Mt 20,1-16
1Com efeito, o Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que saiu ao romper da manhã, a fim de contratar operários para sua vinha. 2Ajustou com eles um denário por dia e enviou-os para sua vinha. 3Cerca da terceira hora, saiu ainda e viu alguns que estavam na praça sem fazer nada. 4Disse-lhes ele: ‘Ide também vós para minha vinha e vos darei o justo salário’. 5Eles foram. À sexta hora saiu de novo e igualmente pela nona hora, e fez o mesmo. 6Finalmente, pela undécima hora, encontrou ainda outros na praça e perguntou-lhes: ‘Por que estais todo o dia sem fazer nada?’ 7Eles responderam: ‘É porque ninguém nos contratou’. Disse-lhes ele, então: – Ide vós também para minha vinha. 8Ao cair da tarde, o senhor da vinha disse a seu feitor: ‘Chama os operários e paga-lhes, começando pelos últimos até os primeiros’. 9Vieram aqueles da undécima hora e receberam cada qual um denário. 10Chegando por sua vez os primeiros, julgavam que haviam de receber mais. Mas só receberam cada qual um denário. 11Ao receberem, murmuravam contra o pai de família, dizendo: 12‘Os últimos só trabalharam uma hora... e deste-lhes tanto como a nós, que suportamos o peso do dia e do calor’. 13O senhor, porém, observou a um deles: ‘Meu amigo, não te faço injustiça. Não contrataste comigo um denário? 14Toma o que é teu e vai-te. Eu quero dar a este último tanto quanto a ti. 15Ou não me é permitido fazer dos meus bens o que me apraz? Porventura vês com maus olhos que eu seja bom?’. 16Assim, pois, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos. [Muitos serão os chamados, mas poucos os escolhidos.]”
Remígio de Auxerre(séc. IX). Porque o Senhor tinha dito: Muitos primeiros serão últimos, e os últimos, primeiros, para confirmar essa sentença acrescentou uma semelhança, dizendo: O Reino dos céus é semelhante a um pai de família.
São João Crisóstomo, super Matth(séc. IV). O pai de família é Cristo, para quem o céu e a terra são como uma só casa; e a família são as criaturas celestes, terrestres e inferiores. A sua vinha é a justiça, na qual diversas espécies de justiça foram plantadas como videiras: por exemplo, a mansidão, a castidade, a paciência e as demais virtudes, que todas, em geral, se chamam justiça. Os homens são postos como cultivadores da vinha; donde se diz: Saiu de manhã cedo para contratar operários para a sua vinha. Com efeito, Deus pôs a sua justiça em nossos sentidos, não por causa de sua utilidade, mas por causa da nossa. Sabei, portanto, que fomos contratados como assalariados. Assim como ninguém contrata um assalariado para que faça apenas aquilo que come, assim também não fomos chamados por Cristo para realizar apenas aquilo que pertence ao nosso uso, mas para a glória de Deus; e assim como o assalariado olha primeiro para o seu trabalho e depois para o alimento cotidiano, assim também devemos olhar primeiro para o que pertence à glória de Deus e depois para o que é do nosso proveito; e assim como o assalariado emprega o dia inteiro na obra do senhor e somente uma hora no seu alimento, assim também devemos empregar todo o tempo da nossa vida na glória de Deus, e apenas pequena parte nos nossos usos terrenos. E assim como o assalariado, no dia em que não fez a obra, se envergonha de entrar em casa e pedir pão, como não te confundirás de entrar na Igreja e de estar diante do olhar de Deus, quando nada de bom fizeste diante de Deus?
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos(séc. VI). Ou: o pai de família, isto é, o nosso Criador, tem uma vinha, a saber, toda a Igreja, que desde o justo Abel até o último eleito que há de nascer no fim do mundo, quantos santos produziu, tantos ramos como que lançou. Para instruir o seu povo, como para cultivar a sua vinha, o Senhor nunca deixou de enviar operários: porque primeiro por meio dos patriarcas, depois por meio dos doutores da lei, em seguida por meio dos profetas e, por fim, por meio dos apóstolos, como por operários, trabalhou no cultivo da vinha; embora, em qualquer medida ou grau, todo aquele que se mostrou com fé reta na boa ação tenha sido operário desta vinha.
Orígenes, in Matth(séc. III). Todo este século presente podemos chamá-lo um só dia: grande, certamente, quanto a nós, mas pequeno quanto à vida de Deus.
São Gregório Magno. A manhã do mundo foi a idade que vai de Adão a Noé; e por isso se diz: Saiu de manhã cedo para contratar operários para a sua vinha. E acrescenta o modo da contratação, dizendo: Tendo combinado com os operários um denário por dia.
Orígenes. Penso que o denário é o nome da salvação.
Remígio de Auxerre. Chama-se denário a moeda que antigamente valia dez moedas, e tem a efígie do rei. Com razão, portanto, o denário designa o prêmio de observar o Decálogo. Belamente diz: Tendo combinado um denário por dia, porque cada um, no campo da santa Igreja, trabalha na esperança da recompensa futura.
São Gregório Magno. A hora terceira, por sua vez, foi de Noé até Abraão; dela se diz: Tendo saído por volta da hora terceira, viu outros que estavam na praça, ociosos.
Orígenes. A praça é tudo o que está fora da vinha, isto é, fora da Igreja de Cristo.
São João Crisóstomo, super Matth. Neste mundo, com efeito, os homens vivem vendendo e comprando e, enganando-se uns aos outros, sustentam a sua vida.
São Gregório Magno. Quem vive para si, quem se nutre dos prazeres de sua carne, é com razão acusado de ocioso, porque não busca o fruto da obra divina.
São João Crisóstomo, super Matthaeum. Ou: ociosos são os pecadores, pois estes são chamados mortos. Ocioso é aquele que não faz a obra de Deus. Queres, pois, não ser ocioso? Não tomes o que é alheio, e dá do que é teu; e terás trabalhado na vinha do Senhor, cultivando a videira da misericórdia. Segue-se: E disse-lhes: Ide também vós para a minha vinha. Nota que somente aos primeiros convém especialmente dar o denário; os outros, porém, contratou com um pacto incerto, dizendo: Dar-vos-ei o que for justo. Pois o Senhor, sabendo que Adão haveria de prevaricar e que todos depois haviam de perecer no dilúvio, fez um pacto certo com ele, para que não dissesse jamais que havia negligenciado a justiça por não saber que prêmios haveria de receber. A estes, porém, não fez pacto, porque está disposto a retribuir tanto quanto os assalariados não esperavam receber.
Orígenes, in Matth. Ou: os operários da hora terceira não os convidou para a obra inteira; mas o que quer que pudessem trabalhar, reservou ao arbítrio deles. Podiam, com efeito, fazer na vinha obra igual à dos que trabalharam desde a manhã, todos os que, em tempo breve, quisessem estender ao trabalho a virtude operante, que antes não havia operado.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. A hora sexta, por sua vez, vai de Abraão a Moisés; a nona vai de Moisés até a vinda do Senhor: donde se segue: Saiu de novo por volta da hora sexta e da nona, e fez o mesmo.
São João Crisóstomo, super Matth. Juntou a sexta e a nona porque, na sexta e na nona, chamou a geração dos judeus, e tornou frequente dispor testamentos com os homens, como se, definido o tempo da salvação de todos, este já se aproximasse.
São Gregório Magno. A hora undécima vai da vinda do Senhor até o fim do mundo. Pela manhã, portanto, e na hora terça, sexta e nona, designa-se aquele antigo povo hebreu, que, em seus eleitos, desde o próprio princípio do mundo, enquanto procurou venerar a Deus com fé reta, como que não deixou de trabalhar no cultivo da vinha. Na undécima, porém, são chamados os gentios; donde se segue: Por volta da hora undécima saiu, e encontrou outros que estavam parados, e disse-lhes: Por que estais aqui o dia todo ociosos? Com efeito, os que, passado tão longo tempo do mundo, haviam negligenciado trabalhar por sua vida, estavam como que o dia todo ociosos. Mas considerai o que respondem os interrogados; segue-se, com efeito: Dizem-lhe: Porque ninguém nos contratou. Nenhum patriarca, de fato, nenhum profeta tinha vindo a eles. E que é dizer ninguém nos contratou, senão que ninguém nos pregou o caminho da vida?
São João Crisóstomo, super Matth. Qual é, com efeito, a nossa contratação, e o salário da contratação? A promessa da vida eterna; pois só os gentios não conheciam nem a Deus nem as promessas de Deus.
Santo Hilário, in Matth(séc. IV). Estes, portanto, são enviados à vinha; donde se segue: Disse-lhes: Ide também vós para a minha vinha.
Rábano Mauro(séc. IX). Depois que se prestou conta da obra do dia, diz-se, para o tempo oportuno da remuneração: Ao cair da tarde; isto é, quando o dia de todo o mundo já se inclinava para o entardecer da consumação.
São João Crisóstomo, super Matth. Considera que é à tarde, e não em outra manhã, que ele paga o salário; logo, estando ainda de pé este século, o juízo há de vir, e a cada um se há de dar o seu salário; e isto por duas razões. A primeira é que a própria bem-aventurança futura é o salário da justiça; por isso o juízo não se faz naquele século, mas antes dele. Depois, antes da vinda daquele dia, o juízo é enviado adiante, para que os pecadores não vejam a bem-aventurança daquele dia. Segue-se: Disse o senhor da vinha ao seu administrador; isto é, o Filho ao Espírito Santo.
Glosa(séc. XII). Ou, se preferires, o Pai diz ao Filho; isto é, o Pai opera por meio do Filho, e o Filho por meio do Espírito Santo, não por alguma diferença de substância ou de dignidade.
Orígenes, in Matth. Ou o Senhor diz ao seu administrador, isto é, a algum dos Anjos que foi posto sobre os salários a serem retribuídos, ou a algum dos muitos administradores, conforme está escrito na Carta aos Gálatas: o herdeiro, no tempo em que é criança, está sob curadores e tutores.
Remígio de Auxerre. Ou o próprio Senhor Jesus Cristo é o pai de família e o administrador da vinha, assim como ele mesmo é a porta e o porteiro. Com efeito, ele mesmo virá para o juízo, para dar a cada um segundo o que fez. Chama, portanto, os trabalhadores e lhes paga o salário, quando todos forem reunidos no juízo, para que cada um receba segundo as suas obras.
Orígenes. Os primeiros trabalhadores, porém, tendo o testemunho pela fé, não receberam a promessa de Deus, tendo o pai de família providenciado algo melhor para nós, para que não fossem levados à perfeição sem nós. E porque alcançamos misericórdia, esperamos receber primeiro o salário, nós que somos de Cristo; depois de nós, porém, os que trabalharam antes de nós; e por isso se diz: Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, começando pelos últimos até os primeiros.
São João Crisóstomo, super Matth. Damos sempre mais de bom grado a quem damos gratuitamente, porque damos só pela nossa honra. Portanto, ao pagar o salário a todos os santos, Deus mostra-se justo; ao dá-lo aos gentios, misericordioso, dizendo o Apóstolo: que os gentios glorifiquem a Deus por causa da misericórdia. E por isso se diz: começando pelos últimos até os primeiros. Ou certamente, para mostrar Deus a sua inestimável misericórdia, paga o salário primeiro aos últimos e mais indignos, depois aos primeiros; pois a misericórdia excessiva não considerou a ordem.
Santo Agostinho, de spiritu et littera(séc. IV–V). Ou então os que parecem primeiros são achados menores, porque os menores foram enriquecidos. Segue-se: Vindo, pois, os que haviam chegado por volta da hora undécima.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Recebem o mesmo denário os que trabalharam até a undécima (a quem esperaram com todo o desejo) e os que trabalharam desde a primeira: porque obtiveram uma retribuição igual de vida eterna, juntamente com aqueles que haviam sido chamados desde o princípio do mundo, os que vieram a Deus no fim do mundo.
São João Crisóstomo, super Matth. Não, porém, injustamente: pois também aquele que nasceu na primeira parte do século não viveu mais do que o tempo estabelecido de sua vida; e em que lhe prejudicou que o mundo permanecesse depois de sua saída? E os que nascem perto do fim não viverão menos do que os dias que lhes foram contados; e de que lhes serve, para abreviar o trabalho, que o mundo logo termine, se cumprem a tarefa de sua vida antes do mundo? Além disso, não depende do homem quando nascer, antes ou depois, mas do poder divino. Nem aquele que nasceu antes deve reivindicar para si o primeiro lugar, nem deve ser mais desprezível o que nasceu depois. Segue-se: E ao receberem, murmuravam contra o pai de família, dizendo. Se é verdade o que dissemos, que os primeiros e os últimos viveram o seu tempo, nem mais nem menos, e que para cada um a sua morte é a consumação de si mesmo, que é isto que dizem: suportamos o peso do dia e o calor? Pois é grande para nós a força para praticar a justiça, saber que o fim do mundo está próximo. Por isso também Cristo, armando-nos, dizia: Aproximar-se-á o reino dos céus. Para eles, porém, era um enfraquecimento saber que os espaços do mundo eram distantes. Embora, portanto, não tenham vivido por todo o século, parecem contudo ter suportado os fardos de todo o século. Ou chama peso de todo o dia os pesados mandamentos da lei; e calor a ardente tentação do erro que os espíritos malignos atiçavam contra eles, irritando-os à emulação dos gentios; de todas essas coisas os gentios ficaram livres, crendo em Cristo, e pelo atalho da graça foram plenamente salvos.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Ou suportar o peso do dia e o calor é ser fatigado, pelos tempos de uma vida mais longa, pelo ardor da própria carne. Mas pode-se perguntar: como se diz que murmuraram os que são chamados ao reino dos céus? Com efeito, ninguém que murmura recebe o reino, e ninguém que o recebe pode murmurar.
São João Crisóstomo, in Matth. Não convém, porém, investigar o que está nas parábolas segundo tudo o que se diz, mas compreender a intenção pela qual foi composta, e nada escrutar além disso. Não introduz, pois, isto para mostrar que alguns são mordidos pela inveja, mas para mostrar que estes alcançaram tanta honra que podiam gerar inveja nos outros.
São Gregório Magno. Ou então, porque os antigos patriarcas, até a vinda do Senhor, por mais justamente que tenham vivido, não foram conduzidos ao reino, isso mesmo é o que eles murmuraram. Nós, porém, que viemos à hora undécima, não murmuramos depois do trabalho, porque, vindo a este mundo depois da vinda do mediador, somos conduzidos ao reino logo que saímos do corpo.
São Jerônimo(séc. IV–V). Ou então, toda vocação anterior tem inveja dos gentios, e se atormenta com a graça do Evangelho.
Santo Hilário, in Matth. E esse murmúrio dos que trabalharam corresponde à insolência do povo, já contumaz sob Moisés. Segue-se: Mas ele, respondendo a um deles, disse: Amigo, não te faço injustiça.
Remígio de Auxerre. Por este um podem entender-se todos os que creram dentre os judeus, aos quais ele chama amigos por causa da fé.
São João Crisóstomo, super Matth. Não se doíam como defraudados do seu salário, mas porque aqueles receberam mais do que mereciam. Assim, com efeito, sofrem os invejosos quando se dá algo a outro, como se lhes fosse tirado. Disso se evidencia que a inveja nasce da vanglória. Dói-lhe ser o segundo porque deseja ser o primeiro; e por isso afasta o movimento da inveja, dizendo: Não combinaste comigo um denário?
São Jerônimo. O denário tem a figura do rei. Recebeste, pois, o salário que te prometi, isto é, a minha imagem e semelhança: que procuras a mais? E não desejas tanto receber tu mais, quanto que outro nada receba? Toma o que é teu, e vai.
Remígio de Auxerre. Isto é: recebe o teu salário e vai para a glória. Quero, porém, dar a este último, isto é, ao povo gentio, segundo o merecimento, como também a ti.
Orígenes, in Matth. Talvez, porém, diga a Adão: Amigo, não te faço injustiça. Não combinaste comigo um denário? Toma o que é teu, e vai. O teu é a salvação, que é o denário. Quero, porém, dar a este último, como também a ti. Não é inverossímil pensar que este último seja o apóstolo Paulo, que trabalhou uma só hora, e igualmente todos os que o precederam.
Santo Agostinho, de sancta Virgin. Como, porém, a própria vida eterna será igualmente a todos os santos, o denário foi atribuído a todos, e é o salário de todos; mas como, nessa mesma vida eterna, brilharão distintamente as luzes dos méritos, há muitas moradas na casa do Pai; e no denário, de fato, que é desigual, um não viverá mais longamente que outro, mas nas muitas moradas um é honrado mais claramente que outro.
São Gregório Magno. E porque a própria recepção do reino é bondade de sua vontade, acrescenta-se com razão: Ou não me é lícito fazer o que quero? É tola, com efeito, a queixa do homem que murmura contra a bondade de Deus. Haveria de se queixar, não se desse o que não deve, mas se não desse o que deveria; por isso se acrescenta abertamente: Ou o teu olho é mau porque eu sou bom?
Remígio de Auxerre. Pelo olho quer que se entenda a intenção. Os judeus tiveram o olho mau, isto é, a intenção má, porque se doíam da salvação dos gentios. Para onde tende o sentido desta parábola, manifesta-o quando acrescenta: Assim os últimos serão primeiros, e os primeiros, últimos: isto é, os judeus de cabeça se tornarão cauda, e nós de cauda somos mudados em cabeça.
São João Crisóstomo, super Matth. Ou então diz que os primeiros são últimos e os últimos primeiros, não para que os últimos sejam mais dignos que os primeiros, mas para que se igualem, e não haja entre eles diferença por causa do tempo. O que ele diz: Muitos são chamados, mas poucos escolhidos, não se refere aos santos superiores, mas aos gentios: porque, dentre esses mesmos gentios, que são muitos os chamados, poucos serão os escolhidos.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Muitos, com efeito, vêm à fé, e poucos são conduzidos ao reino celeste: muitíssimos seguem a Deus com a voz e fogem com os costumes. Disto, pois, devemos ponderar duas coisas. A primeira é que ninguém presuma de si, porque, ainda que já tenha sido chamado à fé, não sabe se será escolhido para o reino. A segunda é que cada um não ouse desesperar do próximo que vê jazer nos vícios, porque ignora as riquezas da misericórdia divina. Ou de outro modo. A nossa manhã é a infância; a hora terça pode entender-se como a adolescência, porque o sol já sobe às alturas enquanto cresce o calor da idade; a sexta é a juventude, porque o sol como que se fixa no centro, enquanto nela se consolida a plenitude do vigor; a nona se entende como a velhice, na qual o sol como que desce do eixo elevado, porque a idade decai do calor da juventude; a undécima, por fim, é a idade que se chama decrépita ou ancianidade.
São João Crisóstomo, in Matth. O fato de não os ter contratado todos ao mesmo tempo, mas uns de manhã, outros à hora terça, e assim os demais, procedeu da diferença da disposição deles. Chamou-os, com efeito, quando iam obedecer; pois também chamou o ladrão quando ia obedecer. Se, porém, disserem: Porque ninguém nos contratou, como foi dito, não convém esquadrinhar tudo o que há nas parábolas. Além disso, isto não o diz o Senhor, mas os operários: porque ele, quanto lhe cabe, chama a todos desde a primeira idade, o que se significa quando se diz: Saiu de manhã cedo para contratar operários.
São Gregório Magno. Os que, portanto, descuidaram de viver para Deus até a última idade, ficaram ociosos até a hora undécima; e contudo o pai de família também a tais chama, e muitas vezes são remunerados antes: porque saem do corpo para o reino antes daqueles que pareciam ter sido chamados há pouco, na infância.
Orígenes, in Matth. Não se diz, porém: «Por que estais aqui todo o dia ociosos?» a estes que, começando pelo espírito, se consomem na carne, se depois querem voltar para viver de novo pelo espírito. Isto não o dizemos para dissuadir os filhos dissolutos de voltarem à casa paterna, os quais, vivendo na luxúria, consumiram a substância da doutrina evangélica; mas porque não são semelhantes àqueles que pecaram em sua juventude, quando ainda não haviam aprendido o que era próprio da fé
São João Crisóstomo, in Matth. Quanto ao que diz: Os últimos serão os primeiros, e os primeiros, os últimos, insinua veladamente os que desde o princípio brilharam e depois desprezaram a virtude; e, por sua vez, os que foram afastados da malícia e superaram a muitos. Esta parábola, pois, foi composta para tornar mais ávidos os que se convertem na extrema velhice, para que não julgassem que haveriam de ter algo a menos
Mt 20,17-19
17Subindo para Jerusalém, durante o caminho, Jesus tomou à parte os Doze e disse-lhes: 18“Eis que subimos a Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas. Eles o condenarão à morte. 19E o entregarão aos pagãos para ser exposto às suas zombarias, açoitado e crucificado; mas ao terceiro dia ressuscitará”.
São João Crisóstomo, in Matth. O Senhor, vindo da Galileia, não subiu de repente a Jerusalém, mas antes fez milagres, refutou os fariseus e instruiu os discípulos sobre a perfeição da vida e a recompensa; agora, estando já para subir a Jerusalém, fala-lhes de novo da paixão; por isso se diz: E Jesus, subindo a Jerusalém, tomou à parte os doze discípulos
Orígenes, in Matth. Entre os doze estava ainda Judas; pois talvez ainda fosse digno de ouvir, à parte com os outros, o que o mestre havia de padecer
São João Crisóstomo, super Matth. Toda a salvação dos homens está posta na morte de Cristo, e não há nada pelo qual devamos dar mais graças a Deus do que por sua morte. Por isso anunciou em segredo aos doze apóstolos o mistério de sua morte; porque o tesouro mais precioso é sempre encerrado nos melhores vasos. Se outros, porém, tivessem ouvido a futura paixão de Cristo, os homens talvez se perturbassem por causa da fraqueza da fé, e as mulheres por causa da fragilidade de sua natureza, pela qual em tal situação são levadas às lágrimas
São João Crisóstomo, in Matth. Foi dito, sem dúvida, também a muitos, mas veladamente, como ali: Destruí este templo; e acima: Não lhe será dado outro sinal senão o sinal do profeta Jonas. Aos discípulos, porém, expôs claramente, dizendo: Eis que subimos a Jerusalém
São João Crisóstomo, super Matth. O que diz, eis, é palavra de firmeza, para que guardem no coração a lembrança desta presença. Diz ainda subimos; como se dissesse: vede que vou voluntariamente à morte. Quando, pois, me virdes pendente na cruz, não julgueis que sou apenas homem: pois, embora poder morrer seja próprio do homem, querer morrer, contudo, não é próprio do homem
Orígenes. Considerando isto, devemos saber que frequentemente, mesmo sabendo que vamos sofrer algumas tentações, devemos oferecer-nos a nós mesmos. Mas foi dito acima: Se alguém vos perseguir numa cidade, fugi para outra: é próprio do sábio em Cristo conhecer que tempo exige esquivar-se e qual exige enfrentar os perigos
São Jerônimo. Muitas vezes, porém, havia falado aos discípulos de sua paixão; mas, porque no meio de tantas discussões o que haviam ouvido podia escapar da memória a muitos, estando para ir a Jerusalém e para levar consigo os apóstolos, prepara-os para a tentação, a fim de que, quando vier a perseguição e a ignomínia da cruz, não se escandalizem
São João Crisóstomo, super Matth. Com efeito, a tribulação, quando sobrevém a nós que a esperamos, mostra-se mais leve do que seria se tivesse vindo de repente
São João Crisóstomo, in Matth. Prediz-lhes também, para que aprendam que vai à paixão sabendo de antemão e voluntariamente. No princípio, porém, predisse-lhes somente a morte; quando já estão exercitados, acrescenta outras coisas, a saber, que o entregarão aos gentios
Rábano Mauro. Judas, com efeito, entregou o Senhor aos judeus, e estes o entregaram aos gentios, isto é, a Pilatos e ao poder dos romanos. O Senhor, porém, não quis prosperar no mundo, mas padecer coisas duras, para nos mostrar, a nós que caímos pelo deleite, com quanta amargura devemos voltar; por isso segue: para ser escarnecido, flagelado e crucificado
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Pela paixão mostra o que devemos suportar pela verdade, e pela ressurreição o que devemos esperar na Trindade; por isso se diz: e ao terceiro dia ressuscitará
São João Crisóstomo, in Matth. Disse isto para que, quando vissem coisas tristes, esperassem a ressurreição; por isso acrescenta: e ao terceiro dia ressuscitará
Santo Agostinho, de Trin. Com efeito, uma só morte, a saber, a do salvador segundo o corpo, foi salvação para as nossas duas mortes, a da alma e a do corpo; e a sua única ressurreição nos concedeu duas ressurreições. Esta razão, do simples ao duplo, nasce do número ternário, pois um e dois são três
Orígenes, in Matth. Aqui, porém, não se refere que os discípulos tenham dito ou feito algo ao ouvirem estas coisas tristes que haviam de acontecer a Cristo, recordando o que o Senhor disse a Pedro, para que não ouçam coisas semelhantes ou piores. E agora, de fato, os escribas, que julgam conhecer as divinas Escrituras, condenam Jesus à morte, e com suas línguas o flagelam e o crucificam, pelo fato de quererem suprimir a sua doutrina; ele, porém, desfalecendo por pouco tempo, ressurge, aparecendo àqueles que receberam o poder de ver.
Mt 20,20-23
20Nisso aproximou-se a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos e prostrou-se diante de Jesus para lhe fazer uma súplica. 21Perguntou-lhe ele: “Que queres?”. Ela respondeu: “Ordena que estes meus dois filhos se sentem no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda”. 22Jesus disse: “Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu devo beber?”. “Sim” – disseram-lhe. 23“De fato, bebereis meu cálice. Quanto, porém, a sentar-vos à minha direita ou à minha esquerda, isso não depende de mim vo-lo conceder. Esses lugares cabem àqueles aos quais meu Pai os reservou.”
São Jerônimo. Porque o Senhor havia dito, entre todas as coisas, que ao terceiro dia ressuscitará, a mulher pensou que, depois da ressurreição, ele reinaria imediatamente; e, com avidez feminina, deseja as coisas presentes, esquecida das futuras. Por isso se diz: Então aproximou-se dele a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos.
São João Crisóstomo, super Matth. Esta mãe dos filhos de Zebedeu é Salomé, cujo nome é posto por outro Evangelista; verdadeiramente pacífica, ela que verdadeiramente gerou filhos da paz. Deste passo colhe-se um grande louvor da mulher: porque não somente os filhos deixaram o pai, mas ela própria deixara seu marido e seguira a Cristo; porque aquele podia viver sem ela, mas ela não podia salvar-se sem Cristo; a não ser que alguém diga que Zebedeu morreu entre o tempo da vocação dos apóstolos e a paixão de Cristo; e assim ela, frágil pelo sexo, enfraquecida pela idade, seguia as pegadas de Cristo, porque a fé nunca envelhece e a religião não sente cansaço. Tornara-a, porém, ousada para pedir o afeto da natureza; por isso se diz: adorando-o e pedindo-lhe algo, isto é, prestada a reverência, pede que lhe seja dado o que pedir. Segue: Ele lhe disse: Que queres? Não pergunta como quem ignora, mas para que, ao expor ela, tornasse manifesto que o pedido era irracional. Por isso se acrescenta: Ela lhe disse: Dize que estes meus dois filhos se sentem.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Quanto ao que Mateus expressou aqui como dito pela mãe, Marcos apresenta que os próprios filhos de Zebedeu o disseram, tendo ela levado ao Senhor a vontade deles; donde Marcos indicou brevemente que o que foi dito, foram antes eles que o disseram do que ela.
São João Crisóstomo, in Matth. Viam, com efeito, que eles mesmos eram honrados mais que os outros, e tinham ouvido: sentareis sobre doze tronos; por isso pediam receber o primado da própria cátedra. E sabiam que os outros tinham mais honra junto a Cristo; temiam, porém, que Pedro lhes fosse preferido; por isso o outro Evangelista diz que, por estarem perto de Jerusalém, pensavam que o reino de Deus estava às portas, isto é, algo sensível. Daí é manifesto que nada espiritual pediam, nem tinham inteligência do reino superior.
Orígenes, in Matth. Com efeito, se num reino do mundo parecem estar em honra os que se sentam com o rei, não foi de admirar que a mulher, por simplicidade ou inexperiência feminina, julgasse dever pedir tais coisas; e os próprios irmãos, ainda imperfeitos e nada pensando de mais elevado sobre o reino de Cristo, imaginaram tais coisas a respeito de sentar-se com Jesus.
São João Crisóstomo, super Matth. Ou de outro modo. Não dizemos que esta mulher pedisse retamente; mas dizemos isto: que ela desejava para seus filhos não coisas terrenas, mas celestes; pois não sente como as demais mães, que amam os corpos de seus filhos, mas desprezam as almas: desejam que eles prosperem neste século e não se preocupam com o que hão de sofrer no outro, mostrando que são pais dos corpos, não das almas. Julgo, porém, que estes irmãos, tendo ouvido o Senhor profetizar sobre a sua paixão e ressurreição, começaram a dizer entre si, sendo fiéis: eis que o rei celeste desce aos reinos do Tártaro para destruir o rei da morte. Consumada, porém, a vitória, que mais resta senão que se siga a glória do reino?
Orígenes. Destruído, com efeito, o pecado, que reinava nos corpos mortais dos homens, e todo principado das potências malignas, Cristo recebe nos homens a eminência do reino; o que é o próprio sentar-se no trono de sua glória. Quanto a Deus fazer tudo à direita e à esquerda, isto é, que já nenhum mal esteja diante dele: os que se avantajam aos demais que se aproximam de Cristo estão à sua direita; os que, porém, são inferiores, estão à sua esquerda. Vê, se podes, entender a direita de Cristo como a criatura invisível, e a esquerda como a visível e corporal. Entre os que se aproximam de Cristo, uns obtêm a direita, como os inteligíveis; outros, a esquerda, como os sensíveis.
São João Crisóstomo, super Matth. Aquele que se deu a si mesmo aos homens, como não dará a participação em seu reino? Repreende-se a negligência de quem pede, quando não se duvida da misericórdia de quem dá. Se rogamos nós ao Mestre, talvez abalemos os corações dos outros irmãos: pois, embora não possam ser vencidos pela carne, como já espirituais, podem contudo ser feridos, como ainda carnais. Enviemos, pois, nossa mãe, para que em seu nome interceda por nós. Se for achada repreensível, facilmente merecerá o perdão; o próprio sexo, com efeito, escusa o erro. Se, porém, não for importuna, mais facilmente alcançará a mãe que roga por seus filhos. O próprio Senhor, que encheu de compaixão os ânimos maternos para com os filhos, mais facilmente ouvirá o afeto materno. Então o Senhor, conhecedor dos segredos, não respondeu às palavras da mulher que intercedia, mas aos conselhos dos filhos que a instigavam. Bom era, sem dúvida, o desejo deles, mas inconsiderado o pedido; por isso, embora não devessem alcançar, a simplicidade do seu pedido não merecia ser confundida, porque tal pedido nascia do amor do Senhor; por isso o Senhor repreende neles a ignorância. Daí segue: Respondendo Jesus, disse: Não sabeis o que pedis.
São Jerônimo. Nem é de admirar que esta seja acusada de inexperiência, quando também de Pedro se diz: não sabendo o que dizia.
São João Crisóstomo, super Matth. Pois o Senhor frequentemente permite que seus discípulos digam, façam ou pensem algo não retamente, para que, da culpa deles, ache ocasião de expor a regra da piedade, sabendo que o erro deles não prejudica estando presente o mestre, e que não só no presente, mas também no futuro a sua doutrina edifica.
São João Crisóstomo, super Matth. Diz isto mostrando que ou nada espiritual pediam, ou, se tivessem conhecido o que pediam, não teriam ousado pedir algo tão grande, que ultrapassa as potências superiores.
Santo Hilário, in Matth. Ignoram também o que pedem, porque nada havia a duvidar sobre a glória dos apóstolos: pois o discurso anterior expôs que eles haviam de julgar.
São João Crisóstomo, super Matth. Ou não sabeis o que pedis, como se dissesse: eu vos chamei da esquerda para a parte direita, e vós, por vosso conselho, correis para a esquerda. Talvez por isso o negócio se tratava por meio de uma mulher. Com efeito, o Diabo recorreu às armas habituais das mulheres, para que, assim como por uma mulher despojou Adão, também por uma mãe separasse estes. Mas já não podia a perdição entrar nos santos por meio de uma mulher, desde que da mulher procedeu a salvação de todos. Ou por isso diz não sabeis o que pedis: pois não devemos pensar somente que glória alcançaremos, mas como escaparemos à ruína do pecado; porque também na guerra secular, quem pensa sempre no despojo da vitória dificilmente vence; por isso devia-se pedir: dá-nos o auxílio da tua graça, para que vençamos todo mal.
Rábano Mauro. Ignoravam também o que pediam, porque buscam do Senhor a sede da glória, que ainda não mereciam; deleitava-os o ápice da honra, mas antes tinham de percorrer o caminho do trabalho. Por isso se acrescenta: Podeis beber o cálice que eu hei de beber?
São Jerônimo. Nas divinas Escrituras entendemos o cálice como a paixão, como no Salmo 115, 13: Tomarei o cálice da salvação; e logo acrescenta qual é esse cálice: É preciosa aos olhos do Senhor a morte de seus santos.
São João Crisóstomo, super Matth. O Senhor sabia que eles podiam imitar a sua paixão; mas pergunta para que todos ouçamos que ninguém pode reinar com Cristo, a não ser que tenha imitado a paixão de Cristo: pois uma coisa preciosa só se adquire por um preço precioso. Chamamos paixão do Senhor não só a perseguição dos gentios, mas toda violência que sofremos ao combater contra os pecados.
São João Crisóstomo, in Matth. Diz, pois: Podeis beber? Como se dissesse: vós me falais de honra e de coroas; eu, porém, vos falo de combates e de suores: pois este não é o tempo dos prêmios. Pelo modo da pergunta, porém, os atrai: pois não disse: podeis derramar o vosso sangue? Mas: Podeis beber o cálice? Depois acrescenta: que eu vou beber.
Remígio de Auxerre. Para que, pela comunhão com ele, se tornem mais ávidos. Mas eles, que já possuíam a liberdade e a constância do martírio, prometem que beberão: donde se segue: Dizem-lhe: Podemos.
São João Crisóstomo, super Matth. Ou dizem isto não tanto por confiança em sua fortaleza quanto por ignorância: pois aos inexperientes a prova da paixão e da morte parece leve.
São João Crisóstomo, in Matth. Ou prometem isto por desejo. Pois não o teriam dito, se não esperassem ouvir o que pediam. O Senhor, porém, profetiza-lhes grandes bens, isto é, que serão tornados dignos do martírio. Segue-se: Disse-lhes: Meu cálice, de fato, bebereis.
Orígenes, in Matth. Cristo não respondeu assim: podeis beber o meu cálice; mas, olhando para a futura perfeição deles, disse: Meu cálice, de fato, bebereis.
São Jerônimo. Pergunta-se, porém, de que modo os filhos de Zebedeu, isto é, Tiago e João, beberam o cálice do martírio, uma vez que a Escritura narra que apenas o apóstolo Tiago foi decapitado por Herodes, enquanto João terminou a vida com morte natural. Mas se lemos na história eclesiástica que o próprio João, por causa do martírio, foi lançado num tonel de óleo fervente e foi relegado à ilha de Patmos, veremos que ao martírio não faltou ânimo; e que João bebeu o cálice da confissão, que também os três jovens beberam na fornalha de fogo, embora o perseguidor não tenha derramado o sangue.
Santo Hilário, in Matth. O Senhor, pois, louvando a fé deles, disse que eles podiam sofrer com ele no martírio; mas que sentar-se à sua esquerda e à sua direita fora disposto por Deus Pai para outros: donde se segue: Sentar-se à minha direita, e o que vem depois. E, na verdade, segundo julgamos, essa honra está reservada a outros de tal modo que, contudo, nem os apóstolos serão excluídos dela, os quais, sentados nos tronos dos doze patriarcas, julgarão Israel; e, quanto se pode compreender pelos próprios Evangelhos, no reino dos céus sentar-se-ão Moisés e Elias; acompanhado por eles, apareceu no monte com o aspecto de sua glória.
São Jerônimo. Mas isto de modo algum me parece assim: os nomes dos que se sentam no reino dos céus não são ditos para que, nomeados poucos, os demais não fossem tidos por excluídos; pois o reino dos céus não depende só de quem dá, mas de quem recebe. Com efeito, em Deus não há acepção de pessoas; mas quem quer que se mostrar tal que se torne digno do reino dos céus receberá isto, que foi preparado não para a pessoa, mas para a vida. Se, portanto, sois tais que alcançais o reino dos céus que meu Pai preparou para os vencedores, também vós o recebereis. Por isso, contudo, não disse: não vos sentareis, para não confundir os dois; nem: vos sentareis, para não irritar os demais.
São João Crisóstomo, in Matth. Ou de outro modo. Parece que aquele lugar é inacessível a todos, não só aos homens, mas também aos Anjos: assim, com efeito, Paulo apresenta isso como prerrogativa do Unigênito, dizendo: A qual dos Anjos disse alguma vez: Senta-te à minha direita? O Senhor, pois, respondeu não como se houvesse alguns que haverão de sentar-se, mas condescendendo com a suspeita dos que perguntavam. Eles buscavam, com efeito, só isto mais que os outros: estar junto dele; mas o Senhor responde: morrereis, sim, por mim; isto, porém, não basta para que obtenhais a primeira ordem. Pois se vier algum outro com o martírio, possuindo maior virtude, não o expulsarei porque vos amo, e a vós darei o primado. Mas, para que ele próprio não se mostre fraco, não disse simplesmente: não me cabe dar; mas não me cabe dar a vós, mas àqueles para quem foi preparado; isto é, aos que podem tornar-se ilustres por suas obras.
Remígio de Auxerre. Ou de outro modo. Não me cabe dar a vós, isto é, a soberbos tais como vós sois, mas aos humildes de coração, para quem foi preparado por meu Pai.
Santo Agostinho, de Trin. Ou de outro modo. Segundo a forma de servo, o Senhor responde aos discípulos: Sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me cabe dar a vós. O que, porém, foi preparado por seu Pai, foi preparado também pelo próprio Filho, porque ele e o Pai são um.
Mt 20,24-28
24Os dez outros, que haviam ouvido tudo, indignaram-se contra os dois irmãos. 25Jesus, porém, os chamou e lhes disse: “Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. 26Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. 27E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo. 28Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por uma multidão”.
São João Crisóstomo, in Matth. Enquanto a sentença de Cristo era incerta, os outros discípulos não se entristeciam; mas entristeceram-se quando ele os repreendeu: donde se diz: E, ouvindo isso, os dez indignaram-se contra os dois irmãos.
São Jerônimo. Não a atribuem à audácia da mulher que pedia, mas aos filhos, que, ignorando a sua medida, se inflamaram de não pequena ambição.
São João Crisóstomo, in Matth. Compreenderam, com efeito, que esse pedido foi dos discípulos, quando o Senhor os repreendeu. Quando, porém, viram que eles haviam sido previamente honrados pelo Senhor na transfiguração, embora se magoassem em seu íntimo, não ousavam manifestá-lo em público, honrando o Mestre.
São João Crisóstomo, super Matth. Assim como os dois pediram de modo carnal, assim também os dez se entristeceram de modo carnal: pois querer estar acima de todos é de fato censurável; suportar, porém, outro acima de si é menos glorioso.
São Jerônimo. O Mestre, humilde e manso, nem censura os dois que pediam por cobiça, nem repreende os dez restantes por indignação e inveja: donde se segue: Jesus, porém, chamou-os a si.
São João Crisóstomo, in Matth. Como estavam perturbados, consola-os chamando-os, falando-lhes de perto: com efeito, os dois, separando-se da companhia dos dez, estavam mais próximos, falando com o Senhor à parte; contudo, não os consola trazendo-os para o meio, como fez antes com as crianças, mas introduziu o contrário, dizendo: Sabeis que os príncipes das nações dominam sobre elas.
Orígenes, in Matth. Isto é, não se contentam apenas em governar seus súditos, mas esforçam-se por dominá-los com violência. Entre vós, porém, que sois meus, isso não acontece: porque, assim como todas as coisas carnais estão postas na necessidade, e as espirituais na vontade, assim também, quanto aos que são chefes espirituais, o seu principado deve estar fundado no amor dos súditos, não no temor corporal.
São João Crisóstomo, in Matth. Mostra com isso que desejar a primazia é próprio dos gentios; e assim, pela comparação com os gentios, converte a alma ardente deles.
São João Crisóstomo, super Matth. Desejar a obra boa, na verdade, é bom, porque é da nossa vontade, e nossa é a recompensa; mas cobiçar a primazia de honra é vaidade: com efeito, alcançá-la é juízo de Deus; por isso, não sabemos se, pela primazia de honra, merecemos a recompensa da justiça. Pois o apóstolo não terá louvor diante de Deus por ter sido apóstolo, mas se cumpriu bem a obra do seu apostolado; e o apóstolo não foi honrado por um mérito seu anterior para ser apóstolo, mas foi julgado apto a esse ministério segundo o movimento de sua alma. A primazia, além disso, deseja a quem foge dela e causa horror a quem a deseja. Portanto, deve-se desejar a melhor conduta, não o grau mais elevado. Querendo, pois, o Senhor extinguir a indignação dos dois irmãos filhos de Zebedeu e dos outros, introduz a diferença entre os príncipes do mundo e os da Igreja, mostrando que a primazia em Cristo nem deve ser buscada por quem não a tem, nem invejada por quem a tem; porque os príncipes do mundo existem para dominar seus inferiores, sujeitá-los à servidão e despojá-los, e servir-se deles até a morte para a sua própria utilidade e glória; os príncipes da Igreja, porém, o são para servir seus inferiores e ministrar-lhes tudo o que receberam de Cristo; para que negligenciem as suas utilidades, cuidem das deles e não recusem morrer pela salvação dos inferiores. Portanto, cobiçar a primazia da Igreja não é justo nem útil. Nenhum sábio quer, por vontade própria, submeter-se a tal servidão e perigo, a ponto de prestar contas por toda a Igreja; a não ser talvez quem não teme o juízo de Deus, abusando de sua primazia eclesiástica de modo secular, de maneira a convertê-la em secular.
São Jerônimo. Por fim, propõe o seu próprio exemplo, para que, se desprezassem as palavras, se envergonhassem diante das obras; donde acrescenta: Assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir.
Orígenes, in Matth. Pois, embora os Anjos e Marta o tenham servido, contudo ele não veio para ser servido, mas para servir; e tanto cresceu servindo, que se cumpriu o que se segue: e dar a sua vida em resgate por muitos, isto é, por aqueles que creram nele: daria, digo, à morte. Mas porque era o único livre entre os mortos e mais forte que todo o poder da morte, libertou da morte todos os que quiseram segui-lo. Portanto, os chefes das Igrejas devem imitar a Cristo, acessível, falando com mulheres, impondo as mãos às crianças e lavando os pés dos discípulos, para que eles próprios façam o mesmo aos irmãos. Nós, porém, somos tais que parecemos exceder até a soberba dos príncipes do mundo, ou não compreendendo ou desprezando o mandamento de Cristo; e buscamos, como reis, caminhar à frente das tropas, e mostramo-nos terríveis e de acesso difícil, sobretudo aos pobres, sem ter nenhuma afabilidade nem permitir que a tenham para conosco.
São João Crisóstomo, in Matth. Portanto, por mais que te humilhes, não poderás descer tanto quanto o teu Senhor.
Mt 20,29-34
29Ao sair de Jericó, uma grande multidão o seguiu. 30Dois cegos, sentados à beira do caminho, ouvindo dizer que Jesus passava, começaram a gritar: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de nós!”. 31A multidão, porém, os repreendia para que se calassem. Mas eles gritavam ainda mais forte: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de nós!”. 32Jesus parou, chamou-os e perguntou-lhes: “Que quereis que eu vos faça?”. 33“Senhor, que nossos olhos se abram!”. 34Jesus, cheio de compaixão, tocou-lhes os olhos. Instantaneamente recobraram a vista e puseram-se a segui-lo.
São João Crisóstomo, super Matth. Assim como o testemunho do agricultor zeloso é a colheita fecunda, assim o testemunho do doutor assíduo é a Igreja cheia: donde se diz aqui: E, ao saírem eles de Jericó, seguiu-o uma grande multidão. Nenhum cansaço do caminho a impediu, porque o amor espiritual não sente fadiga; a ninguém a lembrança de seus bens fez recuar, porque entravam na posse do reino celeste. Com efeito, quem provou verdadeiramente o bem celeste nada tem sobre a terra que amar. Oportunamente, porém, foram postos diante de Cristo dois cegos, para que, abertos os olhos, subissem com ele a Jerusalém como testemunhas do seu poder: donde se segue: E eis que dois cegos. Estes ouviam o rumor dos que corriam, e não viam as pessoas, não tendo livre de todo o corpo senão a voz; e assim, como não podiam segui-lo com os pés, seguiam-no com a voz: donde se diz: Ouviram que Jesus passava e clamaram, dizendo: Senhor, tem piedade de nós, Filho de Davi.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Este fato, porém, Marcos o relata, mas a respeito de um só cego: a questão se resolve assim: que um dos dois cegos que Mateus mencionou era famosíssimo naquela cidade, vê-se bem pelo fato de Marcos ter mencionado o seu nome e o de seu pai: Bartimeu, filho de Timeu, decaído de uma grande prosperidade, era notíssimo; ele estava sentado não só cego, mas também mendigo. Daí que Marcos quis mencionar somente a ele, cuja iluminação conferiu a este milagre uma fama tão clara quanto era notória a sua calamidade. Lucas, por sua vez, embora narre o fato de modo inteiramente igual, deve contudo ser entendido como relatando um milagre semelhante em outro cego. Aquele, com efeito, diz que isso aconteceu quando ele se aproximava de Jericó; os outros, quando saía de Jericó. Segue-se: A multidão, porém, repreendia-os para que se calassem.
São João Crisóstomo, super Matth. Viam, com efeito, as vestes sórdidas, e não consideravam o brilho da consciência. Eis a sabedoria tola dos homens: julgam que os grandes sofrem uma injúria se são honrados por pobres. Pois que pobre ousou saudar publicamente um rico?
Santo Hilário. Ou então exigem o silêncio não por causa da honra, mas porque ouvem com amargura, da boca de cegos, aquilo que negavam, a saber, que o Senhor é o Filho de Davi.
Orígenes, in Matth. Ou então os que haviam crido os repreendiam, para que não o chamassem pelo nome desprezível de filho de Davi, mas dissessem antes: Filho de Deus, tem piedade de nós.
Santo Hilário. Eram antes incitados por serem proibidos do que contidos; com efeito, a fé, quando é proibida, mais se inflama; e por isso está segura nos perigos e corre perigo na segurança; donde se segue: Mas eles gritavam ainda mais, dizendo: Tem piedade de nós, Filho de Davi. Primeiro, com efeito, gritavam porque eram cegos; depois gritavam mais, porque eram impedidos de chegar à luz.
São João Crisóstomo, in Matth. Cristo, porém, permitia que fossem impedidos, para que o desejo deles aparecesse mais. Daqui aprende que, ainda que tenhamos sido rejeitados, se nos aproximarmos de Deus com zelo, alcançaremos por nós mesmos o que pedimos. Segue-se: E Jesus parou, chamou-os e disse: Que quereis que eu vos faça?
São Jerônimo. Jesus parou porque os cegos não sabiam para onde ir. Havia muitas covas em Jericó, muitos rochedos e precipícios inclinados para o fundo; por isso o Senhor para, a fim de que possam vir.
Orígenes, in Matth. Ou então Jesus não passa adiante, mas para, a fim de que, parando ele, o benefício não escorra para longe; mas, como de uma fonte, a misericórdia que permanece flua até eles.
São Jerônimo. Manda que sejam chamados, para que as multidões não os impeçam; e pergunta o que querem, para que, pela resposta deles, apareça manifesta a enfermidade e se conheça o poder pelo remédio.
São João Crisóstomo, super Matth. Ou então pergunta por causa da fé, para que, ao confessarem os cegos que Cristo é o Filho de Deus, fiquem confundidos os que veem e o consideram apenas homem. Tinham chamado Cristo de Senhor, e disseram a verdade; mas, dizendo Filho de Davi, desfaziam o que haviam confessado bem: pois também os homens são chamados senhores por abuso de linguagem; em verdade, porém, ninguém é Senhor senão Deus. Quando, pois, dizem Senhor, Filho de Davi, honram a Cristo de modo impróprio segundo o homem; se, porém, dissessem somente Senhor, confessariam a divindade; por isso pergunta: Que quereis? Então eles já não disseram: Senhor, Filho de Davi; mas somente Senhor, pois se segue: Disseram-lhe: Senhor, que se abram os nossos olhos. Com efeito, o filho de Davi não pode iluminar os cegos; o Filho de Deus pode. Enquanto, pois, disseram Senhor, Filho de Davi, a cura ficou suspensa; mas logo que disseram Senhor, a cura foi infundida; pois se segue: Jesus, compadecido deles, tocou-lhes os olhos; e imediatamente viram. Tocou-os como homem, corporalmente; curou-os como Deus.
São Jerônimo. Com efeito, o Artífice concede o que a natureza não tinha dado; ou, ao menos, a misericórdia dá o que a enfermidade tinha tirado.
São João Crisóstomo, in Matth. Eles, assim como foram perseverantes antes da dádiva, assim também depois da dádiva não foram ingratos.
São João Crisóstomo, super Matth. Os curados ofereceram a Cristo um bom presente; pois se segue: E o seguiram. Isto, com efeito, Deus exige de ti, segundo o profeta: que andes solícito com o Senhor teu Deus.
São Jerônimo. Os que estavam sentados em Jericó, entrevados, e só sabiam gritar, depois seguem Jesus não tanto com os pés quanto com as virtudes.
Rábano Mauro. Jericó, que se interpreta lua, significa o declínio da nossa mutabilidade.
Orígenes, in Matth. Misticamente, por Jericó entende-se o mundo, no qual Cristo desceu. Os que estão em Jericó não sabem sair da sabedoria do mundo, a não ser que vejam não só Jesus saindo de Jericó, mas também os seus discípulos. Vendo isso, o seguiram muitas multidões, desprezando o mundo e todas as coisas mundanas, para que, tendo Cristo por guia, subam à Jerusalém celeste. Podemos dizer que os dois cegos são Judá e Israel, que antes da vinda de Cristo foram cegos, porque não viam o Verbo verdadeiro, que estava na Lei e nos Profetas; contudo, sentados à beira do caminho da Lei e dos Profetas, e entendendo só segundo a carne, gritavam apenas àquele que foi feito da descendência de Davi segundo a carne.
Hieronymus,. Ou muitos entendem os dois cegos como os fariseus e os saduceus. Ou ainda de outro modo: os dois cegos sentados junto ao caminho significam alguns de um e de outro povo que já aderem, pela fé, à dispensação temporal segundo a qual Cristo é o caminho, e desejam ser iluminados, isto é, entender algo da eternidade do Verbo; e isso desejavam obter quando o Senhor passava, isto é, pelo mérito da fé, pela qual se crê que o Filho de Deus nasceu homem e padeceu por nós; por essa dispensação, com efeito, Jesus como que passa, porque é uma ação temporal. Convinha, porém, que gritassem tanto até vencerem o clamor da multidão que lhes resistia; isto é, que perseverando aplicassem o espírito, orando e batendo, até superarem, com intensíssimo esforço, o hábito dos desejos carnais (que, como uma multidão, faz estrépito contra o conhecimento de quem se esforça por ver a luz da verdade eterna) ou a própria multidão dos homens carnais, que impede os empenhos espirituais.
Santo Agostinho, de Verb. Dom. Os cristãos maus e tíbios impedem os bons cristãos que querem cumprir os preceitos de Deus; estes, porém, gritam sem esmorecer; com efeito, quando um cristão começa a viver bem e a desprezar o mundo, na própria novidade da sua vida sofre censores, cristãos frios; mas, se perseverar, aqueles que antes o impediam passarão a obedecer-lhe.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Assim, Jesus, que disse: Ao que bate se abrirá, ouvindo-os, parado, toca-os e ilumina-os; pois, como a fé na encarnação temporal nos prepara para entender as coisas eternas, foram advertidos, quando Jesus passava, a fim de serem iluminados, e foram iluminados por ele parado: as coisas temporais, com efeito, passam; as eternas permanecem.
São João Crisóstomo, super Matth. Alguns interpretam os dois cegos como gentios: um de Cam, outro de Jafé; os quais estavam sentados à beira do caminho, isto é, viviam junto à verdade, mas não podiam encontrar a verdade; ou ainda, permanecendo segundo a razão da palavra, porque ainda não haviam recebido o conhecimento da palavra.
Rábano Mauro. Tendo, porém, conhecido a fama do nome de Cristo, procuravam tornar-se participantes dele. Muitos se opunham: primeiro os judeus, como lemos nos Atos; depois também os gentios insistiam na perseguição; e, contudo, não conseguiam privar da salvação aqueles que eram predestinados para a vida.
São João Crisóstomo, super Matth. Em seguida, porém, Jesus tocou os olhos da mente dos gentios, dando-lhes a graça do Espírito Santo; e estes, iluminados, o seguiram com boas obras.
Orígenes, in Matth. Também nós, portanto, sentados à beira do caminho das Escrituras e compreendendo em quê somos cegos, se pedirmos com afeto, ele tocará os olhos de nossas almas, e a treva da ignorância se retirará de nossas mentes, para que o sigamos na luz da ciência, ele que nos deu o poder de ver por nenhum outro motivo senão para que o sigamos.