerônimo. Com este fim conclui o discurso, para que os últimos ouçam, por meio dos primeiros, o preceito comum a todos; por isso acrescenta: O que, porém, vos digo, a todos digo: vigiai
Santo Agostinho, ad Hesychium(séc. IV–V). Pois não o disse só àqueles a quem então falava diante deles, mas também aos que viveram depois deles, antes de nós, e a nós mesmos, e aos que existirão depois de nós até a sua última vinda. Acaso aquele dia achará todos nesta vida, ou alguém dirá que pertence também aos defuntos o que disse: Vigiai, para que, vindo de repente, não vos encontre dormindo? Por que, então, o diz a todos, se pertencesse só aos que então existirão, senão porque pertence a todos, como disse? Pois para cada um virá aquele dia quando vier o seu dia, de modo que saia daqui tal como será julgado naquele dia; e por isso todo cristão deve vigiar, para que a vinda do Senhor não o encontre despreparado. Encontrará despreparado, porém, aquele dia, a quem o último dia desta sua vida encontrar despreparado