Mc 1,1
1Princípio da Boa-Nova de Jesus Cristo, Filho de Deus. Conforme está escrito no profeta Isaías:
São Jerônimo(séc. IV–V). Marcos, o Evangelista, exercendo o sacerdócio em Israel, segundo a carne levita, convertido ao Senhor, escreveu o Evangelho na Itália, mostrando nele o que Cristo devia também à sua estirpe. Pois, iniciando o princípio do Evangelho na voz da exclamação profética, mostra a ordem da eleição levítica, pregando João, filho de Zacarias, enviado na voz do Anjo, dizendo: Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus
São Jerônimo. Evangelion, em grego, em latim se diz boa Anunciação, o que pertence propriamente ao reino de Deus e à remissão dos pecados: com efeito, o Evangelho é aquilo por que vem a redenção dos fiéis e a bem-aventurança dos santos. Os quatro Evangelhos, porém, são um só, e um só são quatro. Em hebraico se diz Iehosua, em grego Soter, em latim Salvador. Masciach, em hebraico, christos, em grego, unctus, em latim, isto é, se diz rei e sacerdote
São Beda, o Venerável(séc. VII–VIII). Deve-se, porém, confrontar este princípio do Evangelho com o princípio de Mateus, em que diz: Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão; aqui, porém, se diz: Filho de Deus: de ambos, com efeito, deve-se entender um só Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus e do homem. E convenientemente o primeiro Evangelista o chama filho do homem, o segundo, Filho de Deus, para que nosso entendimento se elevasse pouco a pouco do menor ao maior, e pela fé e pelos sacramentos da humanidade assumida subisse ao conhecimento da eternidade divina. Convenientemente também aquele que ia descrever a geração humana começou pelo filho do homem, isto é, Davi, ou Abraão; convenientemente também aquele que iniciava seu livro desde o princípio da pregação evangélica quis chamar Jesus Cristo antes Filho de Deus, porque era da natureza humana receber a verdade da carne da descendência dos patriarcas, e foi do poder divino pregar o Evangelho ao mundo
Santo Hilário, de Trin(séc. IV). Não deu testemunho de que Cristo é Filho de Deus apenas pelo nome, mas também pela propriedade. Nós somos filhos de Deus; mas este filho não é tal como nós: este, com efeito, é verdadeiro e próprio filho, por origem, não por adoção; por verdade, não por denominação; por nascimento, não por criação
Mc 1,2-3
2Eis que envio o meu anjo diante de ti: ele preparará o teu caminho. 3Uma voz clama no deserto: Traçai o caminho do Senhor, aplanai as suas veredas (Ml 3,1; Is 40,3).
São Beda, o Venerável. Marcos, prestes a escrever o Evangelho, convenientemente põe primeiro os testemunhos dos profetas, para dar a entender que o que escrevia devia ser aceito por todos sem escrúpulo de dúvida, na medida em que mostrava que isso fora antes predito pelos profetas. E ao mesmo tempo, com um só e mesmo princípio de seu Evangelho, instrui os judeus, que haviam recebido a lei e os profetas, a aceitar a graça do Evangelho e os sacramentos que seus próprios profetas haviam predito; e provoca os gentios, que pela pregação do Evangelho haviam chegado ao Senhor, a aceitar e venerar também a autoridade da lei e dos profetas; por isso diz: Como está escrito no profeta Isaías: Eis que envio o meu Anjo diante de tua face
São Jerônimo, de optimo genere interpretandi. Isto, porém, não está escrito em Isaías, mas em Malaquias, o último dos doze profetas
São João Crisóstomo, in Marc(séc. IV). Pode-se dizer, porém, que é erro do escritor. Ou então se dirá que reuniu em uma só duas profecias ditas em lugares diversos por dois profetas. Em Isaías, com efeito, depois da história de Ezequias, descreve-se: Voz do que clama no deserto; em Malaquias, porém: Eis que envio o meu Anjo. O segundo Evangelista, portanto, pôs duas profecias como ditas por Isaías, referindo-as a uma só leitura, calando, porém, por quem se diz Eis que envio o meu Anjo
Santo Agostinho, de quaest. novi et Veter. Testam(séc. IV–V). Sabendo, com efeito, que tudo deve ser referido ao autor, reportou estas palavras a Isaías, que primeiro dera a conhecer este sentido. Enfim, depois das palavras de Malaquias acrescentou logo, dizendo: Voz do que clama no deserto, para unir as palavras de ambos os profetas, pertencentes a um só sentido, sob a pessoa do primeiro profeta
São Beda, o Venerável. Ou então se deve entender de outro modo: embora estas palavras não se encontrem em Isaías, seu sentido, contudo, se encontra em muitos outros lugares; e mais claramente no que acrescentou: Voz do que clama no deserto. Pois o que Malaquias disse, que seria enviado um Anjo diante da face do Senhor, que lhe prepararia os caminhos, é o que Isaías disse, que se ouviria a voz do que clama no deserto, a qual diria: Preparai o caminho do Senhor. Em ambas as sentenças, porém, anuncia-se igualmente que se deve preparar o caminho do Senhor. Pôde acontecer também que, ao espírito de Marcos, que escrevia o Evangelho, ocorresse Isaías em lugar de Malaquias, como costuma acontecer; mas ele o teria corrigido sem nenhuma dúvida, ao menos advertido por outros que, ainda vivendo ele na carne, puderam lê-lo; se não considerasse que, à sua lembrança, que era regida pelo Espírito Santo, não em vão ocorrera um nome de profeta por outro. Assim, com efeito, se insinua que tudo o que o Espírito Santo disse por meio dos profetas, tanto cada coisa pertence a todos, como todas a cada um
São Jerônimo. A voz do Espírito Santo soa pelo profeta Malaquias ao Pai acerca do Filho, que é a face do Pai, pela qual foi conhecido
São Beda, o Venerável. João, porém, é chamado Anjo, não por comunhão de natureza, segundo a heresia de Orígenes, mas pela dignidade do ofício: Anjo, com efeito, em grego, em latim se diz mensageiro; nome com que pôde ser chamado com razão aquele homem que foi enviado por Deus para dar testemunho da luz e anunciar ao mundo o Senhor que vinha na carne: já que consta que todos os que exercem o sacerdócio podem ser chamados Anjos pelo ofício de evangelizar, dizendo o profeta Malaquias: Os lábios do sacerdote guardam a ciência, e da sua boca buscam a lei, porque é o Anjo do Senhor dos exércitos
Teofilacto(séc. XI). O precursor de Cristo, portanto, é chamado Anjo por causa da vida angélica e da elevada reverência. O que se diz, porém, diante de tua face, significa como se dissesse: junto de ti está o teu mensageiro; por isso se mostra a proximidade do precursor a Cristo: com efeito, junto aos reis caminham os que lhes são mais próximos. Segue-se: Que preparará o teu caminho diante de ti: pelo Batismo, com efeito, preparou as almas dos judeus para receberem Cristo
São Jerônimo. Ou então o caminho do Senhor, pelo qual entra entre os homens, é a penitência, pela qual Deus desce a nós e nós subimos a ele: daí foi o início da pregação de João: Fazei penitência
São Beda, o Venerável. Assim como João pôde ser chamado Anjo por preceder a face do Senhor evangelizando, assim também com razão pôde ser chamado voz, porque soando precedia o Verbo de Deus; por isso se segue: Voz do que clama no deserto. Consta, com efeito, que o Filho unigênito é chamado Verbo do Pai; e por nossa própria fala sabemos que primeiro a voz soa, para que depois a palavra possa ser ouvida
São Jerônimo. Diz-se, porém, voz do que clama, porque o clamor costuma fazer-se aos surdos e aos postos longe, ou com indignação; o que é certo ter acontecido ao povo judeu, enquanto a salvação está longe dos pecadores; e taparam seus ouvidos como áspides surdas: e mereceram ouvir de Cristo indignação, ira e tribulação
São João Crisóstomo. Pelo que se diz no deserto, a profecia mostra claramente que os dogmas divinos não se fazem em Jerusalém, mas no deserto. O que se cumpria à letra, pregando João Batista, no deserto do Jordão, a aparição salutar do Verbo de Deus. A palavra profética mostra também que, além do deserto que foi mostrado por Moisés, onde fazia veredas, há outro deserto, em que anunciava estar presente a salvação de Cristo
São Jerônimo. Ou então no deserto se faz a voz e o clamor, porque estavam desertos do Espírito de Deus, como uma casa vazia e varrida; desertos também de profeta, rei e sacerdote
São Beda, o Venerável. O que, porém, clamaria se revela quando se acrescenta: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Todo aquele, com efeito, que prega a fé reta e as boas obras, que outra coisa faz senão preparar ao Senhor que vem o caminho para os corações dos que ouvem, para que a força da graça penetre esses corações e a luz da verdade os ilumine? Endireita as veredas, porém, quando, pelo sermão da pregação, forma no ânimo pensamentos puros
São Jerônimo. Ou de outro modo. Preparai o caminho do Senhor, isto é, fazei penitência e pregai: endireitai as suas veredas, para que, caminhando pela via régia, amemos os nossos próximos como a nós e a nós mesmos como aos próximos: quem, com efeito, ama a si mesmo e não ama o próximo, desvia-se para a direita: pois muitos agem bem, mas não corrigem bem, como foi Heli; e quem, odiando a si mesmo, ama o próximo, desvia-se para a esquerda: muitos, com efeito, corrigem bem, mas não agem bem, como foram os Escribas e Fariseus. As veredas, porém, seguem-se depois do caminho, porque os mandamentos morais se explicam depois da penitência
Teofilacto. Ou o caminho é o novo testamento, e as veredas, o antigo, como que gasto: era necessário, com efeito, preparar o caminho, isto é, o novo testamento; e convinha que as veredas do antigo testamento fossem endireitadas
Mc 1,4-8
4João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados. 5E saíam para ir ter com ele toda a Judeia, toda Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. 6João andava vestido de pêlo de camelo e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. 7Ele pôs-se a proclamar: “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado. 8Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo”.
São Jerônimo. Segundo a profecia de Isaías mencionada acima, o caminho do Senhor é preparado por João mediante a fé, o Batismo e a penitência; as veredas se tornam retas pelos sinais austeros da veste de pelo de camelo, do cinto de couro, do alimento de gafanhotos, do mel silvestre e da voz muito humilde; por isso se diz: “João estava no deserto”. Com efeito, João e Jesus buscam o que se perdeu no deserto; onde o Diabo venceu, ali é vencido; onde o homem caiu, ali se levanta. João, por sua vez, se interpreta “graça de Deus”; e a narração começa pela graça; pois segue: “batizando”; com efeito, pelo Batismo se dá a graça, pela qual os pecados são gratuitamente perdoados. Aquilo que se consuma pelo esposo, é iniciado pelo paraninfo: por isso os catecúmenos, isto é, os instruídos, começam pelo sacerdote e são crismados pelo bispo; e para designar isso acrescenta-se: “e pregando o batismo de penitência para a remissão dos pecados”.
São Beda, o Venerável. É claro que João não somente pregou o Batismo de penitência, mas também o deu a alguns; mas não pôde dar o Batismo para a remissão dos pecados, pois a remissão dos pecados nos é concedida somente no Batismo de Cristo. Diz-se, portanto: “pregando o batismo de penitência para a remissão dos pecados”, porque pregava o Batismo que perdoaria os pecados, uma vez que não podia dá-lo; a fim de que, assim como precedia com o verbo da pregação o Verbo do Pai encarnado, também precedesse com o seu batismo, pelo qual os pecados não podem ser perdoados, o Batismo de penitência, pelo qual os pecados são perdoados.
Teofilacto. O batismo de João não tinha a remissão dos pecados, mas trazia aos homens somente a penitência: pregava, pois, o batismo de penitência, isto é, aquele a que conduziria o Batismo de penitência, a saber, à remissão dos pecados, para que aqueles que, fazendo penitência, recebessem Cristo, recebessem a remissão dos pecados.
São Jerônimo. Por meio de João, como por meio do amigo do esposo, a esposa é conduzida a Cristo, como Rebeca a Isaac por meio do servo; por isso segue: “E saía a ele toda a região da Judeia, e todos os de Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão”: “pois a confissão e a formosura estão na sua presença”. Isto é, na do esposo. Com efeito, a esposa desce do camelo, quando a Igreja agora se humilha ao ver o esposo Isaac, isto é, Jesus Cristo. O Jordão, por sua vez, interpreta-se “descida alheia”, onde os pecados são lavados. Pois nós, outrora alienados de Deus pela soberba, humilhados pelo símbolo do Batismo, somos elevados às alturas.
São Beda, o Venerável. Daqui se toma o exemplo de confessar os pecados e de prometer vida melhor, para os que desejam o Batismo, pelo que se acrescenta: “confessando os seus pecados”.
São João Crisóstomo, in Matth. Como João pregava a penitência, trazia os sinais da penitência na veste e no alimento; por isso segue: “E João estava vestido de pelos de camelo”.
São Beda, o Venerável. Diz: vestido de pelos, não de lã. Uma coisa é o sinal de uma veste austera, outra é o de uma veste mais macia e luxuosa. O cinto de couro, com que se cingia, como Elias, é sinal de mortificação. Quanto ao que segue: “e comia gafanhotos e mel silvestre”, convém ao habitante da solidão, para que satisfizesse não as delícias dos alimentos, mas a necessidade da carne humana.
São Jerônimo. A veste, o alimento e a bebida de João significam toda a vida austera dos pregadores, e que as nações futuras, interior e exteriormente, haviam de ser unidas à graça de Deus, que é João: pois pelos pelos do camelo são significados os ricos das nações, pelo cinto de couro os pobres mortos para o mundo, e pelos gafanhotos errantes os sábios deste mundo; os quais, deixando aos judeus as palhas secas, arrastam nos carros os trigos místicos, e no calor da fé dão saltos para o alto, e do mel silvestre, inspirados, os fiéis se nutrem na selva inculta.
Teofilacto. Ou de outro modo. A veste de pelos de camelo era mostra de dor, dando João a entender que o penitente deve doer-se. O saco, com efeito, significa a dor, e o cinto de couro significa a mortificação do povo judeu; o alimento de João, por sua vez, indica não só a abstinência, mas é também sinal do alimento espiritual, de que então se nutria o povo, não entendendo algo elevado, mas, contudo, saltando para o alto e de novo se abatendo: tal é, com efeito, o gafanhoto, que salta para o alto e de novo cai. Assim, pois, o povo se nutria também de mel, que nascia das abelhas, isto é, dos profetas, não doméstico, porém, mas silvestre: pois os hebreus possuíam as Escrituras como um certo mel; mas não as entendiam bem.
São Gregório Magno(séc. VI). Ou ele designou, pela própria espécie dos alimentos, o Senhor, a quem precedeu, o qual, porque tomou a doçura da gentilidade infrutífera, come mel silvestre; mas porque converteu em parte, em seu corpo, o povo dos judeus, recebeu como alimento os gafanhotos, que, dando saltos de repente, caem logo por terra. Com efeito, os judeus davam saltos, quando prometiam cumprir os preceitos do Senhor; mas caíam por terra, quando, por obras perversas, negavam tê-los ouvido. Tinham, pois, o salto pela voz e a queda pela ação.
São Beda, o Venerável. O traje e o alimento de João podem também exprimir a qualidade da sua conduta interior: com efeito, usava de vestes mais austeras, porque não favoreceu a vida dos pecadores com lisonjas, mas a repreendeu com o vigor de uma áspera invectiva; tinha o cinto de couro em torno dos lombos, porque crucificou a sua carne com os vícios e concupiscências; comia gafanhotos e mel silvestre, porque a sua pregação tinha algo de doce para as multidões, julgando o povo que ele mesmo seria o Cristo; mas antes obteve outro fim, entendendo os seus ouvintes que ele não era o Cristo, mas o precursor e profeta de Cristo. No mel, com efeito, há doçura; nos gafanhotos, voo ligeiro; por isso segue: “E pregava, dizendo: Vem depois de mim quem é mais forte do que eu”.
Glosa(séc. XII). Dizia isto para afastar a opinião da multidão, que acreditava ser ele o Cristo; anuncia, porém, que Cristo é mais forte, pois havia de perdoar os pecados, o que ele mesmo não podia fazer.
São Jerônimo. Quem é mais forte do que a graça, pela qual são lavados os pecados, que João significa? Sem dúvida aquele que perdoa os pecados setenta vezes sete. A graça, na verdade, é anterior, mas perdoa os pecados uma só vez, pelo Batismo; a misericórdia, porém, chega aos miseráveis de Adão até Cristo, por setenta e sete gerações, e até cento e quarenta e quatro mil.
São João Crisóstomo, in Matth. Para que não se julgasse que dizia isto por comparação de si mesmo com Cristo, acrescenta: “do qual não sou digno de, prostrado, desatar a correia das sandálias”. Ora, desatar a correia das sandálias, que Marcos diz aqui, não é o mesmo que levar as sandálias, que diz Mateus. E, na verdade, os Evangelistas, seguindo a ordem da narração e não errando em nada, dizem que João disse ambas as coisas em sentidos diferentes; ao comentá-lo, porém, expuseram cada coisa de modo diverso: pois chamam correia o laço das sandálias. Diz isto, portanto, para exaltar a excelência do poder de Cristo e a grandeza da divindade, como se dissesse: não sou suficiente nem para ser posto na ordem de servo. Com efeito, é grande, nas coisas que são do corpo de Cristo, atender como que prostrado mais abaixo, e ver abaixo a imagem das coisas celestes, e desatar cada uma das coisas inexplicáveis que dizem respeito ao mistério da encarnação.
São Jerônimo. A sandália, com efeito, está na parte extrema do corpo: pois no fim dos tempos o Salvador se encarnou para a justiça; por isso se diz pelo profeta: “Estenderei a minha sandália sobre a Iduméia”.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos(séc. VI). As sandálias também se fazem de animais mortos. O Senhor encarnado, ao vir, apareceu como que calçado, ele que, em sua divindade, assumiu o que estava morto da nossa corrupção. Ou de outro modo. Entre os antigos havia o costume de que, se alguém não quisesse tomar por esposa aquela que lhe cabia, aquele que, como esposo, viesse a ela por direito de parentesco lhe desatava a sandália. Com razão, pois, declara-se indigno de desatar a correia da sua sandália; como se dissesse abertamente: não posso desnudar os passos do redentor, porque, sem merecer, não usurpo o nome de esposo.
Teofilacto. Entende-se também assim. Todos os que vinham e eram batizados por João eram libertados, pela penitência, do laço dos pecados, crendo em Cristo. Assim, João desatava a correia de todos os outros, isto é, o vínculo dos pecados; a Jesus, porém, não pôde desatar a correia, porque não encontrou nele pecado.
São Beda, o Venerável. Assim, pois, João proclama o Senhor, ainda não manifestamente como Senhor ou Filho de Deus, mas apenas como um homem mais forte do que ele. Com efeito, os ouvintes, ainda rudes, não compreendiam os arcanos de tão grande sacramento: que o Filho de Deus eterno, assumido o homem da Virgem, nasceu de novo no mundo; mas deviam ser introduzidos pouco a pouco, pelo conhecimento da humildade glorificada, à fé na eternidade divina; declarando-lhes, contudo, veladamente que este é o verdadeiro Deus, acrescenta: “Eu vos batizo com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo”. Quem duvida, com efeito, que ninguém, senão Deus, pode dar a graça do Espírito Santo?
São Jerônimo. Que diferença há, com efeito, entre a água e o Espírito Santo, que era levado sobre as águas? A água é ministério do homem, o Espírito, porém, é mistério de Deus.
São Beda, o Venerável. Somos batizados pelo Senhor no Espírito Santo não somente quando, no dia do Batismo, somos lavados na fonte da vida para a remissão dos pecados, mas também quando, cada dia, pela graça do mesmo Espírito, somos inflamados a fazer o que agrada a Deus.