Mt 17,1-4
1Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha. 2Lá se transfigurou na presença deles: seu rosto brilhou como o sol, suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. 3E eis que apareceram Moisés e Elias conversando com ele. 4Pedro tomou, então, a palavra e disse-lhe: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias”.
Remígio de Auxerre(séc. IX). O Senhor cumpriu, depois de seis dias, nesta transfiguração ocorrida no monte, a claridade de sua visão que havia prometido a seus discípulos; donde se diz: E seis dias depois, tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão.
São Jerônimo(séc. IV–V). Pergunta-se, porém, como os tomou consigo depois de seis dias, uma vez que o evangelista Lucas põe o número oito. Mas a resposta é fácil: porque aqui se contam os dias do meio, ali se acrescentam o primeiro e o último.
São João Crisóstomo, in Matth(séc. IV). Por isso não os conduz para o alto logo depois de feita a promessa, mas depois de seis dias, para que os demais discípulos não sofressem nada de humano, isto é, algum movimento de inveja; ou para que, durante o espaço desses dias, cheios de um desejo mais veemente, aqueles que haviam de ser tomados se aproximassem com o espírito solícito.
Rábano Mauro(séc. IX). Com razão mostra aquela glória depois de seis dias, porque a ressurreição se dará depois de seis idades.
Orígenes(séc. III). Ou porque em seis dias foi feito todo o mundo visível; quem transcende todas as coisas do mundo pode subir ao monte elevado e contemplar a glória do Verbo de Deus.
São João Crisóstomo, in Matth. Tomou esses três porque eram superiores aos outros. Observa, porém, como Mateus não oculta aqueles que lhe foram preferidos; também João faz o mesmo, recordando os principais louvores de Pedro. Pois o coro dos apóstolos estava livre da emulação e da vanglória.
Santo Hilário, in Matth(séc. IV). Nos três que foram tomados, a futura eleição do povo é mostrada a partir da origem dos três: Sem, Cam e Jafé.
Rábano Mauro. Ou conduz consigo somente três discípulos, porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos. Ou porque aqueles que agora guardam com espírito incorrupto a fé na santa Trindade, então se alegrarão com a visão eterna dela.
Remígio de Auxerre. Estando para mostrar aos discípulos a glória de sua claridade, o Senhor os conduziu ao monte; donde segue: E os conduziu, à parte, a um monte elevado; com isso ensina que é necessário a todos os que desejam contemplar a Deus não jazer nos prazeres mais baixos, mas ser sempre elevados às coisas celestes pelo amor das coisas superiores; e para mostrar aos discípulos que não busquem a glória da claridade divina na profundeza deste século, mas no reino da bem-aventurança celeste. São conduzidos à parte porque os homens santos, com toda a alma e com a intenção da fé, estão separados dos maus, e serão separados deles totalmente no futuro; ou porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos. Segue: E foi transfigurado diante deles.
São Jerônimo. Pois tal como haverá de ser no tempo do juízo, assim apareceu aos apóstolos. Ninguém pense, porém, que ele perdeu a forma e o rosto de antes, ou que perdeu a verdade do corpo e assumiu um corpo espiritual ou aéreo; mas o Evangelista, mostrando como foi transfigurado, diz: E seu rosto resplandeceu como o sol, e suas vestes se tornaram brancas como a neve. Onde se mostra o esplendor do rosto e se descreve a alvura das vestes, a substância não é suprimida, mas a glória é mudada. Certamente o Senhor foi transformado naquela glória com a qual virá depois em seu reino. A transformação acrescentou esplendor, não retirou o rosto, ainda que o corpo tenha sido espiritual; por isso também as vestes foram mudadas, que foram tão brancas que outro Evangelista disse: quais um lavandeiro sobre a terra não poderia fazer; ora, isso é corporal e está sujeito ao tato, não espiritual e aéreo, que iluda os olhos e seja visto apenas em aparição.
Remígio de Auxerre. Se o rosto do Senhor resplandeceu como o sol, e os santos brilharão como o sol, será porventura igual a claridade do Senhor e a dos servos? De modo algum. Mas, porque nada se encontra mais luminoso que o sol, por isso, para manifestar o exemplo da futura ressurreição, diz-se que o rosto do Senhor resplandece e que os justos brilham como o sol.
Orígenes, in Matth. Misticamente, porém, quando alguém tiver transcendido os seis dias, segundo o que dissemos, vê Jesus transfigurado diante dos olhos de seu coração. Com efeito, o Verbo de Deus tem diversas formas, aparecendo a cada um segundo o que reconhece convir a quem vê; e a ninguém se mostra além do que ele pode captar; por isso não disse simplesmente foi transfigurado, mas diante deles. Pois nos Evangelhos Jesus é entendido simplesmente por aqueles que, pelo estímulo das palavras espirituais, não sobem ao monte elevado da sabedoria; mas àqueles que sobem, já não é conhecido segundo a carne, mas é entendido como Deus Verbo. Diante destes, portanto, Jesus é transfigurado, e não diante daqueles que estão embaixo, vivendo em conduta terrena. Aqueles diante de quem é transfigurado tornaram-se filhos de Deus, e o sol de justiça lhes é mostrado; e suas vestes se tornam brancas como a luz; elas são as palavras e as letras dos Evangelhos, de que Jesus está revestido, segundo aquilo que os apóstolos dizem a seu respeito.
Glosa(séc. XII). Ou as vestes de Cristo significam os santos, dos quais diz Isaías: De todos estes te revestirás como de uma veste; e são comparadas à neve porque serão cândidos pelas virtudes, e todo o ardor dos vícios será afastado deles. Segue: E apareceram-lhes Moisés e Elias, falando com ele.
São João Crisóstomo, in Matth. Isso tem muitas razões. E a primeira é esta: como as multidões diziam que ele era Elias ou Jeremias, ou um dos profetas, leva consigo os chefes dos profetas, para que ao menos daqui se visse a diferença entre os servos e o Senhor. Outra razão é esta: como os judeus continuamente acusavam Jesus de transgressor da lei e de blasfemo, que usurpava para si a glória do Pai, para mostrar que era inocente de ambas as acusações, leva ao meio aqueles que brilharam em ambos os pontos. Pois Moisés deu a lei, e Elias foi zeloso pela glória de Deus. Outra razão é: para que aprendam que ele tem poder sobre a morte e a vida; por isso leva ao meio tanto Moisés, que tinha falecido pela morte, quanto Elias, que ainda não tinha sofrido a morte. O próprio Evangelista revela outra causa, a saber, mostrar a glória da cruz e acalmar Pedro e os outros discípulos, que temiam a paixão: com efeito, falavam, como diz outro Evangelista, do êxodo que ele ia completar em Jerusalém; por isso leva ao meio aqueles que se expuseram à morte pelo que agradava a Deus e pelo povo dos fiéis; pois ambos se apresentaram livremente diante de tiranos: Moisés diante do Faraó, Elias diante de Acab. Leva-os ao meio também por isto: queria que os discípulos tivessem zelo pelos privilégios deles, isto é, que se tornassem mansos como Moisés e zelosos como Elias.
Santo Hilário, in Matth. Quanto ao fato de Moisés e Elias, de entre todo o número dos santos, estarem presentes: Cristo está no reino como que no meio, entre a lei e os profetas; pois com eles julgará Israel, tendo sido por eles, como testemunhas, anunciado.
Orígenes, in Matth. Se alguém compreende também a lei espiritual conforme às palavras de Jesus, e a sabedoria de Cristo escondida nos profetas, este viu Moisés e Elias na glória, juntamente com Jesus.
São Jerônimo. Deve-se considerar também que ele não quis dar sinais do céu aos escribas e fariseus que os pediam; aqui, porém, para aumentar a fé dos apóstolos, dá um sinal do céu: Elias descendo de onde havia subido, e Moisés ressurgindo dos Infernos; o que também foi ordenado a Acaz por meio de Isaías, que pedisse para si um sinal do Inferno ou das alturas.
Orígenes. Que o fervoroso Pedro disse algo, acrescenta-se: Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: Senhor, é bom estarmos aqui. Com efeito, como ouvira que era preciso que ele fosse a Jerusalém, ainda temia por Cristo; mas, depois da repreensão, não ousa dizer de novo: Tem compaixão de ti; mas insinua o mesmo, ocultamente, por outros sinais. Pois, vendo muita quietude e solidão, pensou que ali havia um lugar conveniente para permanecer, pela disposição do local; o que significa dizendo: É bom estarmos aqui. Quer também estar ali sempre; por isso lembra as tendas, dizendo: Se queres, façamos aqui três tendas. Pensou, com efeito, que, se isso acontecesse, ele não subiria a Jerusalém; e, se não subisse, Cristo não morreria: pois sabia que ali os escribas lhe armavam ciladas. Pensava também que Elias estava presente, ele que fez descer fogo no monte, e Moisés, que entrou na nuvem e falou com Deus: assim poderiam esconder-se, de modo que nenhum dos perseguidores soubesse onde estavam.
Remígio de Auxerre. Ou de outro modo. Vista a majestade do Senhor e de dois servos, Pedro deleitou-se a tal ponto que entregou ao esquecimento todas as coisas temporais e quis permanecer ali para sempre. Ora, se Pedro então se inflamou assim, quão grande será a suavidade e a doçura de ver o rei em seu esplendor, e de tomar parte nos coros dos Anjos e de todos os santos? Quanto ao que Pedro diz, Senhor, se queres, mostra a devoção de um servo submisso e obediente.
São Jerônimo. Contudo, erras, Pedro, e, como atesta outro Evangelista, não sabes o que dizes. Não procures três tendas, quando há uma só tenda do Evangelho, na qual a lei e os profetas devem ser recapitulados. Se, porém, procuras três tendas, de modo algum compares os servos com o Senhor; mas faze três tendas, antes, uma só para o Pai, o Filho e o Espírito Santo: para que, daqueles de quem é uma só a divindade, seja uma só a tenda em teu coração.
Remígio de Auxerre. Errou também porque quis que o reino dos eleitos fosse estabelecido na terra, o que o Senhor prometera dar nos céus. Errou também porque se esqueceu de que ele e seus companheiros eram mortais, e quis, sem provar a morte, entrar na felicidade eterna.
Rábano Mauro. E também porque pensou que se deviam fazer tendas para a vida celeste, na qual uma casa não era necessária, pois está escrito: Nela não vi templo.
Mt 17,5-9
5Falava ele ainda, quando veio uma nuvem luminosa e os envolveu. E daquela nuvem fez-se ouvir uma voz que dizia: “Eis o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha afeição; ouvi-o”. 6Ouvindo esta voz, os discípulos caíram com a face por terra e tiveram medo. 7Mas Jesus aproximou-se deles e tocou-os, dizendo: “Levantai-vos e não temais”. 8Eles levantaram os olhos e não viram mais ninguém, senão unicamente Jesus. 9E, quando desciam, Jesus lhes fez esta proibição: “Não conteis a ninguém o que vistes, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos”.
São Jerônimo. Os que procuravam uma tenda carnal, de ramos ou de peles, são cobertos pela sombra de uma nuvem luminosa; por isso se diz: Ainda ele falava, e eis que uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra.
São João Crisóstomo, in Matth. Quando o Senhor ameaça, mostra uma nuvem tenebrosa, como no Sinai; aqui, porém, como não queria aterrorizar, mas ensinar, apareceu uma nuvem luminosa.
Orígenes, in Matth. A nuvem luminosa que cobre os santos com sua sombra é o poder do Pai, ou talvez o Espírito Santo; direi também que nosso Salvador é a nuvem luminosa, que cobre com sua sombra o Evangelho, a lei e os profetas; como entendem os que podem contemplar a luz dele nas coisas já ditas.
São Jerônimo. Mas, porque Pedro havia interrogado imprudentemente, por isso não merece a resposta do Senhor; mas o Pai responde pelo Filho, conforme a palavra do Senhor: O que me enviou, ele mesmo dá testemunho de mim.
São João Crisóstomo, in Matth. E não fala Moisés, nem Elias, mas o Pai, maior que todos, emite a voz da nuvem, para que os discípulos creiam que a voz vinha de Deus. Com efeito, Deus costuma aparecer sempre na nuvem, como está escrito: Nuvem e escuridão estão ao seu redor; e é isto que se diz: E eis uma voz da nuvem.
São Jerônimo. Ouve-se, com efeito, a voz do Pai falando do céu, para dar testemunho do Filho e, removido o erro, ensinar a verdade a Pedro; antes, por meio de Pedro, aos demais apóstolos; por isso acrescenta: Este é o meu Filho amado: a ele se deve fazer a tenda, a ele obedecer; este é o Filho, aqueles são servos; também eles devem preparar convosco, nos recessos de seu coração, uma tenda para o Senhor.
São João Crisóstomo, in Matth. Não temas, pois, Pedro. Se Deus é poderoso, é manifesto que também o Filho é igualmente poderoso; se é amado, não temas: ninguém trai aquele a quem ama, e tu não o amas igualmente ao Genitor. E não o ama apenas porque o gerou, mas porque é de uma só vontade com ele: segue-se, com efeito: em quem me comprazi; como se dissesse: em quem repouso, a quem acolho, porque executa com diligência tudo o que é do Pai, e há uma só vontade dele e do Pai; por isso, ainda que queira ser crucificado, não o contradigas.
Santo Hilário, in Matth. Que este é o Filho, este o amado, este o que lhe agrada, e que também este deve ser ouvido, a voz da nuvem o significa, dizendo: Ouvi-o; isto é, que ele próprio, autor idôneo de tais preceitos, havia confirmado pelo exemplo de seus atos o desprezo do mundo, a vontade da cruz, a morte do corpo e, depois disso, a glória do reino celeste.
Remígio de Auxerre. Diz, pois, ouvi-o, como se dissesse com outras palavras: afastem-se as sombras legais e as figuras dos profetas, e segui somente a luz resplandecente do Evangelho. Ou então disse ouvi-o para mostrar que ele era aquele que Moisés havia predito, dizendo: O Senhor vosso Deus suscitará para vós, dentre vossos irmãos, um profeta como eu; a ele ouvireis. Assim, pois, o Senhor teve testemunhas de todas as partes: do céu, a voz do Pai; do Paraíso, Elias; dos Infernos, Moisés; dos homens, os apóstolos, para que em nome de Jesus se dobre todo joelho, dos celestes, dos terrestres e dos infernais.
Orígenes, in Matth. A voz da nuvem, porém, ou fala a Moisés e a Elias, que desejavam ver o Filho de Deus e ouvi-lo, ou instrui os discípulos.
Glosa. Deve-se notar, porém, que o mistério da segunda regeneração (que será na ressurreição, quando a carne ressuscitará) convém bem com o mistério da primeira, que é no Batismo, onde a alma ressuscita. Com efeito, no Batismo de Cristo foi manifestada a operação de toda a Trindade: ali estava o Filho encarnado, apareceu o Espírito Santo em forma de pomba, e o Pai foi ali declarado pela voz; e do mesmo modo na transfiguração, que é o sacramento da segunda regeneração, apareceu toda a Trindade: o Pai na voz, o Filho no homem, o Espírito Santo na nuvem. Pergunta-se, porém, por que o Espírito Santo foi declarado ali na pomba e aqui na nuvem. É que costuma declarar seus dons por meio de figuras. No Batismo dá a inocência, que é designada pela ave da simplicidade. Dará, porém, a claridade e o refrigério na ressurreição; por isso, na nuvem é designado o refrigério, e no fulgor da nuvem, a claridade dos corpos que ressuscitarão. Segue-se: Ouvindo isso, os discípulos caíram com o rosto em terra e tiveram muito medo.
São Jerônimo. Por três causas, porém, são tomados de pavor: ou porque reconheciam que haviam errado, ou porque a nuvem luminosa os havia coberto, ou porque tinham ouvido a voz de Deus Pai falando; com efeito, a fragilidade humana não suporta ver uma glória maior e, tremendo de espírito e de corpo, cai por terra; pois quanto mais alguém houver buscado coisas mais elevadas, tanto mais desaba para as inferiores, se ignorar a sua medida.
Remígio de Auxerre. Quanto ao fato de os santos apóstolos terem caído com o rosto em terra, foi indício de santidade, porque se diz que os santos caem de rosto, mas os ímpios, para trás.
São João Crisóstomo, in Matth. Mas, se antes, no Batismo de Cristo, quando também uma tal voz foi enviada do céu, ninguém da multidão que estava presente sofreu algo semelhante, como é que os discípulos caíram no monte? Porque, evidentemente, havia muita solidão, altura e silêncio, e a transfiguração era cheia de estupor, e a luz era pura, e a nuvem estendida; de tudo isso se acumulava neles o estupor.
São Jerônimo. Como, porém, eles jaziam e não podiam levantar-se, ele mesmo se aproxima com clemência e os toca, para que pelo toque afugente o temor e os membros debilitados se firmem; e é isto que se diz: Jesus aproximou-se e tocou-os. Aqueles que havia curado com a mão, curou também com o comando; por isso segue: E disse-lhes: Levantai-vos, e não tenhais medo. Primeiro se expulsa o temor, para que depois se dê a doutrina. Segue-se: Levantando os olhos, não viram ninguém, a não ser somente Jesus. Isso foi feito com razão, para que, se Moisés e Elias tivessem permanecido com o Senhor, a voz do Pai não parecesse incerta quanto a quem daria testemunho de modo principal. Veem também Jesus de pé, removida a nuvem, e Moisés e Elias desvanecidos, porque, depois que a sombra da lei e dos profetas se afastou, ambos se encontram no Evangelho. Segue-se: Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes: Não conteis a ninguém esta visão, até que o Filho do Homem ressuscite dentre os mortos. Não quer, pois, que seja pregada aos povos, para que não fosse também incrível, pela grandeza do fato, e para que, depois de tão grande glória, a cruz que se seguiria não causasse escândalo entre espíritos rudes.
Remígio de Auxerre. Ou porque, se a sua majestade fosse divulgada entre o povo, os povos impediriam a dispensação de sua paixão, resistindo aos príncipes dos sacerdotes, e assim a redenção do gênero humano seria retardada.
Santo Hilário, in Matth. Impõe também silêncio sobre os fatos que tinham visto, para que, quando estivessem cheios do Espírito Santo, fossem então testemunhas dos fatos espirituais.
Mt 17,10-13
10Em seguida, os discípulos o interrogaram: “Por que dizem os escribas que Elias deve voltar primeiro?”. 11Jesus respondeu-lhes: “Elias, de fato, deve voltar e restabelecer todas as coisas. 12Mas eu vos digo que Elias já veio, mas não o conheceram; antes, fizeram com ele quanto quiseram. Do mesmo modo farão sofrer o Filho do Homem”. 13Os discípulos compreenderam, então, que ele lhes falava de João Batista.
São Jerônimo. É tradição dos fariseus, segundo o profeta Malaquias, que Elias venha antes da vinda do Salvador, e reconduza o coração dos pais aos filhos e o dos filhos aos pais, e restitua todas as coisas ao seu antigo estado. Os discípulos julgam, pois, que esta transformação de glória que tinham visto no monte era essa; e por isso se diz: Os discípulos interrogaram-no, dizendo: Por que, então, dizem os escribas que é necessário que Elias venha primeiro? Como se dissessem: se já vieste em glória, como não aparece o teu precursor? Dizem isso sobretudo porque tinham visto Elias retirar-se.
São João Crisóstomo, in Matth. Os discípulos, porém, não conheciam pelas Escrituras a vinda de Elias; os escribas é que lha manifestavam, e este discurso corria entre a plebe indouta, como também a respeito de Cristo. Os escribas, porém, não interpretavam como convinha a vinda de Cristo e de Elias. Com efeito, as Escrituras dão duas vindas de Cristo: aquela que já se deu e aquela que há de ser. Mas os escribas, pervertendo a plebe, lembravam-lhe somente a segunda vinda, e diziam que, se este é o Cristo, era necessário que Elias viesse antes. Eis, pois, a solução que Cristo apresenta. Segue-se: Ele, respondendo, disse: Elias, de fato, há de vir e restabelecerá todas as coisas. Digo-vos, porém, que Elias já veio. Não julgues que ele errou no discurso se umas vezes diz que Elias há de vir e outras que veio: quando diz que Elias há de vir e restaurará todas as coisas, fala do próprio Elias em pessoa; este restaurará todas as coisas quando corrigir a infidelidade dos judeus que então se encontrarem, o que é converter os corações dos pais aos filhos, isto é, dos judeus aos apóstolos.
Santo Agostinho, de quaest. Evang(séc. IV–V). Ou restituirá todas as coisas, isto é, aqueles que a perseguição do Anticristo tiver perturbado; ou para que ele mesmo restitua, morrendo, aquilo que deve.
São João Crisóstomo, in Matth. Se, porém, tantos bens haverão de vir da presença de Elias, por que não o enviou então? Diremos que também então, julgando que Cristo era Elias, não creram nele. Mas então crerão em Elias, porque, vindo depois de tão grande expectativa, anunciando Jesus, receberão mais facilmente o que por ele for dito. Quando, porém, diz que Elias já veio, chama João de Elias pelo modo do ministério: assim como Elias será o precursor da segunda vinda, assim João foi feito precursor da primeira. Por isso chama João de Elias: para mostrar que sua primeira vinda convém ao Antigo Testamento e à profecia.
São Jerônimo. Aquele, pois, que há de vir na segunda vinda do Salvador, segundo a realidade do corpo, veio agora por João, em virtude e espírito. Segue-se: E não o reconheceram, mas fizeram com ele tudo o que quiseram, isto é, desprezaram-no e decapitaram-no.
Santo Hilário, in Matth. Para que, anunciando a vinda do Senhor, precedesse também a sua paixão, com o exemplo de injúria e de vexame; por isso segue: Assim também o Filho do Homem há de padecer da parte deles.
São João Crisóstomo, in Matth. Nisso, oportunamente recorda a sua paixão a partir da paixão de João, oferecendo-lhes grande consolação.
São Jerônimo. Pergunta-se, pois, como, tendo Herodes e Herodíades matado João, se diz que eles também crucificaram Jesus, quando lemos que ele foi morto pelos escribas e fariseus. E deve-se responder brevemente que a facção dos fariseus consentiu na morte de João; e na morte do Senhor Herodes uniu a sua vontade, ele que, depois de o escarnecer e desprezar, o enviou de volta a Pilatos para que o crucificasse.
Rábano Mauro. Pelo indício, porém, de sua paixão, que o Senhor lhes predisse com frequência, e da de seu precursor, que já viam consumada, os discípulos reconheciam que João lhes fora indicado sob o nome de Elias; donde se segue: Então os discípulos compreenderam que lhes falara de João Batista.
Orígenes, in Matth. Quanto ao que disse: Por causa de João, Elias já veio, não se deve entender a alma de Elias, para não cairmos no dogma da transcorporação, que é alheio à verdade eclesiástica; mas, como o Anjo predisse: Virá no espírito e no poder de Elias.
Mt 17,14-18
14E, quando eles se reuniram ao povo, um homem aproximou-se deles e prostrou-se diante de Jesus, 15dizendo: “Senhor, tem piedade de meu filho, porque é lunático e sofre muito: ora cai no fogo, ora na água... 16Já o apresentei a teus discípulos, mas eles não o puderam curar”. 17Respondeu Jesus: “Raça incrédula e perversa, até quando estarei convosco? Até quando hei de aturar-vos? Trazei-mo”. 18Jesus ameaçou o demônio e este saiu do menino, que ficou curado na mesma hora.
Orígenes, in Matth. Pedro, desejando aquela vida admirável e antepondo a sua utilidade à utilidade de muitos, dizia: É bom estarmos aqui. Mas, como a caridade não busca o que é seu, aquilo que parecia bom a Pedro, Jesus não o fez; antes, como do alto monte da divindade, desceu até a multidão, para ser proveitoso àqueles que, por causa da fraqueza de suas almas, não podiam subir; donde se diz: E, tendo chegado à multidão; pois, se não tivesse chegado à multidão com seus discípulos escolhidos, não se teria aproximado dele aquele de quem se acrescenta: Aproximou-se dele um homem, que se pôs de joelhos diante dele, dizendo: Senhor, tem piedade de meu filho. Aqui se deve considerar que às vezes os que sofrem creem e rogam por sua própria saúde; outras vezes, porém, outros o fazem por eles: como agora aquele que se ajoelha pede pelo filho; outras vezes, ainda, o Salvador, por si mesmo, sem ser rogado por ninguém, cura. Mas busquemos primeiro o que significa o que se segue: É lunático e sofre muito. Os médicos, pois, dizem o que querem: porque não julgam que seja um espírito imundo, mas alguma afecção corporal; e dizem que os humores da cabeça se movem, por certa simpatia, conforme a luz lunar, que tem natureza úmida. Nós, porém, que cremos no Evangelho, diremos que esta afecção é obra de um espírito imundo nos homens. Ele observa, com efeito, certas configurações da lua, e assim opera, de modo a fazer crer que os homens sofrem pela observação da lua, e por isso mostrar culpável a criatura de Deus; assim também outros Demônios, segundo certas configurações das estrelas, armam ciladas aos homens, para que falem iniquidade nas alturas, dizendo que algumas estrelas são maléficas e outras benéficas: quando nenhuma estrela foi feita por Deus para fazer o mal. Quanto ao que se acrescenta: Pois muitas vezes cai no fogo e frequentemente na água.
São João Crisóstomo, in Matth. Deve-se considerar que, se este homem não tivesse sido protegido pela providência, teria perecido há muito: pois o Demônio, que o lançava no fogo e na água, tê-lo-ia matado de todo, se Deus não o tivesse refreado.
São Jerônimo. Quanto ao que diz: E eu o apresentei a teus discípulos, e eles não puderam curá-lo, acusa veladamente os apóstolos: embora a impossibilidade de curar às vezes se atribua não à fraqueza dos que curam, mas à fé daqueles que devem ser curados.
São João Crisóstomo, in Matth. Considera também, por outro lado, a insensatez dele, como interpela Jesus diante da multidão contra os discípulos. Mas ele os livra da acusação, imputando àquele a falta da cura: por muitos sinais se mostra, com efeito, que ele era fraco na fé. Contudo, não investe somente contra a pessoa dele, para não o perturbar, mas contra todos os judeus. É provável, de fato, que muitos dos presentes tivessem pensamentos inconvenientes sobre os discípulos; e por isso se segue: Respondendo, Jesus disse: Ó geração incrédula e perversa, até quando estarei convosco? Até quando vos suportarei? Pelo que diz: Até quando estarei convosco?, mostra que ele desejava a morte e ansiava pela partida.
Remígio de Auxerre. Deve-se saber também que o Senhor não começara a suportar a maldade dos judeus somente então, mas desde muito tempo antes; e por isso diz aqui: Até quando vos suportarei? Como se dissesse: porque há muito tempo comecei a suportar as vossas maldades, sois por isso indignos da minha presença.
Orígenes, in Matth. Ou então, porque os discípulos não puderam curá-lo, como ainda estabelecidos em pouca fé, por isso disse: Ó geração incrédula; e ao dizer perversa, mostra que da perversidade foi introduzida a malícia, fora da natureza. Penso, porém, que, por causa da perversidade de todo o gênero humano, como que oprimido pela malícia deles, disse: Até quando estarei convosco?
São Jerônimo. Não se deve crer, porém, que tenha sido vencido pelo tédio, e que o manso e brando tenha irrompido em palavras de furor; mas que, à semelhança de um médico que, vendo o doente agir contra as suas prescrições, dissesse: Até quando subirei à tua casa? Até quando perderei a diligência da arte, ordenando eu uma coisa e fazendo tu outra? Que ele não se irritou contra o homem, mas contra o vício, e que por um só homem acusa de infidelidade os judeus, evidencia-se pelo que acrescenta: Trazei-o aqui a mim.
São João Crisóstomo, in Matth. Depois, com efeito, de ter desculpado os discípulos, conduz o pai do menino à benigna esperança de crer que será libertado deste mal; e, para que o pai fosse levado à fé no milagre futuro, vendo o Demônio sofrer tumulto apenas por ser chamado, repreendeu-o; donde se segue: E Jesus o repreendeu. Não é repreendido aquele que sofria, mas o Demônio.
Remígio de Auxerre. Neste fato deixou exemplo aos pregadores, para que persigam os vícios, mas socorram os homens.
São Jerônimo. Ou então repreendeu o menino, porque por seus pecados fora oprimido pelo Demônio. Segue-se: E o Demônio saiu dele, e o menino ficou curado desde aquela hora.
Rábano Mauro. A mim, porém, parece, segundo a tropologia, que lunático é aquele que, de hora em hora, se muda para os vícios; e ora é levado ao fogo, com que se inflamam os corações dos adúlteros, ora às águas, isto é, dos prazeres ou das cobiças, que não conseguem extinguir a caridade.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Ou o fogo se refere à ira, porque busca as alturas; a água, aos prazeres da carne.
Orígenes, in Matth. Da inconstância do pecador, porém, diz-se: o tolo muda como a lua. E pode-se ver em tais pessoas certos ímpetos de boas obras que, por assim dizer, se insinuam; mas às vezes, como que por um arrebatamento do espírito, são tomados pelas paixões e caem do bom estado em que se julgava que estavam firmes. Talvez, pois, o Anjo que recebeu em sorte a guarda deste lunático seja chamado seu pai, suplicando ao médico das almas, como por um filho, que liberte aquele que não pode ser curado de sua paixão pela palavra humilde dos discípulos de Cristo, porque, como um surdo, não recebe a advertência deles; e por isso lhe é necessária a palavra de Cristo, para que daqui em diante não proceda mais sem razão.
Mt 17,19-21
19Então, os discípulos lhe perguntaram em particular: “Por que não pudemos nós expulsar esse demônio?”. 20Jesus respondeu-lhes: “Por causa de vossa falta de fé. Em verdade vos digo: se tiverdes fé, como um grão de mostarda, direis a esta montanha: Transporta-te daqui para lá, e ela irá; e nada vos será impossível. 21Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum”.
São João Crisóstomo, in Matth. Os discípulos haviam recebido do Senhor o poder sobre os espíritos imundos; e, como não puderam curar o endemoninhado que lhes fora trazido, parece que caíram em dúvida, receando ter perdido a graça que lhes fora dada; e por isso diz: Então os discípulos aproximaram-se de Jesus em particular e disseram: Por que não pudemos nós expulsá-lo? Interrogam-no, de fato, em particular, não por vergonha, mas porque iam interrogá-lo sobre uma coisa inefável e grande. Segue-se: Jesus lhes disse: Por causa da vossa incredulidade.
Santo Hilário, in Matth. Os apóstolos já haviam crido, mas ainda não tinham fé perfeita; pois, enquanto o Senhor se demorava no monte e eles ficavam com as multidões, certa tibieza havia retardado a sua fé.
São João Crisóstomo, in Matth. Daí fica claro que também os discípulos se enfraqueceram na fé, mas não todos; pois aquelas colunas não estavam presentes, isto é, Pedro, Tiago e João.
São Jerônimo. É isto, aliás, o que o Senhor diz em outro lugar: Tudo o que pedirdes em meu nome, crendo, recebereis. Portanto, todas as vezes que não recebemos, a impossibilidade não é de quem concede, mas a culpa é dos que pedem.
São João Crisóstomo, in Matth. Deve-se saber, contudo, que, assim como muitas vezes a fé de quem se aproxima basta para alcançar o efeito do milagre, assim também muitas vezes basta a virtude dos que fazem os milagres, mesmo que não creiam aqueles que pediram que os milagres fossem operados: com efeito, os que estavam com Cornélio atraíram a graça do Espírito Santo por sua própria fé; já aquele morto que foi lançado no sepulcro de Eliseu ressuscitou somente pela virtude do corpo santo. Aconteceu então também que os discípulos se enfraqueceram na fé: estavam, com efeito, menos perfeitamente dispostos antes da cruz; e por isso diz que a fé é aqui a causa dos sinais; donde se acrescenta: Em verdade vos digo: se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para lá, e ele passará.
São Jerônimo. Alguns pensam que a fé comparada ao grão de mostarda é chamada pequena, quando o Apóstolo diz: Ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas. Grande é, portanto, a fé que se compara ao grão de mostarda.
São Gregório Magno(séc. VI). O grão de mostarda, com efeito, se não é triturado, de modo algum se reconhece a sua força; assim, se a trituração da perseguição oprime um homem santo, logo se converte em ardor de virtude tudo o que nele antes parecia desprezível e fraco.
Orígenes, in Matth. Ou toda fé é comparada ao grão de mostarda porque a fé é desprezada pelos homens e parece algo pequeno e vil; mas quando uma semente desta espécie encontra uma alma boa como terra, torna-se uma grande árvore. Assim também é grande a mencionada enfermidade do lunático, e forte para ser curada entre todos os males, de modo que se assemelha a um monte e só é expulsa por toda a fé daquele que quiser sanar paixões desta espécie.
São João Crisóstomo, in Matth. Por isso faz menção também da transferência de montes e vai além, dizendo: e nada vos será impossível.
Rábano Mauro. Assim, com efeito, a fé torna a nossa mente capaz dos dons celestes, de modo que possamos obter com toda facilidade do Senhor fiel tudo o que quisermos.
São João Crisóstomo, in Matth. Se, porém, disseres: onde os apóstolos transferiram montes? Direi isto: fizeram coisas muito maiores, ressuscitando muitíssimos mortos. Diz-se, ademais, que depois dos apóstolos alguns santos, menores que os apóstolos, transferiram montes, quando a necessidade urgia. Se, porém, no tempo dos apóstolos não foram transferidos montes, isso não foi porque não puderam, mas porque não quiseram, não urgindo a utilidade. Nem o Senhor disse que o fariam, mas que o poderiam fazer. É provável, contudo, que isso tenha sido feito, mas não está escrito; pois nem todos os milagres que fizeram foram escritos.
São Jerônimo. Ou a transferência do monte não se refere àquele que vemos com os olhos da carne, mas àquele que fora transferido pelo Senhor do lunático, o qual é dito pelo profeta corromper toda a terra.
Glosa. Seja este o sentido: direis a este monte, isto é, ao soberbo Diabo: Passa daqui, isto é, do corpo possuído, para o alto-mar, isto é, para o profundo do Inferno, e ele passará; e nada vos será impossível, isto é, nenhuma enfermidade incurável.
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Ou de outro modo. Para que os discípulos, ao fazerem milagres, não se exaltassem em soberba, foram antes advertidos, pela humildade da fé, como por um grão de mostarda, a curar e transferir a elevação terrena, que foi significada pelo nome de monte.
Rábano Mauro. Ao ensinar, porém, aos apóstolos como o demônio deve ser expulso, instrui a todos para a vida: a saber, para que saibamos que quaisquer tentações mais graves, seja dos espíritos impuros, seja dos homens, devem ser superadas com jejuns e orações, e que também a ira do Senhor pode ser aplacada por este remédio singular; por isso acrescenta: Esta espécie não se expulsa senão pela oração e pelo jejum.
São João Crisóstomo, in Matth. Isto ele diz não somente a respeito da espécie dos lunáticos, mas de toda a espécie dos demônios. Com efeito, o jejum confere muita sabedoria, constitui o homem como um anjo do céu e combate as potestades incorpóreas. Mas também é preciso a oração, como o mais principal. Pois quem ora como convém e jejua não necessita de muitas coisas; e assim não se torna avarento, mas está pronto para a esmola. Quem também jejua é leve, ora com vigilância, extingue as concupiscências perniciosas, torna Deus propício e humilha a alma soberba. Quem, portanto, ora com jejum tem asas duplas, mais leves até que os próprios ventos. Pois nem boceja nem se entorpece ao orar (o que também muitos sofrem); mas é mais veemente que o fogo e mais firme que a terra; e por isso tal pessoa se opõe sobretudo aos demônios; pois nada é mais poderoso que o homem que ora devidamente. Se, porém, tens o corpo fraco para jejuar continuamente, não o tens para orar; e se não podes jejuar, podes, no entanto, não ser dissoluto. Ora, isso não é pouco, nem muito distante do jejum.
Orígenes, in Matth. Se, portanto, alguma vez for necessário que perseveremos no tratamento de pessoas que padecem de tal mal, não conjuremos, nem interroguemos, nem falemos como a um espírito impuro que ouve; mas afugentemos os espíritos malignos com nossos jejuns e orações.
Glosa. Ou: esta espécie de demônio, isto é, esta inconstância dos prazeres carnais, não é vencida a não ser que o espírito se fortaleça pela oração e a carne seja macerada pelo jejum.
Remígio de Auxerre. Ou o jejum aqui se entende em sentido geral, pelo qual nos abstemos não só dos alimentos, mas de todos os atrativos carnais e das paixões dos pecados. Semelhantemente, a oração deve ser entendida em sentido geral, a que consiste em obras piedosas e boas, da qual diz o Apóstolo: Orai sem cessar.
Mt 17,22-23
22Enquanto caminhava pela Galileia, Jesus lhes disse: “O Filho do Homem deve ser entregue nas mãos dos homens. 23Eles irão matá-lo, mas ao terceiro dia ressuscitará.” E eles ficaram profundamente aflitos.
Remígio de Auxerre. Muitas vezes o Senhor predisse aos discípulos os mistérios de sua paixão, para que, quando acontecessem, os suportassem tanto mais levemente quanto mais os tivessem conhecido de antemão; e por isso aqui se diz: Estando eles reunidos na Galileia, Jesus lhes disse: O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens, e o matarão.
Orígenes, in Matth. Estas palavras parecem semelhantes às que ele havia dito acima, de modo que facilmente alguém diria que o Senhor repete as mesmas coisas; mas não é assim; pois acima não se disse que seria entregue; aqui, porém, ouvimos não só que seria entregue, mas entregue nas mãos dos homens. O Apóstolo narra, portanto, que o Filho foi entregue por Deus Pai; mas também as potestades contrárias o entregaram nas mãos dos homens.
São Jerônimo. Sempre, porém, mistura o triste ao próspero: pois se os entristece por ter de ser morto, deve alegrá-los o que se acrescenta: e ao terceiro dia ressuscitará.
São João Crisóstomo, in Matth. Com efeito, não disse que por muito tempo permaneceria na morte; mas disse que ressuscitaria ao terceiro dia.
Orígenes, in Matth. Ao predizer o Senhor estas coisas, os discípulos se entristeceram; por isso segue: e ficaram muito tristes, não atentando para o que ele dissera: e ao terceiro dia ressuscitará, nem considerando quem era aquele a quem bastaria o tempo de três dias para destruir a morte.
São Jerônimo. Além disso, o fato de se entristecerem muito não vinha de infidelidade, mas do amor ao Mestre: não suportam ouvir dele nada de sinistro e humilde.
Mt 17,24-27
24Logo que chegaram a Cafarnaum, aqueles que cobravam o imposto da didracma aproximaram-se de Pedro e lhe perguntaram: “Teu mestre não paga a didracma?”.* – 25“Paga, sim” – respondeu Pedro. Mas quando chegaram à casa, Jesus preveniu-o, dizendo: “Que te parece, Simão? Os reis da terra, de quem recebem os tributos ou os impostos? De seus filhos ou dos estrangeiros?” 26Pedro respondeu: “Dos estrangeiros”. Jesus replicou: “Os filhos, então, estão isentos. 27Mas não convém escandalizá-los. Vai ao mar, lança o anzol, e ao primeiro peixe que pegares, abrirás a boca e encontrarás um estater. Toma-o e dá-o por mim e por ti”.
Glosa. Porque os discípulos estavam entristecidos por terem ouvido a paixão do Senhor, a fim de que ninguém atribuísse a paixão de Cristo à necessidade, e não à humildade, acrescenta um fato no qual se mostram a liberdade e a humildade de Cristo; por isso se diz: E, tendo chegado a Cafarnaum, aproximaram-se de Pedro os que cobravam o didracma e lhe disseram: Vosso mestre não paga o didracma?
Santo Hilário, in Matth. Pede-se ao Senhor que pague o didracma, isto é, denários: pois a lei o havia estabelecido para todo Israel, pela redenção do corpo e da alma, para os que serviam no ministério do templo.
São João Crisóstomo, in Matth. Com efeito, quando Deus matou os primogênitos dos egípcios, tomou então para si a tribo de Levi em lugar deles. Depois, como o número desta tribo era menor que o dos primogênitos que havia entre os judeus, mandou que se pagasse um siclo pelos que faltavam ao número, e desde então prevaleceu o costume de que os primogênitos pagassem este tributo. Visto, portanto, que Cristo era primogênito, e que Pedro parecia ser o primeiro dos discípulos, aproximam-se dele. E, ao que me parece, não exigiam isso em cada cidade; e por isso vão a Cristo em Cafarnaum, porque esta era considerada a sua pátria.
São Jerônimo. Ou de outro modo. Depois de César Augusto, a Judeia tornou-se tributária, e todos eram recenseados por cabeça: por isso também José, com Maria, sua parenta, se registrou em Belém. Por outro lado, como o Senhor fora criado em Nazaré, que é uma cidade da Galileia sujeita à cidade de Cafarnaum, ali se exige o tributo; e, pela grandeza dos sinais, os que cobravam não ousavam interpelá-lo, mas procuram o discípulo
São João Crisóstomo, in Matth. E nem a este falam com muita veemência, mas com mais mansidão: pois não o acusando, mas perguntando, disseram: O vosso mestre não paga o didracma?
São Jerônimo. Ou perguntam com malícia se paga os tributos, ou se contradiz a vontade de César
São João Crisóstomo, in Matth. Que fez, pois, Pedro? Diz: Sim. E a eles, de fato, disse que paga; mas a Cristo não disse, envergonhando-se talvez de falar-lhe em favor deles
Glosa. Ou de outro modo. E Pedro respondeu Sim; isto é, é assim, ele não paga. Pedro quis, porém, avisar o Senhor de que os herodianos pediam o tributo; mas o Senhor antecipou-se a ele: por isso se segue: E tendo entrado em casa, Jesus antecipou-se a ele, dizendo: Os reis da terra, de quem recebem tributo ou censo, isto é, a renda por cabeça, de seus filhos ou dos estranhos?
São Jerônimo. Antes mesmo que Pedro o sugira, o Senhor pergunta, para que os discípulos não se escandalizem com o pedido de tributo, vendo que ele conhece o que se passou na sua ausência. Segue-se: Ele disse: Dos estranhos. Disse-lhe Jesus: Logo, os filhos são livres
Orígenes, in Matth. Esta palavra tem duplo sentido. Segundo um, os filhos dos reis da terra são livres junto dos reis da terra; mas os estranhos, fora da terra, não são livres, por causa daqueles que os oprimem, como os egípcios oprimiam os filhos de Israel. Segundo o outro, por isso mesmo que alguns são estranhos aos filhos dos reis da terra, mas são filhos de Deus, são livres os que permanecem nas palavras de Jesus, e conheceram a verdade, e a verdade os libertou da servidão do pecado. Já os filhos dos reis da terra não são livres; porque quem comete o pecado é servo do pecado
São Jerônimo. Ora, o nosso Senhor era filho de rei, tanto segundo a carne como segundo o espírito: ou gerado da estirpe de Davi, ou Verbo do Pai onipotente; logo, como filho de rei, não devia tributos
Santo Agostinho, de quaest. Evang. Diz, com efeito, que em todo reino os filhos são livres, isto é, não são sujeitos a tributo. Muito mais, portanto, devem ser livres, em qualquer reino terreno, os filhos do reino daquele sob o qual estão todos os reinos terrenos
São João Crisóstomo, in Matth. Se, porém, não era filho, introduziu em vão este exemplo. Mas dirá alguém: é filho, mas não próprio; é, portanto, estranho; e este exemplo não tem verdade: pois ele disputa sobre os filhos próprios, em contraposição aos quais chama estranhos os que não nasceram dos pais segundo a substância. Considera, porém, como também daqui Cristo confirma aquele conhecimento que foi revelado a Pedro por Deus, pelo qual disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo
São Jerônimo. Embora, pois, fosse livre, como assumira a humildade da carne, devia cumprir toda justiça: por isso se segue: Mas, para que não os escandalizemos, vai ao mar
Orígenes, in Matth. É consequente também entender que, sempre que se levantam alguns que, em nome da justiça, tiram os nossos bens terrenos, os reis desta terra os enviam para exigir de nós o que lhes pertence; e com o seu exemplo o Senhor proíbe que se dê algum escândalo mesmo a homens desse tipo, seja para que não pequem mais, seja para que sejam salvos. Pois o Filho de Deus, que não fez nenhuma obra servil, como quem tem a forma de servo, que assumiu por causa do homem, deu tributo e censo
São Jerônimo. Não sei o que admirar primeiro neste lugar: se a presciência, ou a grandeza do Salvador: a presciência, porque sabia que o peixe tinha um estáter na boca, e que seria ele o primeiro a ser pescado; a grandeza e o poder, se à sua palavra um estáter foi criado na boca do peixe; e o que haveria de ser, ele mesmo o fez falando. Cristo mesmo, portanto, por sua excelente caridade, tanto suportou a cruz como pagou os tributos: nós, infelizes, que somos chamados pelo nome de Cristo, e nada fazemos digno de tão grande majestade: em honra dele nem pagamos os tributos, e, como filhos do rei, somos isentos de impostos. Isto também, entendido simplesmente, edifica o ouvinte, ao ouvir que o Senhor era de tão grande pobreza que não tinha de onde pagar o tributo por si e pelo apóstolo. E se alguém quiser objetar como Judas levava dinheiro nas bolsas, responderemos: considerou ímpio converter em uso próprio o bem dos pobres, e nos deu o mesmo exemplo
São João Crisóstomo, in Matth. Ou por isso manda dar não do que estava guardado, para mostrar que domina o mar e os peixes
Orígenes, in Matth. Ou porque Jesus não tinha a imagem de César (pois o príncipe deste mundo nada tinha nele), por isso recebeu a imagem de César não do que era seu, mas do mar. Ele, porém, não tomou o estáter, nem o fez posse sua, para que a imagem de César não esteja um dia junto à imagem do Deus invisível. Vê também a prudência de Cristo: como nem reteve o tributo, nem simplesmente manda dá-lo; mas primeiro mostra que não está obrigado, e então dá: dessas duas coisas, uma fez, a saber, dar o tributo, para que aqueles, isto é, os cobradores, não se escandalizem; a outra, a saber, mostrar-se livre, para que os discípulos não se escandalizem. Em outro lugar, porém, despreza o escândalo dos fariseus, quando discutiam sobre os alimentos; ensinando-nos a saber os tempos em que convém não desprezar os que se escandalizam, e aqueles em que convém desprezá-los
São Gregório Magno, super Ezech(séc. VI). Deve-se considerar, pois, que, na medida em que podemos sem pecado, devemos evitar o escândalo dos próximos. Mas se o escândalo é tomado da verdade, é mais útil permitir que nasça o escândalo do que abandonar a verdade.
São João Crisóstomo, in Matth. Assim como te admiras do poder de Cristo, admira também a fé de Pedro, porque obedeceu a algo tão difícil. E por isso, recompensando-o pela fé, uniu-o a si no pagamento do tributo, o que foi de abundante honra; e é isto que se diz: encontrarás um estáter: toma-o e dá-o a eles por mim e por ti.
Glosa. Com efeito, era costume que cada um pagasse por si um didracma. O estáter, porém, é o peso de dois didracmas.
Orígenes, in Matth. Misticamente, porém, no campo da consolação (pois assim se interpreta Cafarnaum), consola todo discípulo, declara que o filho é livre e dá-lhe o poder de pescar o primeiro peixe, para que, subindo ele, Pedro receba consolação sobre aquele que pescou.
Santo Hilário, in Matth. Quando Pedro é advertido a procurar o primeiro peixe, mostra-se que também muitos outros hão de subir. Bem-aventurado aquele primeiro mártir, Estêvão, que subiu primeiro e reteve o estáter na boca; nele, o didracma da nova pregação era tido como dois denários: pois, contemplando na paixão a glória de Deus e o Senhor Cristo, pregava.
São Jerônimo. Ou: este peixe, o primeiro capturado, é o primeiro Adão, que é libertado pelo segundo Adão; e o que foi encontrado em sua boca, isto é, na confissão, é entregue por Pedro e pelo Senhor.
Orígenes. Quando também vires um homem avarento corrigido por algum Pedro, que lhe tirou da boca a palavra do dinheiro, dirás que ele subiu do mar, isto é, das ondas das preocupações da avareza, ao anzol racional; e foi apanhado e salvo por algum Pedro, que lhe ensinou a verdade, para que, em lugar do estáter, tenha a imagem de Deus, isto é, as suas palavras.
São Jerônimo. E belamente é dado esse mesmo preço, mas dividido: porque por Pedro, como por um pecador, o preço era pago; o nosso Senhor, porém, não cometeu pecado. Mostra-se, contudo, a semelhança da carne, enquanto pelo mesmo preço são libertados o Senhor e o servo.