Catena Aurea de São Tomás de Aquino

Mateus 6 comentado pelos Padres da Igreja

261 comentários de São João Crisóstomo, Santo Agostinho, São Jerônimo, Glosa, Cyprianus, Santo Hilário, Remígio de Auxerre, São Gregório Magno, Cassianus Collat, Rábano Mauro, Augustinus Enchir, São Gregório Magno, Prosper, Santo Ambrósio, Isidorus Etymolog, Gregorius, Moralium, Cassianus, Leo Papa e São Gregório de Nissa sobre as passagens Mt 6,1, Mt 6,2-4, Mt 6,5-6, Mt 6,7-8, Mt 6,9, Mt 6,9, Mt 6,10, Mt 6,10, Mt 6,11, Mt 6,12, Mt 6,13, Mt 6,13, Mt 6,14-15, Mt 6,16, Mt 6,17-18, Mt 6,19-21, Mt 6,22-23, Mt 6,24, Mt 6,25, Mt 6,26-27, Mt 6,28-30, Mt 6,31-33 e Mt 6,34, reunidos por São Tomás de Aquino no século XIII e traduzidos do latim.

Mt 6,1

1“Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu.

Glosa(séc. XII). Depois que Cristo cumpriu a lei quanto aos preceitos, começa agora a cumpri-la quanto às promessas, para que façamos os preceitos de Deus em vista da recompensa celeste, e não das terrenas que a lei prometia. Ora, todas as coisas terrenas se reduzem a duas principais: a saber, à glória humana e à abundância dos bens terrenos; ambas parecem ter sido prometidas na lei. Com efeito, sobre a glória diz-se no Deuteronômio: “O Senhor te fará mais elevado do que todas as nações que habitam sobre a terra.” Quanto à abundância dos bens temporais, acrescenta-se ali mesmo: “O Senhor te fará abundar em todos os bens.” E por isso o Senhor exclui da intenção dos fiéis estas duas coisas, a saber, a glória e a abundância dos bens terrenos. Mas deve-se saber que o desejo de glória é vizinho da virtude.

São João Crisóstomo, super Matth(séc. IV). Com efeito, onde se trata de coisa gloriosa, ali mais facilmente a ocasião de vangloriar-se encontra lugar; e por isso o Senhor exclui primeiro a intenção de glória: percebeu que, mais do que todos os vícios carnais, este é o mais perigoso para os homens; pois, embora todos os males afligam os servos do Diabo, a cobiça da vã glória aflige mais os servos de Deus do que os servos do Diabo.

Prosper, in libro Sentent. August. Que forças para prejudicar tem o amor da glória humana, só o sente quem lhe declarou guerra; pois, embora seja fácil a alguém não desejar o louvor enquanto lhe é negado, é difícil, contudo, não se deleitar com ele quando é oferecido.

São João Crisóstomo, super Matth. Observa, porém, como começou, discorrendo como sobre uma fera de difícil conhecimento, apta a roubar quem não vigia com muita atenção: entra, com efeito, ocultamente e leva, sem que se sinta, tudo o que está dentro.

São João Crisóstomo, in Matth. E por isso manda que isso seja evitado com maior cautela, dizendo: “Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens.” Devemos, porém, vigiar o nosso coração: com efeito, invisível é a serpente que somos mandados observar, e entra às ocultas e seduz. Mas se num coração puro sobrevier a investida do inimigo, logo o homem justo discerne que é assaltado por um espírito alheio; se, porém, o coração estiver cheio de iniquidades, não entende facilmente a sugestão do Diabo; e por isso o Senhor antepôs: “não te irrites”, “não cobices”, porque quem está sujeito a esses males não pode vigiar o seu coração. Mas como pode acontecer que não façamos esmola diante dos homens? Ou, se acontecer, como não o perceberemos? Com efeito, se na presença de alguém vier ao encontro um pobre, como lhe será dado às ocultas? Mas, levando-o a um lugar secreto, vê-se que lhe é dado. Considera, porém, que ele não disse: “não façais apenas diante dos homens”, mas acrescentou: “para serdes vistos por eles”. Quem, portanto, não o faz para ser visto pelos homens, ainda que o tenha feito diante dos homens, não parece tê-lo feito diante dos homens: pois quem faz algo por causa de Deus não vê ninguém em seu coração senão Deus, por causa de quem o faz; assim como o artífice tem sempre diante dos olhos aquele que lhe encomendou a obra a fazer.

São Gregório Magno(séc. VI). Se, pois, buscamos a glória daquele que dá, mesmo publicadas as nossas obras, guardamo-las ocultas diante dele; se, porém, por meio delas cobiçamos o nosso louvor, já estão derramadas fora da sua vista, ainda que sejam ignoradas por muitos. Mas é próprio dos muito perfeitos buscar de tal modo a glória do autor, mostrada a obra, que saibam alegrar-se com o louvor recebido sem exultação privada; os fracos, porque não a superam desprezando-a perfeitamente, necessitam esconder o bem que operam.

Santo Agostinho(séc. IV–V). Nisto, porém, que diz “para serdes vistos por eles”, nada acrescentando, parece que proibiu que coloquemos aí o fim do nosso propósito. Pois também o Apóstolo, que diz: “Se ainda agradasse aos homens, não seria servo de Cristo”, diz em outro lugar: “Eu agrado a todos em tudo.” Ele não o faz para agradar aos homens, mas a Deus, para cujo amor queria converter os corações dos homens por aquilo que neles agradava; assim como não falaria absurdamente quem dissesse: nesta obra em que procuro um navio, não procuro o navio, mas a pátria.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Diz, porém, “para serdes vistos por eles”, porque há alguns que praticam a justiça diante dos homens, não para serem vistos por eles, mas para que as próprias obras sejam vistas e seja glorificado o Pai que está nos céus: pois não atribuem a justiça a si mesmos, mas àquele de cuja fé vivem.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Também naquilo que acrescenta: “Do contrário, não tereis recompensa junto do vosso Pai que está nos céus”, nada mais mostra senão que devemos cuidar de não buscar o louvor humano como recompensa de nossas obras.

São João Crisóstomo, super Matth. Que receberás de Deus, tu que nada deste a Deus? Pois o que se faz por causa de Deus, a Deus é dado e dele é recebido; o que se faz por causa dos homens, derrama-se aos ventos. Que sabedoria é dar bens, adquirir palavras vazias e desprezar a recompensa de Deus? Olha também para aquele de quem esperas o louvor: ele julga que fazes por causa de Deus; caso contrário, te censuraria mais. Aquele, porém, que faz com plena vontade por causa dos homens, esse parece ter feito por causa dos homens. Se, contudo, um pensamento vão sobe ao coração de alguém, desejando aparecer aos homens, mas a alma, entendendo, o contradiz, esse não parece ter feito por causa dos homens: porque o que pensou é paixão da carne; o que escolheu, juízo da alma.

Mt 6,2-4

2Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. 3Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. 4Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, irá recompensar-te.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Acima, o Senhor nomeou a justiça de modo geral quando disse: “Guardai-vos de praticar a vossa justiça” etc.; agora, porém, a expõe por partes.

São João Crisóstomo, super Matth. Põe, pois, três bens fortes, a saber, a esmola, a oração e o jejum, contra três males, contra os quais o Senhor travou o combate da tentação: pois lutou por nós contra a gula no deserto, contra a avareza sobre o monte, contra a vanglória sobre o templo. A esmola, portanto, que distribui, é contra a avareza, que acumula; o jejum, contra a gula, porque lhe é contrário; a oração, porém, contra a vanglória, porque, embora todo mal nasça do mal, somente a vanglória procede do bem: por isso não é destruída pelo bem, mas antes é alimentada; portanto, não pode haver contra a vanglória nenhum remédio, senão a oração somente.

Santo Ambrósio(séc. IV). Ora, toda a doutrina da disciplina cristã consiste na misericórdia e na piedade; e por isso começa pela esmola, dizendo: Quando, pois, fizeres esmola, não toques a trombeta diante de ti.

São João Crisóstomo, super Matth. Trombeta é todo ato ou palavra pela qual se manifesta a jactância da obra; por exemplo, aquele que faz esmola quando vê alguém presente, ou por intermédio de alguém, ou a uma pessoa mais honrada que pode retribuir; em outras ocasiões, porém, não a faz. Mas também se a fizer em lugar secreto com o propósito de parecer louvável, é trombeta.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Assim, pois, o que diz: Não toques a trombeta diante de ti, refere-se ao que disse antes: Cuidai de não praticar a vossa justiça diante dos homens.

São Jerônimo, in Matth(séc. IV–V). Quem toca a trombeta ao fazer esmola é hipócrita; e por isso acrescenta: como fazem os hipócritas.

Isidorus Etymolog. O nome de hipócrita deriva da aparência daqueles que nos espetáculos andam com o rosto coberto, distinguindo o semblante com várias cores, para chegarem à cor da personagem que simulam, ora na aparência de homem, ora na de mulher, a fim de enganar o povo enquanto atuam nos jogos.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Assim, pois, como os hipócritas, isto é, os simuladores, como imitadores de outras personagens, representam o papel daquilo que não são - pois quem representa o papel de Agamenon não é verdadeiramente ele, mas o simula -, assim também nas Igrejas, em toda a vida humana, quem quer parecer o que não é, é hipócrita: simula, com efeito, ser justo e não o mostra, aquele que põe todo o fruto no louvor dos homens.

Glosa. E por isso acrescenta os lugares públicos, quando diz: nas sinagogas e nas ruas; e o fim pretendido, quando acrescenta: para serem honrados pelos homens.

São Gregório Magno. Deve-se saber, porém, que há alguns que mantêm o hábito da santidade e não conseguem alcançar o mérito da perfeição; esses de modo algum se deve crer que se contem entre o número dos hipócritas: porque uma coisa é pecar por fraqueza, outra, por astuta simulação.

Santo Agostinho. Ora, os que pecam por simulação não recebem de Deus, que inspeciona o coração, recompensa, a não ser o castigo da falsidade; e por isso se acrescenta: Em verdade vos digo, já receberam a sua recompensa.

São Jerônimo. Não a recompensa de Deus, mas a sua: pois foram louvados pelos homens, por causa dos quais exerceram as virtudes.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Isto se refere ao que antes pôs: Do contrário, não tereis recompensa junto a vosso Pai. Assim, ordena convenientemente não como aqueles fazem a esmola, mas como se deve fazê-la, quando diz: Tu, porém, ao fazeres esmola, que a tua esquerda não saiba o que faz a tua direita.

São João Crisóstomo, in Matth. Isto, porém, se diz por superabundância, como se dissesse: se é possível ignorares a ti mesmo, e se fosse possível ocultá-lo às próprias mãos, seria o mais desejável para ti.

São João Crisóstomo, super Matth. Os apóstolos, porém, interpretam no livro dos cânones assim: a direita é o povo cristão, que está à direita de Cristo; a esquerda, porém, é todo o povo que está à esquerda. Isto, pois, diz: que, quando o cristão, que é a direita, faz esmola, o infiel, que é a esquerda, não o veja.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Mas, segundo isso, parecerá não haver culpa alguma em querer agradar aos fiéis, embora nos seja proibido pôr o fim da boa obra no louvor de quaisquer homens. Ora, para que te imitem aqueles a quem tuas obras tiverem agradado, deve-se mostrá-las não só aos fiéis, mas também aos infiéis. Se, porém (como outros dizem), tiveres a esquerda por inimigo, de modo que teu inimigo não saiba quando fazes esmola, por que o próprio Senhor curou misericordiosamente os homens, estando presentes os judeus inimigos? Depois, como faremos com o próprio inimigo, para cumprirmos aquele preceito: Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer? A terceira opinião é de rir-se: a daqueles que dizem que pelo nome de esquerda se significa a esposa; de modo que, como no patrimônio familiar as mulheres costumam ser mais apegadas ao dinheiro, lhes fique oculto quando os maridos gastam algo com estranhos, por causa das disputas domésticas. Mas este preceito não foi dado só aos homens, mas também às mulheres; a qual esquerda, então, se manda que a mulher oculte a obra de sua misericórdia? Será que também o marido será a esquerda da mulher? Se alguém pensa isso, já que o preceito foi dado a tais pessoas para que se ganhem mutuamente com bons costumes, não devem ocultar uma da outra suas boas obras; nem se devem fazer furtos para que Deus seja merecido. Se, porém, se deve ocultar algo enquanto a fraqueza de outro não pode suportá-lo com serenidade, ainda que se faça sem ilicitude, contudo que a mulher não seja significada pela esquerda aparece facilmente pelo sentido de todo o capítulo, e também por aquilo que ele chama esquerda. Com efeito, o que foi censurado nos hipócritas, a saber, que buscam os louvores dos homens, isso te é vedado fazer; por isso a esquerda parece significar o deleite do louvor, e a direita, a intenção de cumprir os preceitos divinos. Quando, pois, à consciência que faz esmola se mistura o desejo do louvor humano, a esquerda torna-se consciência da direita. Que a esquerda não saiba, portanto, isto é, que o desejo do louvor humano não se misture à tua consciência. O nosso Senhor, aliás, proíbe muito mais que só a esquerda opere em nós do que que ela se misture às obras da direita. Com que fim o disse, mostra-o quando acrescenta: para que a tua esmola seja em segredo, isto é, na própria boa consciência, que não pode ser mostrada aos olhos humanos, nem revelada por palavras, uma vez que muitos mentem muito. Basta-te, porém, para mereceres o prêmio, a própria consciência, se esperas o prêmio daquele que é o único inspetor da consciência. E é isto que se acrescenta: e teu Pai, que vê em segredo, te recompensará. Muitos exemplares latinos têm: te recompensará publicamente.

São João Crisóstomo, super Matth. Pois é impossível que Deus deixe oculta a boa obra do homem; mas neste mundo a manifesta, e no outro a glorifica, porque é glória de Deus; assim como o Diabo manifesta o mal, no qual se mostra o poder de sua malícia. Deus torna pública, de modo próprio, toda boa obra naquele mundo, cujos bens não são comuns aos bons e aos maus; por isso, a quem quer que Deus tenha feito o bem ali, é manifesto que o mereceu como recompensa de sua justiça. Ora, a recompensa da justiça não é manifesta neste mundo, porque aqui são ricos não só os bons, mas também os maus.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Mas nos exemplares gregos, que são os originais, não encontramos publicamente.

São João Crisóstomo, in Matth. Se, pois, queres ter espectadores do que fazes, eis que tens não só os Anjos ou os Arcanjos, mas o Deus do universo.

Mt 6,5-6

5Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. 6Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, te recompensará.

São João Crisóstomo, super Matth. Salomão diz: Antes da oração, prepara tua alma. O que faz, de fato, quem, ao dar esmola, vem à oração: pois as boas obras excitam a fé do coração e dão à alma confiança para orar diante de Deus. Portanto, a esmola é preparação da oração, e o mesmo Senhor, depois da esmola, instrui-nos convenientemente sobre a oração

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Não nos adverte agora, porém, para que oremos, mas como oremos; assim como acima não nos advertiu para que dêssemos esmola, mas com que ânimo a déssemos

São João Crisóstomo, super Matth. A oração é como que um tributo espiritual, que a alma oferece a Deus das suas entranhas. Quanto mais gloriosa é, com tanto maior cautela deve ser guardada, para que, feita por causa dos homens, não se torne vil; e por isso diz: Quando orardes, não sereis como os hipócritas

São João Crisóstomo, in Matth. Chama hipócritas aos que, fingindo orar a Deus, olham ao redor para os homens; e por isso acrescenta: que gostam de orar nas sinagogas

São João Crisóstomo, super Matth. Penso, porém, que o Senhor não se refere aqui ao lugar, mas à intenção de quem ora: pois orar na assembleia dos fiéis é louvável, como foi dito: Nas assembleias bendizei a Deus. Quem, pois, ora de modo a ser visto pelos homens, não olha para Deus, mas para os homens; e assim, quanto à sua intenção, ora na sinagoga. Aquele, porém, cuja mente ora olhando somente para Deus, ainda que ore na sinagoga, parece orar consigo mesmo em segredo. Segue-se: e nos cantos das praças, para que pareçam orar às escondidas; e assim são louvados duplamente: porque oram, e porque oram às escondidas

Glosa. Ou os cantos das praças são onde uma via é atravessada por outra e forma um cruzamento

São João Crisóstomo, super Matth. Por essa intenção, portanto, proíbe orar na assembleia, a saber, para ser visto pela assembleia; donde se acrescenta: para serem vistos pelos homens. Quem ora, portanto, não faça nada de novo para que os homens o observem, seja gritando, seja batendo no peito, seja estendendo as mãos

Santo Agostinho. Não é, porém, pecado ser visto pelos homens, mas agir com este fim: para ser visto pelos homens

São João Crisóstomo, in Matth. Livrar-se da vanglória é bom em toda parte, mas sobretudo na oração; pois, se nela somos arrastados por pensamentos, se entramos para orar tendo esta doença, como entenderemos as coisas que nos são ditas?

Santo Agostinho. Assim também se deve fugir ao conhecimento dos homens, se algo se faz com o ânimo de esperar o fruto de agradar aos homens; donde se acrescenta: Em verdade vos digo, já receberam a sua recompensa

São João Crisóstomo, super Matth. Com efeito, cada um colhe onde semeia: por isso, os que oram por causa dos homens, e não por causa de Deus, são louvados pelos homens, e não por Deus

São João Crisóstomo, in Matth. Diz, porém, receberam, porque Deus quereria conceder a retribuição que vem dele; aqueles, porém, usurpam a que vem dos homens. Como se deve orar, acrescenta-o dizendo: Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, ora a teu Pai em segredo

São Jerônimo. Isto, entendido simplesmente, instrui o ouvinte a fugir da vã glória de orar

São João Crisóstomo, super Matth. Para que ninguém esteja ali senão aquele que ora: pois a testemunha pesa sobre quem ora, não o ajuda

Cyprianus, de Orat. Domin. Orar em lugares escondidos convém também mais à fé, para que saibamos que o Senhor está presente em toda parte e penetra o que é oculto com a plenitude da sua majestade. Podemos também entender, pela porta da casa, a boca do corpo, de modo que não oremos a Deus com voz clamorosa, mas com coração silencioso, por três razões: primeiro, porque Deus não deve ser solicitado com voz clamorosa, mas aplacado com consciência reta, porque é ouvinte do coração; segundo, porque não convém que ninguém saiba tuas orações secretas, a não ser tu e Deus; terceiro, porque, orando clamorosamente, não permites que outro junto a ti ore

Cassianus Collat. Deve-se também orar com o maior silêncio, para que até os nossos próprios inimigos, que mais nos armam ciladas quando oramos, ignorem o teor do nosso pedido.

Santo Agostinho. Ou, por quartos, devem-se entender os nossos corações, dos quais se diz: o que dizeis em vossos corações, arrependei-vos em vossos leitos. A porta é o sentido carnal; fora estão todas as coisas temporais, que penetram os nossos pensamentos pelo sentido e perturbam com o tumulto de fantasmas vãos os que oram.

Cyprianus. Que negligência é, porém, ser distraído e arrebatado por pensamentos inúteis e profanos, quando suplicas ao Senhor, como se houvesse outra coisa em que devesses pensar mais do que no que falas com Deus? Como pretendes ser ouvido por Deus, quando tu mesmo não te ouves? Isto é não se precaver do inimigo, isto é ofender a Deus pela negligência na oração.

Santo Agostinho. Deve-se, pois, fechar a porta, isto é, resistir ao sentido carnal, para que a oração espiritual seja dirigida ao Pai; ela se faz no íntimo do coração, onde o Pai é invocado em segredo; por isso segue-se: e teu Pai, que vê em segredo, te recompensará.

Remígio de Auxerre(séc. IX). E o sentido é: baste-te que somente o conheça a tua oração aquele que conhece os segredos de todos os corações, pois quem é o que observa será o que atende.

São João Crisóstomo, in Matth. Mas não disse: dará de graça, e sim recompensará; com efeito, constituiu-se a si mesmo teu devedor.

Mt 6,7-8

7Nas vossas orações, não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras. 8Não os imiteis, porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós lho peçais.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Assim como é próprio dos hipócritas oferecer-se aos olhares na oração, cujo fruto é agradar aos homens, assim é próprio dos pagãos, isto é, dos gentios, julgar que serão ouvidos pelo muito falar; e por isso se acrescenta: Orando, porém, não faleis muito.

Cassianus Collat. Deve-se orar frequentemente, mas brevemente, para que, demorando-nos, o inimigo insidioso não possa introduzir algo em nosso coração.

Santo Agostinho, ad Probam. Contudo, não é orar com muitas palavras, como alguns pensam, o orar por mais tempo. Uma coisa é o muito discurso, outra o afeto prolongado. Pois também do próprio Senhor está escrito que passou a noite em oração e orou mais longamente, para nos dar o exemplo. Diz-se que os irmãos no Egito têm orações frequentes, mas brevíssimas e de certo modo lançadas rapidamente, para que a atenção, tão necessária a quem ora, não seja embotada por demoras mais longas, se for arrebatada com violência; e com isso mostram suficientemente que essa atenção, assim como não deve ser forçada se não pode durar, assim também, se durar, não deve ser logo interrompida. Esteja longe da oração o muito falar; mas não falte a muita súplica, se a atenção fervorosa persevera: pois falar muito ao orar é tratar de um assunto necessário com palavras supérfluas. Suplicar muito, porém, é bater à porta daquele a quem suplicamos com uma prolongada excitação do coração: pois, na maioria das vezes, este negócio se trata mais com gemidos do que com palavras, mais com pranto do que com discurso.

São João Crisóstomo, in Matth. Dissuade, portanto, com isto, a vã locução na oração; por exemplo, quando não pedimos a Deus coisas convenientes, mas poderes e glórias, vitória sobre os inimigos e abundância de riquezas. Ordena, pois, aqui não fazer orações longas. Digo longas, não em tempo, mas na multidão das coisas que se dizem. Contudo, é preciso que perseverem os que pedem. Pois o Apóstolo diz: Sede perseverantes na oração; não manda, porém, compor uma oração de dez mil versos e proferi-la só com os lábios; o que insinua veladamente quando disse: não faleis muito.

Glosa. Condena, porém, o muito falar da oração que provém da infidelidade; por isso segue-se: como fazem os pagãos. Pois para os gentios era necessária a multiplicidade de palavras, por causa dos demônios, que não sabiam o que eles pediam, a não ser instruídos por suas palavras; por isso segue-se: pois pensam que serão ouvidos pelo seu muito falar.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. E, na verdade, todo o muito falar vem dos gentios, que se dedicam a exercitar a língua antes que a purificar o espírito, e tentam transferir esse gênero de estudo também para a súplica com que se há de mover a Deus.

Gregorius, Moralium. Mas orar verdadeiramente é ressoar gemidos amargos na compunção, e não palavras compostas; e por isso se acrescenta: Não vos assemelheis, pois, a eles.

Santo Agostinho. Pois, se muitas palavras se proferem para instruir um ignorante, que necessidade há delas diante do criador de todas as coisas? Donde se segue: pois vosso Pai sabe do que necessitais, antes que lho peçais.

São Jerônimo. Levanta-se, porém, neste passo uma certa heresia de alguns filósofos, que dizem um dogma perverso: se Deus sabe o que oramos e, antes que peçamos, sabe de que precisamos, falamos em vão a quem sabe. A eles deve-se responder que não somos narradores, mas suplicantes. Pois uma coisa é narrar a quem ignora, outra é pedir a quem sabe.

São João Crisóstomo, in Matth. Não rezas, portanto, para ensinar, mas para comover; para te tornares familiar pela continuidade da súplica; para te humilhares; para te recordares dos teus pecados.

Santo Agostinho. Também não devemos agir com palavras diante de Deus para obter o que queremos, mas com as realidades que levamos na alma, com a intenção do pensamento, com amor puro e afeto suplicante.

Santo Agostinho, ad Probam. Mas se pedimos a Deus também com palavras, em certos intervalos de tempo, é para nos advertirmos a nós mesmos por esses sinais das realidades, para tomarmos consciência de quanto progredimos neste desejo, e para nos estimularmos mais vivamente a aumentá-lo, a fim de que, por causa das várias preocupações, o que começara a esfriar não se torne de todo frio e se extinga completamente, a menos que seja atiçado com mais frequência. Portanto, são-nos necessárias as palavras com que nos movamos e consideremos o que pediremos, e não aquelas com que creiamos que o Senhor deva ser instruído ou persuadido.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Mas, por sua vez, pode-se perguntar, quer se deva rezar com realidades quer com palavras, que necessidade há da própria oração, se Deus já sabe o que nos é necessário, senão porque a própria atenção da oração serena e purifica o nosso coração, e o torna mais capaz de receber os dons divinos, que nos são infundidos espiritualmente. Pois Deus não nos ouve pelo esforço das nossas súplicas, ele que está sempre pronto a dar a sua luz; mas nós nem sempre estamos prontos a recebê-la, quando nos inclinamos para outras coisas. Dá-se, portanto, na oração a conversão do corpo para Deus e a purificação do olho interior, quando as coisas que eram desejadas são temporariamente excluídas, para que a vista do coração simples possa suportar a luz simples e permanecer nela com a alegria, pela qual se realiza a vida bem-aventurada.

Mt 6,9

9Eis como deveis rezar: PAI NOSSO, que estais no céu, santificado seja o vosso nome;

Glosa. Entre os avisos salutares e divinos com que provê aos que creem, propôs a forma de orar e compôs as orações com poucas palavras, para que haja confiança de ser logo atendido aquilo que se quer ver pedido em poucas palavras; por isso diz: Pai nosso, que estais nos céus.

Cyprianus, de Orat. Domin. Aquele que nos fez viver, ensinou-nos também a orar, para que, ao falarmos ao Pai com a oração que o Filho ensinou, sejamos ouvidos mais facilmente. É oração amiga e familiar pedir ao Senhor com o que é dele. Reconheça o Pai as palavras de seu Filho, quando fazemos a prece; e, já que temos junto ao Pai um advogado pelos nossos pecados, quando, pecadores, pedimos pelas nossas faltas, apresentemos as palavras do nosso advogado.

Glosa. Contudo, não se reza somente com estas palavras, mas também com outras concebidas no mesmo sentido, pelas quais o nosso coração se acende.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Como em toda súplica se deve granjear a benevolência daquele a quem suplicamos e, depois, dizer o que suplicamos, costuma-se granjear a benevolência pelo louvor daquele a quem se dirige a oração; e isso costuma ser posto no princípio da oração. Nisso, o Senhor nosso não mandou que disséssemos outra coisa senão: Pai nosso, que estais nos céus. Muitas coisas foram ditas em louvor de Deus; contudo, em lugar algum se encontra o preceito de que o povo de Israel dissesse Pai nosso; mas foi-lhes sugerido como Senhor, quase como a servos. Do povo cristão, porém, diz o Apóstolo que recebeu o espírito de adoção, no qual clamamos: Abba, Pai; isto não é dos nossos méritos, mas da graça, que pomos na oração quando dizemos Pai. Com este nome se excita também a caridade: pois que há de mais querido aos filhos do que o pai? E o afeto suplicante, quando os homens dizem a Deus: Pai nosso; e certa presunção de alcançar: pois o que não daria aos filhos que pedem, quando já lhes deu isto mesmo, que fossem filhos? Enfim, quanto cuidado toca a alma, para que quem diz Pai nosso não seja indigno de tão grande Pai? Também os ricos e os de nobre estirpe são aqui advertidos, quando se tornam cristãos, a não se ensoberbecerem diante dos pobres ou dos de baixa condição, pois dizem juntos a Deus: Pai nosso; o que não podem dizer com piedade e verdade, a não ser que reconheçam que são irmãos.

São João Crisóstomo, in Matth. Que prejuízo vem, com efeito, de um parentesco inferior, se segundo o superior estamos todos unidos? Aquele que o chamou também Pai, por este único nome confessou a remissão dos pecados, a adoção, a herança, a fraternidade com o Unigênito e a dádiva do Espírito. Pois não é possível chamar Deus de Pai senão a quem possui todos estes bens. De dois modos, portanto, ele eleva o sentimento dos que oram: pela dignidade daquele que é invocado e pela grandeza dos benefícios de que o orante se tornou possuidor.

Cyprianus, de Orat. Domin. Não dizemos, porém, meu Pai, mas Pai nosso, porque o mestre da paz e da unidade não quis que a prece se fizesse em particular e a sós, de modo que quem o invoca rogue só por si. Nossa oração é pública e comum; e quando oramos, não oramos por um só, mas pelo povo inteiro, porque todo o povo somos um. Assim, quis que um orasse por todos, do mesmo modo que ele, sendo um só, carregou a todos.

São João Crisóstomo, super Matth. Pois a necessidade obriga a orar por si, mas a caridade fraterna exorta a orar pelo outro. Mais doce é, diante de Deus, a oração que não é enviada pela necessidade, mas recomendada pela caridade fraterna.

Glosa. Diz-se também Pai nosso, porque é comum a todos: não meu Pai, o que convém somente a Cristo, que é Filho por natureza.

São João Crisóstomo, super Matth. Acrescenta, porém, que estais nos céus, para que saibamos que temos um Pai celeste, e se envergonhem de se rebaixar às coisas terrenas os que têm um Pai nos céus.

Cassianus Collat. E para que nos apressemos, com o mais intenso desejo, para aquela região em que confessamos habitar o nosso Pai.

São João Crisóstomo, in Matth. Ao dizer, pois, nos céus, não encerra ali a Deus, mas afasta da terra o que ora e o fixa nas regiões elevadas.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Ou diz-se que está nos céus, isto é, nos santos e justos; pois Deus não se contém no espaço dos lugares. Os céus são, sem dúvida, os corpos excelentes do mundo; e se se acreditasse que neles está o lugar de Deus, seriam de melhor mérito as aves, cuja vida é mais próxima de Deus. Ora, não está escrito: o Senhor está perto dos homens elevados, ou dos que habitam nos montes, mas dos contritos de coração. Mas, assim como se chama terra o pecador, a quem foi dito: terra és, e à terra voltarás, assim, ao contrário, o justo pode ser chamado céu. Com razão, pois, se diz: que estás nos céus; com efeito, parece haver tanta diferença espiritual entre os justos e os pecadores quanto corporal entre o céu e a terra. Para significar isso, ao orar voltamo-nos para o oriente, de onde surge o céu; não como se Deus estivesse ali, abandonando as demais partes do mundo, mas para que o espírito seja advertido a voltar-se para uma natureza mais excelente, isto é, para Deus, enquanto o seu corpo, que é terreno, se volta para um corpo mais excelente, isto é, para o corpo celeste. Convém também que todos, pequenos e grandes, tenham boa ideia de Deus; e por isso, para os que ainda não podem pensar no incorpóreo, é mais tolerável a opinião deles, se acreditam que Deus está antes no céu que na terra

Mt 6,9

9Eis como deveis rezar: PAI NOSSO, que estais no céu, santificado seja o vosso nome;

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Foi dito quem é aquele a quem se pede e onde habita; vejamos agora o que se deve pedir. Ora, a primeira de todas as coisas que se pedem é isto: santificado seja o vosso nome; o que não se pede como se o nome de Deus não fosse santo, mas para que seja tido como santo pelos homens; isto é, para que Deus se torne de tal modo conhecido que nada seja considerado mais santo.

São João Crisóstomo, in Matth. Ou manda o que ora pedir que Deus seja glorificado por nossa vida; como se dissesse: faze-nos viver de tal modo que, por nós, todos te glorifiquem. Pois seja santificado é o mesmo que seja glorificado. Ora, é digna a oração de quem suplica a Deus não pedir nada antes da glória do Pai, mas pospor tudo ao seu louvor.

São João Crisóstomo, super Matth. Ou de outro modo. Não desejamos a Deus que seja santificado por nossas orações, mas que o seu nome seja santificado em nós. Pois, porque ele mesmo disse: sede santos, porque eu sou santo, pedimos e rogamos isto: que nós, que fomos santificados no Batismo, perseveremos naquilo que começamos a ser.

Santo Agostinho, de bono Persev. Por que, então, se pede a Deus essa perseverança, se, como dizem os pelagianos, ela não é dada por Deus? Será também esta uma petição irrisória, pedindo-se a ele aquilo que se sabe que não é ele quem dá, mas que está no poder do homem realizá-lo, sem que ele o dê?

Cyprianus, de Orat. Domin. E também isto pedimos cada dia: que sejamos santificados; pois temos necessidade de uma santificação contínua, para que, nós que cada dia delinquimos, purifiquemos nossos delitos por uma santificação assídua.

Mt 6,10

10venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu.

Glosa. Convém que se siga que, depois da adoção de filhos, peçamos o reino, que é devido aos filhos; donde se segue: venha o vosso reino.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. O que não foi dito como se ele não reinasse agora também na terra, e sempre nela tivesse reinado. Venha, portanto, deve ser entendido como seja manifestado aos homens. Ora, a ninguém será lícito ignorar o reino de Deus, quando o seu Unigênito vier, não só de modo inteligível, mas também visível, para julgar os vivos e os mortos. O Senhor ensina que o dia do juízo será então, quando o Evangelho tiver sido pregado a todas as nações; coisa que pertence à santificação do nome de Deus.

São Jerônimo. Ou, em geral, pede pelo reino do mundo inteiro, para que o Diabo deixe de reinar no mundo; ou para que Deus reine em cada um, e o pecado não reine no corpo mortal dos homens.

São João Crisóstomo, super Matth. Ou pedimos que venha o nosso reino, prometido por Deus a nós e adquirido pelo sangue de Cristo; para que nós, que antes servimos no século, depois reinemos, dominando Cristo.

Santo Agostinho, ad Probam. Pois o reino de Deus virá, queiramos ou não. Mas excitamos o nosso desejo para esse reino, a fim de que venha a nós e nele reinemos.

Cassianus Collat. Ou porque o santo sabe, pelo testemunho de sua consciência, que, quando aparecer o reino de Deus, será dele consorte.

São Jerônimo. Deve-se, porém, observar que é próprio de grande audácia e de consciência pura pedir o reino de Deus e não temer o juízo.

Cyprianus, de Orat. Domin. Também o próprio Cristo pode ser o reino de Deus, que desejamos que venha cada dia, e cujo advento desejamos que se nos apresente depressa; pois, como ele mesmo é a ressurreição, porque nele ressuscitamos, assim também se pode entender o reino de Deus, porque nele havemos de reinar. Ora, com razão pedimos o reino de Deus, isto é, o celeste, porque há também um reino terrestre. Mas quem já renunciou ao século é maior até que as suas honras e o seu reino; e por isso quem se consagra a Deus e a Cristo deseja não os reinos terrenos, mas os celestes.

Santo Agostinho, de bono Persev. Quando, porém, se pede venha o reino, que pedem os que já são santos, senão que perseverem naquela santidade que já lhes foi dada? Pois o reino de Deus não virá de outro modo, e é certo que virá para os que perseveram até o fim.

Mt 6,10

10venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Naquele reino da bem-aventurança, a vida bem-aventurada será levada à perfeição nos santos, como agora nos Anjos celestes. E por isso, depois daquele pedido em que dizemos venha a nós o teu reino, segue-se seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; isto é: assim como nos Anjos, que estão no céu, se faz a tua vontade, de modo que gozem de ti, sem erro algum que obscureça a sua sabedoria, sem miséria alguma que impeça a sua bem-aventurança, assim seja feita nos teus santos, que estão na terra e foram feitos da terra, no que diz respeito ao corpo. Também seja feita a tua vontade entende-se corretamente como: obedeça-se aos teus preceitos, assim no céu como na terra; isto é: assim como pelos Anjos, também pelos homens; não que eles façam com que Deus queira, mas porque fazem o que ele quer; isto é, fazem segundo a vontade dele.

São João Crisóstomo, in Matth. Vê, porém, a excelente coerência: como ensinou a desejar as coisas celestes pelas palavras venha a nós o teu reino, antes que se chegue ao céu, mandou que a própria terra se tornasse céu, pelo que diz: seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.

São Jerônimo. Envergonhem-se, pois, com esta sentença os que mentem que todos os dias ocorrem ruínas no céu.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Ou assim no céu como na terra, isto é: assim como nos justos, também nos pecadores; como se dissesse: assim como os justos fazem a tua vontade, também os pecadores, para que se convertam a ti, ou então para que a cada um se dê o que lhe é devido, o que ocorrerá no juízo final. Ou, por céu e terra, entendamos o espírito e a carne. E, pelo que diz o apóstolo, com a mente sirvo à lei de Deus, vejamos realizada a vontade de Deus no espírito. Naquela transformação, porém, que é prometida aos justos, seja feita a tua vontade assim no céu como na terra, isto é: assim como o espírito não resiste a Deus, assim também o corpo não resista ao espírito. Ou assim no céu como na terra, isto é: assim como no próprio Jesus Cristo, assim também na Igreja; como no varão, que cumpriu a vontade do Pai, assim também na mulher, que lhe foi desposada. Com efeito, céu e terra entendem-se convenientemente como varão e mulher, porque a terra é fecunda por ser fecundada pelo céu.

Cyprianus, de Orat. Domin. Não pedimos, portanto, que Deus faça o que quer, mas que nós possamos fazer o que Deus quer; e para que isso se faça em nós, é necessária a vontade de Deus, isto é, a sua obra e proteção, porque ninguém é forte por suas próprias forças, mas está seguro pela misericórdia de Deus.

São João Crisóstomo, in Matth. A virtude, com efeito, não depende somente do nosso empenho, mas da graça superior. Por outro lado, aqui impôs a cada um de nós a oração pelo mundo inteiro: pois não disse: seja feita a tua vontade em mim ou em nós, mas em toda a terra, para que seja desfeito o erro e plantada a verdade, expulsa a malícia e restaurada a virtude, e assim o céu já não difira da terra.

Santo Agostinho, de bono Persev. Disto se mostra com evidência, contra os pelagianos, que o início da fé é dom de Deus, quando a santa Igreja ora pelos infiéis, para que comecem a ter fé. Como nos santos a vontade de Deus já foi realizada, por que ainda pedem que se faça, senão para que perseverem naquilo que começaram a ser?

São João Crisóstomo, super Matth. Deve-se entender em sentido comum o que diz: assim na terra como no céu; isto é: santificado seja o teu nome, assim na terra como no céu; venha a nós o teu reino, assim no céu como na terra; seja feita a tua vontade, assim no céu como na terra. E vê com que cautela falou; não disse: Pai, santifica o teu nome em nós; venha o teu reino sobre nós; faze a tua vontade em nós. Nem diz, por outro lado: santifiquemos o teu nome; recebamos o teu reino; façamos a tua vontade, para que não parecesse ser só de Deus ou só do homem. Mas falou em termo médio e de modo impessoal: pois, assim como o homem não pode fazer o bem sem ter o auxílio de Deus, assim também Deus não opera o bem no homem se o homem não quiser.

Mt 6,11

11O pão nosso de cada dia nos dai hoje;

Augustinus Enchir. Estas três coisas que são pedidas nos pedidos anteriores começam aqui e, na medida em que progredimos, aumentam em nós; serão, porém, possuídas perfeitamente e para sempre, o que se deve esperar na outra vida. Nos quatro pedidos restantes, que se seguem, pedem-se coisas temporais, que são necessárias para alcançar as eternas; com efeito, o pão que aqui se pede convenientemente é necessário: pois segue-se o pão nosso supersubstancial dá-nos hoje.

São Jerônimo. O que nós exprimimos por supersubstancial, no grego tem-se epiousion, palavra que os Setenta intérpretes muito frequentemente traduziram por periousion. Consideramos, pois, o hebraico: e onde quer que eles tenham expresso periousion, nós encontramos segula, que Símaco traduziu por exereton, isto é, singular ou excelente, embora em certo lugar o tenha interpretado como especial. Quando, portanto, pedimos que o Senhor nos conceda um pão especial ou singular, pedimos aquele que diz no Evangelho: Eu sou o pão vivo, que desci do céu.

Cyprianus, de Orat. Domin. Com efeito, o pão da vida é Cristo; e este pão não é de todos, mas é nosso. Pedimos que este pão nos seja dado todos os dias, para que nós, que estamos em Cristo e recebemos todos os dias a Eucaristia, não sejamos, por interposição de algum delito mais grave, impedidos do pão celeste e separados do corpo de Cristo. Pedimos, pois, que nós, que permanecemos em Cristo, não nos afastemos da sua santificação e do seu corpo.

Santo Agostinho, de bono Persev. Os santos pedem, portanto, ao Senhor a perseverança, quando pedem que não sejam separados do corpo de Cristo, mas permaneçam naquela santidade, de modo que não cometam crime algum.

São João Crisóstomo, super Matth. Ou pôs pão supersubstancial, isto é, cotidiano.

Cassianus Collat. Com efeito, quando diz hoje, mostra que ele deve ser tomado todos os dias, e que esta oração deve ser derramada em todo tempo, porque não há dia em que não precisemos, pela recepção deste pão, confirmar o coração do homem interior.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Mas contra isto levantam uma questão aqueles que, nas regiões orientais, não comungam todos os dias da ceia do Senhor: estes defendem a sua opinião sobre este assunto, ou pela própria autoridade eclesiástica, pois o fazem sem escândalo e não são proibidos de fazê-lo por aqueles que presidem às Igrejas. Mas, sem que discutamos sobre eles em nenhum sentido, isto certamente deve ocorrer aos que refletem: que recebemos do Senhor a regra de orar, a qual não convém transgredir. Quem, pois, ousaria dizer que devemos rezar a oração dominical uma só vez, ou, se duas e três, apenas até a hora em que comungamos o corpo do Senhor? Com efeito, depois não poderemos dizer dá-nos hoje aquilo que já recebemos. Ou poderá alguém obrigar-nos a celebrar aquele sacramento na última parte do dia?

Cassianus. Embora isto que se diz, hoje, possa ser entendido da vida presente, isto é, enquanto permanecemos no mundo, concede-nos este pão

São Jerônimo. Podemos também entender de outro modo o pão supersubstancial: aquele que está acima de todas as substâncias e supera todas as criaturas, a saber, o do Senhor

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Ou tomemos o pão cotidiano como o espiritual, a saber, os preceitos divinos, que convém meditar e praticar todos os dias

São Gregório Magno(séc. VI). Dos Morais. Dizemos, porém, que este pão é nosso, e contudo pedimos que nos seja dado: porque é de Deus por dom, e se torna nosso pela recepção

São Jerônimo. Outros pensam simplesmente que, segundo a palavra do Apóstolo que diz: Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isso, os santos se preocupam apenas com o alimento presente; donde, mais adiante, se ordena: Não vos preocupeis com o dia de amanhã

Santo Agostinho, ad Probam. Assim, pois, pedimos aqui o suficiente a partir da parte que se sobressai, significando o todo pelo nome de pão

São João Crisóstomo, super Matth. Não rezamos o pão nosso dá-nos hoje apenas para termos o que comer, o que é comum entre justos e pecadores, mas para que aquilo que comemos o recebamos da mão de Deus, o que é próprio somente dos santos. Pois Deus dá o pão àquele que o prepara com justiça, e o Diabo, àquele que o prepara com pecado. Ou então, para que, sendo dado por Deus, seja recebido santificado; e por isso acrescentou nosso, isto é, aquele que nós temos preparado, esse dá-nos, para que seja santificado por ti: como o sacerdote, recebendo o pão do leigo, o santifica e lho devolve: o pão, com efeito, é de quem o oferece; mas o que foi santificado é benefício do sacerdote. Diz, porém, nosso por dois motivos. Primeiro, porque tudo o que Deus nos dá, dá por meio de nós a outros, para que do que recebemos façamos parte aos necessitados. Quem, portanto, dos seus trabalhos dá aos indigentes, não come apenas o seu pão, mas também o alheio. Depois, quem come o pão adquirido com justiça, come o seu pão; mas o que é alheio, com pecado

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Talvez alguém se pergunte por que rezamos para obter aquelas coisas que são necessárias a esta vida, como o alimento e a vestimenta, quando o Senhor diz: Não vos preocupeis com o que haveis de comer ou com o que haveis de vestir; ora, ninguém pode deixar de se preocupar com aquilo que pede para obter

Santo Agostinho. A Proba. Mas quem deseja o suficiente para a vida não o deseja de modo inconveniente, e não mais que isso; ora, esse suficiente não é buscado por si mesmo, mas pela saúde do corpo e por um trajar condizente com a pessoa humana, de modo que, tendo-o, não seja inconveniente para aqueles com quem se deve viver honestamente. Portanto, essas coisas, quando se as têm, deve-se rezar para que sejam conservadas; quando não se as têm, para que sejam obtidas

São João Crisóstomo, in Matth. Deve-se considerar que, depois de dizer seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu, falando a homens na terra revestidos de carne e que não podem ter a mesma impassibilidade dos Anjos, condescendeu já com a nossa fraqueza, que necessita de alimento; e por isso mandou fazer oração pelo pão, não por dinheiro nem por luxo, mas somente pelo pão cotidiano; e nem isto basta, mas acrescentou dá-nos hoje, para que não nos consumamos na preocupação com o dia seguinte

São João Crisóstomo, super Matth. E assim, à primeira vista, estas palavras parecem soar de modo que os que as dizem não tenham preparado nada para o dia seguinte ou para o depois de amanhã. Se assim é, esta oração só pode convir a poucos, como os apóstolos, que, para ensinar, andavam errantes em todo tempo, ou talvez a ninguém. Devemos, porém, adaptar de tal modo a doutrina de Cristo, que todos nela progridam

Cyprianus, de Orat. Domin. O discípulo de Cristo deve, portanto, pedir o alimento divino, para não estender por muito tempo o desejo de sua petição: porque é contraditório e repugnante que procuremos permanecer longamente no mundo, nós que pedimos que o reino dos céus venha depressa. Ou acrescenta cotidiano, para que cada um coma tanto quanto exige a razão natural, não quanto impele a lascívia da carne. Se, com efeito, num único banquete gastas tanto quanto poderia bastar-te por cem dias, já não comes alimento cotidiano, mas de muitos dias

São Jerônimo. No Evangelho, porém, que se chama segundo os Hebreus, em lugar de pão supersubstancial encontra-se mohar, que significa de amanhã; de modo que o sentido seja: o pão nosso de amanhã, isto é, futuro, dá-nos hoje

Mt 6,12

12perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam;

Cyprianus, de Orat. Domin. Depois do sustento do alimento pede-se também o perdão da culpa, para que quem é nutrido por Deus viva em Deus; e para que se cuide não só da vida presente, mas da eterna, à qual se pode chegar se os pecados forem perdoados, os quais o Senhor chamou dívidas, como diz noutro lugar: Perdoei-te toda a dívida, porque me rogaste. Donde se segue: Perdoa-nos as nossas dívidas. Por isso somos necessária e salutarmente advertidos, nós que somos pecadores, quando somos obrigados a rogar pelos pecados; e para que ninguém se compraza em si como inocente e, exaltando-se, mais se perca, é instruído de que peca cotidianamente, enquanto lhe é mandado rezar cotidianamente pelos pecados

Santo Agostinho, de bono Persev. Com este dardo, porém, são transpassados os hereges pelagianos, que ousam dizer que o homem justo nesta vida não tem absolutamente nenhum pecado, e que em tais homens já no tempo presente está a Igreja, sem mancha nem ruga

São João Crisóstomo, in Matth. Visto que esta oração convém aos fiéis, tanto o ensinam as leis da Igreja quanto o princípio da oração, que ensina a chamar Deus de Pai. Quem, pois, manda os fiéis pedirem a remissão dos pecados, demonstra que depois do Batismo acontece de os pecados serem perdoados, contra os novacianos

Cyprianus, de Orat. Domin. Aquele, portanto, que nos ensinou a orar pelos pecados prometeu a misericórdia paterna; mas acrescentou claramente uma lei, constrangendo-nos com uma condição certa, a saber, que peçamos que a dívida nos seja perdoada na medida em que nós mesmos perdoamos aos nossos devedores; e é isto que diz: assim como nós perdoamos aos nossos devedores

São Gregório Magno. Para que, com efeito, o bem que pedimos a Deus, compungidos, o façamos primeiro ao próximo, convertidos

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Isto não se diz do dinheiro, mas de tudo o que cada um peca contra nós e, por isso, também do dinheiro: peca, com efeito, contra ti quem não te paga o dinheiro que te é devido, tendo de onde pagar; e esse pecado, se não o perdoares, não poderás dizer: perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores

São João Crisóstomo, super Matth. Com que esperança, pois, ora quem guarda inimizade contra outro, por quem talvez tenha sido ofendido? Assim como ele, orando, mente (diz, com efeito: perdoo, e não perdoa), assim pede a Deus indulgência, e não lhe é concedida. Mas muitos, não querendo dar perdão aos que pecam contra eles, evitam rezar esta oração. Insensatos! Primeiro, porque quem não ora como Cristo ensinou não é discípulo de Cristo; segundo, porque nem o Pai ouve de bom grado a oração que o Filho não ditou: o Pai conhece, com efeito, os sentimentos e as palavras de seu Filho, e não acolhe o que a usurpação humana imaginou, mas o que a sabedoria de Cristo expôs

Augustinus Enchir. Contudo, visto que um bem tão grande, a saber, perdoar as dívidas e amar os inimigos, não é próprio de tão grande multidão quanto cremos ser ouvida quando se diz na oração: perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; sem dúvida as palavras desta promessa se cumprem se o homem ainda não progrediu a ponto de amar o inimigo; contudo, quando é rogado por um homem que pecou contra ele que lhe perdoe, perdoa de coração, o qual também quer, sem dúvida, que lhe seja perdoado quando ele mesmo rogar. Já quem, por sua vez, roga àquele contra quem pecou, se é movido pelo seu pecado a rogar, não deve ser considerado ainda inimigo, de modo que amá-lo seja difícil, como era difícil quando exercia inimizades

Mt 6,13

13e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.

São João Crisóstomo, super Matth. Porque ordenou aos homens muitas coisas magníficas acima, a saber, que chamem Deus de seu Pai e peçam que venha o reino de Deus, acrescenta-se agora a doutrina da humildade, quando se diz: e não nos induzas em tentação

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Alguns códices trazem e não nos leves à tentação, o que julgo valer o mesmo: com efeito, de uma só palavra grega ambos foram traduzidos. Muitos, porém, ao interpretar, dizem assim: não permitas que sejamos induzidos à tentação, expondo como se deve entender induzas. Pois Deus não induz por si mesmo, mas permite ser induzido aquele que deixou sem o seu auxílio

Cyprianus, de Orat. Domin. Nesta parte se mostra que nenhum adversário pode algo contra nós, a não ser que Deus antes o permita, de modo que todo o nosso temor e devoção se voltem para Deus

Santo Agostinho. Uma coisa, porém, é ser induzido em tentação, outra ser tentado: pois sem tentação ninguém pode ser provado, nem para si mesmo nem para outro; mas Deus conhece cada um perfeitamente antes de todas as tentações. Não se ora, pois, aqui para que não sejamos tentados, mas para que não sejamos levados à tentação; como se alguém que precisa ser examinado pelo fogo não pedisse não ser tocado pelo fogo, mas não ser queimado. Somos, com efeito, induzidos, se sobrevêm tentações tais que não podemos suportar

Santo Agostinho, ad Probam. Quando, pois, dizemos não nos induzas em tentação, somos advertidos a pedir isto: que, abandonados do seu auxílio, não consintamos em alguma tentação, enganados, nem cedamos, aflitos

Cyprianus, de Orat. Domin. Nisto somos advertidos de nossa fraqueza e debilidade, para que ninguém se exalte insolentemente: de modo que, enquanto avança uma confissão humilde e submissa, e tudo o que se pede suplicante é dado a Deus, seja concedido por sua bondade

Santo Agostinho, de bono Persev. Quando, porém, os santos pedem não nos induzas em tentação, que outra coisa pedem senão perseverar na santidade? Concedido isto a si (o que se demonstra ser dom de Deus, pois se pede a ele), nenhum dos santos deixa de manter até o fim a perseverança na santidade; e ninguém deixa de perseverar no propósito cristão, a não ser que antes seja induzido em tentação. Por isso, pois, pedimos não ser induzidos em tentação, para que isto não aconteça; e se não acontece, Deus não permite que aconteça: nada acontece, com efeito, senão o que ele mesmo faz ou permite que se faça. É poderoso, pois, para inclinar as vontades do mal para o bem, converter o que caiu e dirigir seus passos ao que lhe agrada, ele a quem não em vão se diz: não nos induzas em tentação; pois quem não é induzido na tentação de sua própria má vontade não é induzido em nenhuma absolutamente: cada um, com efeito, é tentado por sua própria concupiscência. Quis, pois, Deus que lhe pedíssemos não sermos induzidos em tentação, o que podia ser-nos dado mesmo sem orarmos, porque quis que fôssemos advertidos de quem recebemos os benefícios. Atente, pois, a Igreja às suas orações cotidianas: ora para que os incrédulos creiam; Deus, pois, os converte à fé; ora para que os crentes perseverem; Deus, pois, dá a perseverança até o fim

Mt 6,13

13e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Deve-se orar não só para não sermos induzidos no mal de que carecemos, mas também para sermos libertados daquele em que já fomos induzidos; e por isso segue: mas livrai-nos do mal

São João Crisóstomo, in Matth. Ou chama aqui de mal o Diabo, pela excelência da malícia, não aquela que vem da natureza, mas a que vem da escolha. E porque tem contra nós guerra implacável, por isso disse: livrai-nos do mal

Cyprianus, de Orat. Domin. Depois de tudo o que foi dito acima, vem, na consumação da oração, a cláusula final, que encerra todas as nossas preces numa brevidade concentrada: nada resta que ainda se deva pedir, desde que pedimos de uma vez a proteção de Deus contra o mal; obtida esta, estamos seguros contra tudo o que o Diabo e o mundo operam. Que temor, com efeito, pode vir do século, se no século Deus é o protetor?

Santo Agostinho, ad Probam. E esta última petição, posta na oração dominical, tem tão ampla extensão que o cristão, em qualquer tribulação em que se encontre, nela emite seus gemidos, nela derrama suas lágrimas, por ela começa e nela termina a oração; daí segue-se amém, com o qual se exprime o desejo de quem ora.

São Jerônimo. O amém, com efeito, que consta escrito no fim, é o selo da oração dominical; Áquila o interpretou fielmente, e nós podemos dizê-lo com verdade.

Cyprianus, de Orat. Domin. Que há de admirar, se é tal a oração que Deus ensinou, ele que, em seu magistério, abreviou toda a nossa prece numa palavra salutar? Por isso fora predito antes por Isaías: Deus fará uma palavra abreviada sobre a terra. Pois, tendo vindo o Senhor Jesus Cristo para todos, a fim de reunir igualmente doutos e indoutos, e tendo dado preceitos de salvação a todo sexo e idade, fez um grande compêndio de seus preceitos, para que, na disciplina celeste, a memória dos que aprendem não se fatigasse, mas aprendessem depressa o que era necessário à fé simples.

Santo Agostinho, ad Probam. Quaisquer outras palavras, porém, que digamos, as quais o afeto de quem ora ou forma precedendo, para que se torne claro, ou inflama seguindo, para que cresça, nada dizemos além do que está posto nesta oração dominical, se oramos reta e convenientemente. Pois quem diz: Sê glorificado em todas as nações, como foste glorificado em nós, que outra coisa diz senão santificado seja o teu nome? Quem diz: Mostra a tua face, e seremos salvos, que outra coisa diz senão venha o teu reino? Quem diz: Dirige os meus passos segundo a tua palavra, que outra coisa diz senão seja feita a tua vontade? Quem diz: Não me dês nem pobreza nem riquezas, que outra coisa diz senão o pão nosso de cada dia dá-nos hoje? Quem diz: Lembra-te, Senhor, de Davi e de toda a sua mansidão, e: se paguei com males aos que me faziam bem, que outra coisa diz senão perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores? Quem diz: Afasta de mim as concupiscências do ventre, que outra coisa diz senão não nos deixes cair em tentação? Quem diz: Livra-me dos meus inimigos, meu Deus, que outra coisa diz senão livra-nos do mal? E se percorres todas as palavras das santas súplicas, nada encontrarás que não esteja contido nesta oração dominical. Quem, porém, diz algo que não possa pertencer a esta prece evangélica, ora carnalmente; e não sei como isso não seria chamado ilícito, quando o Senhor ensina os renascidos a orar somente de modo espiritual. Quem, entretanto, diz na oração: Senhor, multiplica as minhas riquezas e aumenta as minhas honras, e diz isso por ter concupiscência delas, sem atender a que por elas possa aproveitar aos homens segundo Deus, penso que não encontra na oração dominical onde ajustar esses votos. Por isso, envergonhe-se ao menos de pedir o que não se envergonha de desejar. Ou, se também disso se envergonha, e a cupidez venceu, melhor será pedir que seja libertado também deste mal da cupidez por aquele a quem dizemos: livra-nos do mal.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Parece também que este número de petições concorda com o septenário das bem-aventuranças. Com efeito, se é o temor de Deus que torna bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus, peçamos que o nome de Deus seja santificado nos homens, permanecendo o temor casto pelos séculos dos séculos. Se é a piedade que torna bem-aventurados os mansos, peçamos que venha o seu reino, para que nos tornemos mansos e não lhe resistamos. Se é a ciência que torna bem-aventurados os que choram, oremos para que seja feita a sua vontade assim no céu como na terra: porque, se o corpo, como a terra, consentir com o espírito, como o céu, não choraremos. Se é a fortaleza que torna bem-aventurados os que têm fome, oremos para que o nosso pão de cada dia nos seja dado hoje, pelo qual possamos chegar à saciedade plenísima. Se é o conselho que torna bem-aventurados os misericordiosos, porque deles se terá misericórdia, perdoemos as dívidas, para que nos sejam perdoadas as nossas dívidas. Se é o entendimento que torna bem-aventurados os puros de coração, oremos para não sermos induzidos em tentação, a fim de que não tenhamos coração duplo, buscando as coisas temporais e terrenas, das quais nascem em nós as tentações. Se é a sabedoria que torna bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus, oremos para sermos livrados do mal: pois a própria libertação nos fará livres, filhos de Deus.

São João Crisóstomo, in Matth. Como a lembrança do inimigo nos havia deixado inquietos nestas palavras que ele dissera, livra-nos do mal, de novo nos dá confiança ao acrescentar-se, em alguns livros, porque teu é o reino, e o poder, e a glória: pois, se dele é o reino, ninguém é de temer, já que aquele que combate contra nós lhe está sujeito. E sendo infinitos o seu poder e a sua glória, ele pode não só livrar-nos dos males, mas também tornar-nos gloriosos.

São João Crisóstomo, super Matth. Isto também se refere ao que precede: pois o que diz, teu é o reino, responde ao que dissera, venha o teu reino, para que ninguém diga: logo, Deus não tem reino na terra. E o que diz, e o poder, responde ao que dissera, seja feita a tua vontade assim no céu como na terra, para que ninguém diga que Deus não pode fazer o que quer. E o que diz, e a glória, responde a tudo o que se segue, em que a glória de Deus aparece.

Mt 6,14-15

14Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará. 15Mas, se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará.

Rábano Mauro(séc. IX). Pelo fato de o Senhor ter dito amém, significa sem dúvida que o Senhor concede tudo o que pedem como convém àqueles que não negligenciam guardar o pacto da condição acrescentada; donde se acrescenta: Se, com efeito, perdoardes aos homens os seus pecados, também vosso Pai celeste vos perdoará os vossos delitos.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Aqui não se deve passar por alto que, de todas estas sentenças com que o Senhor nos mandou orar, julgou dever recomendar sobretudo a que se refere à remissão dos pecados, na qual quis que fôssemos misericordiosos; e este é o único conselho para escapar às misérias.

São João Crisóstomo, super Matth. Não disse, porém, que Deus nos perdoe primeiro, e depois nós aos nossos devedores, pois o Senhor sabe que os homens são mentirosos, já que, mesmo depois de receberem a remissão de seu pecado, eles mesmos não perdoam aos seus devedores: por isso se diz assim, para que primeiro perdoemos, e depois peçamos o perdão.

Augustinus Enchir. Quem quer que não perdoe de coração a quem lhe pede e se arrepende de seu pecado, de modo algum julgue que seus pecados são perdoados pelo Senhor; e por isso acrescenta: Se, porém, não perdoardes aos homens, nem vosso Pai vos perdoará os vossos pecados.

Cyprianus, de Orat. Domin. Com efeito, não terás desculpa alguma no dia do juízo, pois serás julgado segundo a tua própria sentença, e o que tiveres feito, isso sofrerás.

São Jerônimo. Se, porém, o que está escrito: Eu disse: sois deuses; mas vós morrereis como homens, é dito àqueles que, por causa dos pecados, mereceram deixar de ser deuses para ser homens, com razão, portanto, também aqueles a quem se perdoam os pecados são chamados homens.

São João Crisóstomo, in Matth. Por isso, porém, menciona os céus e o Pai, para com isso provocar o ouvinte: nada, com efeito, te assemelha tanto a Deus quanto perdoar aos que te fazem injúria. É inconveniente, porém, que quem é filho de tal Pai se torne servil e, chamado ao céu, tenha um sentimento terreno e próprio desta vida.

Mt 6,16

16Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um semblante abatido para manifestar aos homens que jejuam. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa.

São João Crisóstomo, super Matth. Porque aquela oração já é forte, que se faz em espírito humilde e coração contrito; ora, quem vive entre delícias não pode ter espírito humilde e coração contrito; é manifesto, portanto, que a oração sem jejum é frágil e fraca: e por isso, todos os que quiseram orar por alguma necessidade, o jejum é auxílio da oração. Daí que o Senhor, em seguida, depois da doutrina sobre a oração, acrescenta a doutrina sobre o jejum, dizendo: Quando jejuardes, não vos torneis tristes como os hipócritas. Pois o Senhor sabia que a vanglória procede de todo bem; por isso manda cortar o espinho da vanglória, que nasce na terra boa, para que não sufoque o fruto do jejum. Ora, não é possível que não se perceba quem jejua; mas é melhor que o jejum te mostre do que tu o jejum. Também não é possível que quem jejua esteja alegre; por isso não disse: não sejais tristes, mas não vos torneis tristes: pois os que parecem pálidos por alguns artifícios, esses não são tristes, mas tornam-se; quem, porém, é naturalmente triste por causa do jejum assíduo, não se torna triste, mas verdadeiramente é; por isso acrescenta: Desfiguram, com efeito, os seus rostos, para parecerem aos homens que jejuam.

São Jerônimo. A palavra exterminant, que nas Escrituras eclesiásticas foi desgastada pela falha dos intérpretes, significa algo muito diferente do que vulgarmente se entende. Com efeito, são exterminados os exilados, que são enviados para fora dos termos. Em lugar desta palavra, portanto, devemos sempre entender demoliuntur (destroem), que em grego se diz aphanizousi. Ora, o hipócrita destrói o seu rosto, para simular tristeza, e, estando talvez o ânimo alegre, traz o luto no semblante.

São Gregório Magno. Pois os rostos empalidecem, o corpo é sacudido pela debilidade, o peito é oprimido por suspiros entrecortados, e em tão grande esforço nada mais se pensa senão a estima humana. O Papa Leão, no Sermão 3 sobre a Epifania: Não são castos os jejuns que não procedem da razão da continência, mas da arte do engano.

São João Crisóstomo, super Matth. Se, portanto, é hipócrita aquele que jejua e se mostra triste, quanto mais iníquo é aquele que não jejua, mas pinta no seu rosto, com certos artifícios, uma palidez comprada, como sinal de jejum?

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Neste capítulo, porém, deve-se advertir sobretudo que a jactância pode existir não só no brilho e na pompa das coisas corporais, mas também nas próprias sujeiras de luto, e tanto mais perigosa quanto mais engana sob o nome de serviço de Deus. Aquele, pois, que resplandece pelo cuidado imoderado do corpo e da veste, ou pelo brilho de outras coisas, facilmente é convencido, pelas próprias coisas, de ser seguidor das pompas do mundo, e a ninguém engana com uma imagem dolosa de santidade; quem, porém, na profissão do cristianismo, atrai sobre si os olhos dos homens por um desalinho e sujeira insólitos, uma vez que o faz por vontade e não o sofre por necessidade, pode-se conhecer, pelas suas demais obras, se o faz por desprezo do cuidado supérfluo ou por alguma ambição.

Remígio de Auxerre. O fruto, porém, do jejum dos hipócritas manifesta-se quando se acrescenta: para parecerem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo, já receberam a sua recompensa, isto é, aquela que desejaram.

Mt 6,17-18

17Quando jejuares, perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto. 18Assim, não parecerá aos homens que jejuas, mas somente a teu Pai que está presente ao oculto; e teu Pai, que vê num lugar oculto, te recompensará.”

Glosa. O Senhor ensinou o que não se deve fazer; agora ensina o que se deve fazer, dizendo: Tu, porém, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Costuma-se perguntar o que significa isto que aqui se diz: pois ninguém ordenaria com razão (embora lavemos o rosto por costume cotidiano) que devamos ter também as cabeças ungidas quando jejuamos, coisa que todos confessam ser sumamente indecorosa.

São João Crisóstomo, super Matth. Do mesmo modo, se ele nos manda não nos tornarmos tristes para que, pela tristeza, não apareçamos aos homens como quem jejua; se a unção da cabeça e a lavagem do rosto forem sempre observadas pelos que jejuam; nem por isso deixarão de ser sinais do jejum.

São Jerônimo. Mas fala segundo o rito da província da Palestina, onde nos dias de festa costumam ungir as cabeças. Ordena, portanto, que, quando jejuamos, nos mostremos alegres e festivos.

São João Crisóstomo, super Matth. A interpretação simples disto, portanto, é que isto deve ser entendido por agregação, como as demais coisas ditas antes, como se dissesse: deves te afastar de tal modo da ostentação do teu jejum que, se fosse possível (o que, contudo, ele não ensina), farias também aquilo que, ao contrário, parecem ser indícios de luxúria e de banquete; por isso se segue: para que não pareças aos homens que jejuas.

São João Crisóstomo, in Matth. Na esmola, com efeito, não pôs isto simplesmente; mas disse que a esmola não deve ser feita diante dos homens, acrescentando para serdes vistos por eles; no jejum e na oração, porém, nada semelhante acrescentou: porque é impossível que a esmola fique de todo oculta, ao passo que é possível à oração e ao jejum. Não é pequeno o fruto de desprezar a glória humana: por isso, alguém se liberta de uma grave servidão aos homens e torna-se operador da virtude propriamente dita, amando-a não por causa dos outros, mas por si mesma. Pois, assim como consideramos uma injúria quando somos amados não por nós mesmos, mas por causa de outros, assim também não convém seguir a virtude por causa de outros, nem obedecer a Deus por causa dos homens, mas por causa dele mesmo. Por isso se segue: mas ao teu Pai, que está no oculto.

Glosa. Isto é, ao teu Pai celeste, que é invisível, ou que habita no coração pela fé; ora, jejua para Deus quem, por amor dele, se mortifica e distribui a outro o que subtrai a si. E teu Pai, que vê no oculto, te recompensará.

Remígio de Auxerre. Basta-te, com efeito, que aquele que é o inspetor da consciência seja também o remunerador.

São João Crisóstomo, super Matth. Espiritualmente, porém, por rosto da alma entende-se a consciência. Pois, assim como à vista dos homens é agradável um rosto belo, assim aos olhos de Deus é formosa a consciência limpa. Estes rostos, os hipócritas, que jejuam por causa dos homens, os desfiguram, querendo enganar a Deus e aos homens: pois a consciência de quem peca está sempre ferida. Se, portanto, tirares a maldade da tua alma, lavaste a tua consciência, e jejuas bem.

Leo Papa, in Serm. 6 de Quadrag. Com efeito, o jejum deve ser cumprido não somente pela parcimônia dos alimentos, mas sobretudo pela privação dos vícios. Pois, como essa mortificação é assumida para que se retirem os estímulos dos desejos carnais, nenhum gênero de consciência deve ser mais buscado do que o de permanecermos sempre sóbrios quanto à vontade injusta e em jejum quanto à ação desonesta; essa devoção não exclui os fracos, porque também num corpo enfermo pode-se encontrar a integridade da alma.

São João Crisóstomo, super Matth. Espiritualmente, porém, tua cabeça é Cristo. Dá de beber ao sedento, alimenta o faminto; e assim ungiste com o óleo da misericórdia a tua cabeça, isto é, Cristo, que clama no Evangelho: O que fizestes a um dos meus menores, a mim o fizestes.

São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos. Com efeito, Deus aprova aquele jejum que lava, diante de seus olhos, as mãos das esmolas. Portanto, o que subtrais a ti mesmo, dá a outro; para que, de onde tua carne é afligida, daí seja restaurada a carne do próximo necessitado.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Ou entendemos corretamente a cabeça como a razão, porque ela preside na alma e rege os demais membros do homem. Ungir, portanto, a cabeça pertence à alegria. Alegre-se, pois, interiormente com o seu jejum aquele que, jejuando, se afastou da vontade do século, para estar sujeito a Cristo.

Glosa. Eis que, no Novo Testamento, essas coisas não são tomadas absolutamente ao pé da letra. Com efeito, é ridículo saborear óleo durante o jejum; mas, macerando-nos, a mente deve ser ungida com o espírito de amor por Aquele de cujas paixões devemos participar.

São João Crisóstomo, super Matth. Propriamente, porém, deve lavar o rosto; mas a cabeça, não lavar, e sim ungir. Com efeito, enquanto estamos no corpo, a nossa consciência está manchada pelos pecados. Mas a nossa cabeça, Cristo, não cometeu pecado.

Mt 6,19-21

19“Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. 20Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam. 21Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração.

São João Crisóstomo, in Matth. Depois de expulsar a enfermidade da vanglória, introduz muito bem agora o discurso sobre o desprezo das riquezas. Com efeito, nada leva tanto a cobiçar dinheiro como o desejo de glória: por isso os homens procuram rebanhos de servos, cavalos cobertos de ouro e mesas de prata, não para satisfazer a utilidade ou o prazer, mas para serem mostrados a muitos; e é isto que ele diz: Não ajunteis para vós tesouros na terra.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Se, de fato, alguém faz algo com o coração voltado a obter uma vantagem terrena, como será puro o coração que se revolve na terra? Pois uma coisa se suja quando se mistura a uma natureza inferior, embora em seu gênero não seja suja, porque também o ouro se mancha se for misturado à prata pura: assim também a nossa alma se suja pela cobiça das coisas terrenas, embora a terra seja limpa em sua ordem.

São João Crisóstomo, super Matth. Ou de outro modo. Como acima o Senhor nada tinha ensinado sobre a esmola, a oração ou o jejum, mas apenas reprimira a simulação deles, agora, segundo as três coisas ditas, introduz três consequências da doutrina: a primeira delas pertence à esmola, e é esta: Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde primeiro dá o conselho de que se faça esmola; de modo que a ordem da narrativa seja esta: Quando fizeres esmola, não toques trombeta diante de ti; e depois segue: Não ajunteis para vós tesouros na terra; em segundo lugar, mostra qual é a utilidade de fazer esmola; em terceiro, que nem mesmo o temor da penúria que sobrevém impeça a vontade de fazer esmola.

São João Crisóstomo, in Matth. Dizendo, porém, Não ajunteis para vós tesouros na terra, acrescenta: onde a ferrugem e a traça destroem, para mostrar o dano do tesouro que está aqui e a utilidade do que está no céu, tanto pelo lugar quanto pelas coisas que prejudicam; como se dissesse: por que temes que as riquezas se consumam, se deres esmola? Dá, pois, esmola, e elas receberão acréscimo: com efeito, serão acrescentadas as coisas que estão nos céus; mas, se não deres, perecem. E não disse: Deixas a outros, porque isso é agradável aos homens.

Rábano Mauro. Ele põe três coisas, segundo as três diversidades de riquezas. Os metais são destruídos pela ferrugem, as vestes pela traça; há, porém, outras coisas que não temem nem a ferrugem nem a traça, como as pedras preciosas; e por isso põe o dano geral, isto é, os ladrões, que podem roubar todas as riquezas.

São João Crisóstomo, super Matth. Outra redação tem: onde a traça e o roer consomem. Com efeito, uma tríplice ruína leva todos os bens do mundo. Ou envelhecem por si mesmos e são carcomidos pela traça, como as vestes; ou são devorados pelos próprios donos que vivem luxuosamente; ou são arrebatados por estranhos, por dolo, ou por violência, ou por calúnias, ou por outro modo iníquo: todos esses são chamados ladrões, porque, por iniquidade, se apressam em fazer seu o que é alheio. Mas dirás: acaso todos os que as possuem as perderão? Por ora direi que, embora nem todos as percam, muitos as perdem. Em verdade, porém, as riquezas mal guardadas, ainda que não corporalmente, perdeste-as espiritualmente: porque não te aproveitam para o uso da salvação.

Rábano Mauro. Alegoricamente, porém, a ferrugem significa a soberba, que obscurece a beleza das virtudes. A traça, que corrói as vestes às ocultas, é a inveja, que dilacera o bom empenho e, por isso, dissipa a coesão da unidade. Os ladrões são os hereges e os demônios, que estão sempre empenhados em despojar dos bens espirituais.

Santo Hilário, in Matth(séc. IV). Além disso, o louvor celeste é eterno, não pode ser subtraído por furto que se insinue, nem destruído pela traça e pela ferrugem da inveja; e por isso segue: Ajuntai para vós tesouros nos céus, onde nem a ferrugem nem a traça destroem, e onde os ladrões não escavam nem roubam.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Não entenderia, porém, o céu neste lugar como corpóreo, porque todo corpo deve ser tido por terra. Com efeito, deve desprezar o mundo inteiro aquele que ajunta para si tesouro naquele céu de que foi dito: O céu do céu é para o Senhor, isto é, no firmamento espiritual. Pois o céu e a terra passarão; mas não devemos colocar o nosso tesouro naquilo que passa, e sim naquilo que sempre permanece.

São João Crisóstomo, super Matth. Que é, pois, melhor: depositar na terra, onde é incerto o resultado da conservação, ou no céu, onde a guarda é certa? Que insensatez é deixar lá aquilo de que hás de sair, e não enviar adiante para lá aonde hás de ir? Coloca, pois, o teu patrimônio lá onde tens a pátria.

São João Crisóstomo, in Matth. Contudo, porque nem todo tesouro terreno é destruído pela ferrugem ou pela traça, ou levado por ladrões, introduz por isso outra coisa, dizendo: Onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração; como se dissesse: ainda que nada das coisas anteriores aconteça, não sofrerás pequeno prejuízo, preso às coisas inferiores, feito servo delas, caindo das celestes e incapaz de pensar em algo elevado.

São Jerônimo. Isto, porém, deve ser entendido não só do dinheiro, mas de todas as posses. Com efeito, para o guloso o ventre é deus; para o lascivo, os tesouros são as coisas escorregadias; para o amante, a libido. Daí, cada um será aquilo por que é vencido. Portanto, tem o coração lá onde tem também o tesouro.

São João Crisóstomo, super Matth. Ou de outro modo. Apresenta agora qual é a utilidade de fazer esmola. Pois quem coloca tesouros na terra não tem o que esperar no céu. Para que, então, olharia para o céu, onde nada tem guardado? Por isso peca duplamente: primeiro, porque ajunta males; segundo, porque tem o coração na terra; e por causas contrárias faz bem duplamente quem entesoura no céu.

Mt 6,22-23

22O olho é a luz do corpo. Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado. 23Se teu olho estiver em mau estado, todo o teu corpo estará nas trevas. Se a luz que está em ti são trevas, quão espessas deverão ser as trevas!”

São João Crisóstomo, in Matth. Depois de ter mencionado o intelecto reduzido à servidão e cativo, como isso não era facilmente conhecível para muitos, passa à doutrina exterior, dizendo: A lâmpada do teu corpo é o teu olho; como se dissesse: se não sabes o que é a perda do intelecto, aprende-o pelas coisas corporais: com efeito, o que o olho é para o corpo, isso é o intelecto para a alma. Assim, pois, como, privados os olhos, muito da operação dos demais membros se perde, extinta neles a luz, assim também, corrompida a mente, a tua vida se enche de muitos males.

São Jerônimo. Transfere, pois, tudo isto para o sentido: assim como todo o corpo está nas trevas se o olho não for simples, assim, se a alma perder o seu esplendor principal, todo o sentido, ou a parte sensitiva da alma, permanecerá na escuridão; donde se diz: Se, pois, a luz que está em ti são trevas, quão grandes serão as próprias trevas? Isto é, se o sentido, que é a luz da alma, é obscurecido pelo vício, com que trevas pensas que será envolvida a própria escuridão?

São João Crisóstomo, super Matth. Parece, porém, que aqui não fala do olho corporal, nem deste corpo que se vê por fora; de outro modo, teria dito: se o teu olho for são ou doente; mas agora diz simples e mau. Se, porém, alguém tem o olho benigno e doente, porventura o seu corpo está na luz? Ou, se maligno e são, porventura o seu corpo está nas trevas?

São Jerônimo. Mas os de olhos remelentos costumam ver muitas lâmpadas; o olho simples e puro, porém, contempla coisas simples e puras.

São João Crisóstomo, super Matth. Ou se diz olho não de fora, mas de dentro. Pois a lâmpada é a mente, pela qual a alma vê a Deus. Quem, pois, tem o coração voltado para Deus, o seu olho é luminoso; isto é, a sua mente é pura, não manchada por concupiscências terrenas. As trevas em nós são os sentidos carnais, que sempre desejam o que é das trevas. Quem, pois, tem o olho puro, isto é, a mente espiritual, conserva luminoso o seu corpo, isto é, sem pecado: pois, ainda que a carne deseje o mal, ele a repele, porém, pela virtude do temor divino. Quem, porém, tem o olho, isto é, a mente, tenebroso pela malignidade ou turbulento pela concupiscência, possui um corpo tenebroso: pois não resiste à carne quando deseja coisas perversas, porque não tem esperança no céu, que nos dá a força para resistirmos às concupiscências.

Santo Hilário, in Matth. ou de outro modo. Pelo ofício da luz do olho exprimiu a luz do coração: que, se permanecer simples e luminosa, conferirá ao corpo a claridade da luz eterna, e infundirá na corrupção da carne o esplendor de sua origem, isto é, na ressurreição; se, porém, for obscura pelos pecados e má pela vontade, a natureza do corpo ficará sujeita aos vícios da mente.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Ou de outro modo. Devemos entender aqui por olho a nossa intenção; se ela for pura e reta, todas as nossas obras, que operamos segundo ela, são boas: todas as quais chamou de corpo inteiro, porque também o Apóstolo chama membros nossos a certas obras, onde diz: Mortificai os vossos membros, a fornicação e a impureza. Portanto, não se deve considerar o que cada um faz, mas com que ânimo o faz. Pois esta é a luz em nós, porque nos é manifesto que fazemos com bom ânimo o que fazemos. Com efeito, tudo o que se manifesta é luz. Já os próprios atos, que se estendem à sociedade dos homens, têm para nós um resultado incerto; e por isso os chamou de trevas: pois não sei, quando dou dinheiro ao necessitado, o que ele fará com isso. Se, portanto, a própria intenção do coração, que te é conhecida, é manchada pelo apetite das coisas temporais, tanto mais o próprio ato, cujo resultado é incerto, será sórdido; porque, ainda que resulte bem para alguém aquilo que tu fazes sem reta intenção, será imputado a ti como tu o fizeste, não como resultou para ele. Se, porém, as nossas obras se fazem com intenção simples, isto é, com o fim da caridade, então são puras e agradam à vista de Deus.

Santo Agostinho, contra mendacium. Mas as coisas que consta serem pecados não devem ser feitas com nenhuma intenção, por assim dizer, boa: pois as obras dos homens, se tiverem causas boas ou más, ora são boas, ora más, quando não são pecados em si mesmas; assim, dar alimento aos pobres é bom, se se faz por misericórdia; mau, porém, se se faz por jactância. Quando, porém, as próprias obras são pecados, como furtos, estupros e semelhantes, quem diria que devem ser feitas por causas boas, ou que não são pecados? Quem diria: furtemos aos ricos, para termos o que dar aos pobres?

São Gregório Magno. Ou de outro modo. Se a luz que está em ti, isto é, se aquilo que começamos a fazer bem, o obscurecemos por má intenção, aquelas mesmas coisas que não ignoramos serem más, mesmo quando as fazemos, quão grandes são as trevas?

Remígio de Auxerre. Ou de outro modo. A fé é comparada à lâmpada, porque por ela a saída do homem interior, isto é, a ação, é iluminada para não tropeçar; segundo aquilo do Sl 118,105: Lâmpada para os meus pés é a tua palavra; a qual, se for pura e simples, todo o corpo será luminoso; se, porém, for suja, todo o corpo será tenebroso. Ou de outro modo. Por lâmpada entende-se o governante da Igreja, que é bem chamado olho, porque deve prover o que é salutar ao povo que lhe está sujeito, o qual se entende por corpo. Se, portanto, o governante da Igreja errar, quanto mais errará o povo a ele sujeito?

Mt 6,24

24“Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.

São João Crisóstomo, super Matth. Acima dissera o Senhor que quem tem a mente espiritual pode conservar seu corpo sem pecado; quem não a tem, não pode; e acrescenta a razão disso, dizendo: Ninguém pode servir a dois senhores.

Glosa. Ou de outro modo. Já foi dito acima que, pela intenção voltada às coisas temporais, as boas obras se tornam más; donde alguém poderia dizer: farei o bem tanto por causa das coisas temporais quanto por causa das celestes. Contra isso diz o Senhor: Ninguém pode servir a dois senhores.

São João Crisóstomo, in Matth. Ou de outro modo. Nas passagens anteriores, ele reprimiu a tirania da avareza com muitas e grandes razões; mas acrescenta ainda outras maiores. Pois as riquezas não nos prejudicam apenas porque armam ladrões contra nós e porque obscurecem o entendimento; mas também nos expulsam do serviço de Deus. E isso ele prova a partir das noções comuns, dizendo: Ninguém pode servir a dois senhores; chama de dois senhores os que mandam coisas contrárias, pois a concórdia faz de muitos um só, o que se mostra pelo que acrescenta: Ou odiará um. Põe, porém, dois para mostrar que é fácil a mudança para o melhor. Se disseres: tornei-me servo do dinheiro, amando-o, é claro, ele mostra que é possível sobrevir outra coisa; a saber, não suportando a servidão, mas desprezando-a.

Glosa. Ou parece tocar em dois gêneros de servidores. Pois alguns servem livremente, por amor; outros servilmente, por temor. Se alguém, portanto, serve por amor a um de dois senhores contrários, é necessário que odeie o outro; se, porém, serve por temor, é necessário que, enquanto suporta um, despreze o outro. Ora, a coisa terrena, ou Deus, se domina o coração do homem, arrasta o homem para lados contrários: pois Deus atrai para o alto quem o serve, ao passo que a coisa terrena atrai para o baixo; e por isso, como que concluindo, acrescenta: Não podeis servir a Deus e a Mamon.

São Jerônimo. Mamon, na língua síria, significa riquezas. Ouça, pois, isto o avarento, que se diz com nome cristão: não pode servir ao mesmo tempo às riquezas e a Cristo. E, contudo, não disse: quem tem riquezas, mas: quem serve às riquezas. Pois quem é servo das riquezas guarda as riquezas como servo; mas quem sacudiu o jugo da servidão as distribui como senhor.

Glosa. Por Mamon entende-se também o Diabo, que preside às riquezas; não que possa dá-las, a não ser quando Deus o permite, mas porque por meio delas engana os homens.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Pois quem serve a Mamon, isto é, às riquezas, serve sem dúvida àquele que, por mérito de sua perversidade, foi posto à frente destas coisas terrenas e é chamado pelo Senhor príncipe deste mundo. Ou de outro modo. Quem são os dois senhores, mostra-o quando se diz: Não podeis servir a Deus e a Mamon, isto é, a Deus e ao Diabo. Ou, portanto, o homem odiará este e amará o outro, isto é, Deus; ou suportará um e desprezará o outro. Com efeito, suporta um senhor duro todo aquele que serve a Mamon: preso por sua própria cobiça, submete-se ao Diabo e não o ama. Assim como quem, por concupiscência, se une à serva alheia sofre dura servidão, ainda que não ame aquele cuja serva ama. Disse, porém: desprezará o outro, e não: odiará; pois ninguém, com consciência verdadeira, pode odiar a Deus. Despreza, contudo, isto é, não o teme, quando está como que seguro de sua bondade.

Mt 6,25

25Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes?

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Porque o Senhor havia ensinado acima que quem quer amar a Deus e evitar ofendê-lo não pense poder servir a dois senhores, para que, embora já não se busquem as coisas supérfluas, o coração não se divida por causa das necessárias e a intenção não seja atormentada ao ser desviada para elas, acrescenta dizendo: Por isso vos digo: não andeis solícitos por vossa alma, quanto ao que comereis, nem por vosso corpo, quanto ao que vestireis.

São João Crisóstomo, in Matth. Não diz isso porque a alma precise de alimento, pois é incorpórea; mas falou segundo o costume comum: de outro modo, com efeito, ela não pode permanecer no corpo, a não ser que este seja alimentado.

Santo Agostinho. Ou saibamos que a palavra alma está posta neste lugar pela vida animal.

São Jerônimo. Em alguns códices foi acrescentado: nem o que bebereis. Portanto, não somos totalmente libertados do cuidado daquilo que a natureza concedeu a todos e que é comum aos animais de carga, às feras e aos homens; mas nos é ordenado que não andemos solícitos quanto ao que comeremos: porque no suor do rosto preparamos para nós o pão: o trabalho deve ser exercido, a solicitude deve ser removida. Quanto ao que aqui se diz, não andeis solícitos, entendamos isso do alimento e da veste carnais; quanto aos alimentos e às vestes espirituais, porém, devemos ser solícitos.

Santo Agostinho, de Haeres. Chamam-se, porém, Euquitas certos hereges, que pensam não ser lícito ao monge trabalhar em algo para sustentar sua vida, e assim se professam de modo a ficar inteiramente livres de obras.

Santo Agostinho, de opere Monach. Dizem, com efeito: o apóstolo, ao dizer: Quem não quer trabalhar, não coma, não ordenou isso a respeito do trabalho corporal, no qual labutam os lavradores e os artesãos. Pois não poderia ser contrário ao Evangelho, onde diz o Senhor: Por isso vos digo: não andeis solícitos. Na palavra do apóstolo mencionada devemos, portanto, entender as obras espirituais, das quais se diz em outro lugar: Eu plantei, Apolo regou. E assim julgam obedecer à sentença apostólica, ao crerem que o Evangelho ordenou não se cuidar da necessidade corporal desta vida, e que o apóstolo falou da obra e do alimento espirituais ao dizer: Quem não quer trabalhar, não coma. Mostremos, pois, primeiro que o apóstolo quis que os servos de Deus fizessem obras corporais. Com efeito, havia dito antes: Vós mesmos sabeis como deveis imitar-nos; porque não vivemos inquietos entre vós, nem comemos de graça o pão de ninguém; mas em trabalho e fadiga, de noite e de dia, labutando para não sermos pesados a nenhum de vós; não porque não tivéssemos o poder, mas para vos darmos em nós mesmos um modelo, para que nos imitásseis. Pois, mesmo quando estávamos entre vós, vos ordenávamos isto: se alguém não quer trabalhar, também não coma. Que se pode dizer a isso, quando ensinou com seu próprio exemplo o que ordenara, isto é, trabalhando corporalmente? Pois que trabalhava corporalmente, mostra-se nos Atos, onde se diz que permaneceu com Áquila e sua mulher Priscila, fazendo trabalho junto deles: eram, com efeito, artífices de tendas. E, no entanto, ao apóstolo, como pregador do Evangelho, soldado de Cristo, plantador da vinha, pastor do rebanho, o Senhor havia estabelecido que vivesse do Evangelho; ele, contudo, não exigiu o sustento que lhe era devido, para dar-se como modelo aos que desejavam exigir o que não era devido. Ouçam, pois, os que não têm esse poder que ele tinha, a fim de que, trabalhando só espiritualmente, comam o pão isento de labor corporal. Se, porém, são Evangelistas, se ministros do altar, se dispensadores dos sacramentos, têm esse poder, ao menos se tinham algo no mundo com que sustentar facilmente esta vida sem ofício, e o repartiram com os necessitados ao se converterem a Deus, deve-se crer na sua fraqueza e suportá-la. Nem se deve atender a em que lugar gastaram o que tinham, pois de todos os cristãos há uma só república. Mas os que vêm à profissão do serviço de Deus da vida rústica, do exercício de ofícios e do trabalho plebeu, se trabalham menos, não podem ser escusados. De modo algum convém, com efeito, que na vida em que os senadores se tornam laboriosos os artesãos se tornem ociosos; e que, onde vêm, deixadas as suas delícias, os que foram senhores de propriedades, ali sejam camponeses delicados. Mas, quando o Senhor diz: Não andeis solícitos, não diz isso para que não providenciem estas coisas, quanto é necessário, pelos meios honestos que possam; mas para que não as tenham em vista e, por causa delas, façam tudo o que lhes é ordenado fazer na pregação do Evangelho: pois essa intenção ele havia chamado pouco antes de olho.

São João Crisóstomo, in Matth. Ou pode-se continuar de outro modo: tendo o Senhor ensinado a desprezar o dinheiro, para que alguns não dissessem: como poderemos viver, se tudo lançarmos fora? acrescenta dizendo: E por isso vos digo: não andeis solícitos por vossa alma.

Glosa. Isto é, não vos deixeis desviar das coisas eternas pelo cuidado temporal.

São Jerônimo. Ordena-se-nos, portanto, que não andemos solícitos quanto ao que comeremos, porque no suor do rosto preparamos para nós o pão: logo, o trabalho deve ser exercido, a solicitude deve ser removida.

São João Crisóstomo, super Matth. Com efeito, o pão não se deve adquirir com preocupações espirituais, mas com trabalhos corporais; ele abunda, com a ajuda de Deus, para os que trabalham, como prêmio da diligência, e, por obra de Deus, é retirado dos negligentes, como castigo. Ora, o Senhor confirma a nossa esperança; e primeiro desce do maior ao menor, dizendo: Não é a alma mais do que o alimento, e o corpo mais do que a roupa?

São Jerônimo. Quem concedeu o maior, certamente concederá também o menor.

São João Crisóstomo, super Matth. Com efeito, se não tivesse querido que fosse conservado o que existia, não o teria criado; e, tendo-o criado de tal modo que se conserva pelo alimento, é necessário que lhe dê alimento enquanto quer que exista o que fez.

Santo Hilário, in Matth. Vel aliter. Quia corruptus circa futurorum curam infidelium sensus est, calumniantium quae in resurrectione corporum species sit futura, quae in substantia aeternitatis alimonia, ideo subsequenter dicitur. Porque o sentido dos infiéis está corrompido quanto à preocupação com as coisas futuras, caluniando qual será a aparência dos corpos na ressurreição e qual o alimento na substância da eternidade, por isso se diz em seguida: Não é a alma mais do que o alimento? Com efeito, não suporta que a nossa esperança, no que toca ao alimento, à bebida e à roupa da ressurreição futura, seja retida pela preocupação; para que não se faça injúria àquele que dá coisas tanto mais preciosas, a saber, o corpo e a alma, por não realizar as menores.

Mt 6,26-27

26Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas? 27Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?

São João Crisóstomo, super Matth. Depois de ter confirmado a nossa esperança descendo do maior ao menor, confirma em seguida subindo do menor ao maior, quando diz: Olhai as aves do céu, que não semeiam nem colhem.

Santo Agostinho, de opere Monach. Alguns dizem que não devem trabalhar porque as aves do céu nem semeiam nem colhem. Por que, então, não atentam para o que se segue: nem ajuntam em celeiros? Por que, então, estes querem ter mãos ociosas e despensas cheias? Por que, enfim, moem e cozinham? Isso, com efeito, as aves não fazem. Ou, se encontram quem os persuada a lhes trazer a cada dia alimentos preparados, ao menos trazem para si água das fontes e a guardam, o que as aves não fazem. Mas se nem sequer são obrigados a encher de água os seus vasos, e já ultrapassaram, por um novo degrau de justiça, os que então estavam em Jerusalém, que fizeram pão, ou cuidaram de fazê-lo, do trigo que lhes foi enviado por graça, o que as aves não fazem. Ora, não podem observar isto, isto é, nada guardar para o dia seguinte, os que, separados por muitos dias da vista dos homens e não dando a ninguém acesso a si, se encerram, vivendo em grande empenho de orações. Porventura, quanto mais santos são, tanto mais dessemelhantes são das aves? Portanto, o que ele diz sobre as aves do céu, diz para que ninguém pense que Deus não cuida do necessário aos seus servos, uma vez que a sua providência chega até a governar estas coisas. Pois não é ele mesmo quem alimenta os que trabalham com as mãos; e, porque Deus disse: Invoca-me no dia da tribulação, e te livrarei, não devia o apóstolo fugir, mas esperar ser preso e que Deus, como aos três jovens, o livrasse do meio das chamas. Com efeito, assim como os santos que fugiam, a quem se objetasse tal questão, responderam que não convinha tentar a Deus, mas que então Deus, se quisesse, faria tais coisas para libertá-los, como a Daniel dos leões e a Pedro das cadeias, quando eles próprios não tinham o que fazer; mas, tendo-lhes ele dado em seu poder a fuga, ainda que fossem libertados por meio dela, não seriam libertados senão por ele: assim os servos de Deus, capazes de ganhar o sustento com as próprias mãos, se alguém levantar a questão a partir do Evangelho sobre as aves do céu, que não semeiam nem colhem, responderão facilmente: se por alguma enfermidade ou ocupação não podemos trabalhar, ele nos alimentará como às aves, que nada trabalham. Mas quando podemos, não devemos tentar a Deus, porque isto que podemos, podemos por dádiva sua; e, quando aqui vivemos, vivemos por concessão daquele que nos concedeu poder; e nos alimenta aquele por quem as aves são alimentadas, como se diz: e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas?

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Isto é, valeis mais caro; porque o animal racional, como é o homem, está ordenado mais alto na natureza das coisas do que os irracionais, como são as aves.

Santo Agostinho, de Civ. Dei. No entanto, muitas vezes compra-se mais caro um cavalo do que um servo, e uma gema do que uma serva, não pela razão de quem considera, mas pela necessidade de quem precisa, ou pelo prazer de quem deseja.

São João Crisóstomo, super Matth. Com efeito, Deus fez todos os animais por causa do homem, e o homem por causa de si; quanto mais preciosa, portanto, é a criação do homem, tanto maior é o cuidado de Deus por ele. Se, pois, as aves encontram alimento sem trabalhar, não o encontrará o homem, a quem Deus deu a ciência de trabalhar e a esperança de dar fruto?

São Jerônimo. Há, porém, alguns que, querendo exceder os limites dos pais e voar às alturas, são mergulhados no fundo. Querem que as aves do céu sejam os Anjos e as demais potências a serviço de Deus, que, sem cuidado de si, são alimentadas pela providência de Deus. Se é assim, como querem que se entenda, como se segue o que foi dito aos homens: Não valeis vós muito mais do que elas? Deve-se, portanto, entender simplesmente que, se as aves, que hoje existem e amanhã não existirão, são alimentadas pela providência de Deus sem cuidado e sem aflições, quanto mais os homens, a quem se promete a eternidade?

Santo Hilário, in Matth. Pode-se dizer também que, sob o nome de aves, ele nos exorta pelo exemplo dos espíritos imundos, aos quais, sem nenhum trabalho de procurar e ajuntar, é concedido, todavia, o sustento para viver, pelo poder do desígnio eterno; e, para que isto se refira aos espíritos imundos, acrescentou oportunamente: Não valeis vós mais do que elas?, mostrando, pela excelência da comparação, a diferença entre a maldade e a santidade.

Glosa. Ele ensina, porém, não só pelo exemplo das aves, mas pela experiência, que para sermos e vivermos o nosso cuidado não basta, mas a providência divina opera, dizendo: Quem de vós, pensando bem, pode acrescentar um côvado à sua estatura?

São João Crisóstomo, super Matth. Com efeito, é Deus quem, a cada dia, faz crescer o teu corpo, sem que o percebas. Se, pois, em ti mesmo a providência de Deus opera cada dia, como deixará de agir no que te é necessário? Se, porém, pensando, não podeis acrescentar ao vosso corpo uma pequena parte, como pensando haveis de ser salvos no todo?

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Ou pode referir-se ao que segue; como se dissesse: não foi por nosso cuidado que o nosso corpo chegou a esta estatura; disso se pode entender que, se quisésseis acrescentar um côvado, não poderíeis. Deixai, pois, o cuidado de cobrir o corpo àquele por cujo cuidado ele chegou a ter tão grande estatura.

Santo Hilário, in Matth. Ou de outro modo. Assim como confirmou a fé em nossa substância vital pelo ensinamento dos espíritos, assim deixou a opinião sobre o aspecto futuro ao juízo do entendimento comum. Com efeito, como há de reunir num só homem perfeito a diversidade de todos os corpos que receberam a vida, e só ele é capaz de conceder à estatura de cada um um côvado, e um segundo, e um terceiro; duvidamos do vestuário, isto é, da aparência dos corpos, com injúria àquele que, para tornar igual todo homem, há de acrescentar aos corpos humanos tanto de medida.

Santo Agostinho, de Civit. Dei. Mas se Cristo ressuscitou na mesma estatura corporal em que morreu, é ímpio dizer que, quando chegar o tempo da ressurreição de todos, se acrescentará ao seu corpo aquela grandeza que não tinha quando apareceu aos discípulos naquela estatura em que era conhecido, a fim de se igualar aos mais altos. Se, porém, dissermos que também os corpos dos menores e dos maiores devem ser reduzidos à medida do corpo do Senhor, perecerá muito dos corpos de muitos, ao passo que ele mesmo prometeu que nem um cabelo haveria de perecer. Resta, portanto, que cada um receba a sua medida, aquela que teve na juventude, se morreu velho, ou que teria tido, se morreu antes. E por isso não foi dito pelo Apóstolo: «na medida da estatura», mas: «na medida da idade da plenitude de Cristo»; porque os corpos dos mortos ressuscitarão na idade juvenil e no vigor, a que sabemos que Cristo chegou.

Mt 6,28-30

28E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. 29Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. 30Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé?

São João Crisóstomo, in Matth. Depois de mostrar que não devemos andar solícitos pelo alimento, passa ao que é mais leve: pois a roupa não é tão necessária quanto o alimento; por isso diz: E por que andais solícitos com o vestuário? Aqui, porém, não se serve do exemplo das aves, para introduzir o pavão e o cisne, de quem era possível tirar exemplos semelhantes; mas serve-se do exemplo dos lírios, dizendo: Considerai os lírios do campo. Quer mostrar por duas coisas a superabundância: a saber, pela munificência da beleza e pela vileza dos que participam de tal ornato.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Mas esses próprios exemplos não devem ser discutidos de modo tão alegórico que busquemos o que significam as aves do céu ou os lírios do campo: foram postos, com efeito, para que, das coisas menores, se persuadam as maiores.

São João Crisóstomo, super Matth. Os lírios, com efeito, formam-se em tempo determinado nas folhas, revestem-se de brancura, enchem-se de perfumes; e o que a terra não dera à raiz, Deus o concede por uma operação invisível. Em todos, porém, conserva-se a mesma plenitude, para que não se julgue que foram feitos por acaso, mas se entenda terem sido dispostos pela providência de Deus. Ao dizer não trabalham, conforta os homens; ao dizer nem fiam, as mulheres.

São João Crisóstomo, in Matth. Ao dizer isto, não proibiu o trabalho, mas a solicitude, como também acima, quando falava da semeadura. E para recomendar ainda mais a providência de Deus naquilo que supera toda a indústria humana, acrescenta: Digo-vos que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um destes.

São Jerônimo. Com efeito, que seda, que púrpura de reis, que pintura de tecelãs pode comparar-se às flores? O que é tão rubro como a rosa? O que é tão cândido como o lírio? E que a púrpura das violetas não seja superada por nenhum múrice, é juízo mais dos olhos que da palavra.

São João Crisóstomo. Quanto há de diferença entre a verdade e a mentira, tanto há entre as vestes e as flores. Se, pois, Salomão, que foi mais insigne que todos os reis, foi superado pelas flores, como poderás tu vencer com vestes o ornato das flores? Salomão, porém, foi superado pelo ornato das flores não apenas uma vez nem duas, mas durante todo o tempo do seu reinado; e é isto o que diz: em toda a sua glória, porque nem em um só dia foi tão ornado quanto as flores.

São João Crisóstomo, super Matth. Ou diz isto porque Salomão, embora não trabalhasse para vestir-se, contudo mandava. Onde há ordem, aí se encontram com frequência a ofensa dos que servem e a ira de quem manda. As flores, porém, quando o ignoram, assim se ornam.

Santo Hilário, in Matth. Ou os lírios devem ser entendidos como os esplendores dos Anjos celestes, aos quais Deus concedeu o candor da glória. Não trabalham nem fiam, porque as virtudes dos Anjos recebem, da sorte da origem que alcançaram, o ser sempre; e como na ressurreição os homens serão semelhantes aos Anjos, quis que esperassem a veste da glória celeste, a exemplo do esplendor angélico.

São João Crisóstomo, super Matth. Se Deus assim vem ao encontro das flores terrenas, que nasceram apenas para serem vistas e perecerem, negligenciará os homens, que criou de tal modo que não sejam vistos por um tempo, mas existam perpetuamente? E é isto o que diz: Se, pois, a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, Deus assim a veste, quanto mais a vós, homens de pouca fé?

São Jerônimo. Amanhã, nas Escrituras, entende-se o tempo futuro, como diz Jacó: Amanhã me ouvirá a minha justiça.

Glosa. Outros livros têm no fogo, ou no monte, que tem a aparência de um forno.

São João Crisóstomo, in Matth. Já não os chama lírios, mas erva do campo, para mostrar a sua vileza. Mas acrescenta ainda outra vileza, dizendo que hoje existe; e não disse: amanhã não existirá, mas, o que é muito mais deficiente, que é lançada no forno. Quanto ao que diz quanto mais a vós, insinua-se ocultamente a honra do gênero humano; como se dissesse: a vós, a quem deu a alma, formou o corpo, enviou os profetas e entregou o Filho unigênito.

Glosa. Diz, porém, de pouca fé, porque é pouca a fé que não está certa nem sequer das coisas mínimas.

Santo Hilário. Ou, sob o nome de feno, designam-se os gentios. Se, pois, aos gentios se concede a eternidade corporal somente para serem logo destinados ao fogo do juízo, quão profano é que os santos duvidem da glória da eternidade, quando aos iníquos se concede a obra da eternidade para a pena?

Remígio de Auxerre. Espiritualmente, porém, pelas aves são designados os santos que renascem da água do sagrado Batismo, desprezam as coisas terrenas com devoção e buscam as celestiais; a esses se diz que valem mais os apóstolos, que são os príncipes de todos os santos. Pelos lírios são entendidos os santos que, sem o trabalho das cerimônias legais, agradaram a Deus somente pela fé; deles se diz: meu amado é meu, ele que se apascenta entre os lírios. A santa Igreja também é entendida pelo lírio, por causa da alvura da fé e do perfume da boa conduta; dela se diz: como o lírio entre os espinhos. Pelo feno são designados os infiéis; deles se diz: secou o feno e sua flor caiu. Pelo forno, a condenação eterna; de modo que o sentido é: se Deus concede bens temporais aos infiéis, quanto mais nos concederá os eternos?

Mt 6,31-33

31Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? 32São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. 33Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo.

Glosa. Depois de ter excluído, uma a uma, a preocupação com o alimento e com a veste, tomando o argumento das criaturas inferiores, aqui exclui consequentemente ambas, dizendo: não vos preocupeis, pois, dizendo: que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?

Remígio de Auxerre. O Senhor repetiu isso para mostrar que esta coisa é absolutamente necessária e para inculcá-la mais firmemente em nossos corações.

Rábano Mauro. Deve-se notar, porém, que não diz: não procureis nem não vos preocupeis com comida, bebida ou vestuário, mas o que comeis, o que bebeis, ou com que vos vestis; nisso parecem-me repreendidos os que, desprezando o alimento ou a veste comum, buscam alimentos ou vestes mais requintados ou mais austeros do que os daqueles com quem vivem.

Glosa. Há também outra preocupação supérflua, proveniente do vício dos homens, quando guardam frutos e dinheiro mais do que é necessário e, abandonadas as coisas espirituais, ficam atentos a elas, como que desesperando da bondade de Deus; e isso é proibido; por isso se acrescenta: pois os gentios procuram todas essas coisas.

São João Crisóstomo, super Matth. Porque nas coisas humanas creem haver fortuna, não providência, e não pensam que suas vidas são governadas pelo juízo de Deus, mas conduzidas por um acaso incerto; por isso temem e se desesperam com razão, como quem não tem ninguém que os governe. Quem, porém, crê ser governado pelo juízo de Deus, entrega seu alimento à mão de Deus; por isso segue: pois vosso Pai sabe que precisais de tudo isso.

São João Crisóstomo, in Matth. Não diz, porém: Deus sabe, mas vosso Pai sabe, para conduzi-los a maior esperança: com efeito, se é pai, não poderá desprezar os filhos, já que nem os pais humanos o suportam. Diz também que precisais de tudo isso, para que lanceis fora mais a preocupação, porque são coisas necessárias. Pois como é pai aquele que suporta não dar aos filhos nem mesmo o necessário? Se fossem, porém, coisas supérfluas, não seria tão conveniente confiar.

Santo Agostinho, de Trin. Deus não conheceu essas coisas a partir de algum tempo, mas, sem princípio, previu de antemão todas as coisas temporais futuras, e nelas também o que e quando lhe haveríamos de pedir.

Santo Agostinho, de Civ. Dei. Quanto ao que alguns dizem, que esse conhecimento de Deus não pode compreender as coisas, porque são infinitas, resta-lhes dizer que Deus não conhece todos os números, que é certíssimo serem infinitos. Ora, a infinidade do número não é incompreensível àquele cuja inteligência não tem número. Por isso, se tudo o que é compreendido pelo conhecimento é limitado pela compreensão de quem conhece, certamente toda infinidade, de certo modo inefável, é finita para Deus, porque ela não é incompreensível ao seu conhecimento.

São Gregório de Nissa, de Hom(séc. IV). Que há providência, demonstra-se por sinais como estes: a permanência de todas as coisas, e sobretudo das que estão na geração e na corrupção, e a posição e a ordem das coisas que existem, é sempre guardada do mesmo modo; como se realizaria isso sem ninguém que provesse? Mas alguns dizem: Deus tem o cuidado da permanência das coisas existentes no universal, e só disso tem providência; as coisas singulares, porém, acontecem como calha. Ora, só três causas se poderiam dizer para a ausência de providência sobre as coisas singulares: ou que Deus ignora que é bom ter cuidado dos particulares; ou que não quer; ou que não pode. Mas a ignorância é totalmente alheia à substância bem-aventurada: pois como ficará oculto a Deus o que nem o homem sábio ignorará, que, destruídos os singulares, os universais serão destruídos? Nada impede, porém, que todos os indivíduos pereçam, sem nenhum poder que os assista. Se, porém, não quer, isso se dá por duas causas: ou por preguiça, ou por inconveniência. A preguiça, por sua vez, gera-se de duas maneiras: ou nos tornamos preguiçosos atraídos por algum prazer, ou desistimos por temor; nenhuma das duas é lícito pensar de Deus. Se disserem que não convém a Deus, por ser indigno de tão grande bem-aventurança condescender com coisas pequenas, como não é inconveniente que um artífice que cuida dos universais não deixe sem cuidado nenhum dos particulares, nem o menor, sabendo que a parte contribui para o todo, e declarar o Deus criador mais ignorante do que os artífices? Se, porém, não pode, Deus é fraco e incapaz de fazer o bem. Se, contudo, nos é incompreensível a razão da providência sobre os singulares, nem por isso se deve dizer que não há providência; pois assim diriam que, porque ignoramos o número dos homens, os homens também não existem.

São João Crisóstomo, super Matth. Assim, pois, quem crê ser governado pelo juízo de Deus, entregue seu alimento à mão de Deus; pense, porém, no bem e no mal; se não se preocupar com isso, nem fugirá do mal, nem alcançará o bem. E por isso se acrescenta: buscai, pois, primeiro o reino de Deus e a sua justiça. O reino de Deus é a retribuição das boas obras; a sua justiça, porém, é o caminho da piedade, pelo qual se vai ao reino. Se, pois, pensares qual será a glória dos santos, é necessário que ou te afastes do mal por temor da pena, ou te apresses ao bem por desejo da glória. E se pensares qual é a justiça de Deus, isto é, o que Deus odeia e o que ama, a própria justiça te mostrará seus caminhos, ela que segue os que a amam. Não daremos contas, porém, de sermos pobres ou ricos, mas de termos agido bem ou mal, o que está em nosso arbítrio.

Glosa. Ou diz a sua justiça, como se dissesse: para que sejais justos por ele, não por vós.

São João Crisóstomo, super Matth. A terra, porém, também é amaldiçoada por causa dos pecados dos homens, para que não germine, segundo aquilo: maldita seja a terra por causa de tua obra; e é abençoada quando fizermos o bem. Busca, pois, a justiça, e não te faltará o pão; por isso segue: e todas essas coisas vos serão acrescentadas.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. A saber, as coisas temporais; mostra aqui claramente que elas não são tais bens nossos em vista dos quais devamos fazer o bem, mas que, contudo, são necessárias. O reino de Deus e a sua justiça, porém, é o nosso bem, no qual se deve pôr o fim. Mas, porque militamos nesta vida para podermos chegar àquele reino, vida que não pode ser levada sem essas coisas necessárias, diz: vos serão acrescentadas estas coisas. Quando disse primeiro, deu a entender que aquilo outro deve ser buscado depois, não no tempo, mas na dignidade; aquilo como nosso bem, isto como necessário. Pois (por exemplo) não devemos evangelizar para comer, porque assim teríamos o Evangelho em menor conta que o alimento, mas comer para evangelizar. Quanto aos que buscam primeiro o reino de Deus e a sua justiça, isto é, preferindo isto às demais coisas, de modo que busquemos as demais por causa disto, não deve haver preocupação de que faltem as coisas necessárias; e por isso diz: todas essas coisas vos serão acrescentadas, isto é, como consequência, sem nenhum impedimento vosso: para que, ao buscardes essas coisas, não sejais desviados daquilo, nem estabeleçais dois fins.

São João Crisóstomo, in Matth. E não disse: serão dadas, mas serão acrescentadas, para que aprendas que as coisas presentes nada são diante da grandeza das futuras.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Quando lemos que o apóstolo passou por fome e sede, não pensemos que aqui as promessas do Senhor falharam, pois estas coisas são auxílios. Este Médico, a quem nos entregamos por inteiro, sabe quando deve aplicar e quando deve retirar, conforme julga convir-nos. Pois se alguma vez nos faltarem (o que Deus muitas vezes permite para nosso exercício), isso não enfraquece o nosso propósito, mas, provado, o confirma.

Mt 6,34

34Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.”

Glosa. Havia proibido a preocupação com as coisas presentes; agora proíbe a preocupação vã com as futuras, proveniente do vício dos homens, quando diz: Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã.

São Jerônimo. Nas Escrituras, amanhã entende-se como tempo futuro, dizendo Jacó: Amanhã a minha justiça me atenderá, e, na aparição de Samuel, a pitonisa fala a Saul: Amanhã estarás comigo. Assim, concedeu que devem se preocupar com as coisas presentes aqueles a quem proíbe pensar nas futuras. Basta-nos, com efeito, o pensamento do tempo presente; as coisas futuras, que são incertas, deixemo-las a Deus. E é isto que se diz: Pois o dia de amanhã terá as suas próprias preocupações, isto é, traz consigo a sua própria preocupação. Basta a cada dia o seu mal. Aqui chamou de mal não o que é contrário à virtude, mas o trabalho, a aflição e a angústia do mundo.

São João Crisóstomo, in Matth. Nada causa tanta dor à alma como a preocupação e o cuidado. Ao dizer que o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo, querendo tornar mais claro o que diz, faz uma prosopopeia do tempo, segundo o costume de muitos, falando a um povo imperfeito: para comovê-los mais, apresenta os próprios dias queixando-se do cuidado supérfluo. Acaso o dia não tem já bastante peso, isto é, o seu próprio cuidado? Por que, então, o agravas ainda mais, acrescentando-lhe o cuidado que pertence a outro dia?

São João Crisóstomo, super Matth. Ou de outro modo. Por hoje significam-se apenas as coisas que nos são necessárias na vida presente. Mas, ao dizer amanhã, mostra o que é supérfluo; diz, pois: Não vos preocupeis com o amanhã, isto é, não vos preocupeis em ter nada além do que vos é necessário para a vida cotidiana: pois o que for supérfluo, que é o amanhã, cuidará de si mesmo. E é isto que diz: O dia de amanhã terá as suas próprias preocupações; como se dissesse: quando tiveres juntado coisas supérfluas, elas mesmas cuidarão de si; mesmo que tu não gozes delas, encontrarão muitos senhores que cuidem delas. Por que, então, te preocupas com aquilo cujo poder deixarás a outros? Basta a cada dia o seu mal; como se dissesse: basta-te o trabalho que sofres pelo necessário; não te fatigues com o supérfluo. Ou de outro modo.

Santo Agostinho, de Serm. Dom. Não se diz dia de amanhã senão no tempo, onde ao passado sucede o futuro. Portanto, quando praticamos algum bem, pensemos não nas coisas terrenas, mas nas eternas. Pois o dia de amanhã terá as suas próprias preocupações, isto é, tomemos alimento e coisas semelhantes quando for preciso, ou seja, quando a necessidade começar a urgir. Basta a cada dia o seu mal; isto é, basta que a necessidade urja a tomar estas coisas; chama-a de mal, porque é penal para nós: pertence, com efeito, à mortalidade, que merecemos pecando. A esta pena da necessidade temporal não queiras, portanto, acrescentar algo mais grave: que não só a sofras, mas ainda milites para Deus por causa de supri-la. Aqui se deve evitar que, ao vermos algum servo de Deus providenciar para que estas coisas necessárias não faltem a ele ou àqueles cujo cuidado lhe foi confiado, julguemos que ele age contra os preceitos do Senhor e se preocupa com o amanhã: pois o próprio Senhor (a quem serviam os Anjos) dignou-se, para exemplo, ter uma bolsa. E nos Atos dos Apóstolos está escrito que se providenciou para o futuro o necessário ao sustento, por causa da fome iminente. Logo, o Senhor não repreende isto, a saber, que alguém providencie estas coisas à maneira humana, mas que alguém, por causa delas, não milite para Deus.

Santo Hilário, in Matth. Tudo isto está contido também no sentido da palavra celeste. Somos, pois, mandados a não duvidar quanto ao futuro. Com efeito, bastam à nossa vida o mal dos dias em que vivemos, isto é, os pecados, de modo que toda a meditação e o trabalho da nossa vida se ocupem em purificá-los. Cessando, porém, o nosso cuidado, as próprias coisas futuras se preocupam, enquanto o progresso da caridade eterna nos é proposto por Deus, que providencia.