Mt 28,1-7
1Depois do sábado, quando amanhecia o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o túmulo. 2E eis que houve um violento tremor de terra: um anjo do Senhor desceu do céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela. 3Resplandecia como relâmpago e suas vestes eram brancas como a neve. 4Vendo isso, os guardas pensaram que morreriam de pavor. 5Mas o anjo disse às mulheres: “Não temais! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. 6Não está aqui: ressuscitou como disse. Vinde e vede o lugar em que ele repousou. 7Ide depressa e dizei aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos. Ele vos precede na Galileia. Lá o haveis de rever, eu vo-lo disse”.
Santo Agostinho, in Serm. de resurrectione(séc. IV–V). Depois das zombarias e dos açoites, depois das taças misturadas de vinagre e fel, depois dos suplícios da cruz e das feridas, e por fim depois da própria morte e dos Infernos, surgiu de seu sepulcro uma carne nova, a vida que se ocultava volta do ocaso, e a salvação reservada na morte ressurge, destinada a voltar mais bela depois do sepulcro.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Quanto à hora em que as mulheres vieram ao sepulcro, surge uma questão que não se deve desprezar. Com efeito, dizendo Mateus aqui: Na tarde do sábado, que começa a luzir no primeiro dia da semana, como se explica o que diz Marcos: E muito cedo, no primeiro dia da semana, veio Maria Madalena e a outra Maria ver o sepulcro? É claro que Mateus quis significar, pelo início da noite, que é a tarde, a própria noite, ao fim da qual vieram ao sepulcro; portanto, como no sábado eram impedidas de fazê-lo antes, ele chamou noite a partir do momento em que lhes foi permitido fazer, durante essa mesma noite, tudo o que quisessem. Assim, pois, foi dito na tarde do sábado como se se dissesse na noite do sábado, isto é, na noite que segue o dia de sábado; e as próprias palavras dele o indicam suficientemente, pois assim diz: que começa a luzir no primeiro dia da semana, o que não pode ser, a não ser que entendamos que a tarde mencionada significou somente a primeira parte da noite, isto é, apenas o início da noite. Pois o próprio início da noite não começa a luzir no primeiro dia da semana, mas sim a própria noite que começa a terminar na luz; e é modo habitual de falar da divina Escritura significar o todo pela parte. Pela tarde, portanto, significou a noite, cujo fim é o alvorecer: pois ao alvorecer vieram ao sepulcro.
Rábano Mauro(séc. IX). O que se disse, que as santas mulheres vieram ver o sepulcro na tarde do sábado, que começa a luzir no primeiro dia da semana, deve ser entendido assim: na tarde começaram, sim, a vir, mas, ao luzir da manhã do primeiro dia da semana, chegaram ao sepulcro; isto é, na tarde prepararam os aromas com que desejavam ungir o corpo do Senhor, mas levaram ao sepulcro, de manhã, os aromas preparados na tarde. Mateus o expôs de modo bastante obscuro por brevidade, mas os outros Evangelistas mostram mais claramente em que ordem aconteceu. Sepultado o Senhor na sexta-feira, as mulheres, voltando do sepulcro, prepararam aromas e ungüentos enquanto era lícito trabalhar; e no sábado, de fato, descansaram segundo o mandamento da lei, como Lucas indica claramente; mas, passado o sábado, ao chegar a tarde, tendo voltado o tempo de trabalhar, compraram prontamente, por devoção, os aromas que haviam preparado de menos, como Marcos recorda: para irem ungir Jesus; e muito cedo vêm ao sepulcro.
São Jerônimo(séc. IV–V). Ou de outro modo. O fato de os Evangelhos descreverem tempos diversos para estas mulheres não é sinal de mentira, como objetam os ímpios, mas dos deveres de uma visita solícita, pois vão e voltam com freqüência e não suportam estar por muito tempo, nem muito longe, do sepulcro do Senhor.
Remígio de Auxerre(séc. IX). Deve-se saber, porém, que Mateus, falando misticamente, procurou nos dar a entender quanta dignidade aquela sacratíssima noite recebeu da honra da morte vencida e da ressurreição do Senhor; por isso disse: Na tarde do sábado, que começa a luzir no primeiro dia da semana. Embora a ordem habitual dos tempos seja que as tardes não clareiem em dia, mas antes escureçam em noite, mostra-se por estas palavras que o Senhor tornou toda esta noite festiva e resplandecente com a luz de sua ressurreição.
São Beda, o Venerável, in Hom. in vigilia Paschae(séc. VII–VIII). Desde o princípio da criação do mundo até aqui, o curso dos tempos se distinguia de modo que o dia precedia a noite, porque o homem, caído pelo pecado da luz do Paraíso, desceu às trevas e aos sofrimentos deste mundo. Muito convenientemente, porém, agora o dia segue a noite, quando, pela fé na ressurreição, somos reconduzidos, por graça de Cristo, das trevas do pecado e da sombra da morte à luz da vida.
Severianus, in Serm. de passione. É a tarde do sábado que começa a luzir, porque o sábado é iluminado por Cristo, não abolido. Diz ele acima: Não vim abolir a lei, mas cumpri-la. É iluminado para que brilhe no dia do Senhor e se torne claro na Igreja o que na sinagoga, obscurecendo os judeus, estava escurecido. Segue-se: veio Maria Madalena e a outra Maria ver o sepulcro. Tarde, de fato, corre ao perdão a mulher que cedo correu à culpa: aquela que do Paraíso tirara a perfídia apressa-se a tirar a fé do sepulcro; esforça-se por arrancar da morte a vida aquela que da vida arrancara a morte. E não disse: vieram, mas veio, sob um só nome. Vêm duas por mistério, não por acaso: veio ela, mas também a outra, para que a mulher fosse mudada pela virtude, não pelo sexo. Precedem os apóstolos as mulheres, que levam ao sepulcro do Senhor a figura das Igrejas, a saber, Maria e Maria. O único nome materno de Cristo se duplica em duas mulheres, porque esta Igreja, vinda de dois povos, isto é, dos gentios e dos judeus, é figurada como uma só. Veio, porém, Maria ao sepulcro como ao seio da ressurreição, para que Cristo nascesse de novo do sepulcro para a fé, ele que segundo a carne fora gerado do ventre; e àquele que a virgindade fechada trouxera à vida presente, o sepulcro fechado o devolvesse à vida eterna. É sinal da divindade ter deixado fechada a virgem depois do parto e ter saído, com o corpo, do sepulcro fechado. Segue-se: E eis que houve um grande terremoto.
São Jerônimo. Nosso Senhor, único e o mesmo Filho de Deus e do homem, segundo uma e outra natureza, da divindade e da carne, mostra ora um sinal de sua grandeza, ora de sua humildade; por isso, no presente passo, embora seja homem aquele que foi crucificado e sepultado, contudo o que se passa do lado de fora mostra que é o Filho de Deus.
Santo Hilário, in Matth(séc. IV). Pois o movimento da terra é a força da ressurreição, quando, quebrado o aguilhão da morte e iluminadas as suas trevas, ressurgindo o Senhor das potências celestes, o pavor dos Infernos se agita.
São João Crisóstomo, in Matth(séc. IV). Ou o terremoto houve para que as mulheres se levantassem e despertassem; pois tinham vindo para depositar o ungüento, e, como essas coisas se faziam de noite, é provável que algumas tivessem adormecido.
São Beda, o Venerável, in Hom. super venit Maria Magdalene. O fato de que também houve um grande terremoto quando o Senhor ressurgiu do sepulcro, como também quando morria na cruz, significa que os corações terrenos devem ser abalados à penitência por um salutar temor, movido primeiro pela fé em sua paixão e depois em sua ressurreição.
Severianus, in Serm. Paschae. Se, pois, a terra assim tremeu quando o Senhor ressurgia para o perdão dos santos, como tremerá quando ressurgir para o castigo de todos os culpados? Diz o profeta: A terra tremeu quando Deus ressurgia no juízo. E como suportará a presença do Senhor a que não pôde suportar a presença do Anjo? Pois segue-se: Um Anjo do Senhor desceu do céu. Ressurgindo Cristo, perecendo a morte, restitui-se o convívio celeste aos terrenos, e à mulher que tivera com o Diabo um conselho letal, dá-se um colóquio vital com o Anjo.
Santo Hilário. Com efeito, é sinal da misericórdia de Deus Pai enviar, ao ressurgir o Filho dos Infernos, o ministério das potências celestes; e por isso ele mesmo é o primeiro anunciador da ressurreição, para que, por um certo serviço da vontade paterna, a ressurreição fosse anunciada.
São Beda, o Venerável. Porque Cristo é Deus e homem, nos atos de sua humanidade nunca lhe faltam os serviços dos Anjos devidos a Deus. Segue-se: e, aproximando-se, removeu a pedra, não para abrir a porta ao Senhor que ia sair, mas para dar aos homens a prova de que ele já tinha saído. Pois aquele que, mortal, pôde entrar no mundo ao nascer, estando fechado o ventre da virgem, o mesmo, feito imortal, pôde, estando fechado o sepulcro, sair do mundo ao ressurgir.
Remígio de Auxerre. A remoção da pedra significa a reserva dos sacramentos de Cristo, que estavam encobertos pela letra da lei: pois a lei foi escrita em pedra, e por isso é designada pela pedra.
Severianus. Não disse, porém: ele rolou, mas: rolou de volta a pedra, porque a pedra rolada para cima provou a morte, e, rolada de volta, mostrou-se testemunha da ressurreição. Muda-se aqui a ordem das coisas: o sepulcro devora a morte, e não o morto; a casa da morte torna-se morada de vida; o ventre, em nova forma, recebe o morto e devolve o vivo. Segue-se: e estava sentado sobre ela; estava sentado, digo, aquele em quem não havia cansaço algum, como doutor da fé, como mestre da ressurreição; sentava-se sobre a rocha, para que a solidez de quem se sentava desse firmeza aos que creem; o Anjo punha sobre a rocha os fundamentos da fé, sobre a qual Cristo ia fundar a Igreja. Ou então, pela pedra do sepulcro pode ser designada a morte, pela qual todos eram oprimidos; assim, pelo fato de o Anjo se ter sentado sobre a pedra, significa-se que Cristo submeteu a morte com o seu poder
São Beda, o Venerável. E com razão apareceu de pé o Anjo que anunciava no mundo a vinda do Senhor, para designar, estando de pé, que o Senhor vinha para combater o príncipe do mundo. O arauto da ressurreição, porém, é lembrado como sentado, para significar, ao sentar-se, que ele, vencido o autor da morte, já subira ao trono do reino eterno. Estava sentado sobre a pedra rolada, com a qual se fechava a entrada do sepulcro, para ensinar que ele, por seu próprio poder, derrubara as trancas do Inferno
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Pode, porém, causar dúvida como, segundo Mateus, o Anjo estava sentado sobre a pedra rolada do sepulcro, ao passo que Marcos diz que as mulheres, ao entrarem no sepulcro, viram um jovem sentado à direita; a não ser que entendamos ou que Mateus se calou sobre o Anjo que viram ao entrar, e Marcos sobre aquele que viram sentado sobre a pedra, de modo que viram dois e de cada um ouviram separadamente o que os Anjos disseram de Jesus; ou então que o que Marcos diz: entrando no sepulcro, devemos entendê-lo de algum recinto de muro, com que é crível que o lugar estivesse então fortificado, isto é, de algum espaço diante da rocha, na qual fora feito, escavado, o lugar da sepultura, de modo que tenham visto, nesse mesmo espaço, sentado à direita aquele que Mateus diz estar sentado sobre a pedra. Segue-se: O seu aspecto era como o relâmpago, e as suas vestes como a neve
Severianus. A claridade do rosto distingue-se da brancura das vestes, e o rosto é comparado ao relâmpago, a veste do Anjo à neve, porque o relâmpago vem do céu, a neve da terra; donde o profeta: Louvai o Senhor, desde a terra (...) fogo, granizo, neve, e o que se segue. No rosto do Anjo, portanto, conserva-se a claridade da natureza celeste; na veste significa-se a graça da comunhão humana; e assim se tempera o aspecto do Anjo que fala, para que os olhos de carne suportassem a suave claridade das vestes, e pelo fulgor do rosto temessem o mensageiro e reverenciassem o seu autor
Idem, in alio Serm. Que faz, porém, a veste onde não há necessidade de cobrir? Mas o Anjo prefigura na ressurreição o nosso hábito, a nossa forma, quando o homem é revestido da própria claridade do seu corpo
São Jerônimo. Na veste cândida, além disso, o Anjo significa a glória de quem triunfa
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos(séc. VI). Ou de outro modo. No relâmpago está o terror do temor; na neve, porém, a suavidade do candor; porque Deus onipotente é terrível para os pecadores e suave para os justos, com razão o Anjo, testemunha da sua ressurreição, é mostrado tanto no relâmpago do rosto como no candor do hábito, para, com o seu próprio aspecto, aterrar os réprobos e acalmar os piedosos; donde se segue: Por temor dele, os guardas ficaram aterrados e tornaram-se como mortos
Rábano Mauro. Ficaram aterrados pela angústia do temor os que não tinham a confiança do amor; e tornaram-se como mortos os que não quiseram crer na verdade da ressurreição
Severianus, in Serm. Paschae. Guardavam, com efeito, por zelo de crueldade, não por obséquio de piedade; não pode, pois, ficar de pé aquele a quem a consciência abandona e a culpa derruba. Daí que o Anjo abate os ímpios, mas aos piedosos fala e consola. Segue-se: Mas o Anjo, tomando a palavra, disse às mulheres
São Jerônimo. Os guardas, de fato, aterrados de temor, jazem atônitos como mortos; e, no entanto, o Anjo não consola a eles, mas às mulheres, dizendo: Não temais vós; como se dissesse: que temam aqueles em quem permanece a incredulidade; vós, porém, que buscais Jesus crucificado, ouvi que ressurgiu e cumpriu o que prometera; donde se segue: Sei que buscais Jesus, que foi crucificado
Severianus. Procuravam ainda um crucificado e morto aquelas cuja fé a cruel tempestade da paixão perturbara, e cuja tentação as vergara com tal peso que procuravam no sepulcro o Senhor do céu. Não está aqui
Rábano Mauro. Pela presença da carne, ele que, contudo, nunca está ausente pela presença da majestade. Segue-se: Ressuscitou, como disse
São João Crisóstomo, in Matth. Como se dissesse: e se não credes em mim, lembrai-vos das palavras dele. Depois segue-se ainda outra demonstração, quando se acrescenta: Vinde e vede o lugar onde o Senhor foi posto
São Jerônimo. Para que, se não credes em minhas palavras, creiais no sepulcro vazio
Severianus. O Anjo, portanto, prediz o nome, fala da cruz, anuncia a paixão; mas logo a ressurreição, logo confessa o Senhor; e o Anjo, depois de tantos suplícios, depois do sepulcro, reconhece o seu Senhor; por que o homem julga diminuído Deus na carne, ou pensa que na paixão faltou a força? Diz, porém, crucificado, e mostra o lugar onde o Senhor foi posto, para que não se cresse que outro, e não o mesmo, ressuscitou dos mortos. E se o Senhor volta na mesma carne e dá sinais da sua ressurreição, por que o homem pensa que voltará em outra carne? Ou acaso o servo desdenha a sua carne, quando o Senhor não mudou a nossa?
Rábano Mauro. Não foi só a vós que foi concedido guardar essa grande alegria no coração oculto, mas deveis revelá-la igualmente aos que amam; por isso se segue: E ide depressa dizer a seus discípulos que ressuscitou.
Severianus. É como se dissesse: volta ao teu marido, mulher já sarada, e persuade à fé, tu que antes persuadiste à infidelidade; leva ao homem o anúncio da ressurreição, a ele a quem antes deste o conselho da ruína. Segue-se: E eis que ele vos precede na Galileia.
São João Crisóstomo, in Matth. Diz isto livrando-os dos perigos, para que o temor não impedisse a fé.
São Jerônimo. Misticamente, precede-vos na Galileia, isto é, no lamaçal dos gentios, onde antes o erro era escorregadio e não mantinha o passo com pé firme e estável. Segue-se: Ali o vereis: eis que vos predisse.
São Beda, o Venerável. Convém que o Senhor seja visto pelos discípulos na Galileia, ele que já tinha passado da morte à vida, da corrupção à incorruptibilidade: Galileia, com efeito, se interpreta travessia. Felizes as mulheres que mereceram anunciar ao mundo o triunfo da ressurreição; mais felizes as almas que, no dia do juízo, quando os réprobos forem feridos de pavor, merecerem entrar na alegria da bem-aventurada ressurreição.
Mt 28,8-10
8Elas se afastaram prontamente do túmulo com certo receio, mas ao mesmo tempo com alegria, e correram a dar a Boa-Nova aos discípulos. 9Nesse momento, Jesus apresentou-se diante delas e disse-lhes: “Salve!”. Aproximaram-se elas e, prostradas diante dele, beijaram-lhe os pés. 10Disse-lhes Jesus: “Não temais! Ide dizer aos meus irmãos que se dirijam à Galileia, pois é lá que eles me verão”.
Santo Hilário. O Senhor sai logo ao encontro das mulheres exortadas pelo Anjo, para que as que iam anunciar aos discípulos que esperavam a ressurreição falassem não pela boca de um Anjo, mas pela de Cristo; por isso se diz: E saíram depressa do sepulcro, com temor e grande alegria.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Diz-se que saíram do sepulcro, isto é, daquele lugar onde havia o espaço do jardim diante da pedra escavada.
São Jerônimo. Uma dupla afeição ocupava a mente das mulheres: de temor e de alegria; um pela grandeza do milagre, outra pelo desejo daquele que ressuscitava; e, contudo, ambas aceleravam o passo feminino; por isso se segue: correndo a anunciá-lo a seus discípulos. Iam, pois, aos apóstolos, para que por eles fosse espalhada a semente da fé. Ora, as que assim procuravam, as que assim corriam, mereceram ter ao seu encontro o Senhor ressuscitado; por isso se segue: E eis que Jesus veio ao seu encontro, dizendo: Salve.
Rábano Mauro. Com isso mostra que vem em auxílio de todos os que iniciam o caminho das virtudes, para que possam chegar à salvação eterna.
São Jerônimo. As primeiras mulheres mereceram ouvir Salve, para que a maldição da mulher Eva fosse desfeita nas mulheres.
Severianus. Nessas mulheres mostra com evidência que permanece a figura da Igreja: pois Cristo repreende os seus discípulos, que tremiam, a respeito da ressurreição; mas, ao vir ao encontro destas, não as aterroriza com poder, antes as previne com o ardor da caridade: Cristo, com efeito, saúda-se na Igreja, que ele recebe em seu corpo.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Concluímos também que elas receberam duas vezes a palavra dos Anjos ao virem ao sepulcro, a saber, quando viram um só Anjo, do qual narram Mateus e Marcos, e quando depois viram dois, como narram Lucas e João; e igualmente duas vezes a do próprio Senhor: uma vez ali, quando Maria o tomou por hortelão, e agora de novo, quando vem ao seu encontro no caminho, para fortalecê-las por essa mesma repetição e recriá-las do temor.
Severianus. Mas ali não se dá a Maria a faculdade de tocar; aqui se concede toda a possibilidade não só de tocar, mas de segurar; por isso se segue: Elas, aproximando-se, agarraram-lhe os pés e o adoraram.
Rábano Mauro. Disse-se acima, de fato, que ressuscitou com o sepulcro fechado, para ensinar que já era imortal o corpo que tinha estado morto, encerrado no sepulcro; mas então ofereceu os pés às mulheres para que os segurassem, a fim de dar a entender que tinha verdadeira carne, que podia ser tocada por mortais.
Severianus, in Serm. de resurrectione. Estas seguram os pés de Cristo, pois, em figura da Igreja, seguram e merecem a corrida da pregação evangélica, e assim prendem pela fé os passos do Salvador, a ponto de chegarem à honra de toda a divindade. Aquela, porém, ouve com razão: Não me toques, ela que na terra chora o Senhor e procura assim no sepulcro o morto, de modo a ignorar que ele reina nos céus com o Pai. Que a mesma Maria, ora colocada no cume da fé, toque a Cristo e o segure com todo o afeto de santidade, ora, abatida pela fraqueza da carne e pela debilidade feminina, duvide e não mereça o toque de seu autor, isso não constitui questão. Pois aquilo se refere à figura, isto ao sexo; aquilo à graça divina, isto à natureza humana: porque nós mesmos, quando sabemos as coisas divinas, vivemos para Deus; quando saboreamos as humanas, cegamo-nos por nós mesmos. Seguraram, porém, os seus pés, para saber que na cabeça de Cristo está o varão, e que elas estão nos pés de Cristo, e que lhes foi dado seguir o varão, não precedê-lo. O que o Anjo tinha dito, diz também o Senhor, para que Cristo tornasse mais firmes as que o Anjo tinha confirmado. Segue-se: Então Jesus lhes disse: Não temais.
São Jerônimo. Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento deve-se sempre observar isto: quando a visão se mostra mais aterradora, primeiro se afasta o temor, para que, com o espírito apaziguado, possam ser ouvidas as coisas que se dizem
Santo Hilário, in Matth. Em sentido contrário, porém, foi restituída a ordem da causa principal: como a morte começou pelo sexo feminino, a ele foram concedidos primeiro a visão e o anúncio da glória da ressurreição; por isso o Senhor acrescenta: Ide, anunciai a meus irmãos que vão para a Galileia: lá me verão
Severianus. Chama de irmãos aqueles que fez irmãos segundo o seu corpo; chama de irmãos aqueles que o herdeiro benigno tornou coerdeiros consigo; chama de irmãos aqueles que adotou como filhos de seu Pai
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Quanto ao fato de o Senhor ter mandado, tanto por meio do Anjo quanto por si mesmo, que o vissem não onde primeiro ia mostrar-se, mas na Galileia, onde depois foi visto, isso torna atento a buscar qualquer fiel, e entende-se que em tal mistério se disse isto: Galileia, com efeito, se interpreta ou transmigração ou revelação. Primeiro, portanto, segundo o significado de transmigração, que outra coisa se deve entender, senão que a graça de Cristo haveria de transmigrar do povo de Israel para as nações, nas quais os apóstolos, pregando o Evangelho, de modo algum encontrariam fé, se o próprio Senhor não lhes preparasse o caminho nos corações dos homens? E isto se entende em precederá vós na Galileia. Quanto ao que se acrescenta: lá o vereis, entende-se assim: isto é, lá encontrareis os seus membros; lá reconhecereis o seu corpo vivo naqueles que vos acolherem. Segundo, porém, o sentido em que Galileia se interpreta revelação, não se deve entender já na forma de servo, mas naquela em que é igual ao Pai. Essa será a revelação, como a verdadeira Galileia, quando formos semelhantes a ele e o virmos como ele é. Essa também será a mais bem-aventurada transmigração, deste mundo para aquela eternidade
Mt 28,11-15
11Enquanto elas voltavam, alguns homens da guarda já estavam na cidade para anunciar o acontecimento aos príncipes dos sacerdotes. 12Reuniram-se estes em conselho com os anciãos. Deram aos soldados uma importante soma de dinheiro, ordenando-lhes: 13“Vós direis que seus discípulos vieram retirá-lo à noite, enquanto dormíeis. 14Se o governador vier a sabê-lo, nós o acalmaremos e vos tiraremos de dificuldades”. 15Os soldados receberam o dinheiro e seguiram suas instruções. E essa versão é ainda hoje espalhada entre os judeus.
São João Crisóstomo, in Matth. Dos sinais que apareceram em torno de Cristo, alguns foram comuns a todo o mundo, como as trevas; outros, próprios dos soldados de guarda, como a admirável aparição do Anjo e o terremoto, que aconteceram por causa dos soldados, para que ficassem atônitos e deles proviesse o testemunho da verdade: a verdade, com efeito, divulgada pelos contrários, resplandece mais, o que também aconteceu; por isso se diz: Tendo elas partido, isto é, as mulheres, eis que alguns da guarda foram à cidade e anunciaram aos príncipes dos sacerdotes tudo o que havia acontecido
Rábano Mauro. A simples qualidade do espírito e a rusticidade não instruída dos homens muitas vezes manifestam sem fraude a verdade da coisa, como é; ao contrário, a malignidade astuciosa se empenha em fazer passar por verdadeira a falsidade, com palavras verossímeis
São Jerônimo. Os príncipes dos sacerdotes, portanto, que deviam ter-se convertido à penitência e procurado Jesus ressuscitado, perseveram na malícia e convertem o dinheiro que fora dado para os usos do templo em resgate da mentira, como antes deram dele as trinta moedas de prata ao traidor; por isso segue: E, reunidos com os anciãos, tomado o conselho, deram muito dinheiro aos soldados, dizendo: Dizei que os seus discípulos vieram de noite e o roubaram enquanto dormíamos
Severianus. Não se contentaram, com efeito, em ter matado o Mestre; antes, procuram também de que modo poderiam perder os discípulos; e fazem da virtude do Mestre um crime dos discípulos. Perderam, sem dúvida, os soldados; perderam-se os judeus; mas os discípulos levaram o seu Mestre não por furto, mas pela fé; pela virtude, não pela fraude; pela santidade, não pelo crime; vivo, não morto
São João Crisóstomo, in Matth. Como, com efeito, os discípulos o teriam furtado, sendo homens pobres e ignorantes, que nem ousavam aparecer? Se, vendo Cristo ainda vivo, fugiram, como não teriam temido, depois de morto ele, tão grande multidão de soldados? Acaso podiam derrubar a porta do sepulcro? A pedra, com efeito, era grande e exigia muitas mãos. Acaso não havia também um selo posto por cima? Por que, então, não o furtaram na primeira noite, quando ninguém estava junto ao sepulcro? Pois foi no sábado que pediram a Pilatos a guarda. Que significam, então, estes sudários que Pedro viu jazendo? Se quisessem furtar, não teriam furtado o corpo nu; não só para não o ultrajarem, mas também para não se demorarem ao sair e não darem aos soldados a possibilidade de os deter; sobretudo porque a mirra estava aderida ao corpo e às vestes, tão viscosa que não era fácil arrancar as vestes do corpo: por isso não são críveis as coisas que se disseram sobre o furto. Daí que, pelas mesmas coisas com que tentam obscurecer a ressurreição, a tornam clara. Pois, ao dizerem que os discípulos o furtaram, confessam que o corpo não está no sepulcro; e a guarda dos soldados e o pavor dos discípulos mostram que o furto é mentira
Remígio de Auxerre. Mas, se os guardas dormiram, como viram o furto? E, se não viram, como foram testemunhas? E assim, o que quiseram fazer, não puderam
Glosa(séc. XII). Para que, porém, por temor do governador, não fossem desviados da mentira, temendo ser punidos por negligência, acrescentam: E, se isto for ouvido pelo governador, nós o persuadiremos e vos poremos em segurança
São João Crisóstomo, in Matth. Vê todos corrompidos. O próprio Pilatos foi persuadido, o povo judeu foi agitado, os soldados foram corrompidos; por isso segue: Eles, tendo recebido o dinheiro, fizeram como foram instruídos. Se o dinheiro teve tanta força junto a um discípulo, a ponto de fazê-lo traidor do Mestre, não te admires de que os soldados sejam vencidos pelo dinheiro
Santo Hilário. Compra-se, pois, com prata o silêncio da ressurreição e a mentira do furto, porque a glória de Cristo é negada pela honra do mundo, que consiste em dinheiro e cobiça
Rábano Mauro. Assim como a culpa do sangue, que invocaram sobre si e sobre seus descendentes, os oprime com grave fardo de pecados, assim também a compra da mentira, pela qual negam a verdade da ressurreição, os prende a uma culpa perpétua; por isso segue: E esta palavra foi divulgada entre os judeus até o dia de hoje
Severianus. Foi divulgada, sem dúvida, entre os judeus, não entre os cristãos: o que o judeu obscurecia com ouro na Judeia, brilhou pela fé em todo o mundo
São Jerônimo. Todos aqueles que abusam do dinheiro do templo e do que é oferecido para o uso da Igreja, empregando-o em outras coisas com que satisfaçam a sua vontade, são semelhantes aos escribas e sacerdotes que compram a mentira e o sangue do Salvador.
Mt 28,16-20
16Os onze discípulos foram para a Galileia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado. 17Quando o viram, adoraram-no; entretanto, alguns hesitavam ainda. 18Mas Jesus, aproximando-se, lhes disse: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. 19Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. 20Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo”.
São Beda, o Venerável. Depois que o bem-aventurado Mateus afirmou que a ressurreição do Senhor foi anunciada pelo Anjo, relata que a visão do Senhor foi também concedida aos discípulos, dizendo: Os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado. Pois, indo ao encontro da paixão, o Senhor disse aos discípulos: Depois que eu ressuscitar, eu vos precederei na Galileia. O Anjo também disse às mulheres: Dizei a seus discípulos que ele vos precederá na Galileia. Por isso, a obediência dos discípulos cumpre a ordem do Mestre. E com razão os onze discípulos vão adorar, pois um já havia perecido, o que entregara seu Senhor e Mestre.
São Jerônimo. Depois da ressurreição, portanto, Jesus é visto no monte da Galileia e ali é adorado; embora alguns duvidem, e a dúvida deles aumente a nossa fé. Segue-se: E, vendo-o, adoraram-no; alguns, porém, duvidaram.
Remígio de Auxerre. Isto, porém, o evangelista Lucas expõe mais amplamente: relata, com efeito, que, quando o Senhor, ressuscitando dos mortos, apareceu aos discípulos, eles, perturbados e atemorizados, pensavam ver um espírito.
Rábano Mauro. O Senhor apareceu-lhes num monte para significar que o corpo, que ao nascer havia recebido da terra comum do gênero humano, ao ressuscitar já o tinha elevado acima de todas as coisas terrenas; e para advertir os fiéis de que, se desejam ver ali a sublimidade da sua ressurreição, devem passar daqui, dos prazeres baixos, aos desejos das coisas do alto. Jesus precede os discípulos na Galileia porque Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que dormem. Seguem-no, porém, os que são de Cristo, e cada um na sua ordem passa da morte para a vida, contemplando a divindade na sua própria espécie; e a isto convém que Galileia se interprete como revelação.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Mas deve-se considerar de que modo o Senhor pôde ser visto corporalmente na Galileia: pois é manifesto que não foi visto no mesmo dia em que ressuscitou, já que em Jerusalém foi visto naquele dia, ao início da noite, como Lucas e João concordam muito bem; nem tampouco nos oito dias seguintes, depois dos quais João diz que o Senhor apareceu aos discípulos, quando Tomé o viu pela primeira vez, ele que não o tinha visto no dia da sua ressurreição; a menos que alguém diga que os onze que ali estavam não eram aqueles que já então se chamavam apóstolos, mas onze dentre o grande número dos discípulos. Mas surge outra dificuldade que se opõe: pois João, ao recordar que o Senhor foi visto não no monte pelos onze, mas junto ao mar de Tiberíades por sete que pescavam, diz: Esta já foi a terceira vez que Jesus se manifestou a seus discípulos; o que se deve entender referido ao número de dias, não ao número de manifestações. Se, porém, admitirmos que dentro daqueles oito dias, antes que Tomé o tivesse visto, o Senhor foi visto por alguns dos onze discípulos, isto junto ao mar de Tiberíades não terá sido a terceira manifestação, mas a quarta; e por isso somos obrigados a entender que o que os onze discípulos viram no monte da Galileia aconteceu depois de todas as outras. Encontramos, assim, nos quatro Evangelistas, dez vezes mencionado que o Senhor foi visto pelos homens depois da ressurreição: a primeira, junto ao sepulcro, pelas mulheres; a segunda, pelas mesmas, quando saíam do sepulcro, no caminho; a terceira, por Pedro; a quarta, pelos dois que iam ao povoado; a quinta, por muitos em Jerusalém, onde não estava Tomé; a sexta, quando Tomé o viu; a sétima, junto ao mar de Tiberíades; a oitava, no monte da Galileia, segundo Mateus; a nona, a que Marcos menciona, por último, quando estavam à mesa, porque já não estariam na terra para banquetear-se com ele; a décima, no próprio dia, já não na terra, mas elevado numa nuvem, quando subia ao céu: o que Marcos e Lucas mencionam. Mas nem tudo foi escrito, como João confessa: pois era frequente a convivência dele com eles durante quarenta dias, antes que subisse ao céu.
Remígio de Auxerre. Os discípulos, portanto, vendo o Senhor, reconheceram-no e por isso adoravam com os rostos voltados para a terra; e assim o piedoso e clemente Mestre, para tirar toda dúvida dos seus corações, aproximando-se deles, confirmou-os na fé; daí se segue: E Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Foi-me dado todo poder no céu e na terra.
São Jerônimo. Foi dado o poder àquele que pouco antes fora crucificado, sepultado no túmulo, e depois ressuscitou.
Rábano Mauro. Isto, com efeito, não o diz da divindade coeterna com o Pai, mas da humanidade assumida, segundo a qual foi feito um pouco menor que os Anjos.
Severianus. O Filho de Deus conferiu ao filho da Virgem, Deus ao homem, a divindade à carne, aquilo que ele mesmo sempre possuiu com o Pai.
São Jerônimo. Foi-lhe dado poder no céu e na terra para que aquele que antes reinava no céu reine na terra pela fé dos que creem.
Remígio de Auxerre. O que, portanto, o Salmista diz do Senhor ressuscitado: Tu o constituíste sobre as obras de tuas mãos, isto o Senhor diz agora: Foi-me dado todo poder no céu e na terra. E aqui se deve saber que, antes que o Senhor ressuscitasse dos mortos, os Anjos sabiam que estavam sujeitos ao homem Cristo. Querendo, pois, Cristo que também aos homens fosse tornado conhecido que lhe fora dado todo poder no céu e na terra, enviou pregadores que anunciassem a palavra da vida a todas as nações; daí se segue: Ide, portanto, ensinai todas as nações.
São Beda, o Venerável. Aquele que antes da sua paixão dissera: Não ireis pelo caminho dos gentios, ressuscitando dos mortos diz: Ide, ensinai todas as nações. Por isso, sejam confundidos os judeus, que dizem que Cristo viria somente para a salvação deles; envergonhem-se também os donatistas, que, desejando encerrar Cristo num lugar, disseram que ele estava somente na África, não nas outras regiões.
São Jerônimo. Primeiro, portanto, ensinam todas as nações; depois, as já instruídas, mergulham-nas na água: pois não pode acontecer que o corpo receba o sacramento do Batismo sem que antes a alma tenha acolhido a verdade da fé. Batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo: para que daqueles de quem é una a divindade seja una a dádiva, e o nome da Trindade seja um só Deus.
Severianus. Um só e o mesmo poder, portanto, recria para a salvação todas as nações que criou para a vida.
Didymus, de spiritu sancto. Embora alguém possa ser, por assim dizer, de coração pétreo e de mente totalmente alheia, e tente batizar de modo a omitir um dos nomes mencionados, sendo evidentemente contrário a Cristo legislador, contudo batizará sem perfeição; antes, não poderá de modo algum livrar dos pecados aqueles que tiver julgado batizados por si. Disto, porém, se conclui quão indivisa é a substância da Trindade, e que o Pai é verdadeiramente Pai do Filho, e o Filho verdadeiramente Filho do Pai, e o Espírito Santo é verdadeiramente o Espírito do Pai e do Filho de Deus, e além disso da sabedoria e da verdade, isto é, do Filho de Deus. Esta é a salvação dos que creem, e a dispensação da disciplina eclesiástica se realiza nesta Trindade.
Santo Hilário, in Matth. Que, com efeito, não se contém neste sacramento da salvação humana? Todas as coisas são plenas, como proferidas por quem é pleno e perfeito. Pois tem o nome de sua natureza no Pai, mas o Pai é somente Pai: não tem de outro, como à maneira humana, o ser pai; ele é ingênito, eterno, tendo em si sempre, para que sempre seja, o ser conhecido só do Filho. O Filho, por sua vez, é a progênie do ingênito, um que procede de um, verdadeiro do verdadeiro, vivo do vivo, perfeito do perfeito, força da força, sabedoria da sabedoria, glória da glória, imagem do Deus invisível, forma do Pai ingênito. O Espírito Santo, por sua vez, não pode ser separado da confissão do Pai e do Filho. E, de fato, em toda parte não falta este consolo de nossa esperança. Este, nas operações dos dons, é o penhor da esperança futura, este é a luz das mentes, este é o esplendor das almas. Estas coisas, portanto, ainda que os hereges não possam mudá-las, apresentam contudo invenções humanas: como Sabélio, que, quanto ao Pai, de onde tende ao Filho, julga que isso deve ser confessado antes em nomes que em realidades, ao propor o Filho e o Pai nos mesmos; como Ébion, que, concedendo todo o princípio a partir de Maria, apresenta não um homem a partir de Deus, mas um Deus a partir de um homem; como os arianos, que fazem proceder do nada e do tempo a forma, a sabedoria e a força de Deus. Que há de admirar, então, que pensem coisas diversas sobre o Espírito Santo aqueles que são autores tão temerários a respeito do Filho, seu doador?
São Jerônimo. Considera-se aqui, porém, esta ordem principal. Ordenou aos apóstolos que primeiro ensinassem todas as nações, depois as batizassem no sacramento da fé, e, depois da fé e do Batismo, prescrevessem o que deveria ser observado; donde se segue: ensinando-os a observar tudo o que vos mandei.
Rábano Mauro. Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem as obras está morta.
São João Crisóstomo, in Matth. Como lhes havia imposto coisas grandes, levantando-lhes o ânimo, diz: e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos; como se dissesse: não digais que a tarefa imposta é difícil; eu estou convosco, eu que torno leves todas as coisas. Não disse, porém, que estaria somente com eles, mas também com todos os que depois deles creem: pois os apóstolos não iam permanecer até a consumação dos séculos; mas fala aos fiéis como a um só corpo.
Rábano Mauro. Disto se entende que, até o fim do século, não faltarão no mundo os que sejam dignos da morada e inabitação divinas.
São João Crisóstomo, in Matth. Recorda-lhes também a consumação, para atraí-los mais, e para que não olhem somente as coisas presentes, mas também os bens futuros, que permanecerão sem fim; como se dissesse: a tristeza que suportareis será consumida juntamente com a vida presente, e todo o século chegará à consumação; os bens, porém, que possuireis, permanecerão para sempre.
São Beda, o Venerável. Pergunta-se, porém, por que diz aqui eis que eu estou convosco, quando em outro lugar se lê que disse: vou para aquele que me enviou. Mas uma coisa se atribui à humanidade, e outra à divindade. Foi ao Pai segundo a humanidade, mas permanece com os discípulos na forma em que é igual ao Pai. Quanto ao que diz até a consumação dos séculos, põe-se o finito pelo infinito: pois aquele que no século presente permanece com os eleitos, protegendo-os, ele mesmo permanecerá com eles depois do fim, recompensando-os.
São Jerônimo. Aquele, pois, que promete estar com os discípulos até a consumação dos séculos, mostra tanto que eles viverão sempre, como que ele jamais se afastará dos que creem.
Leo Papa, in Serm. de passione. Pois aquele que subiu aos céus não abandona os adotados, e ele mesmo, aqui embaixo, conforta para a paciência os que lá em cima convida à glória; dessa glória nos faça participantes o próprio Cristo, rei da glória, que é Deus bendito pelos séculos. Amém.