Mt 3,1-3
1Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judeia. 2Dizia ele: “Fazei penitência porque está próximo o Reino dos Céus.” 3Este é aquele de quem falou o profeta Isaías, quando disse: Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas (Is 40,3).
São João Crisóstomo, super Matth(séc. IV). O sol, ao aproximar-se, antes de aparecer envia seus raios e faz branquear o oriente, para que a aurora que precede mostre a vinda do dia; assim o Senhor, nascido no mundo, antes de aparecer, enviando pela doutrina o fulgor de seu Espírito, iluminou João, para que ele, precedendo, anunciasse a vinda do Salvador. E por isso, depois de narrado o nascimento de Cristo, o Evangelista, que ia narrar sua doutrina e o Batismo, no qual teve testemunho, apresenta antes o precursor e Batista, dizendo: Naqueles dias veio João Batista pregando no deserto.
Remígio de Auxerre(séc. IX). Com estas palavras, mostra do bem-aventurado João não só o tempo, o lugar e a pessoa, mas também o ofício e o zelo. Mostra o tempo geral quando diz: Naqueles dias.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas(séc. IV–V). Lucas expressou este tempo pelas autoridades terrenas quando disse: no décimo quinto ano. Mas devemos entender que Mateus, ao dizer naqueles dias, quis que se tomasse um espaço de tempo muito mais longo. Pois logo que narrou o regresso de Cristo do Egito, o que sem dúvida se deu no tempo da meninice ou da infância, para que possa subsistir o que Lucas narrou dele aos doze anos, em seguida acrescentou naqueles dias, sem insinuar apenas os dias da meninice dele, mas todos os dias desde o seu nascimento até que João começou a pregar.
Remígio de Auxerre. Mostra a pessoa quando diz: veio João; isto é, manifestou-se aquele que por tanto tempo antes estivera oculto.
São João Crisóstomo. Mas por que foi necessário que João precedesse a Cristo, dando testemunho com obras, enquanto Cristo pregava? Primeiro, para que daí aprendas a dignidade de Cristo, pois, como o Pai, também ele tem profetas, segundo aquilo de Zacarias: E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo. Depois, para que não deixe aos judeus nenhum motivo de vergonha, o que ele mesmo demonstra dizendo: Veio João, que não comia nem bebia, e dizem: Tem demônio. Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: Eis um comilão. Mas também era necessário de outra maneira que as coisas que eram de Cristo fossem ditas primeiro por outro, e não por ele mesmo; de outro modo, que teriam dito os judeus, que depois do testemunho de João disseram: Tu dás testemunho de ti mesmo? O teu testemunho não é verdadeiro?
Remígio de Auxerre. Acrescenta o ofício quando diz Batista, pelo qual preparou o caminho do Senhor: pois, se os homens não estivessem acostumados a ser batizados, teriam horror ao Batismo de Cristo. Mostra o zelo quando diz: pregando.
Rábano Mauro(séc. IX). Porque também Cristo ia pregar: com efeito, depois que lhe pareceu oportuno o tempo, isto é, por volta dos trinta anos, começando sua pregação, preparou o caminho do Senhor.
Remígio de Auxerre. Acrescenta o lugar dizendo: no deserto da Judeia.
São Máximo(séc. V). Onde nem uma multidão insolente perturbasse com barulho a sua pregação, nem um ouvinte infiel voltasse, mas pudessem ouvir somente aqueles que buscassem a pregação com o cuidado do culto divino.
São Jerônimo, super Isaiam(séc. IV–V). Ou também se deve considerar nisto que a salvação de Deus e a glória do Senhor não são pregadas em Jerusalém, mas na solidão da Igreja e na multidão deserta dos gentios.
Santo Hilário, in Matth(séc. IV). Ou também veio à Judeia deserta de freqüência de Deus, não de povo, para que o lugar da pregação testemunhasse a solidão daqueles a quem a pregação fora enviada.
Glosa(séc. XII). Ou, em sentido típico, o deserto significa a vida separada dos atrativos do mundo, que convém aos penitentes.
Santo Agostinho, de utilitate poenitentiae. Se alguém não se arrepender da vida antiga, não pode começar a nova.
Santo Hilário. E por isso, estando próximo o reino dos céus, proclama a penitência, pela qual há retorno do erro, recuo do crime e, depois da vergonha dos vícios, profissão de deixá-los, dizendo: Fazei penitência.
São João Crisóstomo, super Matth. Onde manifesta, desde o próprio princípio, que é mensageiro de um rei benigno: pois não se dirigia menos aos pecadores, mas prometia indulgência. Costumam os reis, quando lhes nasce um filho, conceder indulgência em seu reino; mas antes enviam cobradores severíssimos. Deus, porém, nascido o seu Filho, querendo conceder o perdão dos pecados, enviou adiante como que um cobrador que exige e diz: Fazei penitência. Ó cobrança que não empobreceu, mas enriqueceu! Pois quando alguém paga o débito de sua justiça, nada dá a Deus, mas adquire para si o lucro de sua salvação. Com efeito, a penitência limpa o coração, ilumina os sentidos e prepara para a recepção de Cristo as entranhas humanas; por isso acrescenta: porque se aproximará o reino dos céus.
São Jerônimo. Primeiro, João Batista prega o reino dos céus, para que o precursor do Senhor seja honrado com este privilégio.
São João Crisóstomo, in Matth. E por isso prega os céus e o reino que ali existe, o que os judeus nunca ouviram, nem mesmo dos profetas, e nada mais diz sobre a terra. Assim, pela novidade do que é dito, os anima a buscar aquele que é anunciado.
Remígio de Auxerre. O reino dos céus, porém, se diz de quatro modos: a saber, Cristo, segundo aquilo: o reino de Deus está dentro de vós; a Sagrada Escritura, segundo aquilo: será tirado de vós o reino de Deus e será dado a um povo que produza os seus frutos; a santa Igreja, segundo aquilo: o reino dos céus é semelhante a dez virgens; o trono celeste, segundo aquilo: muitos virão do oriente e do ocidente e se recostarão à mesa no reino dos céus; e tudo isso aqui pode ser entendido.
Glosa. Diz, porém: aproximar-se-á o reino dos céus, porque, se não se aproximasse, ninguém poderia voltar, pois os fracos e cegos estavam privados do caminho, que é Cristo.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Estas palavras de João, os outros Evangelistas omitiram. Quanto ao que se segue: este é aquele de quem foi dito pelo profeta Isaías: voz do que clama no deserto: endireitai as suas veredas, está posto de modo ambíguo, e não fica claro se o Evangelista o mencionou em sua própria pessoa, ou se continuou ainda as palavras do mesmo João, de modo que se entenda que João disse tudo isto: fazei penitência, pois aproximar-se-á o reino dos céus. Pois este é aquele de quem foi dito pelo profeta Isaías. E não deve causar estranheza que não diga: eu sou, mas este é; pois também Mateus disse: viu um homem sentado na coletoria, e não disse: viu-me. Se assim é, não é de admirar que, interrogado sobre o que dizia de si mesmo, como narra João Evangelista, tenha respondido: eu sou a voz do que clama no deserto.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos(séc. VI). Assim como o Filho unigênito é chamado Verbo do Pai, segundo aquilo: No princípio era o Verbo. Ora, pela nossa própria fala somos conhecidos, porque a voz soa para que a palavra possa ser ouvida. Por isso, João, que precede a vinda do Senhor, é chamado voz, porque por seu ministério o Verbo do Pai é ouvido pelos homens.
São João Crisóstomo, super Matth. A voz é também um som confuso, que não mostra nenhum segredo do coração, mas significa apenas que quer dizer algo aquele que clama; a palavra, porém, é o discurso que abre o mistério do coração. Além disso, a voz é comum aos homens e aos animais; a palavra, porém, é só dos homens. Por isso, João foi chamado voz, não palavra, porque por ele Deus não manifestou os seus desígnios, mas apenas que Deus meditava fazer algo entre os homens; depois, porém, por meio de seu Filho abriu plenissimamente o mistério de sua vontade.
Rábano Mauro. Ele é com razão chamado voz do que clama, pela força da pregação. De três modos, porém, ocorre o clamor: isto é, se está longe aquele a quem se fala, se é surdo, ou por indignação; e estas coisas aconteceram ao gênero humano.
Glosa. João é, portanto, como que a voz do Verbo que clama: pois o Verbo clama na voz, isto é, Cristo em João.
São Beda, o Venerável(séc. VII–VIII). Assim como também clamou em todos os que desde o princípio disseram algo por inspiração divina; e, no entanto, só este é a voz, porque por ele é mostrado presente o Verbo, que os outros anunciaram de longe.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. O próprio João é o que clama no deserto, porque anuncia o consolo do Redentor à Judeia abandonada e desamparada.
Remígio de Auxerre. Quanto à história, clamava no deserto porque estava afastado das multidões dos judeus. O que clama, porém, ele o insinua quando acrescenta: preparai o caminho do Senhor.
São João Crisóstomo, super Matth. Pois, assim como diante de um grande rei que vai partir em expedição vão à frente os preparadores, que limpam as sujeiras e consertam o que está arruinado, assim também João precedeu o nosso Senhor, para varrer dos corações humanos, com as vassouras da penitência, as sujeiras dos pecados, e para recompor, pela ordenação dos preceitos espirituais, o que estava disperso.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Todo aquele, porém, que prega a fé reta e as boas obras prepara ao Senhor o caminho nos corações dos que ouvem, faz retas as veredas do Senhor, enquanto forma no espírito pensamentos puros pelo discurso de uma boa pregação.
Glosa. Ou: a fé é o caminho pelo qual o Verbo desce ao coração; quando os costumes são mudados para melhor, tornam-se retas as veredas.
Mt 3,4
4João usava uma vestimenta de pelos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.
São João Crisóstomo, super Matth. Depois de mostrar que ele mesmo é a voz do que clama no deserto, o Evangelista acrescentou com prudência: E o próprio João tinha uma veste de pelos de camelo, no que se mostra qual era a sua vida: pois ele testemunhava a respeito de Cristo, e a sua vida, a respeito de si mesmo. Ora, ninguém pode ser testemunha idônea de outro, se antes não for testemunha de si mesmo.
Santo Hilário, in Matth. Pois para João, que pregava, eram mais oportunos o lugar, mais útil a veste e mais adequado o alimento.
São Jerônimo. Tinha, com efeito, a veste de pelos de camelo, não de lã. Uma coisa é o sinal de uma veste austera, outra o de um luxo mais mole.
São João Crisóstomo, super Matth. Aos servos de Deus não convém ter veste para aparência à vista ou para deleite da carne, mas apenas para cobrir a nudez. João tinha, pois, uma veste não macia nem delicada, mas de pelo grosseiro, pesada e áspera, que mortificava o corpo mais do que o aquecia, para que o próprio hábito do corpo falasse da virtude de sua alma. Segue-se: e um cinto de couro em volta dos rins. Era costume entre os judeus usar cintos de lã; por isso este, querendo fazer algo mais duro, cingia-se com um cinto de couro.
São Jerônimo. Quanto ao que se segue: Seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre, convém ao habitante da solidão que satisfizesse não as delícias dos alimentos, mas as necessidades da carne humana.
Rábano Mauro. Contentava-se com uma alimentação frugal, de pequenas aves e de mel encontrado nos troncos das árvores. Nos ditos de Arnulfo, bispo das Gálias, encontramos que havia no deserto da Judeia uma espécie mínima de gafanhotos, de corpinhos delgados e curtos como um dedo da mão, que facilmente se apanham nas ervas e, cozidos em azeite, oferecem um sabor pobre. Narra igualmente que, no mesmo deserto, há árvores de folhas largas e redondas, de cor leitosa e sabor de mel, que, frágeis por natureza, se esfregam com as mãos e se comem; e é isto que se chama mel silvestre.
Remígio de Auxerre. Sob este hábito de vestes e a vileza dos alimentos, mostra que chora os pecados de todo o gênero humano.
Rábano Mauro. Tanto o seu hábito como o seu alimento podem exprimir a qualidade de sua conduta interior: pois usava roupas mais austeras porque repreendeu a vida dos pecadores.
São Jerônimo. O cinto de couro, com o qual também Elias se cingiu, é sinal de mortificação.
Rábano Mauro. Comia gafanhotos e mel silvestre porque a sua pregação era mais doce ao gosto das multidões; mas teve um fim mais rápido: no mel, com efeito, está a doçura; nos gafanhotos, o voo ligeiro, mas logo decadente.
Remígio de Auxerre. Por João, que se interpreta graça de Deus, significa-se Cristo, que trouxe a graça ao mundo; pela sua veste é designada a Igreja das nações.
Santo Hilário, in Matth. O pregador de Cristo se reveste com os despojos de animais impuros, aos quais se julgam semelhantes os gentios, e torna-se santificado, pelo hábito profético, tudo o que neles era inútil ou imundo. A cintura do cinto, por sua vez, é o preparo eficaz para toda obra boa, para que estejamos cingidos para todo serviço de Cristo. Elegem-se também como alimento os gafanhotos, fugazes, que voam à chegada de qualquer um: somos nós, que, de toda palavra e de todo encontro, éramos levados por certos saltos do corpo, errantes por vontade, inúteis nas obras, queixosos nas palavras, peregrinos de morada; agora somos alimento e saciedade dos santos, eleitos dos profetas, junto com o mel silvestre, para oferecer de nós um alimento dulcíssimo, não dos favos da lei, mas dos troncos das árvores silvestres.
Mt 3,5-6
5Pessoas de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a circunvizinhança do Jordão vinham a ele. 6Confessavam seus pecados e eram batizadas por ele nas águas do Jordão.
São João Crisóstomo, super Matth. Exposta a conduta de João, acrescenta convenientemente: Então saía até ele; pois a conduta de sua vida no ermo ressoava mais do que o som de seu grito.
São João Crisóstomo, in Matth. Era, com efeito, admirável ver num corpo humano tamanha paciência; e isto atraía ainda mais os judeus, que viam nele o grande Elias. Contribuía para o espanto o fato de que a graça dos profetas os tinha abandonado e, depois de longo tempo, parecia voltar a eles. Também o modo mudado da pregação ajudava a isso: não ouviam nada do que estavam habituados a ouvir dos outros profetas, como guerras e vitórias babilônicas e persas, mas os céus, e lá o reino, e o suplício da Geena. Diz, pois: Então saía até ele Jerusalém, toda a Judeia e toda a região ao redor do Jordão, e eram batizados por ele no Jordão.
Glosa. Batismo que precede, não que perdoa os pecados.
Remígio de Auxerre. O batismo de João era figura dos catecúmenos: pois, assim como agora se catequizam as crianças para se tornarem dignas do sacramento do Batismo, assim João batizava, para que os batizados por ele, vivendo depois devotamente, se tornassem dignos de aproximar-se do Batismo de Cristo. Batizava, porém, no Jordão, para que se abrisse a porta do reino celeste ali onde fora dada aos filhos de Israel a entrada para a terra prometida. Segue-se: confessando os seus pecados
São João Crisóstomo, super Matth. Com efeito, em comparação com a santidade de João, quem podia julgar-se justo? Pois, assim como uma veste branca, se for posta junto à neve, será achada suja em comparação com a neve, assim, em comparação com João, todo homem parecia imundo; e por isso confessavam os seus pecados. A confissão dos pecados é testemunho de uma consciência que teme a Deus. Com efeito, o temor perfeito dissolve toda vergonha. Ora, a torpeza da confissão só é vista ali onde não se crê na pena do juízo futuro. E, porque o próprio envergonhar-se é uma pena grave, Deus manda-nos confessar nossos pecados para que soframos a vergonha em lugar da pena: pois isto mesmo é parte do juízo
Rábano Mauro. Com razão se diz que os que iam ser batizados saíam ao encontro do profeta, porque, se alguém não se afasta da enfermidade e não renuncia à pompa do Diabo e aos atrativos do mundo, não poderá alcançar o Batismo salutar. Com razão são batizados no Jordão, que significa descida deles: porque haviam descido da soberba da vida à humildade da verdadeira confissão. Assim já então se dava aos que iam ser batizados o exemplo de confessar os pecados e de prometer uma vida melhor
Mt 3,7-10
7Ao ver, porém, que muitos dos fariseus e dos saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera vindoura? 8Dai, pois, frutos de verdadeira penitência. 9Não digais dentro de vós: Nós temos a Abraão por pai! Pois eu vos digo: Deus é poderoso para suscitar destas pedras filhos a Abraão. 10O machado já está posto à raiz das árvores: toda árvore que não produzir bons frutos será cortada e lançada ao fogo.
São Gregório Magno, regula Pastor. O discurso dos doutores deve ser formado segundo a condição dos ouvintes, de modo que convenha a cada um e, contudo, nunca se afaste do ápice da edificação comum
Glosa. Por isso foi necessário que, depois da doutrina que João transmitira às multidões, o Evangelista fizesse menção também daquela doutrina com que instruiu os que pareciam mais adiantados; e por isso diz: Vendo, porém, muitos dos fariseus e dos saduceus que vinham ao seu batismo
Santo Isidoro, in Lib. Etymol(séc. V). Fariseus e saduceus são contrários entre si: pois fariseus, do hebraico para o latim, se interpreta separados, porque preferem a justiça das tradições e das observâncias: por isso são chamados separados pelo povo, como que por causa da justiça. Saduceus se interpreta justos: pois reivindicam para si o que não são, negam a ressurreição dos corpos e pregam que a alma morre com o corpo. Estes só recebem os cinco livros da lei e rejeitam as predições dos profetas
Glosa. Vendo, pois, João que estes, que entre os judeus pareciam os maiores, vinham ao seu batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos mostrou como fugir da ira que há de vir?
Remígio de Auxerre. É costume das Escrituras impor nomes a partir da imitação das obras, conforme aquilo de Ezequiel: Teu pai era amorreu; assim também estes, por imitarem as víboras, são chamados raça de víboras
São João Crisóstomo, super Matth. Assim como um médico hábil, se vir a cor de um doente, entende a espécie do mal, assim João entendeu os maus pensamentos dos fariseus que vinham a ele; pois talvez tenham pensado consigo: Vamos e confessemos os nossos pecados; ele não nos impõe nenhum trabalho; sejamos batizados e alcancemos o perdão dos pecados. Insensatos! Acaso, feita a digestão da impureza, não é necessário tomar o remédio? Assim, muito cuidado é necessário ao homem depois da confissão e do Batismo, para que a ferida dos pecados seja perfeitamente curada; por isso diz: raça de víboras. Com efeito, é próprio das víboras que, logo que mordem um homem, correm à água, e, se não a encontram, morrem; por isso chamava a estes raça de víboras, porque, cometendo pecados mortíferos, corriam ao Batismo, para que, como as víboras pela água, escapassem apenas dos perigos da morte. Também é próprio das víboras romper as entranhas de suas mães e assim nascer. Como, pois, os judeus, perseguindo continuamente os profetas, corromperam sua mãe, a sinagoga, são chamados raça de víboras. Também as víboras são por fora formosas e como que pintadas, mas por dentro estão cheias de veneno; assim também estes mostravam no rosto a beleza da santidade
Remígio de Auxerre. Quando, pois, se diz: Quem vos mostrou como fugir da ira que há de vir?, subentende-se: senão Deus
São João Crisóstomo, super Matth. Ou: Quem vos mostrou? Acaso o profeta Isaías? De modo algum: pois, se ele vos tivesse ensinado, não poríeis a esperança somente na água, mas também nas boas obras: com efeito, ele diz: Lavai-vos e sede puros; tirai a maldade de vossas almas, aprendei a fazer o bem. Acaso Davi, dizendo: Lavar-me-ás, e ficarei mais branco que a neve? De modo algum: pois ele diz depois: O sacrifício a Deus é um espírito contrito. Se, pois, fôsseis discípulos de Davi, viríeis ao Batismo com gemido
Remígio de Auxerre. Se, porém, mostrará for lido no tempo futuro, este é o sentido: que doutor, que pregador vos dará o conselho para que possais escapar da ira da condenação eterna?
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Deus se irrita, segundo as Escrituras, por uma certa semelhança de obras, não por fraqueza de afetos, e contudo não se perturba por nenhuma paixão: pois esta palavra, ira, tomou-a do efeito da vingança, não de um afeto turbulento. Se, pois, quereis escapar, fazei fruto digno de penitência
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Nestas palavras deve-se notar que ele recomenda que se façam não só frutos de penitência, mas frutos dignos de penitência. Deve-se saber, com efeito, que quem não cometeu nenhum ato ilícito, a este se concede por direito usar das coisas lícitas; mas, se alguém caiu em culpa, deve privar-se das coisas lícitas tanto mais quanto se lembra de ter praticado também as ilícitas. A consciência de cada um é, portanto, interpelada a buscar, pela penitência, ganhos de boas obras tanto maiores quanto mais graves prejuízos se infligiu pela culpa. Mas os judeus, gloriando-se da nobreza de estirpe, não queriam por isso reconhecer-se pecadores, porque descendiam da linhagem de Abraão; e por isso se diz com razão: e não queirais dizer dentro de vós: Temos por pai a Abraão
São João Crisóstomo, in Matth. Disse isto não para os proibir de dizer que eram dele, mas para os proibir de confiar nisso, sem se aplicarem à virtude da alma
São João Crisóstomo, super Matth. Pois de que serve a quem os costumes tornam sórdido uma linhagem ilustre? Ou que prejudica a quem os costumes adornam uma linhagem humilde? Pois é melhor que os pais se gloriem em alguém porque têm tal filho, do que ele mesmo se gloriar nos pais. Assim também vós, não queirais gloriar-vos dizendo: temos por pai Abraão; mas antes envergonhai-vos, porque sois filhos dele e não sois herdeiros de sua santidade. Pois parece nascido de adultério quem não se assemelha ao pai. Exclui, portanto, a glória dos pais, dizendo: e não queirais dizer
Rábano Mauro. Querendo, pois, o arauto da verdade incitá-los a produzir fruto digno de penitência, provocava-os à humildade, sem a qual ninguém pode fazer penitência, acrescentando: Pois eu vos digo que Deus pode, destas pedras, suscitar filhos a Abraão
Remígio de Auxerre. Conta-se que João pregou junto ao Jordão naquele lugar onde, por ordem de Deus, foram postas doze pedras tiradas do meio do leito do Jordão. Pôde, pois, acontecer que, apontando-as, dissesse: destas pedras
São Jerônimo. Nisso indica o poder de Deus: aquele que fez todas as coisas do nada podia também gerar um povo das rochas mais duras.
Glosa. Pois o primeiro rudimento da fé é crer que Deus pode tudo o que quiser.
São João Crisóstomo. Ora, que homens sejam gerados de pedras é semelhante ao que procedeu de Sara, Isaac; por isso também o profeta diz: olhai para a pedra de que fostes talhados. Fazendo-os, portanto, lembrar-se desta profecia, mostra que é possível acontecer agora também algo semelhante.
Rábano Mauro. Ou de outro modo. Pelo nome de pedras são significadas as nações, que adoraram pedras.
Chrysostomus, super Matth. Do mesmo modo, a pedra é dura para o trabalho; mas, feita a obra com ela, não sabe se desgastar; assim também as nações creram, sim, com dificuldade, mas, crendo, permanecem para sempre na fé.
São Jerônimo. Lê Ezequiel: Tirarei de vós, diz, o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. Na pedra se mostra a dureza, na carne a brandura.
Rábano Mauro. Das pedras, portanto, foram suscitados filhos de Abraão, porque, ao crerem os gentios na descendência de Abraão, isto é, em Cristo, tornaram-se filhos daquele a cuja descendência foram unidos. Segue-se: Já, pois, o machado está posto à raiz da árvore.
São João Crisóstomo, super Matth. O machado é a ira agudíssima da consumação, que cortará o mundo inteiro. Mas, se está posto, por que não corta? Porque as árvores são racionais e têm em seu poder fazer o bem ou não fazer; para que, vendo o machado posto às suas raízes, temam e deem fruto. Portanto, a denúncia da ira, que é a posição do machado, embora nada faça nos maus, separa contudo os bons dos maus.
São Jerônimo. Ou o machado é a pregação do Evangelho, segundo Jeremias, que compara a palavra do Senhor a um machado que fende a pedra.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Ou o machado é nosso Redentor, que, como de cabo e ferro, constando de divindade e humanidade, é seguro pela humanidade, mas corta pela divindade; machado que, com efeito, está posto à raiz da árvore, porque, embora espere com paciência, vê-se contudo o que está para fazer. Toda árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada ao fogo: porque cada perverso, que aqui despreza produzir fruto de boa obra, encontra mais depressa preparada a queima da Geena. Diz que o machado está posto não junto aos ramos, mas à raiz: pois quando os filhos dos maus são tirados, cortam-se os ramos da árvore infrutífera; quando, porém, toda a descendência é tirada junto com o pai, a árvore infrutífera é cortada pela raiz, para que não reste de onde torne a brotar uma prole má.
São João Crisóstomo, in Matth. Ao dizer toda, exclui o primado que vem da nobreza; como se dissesse: ainda que sejas neto de Abraão, sofrerás a pena, permanecendo sem fruto.
Rábano Mauro. Quatro são as espécies de árvores: uma é toda seca, à qual se assemelham os pagãos; outra, verde, mas sem fruto, à qual se assemelham os hipócritas; a terceira, verde e frutuosa, mas venenosa, à qual se assemelham os hereges; a quarta é verde e produz bom fruto, à qual se assemelham os varões católicos.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Portanto, toda árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada ao fogo: porque encontra preparado o ardor da Geena aquele que aqui despreza produzir o fruto da boa obra.
Mt 3,11-12
11Eu vos batizo com água, em sinal de penitência, mas aquele que virá depois de mim é mais poderoso do que eu e nem sou digno de carregar seus calçados. Ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo. 12Tem na mão a pá, limpará sua eira e recolherá o trigo ao celeiro. As palhas, porém, serão queimadas num fogo inextinguível”.
Glosa. Porque, nas palavras precedentes, João havia explicado o que acima pregou em resumo sobre a penitência a ser feita, restava que pregasse também mais distintamente o que já dissera sobre a proximidade do reino dos céus; por isso disse: Eu, na verdade, vos batizo com água para a penitência.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. João batiza não no Espírito, mas na água, porque não podia perdoar os pecados: lava os corpos pela água, mas não lava as almas pelo perdão.
São João Crisóstomo, in Matth. Com efeito, como ainda não tinha sido oferecida a hóstia, nem o pecado tinha sido destruído, nem o Espírito tinha descido sobre a água, como se daria a remissão dos pecados? Mas, porque os judeus de modo algum sentiam os próprios pecados, e isso era para eles causa de males, veio João, conduzindo-os ao conhecimento dos próprios pecados, lembrando-lhes a penitência.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Por que, então, batiza aquele que não perdoa os pecados, senão para que, guardando a ordem de seu ofício de precursor, ele, que ao nascer havia precedido aquele que haveria de nascer, precedesse também ao batizar o Senhor que haveria de batizar?
São João Crisóstomo, super Matth. Ou João fora enviado para batizar, a fim de anunciar aos que vinham ao Batismo a presença do Filho de Deus no corpo, como ele mesmo testemunha em outro lugar, dizendo: Para que ele seja manifestado em Israel, por isso vim eu batizar com água.
Santo Agostinho, super Ioannem. Ou batiza porque convinha que Cristo fosse batizado. Mas por que não foi batizado por João somente ele, se João fora enviado para que Cristo fosse batizado por ele? Porque, se somente o Senhor tivesse sido batizado com o batismo de João, não faltariam os que julgassem que o batismo de João era maior que o batismo de Cristo, a ponto de somente Cristo ter merecido ser batizado com ele.
Rábano Mauro. Ou batiza para que, separando os penitentes dos impenitentes por este sinal, os conduza ao Batismo de Cristo.
São João Crisóstomo, super Matth. Portanto, como batizava por causa de Cristo, anuncia aos que vêm a ele que Cristo haverá de aparecer, e proclama a excelência do poder dele, dizendo: Aquele, porém, que vem depois de mim é mais forte do que eu.
Remígio de Auxerre. Deve-se saber que Cristo veio depois de João de cinco modos: nascendo, pregando, batizando, morrendo e descendo aos Infernos. E com acerto o Senhor é dito mais forte que João, porque aquele é puro homem, este, porém, Deus e homem.
Rábano Mauro. Como se João dissesse: eu, na verdade, sou forte em convidar à penitência, ele em perdoar os pecados; eu em pregar o reino dos céus, ele em dá-lo; eu em batizar na água, ele no Espírito.
São João Crisóstomo, in Matth. Quando ouvires: é mais forte do que eu, não penses que digo isso por comparação; pois nem sequer sou digno de ser contado entre os servos dele, para assumir a mais ínfima parcela do serviço; por isso acrescenta: cujas sandálias não sou digno de levar.
Santo Hilário, in Matth. Deixando, sem dúvida, aos Apóstolos a glória de levar por toda parte a pregação, a eles, de pés formosos, cabia anunciar a paz de Deus.
São João Crisóstomo, super Matth. Ou, pelos pés de Cristo, podemos entender os cristãos, principalmente os Apóstolos e os demais pregadores, entre os quais estava João Batista; as sandálias, porém, são as fraquezas com que se cobrem os pregadores. Essas sandálias de Cristo, pois, todos os pregadores as levam; e João também as levava; mas declara não ser digno de levá-las, para mostrar que a graça de Cristo é maior que os méritos dele.
São Jerônimo. Em outro Evangelho diz: cujas sandálias não sou digno de desatar a correia. Aqui se mostra a humildade, ali o serviço, porque, sendo Cristo o esposo, e não merecendo João desatar a correia do esposo, para que não seja chamada a casa dele, segundo a lei de Moisés e o exemplo de Rute, casa do descalçado.
São João Crisóstomo, super Matth. Como ninguém pode dar um benefício maior do que o que ele mesmo é, nem fazer em outro o que ele mesmo não é, ele acrescenta com acerto: Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. João, sendo corporal, não pode dar o Batismo espiritual, mas batiza na água, que é corpo; e assim batiza corpo com corpo. Cristo, porém, é espírito, porque é Deus. O Espírito Santo também é espírito; a alma também é espírito: por isso, espírito com espírito batiza o nosso espírito. O Batismo do espírito aproveita, porque o espírito, ao entrar, envolve a alma e a cerca como por um muro inexpugnável, e não permite que as concupiscências carnais prevaleçam contra ela. Não faz, de fato, que a carne não deseje, mas sustenta a alma para que não consinta com ela. E porque Cristo é juiz, batiza no fogo, isto é, nas tentações; ora, um homem comum não pode batizar no fogo. Pois tem a licença de tentar aquele que tem o poder de recompensar. Este Batismo da tribulação, isto é, do fogo, queima a carne para que não faça germinar concupiscências: pois a carne não teme as penas espirituais, mas as carnais. Por isso, o Senhor envia aos seus servos tribulações carnais, para que a carne, temendo suas angústias, não deseje o mal. Vês, portanto, que o espírito repele as concupiscências e não deixa que prevaleçam; o fogo, porém, queima as próprias raízes das concupiscências.
São Jerônimo. Ou então no Espírito Santo e no fogo: porque o Espírito Santo é fogo, e, ao descer, pousou como fogo sobre as línguas dos que criam. E cumpriu-se a palavra do Senhor, que diz: Vim lançar fogo sobre a terra; ou porque, no presente, somos batizados no Espírito, e, no futuro, no fogo, segundo aquilo do Apóstolo: O fogo provará qual seja a obra de cada um.
São João Crisóstomo, in Matth. Ele não diz: dar-vos-á o Espírito Santo, mas vos batizará no Espírito Santo, mostrando por metáfora a abundância da graça. Com isso se mostra também que, na fé, para justificar basta a vontade, e não trabalhos e suores; e, assim como é fácil ser batizado, assim é fácil ser por ele transformado e tornar-se melhor. No fogo, porém, demonstra a veemência da graça, que não pode ser vencida; e para que se compreenda que de repente os torna semelhantes aos antigos e grandes profetas: por isso menciona o fogo, porque muitas das visões proféticas apareceram por meio do fogo.
São João Crisóstomo, super Matth. Fica claro, portanto, que o Batismo de Cristo não anula o Batismo de João, mas o incluiu em si: com efeito, quem é batizado em nome de Cristo possui os dois Batismos, o da água e o do espírito: porque Cristo era também espírito e assumiu um corpo, para dar o Batismo corporal e o espiritual. O Batismo de João, porém, não inclui em si o Batismo de Cristo, porque o que é menor não pode incluir em si o maior. Por isso, o Apóstolo, tendo encontrado alguns efésios batizados com o Batismo de João, batizou-os de novo em nome de Cristo, porque não tinham sido batizados no espírito; e também Cristo batizou de novo os que haviam sido batizados por João, como mostra a palavra de João, que diz: Eu vos batizo na água, ele vos batizará no Espírito. E não parecia batizar de novo, mas uma só vez: pois, como o Batismo de Cristo era maior que o de João, dava-se um novo, e não se repetia.
Santo Hilário, in Matth. Assim designa no Senhor o tempo de nossa salvação e do juízo, dizendo: Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo, porque, para os batizados no Espírito Santo, resta ser consumados pelo fogo do juízo; por isso se acrescenta: Tem na mão a sua pá.
Rábano Mauro. Pela pá, isto é, pelo ventilabro, designa-se o discernimento do exame justo, que o Senhor tem na mão, isto é, em seu poder, porque o Pai deu todo o juízo ao Filho. Segue-se: E limpará completamente a sua eira.
São João Crisóstomo, super Matth. A eira é a Igreja; o celeiro, o reino dos céus; o campo, este mundo. O Senhor, enviando os apóstolos e os demais doutores como ceifeiros, cortou todos os povos do mundo e os reuniu na eira da Igreja. Aqui, portanto, devemos ser debulhados, aqui ser joeirados: pois todos os homens se deleitam nas coisas carnais, como os grãos na palha. Mas quem é fiel e tem a medula de um bom coração, logo que é levemente atribulado, deixando as coisas carnais, corre ao Senhor; se, porém, for de pouca fé, só com grande tribulação; quem, no entanto, é totalmente infiel e vazio, por mais que seja atribulado, não passa para Deus. O trigo, quando acaba de ser debulhado, jaz confundido com as palhas num só lugar, e depois é joeirado para ser separado; assim também, numa só Igreja, os fiéis se acham misturados com os infiéis; por isso levanta-se a perseguição como um vento, para que, lançados pela pá de Cristo, os que já estavam separados pelas obras sejam separados também pelos lugares. E vê que não disse: limpará a sua eira, mas limpará completamente: pois é necessário que a Igreja seja tentada de diversos modos até ser completamente limpa. E primeiro a joeiraram os judeus, depois os gentios, agora os hereges, depois a joeirará por completo o Anticristo. Assim como, quando o vento é fraco, não se limpa toda a massa do trigo, mas as palhas mais leves são lançadas e as mais pesadas permanecem, assim também agora, soprando o leve vento da tentação, os piores homens se afastam. Se, porém, se levantar uma tempestade maior, sairão também os que parecem estar firmes. Por isso é necessária uma tentação maior, para que a Igreja seja completamente limpa.
Remígio de Auxerre. Esta eira, isto é, a Igreja, o Senhor a limpa também nesta vida, quando os maus são retirados da Igreja pelo juízo dos sacerdotes, ou são cortados desta vida pela morte.
Rábano Mauro. Universalmente, porém, a purificação da eira se completará no fim, quando o Filho do homem enviar os seus anjos e recolher de seu reino todos os escândalos.
São Gregório Magno(séc. VI). Pois, depois da debulha da vida presente, na qual agora o trigo geme sob as palhas, o trigo e a palha são de tal modo discernidos por aquele ventilabro do juízo final que nem as palhas passam para o celeiro do trigo, nem os grãos do celeiro caem no fogo das palhas; e é isto o que se segue: E recolherá o seu trigo no celeiro, e queimará a palha num fogo inextinguível.
Santo Hilário, in Matth. Diz que o seu trigo, isto é, os frutos perfeitos dos que creem, será guardado nos celeiros celestes; as palhas, porém, são a vaidade dos homens infrutuosos.
Rábano Mauro. Mas entre as palhas e o joio há esta diferença: que as palhas não nascem senão da semente do trigo, ao passo que o joio nasce de semente diferente. Palhas, portanto, são os que são embebidos nos sacramentos da fé, mas não são sólidos; joio, porém, os que, pela obra e pela profissão, são separados da sorte dos bons.
Remígio de Auxerre. O fogo, porém, diz-se inextinguível por ser a pena da condenação eterna: ou porque nunca extingue os que uma vez recebeu, mas sempre os atormenta; ou para diferenciá-lo do fogo do Purgatório, que se acende por um tempo e se extingue.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Se, porém, se pergunta quais palavras João Batista disse de preferência, se as que Mateus, ou as que Lucas, ou as que Marcos relata que ele disse, julga que não se deve de modo algum esforçar-se nisto quem entende com prudência que as próprias sentenças são necessárias para o conhecimento da verdade, quaisquer que tenham sido as palavras com que foram expressas. E nisto se vê que não devemos julgar que alguém mente se, lembrando-se vários de uma coisa que ouviram ou viram, essa mesma coisa não foi indicada do mesmo modo e com as mesmas palavras. Quem quer que diga que, pelo poder do Espírito Santo, foi concedido aos Evangelistas que não discrepassem nem no gênero das palavras, nem na ordem, nem no número, não entende que, quanto mais a autoridade dos Evangelistas se sobressai, tanto mais por meio deles devia ser confirmada a segurança dos demais homens que dizem a verdade. Quanto ao fato de um ter dito: cujas sandálias não sou digno de carregar, e outro: de desatar a correia da sandália, parece ser algo diferente, não só nas palavras, mas também na própria coisa. Com razão, portanto, pode-se perguntar qual destas João disse. Parece, com efeito, ter narrado a verdade quem pôde narrar o que ele disse; quem, porém, narrou outra coisa, ainda que não tenha mentido, será tido ao menos por esquecido, que disse uma coisa por outra. Ora, convém que toda falsidade esteja ausente dos Evangelistas, não só a que se produz mentindo, mas também a que se produz esquecendo. Assim, se importa para o assunto compreender algo diferente de cada um dos ditos, deve-se julgar com acerto que João disse ambos, ou em tempos diferentes, ou de imediato. Se, porém, João, ao falar das sandálias do Senhor, não visou senão à excelência dele e à sua própria humildade, qualquer dos ditos que tenha dito, manteve contudo a mesma sentença, e quem quer que, com suas próprias palavras, tenha expressado, pela menção das sandálias, a mesma significação de humildade, não se desviou da mesma intenção. Útil, portanto, é este modo, e digno de ser confiado à memória: não é mentira quando alguém explica a intenção daquele de quem narra algo, mesmo dizendo algo diferente do que ele não disse; explicou, contudo, a sua intenção, a mesma que tinha aquele cujas palavras recorda. Assim, com efeito, dizemos de modo salutar que não se deve buscar outra coisa senão o que quer aquele que fala.
Mt 3,13-15
13Da Galileia foi Jesus ao Jordão ter com João, a fim de ser batizado por ele. 14João recusava-se: “Eu devo ser batizado por ti e tu vens a mim!”. 15Mas Jesus lhe respondeu: “Deixa por agora, pois convém cumpramos a justiça completa”. Então, João cedeu.
Glosa. Depois de Cristo ter sido anunciado ao mundo pela pregação de seu precursor, quis enfim manifestar-se aos homens aquele que por muito tempo estivera oculto; por isso se diz: Então veio Jesus da Galileia ao Jordão, a João, para ser batizado por ele.
Remígio de Auxerre. É preciso saber que nestas palavras são descritos as pessoas, os lugares, o tempo e o ofício. O tempo, quando diz: Então.
Rábano Mauro. Isto é, quando tinha trinta anos: com isso mostra que ninguém deve ser instituído nem sacerdote nem pregador, a não ser que seja de idade perfeita. José, aos trinta anos, assumiu o governo do Egito; Davi começou a reinar com essa idade; Ezequiel mereceu a profecia por volta do mesmo tempo.
São João Crisóstomo, in Matth. Porque, mesmo depois do Batismo, convinha que esta lei cessasse, veio ao Batismo com esta idade, em que se podem assumir todos os pecados, para que, tendo guardado a lei, ninguém dissesse que a anulou porque não pôde cumpri-la.
São João Crisóstomo, super Matth. Então também, isto é, quando João havia pregado: Fazei penitência, para confirmar a pregação dele e para receber o testemunho de João. Assim como, quando surge a estrela da manhã, a luz do sol não espera o ocaso da estrela da manhã, mas, enquanto ela avança, sai e com sua luz obscurece o brilho dela, assim também Cristo não esperou que João completasse o seu curso, mas apareceu quando ele ainda ensinava.
Remígio de Auxerre. As pessoas são apresentadas quando diz: Jesus veio a João, isto é, Deus ao homem, o Senhor ao servo, o rei ao soldado, a luz à lamparina. Os lugares são indicados quando diz: da Galileia para o Jordão. Com efeito, Galileia se interpreta migração. Quem, pois, quer ser batizado, migre dos vícios para as virtudes e, ao vir ao Batismo, humilhe-se: com efeito, Jordão se interpreta descida.
Santo Agostinho, in Serm. de Epiph. A Sagrada Escritura recorda que muitos prodígios foram feitos com frequência neste rio, dizendo, entre outras coisas: O Jordão voltou atrás. Antes, as águas haviam voltado atrás; agora, os pecados voltaram atrás; assim como também Elias fez no Jordão a divisão das águas, e Cristo, o Senhor, no mesmo Jordão operou a separação dos pecados.
Remígio de Auxerre. O ofício é indicado quando segue: para ser batizado por ele.
São João Crisóstomo, super Matth. Não para receber ele mesmo a remissão dos pecados pelo Batismo, mas para deixar santificadas as águas para os que seriam batizados depois.
Santo Agostinho. Com efeito, o Salvador quis ser batizado não para adquirir pureza para si, mas para purificar para nós as águas correntes. Desde que ele mesmo foi mergulhado na água, desde então a água lava os pecados de todos. Nem é de admirar que digamos que a água, isto é, uma substância corporal, chega a purificar a alma: chega, sem dúvida, e penetra todos os recônditos da consciência. Pois, embora seja sutil e tênue, tornada mais sutil ainda pela bênção de Cristo, atravessa com orvalho mais sutil as causas ocultas da vida e os segredos da mente. Com efeito, o curso das bênçãos é mais sutil que o escoamento das águas. Por isso, a bênção que fluiu do Batismo do Salvador, como um rio espiritual, encheu o curso de todos os abismos e as veias de todas as fontes.
São João Crisóstomo, super Matth. Veio ao Batismo para isto: para que, tendo assumido a natureza humana, fosse achado como quem cumpriu todo o mistério da natureza humana; pois, embora ele não fosse pecador, assumiu, contudo, uma natureza pecadora. Por isso, ainda que não precisasse do Batismo para si, a natureza carnal, porém, tinha necessidade dele para os outros.
Santo Agostinho, in Serm. de Epiph. Também quis ser batizado porque quis fazer o que mandava que todos fizessem, para que, como bom mestre, não insinuasse sua doutrina tanto com palavras quanto a exercesse com atos.
Santo Agostinho, super Ioannem. Dignou-se, pois, ser batizado por João para que os servos reconhecessem com quanta presteza devem correr ao Batismo do Senhor, quando ele mesmo não desdenhou receber o Batismo do servo.
São Jerônimo. Também quis ser batizado para confirmar com o seu Batismo o Batismo de João.
São João Crisóstomo, in Matth. Mas como o Batismo era de penitência e era introduzido como demonstração dos delitos, para que ninguém pensasse que Cristo veio ao Jordão por esse motivo, disse-lhe quando veio: Eu devo ser batizado por ti, e tu vens a mim? Como se dissesse:
São João Crisóstomo, super Matth.. que tu me batizes é razão adequada, para que eu me torne justo e digno do céu; mas que eu te batize, qual é a razão? Todo bem desce do céu à terra, não sobe da terra ao céu.
Santo Hilário, in Matth. Por fim, é impedido de ser batizado por João como Deus, e ensina como homem que assim convém que se faça nele; donde se segue: Respondendo, porém, Jesus disse-lhe: Deixa por ora.
São Jerônimo. Disse belamente por ora, para mostrar que Cristo havia de ser batizado na água por João, e João por Cristo no Espírito. Ou de outro modo: deixa por ora, para que eu, que assumi a forma de servo, cumpra também a sua humildade; do contrário, sabe que no dia do juízo tu serás batizado com o meu Batismo. Ou ainda: deixa por ora, como se o Senhor dissesse: tenho também outro Batismo, com o qual devo ser batizado. Tu me batizas na água, para que eu te batize por mim no teu sangue.
São João Crisóstomo, super Matth. Nisto mostra também que depois Cristo batizou João, embora isso também esteja escrito claramente nos livros apócrifos. Mas deixa por ora, para que eu cumpra a justiça do Batismo não com palavras, mas com obras: primeiro receberei, depois pregarei; donde se segue: Pois assim nos convém cumprir toda a justiça; onde não significa que, tendo sido batizado, cumpra toda a justiça, mas assim: isto é, do modo como cumpriu primeiro com obras a justiça do Batismo e depois a pregou, assim também toda outra justiça, segundo aquilo: Jesus começou a fazer e a ensinar. Ou assim: assim nos convém cumprir toda a justiça do Batismo, isto é, segundo a dispensação da natureza humana; pois assim cumpriu a justiça de nascer, de crescer e de coisas semelhantes.
Santo Hilário, in Matth. Também por meio dele devia ser cumprida toda a justiça, por meio de quem somente a lei podia ser cumprida.
São Jerônimo. Não acrescenta, porém, a justiça da lei ou da natureza, para que entendamos ambas.
Remígio de Auxerre. Ou assim: convém-nos cumprir toda a justiça, isto é, mostrar o exemplo de toda a justiça a ser cumprida no Batismo, sem o qual não se abre a entrada do reino dos céus. Ou também, que os soberbos aprendam o exemplo de humildade, para que não se recusem a ser batizados pelos meus membros humildes, quando virem que fui batizado por ti, João, meu servo. Aquela, porém, é a verdadeira humildade que a obediência acompanha; donde se acrescenta: Então o deixou, isto é, por fim deu o seu assentimento para que o batizasse.
Mt 3,16
16Depois que Jesus foi batizado, saiu logo da água. Eis que os céus se abriram e viu descer sobre ele, em forma de pomba, o Espírito de Deus.
Santo Agostinho, in Serm. de Epiph. Porque, como foi dito, quando o nosso Salvador é lavado, toda a água já então é purificada para o nosso Batismo, a fim de que a graça do lavacro seja ministrada aos povos que viriam depois. Convinha também que pelo Batismo de Cristo fossem significadas as coisas que os fiéis alcançam por meio do Batismo; donde se diz: Tendo sido batizado, Jesus saiu logo da água.
São João Crisóstomo, super Matth. O feito de Cristo pertence ao mistério de todos os que depois haviam de ser batizados; e por isso disse logo, e não disse simplesmente saiu: porque todos os que são dignamente batizados em Cristo saem logo da água, isto é, progridem nas virtudes e são elevados à dignidade celeste; pois os que haviam entrado na água carnais e filhos pecadores de Adão, saem logo da água feitos espirituais filhos de Deus. Se, porém, alguns, por sua culpa, nada progridem depois de batizados, que tem isso a ver com o Batismo?
Rábano Mauro. Porque, pois, o Senhor consagrou para nós o lavacro do Batismo pela imersão do seu corpo, mostrou também que, depois de recebido o Batismo, a entrada do céu está aberta para nós e o Espírito Santo nos é dado; donde se segue: E abriram-se-lhe os céus.
São Jerônimo, in Matth. Não por uma abertura dos elementos, mas aos olhos espirituais, como também Ezequiel recorda que se abriram no princípio do seu livro.
São João Crisóstomo, super Matth. Se, com efeito, a própria criatura dos céus tivesse sido rompida, não teria dito abriram-se-lhe, porque o que se abre corporalmente está aberto a todos. Mas dirá alguém: Que é isto? Estavam fechados os céus diante dos olhos do Filho de Deus, que mesmo estando na terra estava no céu? Mas deve-se saber que, assim como foi batizado segundo a dispensação humana, assim, segundo a dispensação humana, abriram-se-lhe os céus; segundo a natureza divina, porém, estava nos céus.
Santo Agostinho. Mas porventura então, pela primeira vez, abriram-se-lhe os céus também segundo a natureza humana? Pois a fé da Igreja crê e sustenta que os céus não estavam menos abertos para ele antes do que depois. Diz-se, portanto, que se lhe abriram os céus, porque a porta do reino celeste se abre a todos os renascidos.
São João Crisóstomo, super Matth. Talvez houvesse antes certos obstáculos invisíveis, por cuja resistência as almas dos defuntos não podiam entrar nos céus. Com efeito, julgo que nenhuma alma subiu ao céu antes de Cristo, desde que Adão pecou e os céus foram fechados. Mas eis que, batizado Cristo, apenas se abriram; depois, porém, que venceu o tirano pela cruz, como as portas não eram necessárias a um céu que nunca mais seria fechado, os Anjos não dizem: abri as portas, pois já estavam abertas, mas: levantai as portas. Ou: aos batizados abrem-se os céus, e veem as coisas que estão no céu, não vendo com olhos carnais, mas crendo com os espirituais da fé. Ou assim: os céus são as Escrituras divinas, que todos leem, mas nem todos entendem, a não ser os que tiverem sido batizados de modo a receber o Espírito Santo. Por isso também aos apóstolos estavam antes fechadas as Escrituras dos profetas; mas, recebido o Espírito Santo, todas as Escrituras lhes foram abertas. Contudo, de qualquer modo que se entenda, os céus abriram-se-lhe, isto é, a todos por causa dele; como se o imperador dissesse a alguém que pede por outro: este benefício não o dou a ele, mas a ti: isto é, por causa de ti a ele.
Glosa. Ou tão grande esplendor circundou Cristo no Batismo, que o céu Empíreo pareceu estar aberto.
São João Crisóstomo, in Matth. Se, porém, tu não vês, não sejas incrédulo; com efeito, nos princípios das coisas espirituais aparecem sempre visões sensíveis, por causa daqueles que não podem receber nenhuma inteligência da natureza incorpórea; para que, se depois isso não acontecer, recebam a fé a partir das coisas que uma vez aconteceram.
Remígio de Auxerre. Assim como a porta do reino celeste se abre a todos os que renasceram pelo Batismo, assim também todos recebem no Batismo os dons do Espírito Santo; por isso se acrescenta: e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba, e vir sobre ele.
Santo Agostinho, in Serm. 1 in Dom. infra Oct. Epiph. Com efeito, depois de ter nascido, Cristo renasce para os homens pelos sacramentos; para que, assim como então o admiramos gerado de uma mãe incorrupta, assim também agora o recebamos mergulhado na água pura. A mãe deu à luz o Filho, e é casta; a água lavou Cristo, e é santa. Enfim, o Espírito Santo, que então esteve com ele no seio, agora o envolveu na corrente; ele, que então tornou Maria casta, agora santifica as águas. Por isso diz: e viu o Espírito de Deus descer.
São João Crisóstomo, super Matth. O Espírito Santo tomou a aparência de pomba porque, entre todos os animais, este é o cultor da caridade. Com efeito, todas as aparências de justiça que os servos de Deus têm em verdade, os servos do Diabo podem tê-las em simulação; mas somente a caridade do Espírito Santo o espírito imundo não pode imitar. Por isso, portanto, o Espírito Santo reservou para ti este sinal próprio da caridade, porque por nenhum testemunho se conhece tão bem onde está o Espírito Santo como pela graça da caridade.
Rábano Mauro. Também se significam pela pomba quatro virtudes nos batizados. A pomba habita junto às correntes de água, para que, ao ver o gavião, se mergulhe e escape; escolhe os melhores grãos, alimenta filhotes alheios, não dilacera com o bico, não tem fel, faz o ninho nas cavernas da rocha, tem o gemido por canto; assim também os santos moram junto às correntes da divina Escritura, para escapar ao assalto do Diabo; escolhem as sentenças sãs com que se alimentem, não as heréticas; os homens que foram filhotes do Diabo, isto é, seus imitadores, nutrem-nos com a doutrina e o exemplo; não pervertem as boas sentenças dilacerando-as, como fazem os hereges; carecem de ira irreconciliável; nas chagas da morte de Cristo, que é a rocha firme, põem o seu ninho, isto é, o seu refúgio e a sua esperança; assim como outros se deleitam no canto, eles se deleitam no gemido pelos pecados.
São João Crisóstomo, in Matth. Lembra também a história antiga: no dilúvio, com efeito, apareceu este animal, trazendo um ramo de oliveira e anunciando a tranquilidade comum do mundo; tudo isso eram figuras das coisas futuras. Pois agora a pomba aparece mostrando-nos o libertador e, em lugar do ramo de oliveira, traz ao gênero humano a adoção.
Santo Agostinho, de Trin. É fácil entender por que se diz que o Espírito Santo foi enviado, quando desceu sobre o próprio Senhor em forma corporal, como pomba: foi feita, com efeito, no tempo, uma certa aparência da criatura, na qual o Espírito Santo se mostrasse visivelmente. Essa operação, expressa visivelmente e oferecida aos olhos dos mortais, chamou-se missão do Espírito Santo; não para que aparecesse a sua substância invisível, mas para que os corações dos homens, comovidos pelas coisas vistas exteriormente, se voltassem para a eternidade oculta. Mas a criatura na qual o Espírito Santo apareceu não foi assumida na unidade da pessoa, como foi assumida aquela forma humana nascida da Virgem. Pois o Espírito não beatificou a pomba, nem a uniu a si para sempre na unidade de sua pessoa. Por isso, embora aquela pomba tenha sido chamada Espírito, para que se mostrasse o Espírito por meio da pomba, não podemos, contudo, dizer que o Espírito Santo é Deus e pomba, como dizemos que o Filho é Deus e homem; nem como dizemos que o Filho é o Cordeiro de Deus, não só pela palavra de João Batista, mas também por João Evangelista, que vê no Apocalipse o Cordeiro imolado: aquela visão, com efeito, era profética, não foi apresentada aos olhos do corpo por formas corporais, mas no espírito por imagens espirituais dos corpos. Quanto àquela pomba, porém, ninguém jamais duvidou de que foi vista com os olhos; nem, como dizemos que o Filho é a rocha (está escrito em 1Cor 10,4: a rocha era Cristo), podemos dizer que o Espírito é a pomba. Pois aquela rocha já existia na criação e, pelo modo de sua ação, foi chamada com o nome de Cristo, a quem significava; mas não assim aquela pomba, que surgiu de repente só para significar essas coisas. Parece-me mais semelhante à chama que apareceu a Moisés na sarça, e àquela que o povo no deserto, enquanto a lei era dada no monte. A isso se seguiam também os relâmpagos e trovões; pois a aparência corporal dessas coisas surgiu para significar algo e passar. Por causa dessas formas corporais, portanto, diz-se que o Espírito Santo foi enviado; aquelas aparências corporais, porém, apareceram por um tempo para mostrar o que era necessário, e depois cessaram.
São Jerônimo, in Matth. Sentou-se sobre a cabeça de Jesus, para que ninguém pensasse que a voz do Pai foi dirigida a João e não ao Senhor; por isso segue: e vir sobre ele.
Mt 3,17
17E do céu baixou uma voz: “Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição”.
Santo Agostinho, in Serm. de Epiph. Com efeito, o Pai não ensinou, como antes, por Moisés ou pelos profetas, nem por tipos ou figuras, que o Filho viria na carne, mas mostrou abertamente que veio, dizendo: Este é o meu Filho.
Santo Hilário, in Matth. Ou então, para que, por aquilo que se cumpria em Cristo, conhecêssemos que, depois do banho da água, o Espírito Santo voa sobre nós das portas celestes, e somos banhados pela unção da glória celeste, e nos tornamos filhos de Deus pela adoção da voz do Pai.
São Jerônimo, in Matth. O mistério da Trindade é mostrado no Batismo. O Senhor é batizado, o Espírito desce em forma de pomba, ouve-se a voz do Pai dando testemunho ao Filho.
Santo Agostinho, in Serm. de Epiph. Não é de admirar que no banho do Senhor não faltasse o mistério da Trindade, quando o nosso banho completa o sacramento da Trindade. Com efeito, o Senhor quis mostrar primeiro em si mesmo aquilo que depois haveria de prescrever ao gênero humano.
Santo Agostinho, de fide ad Petrum. Embora o Pai, o Filho e o Espírito Santo sejam uma só natureza, mantém firmemente, contudo, que são três pessoas; e que só o Pai é quem disse: Este é o meu Filho amado; e que só o Filho é aquele sobre quem ressoou aquela voz do Pai; e que só o Espírito Santo é quem desceu em forma de pomba sobre Cristo batizado.
Santo Agostinho, de Trin. Estas, porém, são obras de toda a Trindade. Na sua substância, com efeito, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só, sem quaisquer intervalos de tempo ou de lugar; mas em minhas palavras estão separados o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e não poderão ser ditos ao mesmo tempo; e nas letras visíveis mantiveram separadamente seus espaços de lugar: porque se conhece de algum modo, por semelhança, que a Trindade, inseparável em si mesma, é mostrada separadamente por meio da aparência de uma criatura visível. Que seja somente a voz do Pai, mostra-se pelo que ele diz: Este é o meu Filho.
Santo Hilário, in libro de Trin. Não só atestou pelo nome que ele é Filho, mas pela propriedade. Pois muitos de nós somos filhos de Deus, mas este Filho não é assim; este, com efeito, é Filho próprio e verdadeiro: por origem, não por adoção; por verdade, não por denominação; por nascimento, não por criação.
Santo Agostinho, super Ioannem. O Pai ama o Filho, mas como pai ao filho, não como senhor ao servo; como ao unigênito, não como ao adotado. E por isso se acrescenta: em quem me comprazo.
Remígio de Auxerre. Ou, se se refere à humanidade de Cristo, leia-se em quem me comprazi, porque só a este achei sem pecado. Se, porém, se ler em quem se comprouve, subentende-se: meu beneplácito foi estabelecer que por meio dele eu realizasse o que devia ser realizado, isto é, que redimisse o gênero humano.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Estas palavras, também os outros dois, Marcos e Lucas, narram de modo semelhante; mas, quanto às palavras da voz que veio do céu, variam a expressão, salvo contudo o sentido. Pois o que Mateus diz, Este é o meu Filho amado, e o que os outros dois dizem, Tu és o meu Filho amado, serve para explicar o mesmo sentido; a voz celeste disse uma destas, mas o Evangelista quis mostrar que valia para isso o que foi dito, Este é o meu Filho, para que se indicasse àqueles que ouviam que ele era o Filho de Deus; e assim quis referir o que foi dito, Tu és o meu Filho, como se àquele se dissesse Este é o meu Filho. Com efeito, não se indicava a Cristo o que ele sabia; mas ouviam os que estavam presentes, por causa dos quais a voz foi dada. Quanto ao que um diz, em quem me comprazi, e outro, em ti me comprouve, se perguntas qual destas a voz proferiu, aceita qualquer uma, contanto que entendas que os que não referiram a mesma expressão referiram o mesmo sentido; pois, que Deus se tenha comprazido no Filho, adverte-se por aquilo que foi dito: em ti me comprouve; e que o Pai tenha agradado aos homens no Filho, adverte-se por aquilo que foi dito: em ti me comprouve, ou entenda-se que isto foi dito por todos os Evangelistas, como se se dissesse: em ti estabeleci o meu beneplácito; isto é, cumprir o que me apraz.