Mt 13,1-9
1Naquele dia, saiu Jesus e sentou-se à beira do lago. 2Acercou-se dele, porém, uma tal multidão, que precisou entrar numa barca. Nela se assentou, enquanto a multidão ficava à margem. 3E seus discursos foram uma série de parábolas. 4Disse ele: “Um semeador saiu a semear. E, semeando, parte da semente caiu ao longo do caminho; os pássaros vieram e a comeram. 5Outra parte caiu em solo pedregoso, onde não havia muita terra, e nasceu logo, porque a terra era pouco profunda. 6Logo, porém, que o sol nasceu, queimou-se, por falta de raízes. 7Outras sementes caíram entre os espinhos: os espinhos cresceram e as sufocaram. 8Outras, enfim, caíram em terra boa: deram frutos, cem por um, sessenta por um, trinta por um. 9Aquele que tem ouvidos, ouça”.
São João Crisóstomo, in Matth(séc. IV). Depois de ter repreendido aquele que anunciou a presença da mãe e dos irmãos, fez em seguida o que eles desejavam: saiu, a saber, de casa, curando primeiro a enfermidade da vanglória dos irmãos, e prestando depois à mãe a devida honra; por isso se diz: Naquele dia, Jesus, saindo de casa, sentou-se à beira-mar.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas(séc. IV–V). Ao dizer naquele dia, indica suficientemente que isto aconteceu em seguida ao que foi relatado antes, ou que não puderam ser interpostas muitas coisas, a não ser que, talvez, o dia signifique tempo, ao modo das Escrituras.
Rábano Mauro(séc. IX). Não só as palavras e os feitos do Senhor, mas também as viagens e os lugares em que realiza prodígios e prega, estão cheios de mistérios celestes. Depois do discurso feito na casa, onde por uma blasfêmia nefanda foi dito que ele tinha um demônio, saindo, ensinava junto ao mar, para mostrar que, abandonada a Judeia por causa da culpa da infidelidade, passaria às nações para salvá-las. Com efeito, os corações dos gentios, por muito tempo soberbos e incrédulos, são com razão comparados às ondas inchadas e amargas do mar; e quem ignora que a casa do Senhor foi, pela fé, a Judeia?
São Jerônimo(séc. IV–V). Deve-se considerar também que o povo não podia entrar na casa de Jesus, nem estar onde os apóstolos ouviam os mistérios; por isso o Senhor misericordioso sai de sua casa e senta-se junto ao mar deste mundo, para que se reúnam a ele muitas multidões e ouçam na praia o que não mereciam ouvir dentro; daí se segue: E reuniram-se junto dele muitas multidões, de modo que, subindo a uma barquinha, se sentou; e toda a multidão estava na praia.
São João Crisóstomo, in Matth. O Evangelista não pôs isto sem motivo, mas para mostrar que o Senhor o fez, querendo dispor este espetáculo com cuidado, de modo que não deixe ninguém atrás das costas, mas tenha todos diante do rosto.
Santo Hilário, in Matth(séc. IV). Que o Senhor tenha se sentado na barca, e que as multidões tenham ficado de fora, tem sua razão nas coisas que se seguem. Com efeito, ia falar em parábolas; e, pelo próprio modo de agir, significa que os que estão fora da Igreja não podem alcançar nenhuma inteligência da palavra divina. A barca, de fato, representa a figura da Igreja, dentro da qual foi posta a palavra de vida; e aos que estão fora, estéreis como a areia, ela é pregada, e eles não podem compreendê-la.
São Jerônimo. Jesus está também em meio às ondas: é batido pelo mar de um lado e de outro e, seguro em sua majestade, faz sua barquinha aproximar-se da terra, para que o povo, não sofrendo perigo algum, não cercado pelas tentações que não podia suportar, permaneça na praia com passo firme, a fim de ouvir o que se diz.
Rábano Mauro. Ou então, o fato de que, subindo na barca, sentava-se no mar significa que Cristo, pela fé, subiria às mentes dos gentios e reuniria a Igreja no mar, isto é, no meio das nações que o contradizem. A multidão que estava na praia, que não estava nem na barca nem no mar, é figura dos que recebem a palavra de Deus e já foram separados pela fé do mar, isto é, dos réprobos, mas ainda não foram instruídos nos mistérios celestes. Segue-se: E falou-lhes muitas coisas em parábolas.
São João Crisóstomo, in Matth. Ainda que no monte não tenha feito assim: pois não teceu o discurso por parábolas. Então, com efeito, havia somente multidões, e um povo desordenado; aqui, porém, havia também escribas e fariseus. Não fala em parábolas somente por isso, mas para tornar o discurso mais claro, imprimir uma memória mais ampla e pôr as coisas diante dos olhos.
São Jerônimo. Deve-se notar que não lhes falou tudo em parábolas, mas muitas coisas: pois, se tivesse dito tudo em parábolas, teriam partido sem proveito para o povo. Mistura o claro com o obscuro, para que, pelo que entendem, sejam levados ao conhecimento do que não entendem. A multidão também não é de um só parecer, mas de vontades diversas em cada um; por isso fala-lhe em muitas parábolas, para que, segundo as várias vontades, recebam diferentes ensinamentos.
São João Crisóstomo, in Matth. Põe como primeira aquela parábola que tornava o ouvinte mais atento: pois, como ia tratar sob enigma, desperta as mentes dos ouvintes pela primeira parábola, dizendo: Eis que o semeador saiu a semear a sua semente.
São Jerônimo. Significa-se que este semeador, que semeia, é o Filho de Deus, e que ele semeia nos povos a palavra do Pai.
São João Crisóstomo, in Matth. De onde saiu aquele que está presente em toda parte, ou como saiu? Não por lugar, mas pela encarnação, tornado mais próximo de nós pelo hábito da carne: pois, como não podíamos entrar até ele, impedindo-nos o ingresso os nossos pecados, ele mesmo sai até nós.
Rábano Mauro. Ou então saiu quando, abandonada a Judeia, passou pelos apóstolos às nações.
São Jerônimo. Ou então estava dentro enquanto permanecia em casa e falava os mistérios aos discípulos. Saiu, portanto, de sua casa para semear nas multidões.
São João Crisóstomo. Quando ouvires que saiu o semeador a semear, não penses que se trata de uma mesma coisa. Com efeito, o semeador sai muitas vezes também para outra tarefa: ou para revolver a terra, ou para cortar as ervas daninhas, ou para arrancar os espinhos, ou para fazer alguma outra diligência semelhante; este, porém, saiu para semear. Que acontece, pois, com essa semente? Três partes se perdem e uma se salva; e isso não de modo igual, mas com certa diferença; por isso segue-se: e, enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho.
São Jerônimo. Valentim toma esta parábola para provar a sua heresia, introduzindo três naturezas: a espiritual, a natural ou animal, e a terrena; ao passo que aqui são quatro: uma junto ao caminho, outra pedregosa, a terceira cheia de espinhos, a quarta a terra boa.
São João Crisóstomo, in Matth. Mas, segundo isso, que razão haveria em semear entre espinhos, sobre a pedra e no caminho? Nas sementes e na terra materiais, de fato, não haveria razão alguma: pois não está no poder da pedra tornar-se terra, nem do caminho deixar de ser caminho, nem do espinho deixar de ser espinho. Nas almas e nas doutrinas, porém, isso tem grande louvor: é possível, com efeito, que a pedra se torne terra fértil, que o caminho não seja mais pisado e que os espinhos sejam destruídos. Assim, o fato de se ter perdido mais semente não vem daquele que semeia, mas da terra que a recebe, isto é, da alma. Pois o próprio semeador não distingue o rico do pobre, nem o sábio do insensato; falava a todos, dando de si o que lhe pertencia, prevendo contudo o que havia de acontecer, de modo que lhe é lícito dizer: que devia eu fazer, e não fiz? Por isso, não diz abertamente que estes receberam e perderam por indolência, aqueles, ricos, sufocaram, e outros, moles, perderam: porque não quis feri-los com veemência, para não os lançar na indiferença. Por esta parábola instrui também os discípulos, para que, mesmo que muitos dos ouvintes sejam os que se perdem, nem por isso sejam eles indolentes: pois nem por isso o Senhor, que tudo previu, deixou de semear.
São Jerônimo. Observa que esta é a primeira parábola que foi posta com a sua interpretação; e onde quer que o Senhor exponha os seus discursos, deve-se cuidar para que não presumas entender outra coisa, ou algo a mais ou a menos do que ele expôs.
Rábano Mauro. As coisas que ele deixou sem dizer à nossa inteligência devem ser tocadas brevemente. O caminho é a mente, endurecida e ressecada pelo trânsito contínuo de maus pensamentos; a pedra, a dureza da mente obstinada; a terra, a docilidade da alma obediente; o sol, diz ele, é o ardor da perseguição que se enfurece. A profundidade da terra é a retidão da alma formada nas disciplinas celestes. Nesta exposição dissemos que as mesmas coisas nunca são postas sempre numa só e mesma significação alegórica.
São Jerônimo. Somos, porém, provocados à inteligência do que foi dito toda vez que somos advertidos por estas palavras que seguem: quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Remígio de Auxerre(séc. IX). Os ouvidos para ouvir são os ouvidos da mente, isto é, para entender e fazer o que foi ordenado.
Mt 13,10-17
10Os discípulos aproximaram-se dele, então, para dizer-lhe: “Por que lhes falas em parábolas?” 11Respondeu Jesus: “Porque a vós é dado compreender os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não. 12Ao que tem se lhe dará e terá em abundância, mas ao que não tem, será tirado até mesmo o que tem. 13Eis por que lhes falo em parábolas: para que, vendo, não vejam e, ouvindo, não ouçam nem compreendam. 14Assim se cumpre para eles o que foi dito pelo profeta Isaías: Ouvireis com vossos ouvidos e não entendereis, olhareis com vossos olhos e não vereis, 15porque o coração deste povo se endureceu: taparam os seus ouvidos e fecharam os seus olhos, para que seus olhos não vejam e seus ouvidos não ouçam, nem seu coração compreenda; para que não se convertam e eu os sare (Is 6,9s). 16Mas, quanto a vós, bem-aventurados os vossos olhos, porque veem! Ditosos os vossos ouvidos, porque ouvem! 17Eu vos declaro, em verdade: muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não ouviram”.
Glosa(séc. XII). Compreendendo os discípulos que eram obscuras as coisas que o Senhor dizia ao povo, quiseram sugerir ao Senhor que não falasse em parábolas; por isso se diz: e, aproximando-se, os discípulos lhe disseram: por que lhes falas em parábolas?
São João Crisóstomo, in Matth. Onde é digno de admiração que os discípulos, desejosos de aprender, saibam quando convém perguntar; com efeito, não fazem isso diante de todos. E Mateus mostra isso ao dizer aproximando-se; Marcos, porém, o demonstra mais claramente ao dizer que se aproximaram em particular.
São Jerônimo. Deve-se perguntar como se aproximam então dele, estando Jesus sentado na barca; a não ser que se entenda que, há pouco, subiram com ele à barca e, de pé ali, o interrogaram sobre a interpretação da parábola.
Remígio de Auxerre. O Evangelista diz, pois, aproximando-se, para mostrar por que razão estavam solícitos; ou então podiam aproximar-se corporalmente, embora houvesse algum espaço, ainda que pequeno, entre eles.
São João Crisóstomo, in Matth. Deve-se considerar também a retidão deles: como têm muito cuidado pelos outros e procuram primeiro o que é dos outros, e depois o que é seu; com efeito, não disseram: falas em parábolas a nós, mas falas em parábolas a eles. Ele, respondendo, disse-lhes: porque a vós foi dado conhecer o mistério do reino dos céus.
Remígio de Auxerre. A vós, digo, que aderis a mim e credes em mim. Chama mistério do reino dos céus à doutrina evangélica. A eles, porém, isto é, aos que estão de fora e não querem crer nele, a saber, os escribas, os fariseus e os demais que perseveram na infidelidade, não foi dado. Aproximemo-nos, pois, com os discípulos do Senhor, de coração puro, para que se digne interpretar-nos a doutrina evangélica, segundo aquilo: os que se aproximam de seus pés receberão de sua doutrina.
São João Crisóstomo, in Matth. Disse isto, não introduzindo necessidade nem fatalidade, mas mostrando que aqueles a quem não foi dado são para si mesmos a causa de todos os males; e querendo mostrar que conhecer os mistérios divinos é dom de Deus e graça dada do alto. Nem por isso, contudo, o livre-arbítrio é destruído; e isto é manifesto pelo que se segue: para que nem estes desesperem nem aqueles se tornem preguiçosos, ao ouvirem que a estes foi dado, demonstra que o princípio dessas coisas vem de nós, quando acrescenta: pois a quem tem, será dado, e terá em abundância; a quem não tem, até o que tem lhe será tirado; como se dissesse: quando alguém tiver desejo e empenho, ser-lhe-á dado tudo o que vem de Deus; quando, porém, estiver vazio disso e não trouxer o que lhe pertence, tampouco lhe são dadas as coisas que vêm de Deus; mais ainda, o que tem lhe será tirado, não porque Deus o tire, mas porque ele mesmo se torna indigno do que tem. Por isso também nós, se virmos alguém ouvir com indolência e, exortando-o a que preste atenção, não o persuadirmos, calemo-nos: porque, se nos demorarmos mais, aumentar-se-á a sua indolência. Ao que se esforça por aprender, porém, atraímos e derramamos muito. E disse bem, segundo o Evangelista, o que parece ter: pois nem sequer tem aquilo mesmo que tem.
Remígio de Auxerre. Também a quem tem empenho em ler, será dada a capacidade de entender; e a quem não tem empenho em ler, aquilo que parece ter por bem da natureza lhe será tirado. Ou então: a quem tem caridade, serão dadas as demais virtudes; e a quem não a tem, será tirado; porque sem a caridade nenhum bem pode existir.
São Jerônimo. Ou é concedido aos apóstolos que creem em Cristo; mas aos judeus, que não creram no Filho de Deus, ainda que possuam algo pelo bem da natureza, isso lhes é tirado: pois não podem entender nada com sabedoria, porque não têm a cabeça da sabedoria.
Santo Hilário, in Matth. Os judeus, não tendo a fé, perderam também a lei que haviam tido; e por isso a fé evangélica tem o dom perfeito: porque, acolhida, enriquece com novos frutos; mas, repudiada, tira também as riquezas da antiga substância.
São João Crisóstomo, in Matth. Para que se torne mais manifesto o que dissera, acrescenta: Por isso lhes falo em parábolas, porque vendo não veem, e ouvindo não ouvem nem entendem. E se essa cegueira fosse da natureza, convinha abrir-lhes os olhos; mas, porque essa cegueira é voluntária, por isso não disse simplesmente: não veem; mas: vendo não veem. Pois viram os demônios sendo expulsos, e disseram: É por Beelzebu que expulsa os demônios. Ouviam o que atraía todos a Deus; e dizem: Este homem não é de Deus. Como, portanto, proclamavam coisas contrárias ao que viam e ouviam, por isso mesmo lhes é tirado o ver e o ouvir: pois nada aproveitam, mas antes incorrem em juízo; e por isso, desde o princípio, não lhes falava em parábolas, mas com muita certeza. Mas, porque pervertem o que ouviram e viram, já fala em parábolas.
Remígio de Auxerre. E deve-se notar que não só o que dizia, mas também o que fazia, eram parábolas, isto é, sinais de realidades espirituais; o que mostra claramente quando diz: para que vendo não vejam; pois as palavras não podiam ser vistas, mas ouvidas.
São Jerônimo. Isto diz daqueles que estão de pé na praia, e são separados de Jesus, e, com o estrondo das ondas, não ouvem com clareza o que se diz.
São João Crisóstomo. Em seguida, para que não dissessem que, como inimigo nosso, nos difama, introduz o profeta que sente o mesmo; donde se segue: Para que se cumpra neles a profecia de Isaías, que diz: Ouvireis com o ouvido, e não entendereis; e vendo vereis, e não vereis, isto é, ouvireis as palavras com o ouvido, mas não entendereis os mistérios das palavras; vendo vereis, a carne, a saber, e não vereis: isto é, não entendereis a divindade.
São João Crisóstomo. Disse isto porque eles mesmos tiraram de si o ver e o ouvir, fechando para si os ouvidos e os olhos, e engrossando o coração. Pois não só não ouviam, mas ouviam com dificuldade; donde se segue: Engrossou-se o coração deste povo, e com os ouvidos ouviram com dificuldade.
Rábano Mauro. Com efeito, engrossou-se o coração dos judeus pela espessura da malícia, e, pela abundância dos pecados, ouviram com dificuldade as palavras do Senhor, porque as receberam ingratos.
São Jerônimo. E para que não julguemos que a espessura do coração e a dificuldade dos ouvidos sejam da natureza, e não da vontade, acrescenta a culpa do arbítrio, e diz: e fecharam os seus olhos.
São João Crisóstomo, in Matth. Nisto mostra a intensa maldade deles e a aversão com empenho. Mas, para atraí-los, acrescenta: e se convertam, e eu os cure. Com isso demonstra que, se se convertessem, seriam curados; como se alguém dissesse: se eu tivesse sido solicitado, teria dado imediatamente, mostra como alguém se reconcilia consigo mesmo; assim também aqui, ao dizer para que não se convertam, e eu os cure, demonstra que é possível converter-se e, fazendo penitência, salvar-se.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Ou de outro modo. Fecharam os seus olhos, para que não vejam com os olhos; isto é, eles mesmos foram a causa de Deus lhes fechar os olhos. Pois outro Evangelista diz: Cegou os seus olhos. Mas foi para que nunca vejam, ou antes para que nem assim vejam algum dia, descontentes com a sua cegueira, e doendo-se, e assim, humilhados e movidos, confessem os seus pecados e busquem piedosamente a Deus? Se com efeito Marcos diz isto: para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados. Onde se entende que mereceram, por seus pecados, não entender; e, contudo, isto mesmo lhes foi feito com misericórdia, para que conhecessem os seus pecados e, convertidos, merecessem o perdão. Quanto ao que João diz neste passo: Por isso não podiam crer, porque Isaías disse de novo: Cegou os seus olhos, e endureceu o seu coração, para que não vejam com os olhos, e não entendam com o coração, e se convertam, e eu os cure, parece contrariar esta interpretação, e obrigar absolutamente a que o que aqui foi dito, para que não vejam com os olhos, não seja tomado como: para que nem assim algum dia vejam com os olhos, mas como: para que absolutamente não vejam; já que diz abertamente: de modo que não vejam com os olhos. E o que diz: Por isso não podiam crer, mostra bastante que a cegueira não foi feita para que, movidos por ela e doendo-se de não entender, se convertessem algum dia pela penitência: pois não poderiam fazê-lo se antes não cressem, de modo que, crendo, se convertessem, e pela conversão fossem curados, e curados entendessem; mas antes que foram cegados para que não cressem: pois diz claríssimamente: Por isso não podiam crer. Se é assim, quem não se levantará em defesa dos judeus, para proclamar que estiveram sem culpa, por não terem crido? Pois por isso não podiam crer, porque cegou os seus olhos. Mas, como se deve entender antes que Deus está sem culpa, somos obrigados a confessar que por alguns outros pecados mereceram ser assim cegados, cegueira pela qual, contudo, não podiam crer: pois as palavras de João são estas: Não podiam crer, porque Isaías disse de novo: Cegou os seus olhos. Em vão, portanto, se esforçam por entender que foram cegados para que se convertessem; quando por isso não podiam converter-se, porque não criam, e por isso não podiam crer, porque estavam cegados. Ou talvez não digamos de modo absurdo que alguns dos judeus eram curáveis; mas estavam em tal perigo pelo tumor da soberba que lhes convinha primeiro não crer, para não entenderem o Senhor que falava em parábolas, e, não as entendendo, não crerem nele; e, não crendo, juntamente com os demais desesperados, o crucificassem; e assim, depois da ressurreição dele, se convertessem, quando, já mais humilhados pela culpa da morte do Senhor, o amassem, alegrando-se de que lhes fosse perdoado por ele tão grande crime: pois tão grande soberba devia ser abatida por tal humilhação. Isto, quem o julgar dito sem propósito, é porque não leu manifestamente nos Atos dos Apóstolos que assim aconteceu. Não repugna, pois, o que João diz: Por isso não podiam crer, porque cegou os seus olhos, para que não vejam, àquela interpretação segundo a qual entendemos que foram cegados para que se convertessem; isto é, que por isso as sentenças do Senhor lhes foram ocultadas pelas obscuridades das parábolas, para que, depois da ressurreição dele, voltassem a si com uma penitência mais salutar; porque, cegados pela obscuridade do discurso, não entenderam as palavras do Senhor; e, não as entendendo, não creram nele; não crendo, o crucificaram; e assim, depois da ressurreição, aterrados pelos milagres que se faziam em seu nome, foram compungidos pela culpa de um crime maior, e prostrados para a penitência; depois, recebido o perdão, converteram-se à obediência com ardentíssimo amor: a alguns, porém, aquela cegueira não serviu para a conversão.
Remígio de Auxerre. E, quanto a isto, pode esta sentença ser entendida de modo que em todas as partes se subentenda não desta maneira: para que não vejam algum dia com os olhos, e não ouçam algum dia com os ouvidos, e não entendam algum dia com o coração, e não se convertam algum dia, e eu os cure.
Glosa. Assim, pois, são miseráveis os olhos daqueles que veem e não querem crer; mas os vossos são bem-aventurados; donde se segue: Mas bem-aventurados os vossos olhos, porque veem, e os vossos ouvidos, porque ouvem.
São Jerônimo. Se não tivéssemos lido acima que os ouvintes foram chamados à inteligência, dizendo o Salvador: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça, pensaríamos que aqui se entendem como corporais os olhos e os ouvidos que recebem a bem-aventurança. Mas parecem-me bem-aventurados aqueles olhos que podem reconhecer os sacramentos de Cristo, e aqueles ouvidos de que fala Isaías: O Senhor abriu-me o ouvido.
Glosa. Com efeito, a mente é o olho, porque por vigor natural se dirige a entender algo; e o ouvido, porque aprende por outro que ensina.
Santo Hilário, in Matth. Ou ensina a bem-aventurança do tempo apostólico, a cujos olhos e ouvidos coube ver e ouvir a salvação de Deus, que os profetas e os justos desejavam ver e ouvir, destinada para a plenitude dos tempos; donde se segue: Em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que vós ouvis, e não o ouviram.
São Jerônimo. Parece, porém, que a este passo é contrário aquilo que se diz em outro lugar: Abraão desejou ver o meu dia: viu-o e se alegrou.
Rábano Mauro. Também Isaías, Miqueias e muitos outros profetas viram a glória do Senhor; por isso mesmo foram chamados videntes.
São Jerônimo. Não disse, porém: os profetas e os justos, mas muitos; pois entre muitos pode acontecer que uns tenham visto e outros não tenham visto, embora também nisto seja perigosa a interpretação, de modo que pareçamos fazer alguma distinção entre os méritos dos santos, a saber, quanto à fé tida em Cristo; portanto, Abraão viu em enigma, não viu em aparência. Vós, porém, tendes agora presente e possuís o vosso Senhor, e o interrogais a vosso gosto, e comeis com ele.
São João Crisóstomo, in Matth. Estas coisas, portanto, que os apóstolos viram e ouviram, diz ele que são a sua presença, os milagres, a voz e a doutrina. Nisto, porém, ele os prefere não só aos maus, mas também aos que haviam sido bons: pois diz que são mais bem-aventurados que os justos antigos, porque não só veem o que os judeus não tinham visto, mas também o que os justos e os profetas desejaram ver e não viram. Aqueles, com efeito, contemplaram somente pela fé; estes, porém, pela vista, e com muito mais clareza. Vês, ademais, como une o Antigo Testamento ao Novo: pois, se os profetas tivessem sido servos de algum Deus estranho e contrário, não teriam desejado Cristo.
Mt 13,18-23
18“Ouvi, pois, o sentido da parábola do semeador: 19quando um homem ouve a palavra do Reino e não a entende, o Maligno vem e arranca o que foi semeado no seu coração. Este é aquele que recebeu a semente à beira do caminho. 20O solo pedregoso em que ela caiu é aquele que acolhe com alegria a palavra ouvida, 21mas não tem raízes, é inconstante: sobrevindo uma tribulação ou uma perseguição por causa da palavra, logo encontra uma ocasião de queda. 22O terreno que recebeu a semente entre os espinhos representa aquele que ouviu bem a palavra, mas nele os cuidados do mundo e a sedução das riquezas a sufocam e a tornam infrutuosa. 23A terra boa semeada é aquele que ouve a palavra e a compreende, e produz fruto: cem por um, sessenta por um, trinta por um.”
Glosa. Havia dito acima que aos judeus não foi dado conhecer o reino de Deus, mas aos apóstolos, e por isso conclui dizendo: Vós, portanto, ouvi a parábola do semeador, a vós, isto é, a quem são confiados os mistérios dos céus.
Santo Agostinho, super Genesim. O que o Evangelista narrou aconteceu, isto é, que o Senhor disse tais coisas; a narração do próprio Senhor, porém, foi uma parábola, da qual nunca se exige que também se mostre acontecido ao pé da letra o que se expressa em palavras.
Glosa. Por isso, explicando a parábola, acrescenta: Todo aquele que ouve a palavra do reino, isto é, a minha pregação, que vale para alcançar o reino dos céus, e não a entende. Como não a entende, ele o acrescenta: vem o maligno, isto é, o Diabo, e arrebata o que foi semeado em seu coração. Todo aquele, digo, que é assim, este é o que foi semeado à beira do caminho. Deve-se notar, porém, que semeado se toma de diversos modos. Diz-se, com efeito, tanto a semente semeada quanto o campo semeado, e ambos se encontram aqui. Pois onde diz arrebata o que foi semeado, deve-se entender da semente; mas onde se segue foi semeado à beira do caminho, deve-se entender não da semente, mas do lugar da semente, isto é, o homem, que é como que um campo semeado com a semente da palavra divina.
Remígio de Auxerre. Com estas palavras o Senhor expõe o que é a semente: a palavra do reino, isto é, da doutrina evangélica. Há, com efeito, alguns que recebem a palavra de Deus sem nenhuma devoção do coração; e por isso a semente da palavra de Deus, que é semeada em seus corações, os demônios a levam de repente, como a semente do caminho pisado. Segue-se: Aquele que foi semeado sobre a pedra, este ouve a palavra e o mais. Com efeito, a semente, ou a palavra de Deus, que é semeada na pedra, isto é, no coração duro e indomado, não pode frutificar, porque é grande a sua dureza e pequeno o desejo celeste; por isso, por causa da excessiva dureza, não tem em si raiz.
São Jerônimo. Atenta, porém, que se disse: logo se escandaliza. Há, pois, alguma distância entre aquele que é compelido a negar Cristo por muitas tribulações e penas, e aquele que, à primeira perseguição, logo se escandaliza e cai: é deste que aqui fala. Segue-se: Aquele que foi semeado entre os espinhos. Parece-me que também aquilo que, segundo a letra, é dito a Adão: Entre espinhos e abrolhos comerás o teu pão, significa aqui misticamente que quem quer que se entregue aos prazeres do século e às preocupações deste mundo, come o pão celeste e o verdadeiro alimento entre espinhos.
Rábano Mauro. Com razão, porém, chamam-se espinhos, porque dilaceram a mente com as picadas dos seus pensamentos e, como que por estrangulamento, não permitem que ela produza os frutos espirituais das virtudes.
São Jerônimo. E elegantemente acrescentou: a sedução das riquezas sufoca a palavra; pois as riquezas são lisonjeiras, fazendo uma coisa e prometendo outra. Escorregadia é a sua posse, enquanto são levadas daqui para ali, e com passo instável ou abandonam os que as têm, ou refazem os que não as têm. Por isso também o Senhor afirma que os ricos dificilmente entram no reino dos céus, sufocando as riquezas a palavra de Deus e amolecendo o vigor das virtudes.
Remígio de Auxerre. E é preciso saber que nestes três gêneros de terra ruim se compreendem todos os que podem ouvir a palavra de Deus, mas não conseguem conduzi-la à salvação. Excetuam-se os gentios, que nem mereceram ouvir. Segue-se: Aquele, porém, que foi semeado em terra boa. A terra boa é a consciência fiel dos eleitos, ou a mente dos santos, que recebe a palavra de Deus com alegria, desejo e devoção do coração, e a conserva varonilmente entre as prosperidades e as adversidades, e a conduz ao fruto; donde se segue: e produz fruto, um cem, outro sessenta, outro trinta.
São Jerônimo. E deve-se notar que, assim como na terra má houve três diversidades, a saber, à beira do caminho, e os lugares pedregosos e os espinhosos, assim na terra boa há uma tríplice diversidade, de fruto cem, sessenta e trinta. E tanto numa quanto na outra não muda a substância, mas a vontade; e tanto dos incrédulos quanto dos crentes são os corações que recebem a semente: por isso, primeiro disse: vem o maligno e arrebata o que foi semeado em seu coração; e, na segunda e na terceira vez, diz: este é o que ouve a palavra. Também na exposição da terra boa: este é o que ouve a palavra. Primeiro, portanto, devemos ouvir, depois entender, e depois da compreensão dar o fruto das doutrinas, e produzir ou o fruto de cem, ou de sessenta, ou de trinta.
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Alguns pensam que isto deve ser entendido assim: que os santos, segundo a diversidade dos seus méritos, libertarão uns trinta homens, outros sessenta, outros cem; coisa que costumam supor que acontecerá no dia do juízo, não depois do juízo. Vendo alguém, com tal opinião, que os homens prometiam a si mesmos a impunidade da maneira mais perversa, já que por esse modo todos parecem poder pertencer à libertação, respondeu que antes se deve viver bem, para que cada um se encontre entre aqueles que hão de interceder pela libertação dos outros; não aconteça que sejam tão poucos que, chegando logo ao seu número, permaneçam muitos que já não possam ser arrancados das penas por intercessão deles, e entre estes se ache quem quer que, com vaníssima temeridade, prometa a si a esperança do fruto alheio.
Remígio de Auxerre. Produz, pois, o fruto de trinta quem ensina a fé na santa Trindade; o de sessenta, quem recomenda a perfeição das boas obras (pois pelo número seis foi completado todo o ornamento do mundo); e produz o fruto de cem quem promete a vida eterna: pois o número cem passa da esquerda para a direita: ora, pela esquerda designa-se a vida presente, pela direita a futura. De outro modo: a semente da palavra de Deus produz o fruto de trinta quando gera um bom pensamento; o de sessenta, quando uma boa palavra; o de cem, quando conduz ao fruto da boa obra.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Ou de outro modo. O fruto de cem é o dos mártires, pela santidade de vida ou pelo desprezo da morte; o de sessenta, o das virgens, pelo repouso interior, porque não lutam contra o costume da carne: pois costuma-se conceder o repouso aos sexagenários depois do serviço militar ou depois das atividades públicas; o de trinta, porém, o dos casados, porque esta é a idade dos que combatem, e eles têm um conflito mais áspero, para não serem vencidos pelas paixões. Ou de outro modo. Deve-se lutar contra o amor dos bens temporais, para que a razão vença; ou ele deve também estar domado e submisso, de modo que, quando começar a se levantar, seja facilmente reprimido; ou ainda tão extinto que não se mova de modo algum, em parte alguma. Daí resulta que a própria morte, por causa da verdade, uns a desprezam com fortaleza, outros com serenidade, outros com gosto: estes três gêneros são os frutos da terra, de trinta, de sessenta e de cem. Em algum destes gêneros deve ser encontrado, no tempo de sua morte, quem pensa retamente em partir desta vida.
São Jerônimo. Ou o fruto de cem é atribuído às virgens, o de sessenta às viúvas e continentes, o de trinta ao santo matrimônio.
Idem. Pois a própria junção dos dedos, que como num beijo suave se abraçam e se unem, representa o marido e a esposa. O sessenta é para as viúvas: porque estão postas na angústia e na tribulação; por isso são pressionadas pelo dedo inferior; pois quanto maior é a dificuldade de abster-se das seduções do prazer outrora experimentado, tanto maior é o prêmio. Por fim, o número cem passa da esquerda para a direita; e, fazendo um círculo com os mesmos dedos, mas não com a mesma mão, exprime a coroa da virgindade.
Mt 13,24-30
24Jesus propôs-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é semelhante a um homem que tinha semeado boa semente em seu campo. 25Na hora, porém, em que os homens repousavam, veio o seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e partiu. 26O trigo cresceu e deu fruto, mas apareceu também o joio. 27Os servidores do pai de família vieram e disseram-lhe: ‘Senhor, não semeaste bom trigo em teu campo? Donde vem, pois, o joio?’. 28Disse-lhes ele: ‘Foi um inimigo que fez isto!’. Replicaram-lhe: ‘Queres que vamos e o arranquemos?’. 29‘Não’ – disse ele –; arrancando o joio, arriscais tirar também o trigo. 30Deixai-os crescer juntos até a colheita. No tempo da colheita, direi aos ceifadores: arrancai primeiro o joio e atai-o em feixes para o queimar. Recolhei depois o trigo no meu celeiro’.”
São João Crisóstomo, in Matth. Na parábola precedente o Senhor falou aos que não recebem a palavra de Deus; aqui, porém, fala dos que recebem uma doutrina corrompida: pois é próprio da maquinação diabólica misturar sempre o erro à verdade; por isso se diz: Propôs-lhes outra parábola, dizendo.
São Jerônimo. Propôs outra parábola como um rico pai de família que, ao reconfortar os convidados com diversos alimentos, faz com que cada um receba comidas variadas segundo a natureza de seu estômago. Não disse, porém, a segunda, mas outra: pois, se tivesse proposto a segunda, não poderíamos esperar uma terceira. Antepôs outra para que muitas se seguissem. Qual seja a parábola, mostra-se quando se acrescenta: O Reino dos céus é semelhante.
Remígio de Auxerre. Chama de Reino dos céus o próprio Filho de Deus: esse Reino é dito semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo.
São João Crisóstomo, in Matth. Em seguida mostra o modo das insídias do Diabo, dizendo: Mas, enquanto os homens dormiam, veio o seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. Mostra aqui que o erro surge depois da verdade, o que também o desfecho dos fatos atesta: pois depois dos profetas houve falsos profetas, depois dos apóstolos falsos apóstolos, e depois de Cristo o Anticristo. Com efeito, se o Diabo não vir o que imitar, ou a quem insidiar, não tenta. Como, pois, viu que este rende cem por um, aquele sessenta, outro trinta, e não podia arrebatar e sufocar o que estava enraizado, insidia por outro engano, intercalando o que é seu e colorindo-o com muitas semelhanças, para surripiar facilmente os que são aptos ao engano. Por isso não diz que semeou alguma outra semente, mas joio, que pela aparência se assemelha de certo modo ao trigo. Daqui também aparece a malignidade do Diabo: pois semeou então, quando tudo estava completo, para prejudicar mais o zelo do agricultor.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Diz, porém, enquanto os homens dormiam: porque, quando os chefes da Igreja agiam com maior negligência, ou os apóstolos recebiam o sono da morte, veio o Diabo e semeou por cima aqueles que o Senhor interpreta como filhos maus. Mas pergunta-se com razão se são hereges ou católicos que vivem mal. Quanto ao que diz, que foram semeados no meio do trigo, parece que se significam aqueles que são de uma só comunhão. Contudo, como interpretou o campo não como a Igreja, mas como este mundo, entendem-se bem os hereges, que neste mundo se misturam aos bons; quanto aos que são maus dentro da mesma fé, sejam antes atribuídos à palha do que ao joio: porque a palha também tem fundamento com o trigo e raiz comum. Os cismáticos, por sua vez, parecem ainda mais semelhantes a espigas corrompidas, ou a palhas de espigas quebradas ou rasgadas e lançadas fora da seara. Não é, porém, consequência que todo herege ou cismático seja separado corporalmente da Igreja: pois a Igreja suporta muitos, porque não defendem a falsidade de sua opinião a ponto de formar uma multidão obstinada; se o fizerem, então são expulsos. Quando, pois, o Diabo, espalhados erros perversos e falsas opiniões, tivesse semeado por cima, isto é, tivesse lançado heresias sob o nome de Cristo que as precedia, ele próprio ficou mais escondido e se tornou ocultíssimo: é isto, com efeito, o que significa e foi-se embora; embora nesta parábola se deva entender que o Senhor, como concluiu na explicação, designou pelo nome de joio não alguns, mas todos os escândalos e os que praticam a iniquidade.
São João Crisóstomo, in Matth. Pelas palavras seguintes descreve cuidadosamente a figura dos hereges, dizendo: Quando a erva cresceu e deu fruto, apareceu então também o joio. No princípio, com efeito, os hereges encobrem-se; quando, porém, receberam muita liberdade, e alguém partilhou com eles a conversa, então derramam o veneno.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Ou de outro modo. Quando o homem espiritual começa a julgar todas as coisas, então os erros começam a lhe aparecer: discerne, com efeito, que tudo o que ouviu ou leu se afasta da regra da verdade; mas, até ser aperfeiçoado nesses mesmos dons espirituais, pode perturbá-lo o fato de que, sob o nome cristão, surgiram tantas falsidades de hereges; por isso segue-se: Os servos do pai de família, aproximando-se, disseram-lhe: Senhor, não semeaste boa semente em teu campo? Donde vem, pois, o joio?. Pergunta-se se esses são os servos que depois chama de ceifeiros, ou, uma vez que na explicação da parábola diz que os ceifeiros são os Anjos, ninguém ousaria facilmente dizer que os Anjos ignoraram quem semeou o joio por cima; convém antes entender que os próprios fiéis foram aqui designados pelo nome de servos. Nem é de admirar que eles também sejam chamados boa semente: pois, por significações diversas, uma só realidade recebe semelhanças diversas, como também diz de si mesmo que é a porta, que é o pastor.
Remígio de Auxerre. Aproximam-se de Deus, não com o corpo, mas com o coração e o desejo da mente: ensinados por ele, entendem que isto foi feito pela astúcia do Diabo; por isso segue-se: E ele lhes disse: Um homem inimigo fez isto.
São Jerônimo. O Diabo é chamado homem inimigo porque deixou de ser Deus; e no Salmo 9,20 está escrito a seu respeito: Levanta-te, Senhor, que o homem não prevaleça. Por isso, não durma aquele que está à frente da Igreja, para que, por sua negligência, o homem inimigo não semeie por cima o joio, isto é, as doutrinas dos hereges.
São João Crisóstomo, in Matth. É chamado inimigo pelo dano que causa aos homens: pois a vexação do Diabo é contra nós; mas o princípio da vexação não veio da inimizade que tem para conosco, e sim da que tem para com Deus.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Quando, porém, os servos de Deus tiverem conhecido que o Diabo maquinou esta fraude, porque sentia nada poder contra o autor de tão grande nome, para encobrir suas fraudes com o mesmo nome, pode surgir neles a vontade de tirar dentre as coisas humanas tais homens, se tiverem alguma oportunidade de tempo; mas se o devem fazer, consultam a justiça de Deus; por isso segue-se: Os servos disseram-lhe: Queres que vamos e o recolhamos?
São João Crisóstomo. Aqui se deve considerar a diligência e o amor dos servos: com efeito, apressam-se a arrancar o joio, o que mostra a sua solicitude pela semente; pois olham somente para isto: não que alguém seja castigado, mas que o que foi semeado não pereça. Mas o que o Senhor respondeu, acrescenta-se: e diz: Não.
São Jerônimo. Dá-se, com efeito, lugar à penitência; e somos advertidos a não cortar depressa o irmão, porque pode acontecer que aquele que hoje está depravado por um dogma nocivo, amanhã volte a si e comece a defender a verdade; donde se acrescenta: para que, porventura, ao colherdes o joio, não arranqueis juntamente também o trigo.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Com isso os torna muito pacientes e tranquilos: com efeito, diz-se isto porque os bons, enquanto ainda são fracos, têm necessidade da mistura de alguns maus, ou para serem exercitados por eles, ou para que, pela comparação com eles, se lhes faça uma grande exortação e sejam convidados ao melhor. Ou talvez seja arrancado juntamente o trigo quando se retira o joio, porque muitos são primeiro joio e depois se tornam trigo; os quais, se não fossem pacientemente tolerados enquanto são maus, não chegariam à mudança digna de louvor. Assim, se forem arrancados, arranca-se juntamente também o trigo que viriam a ser, se fossem poupados. Por isso diz que tais pessoas não devem ser tiradas desta vida, para que, ao procurar matar os maus, não mate os bons, que talvez venham a ser; ou para que não prejudique os bons, aos quais são úteis mesmo contra a vontade deles. Mas isto será feito oportunamente quando, já no fim, não restar nem tempo para mudar de vida, nem para progredir na verdade pela ocasião e comparação do erro alheio: e por isso acrescenta: deixai crescer ambos até a colheita, isto é, até o juízo.
São Jerônimo. Parece, porém, que isto é contrário àquele preceito: tirai o mal do meio de vós. Se, com efeito, se proíbe o arrancar, e a paciência deve ser mantida até a colheita, como certos homens devem ser expulsos do meio de nós? Mas entre o trigo e o joio (que nós chamamos lolium), enquanto é erva e o caule ainda não chegou à espiga, é grande a semelhança, e no discernir a diferença ou é nula ou é difícil. Primeiro, pois, o Senhor adverte que não profiramos depressa a sentença sobre uma palavra que é ambígua, mas a reservemos a Deus, o juiz: para que, quando vier o dia do juízo, ele expulse da assembleia dos santos não a suspeita de um crime, mas a culpa manifesta.
Santo Agostinho, contra Epist. Parmeniani. Quando, com efeito, algum dos cristãos que estão dentro da Igreja for apanhado em algum pecado tal que seja tido por digno de anátema, faça-se isto (onde não se teme perigo de cisma) com amor, não para arrancar, mas para corrigir. Se ele não se reconhecer, nem se corrigir pela penitência, sairá ele mesmo para fora, e por sua própria vontade será separado da comunhão da Igreja: por isso o Senhor, tendo dito deixai crescer ambos até a colheita, acrescentou a causa, dizendo: para que, porventura, ao quererdes colher o joio, não arranqueis juntamente também o trigo; onde mostra bastante que, quando este temor não existe, mas permanece plena e certa segurança quanto à firmeza do trigo, isto é, quando o crime de alguém é de tal modo conhecido e aparece detestável a todos que não tenha defensores de nenhum modo, ou não tais, por meio dos quais possa ocorrer um cisma, não durma a severidade da disciplina: nela a correção da perversidade é tanto mais eficaz quanto mais diligente tiver sido a observância da caridade. Quando, porém, o mesmo mal tiver tomado muitíssimos, não resta outro bem senão a dor e o gemido. Assim, pois, corrija o homem misericordiosamente o que pode; o que, porém, não pode, suporte pacientemente, e por amor gema e chore, até que aquele, do alto, emende e corrija; e adie até a colheita o arrancar o joio e o joeirar a palha. Quanto à multidão dos iníquos, quando há faculdade de proferir a palavra diante dos povos, deve ser atingida por uma repreensão geral; e sobretudo se algum flagelo do Senhor, vindo do alto, tiver dado ocasião e oportunidade, pelo qual apareça que eles são castigados segundo os seus méritos: então, com efeito, a calamidade dos ouvintes oferece ouvidos humildes à palavra de quem os corrige, e leva os corações aflitos mais facilmente ao gemido de quem confessa do que ao murmúrio de quem resiste; embora, mesmo que nenhuma calamidade de tribulação oprima, quando se dá a faculdade, útil é repreender a multidão na multidão: pois, assim como separada costuma enfurecer-se, assim, repreendida na própria assembleia, costuma gemer.
São João Crisóstomo, in Matth. Ora, o Senhor disse isto proibindo que se façam mortes: com efeito, não convém matar o herege, porque seria introduzida no orbe da terra uma guerra inextricável: e por isso diz: para que não arranqueis juntamente com eles o trigo, isto é, se pegardes em armas e matardes os hereges, é necessário que muitos dos santos sejam submergidos juntamente. Não proíbe, portanto, deter os hereges, cortar a sua livre divulgação e dissolver os seus sínodos e reuniões, mas matar e dar morte.
Santo Agostinho, ad Vincentium. Esta era, porém, antes a minha opinião: que ninguém devia ser forçado à unidade de Cristo; com efeito, dever-se-ia agir com a palavra, combater com a discussão, vencer com a razão, para não termos como católicos fingidos aqueles que conhecíamos como hereges declarados. Mas esta minha opinião era superada não pelas palavras dos que contradiziam, mas pelos exemplos dos que demonstravam: com efeito, o terror destas leis, ao promulgar as quais os reis servem ao Senhor com temor, aproveitou tanto que agora uns dizem: já queríamos isto; mas graças a Deus, que nos ofereceu a ocasião e cortou as demoras dos adiamentos. Outros dizem: já sabíamos que isto era verdadeiro; mas por não sei que costume éramos retidos: graças a Deus, que rompeu as nossas cadeias. Outros dizem: não sabíamos que isto era a verdade, nem queríamos aprendê-la, mas o medo nos tornou atentos para conhecê-la: graças ao Senhor, que sacudiu a nossa negligência com o aguilhão do terror. Outros dizem: éramos impedidos de entrar por falsos rumores, que não saberíamos serem falsos se não entrássemos, e não entraríamos se não fôssemos obrigados: graças a Deus, que com o flagelo removeu a nossa preguiça e, já experimentados, nos ensinou quão vãs e vazias coisas a fama mentirosa espalhou sobre a sua Igreja. Outros dizem: julgávamos, sem dúvida, que não importava onde mantivéssemos a fé de Cristo; mas graças ao Senhor, que nos reuniu da divisão e mostrou que convém ao Deus único que seja cultuado na unidade. Sirvam, pois, a Cristo os reis da terra, promulgando leis em favor de Cristo.
Santo Agostinho, ad Bonifacium comitem. Quem de vós, porém, quereria que não somente algum dos hereges perecesse, mas ainda que se perdesse alguma coisa? Mas de outro modo a casa de Davi não mereceu ter paz, a não ser que Absalão, seu filho, fosse morto na guerra que movia contra o pai: embora Davi tivesse ordenado com grande cuidado aos seus que o conservassem, quanto pudessem, vivo e salvo, para que houvesse alguém a quem o afeto paterno perdoasse, se arrependido. Que lhe restou, porém, senão chorar o perdido e, adquirida a paz do seu reino, consolar a sua tristeza? Assim, pois, a Igreja católica, mãe, se pela perdição de alguns reúne tantos outros, alivia a dor do coração materno e a cura com a libertação de tão grandes povos. Onde está, então, aquilo que estes costumam clamar: é livre crer ou não crer? A quem Cristo fez violência? A quem forçou? Eis que têm o apóstolo Paulo: reconheçam nele primeiro Cristo que força, e depois que ensina; primeiro que fere, e depois que consola. É admirável, porém, como aquele que entrou no Evangelho forçado pela pena do corpo trabalhou mais no Evangelho do que todos aqueles que foram chamados só pela palavra. Por que, então, a Igreja não forçaria os filhos perdidos a voltar, se os filhos perdidos forçaram outros a perecer? Segue-se: e no tempo da colheita direi aos ceifeiros: colhei primeiro o joio e atai-o em feixes para queimar.
Remígio de Auxerre. Chama-se colheita o tempo de ceifar; pela colheita, porém, designa-se o dia do juízo, no qual os bons devem ser separados dos maus.
São João Crisóstomo, in Matth. Mas por que diz: colhei primeiro o joio? Para que os bons não temam que o trigo seja retirado juntamente com o joio.
São Jerônimo. Quanto ao que diz que os feixes de joio são entregues ao fogo e o trigo é recolhido nos celeiros, é manifesto que todos os hereges e hipócritas serão queimados nos fogos da Geena; os santos, porém, que são chamados trigo, serão recebidos nos celeiros, isto é, nas moradas celestes.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Pode-se perguntar por que não disse que se faria um só feixe ou um só monte de joio; a não ser que, talvez por causa da variedade dos hereges, que discrepam não só do trigo, mas também entre si mesmos, tenha designado pelo nome de feixes as heresias de cada um, nas quais estão separados uns dos outros em sua comunhão: de modo que comecem a ser atados para queimar já então, quando, apartados da comunhão católica, começarem a ter as suas próprias como que igrejas, de modo que a queima deles seja no fim do século, não o atar dos feixes. Mas, se fosse assim, não seriam tantos os que, voltando a si e retornando à Igreja católica, se afastariam do erro. Por isso, o atar dos feixes no fim será proveitoso, para que não confusamente, mas segundo a medida da sua perversidade, seja punida a pertinácia do erro de cada um.
Rábano Mauro. E deve-se notar que, onde diz: semeou boa semente, assinala a boa vontade que está nos eleitos; onde, porém, diz: veio o inimigo, etc., quis dar a entender a cautela que se deve ter; quando, porém, crescendo o joio, como que suportando com paciência, diz: um homem inimigo fez isto, recomendou-nos a paciência; onde, porém, diz: para que, porventura, ao colherdes o joio, deu-nos um exemplo de discrição; quando, porém, acrescenta: deixai crescer ambos até a colheita, recomendou a longanimidade; por fim, a justiça, quando diz: atai-o em feixes para queimar.
Mt 13,31-32
31Em seguida, propôs-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é comparado a um grão de mostarda que um homem toma e semeia em seu campo. 32É esta a menor de todas as sementes, mas, quando cresce, torna-se um arbusto maior que todas as hortaliças, de sorte que os pássaros vêm aninhar-se em seus ramos”.
São João Crisóstomo, in Matth. Porque o Senhor tinha dito que da semente três partes perecem e uma se salva, e que, nessa mesma que se salva, se faz de novo muita perda por causa do joio que é semeado por cima; para que não dissessem: quem serão, então, e quantos os fiéis? Em consequência, afasta este temor pela parábola do grão de mostarda: e por isso se diz: propôs-lhes outra parábola, dizendo: o Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda.
São Jerônimo. O Reino dos Céus é a pregação do Evangelho e o conhecimento das Escrituras, que conduz à vida: dele se diz aos judeus: ser-vos-á tirado o Reino de Deus. Tal Reino dos Céus, pois, é semelhante a um grão de mostarda.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. O grão de mostarda diz respeito ao fervor da fé, ou também porque se diz que expulsa os venenos. Segue-se: que um homem tomou e semeou em seu campo.
São Jerônimo. O homem que semeia em seu campo é entendido por muitos como o Salvador, que semeia nas almas dos que creem; por outros, como o próprio homem que semeia em seu campo, isto é, em seu coração. Quem é, porém, esse que semeia, senão o nosso entendimento e o nosso espírito, que, recebendo o grão da pregação e fomentando a semente com a umidade da fé, faz que ela brote no campo de seu peito? Segue-se: que é, na verdade, a menor de todas as sementes. A pregação do Evangelho é a menor de todas as doutrinas: à primeira vista, não tem aparência de verdade, pois prega um homem Deus, um Deus morto e o escândalo da cruz. Compara essa doutrina com os dogmas dos filósofos, com os livros deles, com o esplendor da eloquência e a composição dos discursos; e verás quanto a semente do Evangelho é menor que as outras sementes.
São João Crisóstomo, in Matth. Ou: a semente do Evangelho é a menor porque os discípulos eram mais fracos que todos; mas, como era grande a virtude que havia neles, a sua pregação se estendeu por toda a terra; e por isso se segue: mas, quando cresce, é maior que todas as hortaliças, isto é, que os dogmas.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Os dogmas, porém, são as opiniões das seitas, isto é, aquilo que aprouve às seitas.
São Jerônimo. Com efeito, os dogmas dos filósofos, quando crescem, nada mostram de mordaz, nada de vital: tudo brota flácido e murcho, em hortaliças e ervas, que logo secam e se acabam. Mas a pregação evangélica, que no princípio parecia pequena, quando é semeada na alma do que crê ou no mundo inteiro, não se levanta em hortaliças, mas cresce em árvore, de modo que as aves do céu (que devemos entender como as almas dos que creem, ou as potências entregues ao serviço de Deus) venham e habitem em seus ramos; daí se segue: e se torna árvore, de modo que as aves do céu vêm e habitam em seus ramos. Penso que os ramos da árvore evangélica, que cresceram do grão de mostarda, são as diversidades de dogmas, nas quais cada uma das aves mencionadas repousa. Tomemos também nós as asas da pomba, para que, voando para as alturas, possamos habitar nos ramos desta árvore e fazer para nós ninhos de doutrinas, fugindo das coisas terrenas e apressando-nos para as celestes.
Santo Hilário, in Matth. Ou: o Senhor comparou-se ao grão de mostarda, semente acre e a menor de todas as sementes, cuja virtude se acende com a pressão.
São Gregório Magno(séc. VI). Ele mesmo é o grão de mostarda que, plantado no jardim do sepulcro, ergueu-se como grande árvore: foi grão quando morreu, árvore quando ressuscitou; grão pela humildade da carne, árvore pelo poder da majestade.
Santo Hilário, in Matth. Este grão, pois, depois de semeado no campo, isto é, quando foi preso pelo povo e entregue à morte, sepultado como numa semeadura do corpo, como num campo, cresceu além da medida de todas as hortaliças e excede toda a glória dos profetas. Com efeito, a pregação dos profetas foi dada a Israel, como a um enfermo, à maneira de hortaliça; mas agora as aves do céu habitam nos ramos da árvore. Entendemos, nos ramos, os Apóstolos, estendidos pela virtude de Cristo e fazendo sombra ao mundo, onde as nações voarão para a esperança da vida e, agitadas pelo turbilhão dos ventos, isto é, pelo sopro e o hálito do Diabo, repousarão como nos ramos de uma árvore.
São Gregório Magno. Nesses ramos também repousam as aves, porque as almas santas, que se elevam do pensamento terreno com certas asas de virtudes, respiram, em suas palavras e consolações, da fadiga desta vida.
Mt 13,33
33Disse-lhes, por fim, esta outra parábola: “O Reino dos Céus é comparado ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha e que faz fermentar toda a massa”.
São João Crisóstomo, in Matth. Para mostrar o mesmo, o Senhor propõe a parábola do fermento; daí se diz: Disse-lhes outra parábola: O Reino dos céus é semelhante ao fermento; como se dissesse: assim como o fermento transforma muita farinha em sua própria virtude, assim também vós transformareis o mundo inteiro. E vê a prudência de Cristo: traz, com efeito, coisas da natureza, mostrando que, assim como aquelas podem acontecer, assim também isto. Não disse, porém, simplesmente que a pôs, mas que a escondeu; como se dissesse: assim também vós, quando fordes submetidos aos vossos perseguidores, então os superareis. E assim como o fermento é enterrado, mas não é destruído, e pouco a pouco transforma tudo em sua própria condição, assim também acontecerá na vossa pregação. Não temais, portanto, porque eu disse que muitas vexações virão sobre vós; pois assim resplandecereis e superareis a todos. Aqui, porém, pôs três medidas em lugar de muitas: tomou esse número determinado por uma multidão indeterminada.
São Jerônimo. A medida chamada sata é um gênero de medida segundo o costume da província da Palestina, que equivale a um módio e meio.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Ou o fermento significa a dileção, porque faz fervilhar e excita; a mulher significa a sabedoria. Nas três medidas de farinha entendem-se ou aquelas três coisas no homem: de todo o coração, de toda a alma e de toda a mente; ou aqueles três graus frutíferos: o cem, o sessenta e o trinta; ou aqueles três gêneros de homens: Noé, Daniel e Jó.
Rábano Mauro. Diz, porém, até que tudo ficasse fermentado, porque a caridade, guardada em nossa mente, deve crescer até transformar a mente inteira em sua perfeição: o que aqui se inicia, mas no futuro se completa.
São Jerônimo. Ou de outro modo: essa mulher, que toma o fermento e o esconde, parece-me ser a pregação apostólica, ou a Igreja reunida de diversas nações. Ela toma o fermento, isto é, a inteligência das Escrituras, e o esconde em três medidas de farinha, para que o espírito, a alma e o corpo, reduzidos à unidade, não discordem entre si. Ou de outro modo: lemos em Platão que há três coisas na alma: a racional, a irascível e a concupiscível; e nós também, se tivermos recebido o fermento evangélico das Sagradas Escrituras, possuamos na razão a prudência, na ira o ódio contra os vícios, no desejo o anseio das virtudes: e tudo isso se fará pela doutrina evangélica, que a Igreja, nossa mãe, nos proporcionou. Direi também a interpretação de alguns: eles também interpretam essa mulher como a Igreja, que misturou a fé do homem a três medidas de farinha, isto é, à crença no Pai, no Filho e no Espírito Santo: quando tudo estiver fermentado em um, ela nos conduz não ao conhecimento de um Deus triplo, mas ao da divindade una. É um sentido piedoso; mas jamais as parábolas e a duvidosa inteligência dos enigmas podem valer para a autoridade dos dogmas.
Santo Hilário, in Matth. Ou de outro modo: o Senhor comparou-se ao fermento; com efeito, o fermento vem da farinha e devolve a virtude recebida à massa do seu próprio gênero. Este fermento, tomado pela mulher, isto é, pela sinagoga, ela o escondeu pelo juízo de morte; e ele, coberto nas três medidas de farinha, isto é, na igualdade da lei, dos profetas e dos Evangelhos, tudo fez um só: de modo que aquilo que a lei estabeleceu e os profetas anunciaram se cumpra nos progressos dos Evangelhos; embora eu me lembre de que muitos entenderam que as três medidas de farinha se referem à vocação de três povos, de Sem, Cam e Jafé. Mas não sei se a razão permite pensá-lo assim; pois, ainda que se trate da vocação de todas as nações, Cristo não está nelas escondido, mas manifestado; e, em tão grande multidão de infiéis, nem tudo está fermentado.
Mt 13,34-35
34Tudo isso disse Jesus à multidão em forma de parábola. De outro modo não lhe falava, 35para que se cumprisse a profecia: Abrirei a boca para ensinar em parábolas; revelarei coisas ocultas desde a criação (Sl 77,2).
São João Crisóstomo, in Matth. Depois das parábolas anteriores, para que ninguém pensasse que Cristo introduzia algo novo, o Evangelista trouxe também um profeta que predizia esse modo de ensinar; e por isso diz: Jesus disse todas essas coisas às multidões em parábolas. Marcos, por sua vez, diz: Com muitas parábolas semelhantes lhes anunciava a palavra, conforme podiam entender. Por isso não te admires se, ao tratar do reino, menciona o grão e o fermento: falava, com efeito, a homens simples e necessitados de serem conduzidos por essas coisas.
Remígio de Auxerre. Parábola, em grego, diz-se em latim semelhança, pela qual se demonstra a verdade. Mostra, de fato, na própria semelhança certas figuras de palavras e imagens da verdade.
São Jerônimo. Não falava em parábolas aos discípulos, mas às multidões; e até hoje as multidões ouvem em parábolas; e por isso se diz: e sem parábolas não lhes falava.
São João Crisóstomo, in Matth. Embora, com efeito, tenha dito às multidões muitas coisas sem parábolas, contudo então nada disse sem elas.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Ou isto se diz não porque nada tenha dito em sentido próprio, mas porque quase nenhum discurso desenvolveu em que não tenha significado algo por meio de parábola; embora nele tenha dito algumas coisas em sentido próprio, de modo que se encontra muitas vezes todo o seu discurso explicado por parábolas, mas nenhum se encontra dito todo em sentido próprio. Chamo discursos desenvolvidos aqueles em que, a partir de alguma ocasião, começa a falar até concluir tudo o que pertence ao próprio assunto, e passa a outro. Por vezes, sem dúvida, um Evangelista relatou o que outro indica ter sido dito em tempos diversos: pois cada um ordenou a narrativa que iniciou não de todo segundo a ordem dos fatos, mas segundo a capacidade de sua recordação. Por que falava em parábolas, o Evangelista o manifesta quando acrescenta: para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta: Abrirei a minha boca em parábolas, proclamarei coisas escondidas desde a fundação do mundo.
São Jerônimo. Este testemunho foi tirado do Salmo 77, 2. Li em alguns códices, no lugar onde pusemos, e a edição vulgata tem, para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta, onde está escrito: pelo profeta Isaías.
Remígio de Auxerre. Daí Porfírio objetou aos fiéis: Vosso Evangelista foi de tamanha insensatez que atribuiu a Isaías o que se encontra nos Salmos.
São Jerônimo. Como, pois, não se encontrava de modo algum em Isaías, julgo que depois foi retirado por homens prudentes; mas parece-me que no princípio estava assim editado: o que foi escrito pelo profeta Asaf, dizendo: com efeito, o septuagésimo sétimo Salmo, de onde foi tirado este testemunho, é atribuído ao profeta Asaf; e o primeiro escritor não entendeu Asaf e julgou que havia erro do escritor, e emendou o nome para Isaías, cujo nome era mais conhecido. Deve-se, portanto, saber que não só Davi, mas também os demais (cujos nomes estão prescritos nos Salmos, hinos e cânticos de Deus) devem ser chamados profetas, a saber, Asaf, Idítun, Hemã efraíta e os restantes que a Escritura menciona; e que, quanto ao que se diz na pessoa do Senhor, abrirei a minha boca em parábolas, deve-se considerar mais atentamente e achar que se descreve a saída de Israel do Egito e se narram todos os sinais que se contêm na história do Êxodo. Por isso entendemos que tudo o que ali está escrito deve ser compreendido em sentido de parábola, e manifesta mistérios escondidos: pois isto o Salvador promete que dirá, dizendo: abrirei a minha boca em parábolas.
Glosa. Como se dissesse: eu, que antes falei pelos profetas, agora, em minha própria pessoa, abrirei a boca em parábolas, e proclamarei do tesouro do meu segredo; emitirei os mistérios que estavam escondidos desde a fundação do mundo.
Mt 13,36-43
36Então despediu a multidão. Em seguida, entrou de novo na casa e seus discípulos agruparam-se ao redor dele para perguntar-lhe: “Explica-nos a parábola do joio no campo”. 37Jesus respondeu: “O que semeia a boa semente é o Filho do Homem. 38O campo é o mundo. A boa semente são os filhos do Reino. O joio são os filhos do Maligno. 39O inimigo, que o semeia, é o demônio. A colheita é o fim do mundo. Os ceifadores são os anjos. 40E assim como se recolhe o joio para jogá-lo no fogo, assim será no fim do mundo. 41O Filho do Homem enviará seus anjos, que retirarão de seu Reino todos os escândalos e todos os que fazem o mal 42e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes. 43Então, no Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o sol. Aquele que tem ouvidos, ouça”.
São João Crisóstomo, in Matth. O Senhor tinha falado às multidões em parábolas para levá-las a interrogar; e embora tivesse dito muitas coisas em parábolas, ninguém, contudo, o interrogou; e por isso as despediu: donde se segue: Então, despedidas as multidões, foi para casa. Nenhum dos Escribas o segue: por isso é manifesto que não o seguiam antes por outra razão senão para o apanhar em suas palavras.
São Jerônimo. Jesus despede as multidões e volta para casa, para que os discípulos se aproximem dele e lhe perguntem em segredo o que o povo nem merecia ouvir nem podia.
Rábano Mauro. Misticamente, porém, despedida a multidão dos judeus tumultuosos, entra na Igreja dos gentios, e ali expõe aos fiéis os sacramentos celestes: donde se segue: E seus discípulos aproximaram-se dele, dizendo: Explica-nos a parábola do joio do campo.
São João Crisóstomo, in Matth. Embora outrora, querendo aprender, tivessem receado interrogar, agora interrogam livremente, e confiam porque tinham ouvido: A vós foi dado conhecer o mistério do reino de Deus; e por isso interrogam em particular, sem imitar a multidão, a quem não fora dado. Deixam de lado a parábola do fermento e a da mostarda, por serem mais claras; interrogam, porém, sobre a parábola do joio, porque ela tem afinidade com a parábola anterior sobre a semente, e mostra algo a mais. O Senhor, por sua vez, expõe qual era a parábola: donde se segue: Ele, respondendo, disse-lhes: Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem.
Remígio de Auxerre. O Senhor chamou-se Filho do Homem para nos deixar, por este sinal, um exemplo de humildade; ou porque ia acontecer que os hereges negariam que ele fosse verdadeiro homem; ou para que, pela fé na humanidade, possamos subir ao conhecimento da divindade. Segue-se: O campo é o mundo.
Glosa. Sendo ele mesmo quem semeia o seu campo, é manifesto que o mundo presente lhe pertence. Segue-se: A boa semente, porém, são os filhos do reino.
Remígio de Auxerre. Isto é, os homens santos e eleitos, que são contados entre os filhos do reino.
Santo Agostinho, contra Faustum. O Senhor explica a cizânia não como algo falso introduzido nas verdadeiras Escrituras, como interpreta Mani, mas como todos os filhos do maligno, isto é, os imitadores da falsidade diabólica; daí se segue: “A cizânia são os filhos do maligno”; por eles quer que se entendam todos os ímpios e malignos.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Toda impureza na seara é chamada cizânia. Segue-se: “O inimigo que a semeou é o Diabo”.
São João Crisóstomo, in Matth. Com efeito, é próprio da maquinação diabólica inserir sempre o erro na verdade. Segue-se: “A colheita é o fim do mundo”. Em outro lugar, porém, falando dos samaritanos, diz: “Levantai os vossos olhos e considerai as regiões, porque já estão brancas para a colheita”; e também: “A colheita é grande, mas poucos são os operários”; nessas palavras diz que a colheita já está presente. Como, então, aqui diz que ela é futura? Mas deve-se saber que ele fala da colheita em outro sentido; por isso também ali diz que um é o que semeia e outro o que colhe; aqui, porém, diz que é o mesmo o que semeia e o que colhe: porque ali introduziu os profetas não em diferença de si mesmo, mas dos apóstolos; com efeito, o próprio Cristo semeou pelos profetas entre os judeus e os samaritanos. Chama, portanto, a semente e a colheita de modos diferentes. Pois quando fala da obediência e da persuasão para a fé, então chama de colheita aquilo em que tudo se completa; mas quando investiga o fruto de ouvir a palavra de Deus, então chama de colheita a consumação, como aqui.
Remígio de Auxerre. Pela colheita, com efeito, designa-se o dia do juízo, no qual os bons haverão de ser separados dos maus; o que se fará pelo ministério dos Anjos; por isso se diz mais adiante que o Filho do Homem virá com seus Anjos para julgar; por esse motivo se segue: “Os ceifadores são os Anjos”. Segue-se: “Assim como se recolhe a cizânia e se queima no fogo, assim será no fim do mundo: o Filho do Homem enviará seus Anjos, e recolherão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade”.
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Acaso daquele reino onde não há nenhum escândalo? Será, portanto, deste reino dele que está aqui, isto é, da Igreja, que serão recolhidos.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Quanto a ser a cizânia separada primeiro, isso se dá porque, precedendo a tribulação, os ímpios serão separados dos piedosos; o que se entende ser feito pelos bons Anjos, porque os bons podem cumprir com bom ânimo os ofícios da vingança, como a lei e como o juiz; mas os maus não podem cumprir os ofícios da misericórdia.
São João Crisóstomo, in Matth. Ou pode-se entender do reino da Igreja celeste; e então se mostra aqui uma dupla pena: a saber, que decaem da glória, no que diz “e recolherão do seu reino todos os escândalos”, isto é, para que os escândalos não entrem em seu reino; e que são queimados, no que acrescenta “e os lançarão na fornalha de fogo”.
São Jerônimo. Todos os escândalos referem-se à cizânia. Quanto ao que diz “e recolherão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade”, quis distinguir entre os hereges e os cismáticos que praticam a iniquidade: de modo que por aqueles que causam escândalos se entendam os hereges, e por aqueles que praticam a iniquidade se entendam os cismáticos.
Glosa. Ou de outro modo. Por escândalos podem entender-se aqueles que dão ao próximo ocasião de ofensa ou de queda; por aqueles que praticam a iniquidade, quaisquer pecadores.
Rábano Mauro. Observa que diz “e os que praticam a iniquidade”, não “os que praticaram”, porque não os que se converteram à penitência, mas somente os que permanecem nos pecados serão entregues aos tormentos eternos.
São João Crisóstomo, in Matth. Vê, porém, o inefável amor de Deus pelos homens; pois é pronto para os benefícios e lento para o castigo: com efeito, quando semeia, semeia por si mesmo; quando, porém, castiga, castiga por meio de outros: pois para isso envia seus Anjos. Segue-se: “Ali haverá choro e ranger de dentes”.
Remígio de Auxerre. Por estas palavras demonstra-se a verdadeira ressurreição dos corpos; mostra-se, além disso, por elas a dupla pena do Inferno, a saber, do excessivo calor e do excessivo frio. Assim como os escândalos se referem à cizânia, assim os justos são considerados filhos do reino; a respeito dos quais se segue: “Então os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai”. No tempo presente, com efeito, a luz dos santos resplandece diante dos homens; depois da consumação do mundo, porém, os próprios justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai.
São João Crisóstomo, in Matth. Não porque seja somente assim como o sol, mas porque não conhecemos astro mais luminoso do que este, serve-se de exemplos que nos são conhecidos.
Remígio de Auxerre. Quanto ao que diz “então resplandecerão”, deve-se entender que também agora resplandecem como exemplo para os outros; mas então resplandecerão como o sol para louvar a Deus. Segue-se: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.
Rábano Mauro. Isto é: quem tem inteligência, entenda, porque todas estas coisas devem ser entendidas misticamente.
Mt 13,44
44“O Reino dos Céus é também semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem o encontra, mas o esconde de novo. E, cheio de alegria, vai, vende tudo o que tem para comprar aquele campo.
São João Crisóstomo, in Matth. As parábolas que o Senhor tinha proposto acima, do fermento e do grão de mostarda, referem-se à força da pregação evangélica, porque ela superou o orbe da terra; agora, porém, para mostrar o seu valor e a sua magnificência, propõe a parábola do tesouro e da pérola, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido no campo. Com efeito, a pregação do Evangelho está oculta no mundo, e se não venderes tudo, não a comprarás; e é preciso fazê-lo com alegria; por isso se segue: que um homem, tendo-o achado, escondeu.
Santo Hilário, in Matth. Este tesouro, com efeito, é achado gratuitamente. A pregação dos Evangelhos, de fato, está escondida; mas o poder de usar e possuir tal tesouro junto com o campo não pode existir sem preço, porque as riquezas celestes não se possuem sem perda do século.
São Jerônimo. Quanto ao fato de que ele o esconde, não o faz por inveja; mas, à maneira de quem guarda e não quer revelar, esconde no coração aquele que preferiu aos seus bens de antes.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos(séc. VI). Ou de outro modo. O tesouro escondido no campo é o desejo celeste; e o campo em que o tesouro se esconde é a disciplina do zelo celeste. Quando o homem acha esse tesouro, esconde-o, isto é, para guardá-lo, porque não basta, a quem não o esconde dos louvores humanos, guardar dos espíritos malignos o zelo do desejo celeste. Na vida presente, com efeito, estamos como que num caminho, pelo qual seguimos para a pátria. Os espíritos malignos, porém, cercam o nosso caminho como pequenos salteadores. Desejam, pois, saquear os que levam o tesouro publicamente pelo caminho. Digo isto, não para que o próximo não veja as nossas obras, mas para que, por aquilo que fazemos, não busquemos louvores exteriores. O reino dos céus, por sua vez, é dito semelhante às coisas terrenas para que, do que o espírito conhece, se eleve ao desconhecido; para que, por aquilo que sabe amar como conhecido, aprenda a amar o desconhecido. Segue-se: e, pela alegria que isso lhe dá, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo. Compra o campo, vendendo tudo, aquele que, renunciando aos prazeres da carne, pisa todos os seus desejos terrenos pela guarda da disciplina celeste.
São Jerônimo. Ou este tesouro, no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência, é Deus, o Verbo, que se vê escondido na carne de Cristo; ou as santas Escrituras, nas quais está depositado o conhecimento do Salvador.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Disse, porém, que este tesouro está escondido no campo, isto é, os dois Testamentos na Igreja; quando alguém, por uma parte da inteligência, os alcança, sente que ali se escondem grandes coisas; e vai, e vende tudo o que tem, e compra aquele; isto é, pelo desprezo das coisas temporais obtém para si o ócio, para ser rico no conhecimento de Deus.
Mt 13,45-46
45O Reino dos Céus é ainda semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. 46Encontrando uma de grande valor, vai, vende tudo o que possui e a compra.
São João Crisóstomo, in Matth. A pregação evangélica não só oferece lucro múltiplo, como um tesouro, mas é também preciosa, como uma pérola; por isso, depois da parábola do tesouro, põe a parábola da pérola, dizendo: O reino dos céus é ainda semelhante a um homem negociante, e o que segue. Na pregação, com efeito, é preciso que estejam presentes duas coisas: separar-se dos negócios desta vida e ser vigilantes, o que o negócio designa. A verdade, porém, é una e não dividida; e por isso se diz que foi achada uma só pérola. E assim como quem tem uma pérola sabe que é rico, mas não é conhecido dos outros, segurando-a muitas vezes na mão por causa do seu pequeno tamanho, assim é na pregação do Evangelho: os que a possuem sabem que são ricos; os infiéis, porém, ignorando esse tesouro, desconhecem as nossas riquezas.
São Jerônimo. Por boas pérolas podem entender-se a lei e os profetas. Ouve, pois, Marcião e Maniqueu: a lei e os profetas são boas pérolas. Uma só, portanto, é a pérola preciosíssima: o conhecimento do Salvador e o sacramento da sua paixão e ressurreição; e quando o homem negociante a encontra, semelhante ao apóstolo Paulo, despreza como lixo todos os mistérios da lei e dos profetas e as observâncias de antes, nas quais tinha vivido irrepreensivelmente, para ganhar a Cristo; não que o achado da boa pérola seja condenação das pérolas antigas, mas porque, em comparação com ela, toda outra gema é mais vil.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Ou, pela pérola preciosa entende-se a doçura da vida celeste, que, achada, ele compra vendendo tudo: porque quem tiver conhecido perfeitamente a doçura da vida celeste, na medida em que a possibilidade o permite, abandona de bom grado tudo o que amara na terra; torna-se disforme à vista tudo o que agradava pela aparência da coisa terrena, porque só o brilho da pérola preciosa resplandece na mente.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Ou: o homem, procurando boas pérolas, achou uma preciosa; porque, procurando homens bons com os quais viver utilmente, achou um sem pecado, Jesus Cristo; ou, procurando preceitos que, guardados, lhe permitam conviver retamente com os homens, achou o amor do próximo (no qual, diz o Apóstolo, tudo se contém); ou, procurando boas inteligências, achou aquele Verbo em que todas as coisas se contêm: No princípio era o Verbo, que é luminoso pelo candor da verdade, e sólido pela firmeza da eternidade, e por toda parte semelhante a si mesmo pela beleza da verdade; o qual Deus, penetrada a abóbada, deve ser entendido. Seja qual for desses três, ou se algo mais puder ocorrer que seja significado pelo nome de uma só pérola preciosa, o seu preço somos nós mesmos, que para possuí-la não somos livres, a não ser desprezando, pela nossa libertação, tudo o que se possui temporalmente. Vendidos, com efeito, os nossos bens, não recebemos outro preço maior do que nós mesmos (porque, enredados em tais coisas, não éramos nossos), para que de novo nos demos por aquela pérola: não porque tanto valha, mas porque não podemos dar mais.
Mt 13,47-50
47O Reino dos Céus é semelhante ainda a uma rede que, jogada ao mar, recolhe peixes de toda espécie. 48Quando está repleta, os pescadores puxam-na para a praia, sentam-se e separam nos cestos o que é bom e jogam fora o que não presta. 49Assim será no fim do mundo: os anjos virão separar os maus do meio dos justos 50e os arrojarão na fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes.
São João Crisóstomo, in Matth. Depois de ter recomendado, pelas parábolas ditas, a pregação evangélica, para que não confiemos só na pregação, nem julguemos que a fé nos basta para a salvação, acrescenta outra parábola terrível, dizendo: O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede lançada ao mar.
São Jerônimo. Cumprida, com efeito, a profecia de Jeremias, que diz: Eis que enviarei a vós muitos pescadores, depois que Pedro e André, Tiago e João ouviram: Segui-me: far-vos-ei pescadores de homens, teceram para si, do Antigo e do Novo Testamento, a rede dos dogmas evangélicos e a lançaram ao mar deste século; ela até hoje se estende em meio às ondas, apanhando dos abismos salgados e amargos tudo o que nela cair, isto é, bons e maus; e é isto que acrescenta: que recolhe peixes de toda espécie.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Ou de outro modo. A santa Igreja é comparada a uma rede, porque foi confiada a pescadores, e por ela cada um é arrastado das ondas do século presente ao reino eterno, para não ser submerso no abismo da morte eterna; ela recolhe de toda espécie de peixes, porque chama ao perdão dos pecados sábios e tolos, livres e servos, ricos e pobres, fortes e fracos; essa rede, a saber, então se enche universalmente, quando no seu fim se conclui a soma do gênero humano; por isso se segue: E, depois de cheia, tirando-a e sentando-se na praia, escolheram os bons para os cestos, e os maus lançaram fora. Assim como, com efeito, o mar é o século, assim a praia do mar significa o fim do século; neste fim, os bons peixes são escolhidos para os cestos, os maus são lançados fora; porque também cada eleito é recebido nos tabernáculos eternos, e, perdida a luz do reino interior, os réprobos são arrastados às trevas exteriores. Agora, com efeito, a rede da fé contém, misturados em comum, peixes maus e bons; mas a praia indica o que a rede da Igreja arrastava.
São Jerônimo. Quando, com efeito, a rede for puxada à praia, então se mostrará o verdadeiro sinal dos peixes a serem separados.
São João Crisóstomo, in Matth. Mas em que difere esta parábola da parábola do joio? Com efeito, lá também uns se salvam e outros perecem, como aqui. Mas lá, por causa da heresia de dogmas perversos, e na parábola anterior, a da semente, porque não davam atenção ao que era dito; aqui, porém, por causa da maldade da vida, pela qual, embora apanhados pela pesca, isto é, gozando do conhecimento de Deus, não podem salvar-se. Para que, porém, ao ouvires que lançaram fora os maus, não julgues que esse castigo não é perigoso, mostra a sua gravidade pela explicação, dizendo: Assim será no fim do mundo: sairão os Anjos, etc. Embora em outro lugar diga que ele mesmo os separará, como o pastor separa as ovelhas, aqui diz que os Anjos fazem isso, como também na parábola do joio.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Isto deve ser temido mais do que explicado: com efeito, os tormentos dos pecadores foram ditos em voz clara, para que ninguém recorresse à desculpa de sua ignorância, caso algo sobre o suplício eterno fosse dito obscuramente.
Rábano Mauro. Com efeito, quando chegar o fim do mundo, então se manifestará o verdadeiro juízo dos peixes a serem separados; e, como num porto muito tranquilo, os bons serão postos nos cestos das moradas celestes; os maus, porém, para serem torrados e ressecados, a chama da Geena os receberá.
Mt 13,51-52
51Compreendestes tudo isso? – Sim, Senhor – responderam eles. 52Por isso, todo escriba instruído nas coisas do Reino dos Céus é comparado a um pai de família que tira de seu tesouro coisas novas e velhas.”
São João Crisóstomo, in Matth. Afastando-se as multidões, o Senhor fala em parábolas aos discípulos; por elas tornaram-se mais sábios, de modo que entendem o que é dito; por isso lhes diz: Entendestes tudo isto? Dizem-lhe: Sim.
São Jerônimo. O discurso, com efeito, é propriamente para os apóstolos, que ele não quer que apenas ouçam como o povo, mas que também entendam, como futuros mestres.
São João Crisóstomo, in Matth. Depois, porque entenderam, louva-os de novo; por isso segue: Disse-lhes: Por isso todo escriba instruído no reino dos céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.
Santo Agostinho, de Civ. Dei. Não disse: velhas e novas; e certamente o teria dito, se não preferisse guardar a ordem dos méritos à dos tempos. Os maniqueus também, enquanto julgam que só as promessas novas de Deus lhes pertencem, permanecem na velhice da carne e introduzem a novidade do erro.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Se, com essa conclusão, quis explicar quem chamou de tesouro escondido no campo (porque se entendem as santas Escrituras, que se encerram sob o nome dos dois testamentos, o novo e o velho); ou se quis mostrar que deve ser tido por instruído na Igreja aquele que também entendeu as Escrituras antigas, explicadas por parábolas, recebendo destas novas as regras, porque também estas coisas o Senhor enunciou por parábolas; de modo que, se ele mesmo, em quem aquelas se cumprem e se manifestam, ainda fala por parábolas, até que sua paixão rasgue o véu, para que nada haja de oculto que não seja revelado, muito mais devemos saber que aquelas coisas que foram escritas há tanto tempo a seu respeito estão cobertas por parábolas; e os judeus, ao tomá-las à letra, não quiseram ser instruídos no reino dos céus.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Mas se por novo e velho entendemos ambos os testamentos, negamos que Abraão tenha sido instruído, ele que, embora tenha conhecido os fatos do novo e do velho testamento, de modo algum anunciou as palavras. Tampouco podemos comparar Moisés a um pai de família instruído: porque, embora tenha ensinado o testamento velho, não proferiu as palavras do novo. Mas, no que aqui se diz, pode-se entender que falava não dos que haviam existido, mas dos que podiam existir na Igreja; os quais então proferem coisas novas e velhas, quando falam com palavras e costumes as pregações de ambos os testamentos.
Santo Hilário, in Matth. Falou, com efeito, aos discípulos, a quem chama escribas por causa da ciência, porque entenderam aquelas coisas que ele proferiu, novas e velhas, isto é, no Evangelho e na lei, as quais pertencem ao mesmo pai de família, e ambas a um só tesouro; e a si mesmo os compara, sob o nome de pai de família, porque obtiveram a doutrina do Espírito Santo, de seu tesouro de coisas novas e velhas.
São Jerônimo. Ou os apóstolos instruídos são chamados escribas, como notários do Salvador, que registravam suas palavras e preceitos nas tábuas carnais do coração, com os sacramentos das coisas celestes, e eram poderosos nas riquezas do pai de família, tirando do tesouro de suas doutrinas coisas novas e velhas, para comprovar com as vozes da lei e dos profetas tudo o que pregavam no Evangelho. Daí a esposa também dizer no Cântico dos Cânticos: Guardei para ti, meu amado, as coisas novas com as velhas.
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Ou de outro modo. O velho é que o gênero humano, por causa da culpa, pereça em pena eterna; e o novo, que, convertido, viva no reino. Primeiro, porém, apresentou, a respeito da semelhança do reino, o tesouro encontrado e a pérola boa; depois narrou as penas do Inferno, a respeito da queima dos maus; e na conclusão acrescenta: Por isso o escriba instruído, etc.; como se dissesse: é pregador instruído na santa Igreja aquele que sabe proferir as coisas novas, da suavidade do reino, e dizer as velhas, do terror do suplício, para que ao menos as penas aterrem aqueles a quem os prêmios não atraem.
Mt 13,53-58
53Após ter exposto as parábolas, Jesus partiu. 54Foi para a sua cidade e ensinava na sinagoga, de modo que todos diziam admirados: “Donde lhe vem esta sabedoria e esta força miraculosa? 55Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria sua mãe? Não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? 56E suas irmãs, não vivem todas entre nós? Donde lhe vem, pois, tudo isso?”. 57E não sabiam o que dizer dele. Disse-lhes, porém, Jesus: “É só em sua pátria e em sua família que um profeta é menosprezado”. 58E, por causa da falta de confiança deles, operou ali poucos milagres.
São Jerônimo. Depois das parábolas que o Senhor dirigiu ao povo, e que somente os apóstolos entendem, passa à sua pátria, para ali ensinar mais abertamente; e é isto o que se diz: E aconteceu que, tendo Jesus terminado estas parábolas, partiu dali; e, chegando à sua pátria, ensinava-os nas sinagogas deles.
Santo Agostinho, Da concordância dos Evangelistas. Passa do discurso anterior destas parábolas de tal modo que não mostra a necessidade da ordem seguinte; sobretudo porque Marcos, não atendendo, depois destas parábolas, ao que Mateus atende, mas a outra coisa, a que também Lucas atende, entreteceu a narrativa de modo que se mostra mais crível que foi consequentemente realizado aquilo que esses dois acrescentam em seguida, a saber, o da barca em que dormia Jesus e o do milagre dos demônios expulsos; coisas que Mateus, recordando-as antes, intercalou.
São João Crisóstomo, in Matth. Aqui chama de pátria dele Nazaré: com efeito, não fez ali muitos milagres, como se diz mais adiante, mas em Cafarnaum fez muitos sinais; mas mostrou-lhes uma doutrina que não causa menor admiração do que os sinais.
Remígio de Auxerre. Ensinava, porém, nas sinagogas, onde muitos se reuniam, porque, pela salvação de muitos, desceu dos céus à terra. Segue-se: De modo que se admiravam e diziam: De onde vêm a este esta sabedoria e estes poderes? A sabedoria refere-se à doutrina; os poderes, porém, à operação dos milagres.
São Jerônimo. Admirável é a estultícia dos nazarenos. Admiram-se de onde lhe vem a sabedoria, sendo ele a Sabedoria, e os poderes, sendo ele o Poder; mas o erro está à vista, porque o julgam filho de um artesão. Por isso também dizem: Não é este o filho do artesão?
São João Crisóstomo, in Matth. Portanto, em tudo eram insensatos, desprezando-o por causa daquele que se julgava ser seu pai; embora tivessem muitos exemplos disso nos tempos antigos, vendo nobres filhos de pais obscuros: com efeito, Davi foi filho de um lavrador, Jessé, e Amós, de um pastor, e ele próprio era pastor. Por isso mesmo, deviam sobretudo honrá-lo, porque, sendo de tais pais, falava tais coisas. E isto também é manifesto, que não vinha de esforço humano, mas da graça divina.
Santo Agostinho, in Serm. Dom. infra Oct. Epiph. O pai de Cristo, porém, é um artesão: Deus, que fabricou as obras do mundo inteiro, dispôs a arca de Noé, ordenou a Moisés o tabernáculo, instituiu a arca da aliança. Eu diria artesão aquele que aplaina a mente rígida e corta os pensamentos soberbos.
Santo Hilário, in Matth. Também aqui era ele filho de um artesão que vence o ferro pela razão do fogo, que cozinha pelo juízo a força do século e forma a massa para toda obra de utilidade humana; isto é, que molda a forma de nossos corpos para os diversos ofícios dos membros e para todas as obras da vida eterna.
São Jerônimo. Como erram a respeito do pai, não é de admirar que errem a respeito dos irmãos. Por isso se acrescenta: Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E suas irmãs não estão todas entre nós?
São Jerônimo, contra Helvidium. Aqui são chamados irmãos do Senhor os filhos da tia materna de Maria; e esta é a mãe de Tiago e José, isto é, Maria, mulher de Cléofas, filho de Alfeu; e esta foi chamada Maria, mãe de Tiago, o menor.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Não é, portanto, de admirar que sejam chamados irmãos do Senhor quaisquer parentes do lado materno, uma vez que também, pelo parentesco de José, puderam ser chamados irmãos dele por aqueles que o julgavam pai do Senhor.
Santo Hilário, in Matth. O Senhor é, pois, desonrado pelos seus; e, embora a prudência no ensinar e o poder no operar suscitassem admiração, não creem, contudo, que ele faça isso em nome do Senhor, e o provocam com certa afronta à arte paterna. Entre tantas obras magníficas que realizava, eram, portanto, abalados pela consideração do seu corpo; e por isso dizem: De onde vem a este tudo isto? Segue-se: E assim se escandalizavam dele.
São Jerônimo. O erro dos judeus é a nossa salvação e a condenação dos hereges: com efeito, viam o homem Jesus Cristo a tal ponto que o julgavam filho de um artesão.
São João Crisóstomo, in Matth. Considera, com efeito, a mansidão de Cristo: foi insultado, mas respondeu com muita mansidão. Por isso se segue: Jesus, porém, disse-lhes: Não há profeta sem honra, a não ser em sua pátria e em sua casa.
Remígio de Auxerre. Chama-se a si mesmo profeta, o que Moisés também manifesta quando diz: Deus suscitará para vós um profeta dentre vossos irmãos. E isto se deve saber: que não só Cristo, que é a cabeça de todos os profetas, mas também Jeremias, Daniel e os demais profetas menores tiveram maior honra e dignidade entre os estrangeiros do que entre os seus.
São Jerônimo. É, com efeito, quase natural que os concidadãos sempre invejem os concidadãos: não consideram as obras presentes do homem, mas recordam a fragilidade da infância, como se eles próprios não tivessem chegado à idade madura pelos mesmos degraus das idades.
Santo Hilário, in Matth. Respondeu também que o profeta é sem honra em sua pátria, porque na Judeia seria condenado até a sentença da cruz, e porque o poder de Deus está só junto dos fiéis; e, por causa da incredulidade deles, absteve-se das obras do poder divino. Por isso se segue: E não fez ali muitos milagres por causa da incredulidade deles.
São Jerônimo. Não que não pudesse fazer muitos milagres também para aqueles incrédulos, mas porque, fazendo muitos milagres, não queria condenar os cidadãos incrédulos.
São João Crisóstomo, in Matth. Se, porém, a admiração lhe vinha dos milagres, por que não fez muitos? Porque ele não olhava para a sua própria ostentação, mas para aquilo que era útil aos outros. Não ocorrendo, pois, isso, desprezou o que era seu, para não aumentar a pena deles. Por que, então, fez ao menos poucos sinais? Para que não dissessem: Se tivessem sido feitos sinais, nós teríamos acreditado.
São Jerônimo. Pode também entender-se de outro modo: que Jesus é desprezado em sua casa e em sua pátria, isto é, no povo dos judeus; e por isso fez ali poucos sinais, para que não ficassem totalmente sem desculpa; mas faz cada dia sinais maiores entre os gentios por meio dos apóstolos, não tanto na cura dos corpos quanto na salvação das almas.